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Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Chapter 4: Capella dos Castros
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About This Book

O autor empreende passeios pelas imediações de Lisboa, oferecendo descrições topográficas e arqueológicas de igrejas, mosteiros, sepulturas e fontes, identificando estatuária, inscrições e azulejaria, e anotando transformações arquitectónicas e achados antigos. O texto combina observações de paisagem e clima com pequenas histórias locais, reconstruções de memoriais e comentários sobre restauros e deslocações de monumentos, além de recordações pessoais de companheiros de estudo e reflexões sobre erudição regional. A narrativa alterna descrições pitorescas com notas históricas e críticas, formando um guia de curiosidades e património suburbano.

S. Domingos de Bemfica


(1905)

Na falda norte da serra de Monsanto está o logar de S. Domingos de Bemfica; um antigo mosteiro em parte abandonado, rodeado de quintas fidalgas com seus palacios, jardins, cascatas e alamedas de secular arvoredo; e uma pinha de pequeninos predios antigos a entestar com o maninho da serra.

O nome de Monsanto feriu-me a attenção e procurei se por aquelles sitios haveria vestigios de templo ou edificio de remota antiguidade, tão raros no aro da capital. No meu segundo passeio deparei um grande marmore lavrado, provavelmente parte superior de uma ara romana, encostado á parede da quinta do sr. marquez de Fronteira.

Ha duvidas todavia sobre a proveniencia da pedra; julga-se não ter sido encontrada alli, sim na Ribeira velha, no antigo palacio Fronteira, por occasião de certas obras; e removida para Bemfica ha uns 40 annos.

O achado incitou-me a continuar na indagação, e num pittoresco retiro agora mal tratado da cerca monastica fui encontrar uma estatua que parece de arte romana; é na fonte do satyro, que fr. Luis de Sousa descreve na chronica do seu convento.

O celebre dominicano já conheceu a estatua e a fonte na disposição actual; lá estão ainda as cinco ardosias, duas quadradas e tres ellipticas, com o lettreiro latino, que elle tambem menciona.

Póde affirmar-se que o logar está qual estava então, apenas descurado. Ora os estragos que a estatua apresenta não teem explicação facil na posição actual. O satyro nada tem da rudeza gothica, nem das imitações classicas da renascença. O rosto apesar de muito gasto ainda tem singular expressão de alegria; segurava nas mãos uma taça ou urna que depois mutilaram para collocar uma torneira. Na cabeça e nas coxas grandes madeixas ondeadas; os musculos bem estudados nos hombros e braços. Parece uma estatua romana.

Junto da fonte estão avulsas algumas pedras lavradas, dois fechos de abobada com a esphera de D. Manuel e a cruz de Christo, parte de um friso e dois pelouros medianos.

É um encanto aquelle sitio de S. Domingos; o terreiro com seu antigo arvoredo dispõe bem o visitante da egreja, uma pobre egreja que é um ninho de recordações portuguezas.

Entrando, á esquerda, o sarcophago de «Vasco Martins da Albergaria, cavalleiro fidalgo da casa do sr. infante D. Henrique e seu camareiro mór, filho de Affonso Lopes da Albergaria, o qual passou da vida deste mundo das feridas que houve na tomada e no descerco de Ceuta aos... dias do mez de dezembro da era de Jesus Christo, de 1436 annos».

É um pequeno sarcophago de tampa alta; o letreiro na facha anterior da tampa e da arca. No meio o brazão com a cruz de Aviz sanguinha, aberta e floreteada, com oito escudetes azues das quinas reaes. Aos lados do escudo uma fita em relevo onde se lê a divisa porêm vede bem.

Á direita o tumulo de João das Regras, encimado pela estatua onde evidentemente o esculptor quiz reproduzir o aspecto do famoso jurisconsulto. Tem barrete e habito de lettrado; a gola larga segura por tres botões. Na mão direita sobre o peito segura um livro. Os cabellos um tanto ondeados cahindo sobre a fronte. Á esquerda da figura a espada com o cinturão enrolado. A espada está tratada com minucia, o punho lavrado em linhas, o extremo com sua flor; é uma espada direita, larga, curta. O cinto é lavrado tambem de flores, tendo bem definidas a fivella e a ponteira.

Aquella estatua é um documento precioso de indumentaria.

O tumulo tem inscripção, escudos; assenta sobre quatro leões de marmore. Não é este o unico varão illustre cujo nome se encontra no mosteiro; fr. Vicente (1401), outro amigo do mestre de Aviz, e Diogo Gonçalves Belliago (1410) teem alli as suas inscripções sepulcraes, assim como fr. Arnáo (1502).

Na capella de S. Gonçalo de Amarante ha algumas estatuas em marmore de Carrara, de valor artistico.

O sacrario é de madeira entalhada, de grande elegancia, principalmente no corpo superior.

Bons azulejos vestem as paredes, assignados por Antonio de Oliveira Bernardes.

No cruzeiro jazem muitas pessoas distinctas, principalmente da casa Fronteira e Alorna; o ultimo que alli foi repousar o célebre D. Carlos de Mascarenhas, fallecido em maio de 1861.

Na escura passagem do cruzeiro para a sacristia uma campa singelissima com um nome que illumina os espiritos, fr. Luis de Sousa.

E no claustro proximo, muito tranquillo e fresco, convidando a serena meditação, a capella e o jazigo de D. João de Castro.

É um grupo incomparavel de recordações portuguezas.


Isto escrevi eu na Revista Archeologica de Borges de Figueiredo (vol. 3.ᵒ, de 1889, pag. 99). Querido amigo! Infeliz espirito, tão maltratado na lucta da vida!

Era archeologo, latinista e epigraphista de alto merecimento. Corpo enfermiço, franzino, tez pallida, mortiço o olhar, fraca a vista; bella intelligencia cultivada, com solida erudição e fina critica. Os seus ultimos tempos foram de doença e desgosto. Por tres vezes, se bem me recordo, visitámos juntos o sitio de S. Domingos de Bemfica; elle levava sempre a filha, nos seus passeios; uma menina delicada, debil no aspecto, cheia de meiguice. Eram inseparaveis, ella queria estar sempre junto, bem junto do pae. O meu pobre amigo falleceu na manhan de 15 d’outubro de 1890; tinha feito na vespera 37 annos. Foi professor na Escola Rodrigues Sampaio, por algum tempo ensinou num collegio particular; durante annos foi laborioso bibliothecario da Sociedade de Geographia. Escreveu livros muito apreciaveis; Coimbra antiga e moderna, O Mosteiro de Odivellas, a Geographia dos Lusiadas; em todos os seus trabalhos se revéla bem o espirito de investigação, e a sã critica historica. Parecia impossivel aquella actividade em tão fraco organismo. Na Revista Archeologica deixou entre varios trabalhos bons, um de alta importancia sobre as inscripções em verso leonino em Portugal. A filha morreu um mez depois do pae; não soffreu aquella ausencia, finou-se a pobre creança debil, asphyxiada de morte pela saudade amarga.


Quantas mudanças na egreja de S. Domingos de Bemfica fez depois o bem intencionado architecto Nepomuceno! A urna do Albergaria foi para o ante-côro sombrio, para cima de duas misulas ou cachorros, á maneira de deposito de agua para não visto lavabo. O tumulo de João das Regras foi para o meio do côro, onde está bem para ser visto. A estatua jacente do insigne doutor soffreu concerto, a mão direita aperta um livro sobre o peito; a esquerda tinha desapparecido. Segundo a chronica cahia sobre o coração, como se elle estivesse orando. Nepomuceno mandou fazer a mão que faltava, erguida, segurando um papel enrolado. E parece agora que o inclito doutor está indeciso entre o livro e o rolo de papel.


Ha pouco tempo, já depois da obra a que se procedeu, visitei a egreja tomando notas mais minuciosas.


No cruzeiro da egreja ha inscripções sepulcraes de interesse historico. Na parede entre o arco da capella mór e a porta da sacristia estão dois letreiros; o superior menciona Fr. Vicente, da ordem dos prégadores, fundador, fallecido em 1401; foi prégador de D. João 1.ᵒ e autor de muitos livros.

Sob este está==Fr. Diogo Gonçalves Belliagua, frade da mesma ordem, primeiro povoador do mosteiro, isto é, o primeiro que residiu aqui, fallecido em 31 de agosto de 1410.

Estes letreiros são relativamente modernos; na Chronica se podem ver as inscripções primitivas.

Á direita da capella mór, na parede, está a==Sepultura de fr. Arnáo, da mesma ordem, fallecido em 2 de maio de 1502.

Proxima a lapide de==D. Carlos de Mascarenhas, segundo filho dos 6.ᵒˢ marquezes de Fronteira. N. em 1 d’abril de 1803. F. em 3 de maio de 1861.

A seguir==D. Maria Constança da Camara, marqueza de Fronteira e de Alorna. N. em 14 de julho de 1801. F. em 11 de setembro de 1860.

No chão está a campa da==Marqueza de Fronteira D. Helena Josefa de Lencastre. F. em 14 de março de 1763.

Perto==O sargento maior Manuel Carrião de Castanheda, cavalleiro da ordem de Christo, f. em 22 de dezembro de 1676, e sua mulher D. Sebastiana Dias Fialha.

==S. de Diogo Antunes. 1662.

==S. de Maria Coelha.

==D. G.ᵒ Velozo d’Araujo, cavalleiro fidalgo da Casa delrei N. S. e de sua molher Joanna de Bulhão, f. a 3 de março de 1603.

==S.ᵃ de João Velho Lobo... Travassos... Algumas destas campas estão incompletas, ou gastas.

Na capella do Senhor Jesus, esquerda do cruzeiro, está uma pedra com brazão; diz-nos que o instituidor foi Antonio de Freitas da Silva, fidalgo, etc., com sua mulher D. Jeronima Paes d’Azevedo, em 1677.

No corpo da egreja, segunda capella á esquerda==Capella de Enrique Mendes de la Penha, fidalgo de solar conhecido, e a comprou sua filha D. Lionor Enriques, viuva de Luis Pereira de Carvalho, em 1663.==Tem brazão.

Olhando para a capella mór, a porta á nossa esquerda abre para uma passagem que serve o côro e a sacristia, o ante-côro. Ahi, no chão, proximo dos degraos que levam ao côro, está uma campa singela.

Aqui jaz
frei Luiz de Souza.
nasceu em 1553
morreu em 1632

a seguir, na mesma campa:

Mandou collocar
esta lapida
o padre Joaquim
Pinto de
Campos
natural de
Pernambuco
(Brazil)
aos 4 de junho de
1878.

Na mesma sombria casa de passagem, ou ante-côro, na parede, sobre duas misulas, vê-se uma urna brazonada. Estava antes da ultima obra, á esquerda da porta d’entrada; agora alta como está, e na casa quasi sem luz, é difficil lêr o letreiro.

Desdobrando as abreviaturas, diz: Aqui jaz Vasco Martins da Albregaria cavalleiro fidalgo da casa do sr. infante dom Anrique e seu camareiro moor filho de A.ᵒ Lopes da Albregaria o qual passou da vida deste mundo das feridas que houve na tomada e no descerco de Cepta aos... dias do mez de dezembro da era de J. C. de 1436 annos.

Além do escudo dos Albergarias, conforme o que vem no Thesouro da Nobreza, tem escudos com sua divisa que me parece ler Porém vêde bem.

A meio do côro está o tumulo de João das Regras; o letreiro occupa o friso da caixa.

==Aqi: jaz: joan: daregas: cavaleiro: doutor: em: leis: privado: delrei: dom: joan: fundador: deste: moesteiro: finou: III: dias: de: maio: era: M: IIIIᶜ: XL: II: ans:==É um lettreiro, em gothico, bem lavrado; as palavras todas divididas por dois pontos.


Na parede exterior da casa que ora serve á irmandade da S.ᵃ do Rosario está cravada uma pedra com a inscripção:

Esta sanchristia man
darão fazer os irmãos
de Nossa Sra do Rozario
a sua custa p.ᵃ a fabrica
da sua irm.ᵈᵉ em maio de 1680.

Na sacristia uma grande campa sem lettras, com o brazão da casa de Bellas, isto é, quatro flores de liz nos angulos de uma cruz.

O Thesouro da Nobreza descreve assim o brazão dos Correias de Bellas==em campo vermelho uma cruz de oiro firmada no escudo entre quatro flores de liz do mesmo metal.

No côro ha duas grandes campas sem brazões nem letreiros; diz a Chronica que está alli o carneiro ou deposito funéreo dos Botelhos.

No cruzeiro, á direita, ao canto, ha uma porta encimada por um brazão; abre para a capellinha onde está a imagem do Senhor Jesus dos Passos. Mas o pequeno e rico edificio é dedicado a S. Gonçalo de Amarante. Uma inscripção latina declara que em 1685 o bispo fr. Manuel Pereira mandou fazer a capella. É de muito e apurado trabalho, em lindos marmores. Estatuetas de finissimo Carrara povoam os nichos. Preside S. Gonçalo de Amarante tendo aos lados a S.ᵃ do Rosario, S. José, S.ᵃ Appollonia, S. Thereza, S. João de Deus, S. Felippe, S. Domingos e S. Thomaz d’Aquino.

As columnas salomonicas aos lados de S. Gonçalo são de pedra fina da Arrabida de um trabalho apuradissimo.

Parecem-me de origem italiana estas lindas estatuetas em marmore de Carrara, delicadamente esculpidas, com a maneira usada na época.

O satyro da fonte de S. Domingos de Bemfica

A estatua do satyro conserva-se na situação em que fr. Luis de Sousa a conheceu.

Entrando no claustro d’aquelle extraordinario convento de S. Domingos de Bemfica, toma-se a porta, ao canto, que diz para a fonte e horta. Desce-se uma breve escada, entra-se n’um pequeno recinto, com assentos de pedra; ao fundo a fonte rasteira; lá está o satyro e uns pedaços de marmore com um verso latino. O muro que separa a horta do recinto da fonte é mais recente.

Felizmente eu tirei o desenho do satyro ha tempos; modernamente houve obras no edificio, e um alvanéo mais gracioso divertiu-se a lançar cal sobre a pobre estatua.

Eu estou convencido que este satyro é romano. Fr. Luis de Sousa já o conheceu assim, n’aquella posição; ora em tal posição a estatua não podia estragar-se da maneira que se vê; a superficie está desigual; ha pontos em que se conserva o primitivo estado, na parte superior do peito, nas madeixas das coxas; em outros sitios a superficie está gasta, frusta, ou por longo attrito ou por inhumação prolongada. As mãos foram arruinadas por causa da adaptação de torneiras, obra provavel dos frades; porque primitivamente a agua não sahia de taça ou urna que o satyro tivesse nas mãos; sahia do outro sitio; a estatua é pagan e bem pagan.

Apesar de frusta ainda a physionomia é notavel, e é bem propria a phrase de fr. Luis de Sousa, simplicidade montanheza; ha estatuas de Pan com aquella attitude e expressão.

Trabalho da renascença não me parece, nem estaria assim estragado em tempo do celebre chronista; gothico, romanico, impossivel; nunca trabalharam assim em taes tempos. Porque a estatua tem expressão, ha observação anatomica nos musculos, nos hombros, as claviculas bem marcadas, as madeixas elegantes.

É por isso que me convenço que a estatua é romana.

Ha mais antiguidades romanas alli pelos sitios, e o nome Monsanto chama logo a attenção.

Naturalmente os dominicanos encontraram, por acaso, a estatua e aproveitaram-n’a para a sua fonte; e assim a salvaram.

Que interessante e mimosa a descripção que fr. Luis de Sousa escreveu da fonte do satyro! Vem na Historia de S. Domingos (2.ᵃ parte, livro 2.ᵒ, cap. 1.ᵒ—Do principio e fundação do real convento de Bemfica). Diz assim:


==Passado o claustro, quem busca a horta do convento, dá poucos passos em uma praça empedrada, que ficando na parte mais alta, e como a meia ladeira da cerca, descobre grande parte do vale.

Aqui sahem os religiosos a gosar o fresco da tarde em o verão, e o soalheiro de inverno, depois que deixam o refeitorio. Porque além da vista desabafada, e larga para fóra, tem na mesma praça de uma parte uma graciosa fonte, e da outra um espaçoso tanque, que cada cousa per si alegra e deleita os olhos.

A fonte se faz em um arco, que formado de brutescos varios e vistosos, arremeda uma gruta natural. Dentro parece assentado um grande e bem proporcionado satyro, imitando com propriedade os que finge a poesia. Em toda sua figura mostra em rosto risonho e alegre uma simplicidade montanheza, com que está convidando a beber de uma concha natural, que tem apertada com o braço e mão esquerda, da qual sae um formoso torno de agua: e juntamente com a direita acode como arrependido a cobril-a; e faz geito de a querer retirar, dando com uma e negando com outra.

A agua é quanto póde ser excellente, e de uma qualidade propria das que nascem nas serras, fria e desnevada na maior força do sol do estio; temperada no inverno, como um banho.

Acompanham a gruta de um e outro lado em igual distancia dois grossos e altos pilastrões, que sendo feitos de boa cantaria para estribo de uma abobada a que se arrimam, foi a natureza cobril-os de uma hera muito espessa e viçosa, que subindo por elles até a mór altura, assim esconde e senhoreia a pedraria, que faz parecer foram fundados, mais para honra da fonte, que segurança do edificio: assim ajuda a natureza a arte, e o accidental ao bem cuidado.

E porque entre gente que professa letras é bem que nem nos satyros se ache rudeza, faz lembrança este nosso a quem folga de o ver, com um verso latino entalhado em pedaços de marmore negro, que correm a vida e os annos sem parar, nem tornar atraz, ao modo d’aquelle licor, que lhe sae das mãos. Advertencia de sabio não de rustico: que agoas e annos se se não aproveitam com bons empregos, perdidos são, e pouco de estimar. Cae a agoa, por não pejar a praça, em um pequeno tanque, deixando-o cheio some-se n’elle, e vae por baixo da terra, fazer outra fonte na boca de um leão.

É de ver aquelle rosto fero coberto de guedelhas crespas, e medonhas, que ameaçam sangue e morte, feito ministro de mansas agoas. Verdadeiro poder e symbolo da religião que amansa leões e faz Satyros doutos==.

Publiquei este artigo no Boletim da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes (T. VII. 1894. pag. 7), acompanhado de gravura. Então era facil visitar a fonte do satyro: agora está vedada ao publico, não sei porquê. Naquella parte do edificio installou-se uma succursal do collegio de Campolide, com aulas de theologia, ao que ouvi dizer. Não deixavam entrar no claustro. Ha tempos saíram dalli os padres; mas o edificio continúa fechado; não se sabe onde pára a chave. Não se póde visitar a fonte tão finamente descripta por fr. Luis de Sousa, nem a capella dos Castros, cuja entrada é tambem pelo claustro.

É de fr. Luis de Sousa a descripção da

Capella dos Castros

==He a obra da Capella dorica, a proporção dupla, com quarenta palmos de largo, mais de setenta de comprimento. He de huma só nave de pedraria brunida, o lageamento de pedras de cores, tambem brunidas: funda-se a mais architetura della em hum proporcionado pedestal, que em torno a circunda interiormente. Tem seis arcos com pilares interpostos sobre bases: capiteis, e simalhas tambem em torno, com seis luzes obradas com respeito á architectura. A porta principal tem no claustro do Convento, e sobre ella pende hum escudo relevado das armas do Fundador. O tecto, despois de coroado com a simalha, he tambem de pedraria, apainelada com artezães, e molduras: os dous primeiros arcos de seis, que a compoem, ficam nos Presbiterios; no da parte do Evangelho está huma porta, que dá serventia pera a Tribuna, e aposentos do Fundador: no outro da parte da Epistola, outra pera o serviço da Sachristia, os outros quatro occupão quatro sumptuosas sepulturas, de pedras de cores lustradas, que sobre as costas sustentão elefantes de pedras negras.

No primeiro arco, que fica junto ao do Presbiterio da parte do Evangelho, está a sepultura de Dom João de Castro, com o seguinte Epitaphio.


D. Ioannes de Castro XX. Pro Religione in vtraque Mauritania stipendijs factis, nauata strenue opera Thunetano bello fœlicibus armis penetrato; debellatis inter Euphratem, et Indum nationibus: Gendrosico Reye, Persis, Turcis vno prœlio fusis; seruato Dio, imo Reipublicæ reddito, dormit in magnum diem, non sibi, sed Deo triumphator: publicis lachrimis compositus, publico sumptu prœ paupertate funeratus: obijt Octauo Id. Iunij. Anno 1548. Aetatis 48.


Estão em o seguinte arco, junto a este os ossos de D. Leonor Coutinho, sua mulher.

Da parte da Epistola, em o arco que responde ao da sepultura de Dom João de Castro, está a de Dom Alvaro seu filho, com o Epitaphio seguinte.


D. Aluarus de Castro. Magni Ioannis primogenitus, cui pené ab infantia discriminum factus pugnaram prœcursor, triumphorum Consors, œmulus fortitudinis, hœres virtutum, non opum: Regum prostrator, et restitutor in Sinai veatice eques fœliciter inauguratus: a Rege Sebastiano Summis Regni auctus honoribus; bis Romæ, semel Castellæ, Galliæ, Sabaudiæ, legatione perfunctus, obijt 4. Kalend. Septemb. Anno. 1575. Aetatis suæ 50.


Logo no outro arco junto a este está Dona Anna de Atayde, mulher do mesmo D. Alvaro.

No vão desta Capella se fez um Carneiro com seis arcos de pedraria, em hum dos quais ha Altar pera se dizer Missa, e os mais tem repartimentos pera os ossos, e corpos dos defunctos.

Sóbe-se do pavimento d’esta Capella por seis degráos entre dous presbiterios, nos quais estão as sepulturas do Fundador, e sua Irmam: a primeira da parte do Evangelho com o Epitaphio que se segue.


D. Franciscus á Castro, Episcopus olim Aegitanensis, hujusce Sanctuarij, ac interioris Cœnobij fundator, hunc sibi, dum viueret, tumulum posuit, in quo et requiescet post mortem.


A segunda, com este, da parte da Epistola.


D. Violante de Castro Cometissa relicta vidua Domini Alfonsi de Noronha, Comitis Odomirensis hic quiescit, obijt XIV, Kalendis Iulij, anno Domini DC. XXXXVI. Sorori optimæ, seu verius matri, Frater amantissimus dedit, posuit.


Sobre estes degráos está o Altar de jaspes brunidos, apartado do retabolo, em forma que fica emparando a entrada do Choro, que detraz do mesmo Altar tem os Irmãos da casa de Noviços; e a que se entra por entre dous pedestaes de jaspes brunidos de treze palmos de alto, nove de largura, onze de grossura. No fronstispicio delles se veem duas tarjas embutidas de jaspes brancos, cercadas de suas faxas de outros pretos, na que fica da parte do Evangelho está escripta a instituição da Capella na forma seguinte.


Ad maiorem ineffabilis Eucharistiæ venerationem, peculiarem Deiparæ Virginis de Rosario honorem; indiuiduam Patriarchæ Dominici, Martyrum Nazarij, Celsi, Victoris, ac Innocentij confessoris memoriam, ædem hanc in penetralibus Sacratiorem Erexit, Condidit, Dicauit D. Franciscus á Castro Episcopus olim Aegitanensis, Regis, ad status consilia adsidens, rerum fidei moderator supremus. Anno Domini M.DC.XLVIII.


Na outra tarja, que fica da parte da Epistola, se contém as obrigações dos suffragios, que por si deixou o Fundador, diz assim:


Instituit ad altare triplex iuge sacrificium annuas pro defunctis vigilias, iuniorum cœnobitarum adsciuit excubias, habitacula coœdificauit: sibi religiose ante Dominum sepultura prouisa; maioribus suis posuit monumenta, magis pie, quam magnifice, quorum posteris subtus aram Condictorium fecit, legauit in hæc opera pietatis sexcentos annuos aureos.


Sobre estes pedestais se levantão de cada parte tres columnas de folhagem até o meio, que proseguem em estriado, as dos cantos mais recolhidas, as outras duas mais sahidas pera fóra, e corpulentas, entre ellas se abrem nichos de alto abaixo, que recolhem varias reliquias de Sanctos engastadas em custodias de preço. Estas seis colunas, que todas são de lavores, vão receber a simalha do Altar, sobre a qual se presenta á vista um quadro da Cea do Senhor, de singular pintura acompanhado de duas colunas de macenaria galantemente lavradas, que vão receber hum remate do mesmo quadro, unido já com a abobada da Capella. Aos lados destas colunas ficão dous quartões ornados com duas pyramides exteriores.

Por entre as tres colunas de huma, e outra parte, que estão sobre os pedestais, se fecha hum arco quasi da mesma altura das colunas, que fica fazendo lugar ao Sacrario (em que sempre está o Sanctissimo Sacramento alumiado com duas alampadas de prata). Do pavimento que fica debaixo deste arco se levantão oito colunas em estylo oitavado, que recebem huma charola alterosa com seu zimborio, que se remata com hum Pelicano polla banda de fóra. Debaixo desta charola se levanta hum throno em forma quadrada com quatro colunas pequenas, que fazem os cantos, com que se forma a primeira peça, na qual se abrem dous nichos, hum pera a parte do Choro, outro pera a Capella; o do Choro tem uma Imagem de nosso Padre S. Domingos, o que fica pera a Capella occupa outra de nossa Senhora de singular estimação por antiguidade, e feitio; he um meio corpo de alabastro, com o braço esquerdo abraça o minino que se sustenta em pé sobre uma almofada, e na mão direita tem hum livro, tudo da mesma pedra. Dá a estas imagens inestimavel valor a antiguidade, que em outras nações, com mais primor, e felicidade, que na nossa, avalia semelhantes obras; porque segundo a certeza que disto ha, e o Bispo tinha, estiverão estas imagens occultas, e sepultadas no muro da Cidade de Tunes, desde o tempo, que os mouros a tomarão aos Christãos, até que o Emperador Carlos Quinto lha ganhou, que então se descobriram, não sem mysteriosa circumstancia, porque batendo a artilharia o muro, e arruinando parte d’elle, cahiram as imagens sem padecer lesão alguma. O Infante Dom Luiz, que n’esta empresa se achou com o soccorro de Portugal, grandiosamente abreviado naquelle celebre galeão de 366 peças, e ajudou a ganhar a victoria, por despojo d’ella escolheo só estas imagens, que despois deu a Dom João de Castro, Avô do Bispo fundador.==

(Historia de S. Domingos particular do reino e conquistas de Portugal, por fr. Luis de Cacegas, reformada por fr. Luis de Sousa, filho do convento de Bemfica. Ampliada por fr. Antonio da Encarnação. Lisboa, 1866; 2.ᵃ parte do 3.ᵒ vol., pag. 198).

Quantas recordações nobilissimas nesta capella! Agora a elegante construcção está ameaçando ruina. Parece-me todavia facil acudir-lhe. A frontaria desligou-se um pouco do corpo do edificio, entra agua de chuva pela fenda produzida pelo desvio. Alguns annos de desleixo e a ruina será enorme, o concerto dispendioso. Dizem-me que esta capella está na posse de um particular, ha tempos ausente de Portugal. E não sei se ainda ha culto ahi; essa parte do edificio está habitada por uma congregação feminina, estrangeira; nada dizem, respondem sempre que não sabem da chave.

Fr. Vicente de Lisboa

D. João 1.ᵒ cedeu a Casa real de Bemfica a fr. Vicente de Lisboa para estabelecimento do instituto dominicano, em 1399.

Este fr. Vicente era provincial da sua ordem em Castella e Portugal, inquisidor geral de Hespanha, confessor e prégador de D. João 1.ᵒ Foi com certeza um vulto importante. Barbosa Machado, na Bibliotheca Lusitana falla delle, firmando-se no epitaphio que primitivamente marcava o logar de repouso das suas reliquias.

Ahi se lia per illum (fr. Vicente) in hac civitate (Lisboa) et in diversis hujus regni partibus, destructa fuerunt opera diaboli et haereses erroresque, atque idolatriae. Edidit etiam varios libros excellentis doctrinae.

Barbosa Machado diz que não conseguiu vêr nenhum de taes livros. Mas sabe pelo epitaphio que elle combateu as crendices populares, as superstições viciosas, as praticas pagans observadas ainda no seu tempo pela gente rude. É tarefa antiga esta de combater tradições, bruxarias, costumeiras, que hoje fazem as delicias dos folqueloristas. Ainda não vi tambem livro que se possa attribuir a fr. Vicente de Lisboa; mas não se perde a esperança. É bem possivel que nalguma antiga collecção de sermões se contenham os do prégador de D. João 1.ᵒ Na livraria do infante D. Fernando havia um volume assim designado==Item, hum livro de pregações de frey Vicente per lingoagem. (T. Braga, Historia da Universidade de Coimbra, 1.ᵒ pag. 229).

Muitas obras que se julgavam perdidas teem surgido nos ultimos annos. Os tratados de alveitaria e citraria (este incompleto) de mestre Giraldo existem na Bibliotheca Nacional, assim como uma copia antiga do Livro de Montaria de D. João 1.ᵒ O tratado da phisionomia, Opus de physiognomia, de mestre Rolando, está na Bibliotheca da Ajuda. Nos Documentos historicos da cidade de Evora dei noticia e grandes extractos dos tratados medicos, da idade media, existentes na livraria d’aquella cidade.

O sr. Leite de Vasconcellos, o nosso grande investigador, foi descobrir em Vienna, uma versão portugueza das fabulas de Esopo, que já publicou na Revista Lusitana.

Por isto não perco a esperança de ver ainda um dia alguma obra de fr. Vicente de Lisboa.

Fr. Bartholomeu dos Martyres

Uma parte do convento que olha para norte está bastante arruinada; eram ahi os dormitorios do noviciado; as janellas das humildes cellas deitam para a cerca; a vista dilata-se por aquelles campos e collinas verdejantes de Bemfica, jardins, frescos hortejos, copados arvoredos. Uma d’essas pequeninas janellas é a do quarto que por muitos annos foi habitado por um homem dos raros, dos mais raros, que tem havido em Portugal, fr. Bartholomeu dos Martyres.

Foi aqui professor muitos annos.

Primeiramente esteve, ensinando já, no convento da Batalha.

Passou ao convento de Evora porque o infante D. Luiz, desejando fazer grande lettrado seu filho o sr. D. Antonio, depois prior do Crato, infeliz rei e exilado, instou e conseguiu que fr. Bartholomeu fosse ler theologia nos dominicanos de Evora; ahi conheceu fr. Luiz de Granada, outro raro. Permaneceu em Evora alguns annos; obrigaram-no então a vir ser prior de S. Domingos de Bemfica, que era o grande noviciado de Portugal. Vivia muito pobremente, sem a minima ostentação; amigo do Convento e mais amigo da cella; dormindo pouco, comendo pouco. Enthusiasta professor estava sempre prompto a ensinar; lia aos noviços disciplinas superiores, mas se via necessidade fazia cursos d’artes elementares, aos rapazes; fazia praticas numa capella da egreja. Era um eloquente, como fr. Luiz de Granada; e ás vezes arrastado pelo calor da palavra, enthusiasmava-se, e enthusiasmava o auditorio; uma vez terminou a pratica chorando elle e todos os ouvintes.

Gostava de passear na cerca, e estava muitas vezes á janella da sua pobre cella; os noviços ouviam-no cantarolar a meia voz, tomando o ar, encostado ao peitoril da janella que dá para o campo.

As visitas contrariavam-no um pouco, o cardeal D. Henrique, o infante D. Luiz frequentavam o convento; um dia instaram com elle para que acceitasse a mitra de Braga. Do tranquillo cantinho de S. Domingos de Bemfica para o paço archi-episcopal de Braga!

Largar o convento, as aulas, a cêrca, a sua cella tão boa para o estudo! Não queria, não queria! Foi a rainha D. Catharina que o mandou; elle então obedeceu. Foi sempre um altruista, espirito cheio de abnegação. Preparou-se para a partida, teve de deixar por algum tempo Bemfica; mas antes de partir definitivamente para Braga foi passar um dia a S. Domingos, ao querido sitio de Bemfica, foi despedir-se da egreja, das aulas, da sua tranquilla cella, das arcadas silenciosas do claustro, da fonte da horta, das arvores, das flores.

E foi para Braga, para aquellas extranhas missões das montanhas minhotas, e para as solemnes discussões do concilio de Trento.

Era por indole um professor, gostava de ensinar. Tanto que se viu livre da mitra primacial elle ahi vae para o seu retiro de Vianna do Lima, ensinar rapazes; nos seus passeios pelos campos o bom velhinho, ás vezes, assentado a repousar, doutrinava os humildes pastores. Que esta raça portugueza em tempos antigos produziu mestres em sciencias e lettras que illuminaram universidades em Hespanha, Italia e França. Merece ainda attenção este homem no ponto de vista da hygiene em geral; pelo seu regime de vida, habitos e predilecções. Usava fazer grandes passeios a pé, era sóbrio, de bom humor. Lendo hygienistas modernos, Gautier (Armand—L’alimentation et les regimes chez l’homme sain et chez les malades) por exemplo, encontram-se conselhos para a vida dos intellectuaes, que lembram logo o methodo de vida de fr. Bartholomeu dos Martyres.

D. Isabel Maria

A infanta D. Isabel Maria residiu bastantes annos na sua casa de S. Domingos de Bemfica. Velhinha, adoentada nos ultimos tempos, cheia de recordações, por alli passeava morosamente sob as magnolias e os cedros. A quinta está contigua á cerca do convento.

O palacio parece que foi construido em tempo de um certo Devisme negociante e capitalista, grande amigo do marquez de Pombal, que tambem se importava de politica, tendo altas relações no estrangeiro, ahi pelo meio do seculo XVIII. As estatuas de marmore que ornam o jardim são d’essa época, mas o desenho, a disposição foi alterada. No palacio houve mudanças e ainda nos ultimos annos foi ampliado; está installado alli o bem afamado collegio de Jesus, Maria, José; grande numero das senhoras da fina sociedade actual passou por esse estabelecimento de educação.

Depois de Devisme pertenceu a bella propriedade á casa dos marquezes de Abrantes, illustre familia. Por morte do ultimo marquez, em 1847, foi comprada pela infanta D. Isabel Maria filha de D. João VI, e de D. Carlota Joaquina. Nasceu a infanta em 4 de julho de 1801, e falleceu a 22 de abril de 1876, pelas 3 horas da tarde.

Interessante figura; vida que em grande parte decorreu entre agitações politicas e palacianas; presidente da junta de regencia, em 6 de março de 1826, ficando de parte a rainha D. Carlota, por occasião da enfermidade de D. João VI, e por morte d’este, regente em nome de D. Pedro IV, até ao celebre dia 22 de fevereiro de 1828, em que depoz o governo nas mãos de D. Miguel. Foram um horror esses tempos de paixões violentas, de conspirações politicas, que não paravam no vestibulo do paço, e até de lá partiam, pois conspiradora foi sempre a mal aventurada D. Carlota Joaquina.

Devia ser curioso este sitio de S. Domingos de Bemfica nessa longa crise politica dos primeiros decennios do século passado, porque os Fronteiras, os Mascarenhas, entraram na tentativa de 1805, e continuaram até á ultima no liberalismo; os da casa d’Abrantes e os dominicanos inclinavam-se ao absolutismo.

Mas a infanta que no Paço viu as discordias insensatas entre pae e mãe, e na politica encontrou o tumulto entre exaltadas individualidades, entre partidos raivosos, conseguiu equilibrar-se desempenhando com superioridade o melindroso cargo de regente.

Crescendo a idade retirou-se, cada vez mais; por fim metteu-se no seu ninho de S. Domingos, nas sombras abrigadas e aromaticas das suas magnolias.

Palacio e jardim Fronteira

Entre as mais notaveis vivendas destes sitios de Bemfica sobresae o palacio Fronteira com os seus lindos jardins e fresco hortejo, singulares obras d’arte e historicas recordações.

Dizem que o primeiro marquez de Fronteira, D. João Mascarenhas, mandou fazer na sua propriedade um pavilhão de caça para receber a visita del-rei D. Pedro II, e esse foi o núcleo do palacio: isto pelos annos de 1670 a 1681. Antes certamente havia outras construcções porque a elegante capella é de 1584. O terremoto de 1755 arruinou o palacio de Lisboa; foi a familia Fronteira residir para Bemfica, e então ampliaram o tal pavilhão formando-se o palacio actual. O grande jardim, a monumental galeria e cascata, devem ser do fim do século XVII, com grande influencia do estylo italiano.

Os azulejos da magnifica sala do pavilhão referem-se á batalha do Ameixial. É pena não se conhecer bem a formação d’esta vivenda porque se póde affirmar notavelmente conservada, exemplo rarissimo em Portugal.

O jardim é um enlevo, no genero antigo, com as suas estatuas, fontes artisticas, grande peça d’agua, grutas, escadarias, varandas de balaustrada, elegantes pavilhões.

Muito regular, taboleiros geometricos e symetricos, com ruas e travessas, e pequenas praças, sendo maior a central onde se ergue artistica fonte de taça alta, ostentando em pinaculo os escudos dos Mascarenhas.

A poente a fachada do palacio, a sul a galeria dos reis; norte e nascente moldura ou parede de arvoredos, com vista para o campo; compridos assentos azulejados.

Ha estatuas no jardim, na parede do tanque, dentro do tanque, na varanda da galeria, em nichos, nos vertices dos pavilhões!

Entre matizes de flores e aromas riem faunos, dançam nymphas, os deuses teem sorrisos benevolentes.

Brilha ao sol o paganismo.

Na gruta maior que abre para o tanque está o Parnaso, um monte com o Pégaso alado e galopante, e em roda, a variadas alturas, Apollo e as Musas, estatuetas em fino marmore.

Na parede da galeria quadros de azulejo com figuras de cavalleiros, doze na frente, dois nos lados, os cavallos a galope, parecendo que vão entrar em renhido torneio.

Á esquerda, olhando para a galeria, ha muitos retratos, em azulejo, dos Mascarenhas, condes de Obidos, Torre, Santa Cruz, marquezes de Fronteira; á direita, fronteando os retratos, estão representados os brazões.

Na galeria em nichos forrados de azulejos hespanhoes, de reflexo metallico, uns acobreados, alguns de tom azul, bustos dos reis de Portugal, entrando o conde D. Henrique, e o infante D. Fernando o santo. Os ultimos bustos d’esta galeria, os de Affonso VI e Pedro II, são os de melhor trabalho. Uma porta communica para o jardim alto ou moderno; segue a segunda galeria dos reis, D. João V, D. José, D. Maria I e D. João VI. Sobre a porta entre as galerias um busto do imperador Tiberio, talvez copia de busto authentico.

Estatuas mythologicas, faunos prasenteiros, gentis nymphas dançantes, ornam plinthos no jardim, e as balaustradas. Azulejos estranhos, hespanhoes e hollandezes, fazem rodapés, representando scenas familiares, caçadas, episodios agricolas.

Embrechados finos de buzios e conchas, fragmentos de louças orientaes, vidros pretos, cristaes de rocha, bocados de escorias, em complicados desenhos, forram paredes das cascatas. N’uma grande parede do jardim molduras e ornatos em faiança, folhagens, flores e fructos no genero chamado dos Della Robia.

Neptuno e o seu cortejo, em grande quadro de azulejo; outro em relevo de alvenaria infelizmente em grande estrago, cumprimentam um rio, o Tejo, provavelmente.

Num quadro de azulejo o ratão do artista representou Jupiter, e pintou ao lado o nome assim: Ghvptre.

No jardim moderno, entre fetos magnificos e grande collecção de camelias, ha uma fonte central, de taça, com a estatua de Venus. O pé da taça é um grupo de golphinhos lavrado num lindo bocado de marmore com laivos avermelhados.

Dizem que a esta Venus se refére Tolentino na satyra intitulada A funcção.

Musa basta de rimar
...................
...................
... sincera velha
Pondo contra a luz a mão
E crendo que nesta rua
Está São Sebastião
De Venus á estatua nua
Faz mesura e oração.

É bem interessante a historia dos jardins; conhecem-se exemplos do Egypto, da Assyria; celebres entre os romanos os de Plinio e de Sallustio, ornamentados de terraços, fontes, estatuas.

Cultivavam rosas, lyrios, violetas, malvas, algumas arvores e arbustos cortados e aparados em feitios caprichosos, como o louro e o buxo; estimavam muito o esguio cypreste, e a vinha como planta decorativa.

E neste ponto tinham muita razão porque a parreira faz lindo ornato, com mudança de tons, gracilidade de curvas, além do encanto do cacho, quer se applique a edificios ou se enrosque em arvores.

Mas os jardins conservaram-se regulares e symetricos durante seculos.

O jardim irregular, de imprevistos, o jardim-paisagem é mais moderno.

Ha muitos livros sobre jardins e construcções architectonicas especiaes, fontes, repuxos e grandes jogos d’agua, cascatas, terraços, caramanchões e pavilhões. Merece ver-se o livro de Alicia Amherst, intitulado: A history of gardening (London, 1896), e L’art des jardins por Jorge Riat, que faz parte da Bibliothèque d’Enseignement des Beaux-Arts; qualquer d’estes livros indica sufficiente bibliographia.

Em Portugal ha bonitos jardins modernos e ainda alguns antigos conservando os seus engenhosos desenhos; a invasão moderna de plantas exoticas prejudica bastante o jardim antigo, araucarias e chamerops não harmonisam bem nas combinações geometricas e symetricas, não podem substituir as cevadilhas, as balaustras, de pequeno porte, de brilhante folhagem e vistosa florescencia. Uma alta araucaria pyramidal destoa nos bordados jardins de Caxias e Queluz. Arvores variadas, exoticas ou naturaes, empregavam-se em fazer parede ou moldura de jardins, em alamedas de horta ou laranjal.

No Diccionario dos Architectos, vasto trabalho do sr. Sousa Viterbo, por vezes apparecem architectos encarregados de obras em jardins, o que não admira porque todos os jardins antigos tinham obras d’arte importantes, terraços, escadarias, balaustradas, cascatas enormes e complicadas, com jogos d’agua, pavilhões, etc. (Dicc. dos Architectos, vol. 1.ᵒ, pag. 62 e 395; 2.ᵒ, pag. 350 e 379).

Póde dizer-se que o jardim antigo é principalmente architectonico, e que o moderno é filho da pintura.

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa, a respeito de jardins ha livros antigos notaveis, especiaes; e tambem em obras que não tratam de cultura ou architectura dos jardins por incidente se topam vistas e desenhos interessantes.

Um certo in-folio grande, impresso em Roma, adornado com boas gravuras, e o titulo Villa Pamphilia ejusque palatium cum suis prospectibus, statuae, fontes, vivaria, theatro, areolae, plantarum viarumque ordines apresenta-nos grande numero de estatuas proprias para jardim e minuciosos desenhos dos terreiros ajardinados, que parecem imitar salvas de prata repoussée; sem uma arvore saliente; arbustos talhados, não muito altos, ornam os extremos. Era o jardim italiano, classico.

Numa obra de numismatica I Cesari in metallo raccolti nel Museu Farnese, por Pietro Piovene (Parma, 1727), ha lindas gravuras com muitos aspectos e detalhes dos jardins da Villa Madama, e do Palazzo di Caprarola (no tomo 1.ᵒ), mostrando bem a magnificencia, a nobreza d’essas bellas vivendas italianas.

Um allemão, Hirschfeld, escreveu uma vasta obra, de que ha versão franceza, em 4 volumes, Theorie de l’art des jardins (Leipzig, 1779-1783).

É trabalho notavel: trata dos jardins em varios pontos de vista, da sua historia e da historia das plantas, do aproveitamento das arvores segundo o seu effeito ou aspecto, das combinações, dos planos differentes. No 4.ᵒ volume vi a noticia de Guilherme Kent o criador da arte dos jardins em Inglaterra; era pintor e architecto. Descreve os trabalhos de Le Notre, grande jardineiro francez. N’isto de jardins ha escólas, muito bem definidas. Foi economica, principalmente, a razão porque a escóla de Kent venceu a de Le Notre; o jardim á antiga era de grande custeio; para se conservar bem era preciso trabalhar constantemente. Só admittia flores finas, raras; na Hollanda o enthusiasmo pela tulipa, a tulipomania, attingiu excessos. Kent introduzindo arvores e arbustos fez grande economia. Ha o jardim agradavel, o risonho, o majestoso, o romanesco; o jardim fidalgo, o burguez, o campestre, o publico, o academico, o monastico, finalmente o funebre.

O tal allemão chega mesmo a projectar jardim para de manhã, do meio dia, e da tarde; jardins para effeitos crepusculares. A cultura e a disposição do jardim variam com os climas, e com a abundancia das aguas.

É impossivel imitar nos paizes frios os jardins de Hespanha ou de Italia; querer implantar nos paizes do sul os arrelvados inglezes é arrojado. A relva nada custa em Inglaterra, e em Portugal a murta, o lirio, o cravo e a rosa não precisam cuidados.

A leitura do Hirschfeld, me parece, é ainda hoje util a quem deseje tratar de jardins publicos ou particulares.

Porque ha uma esthetica de jardins, e tambem merece attenção a questão economica. Em Portugal, por exemplo, não se usa da laranjeira ou da vinha em jardins; e estão os jardins cheios de palmeiras monotonas. Vê-se gastar muito dinheiro para ter bocadinhos de arrelvado, que o sol de verão cresta numa hora.

Vêmos formar talhões com uma só essencia, o que parece esthetica de hortelão, quando as alamedas ou avenidas são muito mais pittorescas e vistosas variando a qualidade das arvores.

O jardim publico de Evora tem effeitos bonitos; foi planeado e plantado pelo scenographo Cinatti, que calculou os aspectos que arbustos e arvores dariam quando desenvolvidos. Infelizmente depois não seguiram, completamente, as indicações do artista; todavia ainda é manifesto o fino criterio que presidiu á disposição do arvoredo.

Il reale giardino di Boboli nella sua pianta e nelle sue statue com o Alticchiero (Padua, 1787) é livro pouco vulgar.

Muitas estampas finamente gravadas mostram os planos, os aspectos, e principalmente as estatuas.

O jardim Boboli, em Florença, tinha amphitheatro, casino, palacetes, jardim botanico, o pequeno jardim de Madama, o dos ananazes, o da ilha, o da fortaleza, e a grande pesqueira de Neptuno. No jardim de Oeiras havia tambem pesqueira; até ahi pescou á canna a rainha D. Maria I, na famosa visita que lá fez, no tempo do segundo marquez de Pombal.

Neste jardim Fronteira as tropas miguelistas em 1833 entraram sanhosas, todavia parece que o estrago não foi consideravel. Diz-se tambem que se tratou aqui da formação da Arcadia Lusitana, que os tres poetas Antonio Diniz da Cruz e Silva, Theotonio Gomes de Carvalho, e Manoel Nicolau Esteves Negrão por estes caramachões de rosas e jasmins discutiram as bases da famosa academia litteraria. O snr. Theophilo Braga (pag. 180 de A Arcadia Lusitana) conta que os tres poetas se reuniam em Bemfica; mas ha tradição de que era na quinta dos Fronteiras que elles frequentavam, e de que mesmo um d’elles perto morava.

José Maria da Costa e Silva, no seu poema O Passeio, diz que em Portugal se chamavam jardins de D. João de Castro, aos irregulares, por ter sido o famoso heroe o primeiro que os plantou na Europa:

Vêde Castro, o terror dos reis do Oriente
.....................................
E o primeiro mostrar d’Europa ás gentes
Dos chinezes jardins a variedade.

Em outra parte escreve: