WeRead Powered by ReaderPub
Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa cover

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa

Chapter 41: Archivos
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

O autor empreende passeios pelas imediações de Lisboa, oferecendo descrições topográficas e arqueológicas de igrejas, mosteiros, sepulturas e fontes, identificando estatuária, inscrições e azulejaria, e anotando transformações arquitectónicas e achados antigos. O texto combina observações de paisagem e clima com pequenas histórias locais, reconstruções de memoriais e comentários sobre restauros e deslocações de monumentos, além de recordações pessoais de companheiros de estudo e reflexões sobre erudição regional. A narrativa alterna descrições pitorescas com notas históricas e críticas, formando um guia de curiosidades e património suburbano.

Torres Vedras


Notas d’arte e archeologia

(1906)

Paineis antigos em Torres Vedras

Em rapida visita que fiz, ha pouco, a Torres Vedras, chamaram-me a attenção os quadros em madeira, antiga pintura, que vi em differentes egrejas.

Torres Vedras foi villa das rainhas, alli viveram familias nobres, houve paços reaes e casas religiosas importantes.

Já no seculo XIII as egrejas de Santa Maria do Castello, de S. Pedro, de S. Miguel e de S. Thiago existiam, como se vê das inquirições de Affonso III. Isto mostra que a villa era importante já na edade média, e explica um tanto a existencia de um numero relativamente consideravel de pinturas antigas. Só mencionarei as que me despertaram mais a attenção.

Ha alli pinturas de varios pinceis e épocas, umas anteriores á renascença, algumas do inicio d’essa época, outras do meiado do seculo XVI.

Na egreja de Nossa Senhora do Amial vi quatro quadros grandes, representando S. Paulo, S. Pedro, S. Lourenço e S. Sebastião.

Na sacristia de S. Pedro estão tres quadros em madeira; um d’elles, a Annunciação, muito lindo e em bom estado.

Na egreja, sobre o arco do cruzeiro, está um painel grande, representando S. Pedro, retocado modernamente.

Na egreja da Graça, na segunda capella á direita, seis quadros pequenos, um tanto sujos mas não arruinados; muito interessantes.

Ha um pouco de renascença nas construcções, voltas redondas nas arcadas, apenas.

Figuras principaes sem ornatos, mas as secundarias vestidas á época, grandes e plebeus, damas da côrte, mulheres humildes, com os seus trajos proprios, muito minuciosa e galantemente indicados.

Representam: o Presepe, Adoração dos Reis, Annunciação, a Virgem e Santa Isabel, S. José e Nossa Senhora, o Transito de Nossa Senhora.

Os rostos, muito finamente tocados, parecem retratos, nos vestuarios não ha phantasias, o pintor reproduziu o que tinha á vista; mesmo o agrupamento, a composição dos quadros, agrada. Tem um lindo tom; limpando um pouco, com o lenço humedecido, um cantinho de uma d’estas pinturas appareceu logo o tom de esmalte que, infelizmente, tantos outros perderam.

Esses seis quadrinhos são bem notaveis.

Na capella-mór da egreja do Varatojo vi quatro grandes paineis, bem conservados: Annunciação, Jesus resuscitado, Adoração dos Reis e Adoração dos pastores. Devem ser parte de uma série. Não lhes vejo relação com as séries do Museu de Bellas-Artes.

Na ante-sacristia, o Presepe, quadro pequeno; na sacristia, um Milagre de Santo Antonio e a Descida do Espirito Santo, paineis de grandes dimensões e em bom estado.

Em Santa Maria do Castello ha pinturas antigas em madeira, no corpo da egreja e na sacristia; estes ultimos são quadros menores, representando os episodios classicos da paixão; soffreram retoques pouco felizes; o que nelles mais padeceu foi o colorido.

O desenho das figuras; o aspecto, merece nota; tem um tom archaico; lembraram-me muito umas pinturas que existem no Museu das Janellas Verdes, em que os bigodes apparecem meio-rapados e as barbas com um córte especial.

Todos estes paineis, que vi em Torres Vedras, me parecem de origem portugueza, com ligeiras, attenuadas reminiscencias de influencia flamenga, e com pequena parte, ou nenhuma, do renascimento; por isto os achei importantes para a historia da pintura portugueza.

O Tumulo dos Perestrellos

A egreja parochial de S. Pedro de Torres Vedras tem a sua porta principal voltada a poente, como todos os templos antigos, medievos, da interessante villa. Essa porta é muito ornamentada em estylo manuelino; sobre o arco assenta um escudo bipartido com armas do rei e da rainha. Em dois arcos do cruzeiro ha tambem ornamentação no mesmo gosto, mais singela. A egreja tem tres naves, a central é coberta de madeira apainelada, com as molduras pintadas e douradas. As naves lateraes conservam ainda trechos de antigas abobadas com artezões. Parte das paredes está vestida de azulejos brancos e verdes, em uso nos seculos XVI e XVII. Ha em varios pontos da egreja e capellas outros typos de azulejo de épocas mais modernas.

Alguns quadros pintados em madeira, antiga escola portugueza, outros em tela, na egreja, na sacristia e na annexa casa dos clerigos pobres; algumas esculpturas religiosas, especialmente a estatueta de S. Pedro d’Alcantara, merecem attenção.

No cruzeiro, á direita, está um elegante ediculo com uma urna sepulcral.

É no mesmo estylo da porta principal. O ediculo é em pedra da localidade, que é rija, resiste bem ao tempo, e toma, no passar dos seculos, uma côr amarella torrada, agradavel á vista. A urna é em jaspe, em fino trabalho.

Sobre bases facetadas erguem-se columnas que sustentam arcos concentricos; ha uma facha muito lavrada, de folhas e flores, com um pequeno busto em baixo relevo, imitando medalha, que parece um retrato; mostra a cabeça coberta com um capacete um tanto raro. Busto egual se vê na porta da egreja.

No ediculo as columnas e arco exterior representam troncos arboreos cingidos por fitas.

A urna pousa sobre leões de inferior trabalho. Na face anterior tem o lettreiro e aos lados o brazão, repetido, dos Perestrellos.

N’esta urna estão os ossos de João Lopes Perestrello e de sua mulher Filippa Lourenço. Este homem foi fidalgo da côrte de D. João II. Foi para a India, capitão de uma nau, na armada de Vasco da Grama, em 1502. É um dos vultos d’essa notavel familia que tantos homens produziu que bem serviram o paiz em Ormuz, em Malaca. Um filho d’elle, Raphael Perestrello, andou na descoberta da costa da China, e esteve nas Moluccas. Outro filho jaz na mesma egreja de S. Pedro; sob uma campa enorme, de mais de dois metros de comprimento, com um lettreiro em gothico:—Aqui acerqua de seus quyrydos pais he mai Antonyo Perestrelo seu filho escolheo casa para sempre.—

É bom typo de familia d’aquella época; as grandes aventuras, as viagens ultramarinas; uns ficaram nos mares ou nas guerras, outros voltaram ricos, fizeram morgados, e arranjaram na egreja da sua terra uma capella para eterno descanço.

Capiteis romanicos

Na egreja de Santa Maria do Castello, em Torres Vedras, vi dois capiteis romanicos na porta principal, que olha para o poente. O templo tem soffrido reconstrucções, todavia as linhas principaes são as primitivas. Os portaes, de volta redonda, estão nos seus logares de origem. Aquella silva que orna a parte superior dos capiteis, formando um friso, repete-se aos lados da porta que diz para sul. Os capiteis são de calcareo muito rijo, trabalho ingenuo, relevo fundo; pouco teem soffrido do tempo. São decorativos e symbolicos; o esculptor quiz representar motivos do Cantico dos canticos; é o lyrio dos valles, a pomba do rochedo, a maçã entre a folhagem agreste; as comparações amaveis feitas á Sulamite, que a egreja christã adoptou. Obra d’arte, da alta edade média, é isto o que resta n’esse templo, alvejante entre oliveiras, aninhado entre as muralhas vetustas, cubélos e quadrelas negras do castello.

Faz-se alli festa religiosa em 15 d’agosto, porque parece que foi n’este dia que D. Affonso Henriques tomou a villa aos mouros, em 1148. Ainda no começo do seculo XIX, na noite do dia 14, vespera da festa, faziam grandes fogueiras no adro e por entre as ameias.

Perdeu-se a usança pittoresca, ante esta onda de semsaboria que vae estragando tudo.

Os priores d’esta egreja eram capellães d’el-rei; varias rainhas foram padroeiras e lhe fizeram donativos.

D. Beatriz, mãe de D. Diniz, residiu em seu paço, que ficava proximo. É difficil hoje achar vestigios de paços reaes, ou de quaesquer edificios muito antigos em Torres Vedras. Ahi residiram por largas temporadas reis e rainhas, por duas vezes se reuniram côrtes, no seculo XV, e quasi nada d’essa época se encontra na villa. Tem soffrido muito com os terremotos; a parte baixa está visivelmente muito soterrada; isto explica em parte o desapparecimento de antiguidades na historica e interessante villa.

Ermida e forte de S. Vicente

A ermida de S. Vicente fica a norte de Torres Vedras; cousa de tres kilometros do centro da villa ao alto da collina. Chega-se á varzea arborisada do Amial, passa-se o rio Sizandro, a ermida de Nossa Senhora do Amial, e do adro d’esta ermida parte uma vereda que vae trepando pela vertente, e dando volta, de modo que offerece vistas variadas da villa, que tem bonito aspecto, do seu vetusto castello, conjuncto de paredões, muralhas e cubellos ennegrecidos pelo tempo, e da multidão de collinas, quasi todas vestidas de vinhedos viçosos, salpicadas de casaes. O cume de S. Vicente está bastante superior ao castello, e ás collinas proximas, dominando largo terreno. Depois do corpo de S. Vicente entrar na sé de Lisboa houve milagres varios, e um dos devotos favorecidos foi um homem de Torres Vedras que lhe edificou uma ermidinha em agradecimento. É certo que no começo do seculo XIII já alli estava uma ermida; tão certo como não estar lá, á vista, um unico lavor ou lettreiro, nem do seculo XVII. Mas ha documentos; e bocados de pergaminho bem guardados duram mais que alvenarias expostas a pilhagens e bombardeamentos.

Na ermida venerava-se uma imagem de S. Vicente, agora na pequena egreja do Amial, e ha tradição de grandes festas que o povo torreense ahi celebrava. Arruinou-se, reconstruiu-se, e voltou o abandono; agora dormem alli pastores e cabras; se lá estão ainda algumas cantarias é pela difficuldade do transporte.

Termina a vereda n’uma passagem empedrada sobre um fosso, vê-se ainda bem o relevo da trincheira entre arbustos e silvados, depois a ermida toda em ruina e esburacada; a capella redonda tem uma pequena cupula de ar mourisco; junto da ermida havia casebres, casa do ermitão e albergue de romeiros; telhados cahidos, montões de entulho; silvados e carrasqueiros bravios; depois da ermida um planalto talvez de 60 metros de diametro, ahi dois moinhos de vento antigos, em ruina; em volta quatro grandes espaldares erguidos, de 2 metros de altura, por 10 de comprimento; na borda do planalto as baterias, os reductos; as canhoneiras ainda com o pavimento lageado, os perfis em alvenaria solida; reconstitue-se ainda perfeitamente a celebre fortificação.

Todos teem ouvido fallar das famosas linhas de Torres Vedras que defenderam Lisboa contra a invasão franceza do commando de Massena. A primeira linha fortificada dividia-se em tres districtos: 1.ᵒ Torres Vedras, 2.ᵒ Sobral de Monte Agraço, 3.ᵒ Alhandra.

Dois pontos estavam especialmente fortes, eram os fortes grandes, S. Vicente, e o da Serra do Arneiro.

O de S. Vicente tinha 39 canhoneiras, e estava artilhado com 23 peças de calibre 6, 9 e 12, e mais 3 obuzes. Podia abrigar 4:000 homens. Além dos reductos vejo uns vallados afastados para norte que me parecem pequenas trincheiras para abrigo de atiradores. O ponto era, e é ainda, importantissimo porque descobre os caminhos em grande extensão.

Outros fortes menores se agrupavam a este, formando um conjuncto respeitavel; nas grandes collinas de Olheiros, Outeiro da Forca, Sarges (outros dizem Ságes) e Ordasqueira havia reductos; formavam um campo fortificado.

Em dezembro de 1846 encontraram-se em Torres Vedras, tropas do Bomfim com as de Saldanha, houve combate sanguinolento, com episodios terriveis, no dia 22; Saldanha tomou o forte de S. Vicente: Bomfim encurralou-se no castello, e começou a atirar para lá com a sua peça e o seu obuz; e esburacou a ermida. Na varzea do Amial houve encontro de cavallaria, e a de Saldanha, muito superior em numero, acutilou ahi, mesmo no adro da ermida, a da Junta do Porto.

Ahi n’esse adro do Amial, estão enterrados setenta e tantos cadaveres dos fallecidos em combate, na lucta brava da cavallaria, e no ataque de S. Vicente.

Depois da batalha, a ermida ficou em ruina, a villa soffreu immenso, e ninguem pensou mais em concertar o templosinho.

Trouxeram a imagem de S. Vicente, que escapou á batalha e ao bombardeamento para a ermida do Amial. E lá está, muito tristinha e abandonada, n’aquelle interessante templosinho, ao pé de outra imagem historica, a da Senhora de Rocamador. Merecia a pena dar alguma attenção ao Amial, e tornar mais facil a vereda para S. Vicente; é um dos melhores passeios nos arredores de Torres Vedras, a vista é linda, e é um d’estes sitios raros onde se allia a bellezas naturaes o encanto de recordações da historia patria.

Imagens de Santos

Pouca attenção se tem prestado entre nós ás imagens religiosas; refiro-me a dois pontos de vista, artistico e archeologico. No Museu das Bellas-Artes e no Carmo poucos exemplares ha. É preciso examinar as egrejas, para descobrir um ou outro trabalho interessante.

É enorme a quantidade de imagens de santos ainda existentes, atravez diversas causas de destruição; tem havido modas tambem na estatuaria religiosa; as imagens do renascimento fizeram pôr de parte as mais antigas que pareciam rudes; as luxuosas estatuetas á hespanhola, de roupagens agitadas todas bordadas a ouro, foram vencidas pelas á italiana, mais artisticas e expressivas.

Imagens gothicas de gesto solemne, hirtas, de vago olhar, esculpidas em pedra, vieram até nossos dias; em quasi todas as sés ha imagens de Nossa Senhora, do seculo XII. A da Sé de Evora com o seu collar e fita pendente que parece formada de moedas romanas, as cercaduras bordadas do vestuario, os sapatos de bico, tem ares de uma rainha medieval.

No claustro da mesma sé ha estatuas de santos, e o apostolado no portico, dos seculos XIII a XV.

Do renascimento, com anatomia estudada, posição ao natural, temos um exemplar esplendido no celebre S. Jeronymo, que está no cruzeiro de Santa Maria de Belem.

Seguem-se as estatuetas em madeira com lavores a ouro sobre fundo preto, ou vermelho, o estofado, genero que foi muito empregado em Portugal.

Dos italianos, largas roupagens, cabeças de expressão, attitudes artisticas, póses estudadas, ha modelos mui significativos na antiga egreja dos Barbadinhos onde actualmente está a parochial de Santa Engracia. No seculo xviii a estatuaria religiosa segue a corrente da época; no seculo xix, a meio, começa a esculptura franceza a dominar com as suas fórmas gentis; vem a imagem fina, bem gravada, suavemente colorida; vem a elegante estatua da Salette, depois Lourdes, a fina dama, de cabeça pequena, fórma esguia, expressão de sonho. Nos templos agora por toda a parte domina a estatueta de gesso, e a oleographia franceza; o lindo santo risonho e muito penteado, a gentil santinha branca, a pretenciosa oleographia na sua moldura de baguette dourada. O Senhor dos Passos, de tez livida, negros cabellos, olhar severo, passaria de moda, se não estivesse firme em antiga tradição.

Na iconographia religiosa ha, atravez as idades, séries determinadas, e assim se póde vêr como os artistas de varias épocas executaram as figuras de Jesus Menino, ou imaginaram os rostos de anjos e seraphins.

Quando ha pouco se agitou a questão do santo sudario de Turim viu-se bem onde póde chegar o interesse d’estes estudos; n’este caso á origem da pintura, e dos seus processos.

Certas imagens, por exemplo, Senhor dos Passos, Senhor Morto, são, na grande maioria, da mesma época; outras são de todas as épocas, a Virgem, o Crucificado, Jesus Menino. Póde reunir-se uma série de imagens da Virgem do seculo XII para cá. E assim do rosto e cabeça do divino Nazareno. É interessante vêr como os artistas, atravez os tempos, trataram de interpretar o aspecto do sublime mestre.

Ha pouco, n’uma estação de banhos dos Cucus, tive occasião de passeiar por Torres Vedras, e andei pelas egrejas a vêr esculpturas e pinturas, inscripções, velharias.

A imagem da Senhora do Sobreiro, no Varatojo, é antiga; segundo a tradição é do seculo XII; póde ser, e todavia não me parece tão antiga como a da Sé de Evora, ou a de Santa Maria da Oliveira, em Guimarães (a primitiva imagem).

Na egreja de S. Pedro vi a imagem de S. Pedro d’Alcantara; rosto, garganta e mãos bem esculpidas, expressão de fervor na oração, arrebatamento; roupagem larga, em grandes pregas; no todo uma estatua elegante, que prende a attenção; talvez de artista italiano.

Na egreja da Graça reparei mais nas estatuas de Santa Monica e Santo Agostinho, que estão em nichos no grande retabulo de obra de talha, do seculo XVII, interessante exemplo de transição do estylo classico para o rococó usado na época de D. João V.

N’essas estatuas de Santa Monica e Santo Agostinho o estofado, ouro sobre branco e vermelho, é accentuado por fino relevo, que dá ás vestes aspecto opulento; a esculptura é muito correcta.

A estatua de S. Gonçalo de Lagos, na sua capella, é elegante: o santeiro fez-lhe a cabeça um tanto pequena, e a cintura delicada; a roupagem está bem lançada.

Na Misericordia dei mais attenção ao Senhor Morto, porque me parece o mais antigo que conheço; não se repare na encarnação; é uma estatua rigida, hirta, feita com certa rudeza mas com attenção. Parece-me anterior ao seculo XVI.

Em Santa Maria do Castello vi esculpturas boas: um Jesus Menino bem notavel e antigo.

E mais antigas ainda me parecem algumas imagens que vi na ermida da Senhora do Amial, a Senhora do Ó, o S. Vicente, e especialmente a Senhora de Rocamador talvez do seculo XIII.

Será bom reparar n’estas obras d’arte, mórmente agora por causa da invasão franceza de estatuetas e oleographias baratas.

Uma cadeira do seculo XV

A pouca distancia, uns tres kilometros, a poente de Torres Vedras fica o convento do Varatojo; é um bonito passeio a pé, atravessando a varzea, e subindo lentamente a vereda, descobrindo successivamente aquella região de serras e cabeços, em grande parte vestida de vinhedos, agora n’este mez d’agosto, mui viçosos.

Em trem, o caminho é mais longo, por causa de grande rodeio, seguindo pelo campo do Amial, onde ha uma ermida muito antiga e interessante, cortando depois os campos do Paul, e subindo a encosta por estrada um tanto ingrata; a estrada nova cheia de covas e poeira, a antiga coalhada de calhaus.

No convento vi a porta ogival da egreja, tendo aos lados as armas de Portugal, e o rodizio emblema adoptado por Affonso v; o claustro, bem conservado; os portaes da casa chamada dos retratos que são do tempo de D. Manuel; a torre dos sinos de ventanas ogivaes, assim como o portal de um pateo interior; vi pinturas em madeira, um frontal de seda bordada de origem italiana, me pareceu, e, n’uma pequena dependencia da sacristia, entre variados objectos, uma cadeira extraordinaria!

É tradição antiga ter esta cadeira servido a D. Affonso V, quando visitava aquella casa. Como me disseram que ninguem a desenhara eu tirei um rapido esboço. Póde ser de Affonso V, e até anterior; é em carvalho, e está menos mal conservada; algum caruncho, mas mostra-se ainda nitido o relevo decorativo; lembra logo o estylo da Batalha. É uma cadeira do seculo XV, uma joia do mobiliario portuguez. No Havard [2] vem o desenho de um exemplar quasi egual; cadeira de armario ou cofre, de braços, espaldar direito, ornamentação ogival, exactamente como no esplendido movel do Varatojo. Lá se tem conservado a veneravel reliquia e está lá muito bem, ligada pela tradição historica, mas seria bom fazer uma reproducção para o Museu das Bellas-Artes, onde abundam os exemplares de mobiliario portuguez, formando séries importantes; mas falta aquella cadeira—avó, unica, segundo creio, em Portugal.

[2] Dictionnaire de l’ameublement et de la décoration.

Brazões da Villa

Vi em Torres tres brazões antigos:

O da Fonte Nova tem a data 1529.

O que está na escada da Camara Municipal tem a data 1518.

O do chafariz dos Canos é muito mais velho, singelo e hieratico, sem ousadias decorativas; creio que é do seculo XIV.

O da Fonte Nova apresenta duas torres ligadas por um panno de muralha com sua porta: torres de tres andares, com ameias, frestas para jogar virotes e béstas, terminando em cobertura pyramidal, com sua bandeira quadrada e uma estrella sobre a bandeira; entre as torres um escudo real, sem corôa nem castellos, só as cinco quinas com os seus besantes. Infra a data 1529 entre duas siglas, talvez F e R.

O que está na Camara mostra duas torres de cobertura conica, ligadas pela muralha sem porta; tem barbacan, ameias, sobre as torres bandeiras farpadas, sobre estas, estrellas.

Sob a barbacan um festão florido, infra um lettreiro:

Esta casa e quintal
he do concelho
1518

Entre as torres o escudo das quinas.

O do chafariz dos Canos tem tres torres eguaes, separadas entre si, uma a meio do escudo mais acima, duas aos lados d’esta, mais abaixo. Cada torre sua janella de volta redonda, e quatro ameias; a ameia formada por um dado ou cubo, sobre este uma pyramide de base quadrada excedendo muito a face do cubo.

Na fonte está outro escudo com o brazão real, as quinas collocadas á antiga, as lateraes com as pontas para dentro.

Este escudo da fonte dos Canos parece-me ser o brazão antigo da villa, o primeiro, o das turres veteres. Depois conjugaram este com o escudo real, tirando a torre média e mais alta para dar logar ás quinas, ao que parece no tempo de D. Manuel, o reformador do velho foral, pois que o brazão que está na escada da Camara tem a data 1518.

Archivos

Camara, Misericordia, Egreja de Santa Maria

Quando estive na interessante villa de Torres Vedras lembrei-me de visitar archivos, que é onde se encontram reunidos mais documentos authenticos da vida local.

Para alguma cousa ha de servir isto de ler lettras antigas, a paleographia; porque vêr archivos e cartorios sem os entender é inutil.

Manuel Agostinho Madeira Torres na—Descripção historica e economica da villa e termo de Torres Vedras—, falla de antigos documentos, e na 2.ᵃ edição da sua obra os editores deixaram muitas notas em que se referem a velhos pergaminhos e papeis dos cartorios da villa.

A vida antiga, as phases sociaes, as instituições, a evolução historica, tudo apparece nos archivos a quem tiver paciencia de manusear com attenção codices e avulsos arrumados, quantas vezes esquecidos, desprezados, tristes, poeirentos, nos seus armarios.

Agora que tanto se falla de sociologia esses archivos teem ainda maior importancia; antes os estudiosos procuravam especialmente os grandes acontecimentos e as vidas dos grandes vultos, attende-se presentemente tambem á evolução das instituições, ao viver dos povos, ás manifestações moraes das classes menos brilhantes. Divaguei, pois, algumas horas pelos archivos de Torres Vedras, e vou escrever, condensando muito, do que vi.

Comecei pelo archivo da Camara Municipal, que está installado em armarios, n’uma casa ampla com muita luz.

Vi lá uma peça de primeira ordem, o Foral da villa, dado por D. Manuel.

O primeiro foral foi concedido por D. Affonso iii em 1250, e conserva-se na Torre do Tombo.

Do foral de D. Manuel está o original em Torres, e bem conservado, lindamente escripto em pergaminho.

Percorri tambem alguns livros de actas da camara, bella série que começa em tempo d’el-rei D. Sebastião. Estes codices são importantes, porque não se contentaram em lavrar actas, mas incluiram o registo de documentos de maior significação. Ora o municipio e comarca de Torres foram de grande importancia em tempos volvidos, com a especialidade proveniente da preponderancia da Casa das Rainhas. Assim encontrei alli noticias de Santarem, Alemquer, etc., que não esperava achar; assim, por exemplo, foi o corregedor de Torres que em 1640 teve o encargo de regular a segurança e a administração em Cascaes, Alemquer, etc., terminado o dominio hespanhol.

Do tempo dos Filippes estão registados muitos documentos sem duvida valiosos.

Como se vê, o archivo municipal de Torres contém dados de valor para a historia do municipio e para a politica geral do paiz.

E mais, é claro, os que importam á vida municipal, os economico-administrativos, os que se referem a obras publicas, viação, preços de generos, etc.

Visitei tambem o archivo da Santa Casa da Misericordia.

Se entro sempre com respeito n’um archivo municipal, que é onde está o documento do homem, rico ou pobre, nobre ou plebeu, entro com veneração e amor n’um cartorio de Casa de Misericordia: alli está a vida do pobre, do enfermo, do engeitado, do encarcerado; alli está a meu vêr a instituição mais gloriosa que tem o povo portuguez. A beneficencia moderna nas suas multiplas manifestações não attinge a perfeição d’esse maravilhoso instituto que corresponde perfeitamente ás necessidades sociaes.

O livro mais antigo que vi data de 1608. Vi livros de tombos, accordos, receita e despeza, compromissos, e de enterros. Ha um Tombo grande, que é um formidavel infolio, do tempo de D. João V. Tem medições de propriedades urbanas e ruraes que o tornam precioso. N’este volume está a descripção minuciosa da egreja e Casa da Misericordia, feita em 1730. No termo de Torres havia hospitaes e albergarias na idade média, no Amial, Carvoeira, Turcifal, S. Gião, Ribaldeira, Azueira, S. Mamede e Dois Portos.

É extraordinario o que se fez em Portugal no ramo de beneficencia publica, nos primeiros seculos da monarchia. Creio que foi no seculo XVI, principalmente, que se realisou a concentração nas Misericordias de todas essas pequenas instituições, albergarias, gafarias, etc. De todas vi noticias no archivo da Misericordia.

Finalmente fui vêr, na amavel companhia do Prior, o archivo de Santa Maria do Castello. Esta notavel egreja, antiga capella real, conserva ainda o seu archivo! é caso raro em Portugal. Porque os archivos parochiaes, quasi todos, foram concentrados pelos prelados, e jazem ignorados nos Seminarios, alguns sem a minima organisação. Este lá está nas suas arcas velhinhas, conservado e limpinho, amado pelo digno parocho. Vi lá pergaminhos do seculo XIV, do bom rei D. Diniz, de 1307 um d’elles, e muitos dos seculos XV e XVI. É bem singular um archivo parochial com os seus velhos livros, amarellecidos pelo tempo, dos que nascem, dos que se casam, dos que morrem; dos que passaram n’este mundo de esperanças, de alegrias, de soffrimentos.

No Varatojo

Na sala do capitulo vi dois lettreiros:

Aqui descansão
as cinzas do Ven.ˡ
P. F. Antonio das
Chagas. Miss. Apost.
e instituidor deste
Semin.ᵒ faleceu a
20 de outubro de 1682.


Fr. Joaq.ᵐ do Espirito Santo
restaurador deste
Seminario
Fal. em Santarem
3 d’agosto 1878

Na quadra, perto da porta que deita para a matta:

Aqui jáz Felipa do
Reguo molher de Nuno
de Sampaio... 1530

Reparei na egreja nas seguintes pinturas:

Na capella-mór:

Annunciação
Adoração dos reis
Adoração dos pastores
Noli me tangere.

Na sacristia:

Milagre de Santo Antonio. O burro ajoelhado ante a sagrada particula
Pentecostes.

Na ante-sacristia:

presepe, pequeno quadro em madeira, de trabalho fino, um tanto estragado.

A quadra, arcada e varanda coberta, o travejamento assente sobre columnellos, está bem conservada.

Para esta quadra ou pequeno claustro diz uma casa a que chamam dos retratos, que me parece ter sido uma aula ou casa do capitulo.

O portal desta casa é em manuelino, de trabalho apurado e em boa pedra; é uma peça nitida. Nesta casa está uma pintura em madeira, o Calvario.

A moldura do quadro é de pedra lavrada, tambem em manuelino; pareceu-me uma antiga porta ou janela aproveitada para alli.

Estes trabalhos teem intima relação com os portaes de S. Pedro, de S. Thiago, ediculo dos Perestrellos, etc. Vê-se que em Torres Vedras houve na primeira metade do seculo XVI artistas trabalhando com methodo e gosto.


A porta principal da egreja do Varatojo é ogival, singela, aos lados tem brazões com as armas de Portugal e o rodisio de D. Affonso V.

As ventanas da torre são ogivaes.

E vi n’uma córte contigua um portal antigo tambem de ogiva.

Por isto se vê bem que este antigo edificio soffreu reconstrucções.

A quadra deve ser da primitiva, apezar de não apresentar ogivas; o travejamento é singular; no todo singelo ha uma pureza, uma sobriedade que nos incute ideias de paz e recolhimento; como na matta, de vetusto arvoredo, frescas fontes murmurejantes, e clementes horizontes.

Bello sitio para dulcificar maguas e socegar corações attribulados. Por aqui passeou a sua grande dôr e cruel desesperança um rei, D. João II, depois do desastre de Santarem.

Uma inscripção moderna

Na egreja de S. Pedro, proximo ao pulpito, repousa Luiz da Silva Mousinho d’Albuquerque, sob campa rasa, com o lettreiro:

AQVI IAZ
LVIZ DA SIL
VA MOVSI
NHO DE AL
BVQUERQ
QVE FALES
CEO NESTA
VILLA DE TOR
RES VEDRAS
AOS XXVII DE
DEZEMBRO
DE MDCCCXLVI


REQ. I. PAC.


É singular como em Torres e em pleno seculo XIX se lavrou tal inscripção; mesmo o caracter da lettra é archaico; parece que o entendido que fez o modelo para o lavor do canteiro poz esmero em imitar o antigo, e muito antigo.

Porque n’esta mesma egreja se encontram lettreiros dois seculos mais velhos sem tantos archaismos.

Sinos

Vi os de S. Pedro.

Um tem na fimbria Sanctus Deus e o nome Miguel Delmaco.

Outro: apprehende arma et scutum.

Miguel Delmaco, 1673.


Sineta: tem a data 1802.

Quinta das Lapas

A quinta está na branda encosta da serra da Achada. Esta serra e as outras d’estes sitios são grandes collinas mais ou menos declivosas, de 100 a 150 metros d’altura sobre os valles que as separam. Ás vezes as faldas das collinas alastram-se, desdobram-se em suaves encostas; em pontos alargam-se os valles em varzeas ferteis. O monte coroado pelas ruinas dramaticas do castello de Torres Vedras está rodeado de varzeas amplas. Nos banhos dos Cucos a chan, onde estão os hoteis, o casino, o jardim, o edificio das thermas, está cercada de montes de forte declive, semelhando uma cratéra, quasi completa, rota apenas por breve chanfro por onde passa o rio e a estrada que leva a Torres, e uma fraca depressão, mais a sul, que vae ter ao caminho de ferro, na visinhança dos pequenos tuneis. O terreno de quasi todas estas chans é de alluvião moderna, feita pelo Sizandro. O solo em que assenta a parte baixa da villa está hoje metro e meio mais alto que no seculo XVI, o que se manifesta em antigas construcções muito soterradas.

As varzes são ferteis e bem cultivadas; nas vertentes agriculta-se tambem, as vinhas ostentam-se viçosas; pinhaes forram grandes trechos das collinas, apresentando arvores bem desenvolvidas.

E bom seria que mais semeassem ou plantassem; um pinhal é util e agradavel, dá sombra e aroma hygienico; serve a lenha, a rama, a pinha; a moderna medicina com muita razão recommenda o ar do pinhal, e, tem-se visto nos ultimos annos, o córte de pinhaes para combustivel, para construcção, para supportes de galerias mineiras, dá bom dinheiro.

Até parece que dá saude o aspecto de um pinheirinho verde, de fresco avelludado, de perfume resinoso. Por isto pinheiro cortado, pinheiro semeado, e quantos mais pinhaes melhor, por esses montes onde o sol, o solo e a aragem se encarregam de o alimentar; se elle cresce que é um encanto até nos areaes da beira-mar onde a rajada do oceano chega a ser um açoute; porque o bom pinho formoso e hygienico não exige cuidados de cultura.

Por entre pinhaes mesclados de algumas vinhas e outras culturas segue a estrada de Torres para as Lapas; a principio do caminho rompe o bucolismo da paisagem a massa alvacenta da villa, e o seu outeiro escuro encimado pelas velhas muralhas do castello, os altos muros negros da sua alcaçova ou palacio, em tragica derrocada. Faz impressão aquella ruina; suggere tempos idos, historias mui velhas.


Torres mais antiga, já condado,
Por turdulos se crê ser erigida,
Por dote das rainhas, é morgado,
E de muitas já foi favorecida,
O Beato Gonçalo lá enterrado
Por milagres a faz ser mais luzida,
Assim como João a decorou
Nas côrtes que já nella celebrou.

Como diz o bom e patriota Silveira no Côro das Musas.

Passa uma curva da estrada, e deixa-se de avistar casaria nova e muralhas velhas; segue o caminho na verde paisagem campesina.

A estrada é boa, pouco frequentada, com aspectos variados, dominando o verde pinhal. De subito uma casaria branca de aldeia, uma egreja, e na encosta o palacio, bem ao sol, com as suas dependencias, os seus jardins, pomares, vinhas e matta de arvoredo alto.

Vê-se uma capella de boa construcção e logo uma entrada monumental, de ampla arcada; entra-se no terreiro; a um e outro lado edificações que são dependencias do palacio, na frente a fidalga residencia com larga escadaria e desafogada varanda. Todavia dá logo a impressão de edificio incompleto.

Á monumental entrada, á elegante escada não corresponde o edificio nobre que parece acanhado e por acabar. Houve alteração no plano, com certeza. A fachada que deita para o jardim é mais harmonica; a mansarda, os frisos azulejados dão-lhe graça.

O palacio, dizem, foi erguido pelo primeiro marquez de Alegrete, Manuel Telles da Silva, conde de Villar Maior. Foi feito marquez por D. Pedro II em 1687 (v. Diario de Noticias, de 17 de junho de 1902). Provavelmente foi começado, houve demorada construcção, soffreu alterações; a mansarda será do meio do seculo XVIII; é possivel que a escadaria seja da época de D. João V. Para admirar seria que nesses tempos um Telles da Silva, em poucos annos, observando um só plano, conseguisse erguer um palacio, chamados, como eram, os principaes da illustre familia, para altos cargos no reino, no ultramar e no estrangeiro.

Existe na matta uma capella, incompleta, dedicada a Santo André Avelino pelo conde de Tarouca, Fernando Telles da Silva, em 1778. E ha, noutro ponto da matta, uma ermida rustica, com seu alpendre, um pouco mais antiga.

No jardim alegretes e assentos são azulejados, representando scenas de caçadas.

As salas teem tectos de madeira e rodapé alto de azulejos, como as do palacio do Correio-Mór, perto de Loures, e as do casal do Falcão, perto de Carnide, agora felizmente restaurado, segundo ouvi dizer, sob a direcção do conhecido e estimado architecto sr. Raul Lino.

Nos jardins vi magnificas hortenses e na matta ulmeiros, pinheiros mansos, seculares medronheiros, sobreiros veneraveis. O meu amavel guia disse-me os nomes de algumas arvores, conservados na tradição familiar; o mais antigo é o sobreiro dos quatro irmãos, assim chamado porque a pouca distancia do solo o tronco se divide em quatro pernadas reaes, cada uma d’ellas como uma grande arvore.

Ha uma fonte de agua ferrea na matta, e outra numa alameda de ulmeiros, com um grupo em marmore, veado filado por um rafeiro; no outro extremo d’essa alameda deliciosa fica o jogo da bola.

Essas salas de grande pé direito, de chão ladrilhado, de lambris de azulejo, e tectos de madeira, conservando o ar antigo, não estão vasias ou despidas. Estas, felizmente, teem muito que vêr e respeitar.

Vi moveis antigos, cadeiras d’espaldar com os brazões de familia, grandes leitos de pau preto, com torcidos e lavores.

Os donos da casa fizeram abrir armarios e eu vi desfilar pratas antigas marcadas; ceramicas e crystaes, porcellanas de Sèvres, de Saxe, da India e Japão, de verdade e alto valor. Vi um copo de crystal lapidado com uma vista de Santarem, pintada no crystal, bem interessante: e um dragão de prata, perfumador enorme, trabalho pouco visto, que me disseram ser feito em Moçambique.

Nas paredes retratos de pessoas de familia, e que familia! esta dos Telles da Silva! É vêr ahi nas genealogias as séries de paginas com descendencias e arvores de costado mais frondosas que o sobreiro dos quatro irmãos. Até o venerando D. Manuel Caetano de Sousa escreveu uma obra em dois volumes (Bibliotheca Nacional de Lisboa. Manuscriptos, fundo antigo, C-3-16 e 17. N.ᵒˢ 1048-49), a respeito d’esta familia com o seguinte titulo bem curioso.—Corôa genealogica, historica e panegirica da Excellentissima Casa de Tarouca formada do purissimo ouro dos Silvas, illustrada com a esplendidissima pedraria dos Menezes, adornada com as augustissimas flores da Magestade, fechada com elevados semi diademas da Heroicidade, terminada na altissima esphera da Soberania, consagrada com a sempre venerada cruz da Santidade, dedicada ao ex.ᵐᵒ sr. D. Estevão de Menezes filho primogenito dos ex.ᵐᵒˢ srs. condes de Tarouca João Gomes da Silva e D. Joanna Rosa de Menezes—.

Pertence effectivamente a esta familia o celebre Beato Amadeu que tão grande fama conquistou na Italia.

Que singular encanto o de ouvir a dona da casa explicando alguns retratos de familia! Que consolação, neste paiz de gente estragada, encontrar um ninho conservado! Que rara impressão no conjuncto, milagroso entre nós, de tantas recordações e tradições, vivas, na mente, na linha, nas feições, na voz da herdeira lidima!

A um marquez de Penalva dizia o Tolentino:

Hontem soube o que podia
Estilo suave e brando
E quanto podeis fallando
Eu o vi na Academia
Nas almas fogo acendia
Vossa discreta oração,
Sobre a minha pretenção
Vos peço que assim oreis,
E que ao principe falleis
Como fallaes á nação.

Pois ainda está representado na familia o estylo suave e a discreta oração, louvados pelo poeta.

Poetas houve tambem nesta familia; poetas e eruditos, homens de guerra e de diplomacia; na Bibliotheca Lusitana estão inscriptos os notaveis nas lettras e sciencias. Por estas salas, jardins e bosques passearam academicos, não faltam sitios para tranquilla meditação. E no bello terreiro desafogado com certeza se trabalhou na nobre arte da cavallaria; talvez se corressem touros e jogassem cannas; houve tambem na familia cavalleiros notaveis, mestres reconhecidos na equitação, tratadistas na especialidade.

Porque se chama quinta das Lapas? Ha por aqui algumas lapas, grutas, cavernas? Parece que houve lapas a que se attribuiam lendas de mouros. Perto de casa ha uma vinha, um grupo de pinheiros mansos, uma elevação de terreno de poucos metros de altura; ahi umas cavidades consideraveis. Parece que em tempos alguem fez excavações; acharam cacos, louças partidas. Tudo se extraviou.

Seria uma mamunha? Um d’aquelles tumulos prehistoricos, em que as sepulturas eram cobertas por um monticulo artificial? Não sei, o que hoje se vê pouco significa.

Numa construcção ou pavilhão de fresco perto do jardim fui encontrar no embrechado que reveste as paredes interiores alguns exemplares de contas vitreas coloridas de fabrico egual ao das contas de Chellas, da capella (desapparecida) das Albertas, e da cascata da Quinta do Meio. Aqui tambem estas singulares contas são acompanhadas de cylindros, discos, etc., de vidro escuro. Continúa para mim a ser um problema a proveniencia de taes objectos.

O caminho dos Cucos

Pela avenida ampla, arborisada, chega-se á estação do caminho de ferro, que nos fica á direita; está á vista o castello ennegrecido e escalavrado, no seu morro severo destacando entre as collinas; o caminho passa sob a via ferrea; passa a ponte do Rei, sobre o Sizandro; vamos entre vinhas e arvoredos; agora a arcada do aqueducto; á direita uma ermida antiga com umas construcções, ao lado um portão com seus enfeites; era a albergaria de S. Gião, ou Julião. Lá se conservam inscripções que nos dizem que os sapateiros da villa no anno de 1359 (era 1397), construiram o modesto albergue, cuja instituição se incorporou na Misericordia em 1586. Os confrades de S. Gião ahi ouviam missa aos domingos. Um respeitador de antiguidades renovou a inscripção em 1849.

Pouco adiante, á esquerda da estrada, indo para os Cucos, existe uma quinta de construcção vistosa, a quinta das Fontainhas, com seu terraço e jardim, onde se lê um lettreiro, na parede occidental da casa, que diz:

Sua Alteza Real
O sern.ᵐᵒ principe o sr. D. João
e a seren.ᵐᵃ princ.ᵃ
a sr. D. Carlota Joaquin
e o sr. infante D. Pedro Carlos
jantaram n’esta quinta
no dia 16 d’outubro
de 1797.

Este infante D. Pedro Carlos tinha então dez annos. D. Marianna Victoria, filha de D. Maria I, casou com D. Gabriel, infante de Hespanha. Deste casamento nasceu o infante de Hespanha D. Pedro Carlos de Bragança e Bourbon, que foi almirante em Portugal. Nasceu em Aranjuez em 18 de julho de 1787, e falleceu no Rio de Janeiro a 26 de maio de 1813. Este infante casou, no Rio, em 1810, com D. Maria Thereza, princeza da Beira.

Os banhos dos Cucos são conhecidos de ha muito; a virtude singular d’esta agua já em épocas remotas attrahia enfermos.

Ainda existem as casinholas onde se abrigavam os miseros banhistas.

Hoje as installações hydrotherapicas das thermas dos Cucos são boas, feitas com largueza, direi mesmo com generosidade. O edificio das thermas, a casa dos machinismos, o amplo casino, os dois grandes chalets, e outras construcções, rodeiam um grande rocio ajardinado e arborisado. A grande obra começou em novembro de 1890; em julho de 1892 já as thermas funccionavam, provisoriamente; em 15 de maio de 1893 realisou-se a inauguração. Todavia não está cumprido o programma inicial, faltam chalets, e recreios para os banhistas, ou para as pessoas de familia que acompanham os enfermos. O principal está feito, e isto deve-se á coragem do opulento proprietario sr. José Gonçalves Dias Neiva. Á coragem e á generosidade, porque me affirmaram que embora a frequencia seja grande já, todavia nem 2% rende o capital alli empregado.

Como o estabelecimento thermal fica a dois kilometros de Torres Vedras, muitos banhistas ficam nos hoteis da villa, que são regulares, e em algumas casas particulares.

A villa lucra com isto dezenas de contos annualmente, todavia nem o municipio nem os habitantes se esforçam por tornar a villa aprazivel aos seus hospedes; nem commodidade, nem distracções; nada que realce a natural belleza d’aquelles sitios. Bem lindos são os arredores da villa, convidando a pequenos passeios campestres, mas raras as estradas que prestem, as de macadam cheias de poeira, as primitivas de barrancos e pedregulhos. Uma das questões locaes é o abastecimento de aguas potaveis; esta porém não importa muito aos banhistas, que quasi todos consomem a agua dos Cucos. Eu não bebo d’outra; faz bem e é agradavel, com o seu ligeiro sabôr salgado. Liga-se optimamente com o vinho. É uma excellente agua de mesa que os sãos, não só os enfermos, tomam com agrado. Melhoram o appetite e facilitam a digestão.

Esta agua, que tem o maravilhoso lithio, é muito pura segundo a analyse microbiologica, feita em 1904, pelo illustre chimico Carlos Lepiérre.

Os pobresinhos teem tratamento gratuito nos Cucos; a poucos utilisa esse beneficio porque nos Cucos não encontram albergue ou hospital. Para isto me parece deveria olhar a Camara Municipal e a Misericordia de Torres Vedras; proximo dos Cucos um albergue gratuito para pobres seria um grande bem. E ainda outro de preço muito moderado, uma hospedaria simples, a simplicidade não exclue o asseio e hygiene, de alimentação singela e mobilia barata, onde os menos remediados encontrem agasalho.

Parece facil, isto. Naquelle chanfro do terreno que liga a grande varzea dos Cucos ao sitio dos pequenos tunneis do Caminho de ferro seria facil construir modestos albergues, pequenas moradas de construcção economica.

É generoso o coração do sr. Neiva, consideraveis os seus bens de fortuna, e effectivo o seu altruismo, mas em emprezas destas é bom interessar differentes entidades, para que se uma esmorecer, outras continuem a obra, a util obra começada.

Encontrou o sr. Neiva um ajudante dedicado no dr. Justino Xavier da Silva Freire, director medico das thermas. É um clinico sensato, naturalmente lhano, muito accessivel, attencioso aos muitos enfermos. Que longas narrativas das massadoras enfermidades elle escuta com delicada paciencia, conseguindo extrahir das confusas exposições a historia da doença, o fio do caso, os antecedentes do enfermo. Os seus relatorios annuaes das thermas são muito instructivos e tão nitidamente escriptos que qualquer cliente os comprehende, aproveitando com a leitura.

As aguas dos Cucos são chloretadas, sodicas, bicarbonatadas, sulfatadas, lithinicas, etc. Encontram os chimicos nellas o brometo de sodio, o chloreto de sodio, os bicarbonatos de calcio, de estroncio, e de manganez, o chloreto de magnesio. Pois esta complexidade toda produz uma agua limpida, muito potavel, agradavel ao paladar. Mas o que lhe dá virtude primacial é o chloreto de lithia que em 1:000 grammas entra por 0,0212.

É isto que torna esta agua preciosa para gottosos e rheumaticos. Faz bem aos intestinos, e combate a obesidade.

Casa dos Clerigos pobres

Junto á egreja de S. Pedro está a casa da irmandade dos Clerigos pobres.

Tem nas paredes quadros em azulejo que estranhei um pouco pela composição artistica. São copias de gravuras; o ingenuo pintor até copiou as assignaturas da chapa

Author Claud. Coell. delin.
Fran. Houat. sculp.

que significa Claudio Coelho desenhou e Francisco Houat gravou. No tecto d’esta casa estão pintados em tela os quatro evangelistas. Acham-se mencionados nas Memorias de Volkmar Machado (pag. 318); são de Bernardo Antonio de Oliveira Goes. O pae d’este, Manuel Antonio de Goes, era pintor de figura e pintou muitos azulejos. Vi outras telas que me pareceram do mesmo pincel na egreja da Graça.

O Asylo da Conquinha

Fica este asylo a breve distancia de Torres, uns vinte minutos de agradavel passeio a pé. Segue-se a estrada da Varzea, entra-se no amplo valle, vestido de culturas, arvoredos fructiferos, bellos vinhedos; ao lado da estrada fica um edificio moderno de aspecto alegre e confortavel, convidativo, é o asylo de S. José; como o sitio se chama a Conquinha, é vulgarmente conhecido por este nome. Santa instituição! Foi este asylo fundado e dotado pela benemerita D. Maria da Conceição Barreto Bastos, fallecida em 21 de maio de 1901. Velhinhos impossibilitados de trabalhar encontram aqui agasalho e sustento, abrigo tranquillo nos seus ultimos annos de vida.

A casa é cercada por ampla quinta bem cultivada com seus jardins floridos, e bellas arvores de fructa. Tudo muito asseiado e confortavel; mais me agradou ainda o ar satisfeito dos asylados, felizes naquelle ninho de caridade. A fundadora instituiu tambem uma escola, na villa, para meninas, com ensino gratuito; a sua memoria deve ser abençoada; o seu nome gravado no marmore dos benemeritos, e no coração de todos os que veneram estes bons exemplos do incondicional altruismo christão. Quando alli estive, visita casual, era gerente ou director do asylo, o sr. conego prior Antonio Francisco da Silva, cujo nome ouvi cercado pelos asylados da Conquinha com palavras de respeito e gratidão.

Ruços, além!

Preparava-se a jornada de Ceuta.

Havia cabeças enthusiastas, e cabeças duvidosas; timidos e prudentes ao lado dos muito ousados. El-rei D. João I estava em Cintra com os infantes; mandou convocar os do Conselho para Torres Vedras; eram o conde de Barcellos, o condestavel D. Nuno, os mestres das ordens de Christo, de Santiago e d’Aviz, o prior do Hospital, Gonçalo Vaz Coutinho, Martim Affonso de Mello, João Gomes da Silva, muitos outros senhores e fidalgos.

Nesses dias Torres Vedras acolheu muitos cavalleiros de espora dourada, os grandes senhores territoriaes e militares do paiz.==El Rey partio de Cintra, e foy folgando por aquella comarca de Lisboa caminho de Torres Vedras (isto conta o Azurara, na Chronica de D. João I, parte 3.ᵃ, cap. 24) e antes disto chegando El-Rei a Carnide, o infante Dom Enrique que muito desejava por seu corpo fazer alguma cousa aventejada, chegou a seu padre e disse: Senhor, primeiro que por estes feitos mais vades adiante, porque com a graça de Deos vem já por tal via, que viram a boa fim, eu vos peço por mercê que me outorgueis duas cousas. A primeira que eu seja hum dos primeiros, que filhe terra quando a Deos prazendo chegarmos davante da cidade de Ceita; e a segunda que quando a vossa escada real fôr posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquelle que vá primeiro por ella, que outro algum.

Isto disse em Carnide o infante D. Henrique a el-rei D. João; estranho requerimento para a morte na vanguarda extrema, bem natural ao forte coração do rapaz. Chegou el-rei a Torres Vedras, e logo teve uma falla com o condestavel.

Este approvou o plano e prometteu ao rei a sua influencia favoravel...

Tratou-se logo do corregimento da casa para o conselho a qual era hua sala dianteira, que está em aquelles paços de Torres Vedras, onde está a capella.

Numa quinta-feira o rei e seus filhos ouviram missa do Espirito Santo, naturalmente na egreja de Santa Maria, que era capella real.

Celebrou-se o conselho; foi elrei que publicou o fim da reunião; depois fallou o condestavel approvando a jornada, e o infante D. Duarte no mesmo sentido. Mas havia gente duvidosa, novos que temiam o risco, e criticavam o arrojado plano. Então surgiu um dito que fez época.

João Gomes da Silva, que era homem forte e ardido, cujas palavras sempre traziam jogo e sabor, levanta-se no meio dos indecisos e exclama dirigindo-se a elrei==Quanto eu, Senhor, não sei al que diga senão, ruços, alem, apontando para o sul, na direcção do Algarve d’alem mar, e isto dizia porque elrei e os mais dos que alli estavam tinham já as cabeças cheias de cans. Elrei e os mais riram-se, e assim folgando fizeram fim de suas falas==. Terminaram o conselho a rir-se, os valentes e audazes; iam para Ceuta, para a conquista africana, o inicio glorioso dos descobrimentos, para esse triumpho e sacrificio incomparavel da nacionalidade portugueza. Pois esse grito ruços, alem, ouviu-se nos paços reaes de Torres Vedras. (Azurara, parte 3.ᵃ da Chronica de D. João I, cap. 26).

Passeio a Santa Cruz de Ribamar

No dia 27 de setembro de 1905, depois do banho e do almoço, em commodo trem, fui a Santa Cruz.

A estrada vae ao campo do Amial, pelo sopé do monte de S. Vicente, que nos fica á direita; depois pela esquerda a falda do Varatojo. A estrada segue na grande varzea, comprida e ampla, importante, onde o Sizandro abre o seu leito.

Vinhas magnificas, cepas fortissimas carregadas de esplendida uva. A estrada incómmoda pela muita poeira. Fiz uma paragem na quinta dos Chãos, á direita do caminho. Pouco dista da estrada, bem accessivel ao trem. A velha ermida serve de armazem; só me chamou a attenção uma pedra com lettreiro, do seculo XV, solta, na pequena sacristia; não tirei apontamento porque imaginei que a tinha visto publicada nas Memorias de Torres Vedras. Verifiquei depois que não está! seria bom, e creio que facil, recolher a pedra na Camara Municipal, onde se guardam já algumas pedras significativas na historia de Torres Vedras. Alguns homens cavavam; eu vi a descoberto um grosso paredão de alvenaria em argamassa mui antigo.

No terreno d’esta propriedade teem apparecido por vezes vestigios romanos; provavelmente existiu alli alguma villa rustica.

Seguindo o passeio. Passamos por boas propriedades, e alguns grupos de casaes.

Os campos estão animados, as estradas concorridas; é uma festa agora; a grande festa das vindimas. Tudo sorri com os bellos racimos do divino Baccho, doce e aromatico.

Calcula-se em 80:000 pipas a producção do vinho no termo de Torres Vedras; mas este anno ha crise de fartura, os preços estão muito baixos; queima-se por isto muito vinho para fazer aguardente, que se vende de 80 a 85 mil réis a pipa de 534ˡ,24, posta em Villa Nova de Gaya.

Todos estes terrenos são de alluvião moderna, mas passadas tres quartas partes do caminho começa a apparecer a areia maritima. Cultiva-se milho, feijão frade, grão de bico.

Passamos junto de alguns moinhos em grande businada, as cordas cheias de louça, dezenas de vasos de barro; os moleiros d’estes sitios são grandes amadores d’esta musica.

Passamos por alguns pinhaes, e chegamos a Santa Cruz, logar formado por algumas casas antigas, e bastantes modernas.

É a praia balnear de Torres Vedras. Pessoas abastadas da villa e de logares proximos aqui mandaram construir vivendas, nas arribas de ar lavado pela brisa do Atlantico. A praia é bonita; uma fita de areia branca, de brando declive, abrigada pelas escarpas não muito altas, de aspecto severo, formadas pelas rochas de colorido variado. Um grande rochedo alteroso destaca na praia. Foi accessivel em tempo, porque ainda se observa a certa altura um lanço de escada talhado na rocha; mas as vagas esboroam a base. Talvez servisse de atalaia para descobrir corsarios mouriscos, ou marcha do peixe, da baleia, por exemplo, frequente por este mar em tempos idos. Pelos piratas mouros ou corsarios argelinos foi a costa visitada, parece que com certa frequencia, ao que dizem velhas chronicas. Do alto da arriba o mar apresenta o aspecto de amplo golpho; a norte prolonga-se, entrando muito pelo oceano, a peninsula de Peniche, e em frente avistam-se nitidamente os rochedos das Berlengas e Farilhões. Notei aqui um facto talvez interessante; avista-se um largo trecho da costa, escarpas de 40, 30 e 20 metros de altura; em certo ponto a escarpa é mais baixa, chega talvez a quinze metros; por ahi sobem as areias que vão alastrar-se terra dentro; vê-se a duna encostada á rocha nos outros pontos que não vence; pára ante o obstaculo; alli vence, entra pelo chanfro.

E poderá ainda marcar-se a historia da invasão porque na chronica do Purificação ao tratar de Ribamar e do convento de Pena Firme se mostra que ainda no seculo XVII o terreno não estava vestido pelo manto de areia em tamanha extensão.

Logo de entrada encontrei, bem agradavel surpreza, o sr. Rodrigues da Silva, cavalheiro que eu já conhecia de Torres Vedras; é sabedor da historia da villa e termo, amador de antiguidades, e muito amavel companheiro; com elle fui vêr o monumento funerario mandado fazer por Valerio e Julia, que se conserva no logar marcado nas Memorias da Villa de Torres Vedras (pag. 20 da 2.ᵃ ed.), e no Corpus. A distancia de poucos metros vê-se uma sepultura, algumas lages cravadas no solo, marcando perfeitamente o vão sufficiente para um corpo humano. Parece que em tempos se viam alli vestigios de outras sepulturas; a que existe agora está á beira da escarpa; mais alguns annos e o embate das vagas a fará desapparecer.

Na ermida de Santa Cruz, ou de Santa Helena, vi uma imagem d’esta santa que me pareceu anterior, pela rudeza e ingenuidade da esculptura, ao seculo XVI.

Na missa e no mercado

No domingo, 14 d’agosto de 1904, assisti á missa na egreja de S. Pedro. Muita gente, com bastante respeito. Á sahida fiz de janota parado á porta da egreja para vêr o desfilar dos devotos. Primeiro os homens dos campos, das vinhas, com seus varapaus; mulheres do campo de chale, lenços mal postos na cabeça, á larga. Seguiram as mulheres da villa; caras agradaveis poucas, expressões duras não estupidas nem alvares; na grande maioria cabellos castanho-escuro; cabellos pretos mais raros; algumas cabelleiras ruivas, e algumas pelles sardentas.

Cabellos corredios, na maioria, poucos em madeixas.

Alguns olhos azues, pelles avermelhadas.

Homens de construcção regular, as mulheres de thorax estreito, pouco seio, mal geitosas.

Durante a missa os homens não largam os varapaus; quando ajoelham vê-se grande numero, porque se encostam, e não deitam no chão o inseparavel.

Usam o simples marmelleiro ou zambujeiro, raros os paus ferrados.

As mulheres usam poucos ornatos, e pouco ouro.

No terreiro proximo da egreja faz-se o mercado. Vendiam melões, melancias, uvas lindas, brunhos varios, maçãs grandes, variedade de peras, aboboras, tomates, pouca hortaliça.

No mercado de peixe, atraz da egreja, sardinha e sarda, fresca e salgada, cação, gorazes; o peixe vem de Nazareth e de Peniche.

Mulheres do campo aviavam os seus cabazes; levavam pão, meio cento de sardinhas, meia duzia de sardas.

A um cantinho do mercado estavam algumas mulheres com polvo, mexilhão, caranguejos grandes. Não faltava a mulher dos tremoços e da pevide de abobora. Dois homens vendiam planta de couve. Vi ainda vendedores de enxadas, e de calçado forte, sapatos de dura.

Os homens na maioria usam botas altas.

Todo o povo d’estes sitios é calçado, só por excepção vi gente descalça. Isto de pé descalço é uma inferioridade, que talvez acabasse com um pequeno impulso.

Dizem-me que a gente hespanhola está toda calçada já, tem conseguido o sapato e a alpargata de preço baixo. Talvez que as commissões parochiaes de beneficencia podessem resolver o problema. Eu acho o pé descalço uma cousa deprimente, que entristece.

Na pequena praça do Municipio (em 1904) faz-se o mercado da batata; mal se transitava tanta era a saccaria; vende-se a batata arrobada; pareceu-me de boa qualidade. Em 1905 este mercado fazia-se no largo de S. Thiago.

Pelas lojas nas ruas proximas grande freguezia, de gente dos arredores que ao domingo vem mercar á villa.

Ha movimento commercial em Torres, lojas com muitos contos de réis em existencia. A villa é pequena mas os arredores são muito povoados.

Vi industria de ferragens e mobilia especial, com algum geito.

Pelo aspecto geral é gente que trabalha, sobria, um tanto rude.

É escusado dizer que o fomento official é nullo, depois da pobre escola primaria nada mais; algumas creanças vão de Torres ao Varatojo! para aprender alguma cousa; uma caminhada de uma hora.

Aqui em Torres seriam uteis uma aula de desenho, outra de agricultura, e uma terceira de arithmetica e geometria com ensino especial de contabilidade; porque esta villa é centro de uma região agricola importante, tem commercio grande e pequeno, e industrias que se devem desenvolver.

A feira franca

(21 DE AGOSTO DE 1904)

Na grande varzea em parte arborisada faz-se esta feira muito concorrida pela gente d’aquelles sitios; a região de Torres Vedras é bastante povoada; aldeias e logarejos, boas quintas, casaes, matizam os campos accidentados, as collinas entremeadas de valles e varzeas ferteis.

Este rocio onde se faz a feira tem ao lado a casaria da villa, ao norte o monte onde se ergue o castello, entre olivedo e paredões negros alveja a egreja de Santa Maria, muito caiada; mais longe e mais alto o monte de S. Vicente; a poente do rocio a serra do Varatojo, vestida de vinhedos. Na parte arborisada enfileiram-se barracas e tendas, no rocio nú é a feira de gados e a corredoura.

As barracas de ourivesaria agrupam-se com as dos utensilios de arame, cobre, ferro estanhado, latoaria. As dos vidros estão perto do grande estendal de louças branca e vermelha.

A louça ordinaria, popular, provém das differentes olarias do termo de Mafra, a branca vem de Alcobaça.

A notar um especialista de buzinas de moinhos de vento, aquellas vasilhas de barro, que assobiam e zumbem quando o vento apressa o movimento das quatro velas triangulares.

Vende-se calçado grosso, bastante correaria, não faltando as sogas ornadas, bordadas a pita colorida.

Pequenas quinquilherias, modestas roletas variadas formam uma rua, leiloeiros de varias qualidades chamam a gritos a attenção do povinho, perto das barracas de tiro ao alvo.

Num espaço grande estão as madeiras; o que mais dá na vista é o material vinario; é natural, estamos numa grande região vinhateira.

Cubas, toneis, balseiros, barris, celhas, tinas em abundancia; de castanho, as mais; algumas de pinho da terra, genero barato. Carros para bois, e tambem de pequenas dimensões e de construcção mais leve para burricos. Ha especialistas em arcos, e negociantes de varedo, assim como de crivos e peneiras.

Menos importante a feira do gado; bastantes porcas com leitões, poucas juntas de bois, pouco e inferior o gado cavallar e asinino.

Pareceu-me em geral mal tratado o gado, tanto na feira como no que observei fóra.

É mais a pancada que a alimentação regular.

Já se vê não faltavam as barracas de comer e beber, com os seus fritos alourados, e constante freguezia.

Comia-se bem, bebia-se melhor; homens e mulheres espatifavam acerejadas gallinhas, consumiam patos com arroz cheirando que era uma delicia, e sorviam as talhadas dos sumarentos e aromaticos melões, atirando as cascas aos porcos e leitões grunhindo pela gulodice.

A impressão geral é de atrazo, de educação nulla ou rudimentar; de trabalho mau com inferior alfaia, todavia gosto de vêr o povo rural nestas feiras; é naturalmente são; um tanto brutal nos costumes, se ninguem trata d’elle! mas de bom fundo.

Estamos longe d’aquelles camponios insolentes, turbulentos, cupidos, eivados d’alcoolismo, devastados por seitas ferozes, que preoccupam em Allemanha, na Italia, na França a gente que pensa e vê alguma cousa.