ACTO PRIMEIRO
QUADRO PRIMEIRO
Casa de Petronio em Roma. A um lado, a estatua de Petronio, em marmore. Sobre uma meza, frascos varios de aguas, de oleos; escovas, pentes, ferros de frisar. Duas escravas ethiopes e duas brancas, o rodeiam. As negras acabaram de o pentear.
ESCRAVA BRANCA
Que manto? (as escravas negras sahem)
PETRONIO
O azul. (a escrava sahe e traz)
EUNICE, que, de joelhos, compõe a tunica
Bello... como um Deus!
PETRONIO, sorrindo, delicado
«Animal impudens», de Séneca.
O INTRODUCTOR
O consul Marcos Vinicio.
PETRONIO
Oh!
MARCOS grave
Salve, Petronio!
PETRONIO
Salve. Sê bem vindo em Roma. Que o repouso te seja grato depois da guerra.
MARCOS
Que os Deuses te sejam propicios, sobre tudo Asclépias e Cypris.
PETRONIO
Que o tal Asclépias me perdôe; não tenho fé n'elle. Um Deus cuja mãi se ignora! Sabe-se lá se é filho de Arsinoé ou de Corónida? Que fará do pai! Quem, por estes tempos que correm, pode ter a certeza de ser filho... do pai? (Marcos, ri contrafeito) Estás preocupado?
MARCOS
... Não.
PETRONIO
Dos Asclepiades já tive de me servir, o anno passado... para a bexiga. Sabia que eram charlatães; mas o mundo repousa sobre o charlatanismo e a vida mesmo não é senão uma illusão! O que é precizo é saber distinguir as bôas illusões das más. Eu mando aquecer a minha estufa com madeira de cedro, pulverisada com ambar, porque prefiro os perfumes aos máus cheiros. Quanto a Cypris, a quem me recomendaste, devo-lhe o ter coxeado, amorosamente, dois mezes; mas, emfim, é uma bôa deusa a quem espero sacrificarás, em breve, as brancas pombas.
MARCOS
Talvez. Se as flechas dos Parthas me não alcançaram, em compensação, fui tocado pelas do Amôr, d'uma maneira imprevista.
PETRONIO
Sim?
MARCOS
A dois passos das portas de Roma.
PETRONIO
Pelas Graças! conta-me isso.
MARCOS
Tanto mais que precizo do teu conselho...
PETRONIO
É escusado perguntar se o teu amôr é correspondido! (olhando-o) Se Lysias te tem conhecido, ornavas, hoje, a porta do Palatino sob a fórma d'um Hercules juvenil. (Eunice offerece-lhe e põe-lhe o manto)
MARCOS (olhando a escrava)
Por Zeus, que bella escolha! Mais bello corpo não se encontrará nem em caza do Barbas de Bronze, d'esse famoso Nero, teu amigo.
PETRONIO
Tu és meu parente... e eu não sou egoista; nem tão austero, como um Aulo Plaucio...! Se queres...?
MARCOS
Como te veio á ideia Aulo Plaucio? É d'elle que te venho fallar.
PETRONIO
Estarás, tu, por acaso enamorado de Pomponia, sua mulher? Diabo! Velha... virtuosa... Lamento-te.
MARCOS
Não é de Pomponia. Oh! Não!
PETRONIO
De quem?...
MARCOS
Nem sei. Nem sei mesmo o seu nome. Lygia? Calina? Chamam-lhe Lygia porque é do paiz dos Lygios; mas o seu nome barbaro é Calina. Estive doente em caza d'esse Plaucio, por um accidente de viagem...
PETRONIO
Qual?
MARCOS
Desloquei um pé, n'uma queda do cavallo... É uma caza estranha: cheia de gente e silenciosa como um bosque sagrado. Durante quinze dias, ignorei que uma deusa a habitasse. Vi-a, uma manhã, a banhar-se n'um tanque, sob as arvores. E... juro-te pela espuma d'onde nasceu Aphrodite... os raios da Aurora brincavam atravez do seu corpo! Julguei-a uma apparição, uma sombra que os raios do sol nascente dissipassem, como um crepusculo! Desde então, não tive mais tranquilidade; não tive mais descanso; não tive outro desejo; não vejo outra mulher! Tudo me merece desprezo; o oiro, os bronzes de Corintho... Aborreço os vinhos, os festins; só vejo, só quero Lygia! O mundo para mim é ella... e só ella!
PETRONIO
É uma escrava de Plaucio? Compra-lh'a.
MARCOS
Não é uma escrava.
PETRONIO
Uma liberta, então?
MARCOS
Se nunca foi escrava, como pode ser liberta?
PETRONIO
Quem é, pois?
MARCOS
A filha d'um rei.
PETRONIO
Hein? Começas a intrigar-me...
MARCOS
É filha de Vanio, rei dos Suévos.
PETRONIO
O que teve guerras, no tempo de Claudio?...
MARCOS
Com os sobrinhos; que levantaram, contra elle os Lygios, terriveís na rapina. Claudio, temendo pelas fronteiras, mandou Hister, legionario do Danubio, que vigiasse para que a paz não fôsse alterada. Hister exigiu aos Lygios a promessa de não invadirem a fronteira, e, como refem recebeu a filha e a mulher do chefe.
PETRONIO
D'onde sabes, tu, isso?
MARCOS
Contou-m'o Plaucio, elle proprio. Na guerra o rei dos Lygios morreu. Hister ficou com a mãi e a filha. A mãi morreu pouco depois, e Hister para se desembaraçar da creança, mandou-a a Pomponio, governador da Germania e vencedor dos Gathes. Quando Pomponio entrou em Roma, em triumphador, a pequena Lygia seguia o seu carro; mas como era um refem e não uma escrava, Pomponio entregou-a a sua irmã, mulher de Aulo. N'esta caza onde tudo respira virtude, cresceu, tão virtuosa e tão pura, que ao pé d'ella, Poppêa, que passa pela mulher mais bella de Roma, é como um figo do outomno, ao pé d'um pômmo das Hesperides!
PETRONIO
E, então?
MARCOS
Repito-te, desde que vi a luz brincar atravez do seu corpo...
PETRONIO
Ella é então transparente como uma lampreia...!
MARCOS
Não gracejes, Petronio.
PETRONIO
Pois bem, diz-me o que queres, claramente.
MARCOS
Quero Lygia! Quero que os meus braços a apertem; que a minha bôcca respire na sua bôcca! Se fosse uma escrava daria por ella cem virgens! Quero-a, eis tudo! Têl-a, guardál-a, até que a minha cabeça branquêje como a crista do Sorate, no hinverno!
PETRONIO
... Se não é uma escrava, é, em todo o caso uma rapariga abandonada. Plaucio póde ceder-t'a, se quizer.
MARCOS
Não conheces Plaucio nem Pomponia sua mulher? De resto, amam-na como filha!
PETRONIO
Pomponia? conheço: é um cypreste! Tem o ar de quem vive n'um cemiterio. Mas é, diga se, mulher d'um homem só; o que faz que entre as nossas romanas, quatro e cinco vezes divorciadas, seja uma phenix!
MARCOS
Mas... Petronio...
PETRONIO
Que queres que te diga, meu caro Marcos? Conheço muito bem Aulo Plaucio, como elle conhece o meu modo de pensar e o meu modo de viver. Se pensas que poderei obter alguma coisa d'elle, francamente, parece-me que te enganas.
MARCOS
O teu espirito é inexgotavel em expedientes...
PETRONIO
Exageras.
MARCOS
Todo o mundo te conhece.
PETRONIO
Como o rei da elegancia? sim. É o meu reino. Se fosse o da Lygia eu não teria senão prazer em te offerecer a minha filha, bello e amoroso consul.
MARCOS
Não fallarás a Plaucio?
PETRONIO
... Não. É inutil. Mas... fallarei a Cezar.
MARCOS
Melhor ainda...
PETRONIO
Se Lygia é um refem, Cezar pode dispôr d'ella, pode offerecer-t'a.
MARCOS
Fallar-lhe-has, então?
PETRONIO
Sim.
MARCOS
Hoje mesmo?
PETRONIO
Hoje... talvez. É precizo esperar occasião de o poder louvar, pelo canto, ou pelos versos, ou pela aptidão de cocheiro, de actôr... A proposito, fazes versos?
MARCOS
Nunca pude arranjar um hexametro.
PETRONIO
Não tocas cithara, nem alaúde?
MARCOS
Não.
PETRONIO
Não guias um carro?
MARCOS
Tomei, uma vez, parte n'umas corridas em Antiochia; mas fui infeliz.
PETRONIO
Bem. Estou descançado a teu respeito. O melhor é não fazer nenhuma d'essas coisas e admiral-as, muito, nos outros... sobretudo em Cezar. És bello e Poppêa pode agradar-se de ti. É um perigo. Nero não t'o supportaria. É verdade que Poppêa está uma mulher experiente: d'amôr os dois primeiros maridos saciaram-na; Nero é para outra coisa.
MARCOS
Que é feito de Othon?
PETRONIO
O terceiro? O pobre homem ama-a ainda loucamente. Anda a choral-a sobre os rochedos da Hespanha. E, dizem, que de tal modo perdeu os habitos da galanteria, que hoje, com o penteado, só gasta tres horas por dia!
MARCOS
Eu, no caso d'elle, fazia outra coisa.
PETRONIO
O quê?
MARCOS
São valentes e duros soldados os da Iberia! Recrutaria umas legiões fieis...
PETRONIO
Marcos, Marcos! Essas coisas fazem-se, mas não se dizem, nem como hypotheses... Eu, no logar d'elle, rir-me-hia de Poppêa e de Nero: arranjava uma legião, mas não era de homens, era de mulheres!... (Eunice entra com um frasco.) Ah! a verbena. (deita nas mãos e esfrega as fontes) Não imaginas como isto vivifica, dá fôrça!
MARCOS
Mas... Lygia...
PETRONIO
Sim, homem, descança.
MARCOS
Não posso, Petronio. Se eu não consigo comer nem dormir! Vou passeiar um pouco pela cidade, mover-me, andar, distrahir-me...
PETRONIO, reparando
É verdade, tu não fizeste a barba, hoje!
MARCOS
Nem hontem!
PETRONIO, toma-lhe o pulso
Tens febre. Escuta. Eu não sei o que te prescreveria um medico, um d'esses asclepiades; mas sei o que eu faria no teu logar. Sim... eu sei o que é o amor, e, que quando se deseja uma mulher, nenhuma outra a póde substituir! A belleza, porém, encanta sempre; e uma bella escrava...
MARCOS
Não, não quero.
PETRONIO
A novidade faz esquecer... por um novo desejo... (Pondo a mão no hombro de Eunice, que lhe offerece, de novo a verbena) Repara, um pouco, n'esta filha de Cós. Ha dias, o joven Fonteio offerecia-me por ella tres admiraveis éphebos: tres maravilhas dignas do pincel de Scopas! (olhando-a com interesse) É curioso; como não dei ha mais tempo pelos seus encantos? No entanto, dou-t'a, leva-a.
MARCOS, apertando a cabeça
Não, não a quero: não quero ninguem! Obrigado. Vais d'aqui ao Palatino, ao palacio de Cesar?
PETRONIO
Vou.
MARCOS
Bem... Voltarei mais tarde. Vou á outra margem do Tibre...
PETRONIO
Não. Vais almoçar comigo. Eunice?
EUNICE
Meu senhôr.
PETRONIO
Tomarás o teu banho: ungirás o teu corpo, com os melhores perfumes, e irás para casa de Marcos Vinicio.
EUNICE, ajoelhando-se
Ó, meu senhor, não! Não me façais sahir da vossa casa! Prefiro ser, aqui, a ultima das vossas escravas! ser açoitada todos os dias, contanto que me não deis a ninguem! Não posso, tende piedade de mim! Não posso! não posso!
PETRONIO, surprehendido
Hein?
EUNICE
Repito-vol-o, senhôr. Não irei para caza de Marcos Vinicio. Não sahirei de vossa casa. Tende piedade! Sêde bom, como sois!
PETRONIO
Vai chamar Teirésias. (Eunice sahe)
MARCOS
Petronio, eu não a quero. Nem a ella nem a nenhuma. Deixa...
PETRONIO (brandamente)
Uma escrava!
MARCOS, vendo entrar Eunice e Teirésias senta-se a lêr
Perdôa-lhe.
PETRONIO, a Teirésias
Leva Eunice, e dá-lhe quinze chibatadas. (baixo) Com geito para lhe não estragares a pelle. (a Marcos) O que lês?
MARCOS
O teu livro: o Satyrikon. Já não fazes versos?
PETRONIO
Não. Desde que Nero é poeta e os faz... É perigoso.
MARCOS
Se amasses!
PETRONIO
Hoje? Ser-me-hia precizo encontrar... uma Lygia.
MARCOS
Uma deusa! Alcançar-ma-has, Petronio?
PETRONIO
Será tua. Quanto se pode responder por Cezar, respondo.
MARCOS
Tu és filho de minha irmã e por isto me foste sempre muito caro; mas, agora, collocarei, nos meus lares, uma estatua tua, (indicando a estatua de Petronio) tão bella como esta e offerecer-lhe-hei sacrificios. (vendo a) Tu és verdadeiramente bello, Petronio! Se Páris era assim, Helena teve razão na escolha.
PETRONIO
Chamam-me o Rei da Elegancia, Marcos. (Eunice entra de semblante alegre) Recebeste as chibatadas?
EUNICE
Sim, meu senhor, quinze, só!
PETRONIO
Só! (a Marcos) Não comprehendes?
MARCOS
Não.
PETRONIO
Comprehendo eu. (a Eunice) Tu tens um amante, aqui?
EUNICE, joelhando-se-lhe aos pés
Sim, senhor! (inclina a cabeça)
PETRONIO
Quem é? (Eunice inclina mais a cabeça, silenciosa) Quem é? (repara na mulher) Hei-de sabêl-o. (a Marcos) Vamos almoçar. (Pôe-lhe a mão sobre o hombro, olha com interesse Eunice) Vamos. (Sahem)
(Eunice deixa-os sahir. Levanta se. Toma por disfarce o frasco da verbena e, fingindo sahir, espreita. Não vendo ninguem, volta, toma a cadeira onde se sentou Petronio; colloca-a ao pé da estatua; sobe, abraça o marmore e, ao mesmo tempo em que os cabellos loiros lhe cahem pelas costas, colla os labios aos labios da estatua).
O PANNO DESCE
QUADRO SEGUNDO
Triclinio. (Caza de jantar no palacio de Néro.) No 1.º plano tres mezas, em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras. Á esquerda uma balaustrada que se suppôe dar para uma escada, inferior, de entrada. As mezas estão promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de escravos, até á chegada dos convivas. Entram Lygia e Actêa.
LYGIA
Dize-me, minha bôa Actêa, é bem certo que, Néro, Cezar, matou a mulher, a mãi, o irmão?
ACTÊA
É certo... e quantos outros!
LYGIA
E, dizias-me que o amavas?
ACTÊA
Conhecí-o, moço, bello e generoso! É sempre essa imagem, esse Néro que eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os aulicos, os amigos, os senadôres, o proprio povo, esse não o conheço. Esse pertenceu sempre a outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse é de Poppêa, a divina!
LYGIA
Como eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vêr de novo em caza de Pomponia: ou na campina de Rôma, só, abandonada que fosse. Se eu pudesse... se tu pudesses, generosa Actêa, proporcionar-me a fuga!
ACTÊA
Eu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar é absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, és uma coisa sua, na vida e na morte!
LYGIA
Uma coisa...!?
ACTÊA
Tenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, lá em cima, ha um Deus cujo filho morreu por nós! Mas sobre a Terra não ha senão um Deus: é Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu sou... uma concubina!... e manda-te preferir a morte á deshonra—como os estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...
LYGIA
Sempre!
ACTÊA
Quando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha de Sejano, uma creança de doze annos, foi condenada á morte. A lei prohibe que as virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que resolveu, Tiberio?
LYGIA
Eu sei!
ACTÊA
Mandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!
LYGIA
Que horrôr!
ACTÊA
Reflecte. Não irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra são sempre sanguinarios. És bella, nova, e tão bôa...! Sê cautelosa e espera no futuro. Eu te protegerei, aqui, quanto pudér.
LYGIA, abraçando-a
Como tu és bôa, Actêa!
ACTÊA
Sem alegria e sem felicidade, é certo;... mas não sou má. «Elle» tambem o não era.
LYGIA
Lamenta-l'o?
ACTÊA
Se te digo que o amo, ainda! O teu Deus não morreu por amôr dos que o mataram?
LYGIA
E, perdoou-lhes.
ACTÊA
O amôr é o perdão. (Como subindo a escadaria e voltando a entrar no salão, no 2.º plano, começam a entrar os senadôres de togas bordadas nas bandas, sandalias ricas, tunicas de côres. Mulheres vestidas e penteadas á Grega ou á Romana, as cabeças coroadas de flôres, etc.)
LYGIA
Que de gente sobe.
ACTÊA
Os convivas que chegam.
MUSONIO, entrando e passando com Séneca
Salve, Actêa!
SÉNECA
Salve, divina Actêa!
ACTÊA
Salve, Séneca!
LYGIA
Quem é este velho, de grave aspecto?
ACTÊA
É Séneca, o filosofo, mestre de Néro. Um filosofo que manda desprezar as riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhões de cestercios!
LYGIA
E, o companheiro?
ACTÊA
É tambem filosofo; mas bom: um estoico.
LYGIA
Como se chama?
ACTÊA
Musonio.
TIGELINO, entrando com Calvia
Salve, Actêa!
ACTÊA
Salve! (a Lygia) Tigelino o infâme, o corruptôr, o valido de Néro. O que fornece as orgias e os venenos!
LYGIA
E, a mulher?
ACTÊA
Calvia; a mais impudica das, cortezãs, de Roma. Cinco vezes divorciada.
LUCANO, entrando com Nigidia
Que os deuses te conservem sempre a belleza e o coração.
ACTÊA
Salve. (a Lygia) Lucano o poeta e Nigidia a amante.
LYGIA
É tão novo.
ACTÊA
E é bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos são melhores do que os d'elle e Cezar não perdôa. A sua vida não vale uma moeda d'oiro.
LYGIA
E elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...
ACTÊA
É uma creança. (Entra Crispinilla, com Pitagoras.) Crispinilla a devassa, cheia de incestos...
LYGIA
E o mancebo? aquelle adolescente?
ACTÊA
É Pitagoras, o éphebo favorito de Néro.
LYGIA
Como favorito? Ama-o muito?
ACTÊA, lembrando-se da inocencia de Lygia
Sim... Ama-o, muito! (Um grupo de homens e mulheres passa e comprimenta de longe, sem grande respeito). Senécion, Vitelio, Domicio... Vês como me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo comparar-me ás Deusas e beijar me os pés! São os cortezãos de todos os tempos. (O grupo sobe)
LYGIA
Onde vão?
ACTÊA
Dizer a Poppêa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!
LYGIA
Como tudo isto faz mêdo!
ACTÊA
E asco! (Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai para os grupos; Vinicio vê Lygia e desce). Petronio e Marcos Vinicio. Estes conheces de certo.
LYGIA
Marcos!
MARCOS
Á mais pura das virgens da Terra, á mais bella das estrellas do Céu, á divina Lygia, salve!
LYGIA
Salve, Marcos Vinicio.
MARCOS, tomando o pulso d'Actêa e beijando-lh'o
Salve, Actêa. Por Vénus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de Néro.
ACTÊA
Cuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, não tendes como elle a faculdade de que Néro oiça pelos vossos ouvidos e falle pela vossa bôca.
MARCOS
O louvor é tão perigoso em Caza de Cezar?
ACTÊA
É que dirigido a mim pode parecer epigrama.
MARCOS, a Lygia
Felizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a tua voz mais dôce do que as citharas e as flautas!
LYGIA
Como fiquei bem, ao vêr te! Que mêdo tenho de estar aqui! Sabias que me encontravas?
MARCOS
Sabia e todavia ao vêr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!
LYGIA
Como sabias?
MARCOS
Disse-m'o Aulo Plaucio.
LYGIA
Como estará! e os seus! E porque estou eu aqui?
MARCOS
Por mandado de Cezar.
LYGIA
E para quê?
MARCOS
Cezar não dá conta, a ninguem, dos seus actos.
LYGIA
Nada d'isto é natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o presentimento de desgraças! Tu és bom: leva-me para caza dos Plaucios, a caza onde eu vivi tranquilla e tão feliz! Faz-me mal este ruido, esta gente toda. Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com Aulo? O que me convem a mim é o socêgo e a obscuridade. Não nasci para festas e para jantares! e, aqui, no palacio de Néro... tenho mêdo, leva-me!
MARCOS
Acalma-te! Estou ao pé de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, não o crês?
LYGIA
Sim, Marcos.
MARCOS
E, tu m'o disséste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno Aulo. E, eu não ouvi nunca mais outra voz; não vi outro olhar senão o teu; não pensei, não tive outro querer, outra vontade senão a ti.
LYGIA
O socêgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!
MARCOS
Tu és a minha felicidade, ó mais bella do que Vénus! A minha felicidade completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, póde sentir maior alegria do que um mortal (abraça-a, delicadamente) que sente bater contra o peito um peito querido! Assim, ó Lygia, o amôr nos eguala aos Deuses!
LYGIA
A tua palavra é como a luz, que afugenta as trévas e dissipa os terrôres. Entrego-me a ti. Restitue-me aos meus. Pomponia, a casta, amar-te-ha como se fôsse tua mãi: abençoar-nos-ha e seremos felizes! Por ella e pelos seus te agradeço o prazer que lhe darás; e, por mim, Marcos, amar-te-hei até ao fim da minha vida.
(Na sala do fundo, onde estão, tambem, mezas visiveis, rompe a orchestra de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram dos lados)
MARCOS
Vem Cezar. (Vai a querer subir)
LYGIA
Não me deixes, só!
MARCOS
Não. (Actêa, desce) Aqui tens Actêa... Eu volto já. (Sobe.)
LYGIA
Oh! Actêa! (agarrando-lhe a mão)
ACTÊA
Que tens?
LYGIA
Foje-me a vista.
ACTÊA
Serena-te (beijando-a) Isso passa!
(Néro apparece ao fundo. Á maneira que passa, a multidão aclama-o. Começam a cahir flôres do tecto até ao fim do acto. Os escravos trazem brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)
VOZES
Avé, Cezar!
Avé, Jupiter!
Avé, divino Cezar!
Salve, divino!
Olympico!
Hercules!
Immortal!
NÉRO, junto a meza
Á meza! (Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e cadeiras. Os escravos enchem as taças de vinho que veem em baldes com gêlo: outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Néro, reclinando-se no leito, coroado de rosas): Petronio, dir-se-hia que entoei um dos meus hymnos!
PETRONIO
É a condicção dos Deuses. A sua presença basta para arrancar as saudações dos homens.
NÉRO
Estas? Que significam? Os romanos são verdadeiros selvagens. Não me entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?
PETRONIO
Que noite!
NÉRO
Que noite de gloria! Nunca sentirei mais, na minha vida, uma impressão egual! Chorei! Lembras-te, Petronio?
PETRONIO
Como um mortal! E, desmaiaste, até, nos meus braços, exclamando: «Onde ha triumpho comparavel ao meu?! Eis o que são os Gregos! eis a Grecia!»
NÉRO
Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!
PETRONIO
Voltaremos?
NÉRO
Certamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto. Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia! Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!
PETRONIO
Eis o sonho d'um Cezar!
NÉRO
Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge, sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de Néro!
LUCANO
Pelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta vezes maior do que a de Chéops.
NÉRO
E, pelo meu canto?
PETRONIO
Se tu pudésses levantar uma estatua,—como a de Memnom—, que ao nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo, viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!
(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)
NÉRO
E... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um Deus!
PETRONIO
E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro! (A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em punho, ébrio) Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.
TIGELINO
E a mim, que destino me dás?
PETRONIO
Cezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.
TIGELINO, aparte
Insolente!
(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo curvado.)
MARCOS, alto
Como eu te amo, Lygia! (apertando-lhe o pulso)
LYGIA
Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.
MARCOS
Oh! divina, ama-me muito! (beija-lhe o pulso) muito!
ACTÊA
Cezar está a olhar-vos.
MARCOS
Que me importa?
ACTÊA
Tu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.
MARCOS
O Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella! (Offerece-lhe a taça; Lygia recuza; Marcos bebe)
NÉRO, deixando de olhar, depõe a esmeralda na meza
Petronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?
PETRONIO, asustado
A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.
NÉRO
Ah! De que povo é?
PETRONIO
Dos Lygios.
NÉRO
Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.
PETRONIO
Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste, aposto—por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher sentada—aposto que já lhe viste o defeito?...
NERO, piscando os olhos para vêr
Não tem ancas.
PETRONIO
Nenhumas. (malicioso)
SENÉCION
Não sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.
PETRONIO
Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia: Cezar affirmava que eras estupido como um burro! (gargalhadas)
NÉRO, rindo exageradamente, inclina o pollegar para o chão
E está dito!
VATINO
Seja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem acreditava... como Plinio.
CALVIA
Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.
NERO, rindo, batendo as palmas, o que todos imitam
Bravo!
CALVIA
E, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a pelle cheia de manchas rôxas.
SENÉCION
De que são?
CALVIA
Ella é que sabe... e os médicos.
LUCANO
É o abrir dos botões. Flôres do amôr!
PETRONIO
Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?
CALVIA
Tu és um impertinente.
PETRONIO
Não era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.
CALVIA
És capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus pés?
PETRONIO
Para os encher d'anneis. (Calvia olha instintivamente os pés: todos riem)
VITELIO, cambaleando
O meu annel. (rí estupidamente)
NÉRO
De que diabo rí esta barrica de cêbo?
PETRONIO
O riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.
VITELIO
O annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu pai...
PETRONIO
Que era sapateiro.
Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de Calvia.
CALVIA
Que queres? O atrevido.
NIGIDIA
Elle não perdeu o que procura.
LUCANO
E... ainda que o ache não será capaz de o usar.
(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho. Phalerno.)
LYGIA
O jantar durará muito, ainda, Marcos?
MARCOS
Inda agora começou. Não estás bem?
LYGIA
Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...
ACTÊA
Toma o meu leque. Queres um vinho geládo?
LYGIA
Ó não. Queria sahir.
ACTÊA
É impossivel.
Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as citharas. Néro faz gesto negativo.
SENÉCION
Pela arte e pela humanidade!
NÉRO
Não estou em voz. Onde está Poppêa?
UM ESCRAVO
Doente; não pode vir.
NÉRO
Chamai-a (o escravo sahe)
PETRONIO
Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!
LUCANO
Cezar, não sejas implacavel.
VATINO
Não sejas implacavel!
VOZES
Sê magnanimo, Cezar!
NÉRO
O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.
SENÉCION
Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua voz se enublasse!
NÉRO
Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.
TODOS
Graças, Cezar.
Entra Poppêa, sumptuosa e bella.
VOZES
Salve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!
NÉRO
Um momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de têl-a diante.
LYGIA
Ó Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza divina?!
MARCOS
Sim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os meus labios no sitio dos teus! (Offerece-lhe a taça, que Lygia recusa)
Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.
NÉRO, recitando
Embalde pretendi deixar a escravidão,
Que nos impôe o amôr!
A Deusa luminosa
Que accende, em Chypre, o facho da paixão
Por sobre a humanidade; altiva, desdenhosa
Arrancou-me do peito o coração,
E foi depôl-o aos pés, da mais formosa
Das Romanas, Poppêa, a minha amada!
Da Vénus Aphrodite a incandescente lava
Passou pela minh'alma!
As intimas ternuras,
Só pode soluçar a minha lyra escrava
Do seu divino olhar, das calidas alvuras
Do seu colo de neve, da bôcca onde os Prazeres
Moram em ninho rubro entre desejos...
Uma lyra que chora a pedir beijos!
Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa:
Sê como ella, de quem tens a fórma,
Caritativa e dôce!
Abre o teu leito
Aos segrêdos do amôr, ao eterno gozo!
Eu sou um Deus! que troca a divindade,
Do mundo o senhorio, a magestade,
Pelo logar do esposo!
TODOS
Ó poeta divino! Salve!
TODOS, com palmas e gritos
Ó voz divina!
Ó immortal!
Ó Jupiter!
Ó artista divino!
Ó resplandecente!
Salve! Salve! Salve!
POPPÊA, vem beijar magestosamente a mão de Néro
Obrigada, Cezar! (sahe)
Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de novo alguns convivas, outros ficam de pé.
PETRONIO, empunhando a taça
A Cezar olimpico! (Todos bebem)
NÉRO, consultando
Petronio?
PETRONIO
Os versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja! Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.
LUCANO
Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a luz do sol a luz d'um candieiro!
NÉRO, a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecido
Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.
TIGELINO, deitando veneno n'uma taça
Lentamente?
NERO
Não.
ACTÊA
Musonio adormeceu emquanto Néro recitava!
LYGIA
É um crime?
MARCOS
De lesa-magestade.
LYGIA
E vão acordal-o?
MARCOS
Para dormir outra vez... para sempre!
TIGELINO
Eh! Musonio? eh! filosofo?
MUSONIO, aparvalhado
Que é? Que queres? Maldito cão!
TIGELINO
Cezar, chama-te. (Musonio, levanta-se)
NÉRO
O quê sonhavas?
MUSONIO
Que Cerebero me ladrava, raivosamente.
NÉRO
Tu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.
TIGELINO
Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!
Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.
TIGELINO
Vamos: a Cezar olimpico.
Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila e cahe morto.
LYGIA, levantando-se
Que horrôr!
Dois escravos levam-no
ACTÊA
Tem coragem. Senta-te.
NÉRO
Os gladiadôres? (Entram Croton e Timon) Croton, não te esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, como se substitue um mestre.
Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.
NÉRO
Bravo, Croton.
PETRONIO
Bello grupo para marmore.
MARCOS
Bravo! Timon.
CALVIA
Que bellas fórmas!
PETRONIO
Vestal, silencio!
NÉRO
Não é uma bella arte?
PETRONIO
A mais bella, depois do canto e da musica.
NÉRO
Hei-de de experimental-a, tambem.
PETRONIO
Sereis invencivel!
Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai estrangulal-o.—Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.
NÉRO
Alto! Bravo, Croton! (applausos) Exercita-te, Timon. Por momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me deves a vida.
TIMON
Ella é vossa, divino Cezar!
NÉRO
Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta aza de pavão de Samos. (deitam-lhe vinho) Que comes, tu, Calvia?
CALVIA
Una bocado de cabrito de Ambracia.
NÉRO
Estás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.
Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias, semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos, excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.
SENÉCION, de pé
Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella morre já! A falta é dos rapazes que não tem fé e sem fé não ha virtude.
VATINO
Quem é que diz de Roma vai morrer?
SENÉCION
Os filosofos.
VITELIO
Má raça, essa, dos filosofos.
LUCANO, com Nigidia no colo
Não ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei se Epicteto.
NIGIDIA
Nunca disse isso, Epicteto.
LUCANO
Não? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o eu.
SENÉCION
Não, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho! (chora sobre o colo de uma bachante.)
BACHANTE
Não chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes. (empurra-o levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)
LUCANO, enrolando-se na hera d'uma amphora
Eh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!
NÉRO
Pitágoras, vem cá! (a Petronio) conheces alguma coisa mais bella? (beija as mãos do éphebo) Hei-de cazar comtigo! Mãos tão bellas, nunca vi. Vi... já... quando? (lugubre) Eram de... minha mãe! (pausa e espanto) Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina! (baixo) Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa... vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!
VATINO
Nos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!
NÉRO
E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero vêr... Cinco annos! cinco annos! Matei a, mas fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me tinheis ouvido, hoje!
TIGELINO
Graças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!
NÉRO
Não a quero vêr! (gritando) Vinho! e que esses timbales rujam!
LUCANO
Eu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos para o bosque!
NÉRO
Tem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora, vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas. (obedecem) Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!
CALVIA
Quem?
NÉRO
A mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras! (reparando em Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e Lygia) Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!
ACTÊA, acceitando-lhe o braço
Senhôr, sou a vossa escrava.
NÉRO
Não; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em longe! (sobem todos)
MARCOS, agarrando brutalmente Lygia
Dá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És minha! Cezar roubou-te para mim!
LYGIA
Marcos...
MARCOS
Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho... núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como a Vénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios! (força para beijal-a) Dá-mos, já, agora.
LYGIA, recuando aflicta
Marcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!
MARCOS
Piedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a! (agarrando-lhe brutalmente a cabeça) Ó dá-m'a, por Jupiter! ou...
O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o leito.
LYGIA
Es tu? (atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)
URSUS
Não tenha mêdo... sou eu! (leva-a a colo)
MARCOS, levantando-se tonto
Lygia! Lygia! (vai a querer seguil-a, e cambaleia) Por Hercules! (ampara-se a uma assyria que bebe) Que é? que foi?
ASSYRIA, dando-lhe a taça
Um sonho! Bebe!
Marcos bebe e cahe sobre o leito.
URSUS
Eis os senhores do mundo! (sahe, levando Lygia).
No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As rosas sahem sempre. O panno desce, lento.
FINAL DO 1.º ACTO