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Petronio / Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz cover

Petronio / Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz

Chapter 23: ACTÊA
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About This Book

In imperial Rome a satirical stage adaptation follows a sophisticated courtier who orchestrates wit and luxury while advising friends and confronting rivalries; a young consul confesses passionate love for a virtuous foreign woman raised in a pious household, prompting schemes and moral reflection. Scenes contrast decadent banquets, private grooming, and public ritual with the presence of early Christian believers and philosophers, producing tensions between hedonism and conscience. The drama unfolds through dialogue among poets, soldiers, nobles, slaves, and religious figures, alternating intimate domestic moments and larger spectacles that probe desire, honor, and faith.

ACTO PRIMEIRO

QUADRO PRIMEIRO

Casa de Petronio em Roma. A um lado, a estatua de Petronio, em marmore. Sobre uma meza, frascos varios de aguas, de oleos; escovas, pentes, ferros de frisar. Duas escravas ethiopes e duas brancas, o rodeiam. As negras acabaram de o pentear.

ESCRAVA BRANCA

Que manto? (as escravas negras sahem)

PETRONIO

O azul. (a escrava sahe e traz)

EUNICE, que, de joelhos, compõe a tunica

Bello... como um Deus!

PETRONIO, sorrindo, delicado

«Animal impudens», de Séneca.

O INTRODUCTOR

O consul Marcos Vinicio.

PETRONIO

Oh!

MARCOS grave

Salve, Petronio!

PETRONIO

Salve. Sê bem vindo em Roma. Que o repouso te seja grato depois da guerra.

MARCOS

Que os Deuses te sejam propicios, sobre tudo Asclépias e Cypris.

PETRONIO

Que o tal Asclépias me perdôe; não tenho fé n'elle. Um Deus cuja mãi se ignora! Sabe-se lá se é filho de Arsinoé ou de Corónida? Que fará do pai! Quem, por estes tempos que correm, pode ter a certeza de ser filho... do pai? (Marcos, ri contrafeito) Estás preocupado?

MARCOS

... Não.

PETRONIO

Dos Asclepiades já tive de me servir, o anno passado... para a bexiga. Sabia que eram charlatães; mas o mundo repousa sobre o charlatanismo e a vida mesmo não é senão uma illusão! O que é precizo é saber distinguir as bôas illusões das más. Eu mando aquecer a minha estufa com madeira de cedro, pulverisada com ambar, porque prefiro os perfumes aos máus cheiros. Quanto a Cypris, a quem me recomendaste, devo-lhe o ter coxeado, amorosamente, dois mezes; mas, emfim, é uma bôa deusa a quem espero sacrificarás, em breve, as brancas pombas.

MARCOS

Talvez. Se as flechas dos Parthas me não alcançaram, em compensação, fui tocado pelas do Amôr, d'uma maneira imprevista.

PETRONIO

Sim?

MARCOS

A dois passos das portas de Roma.

PETRONIO

Pelas Graças! conta-me isso.

MARCOS

Tanto mais que precizo do teu conselho...

PETRONIO

É escusado perguntar se o teu amôr é correspondido! (olhando-o) Se Lysias te tem conhecido, ornavas, hoje, a porta do Palatino sob a fórma d'um Hercules juvenil. (Eunice offerece-lhe e põe-lhe o manto)

MARCOS (olhando a escrava)

Por Zeus, que bella escolha! Mais bello corpo não se encontrará nem em caza do Barbas de Bronze, d'esse famoso Nero, teu amigo.

PETRONIO

Tu és meu parente... e eu não sou egoista; nem tão austero, como um Aulo Plaucio...! Se queres...?

MARCOS

Como te veio á ideia Aulo Plaucio? É d'elle que te venho fallar.

PETRONIO

Estarás, tu, por acaso enamorado de Pomponia, sua mulher? Diabo! Velha... virtuosa... Lamento-te.

MARCOS

Não é de Pomponia. Oh! Não!

PETRONIO

De quem?...

MARCOS

Nem sei. Nem sei mesmo o seu nome. Lygia? Calina? Chamam-lhe Lygia porque é do paiz dos Lygios; mas o seu nome barbaro é Calina. Estive doente em caza d'esse Plaucio, por um accidente de viagem...

PETRONIO

Qual?

MARCOS

Desloquei um pé, n'uma queda do cavallo... É uma caza estranha: cheia de gente e silenciosa como um bosque sagrado. Durante quinze dias, ignorei que uma deusa a habitasse. Vi-a, uma manhã, a banhar-se n'um tanque, sob as arvores. E... juro-te pela espuma d'onde nasceu Aphrodite... os raios da Aurora brincavam atravez do seu corpo! Julguei-a uma apparição, uma sombra que os raios do sol nascente dissipassem, como um crepusculo! Desde então, não tive mais tranquilidade; não tive mais descanso; não tive outro desejo; não vejo outra mulher! Tudo me merece desprezo; o oiro, os bronzes de Corintho... Aborreço os vinhos, os festins; só vejo, só quero Lygia! O mundo para mim é ella... e só ella!

PETRONIO

É uma escrava de Plaucio? Compra-lh'a.

MARCOS

Não é uma escrava.

PETRONIO

Uma liberta, então?

MARCOS

Se nunca foi escrava, como pode ser liberta?

PETRONIO

Quem é, pois?

MARCOS

A filha d'um rei.

PETRONIO

Hein? Começas a intrigar-me...

MARCOS

É filha de Vanio, rei dos Suévos.

PETRONIO

O que teve guerras, no tempo de Claudio?...

MARCOS

Com os sobrinhos; que levantaram, contra elle os Lygios, terriveís na rapina. Claudio, temendo pelas fronteiras, mandou Hister, legionario do Danubio, que vigiasse para que a paz não fôsse alterada. Hister exigiu aos Lygios a promessa de não invadirem a fronteira, e, como refem recebeu a filha e a mulher do chefe.

PETRONIO

D'onde sabes, tu, isso?

MARCOS

Contou-m'o Plaucio, elle proprio. Na guerra o rei dos Lygios morreu. Hister ficou com a mãi e a filha. A mãi morreu pouco depois, e Hister para se desembaraçar da creança, mandou-a a Pomponio, governador da Germania e vencedor dos Gathes. Quando Pomponio entrou em Roma, em triumphador, a pequena Lygia seguia o seu carro; mas como era um refem e não uma escrava, Pomponio entregou-a a sua irmã, mulher de Aulo. N'esta caza onde tudo respira virtude, cresceu, tão virtuosa e tão pura, que ao pé d'ella, Poppêa, que passa pela mulher mais bella de Roma, é como um figo do outomno, ao pé d'um pômmo das Hesperides!

PETRONIO

E, então?

MARCOS

Repito-te, desde que vi a luz brincar atravez do seu corpo...

PETRONIO

Ella é então transparente como uma lampreia...!

MARCOS

Não gracejes, Petronio.

PETRONIO

Pois bem, diz-me o que queres, claramente.

MARCOS

Quero Lygia! Quero que os meus braços a apertem; que a minha bôcca respire na sua bôcca! Se fosse uma escrava daria por ella cem virgens! Quero-a, eis tudo! Têl-a, guardál-a, até que a minha cabeça branquêje como a crista do Sorate, no hinverno!

PETRONIO

... Se não é uma escrava, é, em todo o caso uma rapariga abandonada. Plaucio póde ceder-t'a, se quizer.

MARCOS

Não conheces Plaucio nem Pomponia sua mulher? De resto, amam-na como filha!

PETRONIO

Pomponia? conheço: é um cypreste! Tem o ar de quem vive n'um cemiterio. Mas é, diga se, mulher d'um homem só; o que faz que entre as nossas romanas, quatro e cinco vezes divorciadas, seja uma phenix!

MARCOS

Mas... Petronio...

PETRONIO

Que queres que te diga, meu caro Marcos? Conheço muito bem Aulo Plaucio, como elle conhece o meu modo de pensar e o meu modo de viver. Se pensas que poderei obter alguma coisa d'elle, francamente, parece-me que te enganas.

MARCOS

O teu espirito é inexgotavel em expedientes...

PETRONIO

Exageras.

MARCOS

Todo o mundo te conhece.

PETRONIO

Como o rei da elegancia? sim. É o meu reino. Se fosse o da Lygia eu não teria senão prazer em te offerecer a minha filha, bello e amoroso consul.

MARCOS

Não fallarás a Plaucio?

PETRONIO

... Não. É inutil. Mas... fallarei a Cezar.

MARCOS

Melhor ainda...

PETRONIO

Se Lygia é um refem, Cezar pode dispôr d'ella, pode offerecer-t'a.

MARCOS

Fallar-lhe-has, então?

PETRONIO

Sim.

MARCOS

Hoje mesmo?

PETRONIO

Hoje... talvez. É precizo esperar occasião de o poder louvar, pelo canto, ou pelos versos, ou pela aptidão de cocheiro, de actôr... A proposito, fazes versos?

MARCOS

Nunca pude arranjar um hexametro.

PETRONIO

Não tocas cithara, nem alaúde?

MARCOS

Não.

PETRONIO

Não guias um carro?

MARCOS

Tomei, uma vez, parte n'umas corridas em Antiochia; mas fui infeliz.

PETRONIO

Bem. Estou descançado a teu respeito. O melhor é não fazer nenhuma d'essas coisas e admiral-as, muito, nos outros... sobretudo em Cezar. És bello e Poppêa pode agradar-se de ti. É um perigo. Nero não t'o supportaria. É verdade que Poppêa está uma mulher experiente: d'amôr os dois primeiros maridos saciaram-na; Nero é para outra coisa.

MARCOS

Que é feito de Othon?

PETRONIO

O terceiro? O pobre homem ama-a ainda loucamente. Anda a choral-a sobre os rochedos da Hespanha. E, dizem, que de tal modo perdeu os habitos da galanteria, que hoje, com o penteado, só gasta tres horas por dia!

MARCOS

Eu, no caso d'elle, fazia outra coisa.

PETRONIO

O quê?

MARCOS

São valentes e duros soldados os da Iberia! Recrutaria umas legiões fieis...

PETRONIO

Marcos, Marcos! Essas coisas fazem-se, mas não se dizem, nem como hypotheses... Eu, no logar d'elle, rir-me-hia de Poppêa e de Nero: arranjava uma legião, mas não era de homens, era de mulheres!... (Eunice entra com um frasco.) Ah! a verbena. (deita nas mãos e esfrega as fontes) Não imaginas como isto vivifica, dá fôrça!

MARCOS

Mas... Lygia...

PETRONIO

Sim, homem, descança.

MARCOS

Não posso, Petronio. Se eu não consigo comer nem dormir! Vou passeiar um pouco pela cidade, mover-me, andar, distrahir-me...

PETRONIO, reparando

É verdade, tu não fizeste a barba, hoje!

MARCOS

Nem hontem!

PETRONIO, toma-lhe o pulso

Tens febre. Escuta. Eu não sei o que te prescreveria um medico, um d'esses asclepiades; mas sei o que eu faria no teu logar. Sim... eu sei o que é o amor, e, que quando se deseja uma mulher, nenhuma outra a póde substituir! A belleza, porém, encanta sempre; e uma bella escrava...

MARCOS

Não, não quero.

PETRONIO

A novidade faz esquecer... por um novo desejo... (Pondo a mão no hombro de Eunice, que lhe offerece, de novo a verbena) Repara, um pouco, n'esta filha de Cós. Ha dias, o joven Fonteio offerecia-me por ella tres admiraveis éphebos: tres maravilhas dignas do pincel de Scopas! (olhando-a com interesse) É curioso; como não dei ha mais tempo pelos seus encantos? No entanto, dou-t'a, leva-a.

MARCOS, apertando a cabeça

Não, não a quero: não quero ninguem! Obrigado. Vais d'aqui ao Palatino, ao palacio de Cesar?

PETRONIO

Vou.

MARCOS

Bem... Voltarei mais tarde. Vou á outra margem do Tibre...

PETRONIO

Não. Vais almoçar comigo. Eunice?

EUNICE

Meu senhôr.

PETRONIO

Tomarás o teu banho: ungirás o teu corpo, com os melhores perfumes, e irás para casa de Marcos Vinicio.

EUNICE, ajoelhando-se

Ó, meu senhor, não! Não me façais sahir da vossa casa! Prefiro ser, aqui, a ultima das vossas escravas! ser açoitada todos os dias, contanto que me não deis a ninguem! Não posso, tende piedade de mim! Não posso! não posso!

PETRONIO, surprehendido

Hein?

EUNICE

Repito-vol-o, senhôr. Não irei para caza de Marcos Vinicio. Não sahirei de vossa casa. Tende piedade! Sêde bom, como sois!

PETRONIO

Vai chamar Teirésias. (Eunice sahe)

MARCOS

Petronio, eu não a quero. Nem a ella nem a nenhuma. Deixa...

PETRONIO (brandamente)

Uma escrava!

MARCOS, vendo entrar Eunice e Teirésias senta-se a lêr

Perdôa-lhe.

PETRONIO, a Teirésias

Leva Eunice, e dá-lhe quinze chibatadas. (baixo) Com geito para lhe não estragares a pelle. (a Marcos) O que lês?

MARCOS

O teu livro: o Satyrikon. Já não fazes versos?

PETRONIO

Não. Desde que Nero é poeta e os faz... É perigoso.

MARCOS

Se amasses!

PETRONIO

Hoje? Ser-me-hia precizo encontrar... uma Lygia.

MARCOS

Uma deusa! Alcançar-ma-has, Petronio?

PETRONIO

Será tua. Quanto se pode responder por Cezar, respondo.

MARCOS

Tu és filho de minha irmã e por isto me foste sempre muito caro; mas, agora, collocarei, nos meus lares, uma estatua tua, (indicando a estatua de Petronio) tão bella como esta e offerecer-lhe-hei sacrificios. (vendo a) Tu és verdadeiramente bello, Petronio! Se Páris era assim, Helena teve razão na escolha.

PETRONIO

Chamam-me o Rei da Elegancia, Marcos. (Eunice entra de semblante alegre) Recebeste as chibatadas?

EUNICE

Sim, meu senhor, quinze, só!

PETRONIO

Só! (a Marcos) Não comprehendes?

MARCOS

Não.

PETRONIO

Comprehendo eu. (a Eunice) Tu tens um amante, aqui?

EUNICE, joelhando-se-lhe aos pés

Sim, senhor! (inclina a cabeça)

PETRONIO

Quem é? (Eunice inclina mais a cabeça, silenciosa) Quem é? (repara na mulher) Hei-de sabêl-o. (a Marcos) Vamos almoçar. (Pôe-lhe a mão sobre o hombro, olha com interesse Eunice) Vamos. (Sahem)

(Eunice deixa-os sahir. Levanta se. Toma por disfarce o frasco da verbena e, fingindo sahir, espreita. Não vendo ninguem, volta, toma a cadeira onde se sentou Petronio; colloca-a ao pé da estatua; sobe, abraça o marmore e, ao mesmo tempo em que os cabellos loiros lhe cahem pelas costas, colla os labios aos labios da estatua).

O PANNO DESCE


QUADRO SEGUNDO

Triclinio. (Caza de jantar no palacio de Néro.) No 1.º plano tres mezas, em ferradura, com os competentes leitos e cadeiras. Á esquerda uma balaustrada que se suppôe dar para uma escada, inferior, de entrada. As mezas estão promptas: os tocheiros accesos. Grande movimento de escravos, até á chegada dos convivas. Entram Lygia e Actêa.

LYGIA

Dize-me, minha bôa Actêa, é bem certo que, Néro, Cezar, matou a mulher, a mãi, o irmão?

ACTÊA

É certo... e quantos outros!

LYGIA

E, dizias-me que o amavas?

ACTÊA

Conhecí-o, moço, bello e generoso! É sempre essa imagem, esse Néro que eu vejo. O outro, o que fizeram os mestres, os aulicos, os amigos, os senadôres, o proprio povo, esse não o conheço. Esse pertenceu sempre a outra mulher, cujo dominio se firmou no sangue: esse é de Poppêa, a divina!

LYGIA

Como eu tremo de estar, aqui! Daria tudo por me vêr de novo em caza de Pomponia: ou na campina de Rôma, só, abandonada que fosse. Se eu pudesse... se tu pudesses, generosa Actêa, proporcionar-me a fuga!

ACTÊA

Eu t'o repito, Lygia: era a tua morte e a dos teus. A vontade de Cezar é absoluta! Approuve a Cezar chamar-te, és uma coisa sua, na vida e na morte!

LYGIA

Uma coisa...!?

ACTÊA

Tenho lido, tambem, as cartas de Paulo de Tarso, e ellas dizem que, lá em cima, ha um Deus cujo filho morreu por nós! Mas sobre a Terra não ha senão um Deus: é Cezar! A tua doutrina prohibe-te de seres o que eu sou... uma concubina!... e manda-te preferir a morte á deshonra—como os estoicos de que me fallou tanta vez, Epicteto...

LYGIA

Sempre!

ACTÊA

Quando uma possa evitar a outra. Ignoras os recursos d'um Cezar. A filha de Sejano, uma creança de doze annos, foi condenada á morte. A lei prohibe que as virgens possam soffrer tal pena. O que imaginas que resolveu, Tiberio?

LYGIA

Eu sei!

ACTÊA

Mandou-a violar, primeiro, por um escravo e matou-a depois!

LYGIA

Que horrôr!

ACTÊA

Reflecte. Não irrites nunca os tyranos. Os deuses da Terra são sempre sanguinarios. És bella, nova, e tão bôa...! Sê cautelosa e espera no futuro. Eu te protegerei, aqui, quanto pudér.

LYGIA, abraçando-a

Como tu és bôa, Actêa!

ACTÊA

Sem alegria e sem felicidade, é certo;... mas não sou má. «Elle» tambem o não era.

LYGIA

Lamenta-l'o?

ACTÊA

Se te digo que o amo, ainda! O teu Deus não morreu por amôr dos que o mataram?

LYGIA

E, perdoou-lhes.

ACTÊA

O amôr é o perdão. (Como subindo a escadaria e voltando a entrar no salão, no 2.º plano, começam a entrar os senadôres de togas bordadas nas bandas, sandalias ricas, tunicas de côres. Mulheres vestidas e penteadas á Grega ou á Romana, as cabeças coroadas de flôres, etc.)

LYGIA

Que de gente sobe.

ACTÊA

Os convivas que chegam.

MUSONIO, entrando e passando com Séneca

Salve, Actêa!

SÉNECA

Salve, divina Actêa!

ACTÊA

Salve, Séneca!

LYGIA

Quem é este velho, de grave aspecto?

ACTÊA

É Séneca, o filosofo, mestre de Néro. Um filosofo que manda desprezar as riquezas e fez, em quatro annos, uma fortuna de quatrocentos milhões de cestercios!

LYGIA

E, o companheiro?

ACTÊA

É tambem filosofo; mas bom: um estoico.

LYGIA

Como se chama?

ACTÊA

Musonio.

TIGELINO, entrando com Calvia

Salve, Actêa!

ACTÊA

Salve! (a Lygia) Tigelino o infâme, o corruptôr, o valido de Néro. O que fornece as orgias e os venenos!

LYGIA

E, a mulher?

ACTÊA

Calvia; a mais impudica das, cortezãs, de Roma. Cinco vezes divorciada.

LUCANO, entrando com Nigidia

Que os deuses te conservem sempre a belleza e o coração.

ACTÊA

Salve. (a Lygia) Lucano o poeta e Nigidia a amante.

LYGIA

É tão novo.

ACTÊA

E é bello; mas Cezar odeia-o. Os seus versos são melhores do que os d'elle e Cezar não perdôa. A sua vida não vale uma moeda d'oiro.

LYGIA

E elle sabe-o? e, arrisca-se, aqui?...

ACTÊA

É uma creança. (Entra Crispinilla, com Pitagoras.) Crispinilla a devassa, cheia de incestos...

LYGIA

E o mancebo? aquelle adolescente?

ACTÊA

É Pitagoras, o éphebo favorito de Néro.

LYGIA

Como favorito? Ama-o muito?

ACTÊA, lembrando-se da inocencia de Lygia

Sim... Ama-o, muito! (Um grupo de homens e mulheres passa e comprimenta de longe, sem grande respeito). Senécion, Vitelio, Domicio... Vês como me comprimentam, de longe? Houve tempo em que teriam vindo comparar-me ás Deusas e beijar me os pés! São os cortezãos de todos os tempos. (O grupo sobe)

LYGIA

Onde vão?

ACTÊA

Dizer a Poppêa, a divina, o que em tempo me disseram a mim!

LYGIA

Como tudo isto faz mêdo!

ACTÊA

E asco! (Entram, conversando, Petronio e Marcos Vinicio. Petronio vai para os grupos; Vinicio vê Lygia e desce). Petronio e Marcos Vinicio. Estes conheces de certo.

LYGIA

Marcos!

MARCOS

Á mais pura das virgens da Terra, á mais bella das estrellas do Céu, á divina Lygia, salve!

LYGIA

Salve, Marcos Vinicio.

MARCOS, tomando o pulso d'Actêa e beijando-lh'o

Salve, Actêa. Por Vénus, sois ainda a mais bella mulher do palacio de Néro.

ACTÊA

Cuidado, Marcos Vinicio, que se arremedais vosso tio, no galanteio, não tendes como elle a faculdade de que Néro oiça pelos vossos ouvidos e falle pela vossa bôca.

MARCOS

O louvor é tão perigoso em Caza de Cezar?

ACTÊA

É que dirigido a mim pode parecer epigrama.

MARCOS, a Lygia

Felizes os meus olhos que te comtemplam: os meus ouvidos que escutam a tua voz mais dôce do que as citharas e as flautas!

LYGIA

Como fiquei bem, ao vêr te! Que mêdo tenho de estar aqui! Sabias que me encontravas?

MARCOS

Sabia e todavia ao vêr-te senti na minh'alma um extranho e novo prazer!

LYGIA

Como sabias?

MARCOS

Disse-m'o Aulo Plaucio.

LYGIA

Como estará! e os seus! E porque estou eu aqui?

MARCOS

Por mandado de Cezar.

LYGIA

E para quê?

MARCOS

Cezar não dá conta, a ninguem, dos seus actos.

LYGIA

Nada d'isto é natural, Marcos. Conhecia-me, acaso Cezar? Tenho o presentimento de desgraças! Tu és bom: leva-me para caza dos Plaucios, a caza onde eu vivi tranquilla e tão feliz! Faz-me mal este ruido, esta gente toda. Porque me arrancaram do pequeno jardim onde brincava com Aulo? O que me convem a mim é o socêgo e a obscuridade. Não nasci para festas e para jantares! e, aqui, no palacio de Néro... tenho mêdo, leva-me!

MARCOS

Acalma-te! Estou ao pé de ti. Nada pode acontecer-te. Amo-te, não o crês?

LYGIA

Sim, Marcos.

MARCOS

E, tu m'o disséste, tambem, n'esse jardim, onde brincavas com o pequeno Aulo. E, eu não ouvi nunca mais outra voz; não vi outro olhar senão o teu; não pensei, não tive outro querer, outra vontade senão a ti.

LYGIA

O socêgo entra na minh'alma com as tuas palavras, generoso Marcos!

MARCOS

Tu és a minha felicidade, ó mais bella do que Vénus! A minha felicidade completa, inegualavel; porque nem Cezar, nem nenhum Deus, póde sentir maior alegria do que um mortal (abraça-a, delicadamente) que sente bater contra o peito um peito querido! Assim, ó Lygia, o amôr nos eguala aos Deuses!

LYGIA

A tua palavra é como a luz, que afugenta as trévas e dissipa os terrôres. Entrego-me a ti. Restitue-me aos meus. Pomponia, a casta, amar-te-ha como se fôsse tua mãi: abençoar-nos-ha e seremos felizes! Por ella e pelos seus te agradeço o prazer que lhe darás; e, por mim, Marcos, amar-te-hei até ao fim da minha vida.

(Na sala do fundo, onde estão, tambem, mezas visiveis, rompe a orchestra de citharas, flautas, harpas e timbales. Os escravos serventes entram dos lados)

MARCOS

Vem Cezar. (Vai a querer subir)

LYGIA

Não me deixes, só!

MARCOS

Não. (Actêa, desce) Aqui tens Actêa... Eu volto já. (Sobe.)

LYGIA

Oh! Actêa! (agarrando-lhe a mão)

ACTÊA

Que tens?

LYGIA

Foje-me a vista.

ACTÊA

Serena-te (beijando-a) Isso passa!

(Néro apparece ao fundo. Á maneira que passa, a multidão aclama-o. Começam a cahir flôres do tecto até ao fim do acto. Os escravos trazem brazeiros e deitam-lhe myrra. Gritam)

VOZES

Avé, Cezar!

Avé, Jupiter!

Avé, divino Cezar!

Salve, divino!

Olympico!

Hercules!

Immortal!

NÉRO, junto a meza

Á meza! (Os homens deitam se nos leitos. As mulheres occupam leitos e cadeiras. Os escravos enchem as taças de vinho que veem em baldes com gêlo: outros servem a comida. A orchestra toca mansamente. Néro, reclinando-se no leito, coroado de rosas): Petronio, dir-se-hia que entoei um dos meus hymnos!

PETRONIO

É a condicção dos Deuses. A sua presença basta para arrancar as saudações dos homens.

NÉRO

Estas? Que significam? Os romanos são verdadeiros selvagens. Não me entendem. Lembras-te do meu apparecimento em Napoles?

PETRONIO

Que noite!

NÉRO

Que noite de gloria! Nunca sentirei mais, na minha vida, uma impressão egual! Chorei! Lembras-te, Petronio?

PETRONIO

Como um mortal! E, desmaiaste, até, nos meus braços, exclamando: «Onde ha triumpho comparavel ao meu?! Eis o que são os Gregos! eis a Grecia!»

NÉRO

Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!

PETRONIO

Voltaremos?

NÉRO

Certamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto. Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia! Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!

PETRONIO

Eis o sonho d'um Cezar!

NÉRO

Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge, sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de Néro!

LUCANO

Pelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta vezes maior do que a de Chéops.

NÉRO

E, pelo meu canto?

PETRONIO

Se tu pudésses levantar uma estatua,—como a de Memnom—, que ao nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo, viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!

(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)

NÉRO

E... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um Deus!

PETRONIO

E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro! (A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em punho, ébrio) Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.

TIGELINO

E a mim, que destino me dás?

PETRONIO

Cezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.

TIGELINO, aparte

Insolente!

(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo curvado.)

MARCOS, alto

Como eu te amo, Lygia! (apertando-lhe o pulso)

LYGIA

Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.

MARCOS

Oh! divina, ama-me muito! (beija-lhe o pulso) muito!

ACTÊA

Cezar está a olhar-vos.

MARCOS

Que me importa?

ACTÊA

Tu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.

MARCOS

O Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella! (Offerece-lhe a taça; Lygia recuza; Marcos bebe)

NÉRO, deixando de olhar, depõe a esmeralda na meza

Petronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?

PETRONIO, asustado

A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.

NÉRO

Ah! De que povo é?

PETRONIO

Dos Lygios.

NÉRO

Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.

PETRONIO

Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste, aposto—por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher sentada—aposto que já lhe viste o defeito?...

NERO, piscando os olhos para vêr

Não tem ancas.

PETRONIO

Nenhumas. (malicioso)

SENÉCION

Não sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.

PETRONIO

Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia: Cezar affirmava que eras estupido como um burro! (gargalhadas)

NÉRO, rindo exageradamente, inclina o pollegar para o chão

E está dito!

VATINO

Seja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem acreditava... como Plinio.

CALVIA

Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.

NERO, rindo, batendo as palmas, o que todos imitam

Bravo!

CALVIA

E, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a pelle cheia de manchas rôxas.

SENÉCION

De que são?

CALVIA

Ella é que sabe... e os médicos.

LUCANO

É o abrir dos botões. Flôres do amôr!

PETRONIO

Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?

CALVIA

Tu és um impertinente.

PETRONIO

Não era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.

CALVIA

És capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus pés?

PETRONIO

Para os encher d'anneis. (Calvia olha instintivamente os pés: todos riem)

VITELIO, cambaleando

O meu annel. (rí estupidamente)

NÉRO

De que diabo rí esta barrica de cêbo?

PETRONIO

O riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.

VITELIO

O annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu pai...

PETRONIO

Que era sapateiro.

Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de Calvia.

CALVIA

Que queres? O atrevido.

NIGIDIA

Elle não perdeu o que procura.

LUCANO

E... ainda que o ache não será capaz de o usar.

(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho. Phalerno.)

LYGIA

O jantar durará muito, ainda, Marcos?

MARCOS

Inda agora começou. Não estás bem?

LYGIA

Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...

ACTÊA

Toma o meu leque. Queres um vinho geládo?

LYGIA

Ó não. Queria sahir.

ACTÊA

É impossivel.

Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as citharas. Néro faz gesto negativo.

SENÉCION

Pela arte e pela humanidade!

NÉRO

Não estou em voz. Onde está Poppêa?

UM ESCRAVO

Doente; não pode vir.

NÉRO

Chamai-a (o escravo sahe)

PETRONIO

Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!

LUCANO

Cezar, não sejas implacavel.

VATINO

Não sejas implacavel!

VOZES

Sê magnanimo, Cezar!

NÉRO

O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.

SENÉCION

Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua voz se enublasse!

NÉRO

Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.

TODOS

Graças, Cezar.

Entra Poppêa, sumptuosa e bella.

VOZES

Salve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!

NÉRO

Um momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de têl-a diante.

LYGIA

Ó Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza divina?!

MARCOS

Sim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os meus labios no sitio dos teus! (Offerece-lhe a taça, que Lygia recusa)

Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.

NÉRO, recitando

Embalde pretendi deixar a escravidão,
Que nos impôe o amôr!
A Deusa luminosa
Que accende, em Chypre, o facho da paixão
Por sobre a humanidade; altiva, desdenhosa
Arrancou-me do peito o coração,
E foi depôl-o aos pés, da mais formosa
Das Romanas, Poppêa, a minha amada!

Da Vénus Aphrodite a incandescente lava
Passou pela minh'alma!
As intimas ternuras,
Só pode soluçar a minha lyra escrava
Do seu divino olhar, das calidas alvuras
Do seu colo de neve, da bôcca onde os Prazeres
Moram em ninho rubro entre desejos...
Uma lyra que chora a pedir beijos!

Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa:
Sê como ella, de quem tens a fórma,
Caritativa e dôce!
Abre o teu leito
Aos segrêdos do amôr, ao eterno gozo!
Eu sou um Deus! que troca a divindade,
Do mundo o senhorio, a magestade,
Pelo logar do esposo!

TODOS

Ó poeta divino! Salve!

TODOS, com palmas e gritos

Ó voz divina!

Ó immortal!

Ó Jupiter!

Ó artista divino!

Ó resplandecente!

Salve! Salve! Salve!

POPPÊA, vem beijar magestosamente a mão de Néro

Obrigada, Cezar! (sahe)

Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de novo alguns convivas, outros ficam de pé.

PETRONIO, empunhando a taça

A Cezar olimpico! (Todos bebem)

NÉRO, consultando

Petronio?

PETRONIO

Os versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja! Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.

LUCANO

Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a luz do sol a luz d'um candieiro!

NÉRO, a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecido

Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.

TIGELINO, deitando veneno n'uma taça

Lentamente?

NERO

Não.

ACTÊA

Musonio adormeceu emquanto Néro recitava!

LYGIA

É um crime?

MARCOS

De lesa-magestade.

LYGIA

E vão acordal-o?

MARCOS

Para dormir outra vez... para sempre!

TIGELINO

Eh! Musonio? eh! filosofo?

MUSONIO, aparvalhado

Que é? Que queres? Maldito cão!

TIGELINO

Cezar, chama-te. (Musonio, levanta-se)

NÉRO

O quê sonhavas?

MUSONIO

Que Cerebero me ladrava, raivosamente.

NÉRO

Tu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.

TIGELINO

Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!

Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.

TIGELINO

Vamos: a Cezar olimpico.

Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila e cahe morto.

LYGIA, levantando-se

Que horrôr!

Dois escravos levam-no

ACTÊA

Tem coragem. Senta-te.

NÉRO

Os gladiadôres? (Entram Croton e Timon) Croton, não te esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, como se substitue um mestre.

Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.

NÉRO

Bravo, Croton.

PETRONIO

Bello grupo para marmore.

MARCOS

Bravo! Timon.

CALVIA

Que bellas fórmas!

PETRONIO

Vestal, silencio!

NÉRO

Não é uma bella arte?

PETRONIO

A mais bella, depois do canto e da musica.

NÉRO

Hei-de de experimental-a, tambem.

PETRONIO

Sereis invencivel!

Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai estrangulal-o.—Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.

NÉRO

Alto! Bravo, Croton! (applausos) Exercita-te, Timon. Por momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me deves a vida.

TIMON

Ella é vossa, divino Cezar!

NÉRO

Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta aza de pavão de Samos. (deitam-lhe vinho) Que comes, tu, Calvia?

CALVIA

Una bocado de cabrito de Ambracia.

NÉRO

Estás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.

Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias, semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos, excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.

SENÉCION, de pé

Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella morre já! A falta é dos rapazes que não tem fé e sem fé não ha virtude.

VATINO

Quem é que diz de Roma vai morrer?

SENÉCION

Os filosofos.

VITELIO

Má raça, essa, dos filosofos.

LUCANO, com Nigidia no colo

Não ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei se Epicteto.

NIGIDIA

Nunca disse isso, Epicteto.

LUCANO

Não? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o eu.

SENÉCION

Não, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho! (chora sobre o colo de uma bachante.)

BACHANTE

Não chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes. (empurra-o levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)

LUCANO, enrolando-se na hera d'uma amphora

Eh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!

NÉRO

Pitágoras, vem cá! (a Petronio) conheces alguma coisa mais bella? (beija as mãos do éphebo) Hei-de cazar comtigo! Mãos tão bellas, nunca vi. Vi... já... quando? (lugubre) Eram de... minha mãe! (pausa e espanto) Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina! (baixo) Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa... vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!

VATINO

Nos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!

NÉRO

E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero vêr... Cinco annos! cinco annos! Matei a, mas fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me tinheis ouvido, hoje!

TIGELINO

Graças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!

NÉRO

Não a quero vêr! (gritando) Vinho! e que esses timbales rujam!

LUCANO

Eu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos para o bosque!

NÉRO

Tem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora, vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas. (obedecem) Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!

CALVIA

Quem?

NÉRO

A mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras! (reparando em Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e Lygia) Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!

ACTÊA, acceitando-lhe o braço

Senhôr, sou a vossa escrava.

NÉRO

Não; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em longe! (sobem todos)

MARCOS, agarrando brutalmente Lygia

Dá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És minha! Cezar roubou-te para mim!

LYGIA

Marcos...

MARCOS

Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho... núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como a Vénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios! (força para beijal-a) Dá-mos, já, agora.

LYGIA, recuando aflicta

Marcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!

MARCOS

Piedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a! (agarrando-lhe brutalmente a cabeça) Ó dá-m'a, por Jupiter! ou...

O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o leito.

LYGIA

Es tu? (atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)

URSUS

Não tenha mêdo... sou eu! (leva-a a colo)

MARCOS, levantando-se tonto

Lygia! Lygia! (vai a querer seguil-a, e cambaleia) Por Hercules! (ampara-se a uma assyria que bebe) Que é? que foi?

ASSYRIA, dando-lhe a taça

Um sonho! Bebe!

Marcos bebe e cahe sobre o leito.

URSUS

Eis os senhores do mundo! (sahe, levando Lygia).

No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As rosas sahem sempre. O panno desce, lento.

FINAL DO 1.º ACTO