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Poesias Completas

Chapter 155: XCVII
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About This Book

Lyric poems blend intimate reflections on love, memory, solitude, time, and mortality with occasional political and patriotic meditations and ironic social observation. Imagery draws on nature, classical and religious allusion, and everyday detail, while forms range from short contemplative lyrics to longer narrative odes. Early pieces often bear romantic nostalgia; later poems adopt restraint, wit, and elegiac calm, addressing loss, illusion, artistic vocation, and national suffering. The result juxtaposes tender personal feeling with broader moral and historical concerns.

Ao romper da manhã, co'o sol ardente,
Briza fresca, entre as folhas sussurrando,
O não-dormido vate acorda, e a mente
Lhe foi dos vagos sonhos arrancando.
Heitor contempla o valle resplendente,
A flôr abrindo, o passaro cantando;
E a terra que entre risos acordava,
Ao sol do estio as roupas enxugava.

XLIX

Tudo então lhe sorria. A natureza,
As musas, o futuro, o amor e a vida;
Quanto sonhára aquella mente accesa
Dera-lhe a sorte, emfim, compadecida.
Um paraiso, uma gentil belleza,
E a ternura castissima e vencida
De um coração creado para amores,
Que exhala affectos como aroma as flôres.

L

E ella? Se conheceste em tua vida,
Leitora, o mal do amor, delirio santo,
Dôr que eleva e conforta a alma abatida,
Embriaguez do céu, divino encanto,
Se a tua face ardente e enrubecida
Pallejou com suspiros e com prantos,
Se ardeste emfim, naquella intensa chamma,
Entenderás o amor de ingenua dama.

LI

Repara que eu não fallo desse enleio
De uma noite de baile ou de palestra;
Amor que mal agita a flôr do seio,
E ao chá termina e acaba com a orchestra;
Não me refiro ao simples galanteio
Em que cada menina é velha mestra,
Avesso ao sacrifício, á dor e ao choro;
Fallo do amor, não fallo do namoro.

LII

Eden de amor, ó solidão fechada,
Casto asylo a que o sol dos novos dias
Vai mandar, como a furto, a luz coada
Pelas frestas das verdes gelosias,
Guarda-os ambos; conserva-os recatada.
Almas feitas de amor e de harmonias,
Tecei, tecei as vividas capellas,
Deixai correr sem susto as horas bellas.

LIII

Cá fóra o mundo insipido e profano
Não dá, nem póde dar o enleio puro
Das almas novas, nem o doce engano
Com que se esquecem males do futuro.
Não busqueis penetrar n'este oceano
Em que se agita o temporal escuro.
Por fugir ao naufragio e ao soffrimento,
Tendes uma enseada,—o casamento.

LIV

Resumamos, leitora, a narrativa.
Tanta strophe a cantar ethereas chammas
Pede compensação, musa insensiva,
Que fatigais sem pena o ouvido ás damas.
Demais, é regra certa e positiva
Que muitas vezes as maiores famas
Perde-as uma ambição de tagarella;
Musa, aprende a lição; musa, cautela!

LV

Mezes depois da scena relatada
Nas strophes, a folhas,—o poeta
Ouviu do velho Antero uma estudada
Oração ciceronica e selecta;
A conclusão da arenga preparada
Era mais agradavel que discreta.
Dizia o velho erguendo olhos serenos:
«Pois que se adoram, casem-se, pequenos!»

LVI

Lagrima santa, lagrima de gosto
Vertem olhos de Elvira; e um riso aberto
Veio inundar-lhe de prazer o rosto
Como uma flôr que abrisse no deserto.
Se iam já longe as sombras do desgosto;
Inda até li era o futuro incerto;
Fez-lh'o certo o ancião; e a moça grata
Beija a mão que o futuro lhe resgata.

LVII

Correm-se banhos, tiram-se dispensas,
Vai-se buscar um padre ao povoado;
Prepara-se o enxoval e outras pertenças
Necessarias agora ao novo estado.
Notam-se até algumas differenças
No modo de viver do velho honrado,
Que sacrifica á noiva e aos deuses lares
Um estudo dos classicos jantares.

LVIII

«Onde vás tu?—Á serra!—Vou comtigo.
«—Não, não venhas, meu anjo, é longa a estrada.
«Se cansares?—Sou leve, meu amigo;
«Descerei nos teus hombros carregada.
«—Vou compôr encostado ao cedro antigo
«Canto de nupcias.—Seguirei calada;
«Junto de ti, ter-me-has mais em lembrança;
«Musa serei sem perturbar.—Criança!»

LIX

Brandamente repelle Heitor a Elvira;
A moça fica; o poeta lentamente
Sobe a montanha. A noiva repetíra
O primeiro pedido inutilmente.
Olha-o de longe, e timida suspira.
Vinha a tarde cahindo frouxamente,
Não triste, mas risonha e fresca e bella,
Como a vida da pallida donzella.

LX

Chegando, emfim, á c'rôa da collina,
Víram olhos de Heitor o mar ao largo,
E o sol, que despe a veste purpurina,
Para dormir no eterno leito amargo.
Surge das aguas pallida e divina,
Essa que tem por deleitoso encargo
Velar amantes, proteger amores,
Lua, musa dos candidos palores.

LXI

Respira Heitor; e livre. O casamento?
Foi sonho que passou, fugaz idéa
Que não pôde durar mais que um momento.
Outra ambição a alma lhe incendeia.
Dissipada a illusão, o pensamento
Novo quadro a seus olhos patenteia,
Não lhe basta aos desejos de sua alma
A enseada da vida estreita e calma.

LXII

Aspira ao largo; pulsam-lhe no peito
Uns impetos de vida; outro horizonte,
Tumidas vagas, temporal desfeito,
Quer com elles lutar fronte por fronte.
Deixa o tranquillo amor, casto e perfeito,
Pelos brodios de Venus de Amathonte;
A existencia entre flôres esquecida
Pelos rumores de mais ampla vida.

LXIII

Nas mãos da noite desmaiára a tarde;
Descem ao valle as sombras vergonhosas;
Noite que o céu, por mofa ou por alarde,
Torna propicia ás almas venturosas.
O derradeiro olhar frio e covarde
E umas não sei que strophes lamentosas
Solta o poeta, emquanto a triste Elvira,
Viuva antes de noiva, em vão suspira!

LXIV

Transpõe o mar Heitor, transpõe montanhas;
Tu, curiosidade, o ingrato levas
A ir ver o sol das regiões extranhas.
A ir ver o amor das peregrinas Evas.
Vai, em troco de palmas e façanhas,
Viver na morte, bracejar nas trevas;
Fazendo amor, que é livro aos homens dado,
Copioso almanach namorado.

LXV

Inscreve n'elle a moça de Sevilha,
Longas festas e noites hespanholas,
A indiscreta e diabolica mantilha
Que a fronte cinge a amantes e a carolas.
Quantos encontra corações perfilha,
Faz da bolsa e do amor largas esmolas:
Esquece o antigo amor e a antiga musa
Entre os beijos da lepida andaluza.

LXVI

Canta no seio turgido e macio
Da fogosa, indolente Italiana,
E dorme junto ao laranjal sombrio
Ao som de uma canção napolitana.
Dão-lhe para os serões do ardente estio,
Asti, os vinhos; mulheres, a Toscana.
Roma adora, embriaga-se em Veneza,
E ama a arte nos braços da belleza.

LXVII

Vê Londres, vê Paris, terra das ceias,
Feira do amor a toda a bolsa aberta;
No mesmo laço, as bellas como as feias,
Por capricho ou razão, iguaes aperta;
A edade não pergunta ás taças cheias,
Só pede o vinho que o prazer desperta;
Adora as outoniças, como as novas,
Torna-se heróe de rua e heróe de alcovas.

LXVIII

Versos quando os compõe, celebram antes
O alegre vicio que a virtude austera;
Canta os beijos e as noites delirantes,
O esteril gozo que a volupia gera;
Troca a illusão que o seduzia d'antes
Por maior e tristissima chimera;
Ave do céu, entre os osculos creada,
Espalha as plumas brancas pela estrada.

LXIX

Um dia, emfim, cansado e aborrecido,
Acorda Heitor; e olhando em roda e ao largo,
Vê um deserto, e do prazer perdido
Resta-lhe unicamente o gosto amargo;
Não achou o ideal appetecido
No longo e profundissimo lethargo:
A vida exhausta em feitos e esplendores,
Se alguma tinha, eram já murchas flôres.

LXX

Ora, uma noite, costeando o Rheno,
Ao luar melancolico,—buscava
Aquelle gozo simples, doce, ameno,
Que á vida toda outr'ora lhe bastava;
Voz remota, cortando o ar sereno,
Em derredor os échos acordava;
Voz aldeã que o largo espaço enchia,
E uma canção de Schiller repetia.

LXXI

«A gloria! diz Heitor, a gloria é vida!
Porque busquei nos gozos de outra sorte
Esta felicidade appetecida,
Esta resurreição que annulla a morte?
Ó illusão fantastica e perdida!
Ó mal gasto, ardentissimo transporte!
Musa, restaura as apagadas tintas!
Revivei, revivei, chammas extinctas!»

LXXII

A gloria? Tarde vens, pobre exilado!
A gloria pede as illusões viçosas,
Estro em flôr, coração electrisado,
Mãos que possam colher ethereas rosas;
Mas tu, filho do ocio e do peccado,
Tu que perdeste as forças portentosas
Na agitação que os animos abate,
Queres colher a palma do combate?

LXXIII

Chamas em vão as musas; deslembradas,
Á tua voz os seus ouvidos cerram;
E nas paginas virgens, preparadas,
Pobre poeta, em vão teus olhos erram;
Nega-se a inspiração; nas despregadas
Cordas da velha lyra, os sons que encerram
Inertes dormem; teus cansados dedos
orrem debalde; esquecem-lhe os segredos.

LXXIV

Ah! se a taça do amor e dos prazeres
Já não guarda licor que te embriague;
Se nem musas nem languidas mulheres
Têm coração que o teu desejo apague;
Busca a sciencia, estuda a lei dos seres,
Que a mão divina a tua dôr esmague;
Entra em ti, vê o que és, observa em roda,
Escuta e palpa a natureza toda.

LXXV

Livros compra, um philosopho procura;
Revolve a creação, prescruta a vida;
Vê se espancas a longa noite escura
Em que a esteril razão andou mettida;
Talvez aches a palma da ventura
No campo das sciencias escondida.
Que a tua mente as illusões esqueça:
Se o coração morreu, vive a cabeça!

LXXVI

Ora, por não brigar co'os meus leitores,
Dos quaes, conforme a curta ou longa vista,
Uns pertencem aos grupos novadores,
Da fria communhão materialista;
Outros, seguindo exemplos dos melhores,
Defendem a theoria idealista;
Outros, emfim, fugindo armas extremas,
Vão curando por ambos os systemas.

LXXVII

Direi que o nosso Heitor, após o estudo
Da natureza e suas harmonias,
(Oppondo a consciencia um forte escudo
Contra divagações e fantasias);
Depois de ter aprofundado tudo,
Planta, homem, estrellas, noites, dias,
Achou esta lição inesperada:
Veiu a saber que não sabia nada.

LXXVIII

«Nada! exclama um philosopho amarello
Pelas longas vigilias, afastando
Um livro que ha de ver um dia ao prelo
E em cujas folhas ia trabalhando.
Pois eu, doutor de borla e de capello,
Eu que passo os meus dias estudando,
Hei de ler o que escreve penna ousada,
Que a sciencia da vida acaba em nada?»

LXXIX

Aqui convinha intercalar com geito,
Sem pretenção, nem pompa nem barulho,
Uma arrancada apostrophe do peito
Contra as vãs pretenções do nosso orgulho;
Conviria mostrar em todo o effeito
Essa que é dos espiritos entulho,
Sciencia vã, de magnas leis tão rica,
Que ignora tudo, e tudo ao mundo explica.

LXXX

Mas, urgindo acabar este romance,
Deixo em paz o philosopho, e procuro
Dizer do vate o doloroso trance
Quando se achou mais pecco e mais escuro.
Valêra bem n'aquelle triste lance
Um sorriso do céu placido e puro,
Raio do sol eterno da verdade,
Que a vida aquece e alenta a humanidade.

LXXXI

Que! nem ao menos na sciencia havia
Fonte que a eterna sêde lhe matasse?
Nem no amor, nem no seio da poesia
Podia nunca repousar a face;
Atrás d'esse fantasma correria
Sem que jámais as fórmas lhe palpasse?
Seria acaso a sua ingrata sorte
A ventura encontrar nas mãos da morte?

LXXXII

A morte! Heitor pensára alguns momentos
N'essa sombria porta aberta á vida;
Pallido archanjo dos finaes alentos
De alma que o céu deixou desilludida;
Mão que, fechando os olhos somnolentos,
Põe o termo fatal á humana lida;
Templo de gloria ou região do medo,
Morte, quem te arrancára o teu segredo?

LXXXIII

Vasio, inutil, ermo de esperanças
Heitor buscava a noiva ignota e fria,
Que o envolvesse então nas longas tranças
E o conduzisse á camara sombria,
Quando, em meio de pallidas lembranças,
Surgiu-lhe a idéa de um remoto dia,
Em que cingindo a candida capella
Estava a pertencer-lhe uma donzella.

LXXXIV

Elvira! o casto amor! a esposa amante!
Rosa de uma estação, deixada ao vento!
Riso dos céus! estrella rutilante
Esquecida no azul do firmamento!
Ideal, meteoro de um instante!
Gloria da vida, luz do pensamento!
A gentil, a formosa realidade!
Unica dita e unica verdade!

LXXXV

Ah! porque não ficou calmo e tranquillo
Da ingenua moça nos divinos braços?
Porque fugira ao casto e alegre asylo?
Porque rompêra os mal formados laços?
Quem pudera jámais restituil-o
Aos estreitos, fortissimos abraços
Com que Elvira apertava enternecida
Esse que lhe era o amor, a alma e a vida?

LXXXVI

Será tempo? Quem sabe? Heitor hesita;
Tardio pejo lhe enrubece a face;
Punge o remorso; o coração palpita
Como se vida nova o reanimasse;
Tenue fogo, entre a cinza, arde e se agita...
Ah! se o passado alli resuscitasse
Reviverião illusões viçosas,
E a gasta vida rebentara em rosas!

LXXXVII

Resolve Heitor voltar ao valle amigo,
Onde ficára a noiva abandonada.
Transpõe o lar, affronta-lhe o perigo,
E chega emfim á terra desejada.
Sobe o monte, contempla o cedro antigo,
Sente abrir-se-lhe n'alma a flôr murchada
Das illusões que um dia concebêra;
Rosa extincta da sua primavera!

LXXXVIII

Era a hora em que os serros do oriente
Formar parecem luminosas urnas;
E abre o sol a pupilla resplendente
Que ás folhas sorve as lagrimas nocturnas;
Frouxa briza amorosa e diligente
Vai acordando as sombras taciturnas;
Surge nos braços d'essa aurora estiva
A alegre natureza rediviva.

LXXXIX

Campa era o mar; o valle estreito berço;
De um lado a morte, do outro lado a vida,
Canto do céu, resumo do universo
Ninho para aquecer a ave abatida.
Inda nas sombras todo o valle immerso,
Não acordára á costumada lida;
Repousava no placido abandono
Da paz tranquilla e do tranquillo somno.

XC

Alto já ia o sol, quando descera
Heitor a opposta face da montanha;
Nada do que deixou desparecêra;
O mesmo rio as mesmas hervas banha.
A casa, como então, garrida e austera,
Do sol nascente a viva luz apanha;
Iguaes flôres, nas plantas renascidas...
Tudo alli falla de perpetuas vidas!

XCI

Desce o poeta cauteloso e lento.
Olha de longe; um vulto ao sol erguia
A veneranda fronte, monumento
De grave e celestial melancolia.
Como sulco de um fundo pensamento
Larga ruga na testa abrir se via,
Era a ruina talvez de uma esperança...
Nos braços tinha uma gentil criança.

XCII

Ria a criança; o velho contemplava
Aquella flôr que ás auras matutinas
O perfumoso calix desbrochava
E entrava a abrir as petalas divinas.
Triste sorriso o rosto lhe animava,
Como um raio de lua entre ruinas.
Alegria infantil, tristeza austera,
O inverno torvo, a alegre primavera!

XCIII

Desce o poeta, desce, e preso, e fito
Nos bellos olhos do gentil infante,
Treme, comprime o peito... e após um grito
Corre alegre, exaltado e delirante,
Ah! se jámais as vozes do infinito
Podem sahir de um coração amante,
Teve-as aquelle... Lagrimas sentidas
Lhe inundárão as faces resequidas!

XCIV

«Meu filho!» exclama, e subito parando
Ante o grupo ajoelha o libertino;
Geme, soluça, em lagrimas beijando
As mãos do velho e as tranças do menino.
Ergue-se Antero, e frio e venerando,
Olhos no céu, exclama: «Que destino!
Murchar-lhe, viva, a rosa da ventura;
Morta, insultar-lhe a paz da sepultura!»

XCV

«Morta!—Sim!—Ah! senhor! se arrependido
Posso alcançar perdão, se com meus prantos,
Posso apiedar-lhe o coração ferido
Por tanta mágoa e longos desencantos;
Se este infante, entre lagrimas nascido,
Póde influir-me os seus affectos santos...
É meu filho, não é? perdão lhe imploro!
Veja, senhor! eu soffro, eu creio, eu choro!»

XCVI

Olha-o com frio orgulho o velho honrado;
Depois, fugindo aquella scena estranha,
Entra em casa. O poeta, acabrunhado,
Sobe outra vez a encosta da montanha;
Ao cimo chega, e desce o opposto lado
Que a vaga azul entre soluços banha.
Como fria ironia a tantas mágoas,
Batia o sol de chapa sobre as aguas.

XCVII

Pouco tempo depois ouviu-se um grito,
Som de um corpo nas aguas resvalado;
Á flôr das vagas veio um corpo afflicto...
Depois... o sol tranquillo e o mar calado.
Depois... Aqui termina o manuscripto,
Que ora em lettra de fôrma é publicado.
Nestas estrophes pallidas e mausas,
Para te divertir de outras lembranças.


AMERICANAS

(1875)

POTYRA[6]

Os Tamoyos, entre outras presas que fizeram, levaram esta india, a qual pretendeu o capitão da empreza violar: resistiu valorosamente dizendo em lingua brasilica: «Eu sou christã e casada; não heide fazer traição a Deus e a meu marido; bom podes matar-me e fazer do mim o que quizeres.» Deu-se por a affrontado o barbaro, e em vingança lhe acabou a vida com grande crueldade.

VASC. Chr. da Comp. de Jesus, liv 3°.

I

Moça christã das solidões antigas,
Em que aurea folha reviveu teu nome?
Nem o eco das mattas seculares,
Nem a voz das sonoras cachoeiras,
O transmitiu aos seculos futuros.
Assim da tarde estiva ás auras frouxas
Tenue fumo do colmo no ar se perde;
Nem de outra sorte em moribundos labios
A humana voz expira. O horror e o sangue
Da miseranda scena em que, de envolta
Co'os longos, magoadissimos suspiros,
Christã Lucrecia, abriu tua alma o voo
Para subir ás regiões celestes,
Mal deixada memoria aos homens lembra.
Isso apenas; não mais; teu nome obscuro,
Nem tua campa o brazileiro os sabe.

II

Ja da férvida luta os ais e os gritos
Extinctos eram. Nos baixeis ligeiros
Os tamoyos incolumes embarcam;
Ferem co'os remos as serenas ondas
Até surgirem na remota aldêa.
Atrás ficava, luctuosa e triste,
A nascente cidade brazileira,[7]
Do inopinado assalto espavorida,
Ao céu mandando em côro inuteis vozes.
Vinha já perto rareando a noite,
Alva aurora, que á vida accorda as selvas,
Quando a aldêa surgiu aos olhos torvos
Da expedição nocturna. Á praia saltam
Os vencedores em tropel: transportam
Ás cabanas despojos e vencidos,
E, da vigilia fatigados, buscam
Na curva, leve rede amigo somno,
Excepto o chefe. Oh! esse não dormira
Longas noites, se a troco da victoria
Precisas fossem. Traz comsigo o premio,
O desejado premio. Desmaiada
Conduz nos braços tremulos a moça
Que renegou Tupan, e as rudes crenças[8]
Lavou nas aguas do baptismo santo.
Na rode ornada de amarellas pennas
Brandamente a depõe. Leve tecido
Da captiva gentil as fórmas cobre;
Veste-as de mais a sombra do crepusculo,
Sombra que a tibia luz da alva nascente
De todo não rompeu. Inquieto sangue
Nas veias ferve do indio. Os olhos luzem
De concentrada raiva triumphante.
Amor talvez lhes lança um leve toque
De ternura, ou já soffrego desejo;
Amor, como elle, asperrimo e selvagem,
Que outro não sente o heroe.

III

Heroe lhe chamam
Quantos o hão visto no fervor da guerra
Medo e morte espalhar entre os contrarios
E avantajar-se nos certeiras golpes
Aos mais fortes da tribu. O arco e a flecha
Desde a infancia os meneia ousado o affouto;
Cedo apprendeu nas solitarias brenhas
A pleitear ás feras o caminho.
A força oppõe á força, a astucia á astucia,
Qual se da onça e da serpente houvera
Colhido as armas. Traz ao collo os dentes
Dos contrarios vencidos. Nem dos annos
O numera supera o das victorias;
Tem no espaçoso rosto a flôr da vida,
A juventude, e goza entre os mais bellos
De real primazia. A cinta e a fronte
Azues, vermelhas plumas alardeam,
Ingenuas galas do gentio inculto.

IV

Da captiva gentil cerrados olhos
Não se entreabrem á luz. Morta parece.
Uma só contracção lhe não perturba
A paz serena do mimoso rosto.
Junto della, cruzados sobre o peito
Os braços, Anagê contempla e espera;
Soffrego espera, em quanto ideias negras
Estão a revoar-lhe em torno e a encher-lhe
A mente de projectos tenebrosos.
Tal no cimo do velho Corcovado
Proxima tempestade engloba as nuvens.
Subito ao seio turgido e macio
Anciosas mãos estende; inda palpita
O coração, com desusada força,
Como se a vida toda alli buscasse
Refugio certo e ultimo. Impetuoso
O vestido cristão lhe despedaça,
E á luz já viva da manhã recente
Contempla as nuas fórmas. Era acaso
A syncope chegada ao termo proprio,
Ou, no pejo offendida, ás mãos extranhas
A desmaiada moça despertára.
Potyra accorda, os olhos lança em torno,
Fita, vê, comprehende, e inquieta busca
Fugir do vencedor ás mãos e ao crime...
Misera! opõe-se-lhe o irritado gesto
Do asperrimo guerreiro; um ai lhe sobe
Angustioso e triste aos labios tremulos,
Sobe, murmura e suffocado expira.
Na rede envolve o corpo, e, desviando
Do terrivel tamoyo os lindos olhos,
Entrecortada prece aos céus envia,
E as faces banha de serenas lagrimas.

V

Longo tempo correra. Amplo silencio
Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte
Pouco a pouco despira o torvo aspecto.
Ao trabalhado espirito, revolto
De mil sinistros pensamentos, volve
Benigna calma. Tal de um rio engrossa
O volume extensissimo das aguas
Que vão enchendo de pavor os ecos,
Vencendo no arruido o vento e o raio,
E pouco a pouco atenuando as vozes,
Adelgaçando as ondas, tornam mansas
Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina,
Para tomar nos braços a formosa
Por cujo amor incendiara a aldêa
Daquellas gentes pallidas de Europa.
Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o rosto,
O rosto inda de lagrimas molhado,
Do coração estas palavras solta:
«—Lá entre os meus, suave e amiga morte,
Ah! porque me não deste? Houvera ao menos
Quem escutasse de meus labios frios
A prece derradeira; e a santa benção
Levaria minha alma aos pés do Eterno...
Não, não te peço a vida; é tua, extingue-a;
Um só allivio imploro. Não receies
Embeber no meu sangue a ervada setta;
Mata-me, sim; mas leva-me onde eu possa
Ter em sagrado leito o ultimo somno!»
Disse, e fitando no indio avidos olhos,
Esperou. Anagê sacode a fronte,
Como se lhe pesara ideia triste;
Crava os olhos no chão; lentas lhe saem
Estas vozes do peito.
«Oh! nunca os padres
Pisado houvessem estas plagas virgens!
Nunca de um deus estranho as leis ignotas
Viessem perturbar as tribos, como
Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto
Os guerreiros pelejam: matam, morrem.
Ante o fulgor das armas inimigas
Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa
Valor nativo e raro em peito livre.
Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas
Nestas mattas vastissimas. De sangue
Extranhos rios hão de, ao mar correndo,
Tristes novas levar á patria delles,
Primeiro que o tamoyo a frente incline
Aos inimigos peitos. Outra força,
Outra e maior nos move a guerra crua;
São elles, são os padres. Esses mostram
Cheia de riso a boca e o mel nas vozes,
Sereno o rosto e as brancas mãos inermes;
Ordens não trazem de cacique alheio,
Tudo nos levam, tudo. Uma por uma
As filhas de Tupan correm trás elles,
Com ellas os guerreiros, e com todos
A nossa antiga fé. Vem perto o dia
Em que, na imensidão destes desertos,
Ha de ao frio luar das longas noites
O pagé suspirar sozinho e triste
Sem povo nem Tupan!»

VI

Silenciosas
Lagrimas lhe espremeu dos olhos negros
Esta lembrança de futuros males.
«—Escuta!» diz Potyra. O indio estende
Imperioso as mãos e assim prossegue:
«—Tambem com elles foste, e foi comtigo
Da minha vida a flôr! Teu pai mandara,
E com ele mandou Tupan que eu fosse
Teu esposo; vedou-m'o a voz dos padres,
Que me perdeu, levando-te consigo.
Não morri; vivi só para esta affronta;
Vivi para esta insolita tristeza
De maldizer teu nome e as graças tuas,
Chorar-te a vida e desejar-te a morte.
Ai! nos rudes combates em que a tribu
Rega de sangue o chão da virgem terra
Ou tinge a flôr do mar, nunca a meu lado
Teu nobre vulto esteve. A aldêa toda,
Mais que o teu coração, ficou deserta.
Duas vezes, mimosas rebentaram
Do lacrimoso cajueiro as flôres,
Desde o dia funesto em que deixaste
A cabana paterna. O extremo lumo
Expirou de teu pai nos olhos tristes;
Piedosa chamma consumiu seus restos,
E a aldêa toda o lastimou com prantos.
Não de todo se foi da nossa vida;
Parte ficou para sentir teus males.
Antes que o ultimo sol á melindrosa
Flôr do maracujá cerrasse as folhas
Um sonho tive. Merencorio vulto,
Triste como uma fronte de vencido,
Cor da lua os cabellos venerandos,
O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse),
«Corre á vizinha habitação dos brancos,
«Vai, arranca Potyra á lei funesta
«Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena;
«Nos braços traze a fugitiva corça;
«Vincula o teu destino ao dela; é tua.»
«—Impossivel! Que vale um vago sonho?
Sou esposa e christã. Impio, respeita
O amor que Deus protege e sanctifica:
Mata-me; a minha vida te pertence:
Ou, se te pesa derramar o sangue
Daquella a quem amaste, e por quem foste
Lançar entre os christãos a dor e o susto,
Faze-me escrava; servirei contente
Emquanto a vida allumiar meus olhos.
Toma, entrego-te o sangue e a liberdade
Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!»
Calou-se, e reclinada sobre a rede,
Potyra murmurava ignota prece,
Olhos fitos no proximo arvoredo,
Olhos não ermos de profunda magua.

VII

Ó Christo! em que alma penetrou teu nome
Que lhe não désse o balsamo da vida?
Pelo vento dos seculos levado,
Vidente e cego, o maximo dos seres,
Que fora do homem nesta escassa terra,
Se ao mysterio da vida lhe não désses,
Ó Christo! a eterna chave da esperança
Philosophia stoica, ardua virtude,
Creação de homem, tudo passa e expira.
Tu só, filha de Deus, palavra amiga,
Tu, suavissima voz da eternidade,
Tu perduras, tu vales, tu confortas.
Neste sonho iriado de outros sonhos,
Varios como as feições da natureza,
Nesta confusa agitação da vida,
Que alma transpõe a derradeira edade
Farta de algumas passageiras glorias?
Torvo é o ar do sepulchro; alli não viçam
Essas cansadas rosas da existencia
Que ás vezes tantas lagrimas nos custam,
E tantas mais antes do occaso expiram.
Flôr do Evangelho, nuncia de alvos dias,
Esperança christã, não te ha murchado
O vento arido e secco; és tu viçosa
Quando as da terra languidas inclinam
O seio, e a vida lentamente exhalam.
Esta a consolação ultima e doce
Da esposa indiana foi. Captiva ou morta,
Antevia a celeste recompensa
Que aos humildes reserva a mão do Eterno.
Naquelle rude coração das brenhas
A semente evangelica brotara.

VIII

Das duas condições deu-lhe o guerreiro
A peor,—fel-a escrava; e eil-a apparece
Da sua aldea aos olhos espantados
Qual fôra em dias de melhor ventura.
Despida vem das roupas que lhe ha posto
Sobre as polidas fórmas uso extranho,
Não sabido jamais daquelles povos
Que a natureza ingenua doutrinara.
Vence na gentileza ás mais da tribu,
E tem de sobra um sentimento novo,
Pudor de esposa e de christã,—realce
Que ao indio accende a natural volupia.
Simulada alegria lhe descerra
Os labios; riso á flôr, escasso e dubio,
Que mal lhe encobre as vergonhosas maguas.
Á voz do seu senhor accorre humilde;
Não a assusta o labor; nem dos perigos
Conhece os medos. Nas ruidosas festas,
Quando ferve o canim, e o ar atrôa[9]
Pocema de alegria ou de combate,
Como que se lhe fecha a flôr do rosto.
Ja lhe descae então no seio oppresso
A graciosa fronte; os olhos fecha,
E ao céu voltando o pensamento puro,
Menos por si, que pelos outros pede.
Nem só o ardor da fé lhe abraza o peito;
Lacera-lh'o tambem agra saudade;
Chora a separação do amado esposo,
Que, ou cedo a esquece, ou solitario geme.
Se, alguma vez, fugindo a extranhos olhos,
Não já crueis, mas cubiçosos della,
Entra desatinada o bosque antigo,
E a dor expande em lobregos soluços,
Co'o doce nome accorda ao longe os écos,
Farta de amor e prodiga de vida,
Ouve-as a selva, e não lhe entende as maguas.
Outras vezes pisando a ruiva areia
Das praias, ou galgando a penedia
Cujos pés orla o mar de nivea espuma,
As ondas murmurantes interroga;
Conta ao vento da noite as dores suas;
Mas... fieis ao destino e á lei que as rege,
As preguiçosas ondas vão caminho,
Crespas do vento que sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da manhã, partem ás vezes,
Com seus arcos, os destros caçadores,
E alguns da rija estaca desatando
Os nós de embira ás rapidas igaras,
A pesca vão pelas ribeiras proximas,
Das esposas, das mães que os lares velam,
Grata alegria os corações innunda,
Menos o della, que suspira e geme,
E não aguarda doce esposo ou filho.
Triste os vê na partida e no regresso,
E nessa melancholica postura,
Simelha a acacia langue e esmorecida,
Que já de orvalho ou sol não pede os beijos.
As outras...—Raro em labios de felizes
Alheias maguas travam. Não se pejam
De seus olhos azuis e alegres pennas
Os sahis sobre as arvores pousados,
Se ao perto voa na campina verde
De anuns luctuoso bando; nem os trillos
Das andorinhas interrompe a nota
Que a jurity suspira.—As outras folgam
Pelo arraial dispersas; vão-se á terra
Arrancar as raizes nutritivas,
E fazem os preparos do banquete
A que hão de vir mais tarde os destemidos
Senhores do arco, alegres vencedores
De quanto vive na agua e na floresta.
Da captiva nenhuma inquire as maguas.
Comtudo, algumas vezes, curiosas
Virgens lhe dizem, apiedando o gesto:
—«Pois que á taba voltaste, em que teus olhos
Primeiro viram luz, que magua funda
Lhes distilla tão longo e amargo pranto,
Amargo mais do que esse que não busca
Recatado silencio?»—E ás doces vozes
A christã desterrada assim responde:
—«Potyra é como aquella flôr que chora
Lagrimas de alvo leite, se do galho
Mão cruel a cortou. Oh! não permitta
O céu que ímpia fortuna vos separe
Daquelle que escolherdes. Dor é essa
Maior que um pobre coração de esposa.
Esperanças... Deixei-as nessas aguas
Que me trouxeram, complices do crime,
Á taba de Tupan, não allumiada
Da palavra celeste. Algumas vezes,
Raras, alveja em minha noite escura
Não sei que tibia aurora, e penso: Acaso
O sol que vem me guarda um raio amigo,
Que hade accender nestes cansados olhos
Ventura que já foi. As asas colhe
Guanumby, e o aguçado bico embebe
No tronco, onde repousa adormecido
Até que volte uma estação de flôres.[10]
Ventura imita o guanumby dos campos:
Accordará co'as flôres de outros dias.
Doce illusão que rapido se escoa,
Como o pingo de orvalho mal fechado
N'uma folha que o vento agita e entorna.»
E as virgens dizem, apiedando o gesto:
—«Potyra é como aquella flôr que chora
«Lagrimas de alvo leite, se do galho
«Mão cruel a cortou!»

X

Era chegado
O fatal prazo, o desenlace triste.
Tudo morre,—a tristeza como o gozo;
Rosas de amor ou lyrios de saudade,
Tarde ou cedo os esfolha a mão do tempo.
Costeando as longas praias, ou transpondo
Extensos valles e montanhas, correm
Mensageiros que ás tabas mais vizinhas
Vão convidar á festa as gentes todas.
Era a festa da morte. Indio guerreiro,
Trez luas ha captivo, o instante aguarda
Em que ás mãos de inimigos vencedores,
Cáia expirante, e os vinculos rompendo
Da vida, a alma remonte além dos Andes.
Corre de boca em boca e de eco em eco
A alegre nova. Vem descendo os montes,
Ou abicando ás povoadas praias
Gente da raça illustre. A onda immensa
Pelo arraial se estende pressurosa.
De quantas côres natureza fertil
Tinge as proprias feições, copiam elles
Engraçadas, vistosas louçanias.
Vários na edade são, varios no aspecto,
Todos iguais e irmãos no herdado brio.
Dado o amplexo de amigo, acompanhado
De suspiros e pesames sinceros
Pelas fadigas da viagem longa,
Rompem ruidosas danças. Ao tamoyo
Deu o Ibake os segredos da poesia;
Cantos festivos, moduladas vozes,
Enchem os ares, celebrando a festa
Do sacrificio proximo. Ah! não cubra
Véu de nojo ou tristeza o rosto aos filhos
Destes polidos tempos! Rudes eram
Aquelles homens de asperos costumes,
Que ante o sangue de irmãos folgavam livres,
E nós, soberbos filhos de outra edade,
Que a voz fallamos da razão severa
E na luz nos banhamos do Calvario,
Que somos nós mais que elles? Raça triste
De Cains, raça eterna...

XI

Os cantos cessam.
Calou-se o maracá. As roucas vozes
Dos férvidos guerreiros já reclamam
O brutal sacrificio. Ás mãos das servas
A taça do cauim passara exhausta.
Inquieto aguarda o prisioneiro a morte.
Da nação guayanaz nos rudes campos
Nasceu. Nos campos da saudosa patria
Industriosa mão não sabe ainda
Alevantar as tabas. Cova funda
Da terra, mãe comum, no seio aberta,[11]
Os acolhe e protege. O chão lhes forra
A pele do tapir; continua chamma
Lhes suppre a luz do sol. É uso antigo
Do guayanaz que chega a extrema edade,
Ou de mortal doença accomettido,
Não expirar aos olhos de outros homens;
Vivo o guardam no bojo da igaçaba,
E á fria terra o dão, como se fôra
Pasto melhor (melhor!) aos frios vermes.
Do almo, doce licor que extrai das flôres
Mãe do mel, iramaya, larga cópia
Pelos robustos membros lhe coaram
Seis anciãs da tribu. Rubras pennas
Na vasta fronte e nos nervosos braços
Garridamente o enfeitam. Longa e forte
A mussuranna os rins lhe cinge e aperta.
Entra na praça o funebre cortejo.
Olhar tranquillo, inda que fero, espalha
O indomado captivo. Em pé, defronte,
Grave, silencioso, ao sol mostrando
De feias cores e vistosas plumas
Singular harmonia, aguarda a victima
O executor. Nas mãos lhe pende a enorme
Tagapema enfeitada, arma certeira,
Arma triumphal de morte e de exterminio.
Medem-se rosto a rosto os dois contrarios
C'um sorriso feroz. Confusas vozes
Enchem subito o espaço. Não lhe é dado
Ao vencido guerreiro haver a morte
Silenciosa e triste em que se passa
Da curva rede á fria sepultura.
Meigas aves que vão de um clima a outro
Abrem placidamente as asas leves,
Não tu, guerreiro, que encaraste a morte,
Tu combate! Vencido e vencedores
Derradeiros escarneos se arremessam;
Gritos, injurias, convulsões de raiva,
Vivo clamor accorda os longos ecos
Das penedias proximas. A clava
Do executor girou no ar trez vezes
E de leve caiu na grossa espadua
Do arquejante captivo. Já na boca,
Que o desprezo e o furor n'um riso entreabrem,
Orla de espuma alveja. Avança, corre,
Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço
A mussurana, cujas pontas tiram
Dois mancebos robustos. Nas cavernas
Do longo peito lhe murmura o odio,
Surdo, como o rumor da terra inquieta,
Pejada de vulcões. Os labios morde,
E, como derradeira injuria, á face
Do executor lhe cospe espuma e sangue.
Não vibra o arco mais veloz o tiro,
Nem mais segura no aterrado cervo
Feroz succuriuba os nós enrosca,
Do que a pesada, enorme tagapema
A cabeça de um golpe lhe esmigalha.
Cae fulminada a vitima na terra,
E alegre o povo longamente applaude.

XII

Na voz universal perdeu-se um grito
De piedade e terror: tão fundo entrára
Naquella alma roubada á noite escura
Raio de sol christão! Potyra foge,
Pelos bosques atonita se entranha
E pára á margem de um pequeno rio;
Pousa na relva os tremulos joelhos
E nas mimosas mãos esconde o rosto.
Não de lagrimas era aquelle sitio
Ou só de doces lagrimas choradas
De olhos que amor venceu:—macia relva,
Leito de sesta a amores fugitivos.
Da verde, rara abobada de folhas
Tepida e doce a luz coava a frouxo
Do sol, que, além das arvores, tranquillo,
Metade da jornada ia transpondo.
Longe era ainda a hora melancholica
Em que a geremma cerra a miuda folha,
E o lume azul o pyrilampo accende.
De pé, a um velho tronco descoroado
Da copada ramagem, resto apenas,
Vestigio do tufão, a indiana moça
Languidamente encosta o esbelto corpo.
Neste ameno recesso tudo é triste,
Porque é alegre tudo. Não mui longe
Um desfolhado ipê conserva e guarda
Flôres que lhe ficaram de outro estio,
Como esperança de folhagem nova,
Flôres que a desventura lhe ha negado,
A ella, alma esquecida nesta terra,
Que nada espera da estação vindoura.
Olha, e de inveja o coração lhe estalla.
Pelo tronco das arvores se enroscam
Parasitas, esposas do arvoredo,
Mais fieis não, mais venturosas que ella.
Morrer? Descanso fôra ás maguas suas,
Mais que descanço, perduravel gozo,
Que a nossa eterna patria aos infelizes
Deste desterro guarda alvas capellas
De não-murchandas e cheirosas flôres.
Tal lhe falava no intimo do peito
Desespero cruel. Alguns instantes
Pela cansada mente lhe vagaram
De voluntaria, abreviada morte,
Luctuosas ideias. Mal comprehende
Esses desmaios da creatura humana
Quem não sentiu no coração rasgado
Abatimento e enôjo; ou, mais do que isto,
Esse contraste immenso e irreparavel
Do amor interno e a solidão da vida.
Rapido espaço foi. Prompto lhe volve
Doce resignação, christã virtude,
Que desafia e que assoberba os males.
As debeis mãos levanta. Já dos labios
Solta nas azas de oração singella
Lastimas suas... Na folhagem secca
Ouve de cautos pés rumor sumido,
Volve a cabeça...

XIII