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Poesias Completas

Chapter 174: NIANI
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About This Book

Lyric poems blend intimate reflections on love, memory, solitude, time, and mortality with occasional political and patriotic meditations and ironic social observation. Imagery draws on nature, classical and religious allusion, and everyday detail, while forms range from short contemplative lyrics to longer narrative odes. Early pieces often bear romantic nostalgia; later poems adopt restraint, wit, and elegiac calm, addressing loss, illusion, artistic vocation, and national suffering. The result juxtaposes tender personal feeling with broader moral and historical concerns.

Tremulo, calado,
Anagê crava n'ella os olhos turvos
Dos vapores da festa. As mãos inermes
Lhe pendem; mas o peito—ó misera!—esse,
Esse de mal contido amor transborda.
Longo instante passou. Alfim: «Deixaste
A festa nossa (o barbaro murmura);
Mysteriosa vieste. Dos guerreiros
Nenhum te viu; mas eu senti teus passos,
E vim comtigo ao ermo. Ave mesquinha,
Inutil foges; gavião te espreita,[12]
Minha te fez Tupan.» Em pé, sorrindo,
Escutava Potyra a voz severa
De Anagê. Breve espaço abria entre ambos
Alcatifado chão. A fatal hora
Chegara alfim? Não o perscruta a moça;
Tudo acceita das mãos do seu destino,
Tudo, excepto... No proximo arvoredo
Ouve de uma ave o pio melancholico;
Era a voz de seu pae? a voz do esposo?
De ambos talvez. No animo da escrava
Restos havia dessa crença antiga
Antiga e sempre nova: o peito humano
Raro de obscuros elos se liberta.

XIV

—«Nasceste para ser senhora e dona:
Anagê não te veda a liberdade;
Quebra tu mesma os nós do captiveiro.
Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;
Vem, tudo esqueço. A fronte do guerreiro,
Adornada por ti, será mais nobre;
Mais forte o braço em que pousar teu rosto.
Sou menos bello que esse esposo ausente?
Rudes feições compensa amor sobejo.
Vem; ver-me-has companheira nos combates,
E, se inimiga frecha entrar meu seio,
Morrerei a teus pés. Tens medo aos padres?
Outro destino escolhe. Cauteloso,
Tece o japú nos elevados ramos
Das elevadas arvores o ninho,
Onde o inimigo lhe não roube a prole.
Ninho ha na serra ao nosso amor propicio;
Viveremos alli. Troveje em baixo
A inubia convidando a guerra os povos;
Leva de arcos transforme estas aldêas
Em campos de combate,—ou já dispersas
As fugitivas tribus vão buscando
Longes sertões para chorar seus males,
Viveremos alli. Talvez, um dia,
Quando eu passar á mysteriosa estancia
Das delicias eternas, me pergunte
Meu velho pai:—«Teu arco de guerreiro
Em que deserta praia o abandonaste?
Salvar-me-ha teu amor do eterno pejo.»

XV

Doce era a voz e triste. Rasos d'agua
Os olhos. Foi desmaio de tristeza
Que o gesto dissipou da esquiva moça.
Volve ao Tamoyo vingativa ideia.
—«Minha (diz elle) ou morres!» Estremece
Potyra, como quando a brisa passa
Ao de leve na folha da palmeira,
E logo fria ao barbaro responde:
—«Jaz esquecido em nossas velhas tabas
O respeito da esposa? Acaso é digna
Do sangue do Tamoyo esta ameaça?
Que desvalia aos olhos teus me coube,
Se a outro me ligaram natureza,
Religião, destino? A liberdade
Nas tuas mãos depuz; com ella a vida.
É tudo, quasi tudo. Honra de esposa,
Oh! essa deves respeital-a! Vai-te!
Ceva teu odio nas sangrentas carnes
Do prostrado captivo. Aqui chorando,
Na solidão d'estes bosques mal fechados,
As maviosas brisas meus suspiros
Entregarei; leval-os-hão nas azas
La onde geme solitario o esposo.
Vai-te!» E as mimosas mãos colhendo ao rosto,
Alçou a Deus o pensamento amante,
Como a centelha viva que a fogueira
Extincta aos ares sobe. Immovel, muda,
Longo tempo ficou. Diante d'ella,
Como ella immovel, o tamoyo estava.
Amor, odio, ciume, orgulho, pena,
Oppostos sentimentos se combatem
No attribulado peito. Generoso
Era, mas não domado amor lhe dava
Inspiração de crimes. Não mais prompto
Cae sobre a triste corça fugitiva
Jaguar de longa fome esporeado,
Do que elle as mãos lançou ao colo e á fronte
Da misera Potyra. Ai! não, não diga
A minha voz o lamentoso instante
Em que ella, ao seu algoz volvendo anciosa
Turvos olhos: «Perdoo-te!» murmura,
Os labios cerra e immaculada expira!

XVI

Estro maior teu nome obscuro cante,
Moça christã das solidões antigas,
E eterno o cinja de virentes flôres,
Que as mereces. De não sabido bardo
Estes gemidos são. Languidas brisas
No taquaral á noite sussurrando,
Ou enrugando o molle dorso ás vagas,
Não tem a voz com que domina os echos
Despenhada cachoeira. São, comtudo,
Mas que debeis e tristes, no concerto
Da orquestra universal cabidas notas.
Alveja a nebulosa entre as estrellas,
E abre ao pé do rosal a flôr da murta.


NIANI

(HISTORIA GUAYCURU)

Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim se passaram trez mezes, quando um dia, estando deitada na sua rustica cama, lhe deram a noticia que seu desleal marido se tinha casado com uma rapariga de menor esphera. Senta-se então Nanine na cama, como arrebatada, chama para junto de si um pequeno indio que era seu cativo, e diz-lhe na presença de varios antecris: «És meu captivo; dou-te a liberdade, com a condição de que te chamarás toda a vida Panenioxe.»

F. RODRIGUES PRADO, Hist. dos Indios Cavalleiros.

...che piange
Vedova sola.

DANTE

I

Contam-se historias antigas
Pelas terras de além-mar,
De moças e de princezas,
Que amor fazia matar.

Mas amor que entranha n'alma
E a vida soe acabar,
Amor é de todo o clima,
Bem como a luz, como o ar.

Morrem delle nas florestas
Aonde habita o jaguar,
Nas margens dos grandes rios
Que levam troncos ao mar.

Agora direi um caso
De muito penalisar,
Tão triste como os que contam
Pelas terras de além-mar.

II

Cabana que esteira cobre
De junco trançado a mão,
Que agitação vae por ella!
Que ledas horas lhe vão!

Panenioxe é guerreiro
Da velha, dura nação,[13]
Cayavaba ha já sentido
A sua lança e facão.[14]

Vem de longe, chega á porta
Do afamado capitão;
Deixa a lança e o cavallo,
Entra com seu coração.

A noiva que elle lhe guarda
Moça é de nobre feição,
Airosa como agil corça
Que corre pelo sertão.

Amores eram nascidos
Naquella tenra estação
Em que a flôr que hade ser flôr
Inda se fecha em botão.

Muitos agora lhe querem,
E muitos que fortes são;
Niani ao melhor delles
Não dera o seu coração.[15]

Casal-os agora, é tempo;
Casal-os, nobre ancião!
Limpo sangue tem o noivo,
Que é filho de capitão.[16]

III

«—Traze a minha lança, escravo,
Que tanto peito abateu;
Traze aqui o meu cavallo
Que largos campos correu.»

«—Lança tens e tens cavallo
Que meu velho pae te deu;
Mas aonde te vás agora
Onde vais, esposo meu?»

«—Vou-me á caça, junto á cova
Onde a onça se metteu...»
«—Montada no meu cavallo,
Vou comtigo, esposo meu.»

«—Vou-me ás ribas do Escopil,
Que a minha lança varreu...»
«—Irei pelejar na guerra,
A teu lado, esposo meu.»

«—Fica-te ahi na cabana
Onde o meu amor nasceu.»
«—Melhor não haver nascido
Se já de todo morreu.»

E uma lagrima,—a primeira
De muitas que ella verteu,—
Pela face cobreada
Lenta, lenta lhe correu.

Enxugal-a, não a enxuga
O esposo que já perdeu,
Que elle no chão fita os olhos,
Como que a voz lhe morreu.

Traz o escravo o seu cavallo
Que o velho sogro lhe deu;
Traz-lhe mais a sua lança
Que tanto peito abateu.

Então, recobrando a alma,
Que o remorso esmoreceu,
Com esta dura palavra
Á esposa lhe respondeu:

«—A bocayuva trez vezes
No tronco amadureceu,[17]
Desde o dia em que o guerreiro
Sua esposa recebeu.»

«Trez vezes! Amor sobejo
Nossa vida toda encheu.
Fastio me entrou no seio,
Fastio que me perdeu.»

E pulando no cavallo,
Sumiu-se... desapareceu...
Pobre moça sem marido,
Chora o amor que lhe morreu!

IV

Leva o Paraguay as aguas,
Leva-as no mesmo correr,
E as aves descem ao campo
Como usavam de descer.

Tenras flôres, que outro tempo
Costumavam de nascer,
Nascem; vivem de egual vida;
Morrem do mesmo morrer.

Niani, pobre viuva,
Viuva sem bem o ser,
Tanta lagrima chorada
Já te não pode valer.

Olhos que amor desmaiára
De um desmaiar que é viver,
O choro empana-os agora,
Como que vão fenecer.

Corpo que fôra robusto
No seu cavallo a correr,
De continua dor quebrado
Mal se póde já suster.

Collar de prata não usa,
Como usava de trazer;
Pulseiras de finas contas
Todas as veiu a romper.[18]

Que ella, se nada ha mudado
Daquelle eterno viver,
Com que a natureza sabe
Renascer, permanecer,

Toda é outra; a alma lhe morre,
Mas de um continuo morrer,
E não ha magua mais triste
De quantas podem doer.

Os que out'rora a desejavam,
Antes della mal haver,
Vendo que chora e padece,
Rindo se põem a dizer:

«—Remador vai na canoa,
Canoa vae a descer...
Piranha espiou do fundo
Piranha, que o vae comer.

Ninguem se fie da braza
Que os olhos veem arder,
Sereno que cae de noite
Ha de fazel-a morrer.

Panenioxe, Panenioxe,
Não lhe sabias querer.
Quem te pagára esse golpe
Que lhe vieste fazer!»

V

Um dia,—era sobre tarde,
Ia-se o sol a afundar;
Calumby cerrava as folhas
Para melhor as guardar.

Vem cavaleiro de longe
E á porta vai apear.
Traz o rosto carregado,
Como a noite sem luar.

Chega-se á pobre da moça
E assim começa a falar:
«—Guaycurú dói-lhe no peito
Tristeza de envergonhar.

Esposo que te ha fugido
Hoje se vae a casar;
Noiva não é de alto sangue,
Porém de sangue vulgar.»

Ergue-se a moça de um pulo,
Arrebatada, e no olhar
Rebenta-lhe uma faisca
Como de luz a expirar.

Menino escravo que tinha
Acerta de ali passar;
Niani attentando nelle
Chama-o para o seu logar.

«—Cativo és tu; serás livre,
Mas vaes o nome trocar;
Nome avesso te pozeram...
Panenioxe has de ficar.»

Pela face cobreada
Desce, desce com vagar
Uma lagrima: era a ultima
Que lhe restava chorar.

Longo tempo alli ficára,
Sem se mover nem fallar;
Os que a veem naquella magoa
Nem ousam de a consolar.

Depois um longo suspiro,
E ia a moça a expirar...
O sol de todo morria
E ennegrecia-se o ar.

Pintam-n'a de vivas cores,
E lhe lançam um collar;[19]
Em fina esteira de junco
Logo a vão amortalhar.

O triste pae suspirando
Nos braços a vae tomar,
Deita-a sobre o seu cavallo
E a leva para enterrar.

Na terra em que dorme agora
Justo lhe era descançar,
Que pagou foro da vida
Com muito e muito penar.

Que assim se morre de amores
Aonde habita o jaguar,
Como as princesas morriam
Pelas terras de além-mar.


A CHRISTÃ NOVA

...essa mesma foi levada
captiva para uma terra estranha.

NAUM, cap. III, v. 10

PARTE I

I

Olhos fitos no céu, sentado á porta,
O velho pae estava. Um luar frouxo
Vinha beijar-lhe a veneranda barba
Alva e longa, que o peito lhe cobria,
Como a nevoa na encosta da montanha
Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite,
E silenciosa: a praia era deserta,
Ouvia-se o bater pausado e longo
Da somnolenta vaga,—unico e triste
Som que a mudez quebrava á natureza.

II

Assim talvez nas solidões sombrias
Da velha Palestina
Um propheta no espirito volvera
As desgraças da patria. Quão remota
Aquella de seus paes sagrada terra,
Quão differente desta em que ha vivido
Os seus dias melhores! Vago e doce,
Este luar não allumia os serros
Estereis, nem as ultimas ruinas,
Nem as ermas planicies, nem aquelle
Morno silencio da região que fôra
E que a historia de todo amortalhára.
Ó torrentes antigas! aguas santas
De Cedron! Já talvez o sol que passa,
E vê nascer e vê morrer as flôres,
Todas no leito vos seccou, em quanto
Estas murmuram placidas e cheias,
E vão contando ás deleitosas praias
Esperanças futuras. Longo e longo
O devolver dos seculos
Será, primeiro que a memoria do homem
Teça a mortalha fria
Da região que inda tinge o albor da aurora.

III

Talvez, talvez no espirito fechado
Do ancião vagueavam lentamente
Estas ideias tristes. Junto á praia
Era a austera mansão, donde se via
Desenrolarem-se as serenas vagas
Do nosso golpho azul. Não a enfeitavam
As galas da opulencia, nem os olhos
Entristecia co'o medonho aspecto
Da miseria; não pródiga nem surda
A fortuna lhe fora, mas aquella
Mediana sobria, que os desejos
Contenta do philosopho, lhe havia
Doirado os tectos. Guanabara ainda
Não era a flôr aberta
Da nossa edade; era botão apenas,
Que rompia do hastil, nascido á beira
De suas ondas mansas. Simples e rude,
Ia brotando a juvenil cidade,
Nestas incultas terras, que a lembrança
Recordava talvez do antigo povo,
E o guáu alegre, e as rispidas pelejas,
Toda essa vida que morreu.

IV

Sentada
Aos pés do velho estava a amada filha,
Bella como a açucena dos Cantares,
Como a rosa dos campos. A cabeça
Nos joelhos do pae reclina a moça,
E deixa resvalar o pensamento
Rio abaixo das longas esperanças
E namorados sonhos. Negros olhos
Por entre os mal fechados
Cilios estende á serra que recorta
Ao longe o céu. Morena é a face linda
E levemente pallida. Mais bella,
Nem mais suave era a formosa Ruth
Ante o rico Booz, do que essa virgem,
Flôr que Israel brotou do antigo tronco,
Corada ao sol da juvenil America.

V

Mudos viam correr aquellas horas
Da noite, os dous: ele voltando o rosto
Ao passado, ella os olhos ao futuro.
Cansam-lhe enfim ao pensamento as azas
De ir voando, atravez da espessa treva,
Frouxas as colhe, e desce ao campo exiguo
Da realidade. A delicada virgem
Primeiro volve a si; os lindos dedos
Corre-lhe ao longo da nevada barba,
E: «—Pae amigo, que pensar vos leva
Tão longe a alma?» Estremecendo o velho.
«—Curiosa!—lhe disse,—o pensamento
E como as aves passageiras: voa
A buscar melhor clima.—Opposto rumo
Ias tu, alma em flôr, aberta apenas,
Tão longe ainda do calor da sesta,
Tão remota da noite... Uma esperança
Te sorria talvez? Talvez, quem sabe,
Uns namorados olhos que me roubem,
Que te levem... Não córes, filha minha!
Esquecimento, não; lembrança ao menos
Ficar-te-ha do paterno affecto; e um dia,
Quando eu na terra descansar meus ossos,
Haverás doce balsamo no seio
Da affeição juvenil... Sim; não te accuso;
Ama: é a lei da natureza, eterna!
Ama: um homem será da nossa raça...»

VI

Estas palavras taes ouvindo a moça,
Turbada os olhos descaiu na terra,
E algum tempo ficou calada e triste,
Como no azul do céu o astro da noite,
Se uma nuvem lhe empana a meio a face.
Subito a voz e o rosto alevantando,
Com dissimulação,—peccado embora,
Mas innocente:—«Olhai, a noite é linda!
O vento encrespa mollemente as ondas,
E o céu é todo azul e todo estrelas!
Formosa, oh! quão formosa a terra minha!
Dizei: além desses compridos serros,
Além daquelle mar, á orla de outros,
Outras como esta vivem?»

VII

Fresca e pura
Era-lhe a voz, voz d'alma que sabia
Entrar no coração paterno. A fronte
Inclina o velho sobre o rosto amado
De Angela.—Na cabeça osculo santo
Imprime á filha; e suspirando, os olhos
Melancholicamente ao ar levanta,
Desce-os e assim murmura:
«Vaso é digno de ti, lyrio dos vales,
Terra solene e bella. A natureza
Aqui pomposa, compassiva e grande,
No regaço recebe a alma que chora
E o coração que tumido suspira.
Comtudo, a sombra pesarosa e errante
Do povo que acabou pranteia ainda
Ao longo das areias,
Onde o mar bate, ou no cerrado bosque
Inda povoado das reliquias suas,
Que o nome de Tupan confessar podem
No proprio templo augusto. Ultima e forte
Consolação é esta do vencido
Que viu tudo perder-se no passado,
E unico salva do naufragio imenso
O seu Deus. Patria não. Uma ha na terra
Que eu nunca vi... Hoje é ruina tudo,
E viuvez e morte. Um tempo, emtanto,
Bella e forte ella foi; mas longe, longe
Os dias vão da fortaleza e gloria
Escoados de todo como as aguas
Que não volvem jamais. Oleo que a unge,
Finas telas que a vestem, atavios
De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,
E a flôr de trigo e mel de que se nutre,
Sonhos, são sonhos do propheta. É morta[20]
Jerusalem! Oh! quem lhe dera os dias
Da passada grandeza, quando a planta
Da senhora das gentes sobre o peito
Pousava dos vencidos, quando o nome
Do que ha salvo Israel, Moysés...»
«—Não! Christo,
Filho de Deus! Só elle ha salvo os homens!»
Isto dizendo, a delicada virgem
As mãos postas ergueu. Uma palavra
Não disse mais; no coração, emtanto,
Murmurava uma prece silenciosa,
Ardente e viva, como a fé que a anima
Ou como a luz da lampada
A que não faltou oleo.

VIII

Taciturno
Esteve longo tempo o ancião. Aquella
Alma infeliz nem toda era de Christo
Nem toda de Moyses; ouvia attento
A palavra da Lei, como nos dias
Do eleito povo; mas a doce nota
Do Evangelho não raro lhe batia
No alvoroçado peito,
Solemnissima e pura... Descambava
No entanto a lua. A noite era mais linda,
E mais augusta a solidão. Na alcova
Entre a pallida moça. Da parede
Um Christo pende; ela os joelhos dobra,
Os dedos cruza e reza,—não serena,
Nem alegre tambem, como costuma,
Mas a tremer-lhe nos formosos olhos
Uma lagrima.

IX

A lampada accendida
Sobre a meza do velho, as largas folhas
Allumia de um livro. O maximo era
Dos livros todos. A escolhida lauda
Era a do canto dos captivos que iam
Pelas ribas do Euphrates, relembrando
As desgraças da patria. A sós, com elles,
Suspira o velho aquelle psalmo antigo:

Junto os rios da terra amaldiçoada
De Babylonia, um dia nos sentamos,
Com saudades de Sião amada.

As harpas nos salgueiros penduramos,
E ao relembrarmos os extintos dias
As lagrimas dos olhos desatamos.

Os que nos davam cruas agonias
De captiveiro, alli nos perguntavam
Pelas nossas antigas harmonias.

E diziamos nós aos que fallavam:
«Como em terra de exilio amargo e duro
Cantar os hymnos que ao Senhor louvavam?»

Jerusalem, se inda n'um sol futuro,
Eu desviar de ti meu pensamento
E teu nome entregar a olvido escuro,

A minha dextra a frio esquecimento
Votada seja; apegue-se á garganta
Esta lingua infiel, se um só momento

Me não lembrar de ti, se a grande e santa
Jerusalem não for minha alegria
Melhor no meio de miseria tanta.

Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle dia
Da abatida Sião, lembra-lh'o aos duros
Filhos de Edom, e á voz que alli dizia:

Arruinai-a, arruinai-a; os muros
Arrazemol-os todos; só lhe baste
Um montão de destroços mal seguros.

Filha de Babylonia, que peccaste,
Abençoado o que se houver comtigo
Com a mesma oppressão que nos mostraste!

Abençoado o barbaro inimigo
Que os tenros filhos teus ás mãos tomando,
Os for, por teu justissimo castigo,
Contra um duro penedo esmigalhando!


PARTE II

I

Era naquella doce e amavel hora
Em que vem branqueando a alva celeste,
Quando parece que remoça a vida
E toda se espreguiça a natureza.
Alva neblina que espalhara a noite
Frouxamente nos ares se dissolve,
Como de uns olhos tristes
Foge co'o tempo a já ligeira sombra
De consoladas maguas. Vida é tudo.
E pompa e graça natural da terra,
Mas que não seja no ermo,
Onde seus olhos rutilos espraia
Livres a aurora, sem tocar vestigios
De obras caducas do homem, onde as aguas
Do rio bebe a fugitiva corça,
Vivo aroma nos ares se difunde,
E aves, e aves de infinitas cores
Voando vão e revoando tornam,
Inda senhoras da amplidão que é sua,
Donde as hade fugir o homem um dia
Quando a agreste solidão entrar o passo
Creador que derruba. Já de todo
Nado era o sol; e á viva luz que innunda
Estes meus patrios morros e estas praias,
Sorrindo a terra moça
Noiva parece que o virgineo seio
Entrega ao beijo nupcial do amado.
E hade os funebres véus lançar a morte
Na verdura do campo? A natureza
A nota vibrará da extrema angustia
Neste festivo cantico de graças
Ao sol que nasce, ao Creador que o envia,
Como renovação de juventude?

II

Coava o sol pela miuda e fina
Gelosia da alcova em que se apresta
A recente christã. Singelas roupas
Traja da ingenua cor que a natureza
Pintou nas plumas que primeiro brota
O seu patrio guará. Vinculo frouxo
Mal lhe segura a luzidia trança,
Como ao desdem lançada
Sôbre a espadua gentil. Joia nenhuma,
Mais que seus olhos meigos, e essa doce
Modestia natural, encanto, enlevo,
Casta flôr que aborrece os mimos do horto,
E ama livre nascer no campo, á larga,
Rustica, mas formosa. Não lhe ensombram
As tristezas da vespera o semblante,
Nem da secreta lagrima na face
Ficou vestigio.—Descuidosa e alegre,
Ri-se, murmura uma cantiga, ou pensa,
E repete baixinho um nome... Oh! se elle
Espreital-a pudesse ali risonha,
A sós comsigo, entre o seu Christo e as flôres
Colhidas ao tombar da extincta noite,
E vecejantes inda!

III

De repente,
Aos ouvidos da moça enamorada
Chega um surdo rumor de soltas vozes,
Que ora crescendo vae, ora se apaga,
Extranho, desusado. Eram... São elles,
Os francezes, que vem de longes praias
A cobiçar a perola mimosa,
Nictheroy, na alva-azul concha nascida
De suas aguas recatadas. Rege
O atrevido Duclerc a flôr dos nobres,
Cuja tez branca requeimára o fogo
Que o vivo sol dos tropicos dardeja,
E a lufada dos ventos do oceano.
Cobiçam-te elles, minha terra amada,
Como quando nas faixas sempre-verdes
Eras envolta; e rude, inda que bello,
O aspecto havias que poliu mais tarde
A clara mão do tempo. Inda repetem
Os ecos do reconcavo os suspiros
Dos que vieram a buscar a morte,
E a receberam dos varões possantes
Companheiros de Estacio. A todos elles,
Prole de Luso ou geração da Gallia,
Captivara-os a nayade escondida,
E o sol os viu travados nessa longa
E sangrenta porfia, cujo premio
Era teu verde, candido regaço.
Triunphára o trabuco lusitano
Naquele exticnto seculo. Vencido,
O pavilhão francez volvera á patria,
Pela agua arrastando o longo crepe
De suas tristes, mortas esperanças.
Que vento novo o desfraldou nos ares?

IV

Angela ouvira as vozes da cidade,
As vozes do furor. Já receiosa,
Tremula, foge á alcova e se encaminha
Á camera paterna. Ia transpondo
A franqueada porta... e pára. O peito
Rompe-lh'o quasi o coração,—tamanho
É o palpitar, um palpitar de gosto,
De sorpresa e de susto. Aquelles olhos,
Aquella graça mascula do gesto,
Graça e olhos são delle, o amado noivo,
Que entre os mais homens elegeu sua alma
Para o vínculo eterno... Sim, que a morte
Póde arrancar ao seio humano o alento
Ultimo e derradeiro; os que deveras
Unidos foram, volverão unidos
A mergulhar na eternidade. Estava
Junto do velho pae o gentil moço,
Elle todo agitado, o ancião sombrio,
Calados ambos. A attitude de ambos,
O mysterioso, gelido silencio,
Mais que tudo, a presença nunca usada
Daquelle homem ali, que mal a espreita
De longe e a furto, nos instantes breves
Em que lhe é dado vel-a, tudo á moça
O animo abala e o coração enfia.

V

Mas o tropel de fóra avulta e cresce
E os tres accorda. A virgem, lentamente,
Rosto inclinado ao chão, transpõe o espaço
Que dos dous a separa... O tenro collo
Curva ante o pae, e na enrugada dextra
O osculo imprime, herdada usança antiga
De filial respeito. As mãos lhe toma
Enternecido o velho; olhos com olhos
Alguns instantes rapidos ficaram,
Até que elle, voltando o rosto ao moço:
«—Perdoai,—disse,—se o paterno affecto
Me atou a lingua. Vacillar é justo
Quando á pobre ruina a flôr lhe pedem
Que unica lhe nasceu,—unica adorna
A aridez melancholica do extremo,
Pallido sol... Não protesteis! Roubal-a,
Arrancal-a aos meus ultimos instantes,
Não o fareis de certo. Pouco importa
Dês que a metade lhe levaes da vida,
Dês que seu coração, comvosco parte
Affeições minhas.—Ao demais, o sangue
Que lhe corre nas veias, condemnado,
Nuno, será dos vossos...» Longo e frio
Olhar estas palavras acompanha,
Como a arrancar-lhe o pensamento interno.
A donzella estremece. Nuno o alento
Recobra e falla: «Puro sangue é elle,
Se lhe corre nas veias. Tão mimosa,
Candida creatura, alma tão casta,
Inda nascida entre os incréos da Arabia,
Deus a votara á conversão e á vida
Dos eleitos do céu. Aguas sagradas
Que a lavaram no berço, já nas veias
O sangue velho e impuro lhe trocaram
Pelo sangue de Christo...»

VI

Neste instante
Cresce o tumulto exterior. A virgem
Medrosa toda se conchega ao collo
Do velho pae. «Ouvis? Fallae! é tempo!
Nuno prossegue.—Este commum perigo
Chama os varões á rispida batalha;
Com elles vou. Se um galardão, emtanto,
Merecer de meus feitos, não á patria
Irei pedil-o; só de vós o espero,
Não o melhor, mas o unico na terra,
Que a minha vida...» Rematar não pôde
Esta palavra. Ao escutar-lhe a nova
Da imminente peleja
E a decisão de combater por ella,
Inteiras sente as forças que se perdem
A donzella, e bem como ao rijo vento
Inclina o collo o arbusto
Nos braços desmaiou do pae. Volvida
A si, na pallidez do rosto o velho
Attenta um pouco, e suspirando: «As armas
Empunhae; combatei; Angela é vossa.
Não de mim a havereis: ella a si mesma
Toda nas vossas mãos se entrega. Morta
Ou feliz é a escolha; não vacillo:
Seja feliz, e folgarei com ella...»

VII

Sobre a fronte dos dous, as mãos impondo,
Ao seio os conchegou, bem como a tenda
Do patriarcha santo agasalhava
O moço Isaac e a delicada virgem
Que entre os rios nasceu. Delicioso[21]
E solemne era o quadro; mas solemne
E delicioso embora, ia esvair-se
Qual celeste visão, que accende a espaços
O animo do infeliz. A guerra, a dura
Necessidade de immolar os homens,
Por salvar homens, a terrivel guerra
Corta o amoroso vinculo que os prende
E á moça o riso lhe converte em lagrimas.
Misera és tu, pallida flôr; mas soffre
Que o calor deste sol te acurve o calix,
Morta, não, nem já murcha,—mas apenas
Como cançada de queimor do estio.
Soffre; a tarde virá serena e branda
A reviver-te o alento; a fresca noite
Choverá sobre ti piedoso orvalho
mais risonha surgirás á aurora.

VIII

Foge á estancia da paz o hardido moço;
Esperança, fortuna, amor e patria
A guerrear o levam. Já nas veias
O vivo sangue irrequieto pulsa,
Como ancioso de correr por ambas,
A bella terra e a suspirada noiva.
Triste quadro a seus olhos se apresenta;
Nos femininos rostos vê pintados
Incerteza e terror; lamentos, gritos
Soam de entorno. Voam pelas ruas
Homens de guerra; homens de paz se aprestam
Para a crua peleja; e, ou nobre estancia,
Ou choupana rasteira, armado é tudo
Contra a forte invasão. Nem lá se deixa
Quieto, a sós com Deus, na estreita cella,
O solitario monge que ás batalhas
Fugiu da vida. O patrimonio santo
Cumpre salval-o. Cruz e espada empunha,
Deixa a serena região da prece
E voa ao torvelinho do combate.

IX

Entre os fortes alumnos que dirige
O ardido Bento, a perfilar-se corre[22]
Nuno. Estes são os que o primeiro golpe
Descarregam no attonito inimigo.
Do militar officio ignoram tudo,
De armas não sabem; mas o brio e a honra
E a lembrança da terra em que primeiro
Viram a luz, e onde o perdel-a é doce,
Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo
Do nobre esforço e galhardia rara,
Com que inda nos humbraes da vida que orna
Tanta esperança, tanto sonho de ouro,
Resolutos a morte encaram, prestes
A retalhar nas dobras
Da vestidura funebre da patria
O piedoso lençol que os leve á campa,
Ou com ella cingir o eterno louro.

X

Ó mocidade, ó baluarte vivo
Da cara patria! Já perdida é ella,
Quando em teu peito enthusiasmo santo
E puro amor se extingue, e áquelle nobre,
Generoso despejo e ardor antigo
Succede o frio calcular, e o torpe
Egoismo, e quanto ha hi no humano peito,
Que é fructo nosso e podre... Muitos caem
Mortos alli. Que importa? Vão seguindo
Avante os bravos, que a invasão caminha
Implacavel e dura, como a morte,
A pelejar e a destruir. Tingidas
Ruas de extranho sangue
E sangue nosso, lacerados membros,
Corpos de que ha fugido a alma cançada,
E o denso fumo e os funebres lamentos,
Quem nessa confusão, miseria e gloria
Conhecerá da juvenil cidade
O aspecto, a vida? Aqui da infancia os dias
Nuno vivêra, á vecejante sombra
Do seu patrio arvoredo, ao som das vagas
Que inda batendo vão na amada areia;
Risos, jogos da verde meninice,
Esta praia lhe lembra, aquella pedra,
A mangueira do campo, a tosca cerca
De espinheiro e de flôres enlaçadas,
A ave que voa, a brisa que suspira,
Que suspira como elle ha suspirado,
Quando rompendo o coração do peito
Ia-lhe empós dessa visão divina,
Realidade agora... E ha de perdel-as
Patria e noiva? Esta ideia lhe esvoaça
Torva e surda no cerebro do moço,
E ao contrahido espirito redobra
Impeto e forças. Rompe
Por entre a multidão dos seus, e investe
Contra o duro inimigo; as balas voam,
E com ellas a morte, que não sabe
Dos escolhidos seus a terra e o sangue,
E indistinctos os toma; elle, no meio
Daquelle horrivel turbilhão, parece
Que a faisca do genio o leva e anima,
Que a fortuna o votára á gloria.

XI

Soam
Enfim os gritos de triunmpho; e o peito
Do povo que lutou respira á larga,
Como ao que, após ardua subida, chega
Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos
Estende pelo azul dos céus, e a vida
Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue
A victoria custára; mas, se em meio
De tanta gloria ha lagrimas, soluços,
Gemidos de viuvez, quem os escuta,
Quem as vê essas lagrimas choradas
Na multidão da praça que troveja
E folga e ri? O sacro bronze que usa
Os fieis convidar á prece, e a morte
Do homem pranteia lugubre e solemne,
Ora festivo canta
O comum regosijo; e pela aberta
Porta dos templos entra a frouxo o povo
A agradecer com lagrimas e vozes
O triumpho,—piedoso instincto da alma,
Que a Deus levanta o pensamento e as graças.

XII

Tu, mancebo feliz, tu bravo e amado,
Voa nas asas rutilas e leves
Da fortuna e do amor. Como ao indiano,
Que, ao regressar das porfiadas lutas,
Por estas mesmas regiões entrava,
A encontral-o saía a meiga esposa,
—A recente christã, entre assustada
E jubilosa coroará teus feitos
Co'a melhor das capelas que hão pousado
Em fronte de varão,—um doce e longo
Olhar que inteiro encerra a alma que chora
De gosto e vida! Voa o moço á estancia
Do ancião; e ao pôr na suspirada porta
Olhos que traz famintos de encontral-a,
Frio terror lhe empece os membros. Frouxo
Ia o sol transmontando; lenta a vaga
Melancholicamente ali gemia,
E todo o ar parecia arfar de morte.
Qual se pallida a víra, já cerrados
Os desmaiados olhos,
Frios os doces labios
Cansados de pedir aos céus por elle,
Nuno estacára; e pelo rosto em fio
O suor lhe caiu da extrema angustia;
Longo tempo vacilla;
Vence-se emfim, e entra a mansão da esposa.

XIII

Quatro vultos na camara paterna
Eram. O pae sentado,
Calado e triste. Reclinada a fronte
No espaldar da cadeira, a filha os olhos
E o rosto esconde, mas tremor continuo
De um abafado soluçar o esbelto
Corpo lhe agita. Nuno aos dous se chega;
Ia a fallar, quando a formosa virgem,
Os lacrimosos olhos levantando,
Um grito solta do intimo do peito
E se lhe prostra aos pés: «Oh! vivo, és vivo!
Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,
Aqui te envia... Salva-o tu, se pódes,
Salva meu pobre pae!» Estremecendo,
Nella e no velho fita Nuno os olhos,
E agitado pergunta: «Qual ousado
Braço lhe ameaça a vida?» Cavernosa
Uma voz lhe responde: «O sancto officio!»
Volve o mancebo o rosto
E o merencorio aspecto
De dous familiares todo o sangue
Nas veias lhe gelou.

XIV

Solemne o velho
Com a voz, não frouxa, mas pausada, falla:
«Vês? Todo o brio, todo o amor no peito
Te emudeceu. Só lastimar-me podes,
Salvar-me, nunca. O carcere me aguarda,
E a fogueira talvez; cumpril-a, é tempo,
A vontade de Deus. Tu, pae e esposo
Da desvalida filha que ahi deixo,
Nuno, serás. A relembrar com ella
Meu pobre nome, applacareis a immensa
Colera do Senhor...» Sorrindo ironico,
Estas palavras ultimas lhe caem
Dos labios tristes. Ergue-se: «Partamos!
Adeus! Negou-me Aquelle que no campo
Deixa a arvore ancian perder as folhas
No mesmo ponto em que as nutriu viçosas,
Negou-me ver por estas longas serras
Ir-se-me o ultimo sol. Brando regaço
A filial piedade me daria
Em que eu dormisse o derradeiro somno,
E em braços de meu sangue transportado
Fora em horas de paz e de silencio
Levado ao leito extremo e eterno. Vive
Ao menos tu...»

XV

Um familiar lhe corta
O adeus ultimo: «Vamos: é já tempo!»
Resignado o infeliz, ao seio aperta
A filha, e todo o coração n'um beijo
Lhe transmitiu, e a caminhar começa.
Angela os lindos braços sobre os hombros
Trava do austero pae; flôres dissereis
De parasita, que enroscou seus ramos
Pelo cançado tronco, esteril, secco
De arvore antiga: «Nunca! Hão de primeiro
A alma arrancar-me! Ou se heis peccado, e a morte
Pena hade ser da commettida culpa,
Convosco descerei á campa fria,
Juntos a mergulhar na eternidade.
Israel tem vertido
Um mar de sangue. Embora! á tona delle
Verdeja a nossa fé, a fé que anima[23]
O eleito povo, flôr suave e bella
Que o medo não desfolha, nem já secca
Ao vento mau da colera dos homens!»

XVI

Trémula a voz do peito lhe saía.
Das mãos lhe trava um dos algozes. Ella
Entrega-se risonha,
Como se o calix da amargura extrema
Pelos meles da vida lhe trocassem
Celeste e eterna. O coração do moço
Latejava de espanto e susto. Os olhos
Pousa na filha o desvairado velho.
Que ouviu?—Attenta nella; o lindo rosto
O céu não busca jubiloso e livre,
Antes, como travado de agra pena,
Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso
Entre si mesma uma oração, e o nome
De Jesus repetia, mas tão baixo,
Que o coração do pae mal pôde ouvir-lh'o.
Mas ouviu-lh'o; e tão forte amor, tamanho
Sacrificio da vida a alma lhe rasga
E deslumbra. Escoou-se um breve tempo
De silencio; elle e ella, os tristes noivos,
Como se a eterna noite os recebêra,
Gelados eram; levantar não ousam
Um para o outro os arrasados olhos
De mal contidas e teimosas lagrimas.

XVII

Nuno, enfim, lentamente e a custo arranca
Do coração estas palavras: «Fôra
Misericordia ao menos confessal-o
Quando ao fogo do barbaro inimigo
Me era facil deixar o derradeiro
Sopro da vida. Premio é este acaso
De tamanho lidar? Que mal te hei feito,
Por que me dês tão barbara e medonha
Morte, como esta, em que o cadaver guarda
Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto
Da vida que fugiu?» Angela os olhos
Magoados ergue; arfa-lhe o peito afflicto,
Como o dorso da vaga que intumesce
A asa da tempestade. «Adeus!» suspira,
E a fronte abriga no paterno seio.

XVIII