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Poesias Completas

Chapter 209: CIRCULO VICIOSO
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About This Book

Lyric poems blend intimate reflections on love, memory, solitude, time, and mortality with occasional political and patriotic meditations and ironic social observation. Imagery draws on nature, classical and religious allusion, and everyday detail, while forms range from short contemplative lyrics to longer narrative odes. Early pieces often bear romantic nostalgia; later poems adopt restraint, wit, and elegiac calm, addressing loss, illusion, artistic vocation, and national suffering. The result juxtaposes tender personal feeling with broader moral and historical concerns.

Agora a dansa, agora alegres vinhos,
Trez dias ha que de inimigos povos
Esquecidos os trazem. Sobre um tronco
Sentado o chefe, carregado o rosto,
Inquieto o olhar, o gesto pensativo,
Como alheio ao prazer, de quando em quando
Á multidão dos seus a vista alonga,
E um rugido no peito lhe murmura.
Quem a fronte enrugara do guerreiro?
Inimigo não foi, que o medo nunca
O sangue lhe esfriou, nem vão receio
Da batalha futura o desenlace
Lhe fez incerto. Intrepidos como elle
Poucos vira este céu. Seu forte braço,
Quando vibra o tacape nas pelejas,
De rasgados cadaveres o campo
Inteiro alastra, e ao peito do inimigo,
Como um grito de morte a voz lhe soa.
Nem só nas gentes o terror infunde;
É fama que em seus olhos cor da noite,
Inda creança, um genio lhe deixara
Mysteriosa luz, que as forças quebra
Da onça e do jaguar. Certo é que um dia
(A tribu o conta, e seus pagés o juram)
Um dia em que, do filho acompanhado,
Ia costeando a orla da floresta,
Um possante jaguar, escancarando
A bocca, em frente do famoso chefe
Estacára. De longe um grito surdo
Solta o jovem guerreiro; logo a setta
Embebe no arco, e o tiro sibilante
Ia já disparar, quando de assombro
A mão lhe afrouxa a distendida corda.
A fera o colo timida abatêra,
Sem ousar despregar os fulvos olhos
Dos olhos do inimigo. Ureth ousado
Arco e frechas atira para longe,
A massa empunha, e lento, e lento avança;
Trez vezes volteando a arma terrivel,
Enfim despede o golpe; um grito apenas
Unico atroa o solitario campo,
E a fera jaz, e o vencedor sobre ella.


OCCIDENTAES

O DESFECHO

Prometheu sacudiu os braços manietados
E supplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos seculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.

Mais dez, mais cem, mais mil e mais um billião,
Uns cingidos de luz, outros ensanguentados...
Subito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a aguia em cima os olhos espantados.

Pela primeira vez a viscera do heroe,
Que a immensa ave do céu perpetuamente roe,
Deixou de renascer ás raivas que a consomem.

Uma invisivel mão as cadeias dilue;
Frio, inerte, ao abysmo um corpo morto rue;
Acabára o supplicio e acabára o homem.


CIRCULO VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
—«Quem me dera que fosse aquella loura estrella,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!»
Mas a estrella, fitando a lua, com ciume:

—«Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega columna á gothica janella,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bella!»
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

—«Misera! tivesse eu aquella enorme, aquella
Claridade immortal, que toda a luz resume!»
Mas o sol, inclinando a rutila capella:

—«Pesa-me esta brilhante aureola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbella...
Por que não nasci eu um simples vagalume?»


UMA CREATURA

Sei de uma creatura antiga e formidavel,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciavel.

Habita juntamente os valles e as montanhas;
E no mar, que se rasga, á maneira de abysmo,
Espreguiça-se toda em convulsões extranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o bello e o monstruoso.

Para ella o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbavel, como
Pelo vasto areal um vasto paquyderme.

Na arvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flôr, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o fructo;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o polluto e o impolluto;
Começa e recomeça uma perpetua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.


A ARTHUR DE OLIVEIRA, Enfermo

Sabes tu de um poeta enorme
Que andar não usa
No chão, e cuja estranha musa,
Que nunca dorme,

Calça o pé, melindroso e leve,
Como uma pluma,
De folha e flôr, de sol e neve,
Crystal e espuma;

E mergulha, como Leandro,
A fórma rara
No Pó, no Sena, em Guanabara
E no Scamandro;

Ouve a Tupan e escuta a Momo,
Sem controversia,
E tanto ama o trabalho, como
Adora a inercia;

Ora do fuste, ora da ogiva,
Sair parece;
Ora o Deus do occidente esquece
Pelo deus Siva;

Gosta do estrepito infinito,
Gosta das longas
Solidões em que se ouve o grito
Das arapongas;

E, se ama o lepido besouro,
Que zumbe, zumbe,
E a mariposa que succumbe
Na flamma de ouro,

Vagalumes e borboletas,
Da côr da chamma,
Roxas, brancas, rajadas, pretas,
Não menos ama

Os hippopotamos tranquillos,
E os elephantes,
E mais os bufalos nadantes
E os crocodilos,

Como as girafas e as pantheras,
Onças, condores,
Toda a casta de bestas feras
E voadores.

Se não sabes quem elle seja
Trepa de um salto,
Azul acima, onde mais alto
A aguia negreja;

Onde morre o clamor iniquo
Dos violentos,
Onde não chega o riso obliquo
Dos fraudulentos;

Então, olha de cima posto
Para o oceano,
Verás n'um longo rosto humano
Teu proprio rosto.

E has de rir, não do riso antigo,
Potente e largo,
Riso de eterno moço amigo,
Mas de outro amargo,

Como o riso de um deus enfermo
Que se aborrece
Da divindade, e que apetece
Tambem um termo...


MUNDO INTERIOR

Ouço que a natureza é uma lauda eterna
De pompa, de fulgor, de movimento e lida,
Uma escala de luz, uma escala de vida
De sol á infima luzerna.

Ouço que a natureza,—a natureza externa,—
Tem o olhar que namora, e o gesto que intimida
Feiticeira que ceva uma hydra de Lerna
Entre as flôres da bella Armida.

E comtudo, se fecho os olhos, e mergulho
Dentro em mim, vejo á luz de outro sol, outro abysmo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Róla a vida immortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu ambito enorme,
Um segredo que attrae, que desafia—e dorme.


O CORVO

(EDGAR POE)

Em certo dia, á hora, á hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi á porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras taes:
«É alguem que me bate á porta de mansinho;
«Ha de ser isso e nada mais.»

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial Dezembro;
Cada braza do lar sobre o chão reflectia
A sua ultima agonia.
Eu, ancioso pelo sol, buscava
Saccar d'aquelles livros que estudava
Repouso (em vão!) á dôr esmagadora
D'estas saudades immortaes
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguem chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por elle padecido.
Enfim, por aplacal-o aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: «Com effeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
«Que bate a estas horas taes.
«É visita que pede á minha porta entrada:
«Ha de ser isso e nada mais.»

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacillo e d'esta sorte
Fallo: «Imploro de vós,—ou senhor ou senhora,
«Me desculpeis tanta demora.
«Mas como eu, precisando de descanço,
«Já cochilava, e tão de manso e manso
«Batestes, não fui logo, prestemente,
«Certificar-me que ahi estaes.»
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Sómente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado,
Mas o silencio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra unica e dilecta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca saes;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro com alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:
«Seguramente, há na janella
«Alguma cousa que sussurra. Abramos,
«Eia, fôra o temor, eia, vejamos
«A explicação do caso mysterioso
«D'essas duas pancadas taes.
«Devolvamos a paz ao coração medroso,
«Obra do vento e nada mais.»

Abro a janella, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortezias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e recto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima vôa dos portaes,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquella rigida postura,
Com o gesto severo,—o triste pensamento
Sorriu-me alli por um momento,
E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas
«Vens, embora a cabeça nua tragas,
«Sem topete, não és ave medrosa,
«Dize os teus nomes senhoriaes;
«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

Vendo que o psssaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico attonito, embora a resposta que dera
Difficilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem ha visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
N'um busto, acima dos portaes,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: «Nunca mais.»

No emtanto, o corvo solitario
Não teve outro vocabulario,
Como se essa palavra escassa que alli disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: «Perdi outr'ora
Tantos amigos tão leaes!
Perderei tambem este em regressando a aurora.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exacta! é tão cabida!
«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia
«Que ele trouxe da convivencia
«De algum mestre infeliz e acabrunhado
«Que o implacavel destino ha castigado
«Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
«Que dos seus cantos usuaes
«Só lhe ficou, na amarga e ultima cantiga,
«Esse estribilho: «Nunca mais.»

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no velludo
Da poltrona que eu mesmo alli trouxera
Achar procuro a lugubre quimera,
A alma, o sentido, o pavido segredo
Daquelas syllabas fataes,
Entender o que quiz dizer a ave do medo
Grasnando a phrase: «Nunca mais.»

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,
Sentia o olhar que me abrazava.
Conjecturando fui, tranquillo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lampada cahiam,
Onde as tranças angelicaes
De outra cabeça outr'ora alli se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Suppuz então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de seraphins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro thuribulo invisivel;
E eu exclamei então: «Um Deus sensivel
«Manda repouso á dor que te devora
«D'estas saudades immortaes.
«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
«Onde reside o mal eterno,
«Ou simplesmente naufrago escapado
«Venhas do temporal que te ha lançado
«N'esta casa onde o Horror, o Horror profundo
«Tem os seus lares triumphaes,
«Dize-me: existe acaso um balsamo no mundo?»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!
«Por esse céu que além se estende,
«Pelo Deus que ambos adoramos, falla,
«Dize a esta alma se é dado inda escutal-a
«No Eden celeste a virgem que ella chora
«Nestes retiros sepulchraes,
«Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta, ou o que quer que sejas!
«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
«Regressa ao temporal, regressa
«Á tua noite, deixa-me commigo.
«Vae-te, não fique no meu casto abrigo
«Pluma que lembre essa mentira tua.
«Tira-me ao peito essas fataes
«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»
E o corvo disse: «Nunca mais.»

E o corvo ahi fica; eil-o trepado
No branco marmore lavrado
Da antiga Pallas; ei-lo immutavel, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demonio sonhando. A luz cahida
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fóra
D'aquelas linhas funeraes
Que fluctuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!


PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Venus Formosa, Venus fulgurava
No azul do céu da tarde que morria,
Quando á janella os braços encostava
Pallida Maria.

Ao ver o noivo pela rua umbrosa,
Os longos olhos avidos enfia,
E fica de repente côr de rosa
Pallida Maria.

Correndo vinha no cavallo baio,
Que ela de longe apenas distinguia,
Correndo vinha o noivo, como um raio...
Pallida Maria!

Trez dias são, trez dias são apenas,
Antes que chegue o suspirado dia,
Em que elles porão termo ás longas penas...
Pallida Maria!

De confusa, naquelle sobressalto,
Que a presença do amado lhe trazia,
Olhos accesos levantou ao alto
Pallida Maria.

E foi subindo, foi subindo acima
No azul do céu da tarde que morria,
A ver se achava uma sonora rima...
Pallida Maria!

Rima de amor, ou rima de ventura,
As mesmas são na escala da harmonia.
Pousa os olhos em Venus que fulgura
Pallida Maria.

E o coração, que de prazer lhe bate,
Acha no astro a fraterna melodia
Que á natureza inteira dá rebate...
Pallida Maria.

Maria pensa: «Tambem tu, decerto,
«Esperas ver, neste final do dia,
«Um noivo amado que cavalga perto,
«Pallida Maria?»

Isto dizendo, subito escutava
Um estrepito, um grito e vozeria,
E logo a frente em ancias inclinava
Pallida Maria.

Era o cavallo, rabido, arrastando
Pelas pedras o noivo que morria;
Maria o viu e desmaiou gritando...
Pallida Maria!

Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha,
E a mesma noiva, semi-morta e fria,
Sobre elle as folhas do noivado espalha.
Pallida Maria!

Cruzam-se as mãos, na derradeira prece
Muda que o homem para cima envia,
Antes que desça á terra em que apodrece.
Pallida Maria!

Seis homens tomam do caixão fechado
E vão leval-o á cova que se abria;
Terra e cal e um responso recitado...
Pallida Maria

Quando, trez soes passados, rutilava
A mesma Venus, no morrer do dia,
Tristes olhos ao alto levantava
Pallida Maria.

E murmurou: «Tens a expressão do goivo,
«Tens a mesma roaz melancholia;
«Certamente perdeste o amor e o noivo,
«Pallida Maria?»

Venus, porém, Venus brilhante e bella,
Que nada ouvia, nada respondia,
Deixa rir ou chorar n'uma janela
Pallida Maria.


TO BE OR NOT TO BE

(SHAKESPEARE)

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um somno apenas,
Que as angustias extingue e á carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por elle.
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a duvida. Ao perpetuo somno,
Quando o lodo mortal despído houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesal-o cumpre.
Essa a razão que os luctuosos dias
Alonga do infortunio. Quem do tempo
Soffrer quizera ultrajes e castigos,
Injurias da oppressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas maguas,
Das leis a inercia, dos mandões a affronta,
E o vão desdem que de rasteiras almas
O paciente merito recebe,
Quem, se na ponta da despida lamina
Lhe acenára o descanço? Quem ao pezo
De uma vida de enfados e miserias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida cousa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno paiz mysterioso
D'onde um viajor sequer ha regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a supportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciencia.
Assim da reflexão á luz mortiça
A viva côr da decisão desmaia;
E o firme, essencial commettimento,
Que esta ideia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de acção perder o nome.


LINDOYA

Vem, vem das aguas, misera Moema,
Senta-te aqui. As vozes lastimosas
Troca pelas cantigas deleitosas,
Ao pé da doce e pallida Coema.

Vós, sombras de Iguassú e de Iracema,
Trazei nas mãos, trazei no collo as rosas
Que o amor desabrochou e fez viçosas
Nas laudas de um poema e outro poema.

Chegai, folgai, cantai. É esta, é esta
De Lindoya, que a voz suave e forte
Do vate celebrou, a alegre festa.

Além do amavel, gracioso porte,
Vede o mimo, a ternura que lhe resta.
Tanto inda é bella no seu rosto a morte!


SUAVE MARI MAGNO

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.

Arfava, espumava e ria,
De um riso espurio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe désse gozo
Ver padecer.


A MOSCA AZUL

Era uma mosca azul, azas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua,—melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
«Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que t'o ensinou?»

Então ella, voando, e revoando, disse:
—«Eu sou a vida, eu sou a flôr
«Das graças, o padrão da eterna meninice,
«E mais a gloria, e mais o amor.»

E elle deixou-se estar a contemplal-a, mudo,
E tranquillo, como um faquir,
Como alguem que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem reflectir.

Entre as azas do insecto, a voltear no espaço,
Uma cousa lhe pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço
E viu um rosto, que era o seu.

Era elle, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o collo nú
Um immenso collar de opala, e uma saphyra
Tirada do corpo de Vischnu.

Cem mulheres em flôr, cem nayras superfinas,
Aos pés delle, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que tem lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem ethiopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios,
Voluptuosamente nus.

Vinha a gloria depois;—quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triumphaes
De trezentas nações, e os parabens unidos
Das coroas occidentaes.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em agua que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então elle, estende a mão callosa e tosca,
Affeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quiz vel-a, quis saber a causa do mysterio.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que alli tinha um imperio,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa occupação
Miudamente, como um homem que quizesse
Dissecar a sua illusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ella,
Rota, baça, nojenta, vil,
Succumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquella
Visão fantastica e subtil.

Hoje, quando elle ahi vae, de aloé e cardamomo
Na cabeça, com ar taful,
Dizem que ensandeceu, e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.


ANTONIO JOSE

(21 DE OUTUBRO DE 1739)

Antonio, a sapiencia da Escriptura
Clama que ha para a humana creatura
Tempo de rir e tempo de chorar,
Como ha um sol no ocaso, e outro na aurora.
Tu, sangue de Ephraim e de Issacar,
Pois que já riste, chora.


SPINOZA

Gosto de ver-te, grave e solitario,
Sob o fumo de esqualida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operario,
E na cabeça a coruscante ideia.

E emquanto o pensamento delineia
Uma philosophia, o pão diario
A tua mão a labutar grangeia
E achas na independencia o teu salario.

Sôem cá fora agitações e lutas,
Sibille o bafo asperrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sobrio, tranquillo, desvellado e terno,
A lei commum, e morres, e transmutas
O suado labor no premio eterno.


GONÇALVES CRESPO

Esta musa da patria, esta saudosa
Niobe dolorida,
Esquece acaso a vida,
Mas não esquece a morte gloriosa.

E pallida, e chorosa,
Ao Tejo vôa, onde no chão caida
Jaz aquella evadida
Lyra da nossa America viçosa.

Com ella torna, e, dividindo os ares,
Trepido, molle, doce movimento
Sente nas frouxas cordas singulares.

Não é a aza do vento,
Mas a sombra do filho, no momento
De entrar perpetuamente os patrios lares.


ALENCAR

Hão de annos volver,—não como as neves
De alheios climas, de geladas cores;
Hão de os annos volver, mas como as flôres,
Sobre o teu nome, vividos e leves...

Tu, cearense musa, que os amores
Meigos e tristes, rusticos e breves,
Da indiana escreveste,—ora os escreves
No volume dos patrios esplendores.

E ao tornar este sol, que te ha levado,
Já não acha a tristeza. Extincto é o dia
Da nossa dor, do nosso amargo espanto.

Porque o tempo implacavel e pausado,
Que o homem consumiu na terra fria,
Não consumiu o engenho, a flôr, o encanto...


CAMÕES

I

Tu quem és? Sou o seculo que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A gloria resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou elle? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lyra alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Penuria, ermo, desgraça.

Nobremente soffreu? Como homem forte.
Esta immensa oblação?... É-lhe devida.
Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A gloria appetecida.
Nós, que o cantamos?... Volvereis á morte.
Elle, que é morto?... Vive a eterna vida.

II

Quando, transposta a lugubre morada
Dos castigos, ascende o florentino
Á região onde o clarão divino
Enche de intensa luz a alma nublada,

A saudosa Beatriz, a antiga amada,
A mão lhe estende e guia o peregrino,
E aquelle olhar ethereo e cristallino
Rompe agora da palpebra sagrada.

Tu, que tambem o Purgatorio andaste,
Tu, que rompeste os circulos do Inferno,
Camões, se o teu amor fugir deixaste,

Ora o tens, como um guia alto e superno
Que a Natercia da vida que choraste
Chama-se Gloria e tem o amor eterno.

III

Quando, torcendo a chave mysteriosa
Que os cancellos fechava do Oriente,
O Gama abriu a nova terra ardente
Aos olhos da companha valorosa,

Talvez uma visão resplandecente
Lhe amostrou no futuro a sonorosa
Tuba, que cantaria a acção famosa
Aos ouvidos da própria e extranha gente.

E disse: «Se já n'outra, antiga edade,
«Troya bastou aos homens, ora quero
«Mostrar que é mais humana a humanidade.

«Pois não serás heroe de um canto fero,
«Mas vencerás o tempo e a immensidade
«Na voz de outro moderno e brando Homero.»

IV

Um dia, junto á foz de brando e amigo
Rio de extranhas gentes habitado,
Pelos mares asperrimos levado,
Salvaste o livro que viveu comtigo.

E esse que foi ás ondas arrancado,
Já livre agora do mortal perigo,
Serve de arca immortal, de eterno abrigo,
Não só a ti, mas ao teu berço amado.

Assim, um homem só, naquelle dia,
Naquelle escasso ponto do universo,
Lingua, historia, nação, armas, poesia,

Salva das frias mãos do tempo adverso.
E tudo aquillo agora o desafia.
E tão sublime preço cabe em verso.


1802-1835

Um dia, celebrando o genio e a eterna vida,
Victor Hugo escreveu numa pagina forte
Estes nomes que vão galgando a eterna morte,
Isaias, a voz de bronze, alma sahida
Da coxa de David; Eschylo que a Orestes
E a Prometheu, que sofre as vinganças celestes
Deu a nota immortal que abala e persuade,
E transmitte o terror, como excita a piedade;
Homero, que cantou a colera potente
De Aquilles, e colheu as lagrimas troyanas
Para gloria maior da sua amada gente,
E com elle Virgilio e as graças virgilianas;
Juvenal que marcou com ferro em brasa o hombro
Dos tyrannos, e o velho e grave florentino,
Que mergulha no abysmo, e caminha no assombro,
Baixa humano ao inferno e regressa divino;
Logo após Calderon, e logo após Cervantes;
Voltaire, que mofava, e Rabelais que ria;
E, para coroar esses nomes vibrantes,
Shakespeare, que resume a universal poesia.

E agora que elle ahi vae, galgando a eterna morte,
Pega a Historia da penna e na pagina forte,
Para continuar a serie interrompida,
Escreve o nome d'elle, e dá-lhe a eterna vida.


JOSÉ DE ANCHIETA

Esse que as vestes asperas cingia,
E a viva flôr da ardente juventude
Dentro do peito a todos escondia;

Que em paginas de areia vasta e rude
Os versos escrevia e encomendava
Á mente, como esforço de virtude;

Esse nos rios de Babel achava,
Jerusalem, os cantos primitivos,
E novamente aos ares os cantava.

Não procedia então como os captivos
De Syão, consumidos de saudade,
Velados de tristeza, e pensativos.

Os cantos de outro clima e de outra edade
Ensinava sorrindo ás novas gentes,
Pela lingua do amor e da piedade.

E iam caindo os versos excellentes
No abençoado chão, e iam caindo
Do mesmo modo as mysticas sementes.

Nas florestas os passaros, ouvindo
O nome de Jesus e os seus louvores,
Iam cantando o mesmo canto lindo.

Eram as notas como alheias flôres
Que verdejam no meio de verduras
De diversas origens e primores.

Anchieta, soltando as vozes puras,
Achas outra Syão neste hemispherio,
E a mesma fé e egual amor apuras.

Certo, ferindo as cordas do psalterio,
Unicamente contas divulgal-a
A palavra christã e o seu mysterio.

Trepar não cuidas a luzente escala
Que os heroes cabe e leva á clara esphera
Onde eterna se faz a humana fala.

Onde os tempos não são esta chimera
Que apenas brilha e logo se esvaece,
Como folhas de escassa primavera.

Onde nada se perde nem se esquece,
E no dorso dos seculos trazido
O nome de Anchieta resplandece
Ao vivo nome do Brasil unido.


SONETO DE NATAL

Um homem,—era aquella noite amiga,
Noite christã, berço do Nazareno,—
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lepida cantiga,

Quiz transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua edade antiga,
Naquella mesma velha noite amiga,
Noite christã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A penna não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
«Mudaria o Natal ou mudei eu?»


OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE

(LA FONTAINE)

Mal que espalha o terror e que a ira celeste
Inventou para castigar
Os peccados do mundo, a peste, em summa, a peste,
Capaz de abastecer o Aqueronte n'um dia,
Veio entre os animaes lavrar;
E, se nem tudo succumbia,
Certo é que tudo adoecia.
Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento,
Catava mais nenhum sustento.
Não havia manjar que o appetite abrisse,
Raposa ou lobo que saisse
Contra a presa innocente e mansa,
Rola que á rola não fugisse,
E onde amor falta, adeus, folgança!
O leão convocou uma assembléa e disse:
«Sócios meus, certamente este infortunio veio
A castigar-nos de peccados.
Que o mais culpado entre os culpados
Morra por applacar a colera divina.
Para a commum saúde esse é, talvez, o meio.
Em casos taes é de uso haver sacrificados;
Assim a historia nol-o ensina.
Sem nenhuma illusão, sem nenhuma indulgencia,
Pesquizemos a consciencia.
Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão,
Devorei muita carneirada.
Em que é que me offendera? em nada.
E tive mesmo occasião
De comer egualmente o guarda da manada.
Portanto, se é mister sacrificar-me, prompto.
Mas, assim como me accusei,
Bom é que cada um se accuse, de tal sorte
Que (devemos querel-o, e é de todo ponto
Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.»
«—Meu senhor, accudiu a raposa, é ser rei
Bom demais; é provar melindre exagerado.
Pois então devorar carneiros,
Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado?
Não. Vós fizestes-lhes, senhor,
Em os comer, muito favor.
E no que toca aos pegureiros,
Toda a calamidade era bem merecida,
Pois são daquellas gentes taes
Que imaginaram ter posição mais subida
Que a de nós outros animaes.»
Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o discurso.
Ninguem do tigre nem do urso,
Ninguem de outras iguaes senhorias do matto,
Inda entre os actos mais damninhos,
Ousava esmerilhar um acto;
E até os ultimos rafeiros,
Todos os bichos resingueiros,
Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.
Eis chega o burro:«—Tenho ideia que no prado
De um convento, indo eu a passar, e picado
Da occasião, da fome e do capim viçoso,
E póde ser que do tinhoso,
Um bocadinho lambisquei
Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade.»
Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui d'el-rei!»
Um lobo, algo lettrado, arenga e persuade
Que era força immolar esse bicho nefando,
Empesteado autor de tal calamidade;
E o pecadilho foi julgado
Um attentado.
Pois comer erva alheia! ó crime abominando!
Era visto que só a morte
Poderia purgar um peccado tão duro.
E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miseravel ou forte
Aulicos te farão detestavel ou puro.


DANTE

(PURGATORIO, canto XXV)

Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo
As mãos em figas, deste modo brada:
«Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»

E desde então me foi a serpe amada,
Pois uma vi que o collo lhe prendia,
Como a dizer: «não falarás mais nada!»

Outra os braços na frente lhe cingia
Com tantas voltas e de tal maneira
Que elle fazer um gesto não podia.

Ah! Pistoia, por que n'uma fogueira
Não ardes tu, se a mais e mais impuros,
Teus filhos vão nessa mortal carreira?

Eu, em todos os circulos escuros
Do inferno, alma não vi tão rebellada,
Nem a que em Thebas resvalou dos muros.

E ele fugiu sem proferir mais nada.
Logo um centauro furioso assoma
A bradar: «Onde, aonde a alma damnada?»

Maremma não terá tamanha somma
De reptis quanta vi que lhe ouriçava
O dorso inteiro desde a humana coma.

Junto á nuca do monstro se elevava
De asas abertas um dragão que enchia
De fogo a quanto alli se approximava.

«Aquelle é Caco,—o Mestre me dizia,—
Que, sob as rochas do Aventino, ousado
Lagos de sangue tanta vez abria.

«Não vae de seus irmãos acompanhado
Porque roubou malicioso o armento
Que alli pascia na campanha ao lado,

«Hercules com a maça e golpes cento,
Sem lhe doer um decimo ao nefando,
Poz remate a tamanho atrevimento.»

Ele falava, e o outro foi andando.
No emtanto embaixo vinham para nós
Trez espiritos que só vimos quando

Atroára este grito: «Quem sois vós?»
Nisto a conversa nossa interrompendo
Elle, como eu, no grupo os olhos pôz.

Eu não os conheci, mas succedendo,
Como outras vezes succeder é certo,
Que o nome de um estava outro dizendo,

«Cianfa aonde ficou?» Eu, por que esperto
E attento fosse o Mestre em escutal-o,
Puz sobre a minha boca o dedo aberto.

Leitor, não maravilha que acceital-o
Ora te custe o que vás ter presente,
Pois eu, que o vi, mal ouso acredital-o.

Eu contemplava, quando uma serpente
De seis pés temerosa se lhe atira
A um dos trez e o colhe de repente.

Co'os pés do meio o ventre lhe cingira,
Com os da frente os braços lhe peava,
E ambas as faces lhe mordeu com ira.

Os outros dous ás coxas lhe alongava,
E entre ellas insinua a cauda que ia
Tocar-lhes os rins e dura os apertava.

A hera não se enrosca nem se enfia
Pela arvore, como a horrivel féra
Ao peccador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera,
Um só vulto, uma côr iam tomando,
Quaes tinham sido nenhum delles era.

Tal o papel, se o fogo o vae queimando,
Antes de negro estar, e já depois
Que o branco perde, fusco vae ficando.

Os outros dous bradavam: «Ora pois,
Agnel, ai triste, que mudança é essa?
Olha que já não és nem um nem dous!»

Faziam ambas uma só cabeça,
E na unica face um rosto mixto,
Onde eram dous, a apparecer começa.

Dos quatro braços dous restavam, e isto,
Pernas, coxas e o mais ia mudado
N'um tal composto que jamais foi visto.

Todo o primeiro aspecto era acabado;
Dous e nenhum era a cruel figura,
E tal se foi a passo demorado.

Qual camaleão, que variar procura
De sebe ás horas em que o sol esquenta,
E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta,
Para o ventre dos dous corre accendida,
Livida e côr de um bago de pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida
Tenra creança antes que á luz saisse,
N'um delles morde, e cae toda estendida.

O ferido a encarou, mas nada disse;
Firme nos pés, apenas bocejava,
Qual se de febre ou somno alli caisse.

Frente a frente, um ao outro contemplava,
E á chaga de um, e á boca de outro, forte
Fumo saía e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte
De Sabello e Nasidio, e attento esteja
Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.

Cale-se Ovidio e neste quadro veja
Que, se Arethusa em fonte nos ha posto
E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto
Não transmudou, com que elas de repente
Trocassem a materia e o ser opposto.

Tal era o accordo entre ambas que a serpente
A cauda em duas caudas fez partidas,
E a alma os pés ajuntáva estreitamente.

Pernas e coxas vi-as tão unidas
Que nem leve sinal dava a juntura
De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bifida a figura
Que alli se perde, e a pele abranda, ao passo
Que a pelle do homem se tornava dura.

Em cada axilla vi entrar um braço,
A tempo que iam esticando á fera
Os dous pés que eram de tamanho escasso.

Os pés de traz a serpe os retorcêra
Até formarem-lhe a encoberta parte,
Que no infeliz em pés se convertêra.

Emquanto o fumo os cobre, e de tal arte
A côr lhes muda e põe á serpe o vello
Que já da pelle do homem se lhe parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcel-o
Aquelle torvo olhar com que ambos iam
A trocar entre si o rosto e a vel-o.

Ao que era em pé as carnes lhe fugiam
Para as fontes, e alli do que abundava
Duas orelhas de homem lhe saiam.

E o que de sobra ainda lhe ficava
O nariz lhe compõe e lhe perfaz
E o labio lhe engrossou quanto bastava.

A boca estende o que por terra jaz
E as orelhas recolhe na cabeça,
Bem como o caracol ás pontas faz.

A lingua, que era então de uma só peça,
E prestes a falar, fendida vi-a,
Emquanto a do outro se une, e o fumo cessa.

A alma, que assim tornado em serpe havia,
Pelo valle fugiu assobiando,
E esta lhe ia falando e lhe cuspia.

Logo a recente espadua lhe foi dando
E á outra disse: «Ora com Buoso mudo,
Rasteje, como eu vinha rastejando!»

Assim na cova setima vi tudo
Mudar e transmudar; a novidade
Me absolva o estylo desornado e rudo.

Mas que um tanto perdesse a claridade
Dos olhos meus, e turva a mente houvesse,
Não fugiram com tanta brevidade,

Nem tão occultos, que eu não conhecesse
Puccio Sciancato, unica alli vinda
Alma que a fórma propria não perdesse;
O outro chóral-o tu, Gaville, ainda.


A FELICIO DOS SANTOS