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Poesias Completas

Chapter 34: QUANDO ELLA FALLA
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About This Book

Lyric poems blend intimate reflections on love, memory, solitude, time, and mortality with occasional political and patriotic meditations and ironic social observation. Imagery draws on nature, classical and religious allusion, and everyday detail, while forms range from short contemplative lyrics to longer narrative odes. Early pieces often bear romantic nostalgia; later poems adopt restraint, wit, and elegiac calm, addressing loss, illusion, artistic vocation, and national suffering. The result juxtaposes tender personal feeling with broader moral and historical concerns.

Eu conheço a mais bella flôr;
És tu, rosa da mocidade,
Nascida, aberta para o amor.
Eu conheço a mais bella flôr.
Tem do céu a serena côr,
E o perfume da virgindade.
Eu conheço a mais bella flôr,
És tu, rosa da mocidade.

Vive ás vezes na solidão,
Coma filha da briza agreste.
Teme acaso indiscreta mão;
Vive ás vezes na solidão.
Poupa a raiva do furacão
Suas folhas de azul celeste.
Vive ás vezes na solidão,
Como filha da briza agreste.

Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno;
Que a flôr morta já nada vai.
Colhe-se antes que venha o mal.
Quando a terra é mais jovial
Todo o bem nos parece eterno.
Colhe-se antes que venha o mal,
Colhe-se antes que chegue o inverno.


QUANDO ELLA FALLA

She speaks
O speake again, bright angel!

SHAKESPEARE

Quando ella falla, parece
Que a voz da briza se cala;
Talvez um anjo emmudece
Quando ella falla.

Meu coração dolorido
As suas mágoas exhala.
E volta ao gozo perdido
Quando ella falla.

Pudeste eu eternamente,
Ao lado d'ella, escutal-a,
Ouvir sua alma innocente
Quando ella falla.

Minh'alma, já semi-morta,
Conseguíra ao céu alçal-a,
Porque o céu abre uma porta
Quando ella falla.


MANHÃ DE INVERNO

Coroada de nevoas, surge a aurora
Por detrás das montanhas do oriente;
Vê-se um resto de somno e de preguiça,
Nos olhos da fantastica indolente.

Nevoas enchem de um lado e de outro os morros
Tristes como sinceras sepulturas,
Essas que têm por simples ornamento
Puras capellas, lagrimas mais puras.

A custo rompe o sol; a custo invade
O espaço todo branco; e a luz brilhante
Fulge através do espesso nevoeiro,
Como através de um véu fulge o diamante.

Vento frio, mas brando, agita as folhas
Das laranjeiras humidas da chuva;
Erma de flôres, curva a planta o collo,
E o chão recebe o pranto da viuva.

Gelo não cobre o dorso das montanhas,
Nem enche as folhas tremulas a neve;
Galhardo moço, o inverno deste clima
Na verde palma a sua historia escreve.

Pouco a pouco, dissipam-se no espaço
Ás nevoas da manhã; já pelos montes
Vão subindo as que encheram todo o valle;
Já se vão descobrindo os horizontes.

Sobe de todo o panno; eis apparece
Da natureza o esplendido scenario;
Tudo alli preparou co' os sabios olhos
A suprema sciencia do emprezario.

Canta a orchestra dos passaros no matto
A symphonia alpestre,—a voz serena
Acorda os écos timidos do valle;
E a divina comedia invade a scena.


LA MARCHESA DE MIRAMAR[2]

A miserrima Dido
Pelos paços reaes vaga ululando.

GARÇÃO.

De quanto sonho um dia povoaste
A mente ambiciosa,
Que te resta? Uma pagina sombria,
A escura noite e um tumulo recente.

Ó abysmo! Ó fortuna! Um dia apenas
Viu erguer, viu cahir teu fragil throno
Meteoro do seculo, passaste,
Ó triste imperio, allumiando as sombras.
A noite foi teu berço e teu sepulcro.
Da tua morte os goivos inda acháram
Frescas as rosas dos teus breves dias;
E no livro da historia uma só folha
A tua vida conta: sangue e lagrimas.

No tranquillo castello,
Ninho d'amor, asylo de esperanças,
A mão de aurea fortuna preparára,
Menina e moça, um tumulo aos teus dias.
Junto do amado esposo,
Outra corôa cingias mais segura,
A corôa do amor, dadiva santa
Das mãos de Deus. No céu de tua vida
Uma nuvem sequer não sombreava
A esplendida manhã; extranhos eram
Ao recatado asylo
Os rumores do seculo.
Estendia-se
Em frente o largo mar, tranquilla face
Como a da consciencia alheia ao crime,
E o céu, cupula azul do equoreo leito.
Alli, quando ao cair da amena tarde,
No thalamo encantado do occidente,
O vento melancolico gemia,
E a onda murmurando,
Nas convulsões do amor beija a areia,
Ias tu junto d'elle, as mãos travadas,
Os olhos confundidos,
Correr as brandas, somnolentas aguas,
Na gondola discreta. Amenas flôres
Com suas mãos teciam
As namoradas Horas; vinha a noite,
Mãe de amores, solicita descendo,
Que em seu regaço a todos envolvia,
O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos.

Mas além, muito além do céu fechado,
O sombrio destino, contemplando
A par do teu amor, a etherea vida,
As santas effusões das noites bellas,
O terrivel scenario preparava
A mais terriveis lances.

Então surge dos thronos
A prophetica voz que annunciava
Ao teu credulo esposo:
«Tu serás rei, Macbeth!» Ao longe, ao longe,
No fundo do oceano, envolto em nevoas,
Salpicado de sangue, ergue-se um throno.
Chamão-no a elle as vozes do destino.
Da tranquilla mansão ao novo imperio
Cobrem flôres a estrada,—estereis flôres
Que mal podem cobrir o horror da morte.
Tu vais, tu vais tambem, victima infausta;
O sopro da ambição fechou teus olhos....
Ah! quão melhor te fôra
No meio d'essas aguas
Que a regia nau cortava, conduzindo
Os destinos de um rei, achar a morte:
A mesma onda os dous envolveria.
Uma só convulsão ás duas almas
O vinculo quebrára, e ambas iriam,
Como raios partidos de uma estrella,
Á eterna luz juntar-se.

Mas o destino, alçando a mão sombria,
Já traçára nas paginas da historia
O terrivel mysterio. A liberdade
Vela n'aquelle dia a ingenua fronte.
Pejam nuvens de fogo o céu profundo.
Orvalha sangue a noite mexicana....
Viuva e moça, agora em vão procuras
No teu placido asylo o extincto esposo.
Interrogas em vão o céu e as aguas.
Apenas surge ensanguentada sombra
Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas,
Um soluço profundo reboando
Pela noite do espirito, parece
Os échos acordar da mocidade.
No emtanto, a natureza alegre e viva,
Ostenta o mesmo rosto.
Dissipam-se ambições, imperios morrem,
Passam os homens como pó que o vento
Do chão levanta ou sombras fugitivas,
Transformam-se em ruina o templo e a choça.
Só tu, só tu, eterna natureza,
Immutavel, tranquilla,
Como rochedo em meio do oceano,
Vês baquear os seculos.
Sussurra
Pelas ribas do mar a mesma briza;
O céu é sempre azul, as aguas mansas;
Deita-se ainda a tarde vaporosa
No leito do occidente;
Ornam o campo as mesmas flôres bellas...
Mas em teu coração magoado e triste,
Pobre Carlota! o intenso desespero
Enche de intenso horror o horror da morte.
Viuva da razão, nem já te cabe
A illusão da esperança.
Feliz, feliz, ao menos, se te resta,
Nos macerados olhos,
O derradeiro bem:—algumas lagrimas!


SOMBRAS

Quando, assentada á noite, a tua fronte inclinas,
E cerras descuidada as palpebras divinas,
E deixas no regaço as tuas mãos cair,
E escutas sem fallar, e sonhas sem dormir,
Acaso uma lembrança, um éco do passado,
Em teu seio revive?
Ó tumulo fechado
Da ventura que foi, do tempo que fugiu,
Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?
Com que flôr, com que espinho, a importuna memoria
Do teu passado escreve a mysteriosa historia?
Que espectro ou que visão resurge aos olhos teus?
Vem das trevas do mal ou cae das mãos de Deus?
É saudade ou remorso? é desejo ou martyrio?
Quando em obscuro templo a fraca luz de um cirio
Apenas alumia a nave e o grande altar
E deixa todo o resto em treva,—e o nosso olhar
Cuida ver resurgindo, ao longe, d'entre as portas,
As sombras immortaes das creaturas mortas,
Palpita o coração de assombro e de terror;
O medo augmenta o mal. Mas a cruz do Senhor,
Que a luz do cirio innunda, os nossos olhos chama;
O animo esclarece aquella eterna chamma;
Ajoelha-se contricto, e murmura-se então
A palavra de Deus, a divina oração.

Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo;
Volve os olhos á luz, imita aquelle exemplo;
Corre sobre o passado impenetravel véu;
Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.


ITE, MISSA EST

Fecha o missal do amor e a benção lança
Á pia multidão
Dos teus sonhos de moço e de criança,
A benção do perdão.
Sôa a hora fatal,—reza contricto
As palavras do rito:
Ite missa est.

Foi longo o sacrificio; o teu joelho
De curvar-se cançou;
E acaso sobre as folhas do Evangelho
A tua alma chorou.
Ninguem vio essas lagrimas (ai tantas!)
Cair nas folhas santas.
Ite missa est.

De olhos fitos no céu rezaste o credo,
O credo do teu deus;
Oração que devia, ou tarde ou cedo,
Travar nos labios teus;
Palavra que se esvai qual fumo escasso
E some-se no espaço.
Ite missa est.

Votaste ao céu, nas tuas mãos alçada,
A hostia do perdão,
A victima divina e profanada
Que chamas coração.
Quasi inteiras perdeste a alma e a vida
Na hostia consumida.
Ite missa est.

Pobre servo do altar de um deus esquivo,
É tarde; beija a cruz;
Na lampada em que ardia o fogo activo,
Vê, já se extingue a luz.
Cubra-te agora o rosto macilento
O véu do esquecimento.
Ite missa est.


RUINAS

No hay pájaros en los nidos de antaño.

PROVERBIO HESPANHOL.

Cobrem plantas sem flôr crestados muros;
Range a porta ancian; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sitios caros da infancia.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as rôxas vestes.
Risos não tem, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dôr occulta aos olhos;
—Dôr que á face não vem,—medrosa e casta,
Intima e funda;—e dos cerrados cilios
Se uma discreta e muda
Lagrima cae, não murcha a flôr do rosto;
Melancolia tacita e serena,
Que os écos não acorda em seus queixumes,
Respira aquelle rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Eil-os percorrem
Com tardo passo os relembrados sitios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepusculo.
«Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
«No teu languido olhar um raio deixa;
«—Raio quebrado e frio;—o vento agita
«Timido e frouxo as tuas longas tranças.
«Conhecem-te estas pedras; das ruinas
«Alma errante pareces condemnada
«A contemplar teus insepultos ossos.
«Conhecera-te estas arvores. E eu mesmo
«Sinto não sei que vaga e amortecida
«Lembrança de teu rosto.»

Desceu de todo a noite,
Pelo espaço arrastando o manto escuro
Que a loura Vesper nos seus hombros castos,
Como um diamante, prende. Longas horas
Silenciosas corrêram. No outro dia,
Quando as vermelhas rosas do oriente
Ao já proximo sol a estrada ornavam,
Das ruinas sahião lentamente
Duas pallidas sombras...


MUSA DOS OLHOS VERDES

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C'os fulgidos cabellos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio ás virgens;
Tu que ás mães carinhosas
Enches o brando, tepido regaço
Com delicadas rosas;

Casta filha do céu, virgem formosa
Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cançada de encher languidas flôres
Com as lagrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Azas batendo á luz que as trevas rompe,
Piam nocturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silencios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancolica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!


NOIVADO

Vês, querida, o horizonte ardendo em chammas?
Além d'esses outeiros
Vai descambando o sol, e á terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubece,
Traz no rosto um véu molle e transparente;
No fundo azul a estrella do poente
Já timida apparece.

Como um bafo suavissimo da noite,
Vem sussurrando o vento
As arvores agita e imprime ás folhas
O beijo somnolento.
A flôr ageita o calix: cedo espera
O orvalho, e emtanto exhala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.

Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flôr querida;
Vem contemplar o céu, pagina santa
Que amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asylo;
Encontrarás aqui o amor tranquillo.....
Que esperas? que receias?

Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte opposto
A lua, como lampada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os cirios vão arder no altar sagrado,
Estrellinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de balsamos rescende
A c'rôa do noivado.

Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão comtigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No emtanto eu preparei teu leito á sombra
Do limoeiro em flôr; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e molle alfombra.

Pelas ondas do tempo arrebatados,
Até á morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Firmes, entre o fragor da tempestade,
Gosaremos o bem que amor encerra;
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.


A ELVIRA

(LAMARTINE)

Quando, comtigo a sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda; e eu, namorado,
Ás volupias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando ás solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
—Tão só eu,—teus ternissimos suspiros;
E de meus labios solto
Eternas juras de constancia eterna;
Ou quando, emfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos tremulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como ás folhas da rosa avida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empallideço, tremo;
E no seio da gloria em que me exalto,
Lagrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e tremula,
Nos teus braços me cinges,—e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
«Que dôr secreta o coração te opprime?»
Dizes tu, «Vem, confia os teus pesares....
«Falla! eu abrandarei as penas tuas!
«Falla! eu consolarei tua alma afflicta!»

Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado em teus niveos braços
A confissão de amor te ouço, e levanto
Languidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque n'essas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura co' o tempo se esvaece,
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma vôa ás sombras do futuro,
E eu penso então: «Ventura que se acaba
Um sonho vale apenas.»


LAGRIMAS DE CÊRA

Passou; viu a porta aberta.
Entrou; queria rezar.
A vela ardia no altar.
A igreja estava deserta.

Ajoelhou-se defronte
Para fazer a oração;
Curvou a pallida fronte
E pôz os olhos no chão.

Vinha tremula e sentida.
Commettêra um erro. A cruz
É a ancora da vida,
A esperança, a força, a luz.

Que rezou? Não sei. Benzeu-se
Rapidamente. Ajustou
O véu de rendas. Ergueu-se
E á pia se encaminhou.

Da vela benta que ardêra,
Como tranquillo fanal,
Umas lagrimas de cêra
Caíam no castiçal.

Ella porém não vertia
Uma lagrima sequer.
Tinha a fé,—a chamma a arder,—
Chorar é que não podia.


LIVROS E FLORES

Teus olhos são meus livros.
Que livro ha ahi melhor,
Em que melhor se leia
A pagina do amor?
Flôres me são, teus labios.
Onde ha mais bella flôr,
Em que melhor se beba
O balsamo do amor?


PASSAROS

Je veux changer mes pensées en oiseaux.

C. MAROT.

Olha como, cortando os leves ares,
Passam do valle ao monte as andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, á tarde, cobre transparente véu;
Voam tambem como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes pensamentos;
Zombam da furia dos contrarios ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.

Porque o céu é tambem aquella estancia
Onde respira a doce creatura,
Filha de nosso amor, sonho da infancia,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flôr, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!

Vão para aquella estancia, enamorados,
Os pensamentos de minh'alma anciosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal gozados
E estas noites de lagrimas e dôr;
Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira;
Dizendo aos écos a canção primeira
De um livro escripto pela mão do amor.

Dirão tambem como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
Da tua imagen vaporosa e linda,
Unico alento que me prende aqui.
E dirão mais que estrellas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.
Como sobem ao monte as andorinhas,
Meus pensamentos voam para ti.


O VERME

Existe uma flôr que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benefica de um nume.

Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flôr virginal
E vai dormir-lhe no seio.

Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flôr o calix inclina;
As folhas, leva-as o vento,

Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flôr é o coração,
Aquelle verme o ciume.


UN VIEUX PAYS[3]

... juntamente choro e rio.

CAMÕES

Il est un vieux pays, plein d'ombre et de lumière,
Où l'on rêve le jour, où l'on pleure le soir;
Un pays de blasphème, autant que de prière,
Né pour le doute et pour l'espoir.

On n'y voit point de fleurs sans un ver qui les ronge,
Point de mer sans tempête, ou de soleil sans nuit;
Le bonheur y paraît quelquefois dans un songe
Entre les bras du sombre ennui.

L'amour y va souvent, mais c'est tout un délire,
Un désespoir sans fin, une énigme sans mot;
Parfois il rit gaîment, mais de cet affreux rire
Qui n'est peut-être qu'un sanglot.

On va dans ce pays de misère et d'ivresse,
Mais on le voit à peine, on en sort, on a peur;
Je l'habite pourtant, j'y passe ma jeunesse....
Hélas! ce pays, c'est mon cœur.


LUZ ENTRE SOMBRAS

É noite medonha e escura,
Muda como o passamento
Uma só no firmamento
Tremula estrella fulgura.

Falla aos écos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E n'um canto somnolento
Entre as arvores murmura.

Noite que assombra a memoria,
Noite que os medos convida,
Erma, triste, merencoria.

No entanto... minh'alma olvida
Dôr que se transforma em gloria,
Morte que se rompe em vida.


LYRA CHINEZA[4]

I

O POETA A RIR

(Han-Tiê.)

Taça d'agua parece o lago ameno;
Tem os bambús a fórma de cabanas,
Que as arvores em flôr, mais altas, cobrem
Com verdejantes tectos.

As ponteagudas rochas entre flôres,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.

II

A UMA MULHER

(Tchê-Tsi.)

Cantigas modulei ao som da flauta,
Da minha flauta d'ebano;
N'ellas minh'alma segredava á tua
Fundas, sentidas mágoas.

Cerraste-me os ouvidos. Namorados
Versos compuz de jubilo,
Por celebrar teu nome, as graças tuas,
Levar teu nome aos seculos.

Olhaste, e meneando a airosa frente,
Com tuas mãos purissimas,
Folhas em que escrevi meus pobres versos
Lançaste ás ondas tremulas.

Busquei então por encantar tu'alma
Uma saphira esplendida,
Fui depôl-a a teus pés... tu descerraste
Da tua boca as perolas.

III

O IMPERADOR

(Tchu-Fu)

Olha. O Filho do Céu, em throno de ouro,
E adornado com ricas pedrarias,
Os mandarins escuta:—um sol parece
De estrellas rodeado.

Os mandarins discutem gravemente
Cousas muito mais graves. E elle? Foge-lhe
O pensamento inquieto e distrahido
Pela janella aberta.

Além, no pavilhão de porcellana,
Entre donas gentis está sentada
A imperatriz, qual flôr radiante e pura
Entre viçosas folhas.

Pensa no amado esposo, arde por vêl-o,
Prolonga-se-lhe a ausencia, agita o leque...
Do imperador ao rosto um sopro chega
De rescendente briza.

«Vem della este perfume,» diz, e abrindo
Caminho ao pavilhão da amada esposa,
Deixa na sala olhando-se em silencio
Os mandarins pasmados.

IV

O LEQUE

(Tan-Jo-Lu.)

Na perfumada alcova a esposa estava,
Noiva ainda na vespera. Fazia
Calor intenso; a pobre moça ardia,
Com fino leque as faces refrescava.
Ora, no leque em boa lettra feito
Havia este conceito:

«Quando, immovel o vento e o ar pesado,
«Arder o intenso estio,
«Serei por mão amiga ambicionado;
«Mas volte o tempo frio,
«Ver-me-heis a um canto logo abandonado.»

Lê a esposa este aviso, e o pensamento
Volve ao joven marido.
«Arde-lhe o coração n'este momento
«(Diz ella) e vem buscar enternecido
«Brandas auras de amor. Quando mais tarde
«Tornar-se em cinza fria
«O fogo que hoje lhe arde,
«Talvez me esqueça e me desdenhe um dia.»

V

A FOLHA DO SALGUEIRO

(Tchan-Tiú-Lin.)

Amo aquella formosa e terna moça
Que, á janella encostada, arfa e suspira;
Não porque tem do largo rio á margem
Casa faustosa e bella.

Amo-a, porque deixou das mãos mimosas
Verde folha cair nas mansas aguas.

Amo a briza de léste que sussurra,
Não porque traz nas azas delicadas
O perfume dos verdes pecegueiros
Da oriental montanha.

Amo-a porque impelliu co'as tenues azas
Ao meu batel a abandonada folha.

Se amo a mimosa folha aqui trazida,
Não é porque me lembre á alma e aos olhos
A renascente, a amavel primavera,
Pompa e vigor dos valles.

Amo a folha por ver-lhe um nome escripto,
Escripto, sim, por ella, e esse... é meu nome.

VI

AS FLORES E OS PINHEIROS

(Tin-Tun-Sing.)

Vi os pinheiros no alto da montanha
Ouriçados e velhos;
E ao sopé da montanha, abrindo as flôres
Os calices vermelhos.

Contemplando os pinheiros da montanha,
As flôres tresloucadas
Zombam d'elles enchendo o espaço em torno
De alegres gargalhadas.

Quando o outono voltou, vi na montanha
Os meus pinheiros vivos,
Brancos de neve, e meneiando ao vento
Os galhos pensativos.

Volvi o olhar ao sitio onde escutára
Os risos mofadores;
Procurei-as em vão; tinham morrido
As zombeteiras flôres.

VII

REFLEXOS

(Thu-Fu.)

Vou rio abaixo vogando
No meu batel e ao luar;
Nas claras aguas fitando,
Fitando o olhar.

Das aguas vejo no fundo,
Como por um branco véu,
Intenso, calmo, profundo,
O azul do céu.

Nuvem que no céu fluctua,
Fluctua n'agua tambem;
Se a lua cobre, á outra lua
Cobril-a vem.

Da amante que me extasia,
Assim, na ardente paixão,
As raras graças copia
Meu coração.

VIII

CORAÇÃO TRISTE FALLANDO AO SOL

(Su-Tebon.)

No arvoredo sussurra o vendaval do outono,
Deita as folhas á terra, onde não ha florir
E eu contemplo sem pena esse triste abandono;
Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cahir.

Como a escura montanha, esguia e pavorosa
Faz, quando o sol descamba, o valle ennoitecer,
A montanha da alma, a tristeza amorosa,
Tambem de ignota sombra enche todo o meu ser.

Transforma o frio inverno a agua em pedra dura,
Mas torna a pedra em agua um raio de verão;
Vem, ó sol, vem, assume o throno teu na altura,
Vê se pódes fundir meu triste coração.


UMA ODE DE ANACREONTE

(A MANUEL DE MELLO)

PERSONAGENS

LYSIAS.
CLEON.
MYRTO.
TRES ESCRAVOS.

A scena é em Somos.

Sala de festim em casa de Lysias. A esquerda a mesa do festim; á direita uma mesa tendo em cima uma lampada apagada, e junto da lampada um rolo de papyro.

SCENA I

LYSIAS, CLEON, MYRTO.

(Estão no fim de um banquete, os dous homens deitados á maneira antiga, Myrto sentada entre os dous leitos. Tres escravos.)

LYSIAS.

Melancolica estás, bella Myrto. Bebamos!
Aos prazeres!

CLEON.

Eu bebo á memoria de Samos.
Samos vai terminar os seus dourados dias;
Adeus, terra em que achei consolo ás agonais
Da minha mocidade; adeus, Samos, adeus!

MYRTO.

Querem-lhe os deuses mal?

CLEON.

Não; dous olhos, os teus.

LYSIAS.

Bravo, Cleon!

MYRTO.

Poeta! os meus olhos?

CLEON.

São lumes
Capazes de abrasar até os proprios numes.
Samos é nova Troya, e tu és outra Helena,
Quando Lesbos, a mão do Sappho, a ilha amena,
Não vir a bella Myrto, a alegre cortezã,
Armar-se-ha contra nós.

LYSIAS.

Lesbos é boa irmã.

MYRTO.

Outras bellezas tem, dignas da loura Venus.

CLEON.

Menos digna de tu.

MYRTO.

Mais do que eu.

LYSIAS.

Muito menos.

CLEON.

Tens vergonha de ser formosa e festejada,
Myrto? Venus não que beleza envergonhada.
Pois que dos immortaes houveste esse condão
De inspirar quantos vês, inspira-os, Myrto.

MYRTO.

Não;
São teus olhos, poeta; eu não tenho a belleza
Que arrasta corações.

CLEON.

Divina singeleza!

LYSIAS (á parte).

Vejo através do manto as galas da vaidade.

(Alto.)

Vinho, escravo!

(O escravo deita vinho na taça de Lysias.)

Poeta, um brinde á mocidade.
Trava de lyra e invoca o deus inspirador.

CLEON.

«Feliz em junto de ti, ouve a tua falla, amor!»

MYRTO.

Versos de Sapho!

CLEON.

Sim.

LYSIAS.

Vês? ó modestia pura.
Elle é na poesia o que és na formosura.
Faz versos de primor e esconde-os ao profano:
Tem vergonha. Eu não sei se o vicio é lesbiano...

MYRTO.

Ah! tu és...

CLEON.

Lesbos foi minha patria tambem,
Lesbos, a flôr do Egeo.

MYRTO.

Já não é?

CLEON.

Lesbos tem
Tudo o que me fascina e tudo o que me mata:
As festas do prazer e os olhos de uma ingrata.
Fugi da patria e achei, já curado e tranquillo,
Em Lysias um irmão, em Samos um asylo.
Bem hajas tu que vens encher-me o coração!

LYSIAS.

Insaciavel! Não tens em Lysias um irmão?

MYRTRO.

Volto á patria.

CLEON.

Pois que! tu vais?

MYRTO.

Em poucos dias...

LYSIAS.

Fazes mal; tens aqui os moços e as folias,
O gozo, a adoração; que te falta?

MYRTO.

Os meus ares.

CLEON.

A que vieste então?

MYRTO.

Successos singulares.
Vim por acompanhar Lysicles, mercador
De Naxos; tanto póde a constancia no amor!
Corrêmos todo o Egeo e a costa ionia; fomos
Comprar o vinho a Creta e a Tenodos os pomos.
Ah! como é doce o amor na solidão das aguas!
Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhe as mágoas.
Zephyro ouviu por certo os osculos febris,
Os jubilos do affecto, as fallas juvenis;
Ouviu-os, delatou ao deus que o mar governa
A indiscreta ventura, a effusão doce e terna.
Para a furia acalmar da sombria deidade,
Nave e bens varreu tudo a horrivel tempestade.
Foi assim que eu perdi a Lysicles, assim
Que eu semi-morta e fria á tua plaga vim.

CLEON.

Ó coitada!

LYSIAS.

O infortunio os animos apura;
As feridas que faz o mesmo Amor as cura;
Brandem armas iguaes Achilles e Cupido.
Queres ver n'outro amor o teu amor perdido?
Samos o tem de sobra.

CLEON.

Eu, Myrto, eu sei amar;
Não fio o coração da inconstancia do mar.
Não tenho galeões rompendo o seio a Thetys,
Estrada tanta vez ao torvo e obscuro Lethes.
Aqui me tens; sou teu; escreve a minha sorte;
Pódes doar-me a vida ou decretar-me a morte.

MYRTO.

Mas, se eu volto...

CLEON.

Pois bem! aonde quer que te vás
Irei comtigo; a deusa indomita e fallaz
Ser-me-ha hospede amiga; ao pé de ti a escura
Noite parece aurora, e é berço a sepultura.

MYRTO.

Quando falla o dever, a vontade obedece;
Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco e esquece.

LYSIAS.

Tens razão, bella Myrto; escuta o teu dever.

CLEON.

Ai! é facil amar, difficil esquecer.

LYSIAS (a Myrto).

Queres pôr termo á festa? Um brinde a Venus, filha
Da mar azul, belleza, encanto, maravilha;
Nascida para ser perpetuamente amada.
A Venus!

(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com agua perfumada em que os convivas lavaram as mãos; os escravos saem levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)

Queres tu, mimosa naufragada,
Ouvir de hermonia serva, em lyra de marfim,
Uma alegre canção? Preferes o jardim?
O portico talvez?

MYRTO.

Lysias, sou indiscreta;
Quizera antes ouvir a voz do teu poeta.

LYSIAS.

Nume não pede, impõe.

CLEON.

O mando é lisongeiro.

LYSIAS.

Pois começa.


SCENA II

OS MESMOS, UM ESCRAVO.

ESCRAVO.

Procura a Myrto um mensageiro.

MYRTO.

Um mensageiro! a mim!

LYSIAS.

Mando-o entrar.

ESCRAVO.

Não quer.

LYSIAS.

Vai, Myrto.

MYRTO (saindo).

Volto já. (Sae o escravo).


SCENA III

LYSIAS, CLEON.

CLEON.

(Olhando para o lugar por onde Myrto saiu.)

Oh! deuses! que mulher!

LYSIAS.

Ah! que perola rara!

CLEON.

Onde a encontraste?

LYSIAS.

Achei-a
Com Parthenis que dava uma esplendida ceia;
Parthenis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da moda,
Sabes que vê fugir-lhe a enfastiada roda;
E, para não perder o grupo adorador,
Fez do templo deserto uma escola de amor.
Foi ella quem achou a naufraga perdida,
Exposta ao vento e ao mar, quasi a expirar-lhe a vida.
A belleza pagava o emprego de uma esmola;
Dentro em pouco era Myrto a flôr de toda a escola.

CLEON.

Lembrou-te convidal-a então para um festim?

LYSIAS.

Foi um pouco por ella e um pouco mais por mim.

CLEON.

Tambem amas?

LYSIAS.

Eu? não. Quis ter á minha mesa
Venus e o louro Apollo, a poesia e a belleza.

CLEON.

Oh! a belleza, sim! Viste já tanta graça,
Tão celestes feições?

LYSIAS.

Cuidado! Aquella caça
Zomba dos tiros vãos de ingenuo caçador!

CLEON.

Incredulo!

LYSIAS.

Eu sou mestre em materia de amor.
Se tu, attento e calmo, a narração lhe ouvisses
Conhecêras melhor o engenho d'esta Ulysses.
Aquelle ardente amor a Lysicles, aquelle
Fundo e intenso pesar que á sua patria a impelle,
Armas são com que a astuta os animos seduz.

CLEON.

Oh! não creio.

LYSIAS.

Porque?

CLEON.

Não vês como lhe luz
Tanta expressão sincera em seus olhos divinos?

LYSIAS.

Sim, tem muita expressão... para illudir meninos.

CLEON.

Pois tu não crês?

LYSIAS.

Em que? No naufragio? De certo.
Em Lysicles? Talvez. No amor? é mais incerto.
Na intenção de voltar a Lesbos? isso não!
Sabes o que ela quer? Prender um coração.

CLEON.

Impossivel!

LYSIAS.

Poeta! estás na alegre idade
Em que a sciencia da vida é a credulidade.
Vês tudo azul e em flôr; eu já me não illudo.
Pois amar cortezãs! isso demanda estudo,
Não vai assim, que as tais abelhitas do amor
Correm de bolsa em bolsa e não de flôr em flôr.

CLEON.

Mas não as amas tu?

LYSIAS.

De certo... á minha moda;
Meu grande coração co'os vicios se acommoda;
Sacrificios de amor não sonha nem procura;
Não lhes pede illusões, pede-lhes só ternura.
Não me empenho em achar alma ungida no céu:
Se é crime este sentir, confesso-me, sou réu.
Não peço amor ao vinho; irei pedil-o ás damas?
D'ellas e d'elle exijo apenas estas chammas
Que ardem sem consumir, na pyra dos desejos.
Assim é que eu estimo as amphoras e os beijos.
Lá protestos de amor, eternos e leaes,
Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortaes
Somos todos assim.

CLEON.

Ai, os mortaes! dize antes
Os philosophos máos, ridiculos pedantes,
Os que não sabem crer, os fartos já de amores,
Esses, sim. Os mortaes!

LYSIAS.

Refreia os teus furores,
Poeta; eu não quizera amargurar-te, e enfim
Não podia suppôr que a amasse tanto assim.
Caspité! Vais depressa!

CLEON.

Ai, Lysias, é verdade,
Amo-a como não amo a vida e a mocidade;
De que modo nasceu esta affeição que encerra
Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terra
Por que é mais bella ao sol e ás auras matinaes?
Amores estes são terriveis e fataes.