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Poesias Completas

Chapter 83: XXV
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About This Book

Lyric poems blend intimate reflections on love, memory, solitude, time, and mortality with occasional political and patriotic meditations and ironic social observation. Imagery draws on nature, classical and religious allusion, and everyday detail, while forms range from short contemplative lyrics to longer narrative odes. Early pieces often bear romantic nostalgia; later poems adopt restraint, wit, and elegiac calm, addressing loss, illusion, artistic vocation, and national suffering. The result juxtaposes tender personal feeling with broader moral and historical concerns.

LYSIAS.

Vês com olhos do céu cousas que são do mundo;
Acreditas achar esse affecto profundo,
N'estas filhas do mal! Se a todo o transe queres
Obter a casta flôr dos celicos prazeres,
Deixa a alegre Corintho e todo o luxo seu;
Outro porto acharás: procura o gyneceo.
Escolhe aquelle amor doce, innocente e puro,
Que inda não tem passado e vive no futuro.
Para mim, já t'o disse, o caso é differente;
Não me importa um nem outro; eu vivo no presente.

CLEON.

Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal:
Viver, sem illusões, no bem como no mal;
Não conhecer o amor que morde, que se nutre
Do nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre;
Não beber gotta a gotta este brando veneno
Que requeima e destróe; não ver em mar sereno
Subitamente erguer-se a voz dos aquilões.
Afortunado és tu.

LYSIAS.

Lei de compensações!
Sou philosopho mau, ridiculo pedante,
Mas inveja-me a sorte; oh! logica de amante.

CLEON.

É a do coração.

LYSIAS.

Terrível mestre!

CLEON.

Ensina
Dos seres immortaes a transfusão divina!

LYSIAS.

A lição é profunda e escapa ao meu saber;
Outra escola professo, a escola do prazer!

CLEON.

Tu não tens coração.

LYSIAS.

Tenho, mas não me illudo.
É Circe que perdeu o encanto e a juventude.

CLEON.

Velho Satyro!

LYSIAS.

Justo: um semi-deus sylvestre.
N'estas cousas do amor nunca tive outro mestre.
Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir.
Tres artigos da lei: gozar, beber, dormir.

CLEON.

Compras com isso a paz; a mim coube-me o tedio,
A solidão e a dôr.

LYSIAS.

Queres um bom remedio,
Um filtro da Thessalia, um balsamo infallivel?
Esquece emprezas vãs, não tentes o impossivel
Prende o teu coração nos laços de Hymenêo;
Casa-te; encontrarás o amor no gynecêo.
Mas cortezãs! jámais! São Gorgones! Medusas!

CLEON.

Essas que conheceste e tão severo accusas
—Pobres moças!—não são o universal modelo:
De outras sei a quem coube um coração singelo,
Que preferem a tudo a gloria singular
De conhecer somente a sciencia de amar;
Capazes de sentir o ardor da intensa chamma
Que eleva, que resgata a vida que as infama.

LYSIAS.

Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-t'o.

CLEON.

Basta um passo, achal-o-hei.

LYSIAS.

Bravo! chama-se?

CLEON.

Myrto,
Que póde conquistar até o amor de um deus!

LYSIAS.

Crês n'isso?

CLEON.

Porque não?

LYSIAS.

Tu és um nescio; adeus!


SCENA IV

CLEON.

Vai, sceptico! tu tens o vicio da riqueza:
Farto, não crês na fome... A minha singeleza
Faz-te rir: tu não vês o amor que absorve e mata;
Myrto, vinga-me tu da calumnia insensata;
Amemo-nos. É ella!


SCENA V

CLEON, MYRTO

MYRTO.

Estás triste!

CLEON.

Oh! que não!
Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...

MYRTO.

A visão vai partir.

CLEON.

Mas muito tarde...

MYRTO.

Breve.

CLEON.

Quem te chama?

MYRTO.

O destino. E sabes quem me escreve?

CLEON.

Tua mãe.

MYRTO.

Já morreu.

CLEON.

Algum antigo amante?

MYRTO.

Lysicles.

CLEON.

Vive?

MYRTO.

Sim. Depois de andar errante
N'uma taboa, á mercê das ondas, quiz o céu
Que viesse encontral-o um barco do Pyreu.
Pobre Lysicles! teve em tão cruenta lida
A dôr da minha morte e a dôr da propria vida.
Em vão interrogava o mar cioso e mudo.
Perdêra, de uma vez, n'uma só noite, tudo,
A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais:
Naufragárão com ele os poucos cabedaes.
Entrou em Samos pobre, inquieto, semi-morto,
Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto,
Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a aventura
Da malfadada Myrto.

CLEON.

É isso, a sorte escura
Voltou-se contra mim; não consente, não quer
Que eu me farte de amor no amor de uma mulher.
Vejo em cada paixão o fado que me opprime;
O amar é já soffrer a pena do meu crime,
Ixion foi mais audaz amando a deusa augusta;
Transpôz o obscuro lago e soffre a pena justa,
Mas eu não. Antes de ir ás regiões infernaes
São as graças commigo Eumenides fataes!

MYRTO.

Caprichos de poeta! Amor não falta ás damas;
Damas, tem-las aqui; inspira-lhe essas chammas.

CLEON.

Impõe-se leis ao mar? O coração é isto;
Ama o que lhe convem; convem amar a Egistho
Clytemnestra; convem a Cyntia Endymião;
É caprichoso e livre o mar do coração;
De outras sei que eu houvera em meus versos cantado;
Não lhes quero... não posso.

MYRTO.

Ai, triste enamorado!

CLEON.

E tu zombas de mim!

MYRTO.

Eu zombar? Não; lamento
A tua acerba dôr, o teu fatal tormento.
Não conheço eu tambem esse cruel penar?
Só dous remedios tens; esquecer, esperar.
De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança;
Contenta-se ao nascer co' as auras da esperança;
Vive da propria mágoa; a propria dôr o alenta.

CLEON.

Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!

MYRTO.

Não sabes esperar? Então cumpre esquecer.
Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.

CLEON.

O prazer que a fulmina, e a dôr que a fortalece?

MYRTO.

Tens na ausencia e no tempo os velhos pais do olvido,
O bem não alcançado é como o bem perdido,
Pouco a pouco se esvai na mente e coração;
Põe o mar entre nós... dissipa-se a illusão.

CLEON.

Impossivel!

MYRTO.

Então espera; algumas vezes
A fortuna transforma em glorias os reveses.

CLEON.

Myrto, valem bem pouco as glorias já tardias.

MYRTO.

Um só dia de amor compensa estereis dias.

CLEON.

Compensará, mas quando? A mocidade em flôr
Bem cedo morre, e é essa a que convem a amor.
Vejo cair no occaso o sol da minha vida.

MYRTO.

Cabeça de poeta, exaltada e perdida!
Pensas estar no occaso o sol que mal desponta?

CLEON.

A clepsydra do amor não conta as horas, conta
As illusões; velhice é perdêl-as assim;
Breve a noite abrirá seus véus por sobre mim.

MYRTO.

Não has de envelhecer; as illusões comtigo
Flôres são que respeita Eolo brando e amigo.
Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.

CLEON.

Se eu a Lesbos não vou.

MYRTO.

Podem colher-se em Samos.

CLEON.

Voltas breve?

MYRTO.

Não sei.

CLEON.

Oh! sim, deves voltar!

MYRTO.

Tenho medo.

CLEON.

De quê?

MYRTO.

Tenho medo... do mar.

CLEON.

Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica.
Lesbos é para ti mais formosa e mais rica.
Mas a patria é o amor; o amor transmuda os ares.
Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares.
Da importuna memoria o teu passado exclue;
Vida nova nos chama, outro céu nos influe.
Fica; eu disfarçarei com rosas este exilio;
A vida é um sonho máu: façamo-la um idylio.
Cantarei a teus pés a nossa mocidade.
A belleza que impõe, o amor que persuade,
Venus que faz arder o fogo da paixão,
Teu olhar, doce luz que vem do coração.
Pericles não amou com tanto ardor a Aspasia,
Nem esse que morreu entre as pompas da Asia,
A Lais siciliana. Aqui as Horas bellas
Tecerão para ti vivissimas capellas.
Nem morrerás; teu nome em meus versos ha de ir,
Vencendo o tempo e a morte, aos seculos porvir.

MYRTO.

Tanto me queres tu!

CLEON.

Imensamente. Anseio
Por sentir, bella Myrto, arfar teu brando seio,
Bater teu coração, tremer teu labio puro,
Todo viver de ti.

MYRTO.

Confia no futuro.

CLEON.

Tão longe!

MYRTO.

Não, bem perto.

CLEON.

Ah! que dizes?

MYRTO

Adeus!

(Passa junto da mesa da direita e vê o rolo de papyro.)

Curiosa que sou!

CLEON.

São versos.

MYRTO.

Versos teus?

(Lysias aparece ao fundo.)

CLEON.

De Anacreonte, o velho, o amavel, o divino.

MYRTO.

A musa é toda ionia, e o verso é peregrino.

(Abre o papyro e lê)

«Fez-se Niobe em pedra e Philomena em passaro.[5]
«Assim
«Folgaria eu tambem me transformasse Jupiter
«A mim.
«Quisera ser o espelho em que o teu rosto magico
«Sorri;
«A tunica feliz que sempre se está proxima
«De ti;
«O banho de crystal que esse teu corpo candido
«Contém;
«O aroma de teu uso e d'onde effluvios magicos
«Provêm;
«Depois esse listão que de teu seio turgido
«Faz dous;
«Depois do teu pescoço o rosicler de perolas;
«Depois...
«Depois ao ver-te assim, unica e tão sem emulas
«Qual és,
«Até quisera ser teu calçado, e pisassem-me
«Teus pés.»

Que magnificos são!

CLEON.

Minha alma assim te falla.

MYRTO

Attendendo ao poeta eu pensava escutal-a.

CLEON.

Eco do meu sentir foi o velho amador;
Tais os desejos são do meu profundo amor.
Sim, eu quizera ser tudo isto—o espelho, o banho,
O calçado, o collar... Desejo acaso extranho,
Louca ambição talvez de poeta exaltado...

MYRTO.

Tanto sentes por mim?


SCENA VI

CLEON, MYRTO, LYSIAS

LYSIAS (entrando.)

Amor, nunca sonhado.
Se a musa d'elle és tu!

CLEON.

Lysias!

MYRTO.

Ouviste?

LYSIAS.

Ouvi.
Versos que Anacreonte houvera feito a ti,
Se vivesses no tempo em que, pulsando a lyra,
Estas odes compôz que a velha Grecia admira.

(A Cleon.)

Quer fallar-te um sujeito, um Clinias, um colega,
Ex-mercador, como eu.

MYRTO.

Ai, que importuno!

LYSIAS.

Allega
Que não póde esperar, que isto não póde ser,
Que um processo... A final não n'o pude entender.
Pode ser que comtigo o homem se accommode.
Prometeste talvez compor-lhe alguma ode?

CLEON.

Não. Adeus, bella Myrto; espera-me um instante.

MYRTO.

Não tardes!

LYSIAS (á parte.)

Indiscreta!

CLEON.

Espera.

LYSIAS (á parte.)

Petulante!


SCENA VII

MYRTO, LISIAS.

MYRTO.

Sou curiosa. Quem é Clinias, ex-mercador?
Amigo d'elle?

LYSIAS.

Mais do que isso; é um credor.

MYRTO.

Ah!

LYSIAS.

Que bello rapaz! que alma fogosa e pura,
Bem digna de aspirar-te um hausto de ventura!
Queira o céu pôr-lhe termo á profunda agonia,
Surja emfim para elle o sol de um novo dia.
Merece-o. Mas vê lá se ha destino peior:
Quer o alado Mercurio obstar o alado Amor.
Com beijos não se paga a pompa do vestido,
O expetaculo e a mesa; e se o gentil Cupido
Gosta de ouvir canções, o outro não vai com ellas;
Vale uma drachma só vinte odezinhas bellas.
Um poema não compra um simples borzeguim.
Versos! são bons de ler, mais nada; eu penso assim.

MYRTO.

Pensas mal! A poesia é sempre um dom celeste;
Quando o genio o possue quem ha que o não requeste?
Hermes, com ser o deus dos graves mercadores,
Tocou lyra tambem.

LYSIAS.

Já sei que estás de amores.

MYRTO.

Que esperança! Bem vês que eu já não posso amar.

LYSIAS.

Perdeste o coração?

MYRTO.

Sim; perdi-o no mar.

LYSIAS.

Pesquemol-o; talvez essa perola fina
Venha ornar-me a existencia agourada e mofina.

MYRTO.

Mofina?

LYSIAS.

Pois então? Enfarão-me estas bellas
Da terra samiana; assaz vivi por elas.
Outras desejo amar, filhas do azul Egeo.
Varia de feições o Amor, como Protheo.

MYRTO.

Seu carater melhor foi sempre o ser constante.

LYSIAS.

Serei menos fiel, não sou menos amante.
Cada belleza em si toda a paixão resume.
Pouco me importa a flôr; importa-me o perfume.

MYRTO.

Mas quem quer o perfume afaga um pouco a flôr;
Nem fere o objecto amado a mão que implora o amor.

LYSIAS.

Offendo-te com isto? Esquece a minha ofensa.

MYRTO.

Já esqueci; passou.

LYSIAS.

Quem falla como pensa
Arrisca-se a perder ou por sobra ou por mingoa.
Eu confesso o meu mal; não sei tentear a lingua.
Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu tens
A graça das feições, o summo bem dos bens;
Moça, trazes na fronte o doce beijo de Hebe
Como um philtro de amor que, sem sentir, se bebe,
De teus olhos destilla a eterna juventude;
De teus olhos que um deus, por lhes dar mais virtude,
Fez azues como o céu, profundos como o mar.
Quem taes dotes reune, ó Myrto, deve amar.

MYRTO.

Fallas como um poeta, e zombas da poesia!

LYSIAS.

Eu, poeta? jámais.

MYRTO.

A tua fantasia
Respirou certamente o ar do monte Hymmeto.
Tem a expressão tão doce!

LYSIAS.

É a expressão do affecto.
Sou em cousas de Apollo um simples amador.
A minha grande musa é Venus, mãe do amor.
No mais não apprendi (os fados meus adversos
Vedárão-m'o!) a cantar bons e sentidos versos.
Cleon, esse é que sabe accender tantas almas,
Conquistar de um só lance os corações e as palmas.

MYRTO.

Conquistar, oh! que não!

LYSIAS.

Mas agradar?

MYRTO.

Talvez.

LYSIAS.

Isso mesmo; é já muito. O que o poeta fez
Fal-o-ei jamais? Contudo, inda tental-o quero;
Se não me inspira a musa, alma filha de Homero,
Inspira-me o desejo, a musa que delira,
E o seu canto concerta aos sons da eterna lyra.

MYRTO.

Tambem desejas ser alguma coisa?

LYSIAS.

Não;
Eu caso o meu amor ás regras da razão.
Cleon quizera ser o espelho em que teu rosto
Sorri; eu, bela Myrto, eu tenho melhor gosto.
Ser espelho! ser banho! e tunica! tolice!
Esteril ambição! loucura! criancice!
Por Venus! sei melhor o que a mim me convem.
Homem sisudo e grave outros desejos tem.
Fiz, a este respeito, aprofundado estudo;
Eu não quero ser nada; eu quero dar-te tudo.
Escolhe o mais perfeito espelho de aço fino,
A tunica melhor de pano tarentino,
Vasos de oleo, um colar de perolas,—enfim
Quanto enfeita uma dama aceital-o-has de mim.
Brincos que vão ornar-te a orelha graciosa;
Para os dedos o annel de pedra preciosa;
A tua fronte pede aureo, rico anadema;
Têl-o-has, divina Myrto. É este o meu poema.

MYRTO.

É lindo!

LYSIAS.

Queres tu, outras estrophes mais?
Dar-t'as-hei quais as teve a celebrada Lais.
Casa, rico jardim, servas de toda a parte;
E estatuas e paineis, e quantas obras d'arte
Podem servir de ornato ao templo da belleza,
Tudo haverás de mim. Nem gosto nem riqueza
Tu ha de faltar, mimosa, e só quero um penhor.
Quero... quero-te a ti.

MYRTO.

Pois que! já quer a flôr,
Quem desdenhando a flôr, só lhe pede o perfume?

LYSIAS.

Esqueceste o perdão?

MYRTO.

Ficou-me este azedume.

LYSIAS.

Venus póde apagal-o.

MYRTO.

Eu sei, creio e não creio.

LYSIAS.

Hesitar é ceder: agrada-me o receio.
Em assumpto de amor, vontade que fluctua
Está prestes a entregar-se. Entregas-te?

MYRTO.

Sou tua!


SCENA VIII

LYSIAS, MYRTO, CLEON.

CLEON.

Demorei-me demais?

LYSIAS.

Apenas o bastante
Para que fosse ouvido um coração amante.
A Lesbiana é minha.

CLEON.

És d'elle, Myrto!

MYRTO.

Sim;
Eu ainda hesitava; ele fallou por mim.

CLEON.

Quantos amores tens, filha do mal?

LYSIAS.

Presinto.
Uma lamentação inutil. «A Corintho
Não vai quem quer,» lá diz aquelle velho adagio.
Navegavas sem leme; era certo o naufragio.
Não me viste sulcar as mesmas aguas?

CLEON.

Vi,
Mas contava com ella, e confiava em ti.
Mais duas illusões! Que importa? Inda são poucas;
Desfação-se uma a uma estas chimeras loucas.
Ó arvore bemdita, ó minha juventude,
Vão-te as flôres caindo ao vento aspero e rude!
Não vos maldigo, não; eu não maldigo o mar
Quando a nave sossobra; o erro é confiar.
Adeus, formosa Myrto; adeus, Lysias; não quero
Perturbar vosso amor, eu que já nada espero;
Eu que vou arrancar as profundas raizes
Desta paixão funesta; adeus, sede felizes!

LYSIAS.

Adeus! Saudemos nós a Vénus e a Lyeo.

AMBOS.

Io Pœan! ó Baccho! Himenêo! Himenêo!


PALLIDA ELVIRA

(A FRANCISCO PAZ)

Ulysse, jeté sur les rives d'Ithaque, ne
les reconnait pas et pleure sa patrie.
Ainsi l'homme dans le bonheur possédé
ne reconnait pas son rêve et soupire.

DANIEL STERN.

I

Quando, leitora amiga, no occidente
Surge a tarde esmaiada e pensativa;
E entre a verde folhagem rescendente
Languida geme viração lasciva;
E já das tenues sombras do oriente
Vem apontando a noite, e a casta diva
Subindo lentamente pelo espaço,
Do céu, da terra observa o estreito abraço;

II

N'essa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil belleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar ás lucidas espheras?
Não sentes n'essa mágoa e n'esse enleio
Vir morrer-te uma lagrima no seio?

III

Sêntel-o? Então entenderás Elvira,
Que assentada á janella, erguendo o rosto,
O vôo solta á alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então porque suspira,
Victima já de um intimo desgosto,
A meiga virgem, pallida e calada,
Sonhadora, anciosa e namorada.

IV

Mansão de riso e paz, mansão de amores
Era o valle. Espalhava a natureza,
Com dadivosa mão, palmas e flôres
De agreste aroma e virginal belleza;
Bosques sombrios de immortaes verdores,
Asylo proprio á inspiração accesa,
Valle de amor, aberto ás almas ternas
N'este valle de lagrimas eternas.

V

A casa, junto á encosta de um outeiro,
Alva pomba entre folhas parecia:
Quando vinha a manhã, o olhar primeiro
Ia beijar-lhe a verde gelosia:
Mais tarde a fresca sombra de um coqueiro
Do sol quente a janella protegia;
Pouco distante, abrindo o solo adusto,
Um fio d'agua murmurava a custo.

VI

Era uma joia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho crystallino
Pendia. Ao fundo, á sombra, se occultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bella,
De amor sonhava a pallida donzella.

VII

Não me censure o critico exigente
O ser pallida a moça; é meu costume
Obedecer á lei de toda a gente
Que uma obra compõe de algum volume.
Ora, no nosso caso, é lei vigente
Que um descorado rosto o amor resume.
Não tinha Miss Smolen outras côres;
Não n'as possue quem sonha com amores.

VIII

Sobre uma mesa havia um livro aberto;
Lamartine, o cantor aereo e vago,
Que enche de amor um coração deserto;
Tinha-o lido; era a pagina do Lago.
Amava-o; tinha-o sempre alli bem perto,
Era-lhe o anjo bom, o deos, o orago;
Chorava aos cantos da divina lyra....
É que o grande poeta amava Elvira!

IX

Elvira! o mesmo nome! A moça os lia,
Com lagrimas de amor, os versos santos,
Aquella eterna e languida harmonia
Formada com suspiros e com prantos;
Quando escutava a musa da elegia
Cantar de Elvira os magicos encantos,
Entrava-lhe a voar a alma inquieta,
E com o amor sonhava de um poeta.

X

Ai, o amor de um poeta! amor subido!
Indelevel, purissimo, exaltado,
Amor eternamente convencido,
Que vai além de um tumulo fechado,
E que, através dos seculos ouvido,
O nome leva do objecto amado,
Que faz de Laura um culto, e tem por sorte
Negra fouce quebrar nas mãos da morte.

XI

Fosse eu moça e bonita... N'este lance
Se o meu leitor é já homem sisudo,
Fecha tranquillamente o meu romance,
Que não serve a recreio nem a estudo;
Não entendendo a força nem o alcance
De semelhante amor, condemna tudo;
Abre um volume serio, farto e enorme,
Algumas folhas lê, boceja... e dorme.

XII

Nada perdes, leitor, nem perdem nada
As esquecidas musas; pouco importa
Que tu, vulgar materia condemnada,
Aches que um tal amor é lettra morta.
Pódes, cedendo á opinião honrada,
Fechar á minha Elvira a esquiva porta.
Almas de prosa chã, quem vos daria
Conhecer todo o amor que ha na poesia?

XIII

Ora, o tio de Elvira, o velho Antero,
Erudito e philosopho profundo,
Que sabia de cór o velho Homero,
E compunha os annaes do Novo Mundo;
Que escrevêra uma vida de Severo,
Obra de grande tomo e de alto fundo;
Que resumia em si a Grecia e Lacio,
E n'um salão fallava como Horacio;

XIV

Disse uma noite á pallida sobrinha:
«Elvira, sonhas tanto! devaneias!
«Que andas a procurar, querida minha?
«Que ambições, que desejos ou que idéas
«Fazem gemer tua alma innocentinha?
«De que esperança vã, meu anjo, anceias?
«Teu coração de ardente amor suspira;
«Que tens?—Eu nada,» respondia Elvira.

XV

«Alguma cousa tens!» tornava o tio;
«Porque olhas tu as nuvens do poente,
«Vertendo ás vezes lagrimas a fio,
«Magoada expressão d'alma doente?
«Outras vezes, olhando a agua do rio,
«Deixas correr o espirito indolente,
«Como uma flôr que ao vento alli tombára,
«E a onda murmurando arrebatára.»

XVI

«—Latet anguis ïn herba...» Neste instante
Entrou a tempo o chá... perdão, leitores,
Eu bem sei que é preceito dominante
Não misturar comidas com amores;
Mas eu não vi, nem sei se algum amante
Vive de orvalho ou petalas de flôres;
Namorados estomagos consomem;
Comem Romeos, e Julietas comem.

XVII

Entrou a tempo o chá, e foi servil-o,
Sem responder, a moça interrogada,
C'um ar tão soberano e tão tranquillo
Que o velho emmudeceu. Ceia acabada,
Fez o escriptor o costumado chylo,
Mas um chylo de especie pouco usada,
Que consistia em ler um livro velho;
N'essa noite acertou ser o Evangelho.

XVIII

Abríra em S. Matheus, n'aquelle passo
Em que o filho de Deus diz que a açucena
Não labora nem fia, e o tempo escasso
Vive, co' o ar e o sol, sem dôr nem pena;
Leu e estendendo o já tremulo braço
A triste, á melancolica pequena,
Apontou-lhe a passagem da Escriptura
Onde lêra lição tão recta e pura.

XIX

«Vês? diz o velho, escusas de cansar-te;
«Deixa em paz teu espirito, criança:
«Se existe um coração que deva amar-te,
«Ha de vir; vive só d'essa esperança.
«As venturas do amor um deos reparte;
«Queres têl-as? põe n'elle a confiança.
«Não persigas com supplicas a sorte;
«Tudo se espera; até se espera a morte!

XX

«A doutrina da vida é esta: espera,
«Confia, e colherás a anciada palma;
«Oxalá que eu te apague essa chimera
«Lá diz o bom Demophilo que á alma;
«Como traz a andorinha a primavera,
«A palavra do sabio traz a calma,
«O sabio aqui sou eu. Ris-te, pequena?
«Pois melhor; quero ver-te uma açucena!»

XXI

Paliava aquelle velho como falla
Sobre côres um cego de nascença.
Pear a juventude! Condemnal-a
Ao somno da ambição vivaz e intensa!
Co' as leves azas da esperança ornal-a
E não querer que rompa a esphera immensa!
Não consentir que esta manhã de amores
Encha com frescas lagrimas as flôres

XXII

Mal o velho acabava e justamente
Na rija porta ouviu-se uma pancada.
Quem seria? Uma serva diligente,
Travando de uma luz, desceu a escada.
Pouco depois rangia brandamente
A chave, e a porta aberta dava entrada
A um rapaz embuçado que trazia
Uma carta, e ao doutor fallar pedia.

XXIII

Entrou na sala, e lento, e gracioso,
Descobriu-se e atirou a capa a um lado;
Era um rosto poetico e viçoso
Por soberbos cabellos coroado;
Grave sem gesto algum pretencioso,
Elegante sem ares de enfeitado;
Nos labios frescos um sorriso amigo,
Os olhos negros e o perfil antigo.

XXIV

Demais, era poeta. Era-o. Trazia
N'aquelle olhar não sei que luz extranha
Que indicava um alumno da poesia,
Um morador da classica montanha,
Um cidadão da terra da harmonia,
Da terra que eu chamei nossa Allemanha,
N'uns versos que hei de dar um dia a lume,
Ou n'alguma gazeta, ou n'um volume.

XXV

Um poeta! e de noite! e de capote!
Que é isso, amigo autor? Leitor amigo.
Imagina que estás n'um camarote
Vendo passar-se em scena um drama antigo,
Sem lança não conheço D. Quixote,
Sem espada é apocrypho um Rodrigo;
Heróe que ás regras classicas escapa,
Póde não ser heróe, mas traz a capa.

XXVI

Heitor (era o seu nome) ao velho entrega
Uma carta lacrada; vem do norte.
Escreve-lhe um philosopho collega
Já quasi a entrar no thalamo da morte.
Recommenda-lhe o filho, e lembra, e allega,
A provada amizade, o esteio forte,
Com que outr'ora, acudindo-lhe nos transes,
Salvou-lhe o nome de terriveis lances.

XXVII

Dizia a carta: «Crime ou virtude,
«É meu filho poeta; e corre fama
«Que já faz honra á nossa juventude
«Co' a viva inspiração de etherea chamma;
«Diz elle que, se o genio não o illude,
«Camões seria se encontrasse um Gama.
«Deos o fade; eu perdôo-lhe tal sestro;
«Guia-lhe os passos, cuida-lhe do estro.»

XXVIII

Lida a carta, o philosopho erudito
Abraça o moço e diz em tom pausado:
«Um sonhador do azul e do infinito!
«É hospede do céu, hospede amado.
«Um bom poeta é hoje quasi um mytho,
«Se o talento que tem é já provado,
«Conte co' o meu exemplo e o meu conselho;
«Boa lição é sempre a voz de um velho.»

XXIX

E trava-lhe da mão, e brandamente
Leva-o junto d'Elvira. A moça estava
Encostada á janella, e a esquiva mente
Pela extensão dos ares lhe vagava.
Voltou-se distrahida, e de repente
Mal nos olhos de Heitor o olhar fitava,
Sentiu... Inutil fora relatal-o;
Julgue-o quem não puder experimental-o.

XXX

Ó santa e pura luz do olhar primeiro!
Elo de amor que duas almas liga!
Raio de sol que rompe o nevoeiro
E casa a flôr á flôr! Palavra amiga
Que, trocada um momento passageiro,
Lembrar parece uma existencia antiga!
Lingua, filha do céu, doce eloquencia
Dos melhores momentos da existencia!

XXXI

Entra a leitora n'uma sala cheia;
Vai isenta, vai livre de cuidado:
Na cabeça gentil nenhuma idéa,
Nenhum amor no coração fechado.
Livre como a andorinha que volteia
E corre loucamente o ar azulado.
Venham dous olhos, dous, que a alma buscava...
Era senhora? ficará escrava!

XXXII

C'um só olhar escravos elle e ella
Já lhes pulsa mais forte o sangue e a vida;
Rapida corre aquella noite, aquella
Para as castas venturas escolhida;
Assoma já nos labios da donzella
Lampejo de alegria esvaecida.
Foi milagre de amor, prodigio santo.
Quem mais fizera? Quem fizera tanto?

XXXIII

Preparára-se ao moço um aposento.
Oh! reverso da antiga desventura!
Têl-o perto de si! viver do alento
De um poeta, alma languida, alma pura!
Dá-lhe, ó fonte do casto sentimento,
Aguas santas, baptismo de ventura!
Emquanto o velho, amigo de outra fonte,
Vai mergulhar-se em pleno Xenophonte.

XXXIV

Devo agora contar, dia por dia,
O romance dos dous? Inutil fôra;
A historia é sempre a mesma; não varia
A paixão de um rapaz e uma senhora.
Vivem ambos do olhar que se extasia
E conversa co'a alma sonhadora;
Na mesma luz de amor os dous se inflammam;
Ou, como diz Philinto: «Amados, amam.»

XXXV

Todavia a leitora curiosa
Talvez queira saber de um incidente;
A confissão dos dous;—scena espinhosa
Quando a paixão domina a alma que sente.
Em regra, confissão franca e verbosa
Revela um coração independente;
A paz interior tudo confia,
Mas o amor, esse hesita e balbucia.

XXXVI

O amor faz monosyllabos; não gasta
O tempo com analyses compridas;
Nem é proprio de boca amante e casta
Um chuveiro de phrases estendidas;
Um volver d'olhos languido nos basta
Por conhecer as chammas comprimidas;
Coração que discorre e faz estylo,
Tem as chaves por dentro e está tranquillo.

XXXVII

Deu-se o caso uma tarde em que chovia,
Os dous estavão na varanda aberta.
A chuva peneirava, e além cobria
Cinzento véu o occaso; a tarde incerta
Já nos braços a noite a recebia,
Como amorosa mãe que a filha aperta
Por enxugar-lhe os prantos magoados.
Eram ambos immoveis e calados.

XXXVIII

Juntos, ao parapeito da varanda,
Viam cahir da chuva as gottas finas,
Sentindo a viração fria, mas branda,
Que balançava as frouxas casuarinas.
Raras, ao longe, de uma e de, outra banda,
Pelas do céu tristissimas campinas,
Viam correr da tempestade as aves
Negras, serenas, lugubres e graves.

XXXIX

De quando em quando vinha uma rajada
Borrifar e agitar a Elvira as tranças,
Como se fôra a briza perfumada
Que á palmeira sacode as tenues franças.
A fronte gentilissima e engraçada
Sacudia co'a chuva as más lembranças;
E ao passo que chorava a tarde escura
Ria-se n'ella a aurora da ventura.

XL

«Que triste a tarde vai! que véu de morte
«Cobrir parece a terra! (o moço exclama),
«Reproducção fiel da minha sorte,
«Sombra e choro.—Porque? pergunta a dama;
«Diz que teve dos céus uma alma forte...
«—É forte o bronze e não resiste á chamma;
«Leu versos meus em que zombei do fado?
«lllusões de poeta mallogrado!»

XLI

«Somos todos assim. E nossa gloria
«Contra o destino oppôr alma de ferro;
«Desafiar o mal, eis nossa historia,
«E o tremendo duello é sempre um erro.
«Custa-nos caro uma fallaz victoria
«Que nem consola as mágoas do desterro,
«O desterro,—esta vida obscura e rude
«Que a dôr enfeita e as victimas illude.

XLII

«Contra esse mal tremendo que devora
«A seiva toda á nossa mocidade,
«Que remedio haveriamos, senhora,
«Senão versos de affronta e liberdade?
«No emtanto, bastaria acaso um'hora,
«Uma só, mas de amor, mas de piedade,
«Para trocar por seculos de vida
«Estes de dôr acerba e envilecida.»

XLIII

Al não disse, e, fitando olhos ardentes
Na moça, que de enleio enrubecia,
Com discursos mais fortes e eloquentes
Na exposição do caso proseguia;
A pouco e pouco as mãos intelligentes
Traváram-se; e não sei se conviria
Accrescentar que um osculo... Risquemos,
Não é bom mencionar estes extremos.

XLIV

Duas sombrias nuvens afastando,
Tenue raio de sol rompêra os ares,
E, no amoroso grupo desmaiando,
Testemunhou-lhe as nupcias singulares.
A nesga azul do occaso contemplando,
Sentirão ambos irem-lhe os pezares,
Como nocturnas aves agoureiras
Que á lua fogem medrosas e ligeiras.

XLV

Tinha mágoas o moço? A causa d'ellas?
Nenhuma causa; fantasia apenas;
O eterno devanear das almas bellas,
Quando as dominam fervidas camenas;
Uma ambição de conquistar estrellas,
Como se colhem lucidas phalenas;
Um desejo de entrar na eterna lida,
Um querer mais do que nos cede a vida.

XLVI

Com amores sonhava, ideal formado
De celestes e eternos esplendores,
A ternura de um anjo destinado
A encher-lhe a vida de perpetuas flôres.
Tinha-o emfim, qual fôra antes creado
Nos seus dias de mágoas e amargores;
Madrugavão-lhe n'alma a luz e o riso;
Estava á porta emfim do paraiso.

XLVII

N'essa noite, o poeta namorado
Não conseguiu dormir. A alma fugíra
Para ir velar o doce objecto amado,
Por quem, nas ancias da paixão, suspira;
E é provavel que, achando o exemplo dado,
Ao pé de Heitor viesse a alma de Elviva;
De maneira que os dous, de si ausentes,
Lá se achavão mais vivos e presentes.

XLVIII