Ei-lo o triste signal, signal de
morte!
Á sua esquiva sorte
Não poderão fugir! Meu Deus!
Á sua esquiva sorte
Não poderão fugir! Meu Deus!
LOBNA.
Patente
Ante si tudo hão-de
encontrar. Se ao menos
Suspeitassem de nós!
Suspeitassem de nós!
HALEVA.
Ei-los! Silencio!
SCENA VIII.
D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que
recuam aterradas.
D. PEDRO.
Lobna!
D. HENRIQUE.
Haleva!
D. PEDRO.
O juramento
O momento é de cumprir!
De partir não tarda a hora:
De partir não tarda a hora:
Ha-de a aurora
Refulgir-nos juncto ao mar.
D. HENRIQUE.
Sobre os rapidos corceis
Nós fieis vos guiaremos
Aonde achemos mil delicias
Nós fieis vos guiaremos
Aonde achemos mil delicias
Nas caricias
De que amor nos vai cercar!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Vinde! a noite nos protege:
Dorme tudo pela aldeia;
E este braço não receia,
Quando cumpre, o pelejar.
Vinde ser enlevo d'almas,
Sob um céu meigo e sereno;
Que nunca ha-de o sarraceno
Como nós saber amar!
Dorme tudo pela aldeia;
E este braço não receia,
Quando cumpre, o pelejar.
Vinde ser enlevo d'almas,
Sob um céu meigo e sereno;
Que nunca ha-de o sarraceno
Como nós saber amar!
LOBNA.
Correndo ao portico da direita, e
voltando com
afflicção e energia.
Fugí breve, oh desgraçados,
Que cercados sois da morte!
Queira a sorte que um momento
Que cercados sois da morte!
Queira a sorte que um momento
Seu intento
A cumprir tarde Gulnar!
HALEVA.
De ninguem serdes sentidos,
Já perdidos, ainda creis!
Mal sabeis vos esperava
Já perdidos, ainda creis!
Mal sabeis vos esperava
Quem velava
Para em vós um pae vingar!
LOBNA E HALEVA.
Triste umbral haveis cruzado,
Do wali ultimo abrigo,
Que no extremo do perigo
Jaz a ponto d'expirar.
Por seu sangue a feroz filha,
Que essas portas franqueiou,
Vingativa aos céus jurou
Vosso sangue derramar.
Do wali ultimo abrigo,
Que no extremo do perigo
Jaz a ponto d'expirar.
Por seu sangue a feroz filha,
Que essas portas franqueiou,
Vingativa aos céus jurou
Vosso sangue derramar.
D. PEDRO.
A perfidía em recompensa
Só achou o nosso ardor?!
Desleaes! Porque o furor
De mulher cruel servir?
Só achou o nosso ardor?!
Desleaes! Porque o furor
De mulher cruel servir?
D. HENRIQUE.
Porque a vida nos pedieis,
No olhar terno amor pedindo,
Quando os golpes retinindo
Era livre inda o fugir?
No olhar terno amor pedindo,
Quando os golpes retinindo
Era livre inda o fugir?
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Porque em noite deliciosa
De delirios seductores,
Generosos vencedores
Só pensaveis em trahir?!
De delirios seductores,
Generosos vencedores
Só pensaveis em trahir?!
LOBNA.
Uma idéa tenebrosa
De Gulnar surgiu na mente
Nessa noite, em que estridente
Veiu a espada aqui luzir:
De Gulnar surgiu na mente
Nessa noite, em que estridente
Veiu a espada aqui luzir:
HALEVA.
«Ide:—disse-nos—sois bellas:
Fascinae os nazarenos,
Talvez possa assim, ao menos,
Da vingança a senda abrir!»
Fascinae os nazarenos,
Talvez possa assim, ao menos,
Da vingança a senda abrir!»
LOBNA E HALEVA.
A leôa do deserto
Entre as cervas se escondia:
Seu aceno constrangia
Pobre escrava a amor fingir.
Entre as cervas se escondia:
Seu aceno constrangia
Pobre escrava a amor fingir.
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Com vivacidade e despeito.
Era pois um falso affecto?!...
LOBNA.
Foi-o só um breve
instante...
HALEVA.
Hoje puro, hoje constante
LOBNA E HALEVA.
Far-nos-ha por vós morrer.
D. PEDRO.
Pondo a mão sobre o punho da
espada.
Que ella venha, pois, e a cerquem
Seus escravos traiçoeiros!
Portugueses, cavalleiros
Somos nós: ha-de tremer!
Seus escravos traiçoeiros!
Portugueses, cavalleiros
Somos nós: ha-de tremer!
D. HENRIQUE.
Sabe o forte nos combates
Se este braço é prompto e duro;
O covarde, que no escuro
Fere só, o ha-de saber!
Se este braço é prompto e duro;
O covarde, que no escuro
Fere só, o ha-de saber!
LOBNA E HALEVA.
| | | | | | | | | | | | |
Oh, fugi; que ainda
é tempo, Antes de ella aqui volver! |
||
| 4 |
D. PEDRO E D. HENRIQUE |
||
| Partiremos! Dentro em breve Nos vereis aqui volver! |
|||
O exterior da sala illumina-se de
repente: a luz penetra pela gelosia,
e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que
vão a sair, param e escutam.
CÔRO DE GUERREIROS MOUROS, fóra.
Gloria ao sancto propheta que aos impios
A cerviz insolente vergou,
E do amir português crueis filhos
Do muslim ao punhal entregou!
A cerviz insolente vergou,
E do amir português crueis filhos
Do muslim ao punhal entregou!
LOBNA E HALEVA.
Bateu funerea hora...
Morreu nossa esperança!
Morreu nossa esperança!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Resta-nos a vingança...
Sangue por sangue... Embora!
Sangue por sangue... Embora!
SCENA IX.
Eunuchos negros armados de punhaes, que
se precipitam na scena e
vão collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da
direita, encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os
infantes.
GULNAR.
A Lobna e Haleva.
Fugir?!... É tarde,
infames!
Vós me trahieis, vís!
Tremei! Gulnar velava...
E eu sou vosso juiz!
Vós me trahieis, vís!
Tremei! Gulnar velava...
E eu sou vosso juiz!
Aos infantes.
Deponde inuteis ferros,
De Ceuta vencedores!
Lá fóra meus guerreiros...
De Ceuta vencedores!
Lá fóra meus guerreiros...
Apontando para os eunuchos.
Alli meus vingadores.
LOBNA. |
HALEVA. |
|
|
———————————————————————————————————-
|
||
|
«Ide
trahi-los—
Impia, disseste... Mui facil creste Fingir amor. |
Para trahi-los
Nos escolheste!.. Se nos venceste Foi por temor. |
|
LOBNA E HALEVA.
Morrer com elles
É grata pena...
Feroz hyena,
Temos-te horror.
É grata pena...
Feroz hyena,
Temos-te horror.
D. PEDRO. |
D. HENRIQUE. |
|
|
———————————————————————————————————-
|
||
|
Aos teus
escravos,
Mulher infida, Mais larga vida Deixa gosar! |
Os teus escravos
Com mortal lida A nossa vida Tem de comprar! |
|
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Que nunca o susto
Nos fez no p'rigo
O ferro amigo
Abandonar.
Nos fez no p'rigo
O ferro amigo
Abandonar.
Começa a ouvir-se um ruído como de golpes de
machado.
GULNAR.
Da louca audacia,
Da van affronta
Vingança prompta
Gulnar vai ter.
Da van affronta
Vingança prompta
Gulnar vai ter.
O ruído augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.
Mas qual ruído
Confuso soa?
Porque reboa
Voz do adail?!...
Confuso soa?
Porque reboa
Voz do adail?!...
Ao chefe dos eunuchos, apontando para o
portico da
esquerda.
Hussein!.. O ferro
Retine!.. Gritos!
Gemer d'afflictos!
Sons de anafil!..
Retine!.. Gritos!
Gemer d'afflictos!
Sons de anafil!..
Toque de trombeta fóra.
Hussein sai correndo pela esquerda:
Gulnar fica suspensa.
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Que escuto?! Lá bradaram:
—São Jorge! Ávante, ávante!»
Oh jubiloso instante!
Restruge o pelejar.
—São Jorge! Ávante, ávante!»
Oh jubiloso instante!
Restruge o pelejar.
GULNAR.
Acenando aos eunuchos.
Morram os impios! Morram!
Servos, rasgae seu peito.
Sintam, emfim, o effeito
Dos odios de Gulnar.
Servos, rasgae seu peito.
Sintam, emfim, o effeito
Dos odios de Gulnar.
Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os
eunuchos apinham-se diante delles com os punhaes erguidos:
o côro das donzellas arabes precipita-se na scena
pela direita com gestos de assombro e terror: no mesmo
tempo pela esquerda guerreiros mouros fugindo desordenados
diante dos cavalleiros portugueses, que rompem por
entre os eunuchos e os dous infantes.
SCENA X E ULTIMA.
Os dictos: D. Duarte: córos
de cavalleiros portugueses e
mouros:
côro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da
scena, e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar,
recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva
refugiam-se juncto dos infantes.
CÔRO DE DONZELLAS.
Que horrivel espectaculo!
Por toda a parte a morte...
Por toda a parte a morte...
CÔRO DE GUER. MOUROS. |
CÔRO DE CAVALLEIROS. |
|
|
———————————————————————————————————-
|
||
|
Ferros inuteis,
ide-vos:
Cumpra-se a nossa sorte! |
Cede o agareno timido:
Honra ao valor do forte! |
|
|
Depondo os alfanges no
chão.
|
Brandindo as armas.
|
|
D. DUARTE.
Lançando os olhos para os
eunuchos armados de punhaes estremece, e correndo para os infantes,
ergue as mãos
ao céu.
Vivos ainda, e incólumes!
Graças te dou, Senhor!
Laços de um impio amor
Vinha-lhes eu partir...
E a morte ia-os ferir!..
Graças, oh meu Senhor!
Graças te dou, Senhor!
Laços de um impio amor
Vinha-lhes eu partir...
E a morte ia-os ferir!..
Graças, oh meu Senhor!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Curvando o joelho aos pés de
D. Duarte.
Foste enganado, e salvas-nos!..
Perdoa, nobre infante!
Foi de delirio instante,
Que ao erro nos levou.
Perdoa, nobre infante!
Foi de delirio instante,
Que ao erro nos levou.
LOBNA E HALEVA.
Agita ancioso o seio
Insolito pulsar;
Mas d'horrido receio
Não é este agitar!
Insolito pulsar;
Mas d'horrido receio
Não é este agitar!
D. DUARTE.
Pedro, Henrique, sois salvos! Invencivel
A espada portuguesa,
Mais uma vez, terrivel,
A barbara fereza
Dos infiéis domou.
O perfido punhal,
Da vingança guiado, em vão se alçou...
A espada portuguesa,
Mais uma vez, terrivel,
A barbara fereza
Dos infiéis domou.
O perfido punhal,
Da vingança guiado, em vão se alçou...
GULNAR.
Adiantando-se.
Vencestes, nazarenos!
Folgae na vossa gloria...
Seguí facil victoria.
Puní-me! Eis-me captiva...
Do vosso amir na prole
Vingar meu pae eu quiz...
Pensando-o era feliz:
Agora infeliz sou.
Morrer é a esperança,
Que o fado me deixou.
Folgae na vossa gloria...
Seguí facil victoria.
Puní-me! Eis-me captiva...
Do vosso amir na prole
Vingar meu pae eu quiz...
Pensando-o era feliz:
Agora infeliz sou.
Morrer é a esperança,
Que o fado me deixou.
CÔRO DE CAVALLEIROS.
Interrompendo Gulnar, e brandindo de
novo as armas.
Pune, oh principe, infames traidores:
Lava a affronta do sangue real!
Dos covardes, em trance fatal,
Tinja as faces da morte o pallor!
Lava a affronta do sangue real!
Dos covardes, em trance fatal,
Tinja as faces da morte o pallor!
CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.
Com gesto supplicante.
Por piedade, dos teus seguidores
Não escutes o voto lethal!
Generoso, o seu odio infernal,
Por piedade, não ouças, senhor!
Não escutes o voto lethal!
Generoso, o seu odio infernal,
Por piedade, não ouças, senhor!
D. DUARTE.
Aos cavalleiros.
Silencio!
Aos mouros.
Livres sois.
Aos cavalleiros.
Nunca aos vencidos
Sangue pediu meu pae. Eu serei digno
Filho do vosso rei.
Filho do vosso rei.
A Gulnar.
Mulher, és livre.
GULNAR.
Tua clemencia
hypocrita,
Tyranno, vem mui tarde!
Pensas apagar, barbaro,
Fogo que immortal arde?!
Dá-me Ceuta, a miserrima:
Torna-me um pae que expira:
Foge das praias d'Africa
Serva, que mal respira!
Foras assim magnanimo:
Grata Gulnar te fora:
Sem isso, um favor unico,
Prompto morrer te implora!
Tyranno, vem mui tarde!
Pensas apagar, barbaro,
Fogo que immortal arde?!
Dá-me Ceuta, a miserrima:
Torna-me um pae que expira:
Foge das praias d'Africa
Serva, que mal respira!
Foras assim magnanimo:
Grata Gulnar te fora:
Sem isso, um favor unico,
Prompto morrer te implora!
CÔRO DE MOUROS E DONZELLAS. |
CÔRO DE CAVALLEIROS. |
|
|
———————————————————————————————————-
|
||
|
Turba-te a dor e a
cólera,
Filha de Bensalá: A tua raiva indomita É van e inutil já! |
Da perfida a
van cólera
Inutil brame já: Do seu cruel proposito Ella nos vingará. |
|
Em quanto duram os córos o
principe e os infantes falam em
voz baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte
mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.
D. DUARTE.
Tomando pela mão as duas escravas.
Não!... Innocentes victimas
D'impios não deveis ser!
O vosso amor ingenuo
Cumpre-vos esquecer;
Mas a vingança barbara
Não vos entregarei.
A Portugal seguindo-nos
D'impios não deveis ser!
O vosso amor ingenuo
Cumpre-vos esquecer;
Mas a vingança barbara
Não vos entregarei.
A Portugal seguindo-nos
Olhando para os infantes com aspecto severo.
Eu vos protegerei!
LOBNA E HALEVA.
Só ir nos concede
O fado inhumano
Além do oceano
De amor expirar!
O fado inhumano
Além do oceano
De amor expirar!
D. PEDRO E D. HENRIQUE.
Nest'hora solemne
Do peito no arcano
Nosso amor insano
Juramos calar.
Do peito no arcano
Nosso amor insano
Juramos calar.
D. DUARTE.
Da nossa clemencia
Aprenda o africano
A ser nobre e humano,
E o que é perdoar.
Aprenda o africano
A ser nobre e humano,
E o que é perdoar.
GULNAR.
Do meu odio immenso
Cruel desengano!..
Feroz lusitano
Se ri de Gulnar!
Cruel desengano!..
Feroz lusitano
Se ri de Gulnar!
CÔRO DE CAVALLEIROS.
Risquemos da mente
O perfido engano;
Que o principe humano
É bello imitar.
O perfido engano;
Que o principe humano
É bello imitar.
CÔRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.
A nobre clemencia
Do heroe lusitano
Áquem do oceano
Sempre ha-de lembrar.
Do heroe lusitano
Áquem do oceano
Sempre ha-de lembrar.
LIVRO TERCEIRO
VERSÕES.
O SECCAR DAS FOLHAS.
(Millevoye).
Das ruinas destes bosques
O outomno alastrou o chão:
A selva perdeu seus mimos;
Os rouxinoes mudos são.
No bosque, amigo da infancia,
Triste um joven vagueiava;
Na sua aurora a doença
Para o sepulchro o inclinava.
«Adeus floresta querida!
Vestes lucto por meu fim?
Como te cai folha e folha
A morte me segue assim.
Intima voz, que revela
Seu fado extremo aos mortaes,
Me diz:—vês cahir as folhas?
São essas só: não ha mais!
Sobre esta pallida fronte
O torvo cypreste ondeia,
Como o que, pharol de mortos,
Sobre campas se meneia.
Antes da vide na encosta,
Antes da relva no prado,
Os dias da juventude
Terão para mim murchado!
Minha linda primavera
Qual a van sombra passou!
Eu morro: o euro gelado
Da vida a seiva mirrou.
Cáe, oh passageira folha;
Vem esta senda cobrir;
Esconde ao pranto materno
Logar onde vou dormir.
Mas se vier minha amante,
Involta em véu luctuoso,
Ao pôr do sol, na lameda,
Dar-me um suspiro saudoso,
Com o teu leve rugido
Desperta, oh, desperta o morto;
Que assim sua sombra tenha
Ainda allivio e conforto!»
Disse: afastou-se, e não volve:
Ultima folha cahiu:
Era o signal: seu sepulchro
Sob o carvalho se abriu.
Mas sua amante não veio:
E só do valle o pastor
Quebrou com som de passadas
Repouso do trovador.
O outomno alastrou o chão:
A selva perdeu seus mimos;
Os rouxinoes mudos são.
No bosque, amigo da infancia,
Triste um joven vagueiava;
Na sua aurora a doença
Para o sepulchro o inclinava.
«Adeus floresta querida!
Vestes lucto por meu fim?
Como te cai folha e folha
A morte me segue assim.
Intima voz, que revela
Seu fado extremo aos mortaes,
Me diz:—vês cahir as folhas?
São essas só: não ha mais!
Sobre esta pallida fronte
O torvo cypreste ondeia,
Como o que, pharol de mortos,
Sobre campas se meneia.
Antes da vide na encosta,
Antes da relva no prado,
Os dias da juventude
Terão para mim murchado!
Minha linda primavera
Qual a van sombra passou!
Eu morro: o euro gelado
Da vida a seiva mirrou.
Cáe, oh passageira folha;
Vem esta senda cobrir;
Esconde ao pranto materno
Logar onde vou dormir.
Mas se vier minha amante,
Involta em véu luctuoso,
Ao pôr do sol, na lameda,
Dar-me um suspiro saudoso,
Com o teu leve rugido
Desperta, oh, desperta o morto;
Que assim sua sombra tenha
Ainda allivio e conforto!»
Disse: afastou-se, e não volve:
Ultima folha cahiu:
Era o signal: seu sepulchro
Sob o carvalho se abriu.
Mas sua amante não veio:
E só do valle o pastor
Quebrou com som de passadas
Repouso do trovador.
A NOIVA DO SEPULCHRO.
(Imitado do inglez).
I.
Juncto da raia d'Hespanha,
Em monte calvo e deserto,
Vê-se um vulto negro ao longe,
Castello é, vendo-se ao perto:
Vê-se um vulto negro ao longe,
Castello é, vendo-se ao perto:
Mas castello derribado,
De bons tempos, de outras eras,
Hoje abrigo escuro e triste
De reptis e bravas feras.
Hoje abrigo escuro e triste
De reptis e bravas feras.
Foram formosos e fortes
Esses muros derrocados,
Por onde trepam as heras;
Que cingem bastos silvados.
Por onde trepam as heras;
Que cingem bastos silvados.
A voz delrei nelle tinha
Nobre alcaide dom Sueiro;
Nobre por sua linhagem,
Nobre por bom cavalleiro.
Nobre por sua linhagem,
Nobre por bom cavalleiro.
Noivados, torneios, festas,
Ninguem sem elle fazia:
Ninguem, sem o convidar,
Ajustava montaria;
Ninguem, sem o convidar,
Ajustava montaria;
Que nunca da sua bésta
Viróte partiu em
vão;
Como nunca os justadores
O viram perder o arção.
Como nunca os justadores
O viram perder o arção.
Mulher, que elle muito amara,
Lh'a roubara a sepultura;
Mas por este golpe o alcaide
Não mostrou grande tristura.
Mas por este golpe o alcaide
Não mostrou grande tristura.
Até corria entre o povo
Um mysterio de maldade...
Suppunham uns ser mentira;
Criam outros ser verdade.
Suppunham uns ser mentira;
Criam outros ser verdade.
Mas o que? Cubria a terra
Esse caso mysterioso;
E só o povo sabía
Ser viuvo o que era esposo.
E só o povo sabía
Ser viuvo o que era esposo.
II.
Cedo se ergue dom Sueiro;
Cavalga no seu cavallo,
E para caçada alegre
Passa áquem do extremo vallo.
E para caçada alegre
Passa áquem do extremo vallo.
Por essas margens do Lima,
Debaixo de puro céu,
O nobre senhor alcaide
Á rédea solta correu.
O nobre senhor alcaide
Á rédea solta correu.
Veredas segue torcidas,
Até descubrir o outeiro,
Que revestem pela encosta
O zimbro, a urze e o pinheiro.
Que revestem pela encosta
O zimbro, a urze e o pinheiro.
Soam sonoras buzinas,
Ri do dia o lindo alvor,
E no meio da paizagem
Uma brilha e outra flor.
E no meio da paizagem
Uma brilha e outra flor.
Dom Sueiro o seu cavallo
Incita com ferrea espora;
Que no logar aprazado
Deve estar dentro de um' hora.
Que no logar aprazado
Deve estar dentro de um' hora.
Nada lhe põe
embaraço;
Nem resonantes ribeiros,
Nem as chans apaúladas,
Nem escarpados outeiros.
Nem as chans apaúladas,
Nem escarpados outeiros.
Mas ao sair da floresta,
Ainda perto do rio,
Viu ir formosa donzella
Buscando do ermo o desvio.
Viu ir formosa donzella
Buscando do ermo o desvio.
Celestes são seus meneios:
Não mortal, anjo parece:
Da sua tez a brancura
Alva açucena escurece.
Da sua tez a brancura
Alva açucena escurece.
O seu corcel dom Sueiro
Fez parar. Já se esquecera
Da caçada; e que no monte
Em breve estar promettera.
Da caçada; e que no monte
Em breve estar promettera.
—Dizei-me vós, oh
donzella,
Quem sois, que nunca vos vi;
Que por minha alma vos juro
Sois já senhora de mi.»
Que por minha alma vos juro
Sois já senhora de mi.»
Resposta nenhuma teve,
Que ella não lhe
respondia,
E, sempre guiando ao valle,
A curva senda seguia.
E, sempre guiando ao valle,
A curva senda seguia.
—Não me fugireis assim:
Bofé que não
fugireis!
Um momento, um só momento,
Dom Sueiro escutareis!»
Um momento, um só momento,
Dom Sueiro escutareis!»
Disse: desmonta, e persegue-a,
Nos braços para a
estreitar;
Mas ella furta-lhe o corpo,
E elle abraça o subtil ar.
Mas ella furta-lhe o corpo,
E elle abraça o subtil ar.
—Dizei-me vós, oh
donzella,
Pela vossa alma dizei,
De que procede tal susto,
Que a meu pesar vos causei?
De que procede tal susto,
Que a meu pesar vos causei?
Que, pelos céus o asseguro,
É verdadeiro este amor.
Não me fujaes, bella dama:
Não ha de que ter pavor.
Não me fujaes, bella dama:
Não ha de que ter pavor.
De esposo, se vós quereis,
Dar-vos-hei, contente, a
mão:
Sereis dona de um castello,
Dona do meu coração.»
Sereis dona de um castello,
Dona do meu coração.»
—Dom Sueiro, oh dom Sueiro—
Tornou a dama formosa—
Eu sei quem és, qual teu nome,
E eu seria tua esposa:
Eu sei quem és, qual teu nome,
E eu seria tua esposa:
Mas como crer nos teus dictos,
Dictos de homem fraudulento?
Conheço tuas perfidias,
E qual é teu vil intento.
Conheço tuas perfidias,
E qual é teu vil intento.
Dês que morreu dona Dulce,
A tua infeliz mulher,
A linda Elvira roubaste
Para teu ludibrio ser.
A linda Elvira roubaste
Para teu ludibrio ser.
Com promessas refalsadas
Enganaste uma innocente.
Quem crerá juras de um ímpio,
Que só jura quando mente?
Quem crerá juras de um ímpio,
Que só jura quando mente?
Ella te creu, desditosa!
Porém não te
creio eu:
Nem, qual de Elvira o destino,
Será o destino meu.
Nem, qual de Elvira o destino,
Será o destino meu.
E como soffrera, esposa
Tua sendo, uma rival?
Folgáras tu nos meus zelos;
Folgáras della no mal?
Folgáras tu nos meus zelos;
Folgáras della no mal?
Ousáras tu, dom Sueiro,
A pobre Elvira expulsar,
E dias de angustia e pejo,
Misera, vê-la tragar?—
E dias de angustia e pejo,
Misera, vê-la tragar?—
«Oh, voto a Christo, que
sim!—
O nobre alcaide atalhou:
E desfazer-se de Elvira,
Com mil pragas, protestou.
E desfazer-se de Elvira,
Com mil pragas, protestou.
—Mas dizei vós, dama
linda,
Quem sois? quem são vossos
paes?
Que eu vos direi de mim tudo,
Se tudo me perguntaes.—
Que eu vos direi de mim tudo,
Se tudo me perguntaes.—
«Nunca!—tornou a
donzella:—
Quem eu sou não te direi.
Nada te devo por ora:
Quando dever pagarei.
Nada te devo por ora:
Quando dever pagarei.
Mas pódes estar seguro,
Que, bem que nobre senhor.
Não é que o meu o teu sangue
Sangue de maior primor.—
Não é que o meu o teu sangue
Sangue de maior primor.—
«Pois sim, querida, pois
sim!—
Dom Sueiro proseguia;
E algum signal de ternura
Á bella dama pedia.
E algum signal de ternura
Á bella dama pedia.
«Não, oh
não, meu cavalleiro!
Quando a mim te vir ligado
Tua serei; que antes disso
Fôra horroroso peccado.—
Tua serei; que antes disso
Fôra horroroso peccado.—
«Porém dizei-me,
oh donzella,
Onde vos hei-de encontrar?
Que, pela cruz, ahi juro
Nossas nupcias celebrar.—
Que, pela cruz, ahi juro
Nossas nupcias celebrar.—
«Oh, que não
será de dia;
Que mal de nós
julgarão!—
Tornou a dama—e os praguentos
Certo de mim se rirão.
Tornou a dama—e os praguentos
Certo de mim se rirão.
É pela noite que eu voto;
De noite no cemiterio,
Quando soar doze vezes
O sino do presbyterio.
Quando soar doze vezes
O sino do presbyterio.
Sob o teixo solitario,
Onde ninguem nos não veja;
E aonde nunca chegar-se
Quem passar ousado seja.—
E aonde nunca chegar-se
Quem passar ousado seja.—
«Vivam meus lindos amores!—
Interrompeu dom Sueiro:—
Sob o teixo, á meia noite?...
Veremos quem vae primeiro.—
Sob o teixo, á meia noite?...
Veremos quem vae primeiro.—
«Sim!—volveu ella—a ess'
hora.
Nenhuma fôra melhor;
Porém, da tua palavra
Que me darás em penhor?—
Porém, da tua palavra
Que me darás em penhor?—
«Minha paixão em
seguro
Do que promettí te dou:
Nunca promessas mentidas
Fez quem devéras amou.
Nunca promessas mentidas
Fez quem devéras amou.
Curvando o joelho, eu juro
Teus grilhões sempre
rojar:
Meu corpo e alma são teus;
E o tempo o ha-de provar.—
Meu corpo e alma são teus;
E o tempo o ha-de provar.—
«Basta!—a donzella lhe
disse.—
Dom Sueiro, sou contente.
São meus teu corpo e tu' alma:
Meus serão eternamente.—
São meus teu corpo e tu' alma:
Meus serão eternamente.—
Dicto isto, ao longo do rio
Ligeira a senda seguiu,
E elle aos outros caçadores
Alegre se reuniu.
E elle aos outros caçadores
Alegre se reuniu.
III.
Já da larga montaria
O folguedo se acabava,
E dom Sueiro ao castello,
Ao seu castello voltava.
E dom Sueiro ao castello,
Ao seu castello voltava.
Arde-lhe na alma o desejo
Com as imagens do goso,
E róe-lhe idéa damnada
O coração criminoso.
E róe-lhe idéa damnada
O coração criminoso.
Infeliz e linda Elvira,
Nos dias da juventude,
Perdera nos braços delle
Flor de innocencia e virtude.
Perdera nos braços delle
Flor de innocencia e virtude.
Mas gosos faceis não duram;
Breve após o tedio chega:
Elvira é já enfadonha:
Novo amor o alcaide cega.
Elvira é já enfadonha:
Novo amor o alcaide cega.
Cumpre de si afasta-la:
O caso difficil é:
Ajunctará crime a crime?
Elle outro meio não vê.
Ajunctará crime a crime?
Elle outro meio não vê.
Emfim decidiu-se: a morte
Em aurea taça lhe deu.
Nobre senhor, folgar pódes,
Teu crime a terra escondeu!
Nobre senhor, folgar pódes,
Teu crime a terra escondeu!
Era noite: e dom Sueiro
Para o adro ermo partia.
Logar, horas ou remorsos,
Nada terror lhe infundia.
Logar, horas ou remorsos,
Nada terror lhe infundia.
Brilha a lua em seu crescente:
Passa a noite silenciosa;
E só lhe quebra o socego
O mocho e a fonte ruidosa.
E só lhe quebra o socego
O mocho e a fonte ruidosa.
Ao cabo o adro elle avista:
No meio o teixo lhe avulta:
Não deu meia noite ainda;
A dama ainda se occulta.
Não deu meia noite ainda;
A dama ainda se occulta.
Mas troa o sino! Uma!... Duas!...
Contou; contou: mais dez
são:
E uma donzella, de branco,
Surge da lua ao clarão,
E uma donzella, de branco,
Surge da lua ao clarão,
E está debaixo do teixo.
Para lá o alcaide corre.
Não enganou seus desejos
Essa por quem elle morre.
Não enganou seus desejos
Essa por quem elle morre.
Porém que é
isto? Recúa?
Para trás a face vira?
Sim; que não era a donzella,
Mas o phantasma de Elvira.
Sim; que não era a donzella,
Mas o phantasma de Elvira.
«Maldicto!—clamou o
espectro—
Pune a traição
o traidor.
Negro o sepulchro te espera.
De teu mal és só o auctor.
Negro o sepulchro te espera.
De teu mal és só o auctor.
Pensa, monstro, emquanto é
tempo;
Que não tardará
teu fim.
Teu nome apagou-se. Agora,
Recorda-te bem de mim!—
Teu nome apagou-se. Agora,
Recorda-te bem de mim!—