Sua cabeça era um craneo
Branco-pallido, escarnado:
Nas mãos tem fouce e ampulheta,
Triste adorno de finado.
Nas mãos tem fouce e ampulheta,
Triste adorno de finado.
Alça-se e arqueja o ginete:
Igneas faiscas
lançou,
E debaixo de seus pés
Abriu-se a terra, e o tragou.
E debaixo de seus pés
Abriu-se a terra, e o tragou.
Dos covaes surgem phantasmas:
Feio urrar os ares corta:
Bate incerto o coração
Da donzella semimorta.
Bate incerto o coração
Da donzella semimorta.
Ao redor danças de
espectros
Em remoinho passavam:
Canto de medonhas vozes
Era o canto que cantavam:
Canto de medonhas vozes
Era o canto que cantavam:
«Aflliges-te? Oh, tem
paciencia!
Não fosses com Deus audaz.
Teu corpo pertence á terra:
Á tua alma o céu dê paz.—
Teu corpo pertence á terra:
Á tua alma o céu dê paz.—
[1] Maria-Theresa d'Austria e Friderico de Prussia.
A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.
(Lamartine).
Tu cujas azas
tremulas
O meu olhar tornava;
Cujo trinado harmonico
Meus dias alegrava,
Ai, já não ouves!—Chamo-te,
E é vão este chamar!
Chegou a estação gelida;
Foi para te matar.
O meu olhar tornava;
Cujo trinado harmonico
Meus dias alegrava,
Ai, já não ouves!—Chamo-te,
E é vão este chamar!
Chegou a estação gelida;
Foi para te matar.
Nunca me has-de esquecer! Por bem
seis annos,
Companheira leal
Tu me foste, avesinha;
Tu me foste, avesinha;
Meiga entre as meigas, desprezando os
campos,
Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha
Deslembrada da mãe, que, á noite, aninha
No movel cannavial.
A ti, affeita a mim, affiz-me em
breve.
Meu unico recreio
Era brincar comtigo.
Era brincar comtigo.
Ao veres-me encerrar no pobre
alvergue
Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo
Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo
Volvia em brando
enleio.
Meu amor te suppria a liberdade;
Meus passos
traduzias,
Meu gesto, meu falar;
Meu gesto, meu falar;
Repetias-me o nome em teus modilhos;
Punhas-te a chilrear
Quando sorrir me vias.
Quando sorrir me vias.
Oh, que par! Que viver sereno e
sancto!
Estavamos
tão bem!
Nosso parco alimento
Nosso parco alimento
Com a ponta da agulha eu mourejava,
E dizia scismando:—o meu sustento
E dizia scismando:—o meu sustento
É o delle
tambem.»
Sementes varias dava-te co' a
alpista,
E, qual ramalhetinho
Feito na orla do prado,
Feito na orla do prado,
Á 'splendida gaiola atar
me vias,
Para debique teu, de herva um punhado,
Para debique teu, de herva um punhado,
De alface um tenro olhinho....
Se ao menos fosse licito
Saberes que pranteio!..
Ai, foi em dia identico,
Que teu adejar veio
Fazer brilhar o jubilo
Neste triste aposento,
Onde em saudosa magua,
Sósinha te lamento!
Se ao menos fosse licito
Saberes que pranteio!..
Ai, foi em dia identico,
Que teu adejar veio
Fazer brilhar o jubilo
Neste triste aposento,
Onde em saudosa magua,
Sósinha te lamento!
INDICE.
LIVRO I
A HARPA DO CRENTE
| pag: | |
| A Semana Sancta. | 3 |
| A Voz. | 35 |
| A Arrabida. | 41 |
| Mocidade e Morte. | 63 |
| Deus. | 81 |
| A Tempestade. | 87 |
| O Soldado. | 95 |
| A Victoria e a Piedade. | 111 |
| A Cruz mutilada. | 121 |
LIVRO II
POESIAS VARIAS.
| A Perda d'Arzilla. | 137 |
| A Rosa. | 147 |
| O Mendigo. | 151 |
| O Bom Pescador. | 159 |
| Tristezas do Desterro. | 165 |
| O Mosteiro deserto. | 185 |
| A Volta do Proscripto. | 201 |
| N'um Album. | 211 |
| A Felicidade. | 217 |
| Os Infantes em Ceuta. | 221 |
LIVRO III
VERSÕES
| O Seccar das Folhas. | 273 |
| A Noiva do Sepulchro. | 277 |
| O Canto do Cossaco. | 293 |
| O Caçador feroz. | 297 |
| O Cão do Louvre. | 311 |
| Leonor. | 315 |
| A Costureira e o Pintasilgo morto. | 327 |