POESIAS
IMPRENSA NACIONAL
POESIAS
POR
A. HERCULANO
segunda edição
LISBOA
EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS
aos martyres, n.º 73
m dccc lx
LIVRO PRIMEIRO
A HARPA DO CRENTE.
A SEMANA SANCTA.
Der Gedanke Gott weckt einen
furchlerlichen Nachbar auf. Sein
Name heisst Richter.
furchlerlichen Nachbar auf. Sein
Name heisst Richter.
Schiller.
I.
Tibio o sol entre as nuvens do
occidente,
Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne
Vai a hora da tarde!—O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga,
Que á voz da primavera os gomos brota:
O oeste passa mudo, e cruza o atrio
Ponteagudo do templo, edificado
Por mãos duras de avós, em monumento
De uma herança de fé, que nos legaram,
A nós seus netos, homens de alto esforço,
Que nos rimos da herança, e que insultamos
A cruz e o templo e a crença de outras eras;
Nós, homens fortes, servos de tyrannos,
Que sabemos tão bem rojar seus ferros
Sem nos queixar, menosprezando a Patria
E a liberdade, e o combater por ella.
Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e espero
No Deus das almas generosas, puras,
E os despotas maldigo.—Entendimento
Bronco, lançado em seculo fundido
Na servidão de goso ataviada,
Creio que Deus é Deus e os homens livres!
Já lá se inclina ao mar. Grave e solemne
Vai a hora da tarde!—O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga,
Que á voz da primavera os gomos brota:
O oeste passa mudo, e cruza o atrio
Ponteagudo do templo, edificado
Por mãos duras de avós, em monumento
De uma herança de fé, que nos legaram,
A nós seus netos, homens de alto esforço,
Que nos rimos da herança, e que insultamos
A cruz e o templo e a crença de outras eras;
Nós, homens fortes, servos de tyrannos,
Que sabemos tão bem rojar seus ferros
Sem nos queixar, menosprezando a Patria
E a liberdade, e o combater por ella.
Eu não!—eu rujo escravo; eu creio e espero
No Deus das almas generosas, puras,
E os despotas maldigo.—Entendimento
Bronco, lançado em seculo fundido
Na servidão de goso ataviada,
Creio que Deus é Deus e os homens livres!
II.
Oh sim!—rude amador de antigos
sonhos,
Irei pedir aos tumulos dos velhos
Religioso enthusiasmo, e canto novo
Hei-de tecer, que os homens do futuro
Entenderão; um canto escarnecido
Pelos filhos dest' epocha mesquinha,
Em que vim peregrino a ver o mundo.
E chegar a meu termo, e reclinar-me
Á branda sombra de cypreste amigo.
Irei pedir aos tumulos dos velhos
Religioso enthusiasmo, e canto novo
Hei-de tecer, que os homens do futuro
Entenderão; um canto escarnecido
Pelos filhos dest' epocha mesquinha,
Em que vim peregrino a ver o mundo.
E chegar a meu termo, e reclinar-me
Á branda sombra de cypreste amigo.
III.
Passa o vento os do portico da igreja
Esculpidos umbraes: correndo as naves
Sussurrou, sussurrou entre as columnas
De gothico lavor: no orgam do côro
Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.
Esculpidos umbraes: correndo as naves
Sussurrou, sussurrou entre as columnas
De gothico lavor: no orgam do côro
Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.
IV.
Mas porque sôa o vento?—Está deserto,
Silencioso ainda o sacro templo:
Nenhuma voz humana ainda recorda
Os hymnos do Senhor. A natureza
Foi a primeira em celebrar seu nome
Neste dia de lucto e de saudade!
Trévas da quarta feira eu vos saúdo!
Negras paredes, mudos monumentos
De todas essas orações de mágua,
De gratidão, de susto ou de esperança,
Depositadas ante vós nos dias
De fervorosa crença, a vós que enlucta
A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.
A loucura da cruz não morreu toda
Após dezoito seculos!—Quem chore
Do soffrimento o Heroe existe ainda.
Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
Envilecidas, barbaras, e servas.
Silencioso ainda o sacro templo:
Nenhuma voz humana ainda recorda
Os hymnos do Senhor. A natureza
Foi a primeira em celebrar seu nome
Neste dia de lucto e de saudade!
Trévas da quarta feira eu vos saúdo!
Negras paredes, mudos monumentos
De todas essas orações de mágua,
De gratidão, de susto ou de esperança,
Depositadas ante vós nos dias
De fervorosa crença, a vós que enlucta
A solidão e o dó, venho eu saudar-vos.
A loucura da cruz não morreu toda
Após dezoito seculos!—Quem chore
Do soffrimento o Heroe existe ainda.
Eu chorarei—que as lagrymas são do homem—
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
Envilecidas, barbaras, e servas.
V.
Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,
D'onde mergulhas no oceano a vista;
Tu que do trovador á mente arrojas
Quanto ha nos céus esperançoso e bello,
Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,
Quanto ha nos mares magestoso e vago,
Hoje te invoco!—oh vem!—lança em minha alma
A harmonia celeste e o fogo e o genio,
Que dêm vida e vigor a um carme pio.
Que no espaço entre o abysmo e os céus vagueias,
D'onde mergulhas no oceano a vista;
Tu que do trovador á mente arrojas
Quanto ha nos céus esperançoso e bello,
Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,
Quanto ha nos mares magestoso e vago,
Hoje te invoco!—oh vem!—lança em minha alma
A harmonia celeste e o fogo e o genio,
Que dêm vida e vigor a um carme pio.
VI.
A noite escura desce: o sol de todo
Nos mares se atufou. A luz dos mortos,
Dos brandões o clarão, fulgura ao longe
No cruzeiro sómente e em volta da ara:
E pelas naves começou ruído
De compassado andar. Fiéis acodem
Á morada de Deus, a ouvir queixumes
Do vate de Sião. Em breve os monges,
Suspirosas canções aos céus erguendo,
Sua voz unirão á voz desse orgam,
E os sons e os ecchos reboarão no templo.
Mudo o côro depois, neste recincto
Dentro em bem pouco reinará silencio,
O silencio dos tumulos, e as trévas
Cubrirão por esta área a luz escaça
Despedida das lampadas, que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.
Imagem da existencia!—Em quanto passam
Os dias infantis, as paixões tuas,
Homem, qual então és, são debeis todas.
Cresceste:—ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo
Gemido do remorso, a qual lançar-se
Vai com rouco estridor no antro da morte,
Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.
Da vida tua instantes florescentes
Foram dous, e não mais: as cans e rugas,
Logo, rebate de teu fim te deram.
Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,
Murmurou, esqueceu, passou no espaço.
E a casa do Senhor ergueu-se.—O ferro
Cortou a penedia; e o canto enorme
Pulído alveja alli no espesso panno
Do muro colossal, que éra após éra,
Como onda e onda ao desdobrar na areia,
Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.
O ulmo e o choupo no cahir rangeram
Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
Lá no cimo pousou: restruge ao longe
De martellos fragor, e eis ergue o templo,
Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.
Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento
Se esvái, como da cerva a leve pista
No pó se apaga ao respirar da tarde,
Do seio dessa terra, em que és estranho,
Sair fazes as moles seculares,
Que por ti, morto, falem; dás na idéa
Eterna duração ás obras tuas.
Tua alma é immortal, e a prova a déste!
Nos mares se atufou. A luz dos mortos,
Dos brandões o clarão, fulgura ao longe
No cruzeiro sómente e em volta da ara:
E pelas naves começou ruído
De compassado andar. Fiéis acodem
Á morada de Deus, a ouvir queixumes
Do vate de Sião. Em breve os monges,
Suspirosas canções aos céus erguendo,
Sua voz unirão á voz desse orgam,
E os sons e os ecchos reboarão no templo.
Mudo o côro depois, neste recincto
Dentro em bem pouco reinará silencio,
O silencio dos tumulos, e as trévas
Cubrirão por esta área a luz escaça
Despedida das lampadas, que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.
Imagem da existencia!—Em quanto passam
Os dias infantis, as paixões tuas,
Homem, qual então és, são debeis todas.
Cresceste:—ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dôr e o pranto e o longo
Gemido do remorso, a qual lançar-se
Vai com rouco estridor no antro da morte,
Lá, onde é tudo horror, silencio, noite.
Da vida tua instantes florescentes
Foram dous, e não mais: as cans e rugas,
Logo, rebate de teu fim te deram.
Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,
Murmurou, esqueceu, passou no espaço.
E a casa do Senhor ergueu-se.—O ferro
Cortou a penedia; e o canto enorme
Pulído alveja alli no espesso panno
Do muro colossal, que éra após éra,
Como onda e onda ao desdobrar na areia,
Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.
O ulmo e o choupo no cahir rangeram
Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
Lá no cimo pousou: restruge ao longe
De martellos fragor, e eis ergue o templo,
Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.
Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento
Se esvái, como da cerva a leve pista
No pó se apaga ao respirar da tarde,
Do seio dessa terra, em que és estranho,
Sair fazes as moles seculares,
Que por ti, morto, falem; dás na idéa
Eterna duração ás obras tuas.
Tua alma é immortal, e a prova a déste!
VII.
Anoiteceu.—Nos claustros resoando
As pisadas dos monges ouço: eis entram;
Eis se curvaram para o chão, beijando
O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!
Igual vos cubrirá a cinza um dia,
Talvez em breve—e a mim. Consolo ao morto
É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia
Mais, se do justo só a herança fòra;
Mas tambem ao malvado é dada a campa.
E o criminoso dormirá quieto
Entre os bons sotterrado?—Oh não! Em quanto
No templo ondeiam silenciosas turbas,
Exultarão do abysmo os moradores,
Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,
Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
Vendo o que julga que orações apagam
Vicios e crimes, e o motejo e o riso
Dado em resposta ás lagrymas do pobre;
Vendo os que nunca ao infeliz disseram
De consolo palavra ou de esperança.
Sim:—malvados tambem hão-de pisar-lhes
Os frios restos que separa a terra,
Um punhado de terra, a qual os ossos
Destes ha-de cubrir em tempo breve,
Como cubriu os seus; qual vai sumindo
No segredo da campa a humana raça.
As pisadas dos monges ouço: eis entram;
Eis se curvaram para o chão, beijando
O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!
Igual vos cubrirá a cinza um dia,
Talvez em breve—e a mim. Consolo ao morto
É a pedra do tumulo. Sê-lo-hia
Mais, se do justo só a herança fòra;
Mas tambem ao malvado é dada a campa.
E o criminoso dormirá quieto
Entre os bons sotterrado?—Oh não! Em quanto
No templo ondeiam silenciosas turbas,
Exultarão do abysmo os moradores,
Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,
Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
Vendo o que julga que orações apagam
Vicios e crimes, e o motejo e o riso
Dado em resposta ás lagrymas do pobre;
Vendo os que nunca ao infeliz disseram
De consolo palavra ou de esperança.
Sim:—malvados tambem hão-de pisar-lhes
Os frios restos que separa a terra,
Um punhado de terra, a qual os ossos
Destes ha-de cubrir em tempo breve,
Como cubriu os seus; qual vai sumindo
No segredo da campa a humana raça.
VIII.
Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos
Do templo na amplidão: só lá no escuro
De afumada capella o justo as preces
Ergue pio ao Senhor, as preces puras
De um coração que espera, e não mentidas
De labios de impostor, que engana os homens
Com seu meneio hypocrita, calando
Na alma lodosa da blasphemia o grito.
Então exultarão os bons, e o ímpio,
Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,
Da voz, do respirar o som confuso
Vem confundir-se no ferver das praças,
E pela galilé só ruge o vento.
Em trévas não ficou silenciosas
O sagrado recincto: os candieiros,
No gelado ambiente ardendo a custo,
Espalham debeis raios, que reflectem
Das pedras pela alvura; o negro mocho,
Companheiro do morto, horrido pio
Solta lá da cornija: pelas fendas
Dos sepulchros deslisa fumo espesso;
Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo
Suspirar não se ouviu?—Olhae! lá se erguem.
Sacudindo o sudario, em peso os mortos!
Mortos, quem vos chamou? O som da tuba
Ainda do Josaphat não fere os valles.
Dormí, dormí: deixae passar as eras...
Do templo na amplidão: só lá no escuro
De afumada capella o justo as preces
Ergue pio ao Senhor, as preces puras
De um coração que espera, e não mentidas
De labios de impostor, que engana os homens
Com seu meneio hypocrita, calando
Na alma lodosa da blasphemia o grito.
Então exultarão os bons, e o ímpio,
Que passou, tremerá. Emfim, de vivos,
Da voz, do respirar o som confuso
Vem confundir-se no ferver das praças,
E pela galilé só ruge o vento.
Em trévas não ficou silenciosas
O sagrado recincto: os candieiros,
No gelado ambiente ardendo a custo,
Espalham debeis raios, que reflectem
Das pedras pela alvura; o negro mocho,
Companheiro do morto, horrido pio
Solta lá da cornija: pelas fendas
Dos sepulchros deslisa fumo espesso;
Ondeia pela nave, e esvái-se. Longo
Suspirar não se ouviu?—Olhae! lá se erguem.
Sacudindo o sudario, em peso os mortos!
Mortos, quem vos chamou? O som da tuba
Ainda do Josaphat não fere os valles.
Dormí, dormí: deixae passar as eras...
IX.
Mas foi uma visão: foi como scena
D'imaginar febril. Creou-se, acaso,
Do poeta na mente, ou desvendou-lhe
A mão de Deus o íntimo ver da alma,
Que devassa a existencia mysteriosa
Do mundo dos espiritos? Quem sabe?
Dos vivos ja deserta, a igreja torva
Repovoou-se, para mim ao menos,
Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras
Leito commum na somnolencia extrema
Buscaram. O terror, que arreda o homem
Do limiar do templo ás horas mortas,
Não vem de crença van. Se fulgem astros,
Se a luz da lua estira a sombra eterna
Da cruz gigante (que campeia erguida
No vertice do timpano, ou no cimo
Do corucheu do campanario) ao longo
Dos inclinados tectos, afastae-vos!
Afastae-vos d'aqui, onde se passam
Á meia-noite insolitos mysterios;
D'aqui, onde desperta a voz do archanjo
Os dormentes da morte; onde reune
O que foi forte e o que foi fraco, o pobre
E o opulento, o orgulhoso e o humilde,
O bom e o mau, o ignorante e o sabio,
Quantos, emfim, depositar vieram
Juncto do altar o que era seu no mundo,
Um corpo nú, e corrompido e inerte.
D'imaginar febril. Creou-se, acaso,
Do poeta na mente, ou desvendou-lhe
A mão de Deus o íntimo ver da alma,
Que devassa a existencia mysteriosa
Do mundo dos espiritos? Quem sabe?
Dos vivos ja deserta, a igreja torva
Repovoou-se, para mim ao menos,
Dos extinctos, que ao pé das sanctas aras
Leito commum na somnolencia extrema
Buscaram. O terror, que arreda o homem
Do limiar do templo ás horas mortas,
Não vem de crença van. Se fulgem astros,
Se a luz da lua estira a sombra eterna
Da cruz gigante (que campeia erguida
No vertice do timpano, ou no cimo
Do corucheu do campanario) ao longo
Dos inclinados tectos, afastae-vos!
Afastae-vos d'aqui, onde se passam
Á meia-noite insolitos mysterios;
D'aqui, onde desperta a voz do archanjo
Os dormentes da morte; onde reune
O que foi forte e o que foi fraco, o pobre
E o opulento, o orgulhoso e o humilde,
O bom e o mau, o ignorante e o sabio,
Quantos, emfim, depositar vieram
Juncto do altar o que era seu no mundo,
Um corpo nú, e corrompido e inerte.
X.
E seguia a visão.—Cria ainda
achar-me,
Alta noite, na igreja solitaria
Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,
Eram ha pouco um fumo que ondeiava
Pelas fisgas do vasto pavimento.
Olhei. Do erguido tecto o panno espesso
Rareava; rareava-me ante os olhos,
Como tenue cendal; mais tenue ainda,
Como o vapor de outono em quarto d'alva,
Que se libra no espaço antes que desça
A consolar as plantas conglobado
Em matutino orvalho. O firmamento
Era profundo e amplo. Involto em gloria,
Sobre vagas de nuvens, rodeiado
Das legiões do céu, o Ancião dos dias,
O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno
Parava o tempo, a immensidade, a vida
Dos mundos a escutar. Era esta a hora
Do julgamento desses que se alçavam
Á voz de cima sobre as sepulturas?
Alta noite, na igreja solitaria
Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,
Eram ha pouco um fumo que ondeiava
Pelas fisgas do vasto pavimento.
Olhei. Do erguido tecto o panno espesso
Rareava; rareava-me ante os olhos,
Como tenue cendal; mais tenue ainda,
Como o vapor de outono em quarto d'alva,
Que se libra no espaço antes que desça
A consolar as plantas conglobado
Em matutino orvalho. O firmamento
Era profundo e amplo. Involto em gloria,
Sobre vagas de nuvens, rodeiado
Das legiões do céu, o Ancião dos dias,
O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno
Parava o tempo, a immensidade, a vida
Dos mundos a escutar. Era esta a hora
Do julgamento desses que se alçavam
Á voz de cima sobre as sepulturas?
XI.
Era ainda a visão,—Do templo em meio
Do anjo da morte a espada flammejante
Crepitando bateu. Bem como insectos,
Que á flôr de pego pantanoso e triste
Se balouçavam—quando a tempestade
Veiu as azas molhar nas aguas turvas,
Que marulhando sussurraram—surgem
Volteando, zumbindo em dança douda,
E lassos, vão pousar em longas filas
Nas margens do paul, de um lado e de outro;
Tal o murmurio e a agitação incerta
Ciciava das sombras remoinhando
Ante o sopro de Deus. As melodias
Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas,
Com frémito infernal se misturavam
Em cahos de dôr e jubilo.
Do anjo da morte a espada flammejante
Crepitando bateu. Bem como insectos,
Que á flôr de pego pantanoso e triste
Se balouçavam—quando a tempestade
Veiu as azas molhar nas aguas turvas,
Que marulhando sussurraram—surgem
Volteando, zumbindo em dança douda,
E lassos, vão pousar em longas filas
Nas margens do paul, de um lado e de outro;
Tal o murmurio e a agitação incerta
Ciciava das sombras remoinhando
Ante o sopro de Deus. As melodias
Dos córos celestiaes, longinquas, frouxas,
Com frémito infernal se misturavam
Em cahos de dôr e jubilo.
Dos mortos
Parava,
emfim, o vortice enredado;
E os grupos vagos em distinctas turmas
Se enfileiravam de uma parte e de outra.
Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos
Ficou, unica luz, que se estirava
Desde o cruzeiro ao portico, e fería
De reflexo vermelho os largos pannos
Das paredes de marmore, bem como
Mar de sangue, onde inertes fluctuassem
De humanos vultos indecisas fórmas.
E os grupos vagos em distinctas turmas
Se enfileiravam de uma parte e de outra.
Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos
Ficou, unica luz, que se estirava
Desde o cruzeiro ao portico, e fería
De reflexo vermelho os largos pannos
Das paredes de marmore, bem como
Mar de sangue, onde inertes fluctuassem
De humanos vultos indecisas fórmas.
XII.
E seguia a visão.—Do templo á esquerda,
Méstas as faces, inclinada a fronte,
Da noite as larvas tinham sobre o sólo
Fito o espantado olhar, e as dilatadas
Baças pupillas lhes tingia o susto.
Mas, como zona lucida de estrellas,
Nessa atmosphera crassa e afogueada
Pela espada rubente, refulgiam
Da direita os espiritos, banhado
De inenarravel placidez seu gesto.
Era inteiro o silencio, e no silencio
Uma voz resoou—Eleitos vinde!—
Ide precítos!»—Vacillava a terra,
E ajoelhando eu me curvei tremendo.
Méstas as faces, inclinada a fronte,
Da noite as larvas tinham sobre o sólo
Fito o espantado olhar, e as dilatadas
Baças pupillas lhes tingia o susto.
Mas, como zona lucida de estrellas,
Nessa atmosphera crassa e afogueada
Pela espada rubente, refulgiam
Da direita os espiritos, banhado
De inenarravel placidez seu gesto.
Era inteiro o silencio, e no silencio
Uma voz resoou—Eleitos vinde!—
Ide precítos!»—Vacillava a terra,
E ajoelhando eu me curvei tremendo.
XIII.
Quando me ergui e olhei, no céu profundo
Um rastilho de luz pura e serena
Se ia embebendo nesses mares de orbes
Infinitos, perdidos no infinito,
A que chamâmos o universo. Um hymno
De saudade e de amor, quasi inaudivel
Parecia romper desde as alturas
De tempo a tempo. Vinha como involto
Nas lufadas do vento, até perder-se
Em socego mortal.
Um rastilho de luz pura e serena
Se ia embebendo nesses mares de orbes
Infinitos, perdidos no infinito,
A que chamâmos o universo. Um hymno
De saudade e de amor, quasi inaudivel
Parecia romper desde as alturas
De tempo a tempo. Vinha como involto
Nas lufadas do vento, até perder-se
Em socego mortal.
O curvo tecto
Do templo, então, se condensou de novo,
E para a terra o meu olhar volveu-se.
Da direita os espiritos radiosos
Já não estavam lá. Chispando a espaços,
Qual o ferro na incude, a espada do anjo
O mortiço rubor mandava, apenas,
D'aurora boreal quando se extingue.
E para a terra o meu olhar volveu-se.
Da direita os espiritos radiosos
Já não estavam lá. Chispando a espaços,
Qual o ferro na incude, a espada do anjo
O mortiço rubor mandava, apenas,
D'aurora boreal quando se extingue.
XIV.
Proseguia a visão.—Da esquerda ás sombras
Anciava o seio a dôr: tinham no gesto
Impressa a maldicção, que lhes seccára
Eternamente a seiva da esperança.
Como se vê, em noite estiva e negra,
Scintillar sobre as aguas a ardentia,
D'umas frontes ás outras vagueiavam
Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos,
E ao estalar das lousas, grito immenso
Subterraneo, abafado e delirante,
Ineffavel compendio de agonias,
Misturado se ouviu com rir do inferno,
E a visão se desfez. Era ermo o templo:
E despertei do pesadelo em trevas.
Anciava o seio a dôr: tinham no gesto
Impressa a maldicção, que lhes seccára
Eternamente a seiva da esperança.
Como se vê, em noite estiva e negra,
Scintillar sobre as aguas a ardentia,
D'umas frontes ás outras vagueiavam
Ceruleos lumes no esquadrão dos mortos,
E ao estalar das lousas, grito immenso
Subterraneo, abafado e delirante,
Ineffavel compendio de agonias,
Misturado se ouviu com rir do inferno,
E a visão se desfez. Era ermo o templo:
E despertei do pesadelo em trevas.
XV.
Era loucura ou sonho? Entre as tristezas
E os terrores e angustias, que resume
Neste dia e logar a avita crença,
Irresistivel força arrebatou-me
Da sepultura a devassar segredos,
Para dizer:—Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—
A justiça de Deus visita os mortos,
Embora a cruz da redempção proteja
A pedra tumular; embora a hostia
Do sacrificio o sacerdote eleve
Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja
Rodeiam trevas, solidão e medos,
Que a resguardam co'as asas acurvadas
Da vista do que vive, a mão do Eterno
Separa o joio do bom grão, e arroja
Para os abysmos a ruim semente.
E os terrores e angustias, que resume
Neste dia e logar a avita crença,
Irresistivel força arrebatou-me
Da sepultura a devassar segredos,
Para dizer:—Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—
A justiça de Deus visita os mortos,
Embora a cruz da redempção proteja
A pedra tumular; embora a hostia
Do sacrificio o sacerdote eleve
Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja
Rodeiam trevas, solidão e medos,
Que a resguardam co'as asas acurvadas
Da vista do que vive, a mão do Eterno
Separa o joio do bom grão, e arroja
Para os abysmos a ruim semente.
XVI.
Não!—não foi sonho vão, vago delirio
De imaginar ardente. Eu fui levado,
Galgando além do tempo, ás tardas horas,
Em que se passam scenas de mysterio,
Para dizer:—Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—
Vejo ainda o que vi: da sepultura
Ainda o halito frio me enregela
O suor do pavor na fronte; o sangue
Hesita immoto nas inertes veias;
E embora os labios murmurar não ousem,
Ainda, incessante, me repete na alma
Íntima voz:—Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—
De imaginar ardente. Eu fui levado,
Galgando além do tempo, ás tardas horas,
Em que se passam scenas de mysterio,
Para dizer:—Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—
Vejo ainda o que vi: da sepultura
Ainda o halito frio me enregela
O suor do pavor na fronte; o sangue
Hesita immoto nas inertes veias;
E embora os labios murmurar não ousem,
Ainda, incessante, me repete na alma
Íntima voz:—Tremei! Do altar á sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!»—
XVII.
Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto
O coração bateu. Eia, retumbem
Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos,
Que em dia de afflicção ignoto vate
Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle
O primeiro cantor que em varias córdas,
Á sombra das palmeiras da Iduméa,
Soube entoar melodioso um hymno.
Deus inspirava então os trovadores
Do seu povo querido, e a Palestina,
Rica dos meigos dons da natureza,
Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.
Virgem o genio ainda, o estro puro
Louvava Deus sómente, á luz da aurora,
E ao esconder-se o sol entre as montanhas
De Bethoron.—Agora o genio é morto
Para o Senhor, e os cantos dissolutos
De lodoso folguedo os ares rompem,
Ou sussurram por paços de tyrannos,
Assellados de putrida lisonja,
Por preço vil, como o cantor que os tece.
O coração bateu. Eia, retumbem
Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos,
Que em dia de afflicção ignoto vate
Teceu, banhado em dôr. Talvez foi elle
O primeiro cantor que em varias córdas,
Á sombra das palmeiras da Iduméa,
Soube entoar melodioso um hymno.
Deus inspirava então os trovadores
Do seu povo querido, e a Palestina,
Rica dos meigos dons da natureza,
Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.
Virgem o genio ainda, o estro puro
Louvava Deus sómente, á luz da aurora,
E ao esconder-se o sol entre as montanhas
De Bethoron.—Agora o genio é morto
Para o Senhor, e os cantos dissolutos
De lodoso folguedo os ares rompem,
Ou sussurram por paços de tyrannos,
Assellados de putrida lisonja,
Por preço vil, como o cantor que os tece.
XVIII.
O PSALMO.
Quanto é grande o meu
Deus!.. Té onde chega
O seu poder immenso!
Elle abaixou os céus,
desceu, calcando
Um nevoeiro denso.
Dos cherubins nas asas radiosas
Librando-se, voou;
E sobre turbilhões de rijo
vento
O mundo rodeiou.
Ante o olhar do Senhor vacilla a
terra,
E os mares
assustados
Bramem ao longe, e os montes
lançam fumo,
Da sua
mão tocados.
Se pensou no Universo, ei-lo patente
Ante a face do
Eterno:
Se o quiz, o firmamento os seios
abre,
Abre os seios o
inferno.
Dos olhos do Senhor, homem, se
pódes,
Esconde-te um
momento:
Vê onde
encontrarás logar que fique
Da sua vista isento:
Sobe aos céus,
transpõe mares, busca o abysmo,
Lá teu
Deus has-de achar;
Elle te guiará, e a dextra
sua
Lá te
ha-de sustentar:
Desce á sombra da noite, e
no seu manto
Involver-te
procura...
Mas as trévas para elle
não são
trévas.
Nem é a
noite escura.
No dia do furor, em vão
buscáras
Fugir ante o Deus
forte,
Quando do arco tremendo, irado,
impelle
Setta em que pousa a
morte.
Mas o que o teme dormirá
tranquillo
No dia extremo seu,
Quando na campa se rasgar da vida
Das
illusões o véu.
XIX.
Calou-se o monge: sepulchral silencio
Á sua voz seguiu-se. Uma toada
De orgam rompeu do côro. Assemelhava
O suspiro saudoso, e os ais de filha,
Que chora solitaria o pae, que dorme
Seu ultimo, profundo e eterno somno.
Melodias depois soltou mais doces
O severo instrumento: e ergueu-se o canto,
O doloroso canto do propheta,
Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,
Sentado entre ruinas, contemplando
Seu avito esplendor, seu mal presente,
A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,
Modulando o Nebel, via-se o vate
Nos derribados porticos, abrigo
Do immundo stellio e gemedora poupa,
Extasiado—e a lua scintillando
Na sua calva fronte, onde pesavam
Annos e annos de dôr. Ao venerando
Nas encovadas faces fundos regos
Tinham aberto as lagrymas. Ao longe,
Nas margens do Kedron, a ran grasnando
Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
Era Sião!—o vasto cemiterio
Dos fortes de Israel. Mais venturosos
Que seus irmãos, morreram pela patria;
A patria os sepultou dentro em seu seio.
Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,
Passam de escravos miseranda vida,
Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,
A dextra lhe vergou. Não mais no templo
A nuvem repousára, e os céus de bronze
Dos prophetas aos rogos se amostravam.
O vate de Anathot a voz soltára
Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
Ameaças, promessas, tudo inutil;
De bronze os corações não se dobraram.
Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho
Jerusalem passou: sua grandeza
Sómente existe em derrocadas pedras.
O vate de Anathot, sobre seus restos,
Com triste canto deplorou a patria.
Hymno de morte alçou: da noite as larvas
O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
Do portico do templo erguia um pouco,
Alvejando, a caveira.—Era-lhe allivio
Do sagrado cantor a voz suave
Desferida ao luar, triste, no meio
Da vasta solidão que o circumdava.
O propheta gemeu: não era o estro,
Ou o vívido jubilo que outr'ora
Inspirára Moysés: o sentimento
Foi sim pungente de silencio e morte,
Que da patria lhe fez sobre o cadaver
A elegia da noite erguer e o pranto
Derramar da esperança e da saudade.
Á sua voz seguiu-se. Uma toada
De orgam rompeu do côro. Assemelhava
O suspiro saudoso, e os ais de filha,
Que chora solitaria o pae, que dorme
Seu ultimo, profundo e eterno somno.
Melodias depois soltou mais doces
O severo instrumento: e ergueu-se o canto,
O doloroso canto do propheta,
Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,
Sentado entre ruinas, contemplando
Seu avito esplendor, seu mal presente,
A quéda lhe chorou. Lá na alta noite,
Modulando o Nebel, via-se o vate
Nos derribados porticos, abrigo
Do immundo stellio e gemedora poupa,
Extasiado—e a lua scintillando
Na sua calva fronte, onde pesavam
Annos e annos de dôr. Ao venerando
Nas encovadas faces fundos regos
Tinham aberto as lagrymas. Ao longe,
Nas margens do Kedron, a ran grasnando
Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
Era Sião!—o vasto cemiterio
Dos fortes de Israel. Mais venturosos
Que seus irmãos, morreram pela patria;
A patria os sepultou dentro em seu seio.
Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,
Passam de escravos miseranda vida,
Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,
A dextra lhe vergou. Não mais no templo
A nuvem repousára, e os céus de bronze
Dos prophetas aos rogos se amostravam.
O vate de Anathot a voz soltára
Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
Ameaças, promessas, tudo inutil;
De bronze os corações não se dobraram.
Vibrou-se a maldicção. Bem como um sonho
Jerusalem passou: sua grandeza
Sómente existe em derrocadas pedras.
O vate de Anathot, sobre seus restos,
Com triste canto deplorou a patria.
Hymno de morte alçou: da noite as larvas
O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
Do portico do templo erguia um pouco,
Alvejando, a caveira.—Era-lhe allivio
Do sagrado cantor a voz suave
Desferida ao luar, triste, no meio
Da vasta solidão que o circumdava.
O propheta gemeu: não era o estro,
Ou o vívido jubilo que outr'ora
Inspirára Moysés: o sentimento
Foi sim pungente de silencio e morte,
Que da patria lhe fez sobre o cadaver
A elegia da noite erguer e o pranto
Derramar da esperança e da saudade.
XX.
A LAMENTAÇÃO.
Como assim jaz e solitaria e quèda
Esta cidade outr'ora populosa!
Qual viuva ficou e tributaria
Esta cidade outr'ora populosa!
Qual viuva ficou e tributaria
A senhora das gentes.
Chorou durante a noite; em pranto as
faces,
Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas
Ninguem a consolou: os mais queridos
Sósinha, entregue á dôr, nas penas suas
Ninguem a consolou: os mais queridos
Contrarios se tornaram.
Ermas as praças de
Sião e as ruas,
Cobre-as a verde relva: os sacerdotes
Gemem; as virgens pallidas suspiram
Cobre-as a verde relva: os sacerdotes
Gemem; as virgens pallidas suspiram
Involtas na amargura.
Dos filhos de Israel nas cavas faces
Está pintada a macilenta fome;
Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
Está pintada a macilenta fome;
Mendigos vão pedir, pedir a estranhos,
Um pão de infamia eivado.
O tremulo ancião, de
longe, os olhos
Volve a Jerusalem, della fugindo;
Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira
Volve a Jerusalem, della fugindo;
Vê-a, suspira, cahe, e em breve expira
Com seu nome nos labios.
Que horror!—ímpias as
mães os tenros filhos
Despedaçaram: barbaras quaes tigres,
Os sanguinosos membros palpitantes
Despedaçaram: barbaras quaes tigres,
Os sanguinosos membros palpitantes
No ventre sepultaram.
Deus, compassivo olhar volve a
nós tristes:
Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,
Servos de servos em paiz estranho.
Cessa de Te vingar! Vê-nos escravos,
Servos de servos em paiz estranho.
Tem dó de nossos males!
Acaso serás Tu sempre
inflexivel?
Esqueceste de todo a nação tua?
O pranto dos hebreus não Te commove?
Esqueceste de todo a nação tua?
O pranto dos hebreus não Te commove?
És surdo a seus lamentos?
XXI.
Doce era a voz do velho: o som do
Nablo
Sonoro: o céu sereno: clara a terra
Pelo brando fulgor do astro da noite:
E o propheta parou. Erguidos tinha
Os olhos para o céu, onde buscava
Um raio de esperança e de conforto:
E elle calára já, e ainda os ecchos,
Entre as ruinas sussurrando, ao longe
Íam os sons levar de seus queixumes.
Sonoro: o céu sereno: clara a terra
Pelo brando fulgor do astro da noite:
E o propheta parou. Erguidos tinha
Os olhos para o céu, onde buscava
Um raio de esperança e de conforto:
E elle calára já, e ainda os ecchos,
Entre as ruinas sussurrando, ao longe
Íam os sons levar de seus queixumes.
XXII.
Choro piedoso, o choro consagrado
Ás desditas dos seus. Honra ao propheta!
Oh margens do Jordão, paiz formoso
Que fostes e não sois, tambem suspiro
Condoído vos dou.—Assim fenecem
Imperios, reinos, solidões tornados!...
Não:—nenhum deste modo: o peregrino
Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem
A sacudiu á terra, e fez dormissem
O seu ultimo somno os filhos della—
E elle o veio dormir pouco mais longe...
Mas se chega a Sião treme, enxergando
Seus lacerados restos. Pelas pedras,
Aqui e alli dispersas, ainda escripta
Parece ver-se uma inscripção de agouros,
Bem como aquella que aterrou um ímpio
Quando, no meio de ruidosa festa,
Blasphemava dos céus, e mão ignota
O dia extremo lhe apontou dos crimes.
A maldicção do Eterno está vibrada
Sobre Jerusalem!—Quanto é terrivel
A vingança de Deus! O Israelita,
Sem patria e sem abrigo, vagabundo,
Ódio dos homens, neste mundo arrasta
Uma existencia mais cruel que a morte,
E que vem terminar a morte e inferno.
Desgraçada nação!—Aquelle solo
Onde manava o mel, onde o carvalho,
O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,
Tão grato á vista, em bosques misturavam;
Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
Crescimento espontaneo entre as roseiras,
Hoje, campo de lagrymas, só cria
Humilde musgo de escalvados cerros.
Ás desditas dos seus. Honra ao propheta!
Oh margens do Jordão, paiz formoso
Que fostes e não sois, tambem suspiro
Condoído vos dou.—Assim fenecem
Imperios, reinos, solidões tornados!...
Não:—nenhum deste modo: o peregrino
Pára em Palmyra e pensa. O braço do homem
A sacudiu á terra, e fez dormissem
O seu ultimo somno os filhos della—
E elle o veio dormir pouco mais longe...
Mas se chega a Sião treme, enxergando
Seus lacerados restos. Pelas pedras,
Aqui e alli dispersas, ainda escripta
Parece ver-se uma inscripção de agouros,
Bem como aquella que aterrou um ímpio
Quando, no meio de ruidosa festa,
Blasphemava dos céus, e mão ignota
O dia extremo lhe apontou dos crimes.
A maldicção do Eterno está vibrada
Sobre Jerusalem!—Quanto é terrivel
A vingança de Deus! O Israelita,
Sem patria e sem abrigo, vagabundo,
Ódio dos homens, neste mundo arrasta
Uma existencia mais cruel que a morte,
E que vem terminar a morte e inferno.
Desgraçada nação!—Aquelle solo
Onde manava o mel, onde o carvalho,
O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,
Tão grato á vista, em bosques misturavam;
Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
Crescimento espontaneo entre as roseiras,
Hoje, campo de lagrymas, só cria
Humilde musgo de escalvados cerros.
XXIII.
Ide vós a Mambré.—Lá, bem no meio
De um valle, outr'ora de verdura ameno,
Erguia-se um carvalho magestoso.
Debaixo de seus ramos largos dias
Abrahão repousou. Na primavera
Vinham os moços adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E coreias gentis traçar-lhe em roda.
Nasceu com o orbe a planta veneravel,
Viu passar gerações, julgou seu dia
Final fosse o do mundo, e quando airosa
Por entre as densas nuvens se elevava,
Mandou o Nume aos aquilões rugissem,
Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques
Serviu de pasto aos tragadores vermes.
Deus estendeu a mão:—no mesmo instante
A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
Da Palestina os platanos frondosos
Não mais cresceram, como d'antes, bellos:
O armento, em vez de relva, achou nos prados
Sómente ingratas, espinhosas urzes.
No Golgotha plantada, a Cruz clamára
—Justiça!»—A tal clamor horrido espectro
No Moriá surgiu. Era seu nome
Assolação.—E despregando um grito,
Cahiu com longo som de um povo a campa.
Assim a herança de Judá, outr'ora
Grata ao Senhor, existe só nos ecchos
Do tempo que já foi, e que ha passado
Como hora de prazer entre desditas.
....................................................
De um valle, outr'ora de verdura ameno,
Erguia-se um carvalho magestoso.
Debaixo de seus ramos largos dias
Abrahão repousou. Na primavera
Vinham os moços adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E coreias gentis traçar-lhe em roda.
Nasceu com o orbe a planta veneravel,
Viu passar gerações, julgou seu dia
Final fosse o do mundo, e quando airosa
Por entre as densas nuvens se elevava,
Mandou o Nume aos aquilões rugissem,
Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques
Serviu de pasto aos tragadores vermes.
Deus estendeu a mão:—no mesmo instante
A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
Da Palestina os platanos frondosos
Não mais cresceram, como d'antes, bellos:
O armento, em vez de relva, achou nos prados
Sómente ingratas, espinhosas urzes.
No Golgotha plantada, a Cruz clamára
—Justiça!»—A tal clamor horrido espectro
No Moriá surgiu. Era seu nome
Assolação.—E despregando um grito,
Cahiu com longo som de um povo a campa.
Assim a herança de Judá, outr'ora
Grata ao Senhor, existe só nos ecchos
Do tempo que já foi, e que ha passado
Como hora de prazer entre desditas.
....................................................
XXIV.
Minha Patria onde existe?
É lá sómente!
Oh lembrança da Patria
acabrunhada
Um suspiro tambem tu me has pedido;
Um suspiro arrancado aos seios d'alma
Pela offuscada gloria, e pelos crimes
Dos homens que ora são, e pelo opprobrio
Da mais illustre das nações da terra!
A minha triste Patria era tão bella,
E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
E o sabio e o homem bom acolá dormem,
Acolá, nos sepulchros esquecidos,
Que a seus netos infames nada contam
Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
O escravo português agrilhoado
Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas
Os decepados troncos desse arbusto,
Por mãos delles plantado á liberdade,
E por tyrannos derribado em breve,
Quando patrias virtudes se acabaram,
Como um sonho da infancia!...
Um suspiro tambem tu me has pedido;
Um suspiro arrancado aos seios d'alma
Pela offuscada gloria, e pelos crimes
Dos homens que ora são, e pelo opprobrio
Da mais illustre das nações da terra!
A minha triste Patria era tão bella,
E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
E o sabio e o homem bom acolá dormem,
Acolá, nos sepulchros esquecidos,
Que a seus netos infames nada contam
Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
O escravo português agrilhoado
Carcomir-se lhes deixa juncto ás lousas
Os decepados troncos desse arbusto,
Por mãos delles plantado á liberdade,
E por tyrannos derribado em breve,
Quando patrias virtudes se acabaram,
Como um sonho da infancia!...
O vil escravo,
Immerso em vicios, em bruteza e
infamia,
Não erguerá os macerados olhos
Para esses troncos, que destroem vermes
Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,
Não surgirá jámais?—Não ha na terra
Coração português, que mande um brado
De maldicção atroz, que vá cravar-se
Na vigilia e no somno dos tyrannos,
E envenenar-lhes o prazer por noites
De vil prostituição, e em seus banquetes
De embriaguez lançar fel e amarguras?
Não!—Bem como um cadaver já corrupto,
A nação se dissolve: e em seu lethargo
O povo, involto na miseria, dorme.
Não erguerá os macerados olhos
Para esses troncos, que destroem vermes
Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,
Não surgirá jámais?—Não ha na terra
Coração português, que mande um brado
De maldicção atroz, que vá cravar-se
Na vigilia e no somno dos tyrannos,
E envenenar-lhes o prazer por noites
De vil prostituição, e em seus banquetes
De embriaguez lançar fel e amarguras?
Não!—Bem como um cadaver já corrupto,
A nação se dissolve: e em seu lethargo
O povo, involto na miseria, dorme.
XXV.
Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
Terei de erguer á Patria hymno de morte,
Sobre seus mudos restos vagueiando!
Sobre seus restos?—Nunca! Eterno, escuta
Minhas preces e lagrymas:—se em breve,
Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;
Se o anjo do exterminio ha-de risca-la
Do meio das nações, que d'entre os vivos
Risque tambem meu nome, e não me deixe
Na terra vagueiar, orpham de Patria.
Terei de erguer á Patria hymno de morte,
Sobre seus mudos restos vagueiando!
Sobre seus restos?—Nunca! Eterno, escuta
Minhas preces e lagrymas:—se em breve,
Qual jaz Sião, jazer deve Ulissea;
Se o anjo do exterminio ha-de risca-la
Do meio das nações, que d'entre os vivos
Risque tambem meu nome, e não me deixe
Na terra vagueiar, orpham de Patria.
XXVI.
Cessou da noite a grão solemnidade
Consagrada á tristeza, e a memorandas
Recordações:—os monges se prostraram,
A face unida á pedra. A mim, a todos
Correm dos olhos lagrymas suaves
De compuncção. Atheu, entra no templo;
Não temas esse Deus, que os labios negam,
E o coração confessa. A corda do arco
Da vingança, em que a morte se debruça,
Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.
Tu para quem a morte ou vida é fórma,
Fórma sómente de mais puro barro,
Que nada crês, e em nada esperas, olha,
Olha o conforto do christão. Se o calis
Da amargura a provar os céus lhe deram,
Elle se consolou: balsamo sancto
Piedosa fé no coração lhe verte.
—«Deus compaixão terá!—Eis seu gemido:
Porque a esperança lhe sussurra em torno:
—Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»
Atheu, a quem o mal fizera escravo,
Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
No dia da afflicção emmudeceste
Ante o espectro do mal. E a quem alçáras
O gemente clamor?—Ao mar, que as ondas
Não altera por ti?—Ao ar, que some
Pela sua amplidão as queixas tuas?
Aos rochedos alpestres, que não sentem,
Nem sentir podem teu gemido inutil?
Tua dôr, teu prazer existem, passam,
Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
Nas angustias da vida, o teu consolo
O suicidio é só, que te promette
Rica messe de goso, a paz do nada!—
E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso,
No limiar da morte indo assentar-te!
Alli grita uma voz no ultimo instante
Do passamento: a voz atterradora
Da consciencia é ella. E has-de escuta-la
Mau grado teu: e tremerás em sustos,
Desesperado aos céus erguendo os olhos
Irados, de través, amortecidos;
Aos céus, cujo caminho a Eternidade
Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
Para guiar-te á solidão das dôres,
Onde maldigas teu primeiro alento,
Onde maldigas teu extremo arranco,
Onde maldigas a existencia e a morte.
Consagrada á tristeza, e a memorandas
Recordações:—os monges se prostraram,
A face unida á pedra. A mim, a todos
Correm dos olhos lagrymas suaves
De compuncção. Atheu, entra no templo;
Não temas esse Deus, que os labios negam,
E o coração confessa. A corda do arco
Da vingança, em que a morte se debruça,
Frouxa está; Deus é bom: entra no templo.
Tu para quem a morte ou vida é fórma,
Fórma sómente de mais puro barro,
Que nada crês, e em nada esperas, olha,
Olha o conforto do christão. Se o calis
Da amargura a provar os céus lhe deram,
Elle se consolou: balsamo sancto
Piedosa fé no coração lhe verte.
—«Deus compaixão terá!—Eis seu gemido:
Porque a esperança lhe sussurra em torno:
—Aqui, ou lá... a Providencia é justa.»
Atheu, a quem o mal fizera escravo,
Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?
No dia da afflicção emmudeceste
Ante o espectro do mal. E a quem alçáras
O gemente clamor?—Ao mar, que as ondas
Não altera por ti?—Ao ar, que some
Pela sua amplidão as queixas tuas?
Aos rochedos alpestres, que não sentem,
Nem sentir podem teu gemido inutil?
Tua dôr, teu prazer existem, passam,
Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
Nas angustias da vida, o teu consolo
O suicidio é só, que te promette
Rica messe de goso, a paz do nada!—
E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso,
No limiar da morte indo assentar-te!
Alli grita uma voz no ultimo instante
Do passamento: a voz atterradora
Da consciencia é ella. E has-de escuta-la
Mau grado teu: e tremerás em sustos,
Desesperado aos céus erguendo os olhos
Irados, de través, amortecidos;
Aos céus, cujo caminho a Eternidade
Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
Para guiar-te á solidão das dôres,
Onde maldigas teu primeiro alento,
Onde maldigas teu extremo arranco,
Onde maldigas a existencia e a morte.
XXVII.
Calou tudo no templo: o
céu é puro,
A tempestade ameaçadora dorme.
No espaço immenso os astros scintillantes
O Rei da creação louvam com hymnos,
Não ouvidos por nós nas profundezas
Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
Ante milhões de estrellas, que recamam
O firmamento, ajunctará seu canto
Mesquinho trovador?—Que vale uma harpa
Mortal no meio da harmonia etherea,
No concerto da noite? Oh, no silencio,
Eu pequenino verme irei sentar-me
Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada.
Assim se apaga a lampada nocturna
Ao despontar do sol o alvor primeiro:
Por entre a escuridão deu claridade;
Mas do dia ao nascer, que já rutíla,
As torrentes de luz vertendo ao longe,
Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,
Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
A tempestade ameaçadora dorme.
No espaço immenso os astros scintillantes
O Rei da creação louvam com hymnos,
Não ouvidos por nós nas profundezas
Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
Ante milhões de estrellas, que recamam
O firmamento, ajunctará seu canto
Mesquinho trovador?—Que vale uma harpa
Mortal no meio da harmonia etherea,
No concerto da noite? Oh, no silencio,
Eu pequenino verme irei sentar-me
Aos pés da Cruz nas trévas do meu nada.
Assim se apaga a lampada nocturna
Ao despontar do sol o alvor primeiro:
Por entre a escuridão deu claridade;
Mas do dia ao nascer, que já rutíla,
As torrentes de luz vertendo ao longe,
Da lampada o clarão sumiu-se, inutil,
Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
A VOZ.
É tão suave
ess' hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a lua
Das ondas a ardentia,
Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleiado!
O mar azul se encrespa
Co'a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz ja se divisa.
E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.
Alli folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cérca
Bemdiz a mão de Deus.
Mas despregou seu grito
A alcyone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no occidente:
E sóbe, e cresce, e immensa
Nos céus negra fluctua,
E o vento das procellas
Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano,
Com horrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor
E do poeta a fronte
Cubriu véu de tristeza:
Calou, á luz do raio,
Seu hymno á natureza.
Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcyone ao gemido,
Ao sibillar do vento.
Era blasphema idéa,
Que triumphava emfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:
—«Cantor, esse queixume
Da nuncia das procellas,
E as nuvens, que te roubam
Myriadas de estrellas,
E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,
Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Em quanto do ether puro
Descia o sol radioso,
Typo da vida do homem,
É do universo a vida;
Depois do afan repouso,
Depois da paz a lida.
Se ergueste a Deus um hymno
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,
Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pae, confia,
Do raio ao scintillar.
Elle o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»—
Oh sim, torva blasphemia
Não manchará seu canto!
Brama a procella embora;
Pése sobre elle o espanto;
Que de sua harpa os hymnos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual oleo
Do nardo recendente.
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a lua
Das ondas a ardentia,
Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleiado!
O mar azul se encrespa
Co'a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz ja se divisa.
E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.
Alli folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cérca
Bemdiz a mão de Deus.
Mas despregou seu grito
A alcyone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no occidente:
E sóbe, e cresce, e immensa
Nos céus negra fluctua,
E o vento das procellas
Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano,
Com horrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor
E do poeta a fronte
Cubriu véu de tristeza:
Calou, á luz do raio,
Seu hymno á natureza.
Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcyone ao gemido,
Ao sibillar do vento.
Era blasphema idéa,
Que triumphava emfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:
—«Cantor, esse queixume
Da nuncia das procellas,
E as nuvens, que te roubam
Myriadas de estrellas,
E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,
Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Em quanto do ether puro
Descia o sol radioso,
Typo da vida do homem,
É do universo a vida;
Depois do afan repouso,
Depois da paz a lida.
Se ergueste a Deus um hymno
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,
Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pae, confia,
Do raio ao scintillar.
Elle o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!»—
Oh sim, torva blasphemia
Não manchará seu canto!
Brama a procella embora;
Pése sobre elle o espanto;
Que de sua harpa os hymnos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual oleo
Do nardo recendente.
A ARRABIDA.
I.
Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
Salve, oh patria da paz, deserto sancto,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a fragil hera,
E a romagem do tumulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promette
No transito chamado o viver do homem.
Salve, oh patria da paz, deserto sancto,
Onde não ruge a grande voz das turbas!
Sólo sagrado a Deus, podesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a fragil hera,
E a romagem do tumulo cumprindo,
Só conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dôr, sem termo,
Que íntima voz contínuo nos promette
No transito chamado o viver do homem.
II.
Suspira o vento no alamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantís na base carcomida:
Eis o ruído de ermo!—Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu ceruleo
Se abraçam no horisonte.—Immensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
As aves soltam matutino canto;
Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcantís na base carcomida:
Eis o ruído de ermo!—Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o céu ceruleo
Se abraçam no horisonte.—Immensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III.
Oh, como surge magestosa e bella,
Com viço da creação, a natureza
No solitario valle!—E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrancia pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os ha lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados pincaros, severos,
Quaes guardadores de um logar que é sancto;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o ultimo abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de labios innocentes.
Sobre esta scena o sol verte em torrentes
Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se
Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados
Desses thronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocío da noite á branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E 'inda existencia lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
Com viço da creação, a natureza
No solitario valle!—E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrancia pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os ha lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconde o justo.
E lá campeiam no alto das montanhas
Os escalvados pincaros, severos,
Quaes guardadores de um logar que é sancto;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o ultimo abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de labios innocentes.
Sobre esta scena o sol verte em torrentes
Da manhan o fulgor; a brisa esvaí-se
Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados
Desses thronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O rocío da noite á branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E 'inda existencia lhe dará um dia.
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV.
Negro, esteril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o placido sussurro
Das arvores do valle, que vecejam
Ricas d'encantos, co' a estação propicia;
Suavissimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ares,
És digno incenso ao Creador erguido;
Livres aves, vós filhas da espessura,
Que só teceis da natureza os hymnos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho ao mundo, no bulicio delle,
Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
Dos homens esquecer paixões e opprobrio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.
Comvosco eu sou maior; mais longe a mente
Pelos seios dos céus se immerge livre,
E se desprende de mortaes memorias
Na solidão solemne, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
Na mudez tua, o placido sussurro
Das arvores do valle, que vecejam
Ricas d'encantos, co' a estação propicia;
Suavissimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ares,
És digno incenso ao Creador erguido;
Livres aves, vós filhas da espessura,
Que só teceis da natureza os hymnos,
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho ao mundo, no bulicio delle,
Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
Dos homens esquecer paixões e opprobrio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O sol, e uma só vez pura saudar-lh'a.
Comvosco eu sou maior; mais longe a mente
Pelos seios dos céus se immerge livre,
E se desprende de mortaes memorias
Na solidão solemne, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V.
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruina ao roble secular da encosta,
Que somnolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cubriram cespedes virentes;
Mas o tempo voou, e nelle involta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o sólo fustigando
Tritura a tenra lanceolada relva,
Durante largos seculos, no inverno,
Dos vendavaes no dorso a ti desceram,
Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
Que, maculando virginal pureza,
Do pudor varre a aureola celeste,
E deixa, em vez de um seraphim na terra,
Queimada flor que devorou o raio.
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruina ao roble secular da encosta,
Que somnolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
Já te cubriram cespedes virentes;
Mas o tempo voou, e nelle involta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o sólo fustigando
Tritura a tenra lanceolada relva,
Durante largos seculos, no inverno,
Dos vendavaes no dorso a ti desceram,
Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
Que, maculando virginal pureza,
Do pudor varre a aureola celeste,
E deixa, em vez de um seraphim na terra,
Queimada flor que devorou o raio.
VI.
Cáveira da montanha, ossada immensa,
É tua campa o céu: sepulchro o valle
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a terra ao longe,
Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,
Lançar á praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste valle
Te vai servir de tumulo; e os carvalhos
Do mundo primogenitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da collina,
Comtigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cubrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nú e triste,
Ainda bello serás, vestido e alegre.
É tua campa o céu: sepulchro o valle
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a terra ao longe,
Na expansão dos volcões, e o mar, bramindo,
Lançar á praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste valle
Te vai servir de tumulo; e os carvalhos
Do mundo primogenitos, e os sobros,
Arrastados por ti lá da collina,
Comtigo hão-de jazer. De novo a terra
Te cubrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te;
E tu, ora medonho e nú e triste,
Ainda bello serás, vestido e alegre.
VII.
Mais que o homem feliz!—Quando eu no valle
Dos tumulos cahir; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me fôr dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,
Se em turbilhões de purpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
Vai provar que um Deus ha a estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que véla o criminoso,
A quem íntima voz rouba o socego,
E em que o justo descança, ou, solitario,
Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.
Dos tumulos cahir; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me fôr dada,
Não mais reviverei; não mais meus olhos
Verão, ao pôr-se, o sol em dia estivo,
Se em turbilhões de purpura, que ondeiam
Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
Vai provar que um Deus ha a estranhos povos
E além das ondas trémulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Não mais verei o refulgir da lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que véla o criminoso,
A quem íntima voz rouba o socego,
E em que o justo descança, ou, solitario,
Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.
VIII.
Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
Das aguas, então quêdas, do oceano,
Eu tambem o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cahir das trévas,
Emquanto, involta em gloria, a clara lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.
Tudo calado estava: o mar sómente
As harmonias da creação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando,
Ante o sopro de oeste:—alli dos olhos
O pranto me correu sem que o sentisse,
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
Das aguas, então quêdas, do oceano,
Eu tambem o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno era suave
A aragem fresca do cahir das trévas,
Emquanto, involta em gloria, a clara lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.
Tudo calado estava: o mar sómente
As harmonias da creação soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando,
Ante o sopro de oeste:—alli dos olhos
O pranto me correu sem que o sentisse,
E aos pés de Deus se derramou minha alma.