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Poesias

Chapter 42: XII.
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About This Book

A coletânea reúne poemas de tom religioso e contemplativo que evocam ritos da Semana Santa, o interior de igrejas, o canto dos coros e a presença das velas e crucifixos. Intercaladas com imagens líricas de noite, vento e memória, surgem meditações sobre a morte, o juízo e a esperança na vida espiritual, acompanhadas de críticas ao falso devotismo, à hipocrisia e aos despotismos que corrompem a liberdade. A linguagem aposta em cadência solene e imagens visuais para unir fervor religioso e reflexão moral.

Oh, que viesse o que não crê, comigo,
Á vecejante Arrabida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povôa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,
E ouvisse o mar soando:—elle chorára,
Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
E adorando o Senhor detestaria
De uma sciencia van seu vão orgulho.

X.

É aqui neste valle, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da patria ao desterrado; aqui, solemne,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto das serras
Nuas, crestadas, solitarias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancholico e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante á paz, que se ha sentado
Por seculos, alli, nas cordilheiras
É o silencio do adro, onde reunem
Os cyprestes e a cruz, o céu e a terra.

Como tu vens cercado de esperança,
Para o innocente, oh placido sepulchro!
Juncto das tuas bordas pavorosas
O perverso recúa horrorisado:
Após si volve os olhos; na existencia
Deserto árido só descobre ao longe,
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo, chegando á meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpõe-na sem temor, e em Deus exulta.
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueiou na terra,
Sem encontrar um coração ardente
Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Elle não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,
Ao pé da sepultura, é som perdido
De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pae, que saboreia
Entre os braços da morte o extremo somno,
Já não é dado ao filial suspiro;
Em vão o amante, alli, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Réga de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria,
E para sempre as flores se murcharam.

XI.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,
Aspirando o futuro além da vida
E um halito dos ceus, gemer atada
Á columna do exilio, a que se chama
Em lingua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guarda-la-hei no coração, bem juncto
Com minha fé, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre,
Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
Comparar-se, oh deserto? Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor captiva,
Ou arvore educada por mão de homem,
Que lhe diga—és escrava» e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano é livre no ermo
A bonina rasteira e o freixo altivo!
Não lhes diz—nasce aqui, ou lá não cresças»
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
É que o rocío não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Céu livre, terra livre, e livre a mente,
Paz intima, e saudade, mas saudade
Que não dóe, que não mirra, e que consola,
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procellas do mundo os que o deixaram.

XII.

Alli naquella encosta, hontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitario a habitação tranquilla:
E eu vagueei por lá. Patente estava
O pobre alvergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança
Sob as asas de Deus, á luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos.
Oh, com quanto socego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeiava
As raras cans na fronte, onde se lia
A bella historia de passados annos.
De alto choupo através passava um raio
Da lua—astro de paz, astro que chama
Os olhos para o céu, e a Deus a mente—
E em luz pallida as faces lhe banhava:
E talvez neste raio o Pae celeste
Da patria eterna lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dos labios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e gloria
Na terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitario obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpetuo ruido que sussurra
Pelos palacios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortezão suberbo, que só cura
De honras, haveres, gloria, que se compram
Com maldicções e perennal remorso.
Gloria! A sua qual é? Pelas campinas,
Cubertas de cadaveres, regadas
De negro sangue, elle segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viuva e do orpham;
Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
Os homens, seus irmãos, flagella e opprime
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a terra o adorou: o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
Nunca se ha-de chegar para traga-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lagea de marmore, que esconde
O cadaver do grande, é mais duravel
Do que esse chão sem inscripção, sem nome,
Por onde o oppresso, o misero, procura
O repouso, e se atira aos pés do throno
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos.

XIII.

Oh cidade, cidade, que trasbordas
De vicios, de paixões, e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa involta,
Suberba prostituta, alardeiando
Os theatros, e os paços, e o ruido
Das carroças dos nobres, recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropeiar continuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortezão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadaver putrido!—Cidade,
Branqueado sepulchro, que misturas
A opulencia, a miseria, a dôr e o goso,
Honra e infamia, pudor e impudicicia,
Céu e inferno, que és tu? Escarneo ou gloria
Da humanidade?—O que o souber que o diga!

Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
A imagem desse povo, que reflue
Das moradas á rua, á praça, ao templo;
Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo mixto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil despota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memorias dos seculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.

Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
Em joelhos nos atrios dos tyrannos,
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre?
Esse tigre é o idolo do povo!
Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe
O ferreo sceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De victimas illustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passae depois. Se a mão da Providencia
Esmigalhou a fronte á tyrannia;
Se o despota cahiu, e está deitado
No lodaçal da sua infamia, a turba
Lá vai buscar o sceptro dos terrores,
E diz—é meu»; e assenta-se na praça,
E involta em roto manto, e julga, e reina.
Se um ímpio, então, na affogueada bôcca
De volcão popular sacode um facho,
Eis o incendio que muge, e a lava sóbe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarchia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presagio
De assolação, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos
Cava fundo da Patria a sepultura.
Onde, abraçando a gloria do passado
E do futuro a ultima esperança,
As esmaga comsi­go, e ri morrendo.

Tal és, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder:—sentina impura
De corrupções, teus não serão meus hymnos!

XIV.

Cantor da solidão, vim assentar-me
Juncto do verde cespede do valle,
E a paz de Deus do mundo me consola.

Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou ha seculos, passando,
Como orvalho do céu, por este sitio,
De virtudes depois tão rico e fertil.
Como um pae de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugurios de humildes eremitas,
Onde o cilicio e a compuncção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do peccador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo
Que entre os humanos não achou piedade.

XV.

Religião! do misero conforto,
Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
O longo agonisar de uma saudade,
Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,
Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo,
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitario templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia á meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Ahi os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do sol, ainda chorando.
Passados mezes, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos miseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual halito suave
Da primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lagea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no somno extremo.

Eremiterio antigo, oh, se podesses
Dos annos que lá vão contar a historia;
Se ora, á voz do cantor, possivel fosse
Transudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por naufragos do mundo derramado
Sobre elle, e aos pés da cruz!... Se vós podesseis,
Broncas pedras, falar, o que dirieis!

Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fabula das gentes,
Despertariam o eccho das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a historia
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mágua, ou do remorso as longas noites!
Aqui veiu, talvez, buscar asylo
Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
Despenhado nas trévas do infortunio;
Aqui gemeu, talvez, o amor trahido,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os ultimos gemidos,
Depois da vida derramada em gosos,
Depois do goso convertido em tedio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestigios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lagrymas do triste
Elle contou, para as pagar com gloria?

XVI.

Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo valle,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um pharol de vida em mar de escolhos:
Ao christão infeliz acolhe no ermo,
E consolando-o, diz-lhe—a patria tua
É lá no céu: abraça-te comigo.»
Juncto della esses homens, que passaram
Acurvados na dôr, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança
Vem derramar seu coração afflicto:
É do deserto a historia a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silencio.

XVII.

Feliz da terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças!
Folgando segue a trilha, que ha juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna,
E sobre a morta crença em paz descança.
Que mal te faz, que goso vae roubar-te
O que ensanguenta os pés no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lagrymas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...

E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestreis te venderão seus hymnos,
Nos banquetes opiparos, emquanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anachoreta,
Que não te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu não invejo;
Tristes coroas, sob as quaes às vezes
Está gravada uma inscripção d'infamia.




MOCIDADE E MORTE.



Solevantado o corpo, os olhos fitos,
As magras mãos cruzadas sobre o peito,
Vêde-o, tão moço, velador de angustias,
Pela alta noite em solitario leito.

Por essas faces pallidas, cavadas,
Olhae, em fio as lagrymas deslisam;
E com o pulso, que apressado bate,
Do coração os éstos harmonisam.

É que nas veias lhe circula a febre;
É que a fronte lhe alaga o suor frio;
É que lá dentro á dor, que o vai roendo,
Responde horrivel íntimo ciclo.

Encostando na mão o rosto acceso,
Fitou os olhos humidos de pranto
Na lampada mortal alli pendente,
E lá comsigo modulou um canto.

É um hymno de amor e de esperança?
É oração de angustia e de saudade?
Resignado na dor, saúda a morte,
Ou vibra aos céus blasphemia d'impiedade?

É isso tudo, tumultuando incerto
No delírio febril daquella mente
Que, balouçada á borda do sepulchro,
Volve após si a vista longamente.

É a poesia a murmurar-lhe na alma
Ultima nota de quebrada lyra;
É o gemido do tombar do cedro;
É triste adeus do trovador que expira.

DESESPERANÇA.

«Meia-noite bateu, volvendo ao nada
Um dia mais, e caminhando eu sigo!
Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...
Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!

Qual tufão, que ao passar agita o pégo.
Meu placido existir turvou a sorte.
Halito impuro de pulmões ralados
Me diz que nelles se assentou a morte.

Em quanto mil e mil no largo mundo
Dormem em paz sorrindo, eu vélo e penso,
E julgo ouvir as preces por finados,
E ver a tumba e o fumegar do incenso.

Se dormito um momento, acórdo em sustos;
Pulos me dá o coração no peito,
E abraço e beijo de uma vida extincta
O ultimo socio, o doloroso leito.

De um abysmo insondado ás agras bordas
Insanavel doença me ha guiado,
E disse-me:—no fundo o esquecimento:
Desce; mas desce com andar pausado.»

E eu lento vou descendo, e sondo as trévas:
Busco parar; parar um só instante!
Mas a cruel, travando-me da dextra,
Me faz cahir mais fundo, e grita:—ávante!»

Porque escutar o transito das horas?
Alguma dellas trar-me-ha conforto?
Não! Esses golpes, que no bronze ferem,
São para mim como dobrar por morto.

«Morto! morto!—me clama a consciencia:
Diz-m'o este respirar rouco e profundo.
Ai! porque fremes, coração de fogo,
Dentro de um seio corrompido e immundo?

Beber um ar diaphano e suave,
Que renovou da tarde o brando vento,
E converte-lo, no aspirar contínuo,
Em bafo apodrecido e peçonhento!

Estender para o amigo a mão mirrada,
E elle negar a mão ao pobre amigo;
Querer uni-lo ao seio descarnado,
E elle fugir, temendo o seu perigo!

E ver após um dia ainda cem dias,
Nús d'esperança, ferteis de amargura;
Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo,
E só, bem lá no extremo, a sepultura!

Agora!... quando a vida me sorria:
Agora!... que meu estro se accendêra;
Que eu me enlaçava a um mundo d'esperanças,
Como se enlaça pelo choupo a hera,

Deixar tudo, e partir, sósinho e mudo;
Varrer-me o nome escuro esquecimento:
Não ter um eccho de louvor, que affague
Do desgraçado o humilde monumento!

Oh tu, sêde de um nome glorioso,
Que tão fagueiros sonhos me tecias,
Fugiste, e só me resta a pobre herança
De ver a luz do sol mais alguns dias.

Vestem-se os campos do verdor primeiro:
Já das aves canções no bosque ecchoam:
Não para mim, que só escuto attento
Funereos dobres que no templo soam!

Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,
Irei tão cedo repousar na terra?!
Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;
Um louro só... e meu sepulchro cerra!

É tão bom respirar, e a luz brilhante
Do sol oriental saudar no outeiro!
Ai, na manhan sauda-la posso ainda;
Mas será este inverno o derradeiro!

Quando de pomos o vergel for cheio;
Quando ondeiar o trigo na planura;
Quando pender com aureo fructo a vide,
Eu tambem penderei na sepultura.

Dos que me cercam no turbado aspecto,
Na voz que prende desusado enleio,
No pranto a furto, no fingido riso
Fatal sentença de morrer eu leio.

Vistes vós criminoso, que hão lançado
Seus juizes nos trances da agonia,
Em oratorio estreito, onde não entra
Suavissima luz do claro dia;

Diante a cruz, ao lado o sacerdote,
O cadafalso, o crime, o algoz na mente,
O povo tumultuando, o extremo arranco,
E céu, e inferno, e as maldicções da gente?

Se adormece, lá surge um pesadelo,
Com os martyrios da sua alma acorde;
Desperta logo, e á terra se arremessa,
E os punhos cerra, e delirante os morde.

Sobre as lageas do duro pavimento
De vergões e de sangue o rosto cobre.
Ergue-se e escuta com cabellos hirtos
Do sino ao longe o compassado dobre.

Sem esperança!...
Não! Do cadafalso
Sóbe as escadas o perdão ás vezes;
Porém a mim... não me dirão:—és salvo!»
E o meu supplicio durará por mezes.

Dizer posso:—existi: que a dor conheço!
Do goso a taça só provei por horas:
E serei teu, calado cemiterio,
Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.

Se o furacão rugiu, e o debil tronco
De arvore tenra espedaçou passando,
Quem se doeu de a ver jazendo em terra?
Tal é o meu destino miserando!

Numen de sancto amor, mulher querida,
Anjo do céu, encanto da existencia,
Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te.
Por ti me salve a mão da Providencia.

Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge!
Um beijo ardente aos labios teus voára:
E neste beijo venenoso a morte
Talvez este infeliz só te entregára!

Se eu podesse viver... como teus dias
Cercaria de amor suave e puro!
Como te fôra placido o presente;
Quanto risonho o aspecto do futuro!

Porém, medonho espectro ante meus olhos,
Como sombra infernal perpetuo ondeia,
Bradando-me que vai partir-se o fio
Com que da minha vida se urde a teia.

Entregue á seducção em quanto eu durmo,
No turbilhão do mundo hei-de deixar-te!
Quem velará por ti, pomba innocente?
Quem do perjurio poderá salvar-te?

Quando eu cerrar os olhos moribundos
Tu verterás por mim pranto saudoso;
Mas quem me diz que não virá o riso
Banhar teu rosto triste e lachrymoso?

Ai, o extincto só herda o esquecimento!
Um novo amor te agitará o peito:
E a dura lagea cubrirá meus ossos
Frios, despidos sobre terreo leito!...

Oh Deus, porque este calix de agonia
Até as bordas de amargor me encheste?
Se eu devia acabar na juventude,
Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?

Virgem do meu amor, porque perde-la?
Porque entre nós a campa ha-de assentar-se?
Tua suprema paz com goso ou dores,
Do mortal, que em ti crê, póde turbar-se?

Não haver quem me salve! e vir um dia
Em que de minha o nome ainda lhe désse!
Então, Senhor, o umbral da eternidade,
Talvez sem um queixume, transposesse.

Mas, qual flor em botão pendida e murcha,
Sem de fragrancias perfumar a brisa,
Eu poeta, eu amante, ir esconder-me
Sob uma lousa desprezada e lisa!

Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?
Em te adorar que fui, senão insano?...
O teu fatal poder hoje maldigo!
O que te chama pae, mente: és tyranno.

E se aos pés de teu throno os ais não chegam;
Se os gemidos da terra os ares somem;
Se a Providencia é crença van, mentida,
Porque geraste a intelligencia do homem?

Porque da virgem no sorrir poseste
Sancto presagio de suprema dita,
E apontaste ao poeta a immensidade
Na ancia de gloria que em sua alma habita?

A immensidade!... E que me importa herda-la,
Se na terra passei sem ser sentido?
Que val eterno vagueiar no espaço,
Se nosso nome se afundou no olvido?

O ANJO DA GUARDA.

«I­mpio, silencio! A tua voz blasphema
Da noite a paz perturba.
Verme, que te rebellas
Sob a mão do Senhor,
Vês os milhões d'estrellas
De nitido fulgor,
Que, em ordenada turba,
A Deus entoam incessantes hymnos?
Quantas vezes apaga
Do livro da existencia
Um orbe a mão do Eterno!
E o bello astro que expira
Maldiz a Providencia,
Maldiz a mão que o esmaga?
Acaso pára o cantico superno?
Ou apenas suspira
O moribundo,
Que se chamava um mundo?
Quem vai pôr uma campa sobre os restos
Desse inerte planeta,
Que o destructor cometa
Incinerou na rapida passagem?
E tu, átomo obscuro,
Que varre á tarde a aragem,
Sóltas do seio impuro
Maldicção insensata,
Porque o teu Deus te evoca á eternidade?
Que é o viver? O umbral, a que um momento
O espirito, surgindo
Das solidões do nada
Á voz do Creador, se encosta, e attento
Contempla a luz e o céu; d'onde desata
Seu vôo á immensidade.
Geme acaso o passarinho
De saudade,
Quando as azas expande, e deixa o ninho
A vez primeira, a mergulhar nos ares?
Volve olhos lachrymosos
Aos mares tormentosos
O navegante, quando aproa ás plagas
Da patria suspirada?
Porque morres?! Pergunta á Providencia
Porque te fez nascer.
Qual era o teu direito a ver o mundo;
Teu jus á existencia?
Olha no outono o ulmeiro
Que o vendaval agita,
E cujas tenues folhas
Aos centos precipita.
São a folha do ulmeiro o nome e a fama,
E o amar dos humanos:
Ao nada do que foi assim se atiram
No vortice dos annos.
Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,
Que somem mil ruí­dos.
E a voz da terra o que é, na voz immensa
Dos orbes reunidos?
Amor! amor terreno!... Ai, se podesses
Comprehender a amargura,
Com que te chóro, oh alma transviada!
Eu, que te amei do berço, e qual doçura
Ha no affecto que liga o anjo ao homem,
Rindo despiras esse corpo enfermo,
Para te unir a mim, para aspirares
O goso celestial de amor sem termo!
Alma triste, que mesquinha
Te debruças sobre o inferno,
Ouve o anjo, pobresinha;
Vem ao goso sempiterno.
Resigna-te e espera, e os dias de prova
Serão para o crente quaes breves instantes.
Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,
Fendendo o infinito co' as asas radiantes.
Depois, das alturas teu terreo vestido
Sorrindo veremos na terra guardar,
E ao hymno de Hosanna nos córos celestes
A voz de um remido iremos junctar.»

A GRAÇA.

Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O ferreo pé da dor,
E o hymno da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim! és tu, que na infantil idade,
Da aurora á frouxa luz,
Me dizias:—acorda, innocentinho,
Faze o signal da cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses annos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e purpura descendo
Co' as roupas a alvejar.
És tu, és tu! que ao pôr do sol, na veiga,
Juncto ao bosque fremente,
Me contavas mysterios, harmonias
Dos céus, do mar dormente.
És tu, és tu! que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sósinho erguia
Ao Deus tres vezes sancto.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.

Sinto a tua voz de novo
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos céus!...

RESIGNAÇÃO

«No teu seio reclinado
Dormirei, Senhor, um dia,
Quando for na terra fria
Meu repouso procurar;

Quando a lousa do sepulchro
Sohre mim tiver cahido
E este espirito affligido
Vir a tua luz brilhar!

No teu seio, de pesares
O existir não se entretece;
Lá eterno o amor florece;
Lá florece eterna paz:

Lá bramir juncto ao poeta
Não irão paixões e dores,
Vãos desejos, vãos temores
Do desterro em que elle jaz.

Hora extrema, eu te saúdo!
Salve, oh trevas da jazida,
D'onde espera erguer-se á vida
Meu espirito immortal!

Anjo bom, não me abandones
Neste trance dilatado;
Que contrito, resignado
Me acharás na hora fatal.

E depois... Perdoa, oh anjo,
Ao amor do moribundo,
Que só deixa neste mundo
Pouco pó, muito gemer.

Oh... depois... dize á mesquinha
Um segredo de doçura:
Que na patria o amor se apura,
Que o desterro viu nascer.

Que é o céu a patria nossa;
Que é o mundo exilio breve;
Que o morrer é cousa leve;
Que é principio, não é fim:

Que duas almas que se amaram
Vão lá ter nova existencia,
Confundidas n'uma essencia,
A de um novo cherubim.»




DEUS.


Nas horas do silencio, á meia-noite,
Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
E os abysmos do inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos sôem,
E a lua resplendente
Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa
O hymno do Omnipotente.

Antes de tempo haver, quando o infinito
Media a eternidade,
E só do vacuo as solidões enchia
De Deus a immensidade,
Elle existia, em sua essencia involto,
E fóra delle o nada:

No seio do Creador a vida do homem
Estava ainda guardada:
Ainda então do mundo os fundamentos
Na mente se escondiam
De Jehovah, e os astros fulgurantes
Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
Das mãos sólta o Senhor:
Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
Sua primeira flor:
Sobre o invisi­vel eixo range o globo:
O vento o bosque ondeia:
Retumba ao longe o mar: da vida a força
A natureza anceia!

Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
Ou cantar teu poder?
Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
Fonte de todo o ser,
No dia da creação; quando os thesouros
Da neve amontoaste;
Quando da terra nos mais fundos valles
As aguas encerraste?!

E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
Com dextra poderosa,
Fez, por lei immutavel, se librassem
Na mole ponderosa?
Onde existia então? No typo immenso
Das gerações futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
Na terra e nas alturas!

Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
Do raio, e do trovão!
Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
Da tarde a viração!
Por sua Providencia nunca, embalde,
Zumbiu minimo insecto;
Nem volveu o elephante, em campo esteril,
Os olhos inquieto.
Não deu Elle á avesinha o grão da espiga,
Que ao ceifador esquece;
Do norte ao urso o sol da primavera,
Que o reanima e aquece?
Não deu Elle á gazella amplos desertos,
Ao cervo a amena selva,
Ao flamingo os paúes, ao tigre o antro,
No prado ao touro a relva?
Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
Consolação e luz?
Acaso em vão algum desventurado
Curvou-se aos pés da cruz?
A quem não ouve Deus? Sómente ao impio
No dia da afflicção,
Quando pésa sobre elle, por seus crimes,
Do crime a punição.

Homem, ente immortal, que és tu perante
A face do Senhor?
És a junça do bréjo, harpa quebrada
Nas mãos do trovador!
Olha o velho pinheiro, campeiando
Entre as neves alpinas:
Quem irá derribar o rei dos bosques
Do throno das collinas?
Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
Extremo Deus mandou!
Lá correu o aquilão: fundas raizes
Aos ares lhe assoprou.
Suberbo, sem temor, saíu na margem
Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto habita;
Vê-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
A bôca affogueada:
Qual duro arnez de intrepido guerreiro
É seu dorso escamoso;
Como os ultimos ais de um moribundo
Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado;
Porém, se Deus mandou,
Qual do norte impellida a nuvem passa,
Assim elle passou!

Teu nome ousei cantar!—Perdoa, oh Nume;
Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti não são meus frouxos hymnos,
Mas são hymnos de amor.
Embora vís hypocritas te pintem
Qual barbaro tyranno:
Mentem, por dominar com ferreo sceptro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio! Receiar-te
É maldizer-te, oh Deus;
É o throno dos despotas da terra
Ir collocar nos céus.

Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existencia
Tranquillo, e sem temor, á sombra posto
Da tua Providencia.



A TEMPESTADE.


Sibilla o vento:—os torreões de nuvens
Pésam nos densos ares:
Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A immensa vaga ao longe vem correndo,
Em seu terror envolta;
E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
A tempestade solta.
Do sol no occaso um raio derradeiro,
Que, apenas fulge, morre,
Escapa á nuvem, que, apressada e espessa,
Para apaga-lo corre.
Tal nos affaga em sonhos a esperança,
Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciencia
Dizer que ella mentia!
As ondas negro-azues se conglobaram;
Serras tornadas são,
Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,
Bater, partir-se vão.

Oh tempestade! Eu te saúdo, oh nume,
Da natureza açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa,
E é teu vestido a noite!
Quando pelos pinhaes, entre o granizo,
Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
E assolação derramas,
Quem porfiar comtigo, então, ousára
De gloria e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouçar-me
Das nuvens nos castellos,
E ver dos ferros meus, emfim, quebrados
Os rebatidos élos!
Eu rodeára, então, o globo inteiro;
Eu sublevára as aguas;
Eu dos volcões com raios accendêra
Amortecidas fráguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
Acurvaria as frontes;
Com furacões, os areiaes da Lybia
Converteria em montes;
Pelo fulgor da lua, lá do norte
No polo me assentára,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
Que o tempo amontoára.
Alli, eu solitario, eu rei da morte,
Erguèra meu clamor,
E dissera:—sou livre, e tenho imperio;
Aqui, sou eu senhor!»

Quem se podéra erguer, como estas vagas,
Em turbilhões incertos,