WeRead Powered by ReaderPub
Poesias cover

Poesias

Chapter 58: III.
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A coletânea reúne poemas de tom religioso e contemplativo que evocam ritos da Semana Santa, o interior de igrejas, o canto dos coros e a presença das velas e crucifixos. Intercaladas com imagens líricas de noite, vento e memória, surgem meditações sobre a morte, o juízo e a esperança na vida espiritual, acompanhadas de críticas ao falso devotismo, à hipocrisia e aos despotismos que corrompem a liberdade. A linguagem aposta em cadência solene e imagens visuais para unir fervor religioso e reflexão moral.

E correr, e correr, troando ao longe,
Nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
A mente presa está!...
Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
Rapido, em baixo dá.

Oh morte, amiga morte! é sobre as vagas,
Entre escarcéus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a natureza
Lançou a esta alma ardente;
Que ella possa voar, por entre os orbes,
Aos pés do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
Desça, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
Solta, sem rumo vague!

Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
O somno do existir;
Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
Nas trévas do porvir.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
De um coração oppresso,
Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
Negas no seio accésso,
Não despertes, oh não! os que abominam
Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
Com seu dorído leito!
Tu, que ao misero rís com rir tão meigo,
Calumniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás asylo
Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas ás portas dos senhores,
Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delirios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu que vélo na vida, e já não sonho
Nem gloria, nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até as fézes,
O calix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto ha vil no mundo,
Sanctas inspirações morrer sentindo
Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
Fragor da tempestade,
Psalmo de mortós, que retumba ao longe,
Grito da eternidade!...

Pensamento infernal! Fugir covarde
Ante o destino iroso?
Lançar-me, envolto em maldicções celestes,
No abysmo tormentoso?
Nunca! Deus pôs-me aqui para apurar-me
Nas lagrymas da terra;
Guardarei minha estancia atribulada,
Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu premio,
O seu repouso, emfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
Virá outro após mim.
Herdarei o morrer! Como é suave
Bençam de pae querido.
Será o despertar, ver meu cadaver,
Ver o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulchro branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba á patria do repouso,
Onde não ha morrer.




O SOLDADO.

I.

Veia tranquilla e pura
Do meu paterno rio,
Dos campos, que elle réga,
Mansi­ssimo armentio.

Rocio matutino,
Prados tão deleitosos,
Valles, que assombram selvas
De sinceiraes frondosos,

Terra da minha infancia,
Tecto de meus maiores,
Meu breve jardimzinho,
Minhas pendidas flores,

Harmonioso e sancto
Sino do presbyterio,
Cruzeiro venerando
Do humilde cemiterio.

Onde os avós dormiram,
E dormirão os paes;
Onde eu talvez não durma,
Nem rese, talvez, mais,

Eu vos saúdo! e o longo
Suspiro amargurado
Vos mando. É quanto póde
Mandar pobre soldado.

Sobre as cavadas ondas
Dos mares procellosos,
Por vós já fiz soar
Meus cantos dolorosos.

Na prôa resonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ancioso
O vento frio e agudo;

Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que só minora
Sopro de tempestade;

Mas que se irrita, e dura
Quando é tranquillo o mar;
Quando da patria o céu
Céu puro vem lembrar;

Quando, no extremo occaso,
A nuvem vaporosa,
Á frouxa luz da tarde,
Na côr imita a rosa;

Quando, do sol vermelho
O disco ardente crece,
E paira sobre as aguas,
E emfim desapparece;

Quando no mar se estende
Manto de negro dó;
Quando, ao quebrar do vento,
Noite e silencio é só;

Quando sussurram meigas
Ondas que a nau separa,
E a rapida ardentia
Em tôrno a sombra aclara.

II.

Eu já ouvi, de noite,
Entre o pinhal fechado,
Um fremito soturno
Passando o vento irado:

Assim o murmurio
Do mar, fervendo á prôa,
Com o gemer do afflicto,
Sumido, accorde sôa:

E o scintillar das aguas
Gera amargura e dor,
Qual lampada, que pende
No templo do Senhor,

Lá pela madrugada,
Se o oleo lhe escaceia,
E a espaços expirando,
Affrouxa e bruxuleia.

III.

Bem abundante messe
De pranto e de saudade
O foragído errante
Colhe na soledade!

Para o que a patria perde
É o universo mudo;
Nada lhe rí na vida;
Mora o fastio em tudo;

No meio das procellas,
Na calma do oceano,
No sopro do galerno,
Que enfuna o largo panno,

E no entestar co' a terra
Por abrigado esteiro,
E no pousar á sombra
Do tecto do estrangeiro.

IV.

E essas memorias tristes
Minha alma laceraram,
E a senda da existencia
Bem agra me tornaram:

Porém nem sempre ferreo
Foi meu destino escuro;
Sulcou de luz um raio
As trévas do futuro.

Do meu paiz querido
A praia ainda beijei,
E o velho e amigo cedro
No valle ainda abracei!

Nesta alma regelada
Surgiu ainda o goso,
E um sonho lhe sorriu
Fugaz, mas amoroso.

Oh, foi sonho da infancia
Desse momento o sonho!
Paz e esperança vinham
Ao coração tristonho.

Mas o sonhar que monta,
Se passa, e não conforta?
Minh' alma deu em terra,
Como se fosse morta.

Foi a esperança nuvem,
Que o vento some á tarde:
Facho de guerra acceso
Em labaredas arde!

Do fratricidio a luva
Irmão a irmão lançara,
E o grito: ai do vencido!
Nos montes retumbara.

As armas se hão cruzado:
O pó mordeu o forte;
Cahiu: dorme tranquillo:
Deu-lhe repouso a morte.

Ao menos, nestes campos
Sepulchro conquistou,
E o adro dos estranhos
Seus ossos não guardou.

Elle herdará, ao menos,
Aos seus honrado nome,
Paga de curta vida
Ser-lhe-ha largo renome.

V.

E a bala sibilando,
E o trom da artilharia,
E a tuba clamorosa,
Que os peitos accendia,

E as ameaças torvas,
E os gritos de furor,
E desses, que expiravam,
Som cavo de estertor,

E as pragas do vencido,
Do vencedor o insulto,
E a pallidez do morto,
Nú, sanguento, insepulto,

Eram um cá'os de dores
Em convulsão horrivel,
Sonho de accesa febre,
Scena tremenda e incrivel!

E suspirei: nos olhos
Me borbulhava o pranto,
E a dor, que trasbordava,
Pediu-me infernal canto.

Oh, sim! maldisse o instante,
Em que buscar viera,
Por entre as tempestades,
A terra em que nascera.

Que é, em fraternas lides,
Um canto de victoria?
É delirar maldicto;
É triumphar sem gloria.

Maldicto era o triumpho,
Que rodeiava o horror,
Que me tingia tudo
De sanguinosa côr!

Então olhei saudoso
Para o sonoro mar;
Da nau do vagabundo
Meigo me riu o arfar.

De desespero um brado
Soltou, ímpio, o poeta.
Perdão! Chegára o misero
Da desventura á meta.

VI.

Terra infame!—de servos aprisco,
Mais chamar-me teu filho não sei:
Desterrado, mendigo serei;
De outra terra meus ossos serão!

Mas a escravo, que pugna por ferros,
Que herdará deshonrada memoria,
Renegando da terra sem gloria,
Nunca mais darei nome de irmão!

Onde é livre tem patria o poeta,
Que ao exilio condemna ímpia sorte.
Sobre os plainos gelados do norte
Luz do sol tambem desce do céu;

Tambem lá se erguem montes, e o prado
De boninas, em maio, se veste;
Tambem lá se meneia o cypreste
Sobre o corpo que á terra desceu.

Que me importa o loureiro da encosta?
Que me importa da fonte o ruido?
Que me importa o saudoso gemido
Da rollinha sedenta de amor?

Que me importam outeiros cubertos
Da verdura da vinha, no estio?
Que me importa o remanso do rio,
E, na calma, da selva o frescor?

Que me importa o perfume dos campos,
Quando passa da tarde a bafagem,
Que se embebe, na sua passagem,
Na fragrancia da rosa e aleli­?

Que me importa? Pergunta insensata!
É meu berço: a minha alma está lá...
Que me importa... Esta bôca o dirá?!
Minha patria, estou louco... menti!

Eia, servos! O ferro se cruze.
Assobie o pelouro nos ares;
Estes campos convertam-se em mares,
Onde o sangue se possa beber!

Larga a valla! que, após a peleja,
Todos nós dormiremos unidos!
Lá vingados, e do odio esquecidos,
Paz faremos... depois do morrer!

VII.

Assim, entre amarguras,
Me delirava a mente;
E o sol ia fugindo
No termo do occidente.

E os fortes lá jaziam
Co'a face ao céu voltada;
Sorria a noite aos mortos,
Passando socegada.

Porém, a noite delles
Não era a que passava!
Na eternidade a sua
Corria, e não findava.

Contrarios ainda ha pouco,
Irmãos, emfim, lá eram!
O seu thesouro de odio,
Mordendo o pó, cederam.

No limiar da morte
Assim tudo fenece:
Inimizades calam,
E até o amor esquece!

Meus dias rodeiados
Foram de amor outr'ora;
E nem um vão suspiro
Terei, morrendo, agora,

Nem o apertar da dextra
Ao desprender da vida,
Nem lagryma fraterna
Sobre a feral jazida!

Meu derradeiro alento
Não colherão os meus.
Por minha alma atterrada
Quem pedirá a Deus?

Ninguem! Aos pés o servo
Meus restos calcará,
E o riso ímpio, odiento,
Mofando soltará.

O sino luctuoso
Não lembrará meu fim:
Preces, que o morto afagam,
Não se erguerão por mim!

O filho dos desertos,
O lobo carniceiro,
Ha-de escutar alegre
Meu grito derradeiro!

Oh morte, o somno teu
Só é somno mais largo;
Porém, na juventude,
É o dormi-lo amargo;

Quando na vida nasce
Essa mimosa flor.
Como a cecem suave,
Delicioso amor;

Quando a mente accendida
Crê na ventura e gloria;
Quando o presente é tudo,
E inda nada a memoria!

Deixar a cara vida,
Então, é doloroso,
E o moribundo á terra
Lança um olhar saudoso.

A taça da existencia
No fundo fézes tem;
Mas os primeiros tragos
Doces, bem doces, vem.

E eu morrerei agora
Sem abraçar os meus,
Sem jubiloso um hymno
Alevantar aos céus?

Morrer, morrer, que importa?
Final suspiro, ouvi-lo
Ha-de a patria. Na terra
Irei dormir tranquillo.

Dormir? Só dorme o frio
Cadaver, que não sente;
A alma voa a abrigar-se
Aos pés do Omnipotente.

Reclinar-me-hei á sombra
Do amplo perdão do Eterno;
Que não conheço o crime,
E erros não pune o inferno.

E vós, entes queridos,
Entes que tanto amei,
Dando-vos liberdade
Contente acabarei.

Por mim livres chorar
Vós podereis um dia,
E ás cinzas do soldado
Erguer memoria pia.




A VICTORIA E A PIEDADE.

I.

Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
Nos paços dos senhores!
Eu jámais consagrei hymno mentido
Da terra aos oppressores.
Mal haja o trovador que vae sentar-se
Á porta do abastado,
O qual com ouro paga a propria infamia,
Louvor que foi comprado.
Deshonra áquelle, que ao poder e ao ouro
Prostitue o alaúde!
Deus á poesia deu por alvo a patria,
Deu a gloria e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
Livre o poeta seja,
E em hymno isento a inspiração transforme,
Que na sua alma adeja.

II.

No despontar da vida, do infortunio
Murchou-me o sopro ardente;
E saudades curti em longes terras
Da minha terra ausente.
O solo do desterro, ai, quanto ingrato
É para o foragido,
Ennevoado o céu, arido o prado,
O rio adormecido!
Eu lá chorei, na idade da esperaça,
Da patria a dura sorte:
Esta alma encaneceu; e antes de tempo
Ergueu hymnos á morte:
Que a morte é para o misero risonha,
Sancta da campa a imagem...
Alli é que se afferra o porto amigo,
Depois de ardua viagem.

III.

Mas quando o pranto me sulcava as faces,
Pranto de atroz saudade,
Deus escutou do vagabundo as preces,
Delle teve piedade.
«Armas!—bradaram no desterro os fortes,
Como bradar de um só:
Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os
Indissoluvel nó.
Com seus irmãos as sacrosanctas juras,
Beijando a cruz da espada,
Repetiu o poeta:—Eia, partamos!
Ao mar!»—Partia a armada.
Pelas ondas azues correndo afoutos,
As praias demandámos
Do velho Portugal, e o balsão negro
Da guerra despregámos;
De guerra em que era infamia o ser piedoso,
Nobreza o ser cruel,
E em que o golpe mortal descia involto
Das maldicções no fel.

IV.

Fanatismo brutal, odio fraterno,
De fogo céus toldados,
A fome, a peste, o mar avaro, as turbas
De innumeros soldados;
Comprar com sangue o pão, com sangue o lume
Em regelado inverno;
Eis contra o que, por dias de amargura,
Nos fez luctar o inferno.
Mas de fera victoria, emfim, colhemos
A c'roa de cypreste;
Que a fronte ao vencedor em í­mpia lucta
Só essa c'roa veste.
Como ella torvo, soltarei um hymno
Depois do triumphar.
Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra
Bem triste é o acordar!
Nessa alta encosta sobranceira aos campos,
De sangue ainda impuros,
Onde o canhão troou por mais de um anno
Contra invenciveis muros,
Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
Pedir inspirações
Á noite queda, ao genio que me ensina
Segredos das canções.

V.

Reina em silencio a lua: o mar não brame,
Os ventos nem bafejam;
Rasas co' a terra, só nocturnas aves
Em gyros mil adejam.
No plaino pardacento, juncto ao marco
Tombado, ou rota sebe,
Aqui e alli, de ossadas insepultas
O alvejar se percebe.
É que essa veiga, tão festiva outr'ora,
Da paz tranquillo imperio,
Onde ao carvalho a vide se enlaçava,
É hoje um cemiterio!

VI.

Eis de esforçados mil inglorios restos,
Depois de brava lida;
De longo combater atroz memento
Em guerra fraticida.
Nenhum padrão recordará aos homens
Seus feitos derradeiros:
Nem dirá:—aqui dormem portugueses;
Aqui dormem guerreiros.»
Nenhum padrão, que peça aos que passarem
Resa fervente e pia,
E juncto ao qual entes queridos vertam
O pranto da agonia!
Nem hasteada cruz, consolo ao morto;
Nem lagea que os proteja
Do ardente sol, da noite humida e fria,
Que passa e que roreja!
Não! Lá hão-de jazer no esquecimento
De deshonrada morte,
Emquanto, pelo tempo em pó desfeitos,
Não os dispersa o norte.

VII.

Quem, pois, consolará gementes sombras,
Que ondeiam juncto a mim?
Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
Seu perdão de Elohim?
Eu, o christão, o trovador do exilio,
Contrario em guerra crua,
Mas que não sei verter o fel da affronta
Sobre uma ossada nua.

VIII.

Lavradores, zagaes, descem dos montes,
Deixando terras, gados,
Para as armas vestir, dos céus em nome,
Por phariseus chamados.
De um Deus de paz hypocritas ministros
Os tristes enganaram:
Foram elles, não nós, que estas cáveiras
Aos vermes consagraram.
Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
Que do Senhor no templo,
Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,
Dás do furor o exemplo!
Sobre as cinzas da Patria, ímpio, pensaste
Folgar de nosso mal,
E, entre as ruinas de cidade illustre,
Soltar riso infernal.
Tu, no teu coração insipiente,
Disseste:—Deus não há!»
Elle existe, malvado; e nós vencemos:
Treme; que tempo é já!

IX.

Mas esses, cujos ossos espalhados
No campo da peleja
Jazem, exoram a piedade nossa;
Piedoso o livre seja!
Eu pedirei a paz dos inimigos,
Mortos como valentes,
Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
Culpados de innocentes.

X.

Perdoou, expirando, o Filho do Homem
Aos seus perseguidores:
Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes;
Perdão, oh vencedores!
Não insulteis o morto. Elle ha comprado
Bem caro o esquecimento,
Vencido adormecendo em morte ignobil,
Sem dobre ou monumento.
É tempo d'olvidar odios profundos
De guerra deploravel.
O forte é generoso, e deixa ao fraco
O ser inexoravel.
Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
No seio agasalhou!
Elle é mudo: pedi-lo já não póde;
O dá-lo a nós deixou.
Além do limiar da eternidade
O mundo não tem réus,
O que legou á terra o pó da terra
Julgá-lo cabe a Deus.
E vós, meus companheiros, que não vistes
Nossa triste victoria,
Não precisaes do trovador o canto;
Vosso nome é da historia.

XI.

Assim, foi do infeliz sobre a jazida
Que um hymno murmurei,
E, do vencido consolando a sombra,
Por vós eu perdoei.




A CRUZ MUTILADA.


Amo-te, oh cruz, no vertice firmada
De esplendidas igrejas;
Amo-te quando á noite, sobre a campa,
Juncto ao cypreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em prestito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbyterio,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemiterio;
Amo-te, oh cruz, até, quando no valle
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:

Porém quando mais te amo,
Oh cruz do meu Senhor,
É se te encontro á tarde,
Antes de o sol se pôr,

Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando á luz que fenece
Se estira a tua sombra,

E o dia ultimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hymno da tarde
O pinheiral murmura.



E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,
Meia-quebrada, oh cruz. Sósinha estavas
Ao pôr do sol, e ao elevar-se a lua
Detraz do calvo cerro. A soledade
Não te pôde valer contra a mão ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Oh mutilada cruz, falam de um crime
Sacrilego, brutal e ao í­mpio inutil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quasi derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbyterio rustico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, annunciando o instante
Da Ave-Maria; da oração singela,
Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem
Se mistura nos canticos saudosos,
Que a natureza envia ao céu no extremo
Raio de sol, passando fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injuria e o desprezo, e que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!



Foi da sciencia incredula o sectario,
Acaso, oh cruz da serra, o que na face
Affrontas te gravou com mão profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miseria e na dôr constante has sido
Por bem dezoito seculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tyranno,
Bradando—esmola! a um—piedade! ao outro.

Oh cruz, se desde o Golgotha não fôras
Symbolo eterno de uma crença eterna;
Se a n­ossa fé em ti fosse mentida,
Dos oppressos de outr'ora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opprobrio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do céu, e elles te insultam,
Esquecidos das lágrymas perennes
Por trinta gerações, que guarda a campa,
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se
De que, se a paz domestica, a pureza
Do leito conjugal bruta violencia
Não vae contaminar, se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludibrio
Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;
Que por ti o cultor de ferteis campos
Colhe tranquillo da fadiga o premio,
Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura
Lhe diga:—é meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundancia: a ti, escravo,
O trabalho, a miseria unido á terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Emquanto, em dia de furor ou tedio,
Não me apraz com teus restos fecunda-la.»

Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasphemar, tu te elevaste
Lá do oriente, oh cruz, involta em gloria,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:—
Mentira!» E o servo alevantou os olhos,
Onde a esperança scintillava, a medo,
E viu as faces do senhor retinctas
Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista
Trépida, vaga. A cruz no céu do oriente
Da liberdade annunciára a vinda.



Cansado, o ancião guerreiro, que a existencia
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, emfim, o seu paiz querido
Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
Vem assentar-se á luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, juncto do teixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram annos,
Ha um como fulgor sereno e sancto.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
O tecto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano os velhos
A mão que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moços
Saúdam-no qual pae. Nas largas noites
Da gelada estação, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam para o tumulo suaves,
Rodeiados de affecto, e quando á terra
A mão do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lagrymas, bençãos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.

Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tyrannos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um pi­ncaro grani­tico, açoutado
Pelas azas do vento e ennegrecido
Por chuvas e por soes. Para ameigar-te
Este ar humido e gelido a segure
Não foi ferir do bosque o rei. Do estio
No ardor canicular nunca disseste:—
Dáe-me, sequer, do bravo medronheiro
O despresado fruct­o! O teu vestido
Era o musgo, que tece a mão do inverno,
E Deus creou para trajar as rochas.
Filha do céu, o céu era o teu tecto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adórnava
C'roa viçosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeiavam preces.
Ficaste em breve só, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.
Que te importava? As arvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circumdar-te de hymnos.
Affagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
E esperavas o tumulo. O teu tumulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em génesis novo, á voz do Eterno,
Do orbe ao nucleo fervente, que as gerára,
Ellas nas fauces dos volcões descessem.
Então para essa campa flores, bençãos,
Ou de saudade lagrymas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
Não pedíras á ingrata raça humana,
Ao pé de ti no seu sudario involta.



Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de soffrer aos teus remidos,
Oh redemptora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e accusação perenne
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e só? Acaso, á noite,
Quando a procella no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz accusadora
Sobrelevar á voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Christo, do divino martyr,
Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu trance final:—Ergue-te, escravo!
És livre, como é pura a cruz da infamia.
Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes
Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!
Abraça tua irman: segue-a sem susto
No caminho dos seculos. Da terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho
Trará da tua liberdade o dia.»

Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga historia
Recontando do Golgotha, lembrando-lhes
Que só ao Christo a liberdade devem,
E que impio o povo ser é ser infame.
Mutilado por elle, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombarás do cerro,
Symbolo sacrosancto. Hão-de os humanos
Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
Da gratidão a divida não paga
Ficará, oh tremenda accusadora,
Sem que as faces lhes tinja a côr do pejo;
Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Christo o nome passará na terra.



Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perenne testemunho
Da avita crença, os montes, a espessura,
O mar, a lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falarão do Verbo.

Della no pedestal, então deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Virá, talvez, ao pôr do sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dirá que é sancto
Este rochedo nú, e um hymno pio
A solidão lhe ensinará e a noite.

Do cantico futuro uma toada
Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos
Da brisa do crepusculo nas azas?
É o porvir que te proclama eterna;
É a voz do poeta a saúdar-te.