WeRead Powered by ReaderPub
Poesias cover

Poesias

Chapter 78: III.
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A coletânea reúne poemas de tom religioso e contemplativo que evocam ritos da Semana Santa, o interior de igrejas, o canto dos coros e a presença das velas e crucifixos. Intercaladas com imagens líricas de noite, vento e memória, surgem meditações sobre a morte, o juízo e a esperança na vida espiritual, acompanhadas de críticas ao falso devotismo, à hipocrisia e aos despotismos que corrompem a liberdade. A linguagem aposta em cadência solene e imagens visuais para unir fervor religioso e reflexão moral.

Montanha do oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
E que, lá no occidente,
Ultima vês seu radioso lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Rochedo, que descanças
No promontorio nú e solitario,
Como atalaia que o oceano explora,
Alheio ás mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vario,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas tenues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Oh mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria,
E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna maritima sombria,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Oh lua silenciosa,
Que em perpetuo volver, seguindo a terra,
Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Debalde o servo ingrato
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Oh veneranda cruz:

Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És sancta, és immortal;
Tu és a minha luz!

Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, á noite, fez nos céus.
Teu vulto scintillar.

Os raios das estrellas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.

Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til,
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.

Ferido, abre o guerreiro
Os braços, sólta um ai,
Pára, vacilla, e cáe
Para não mais se erguer.

Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.

Surges, symbolo eterno
No céu, na terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!





LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.






A PERDA D'ARZILLA.

(1549).

Era noite: do céu limpo e sereno
Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.

Como tocheiros com brandões accesos,
De um féretro ao redor,
Cuja vermelha luz o horror da morte
Só faz sentir melhor,
Taes as nocturnas almenáras fulgem
Nas torres d'atalaia,
Pelos outeiros, que circumdam muros
De povoação na praia.



Arzilla, a guerreira.
Lá jaz na afflicção,
Que a rendeu aos mouros
Elrei dom João.
Tomar-te-ha Deus contas,
Rei fraco e prasmado,
De tão grande vilta,
De teu grão peccado.
Maldiz-te nos mares
Valente fronteiro,
Que na sé de Ceuta
Se armou cavalleiro;
Que dez aduares
Em Tanger queimou,
E em muros d'Alcacer
Dez elches matou:
Que era hoje d'Arzilla
Temido adaí­l,
E a quem tu mandaste
Fugir como vil.



Vêde-o lá na gavia
Da negra galé,
De braços cruzados,
Immovel, em pé;
E a náu que arfa e voa
Na fremente via,
Ferindo na esteira
Fugaz ardentia;
E d'Africa as praias,
Que a ré vão fugindo,
E as vagas, que rolam,
Distantes mugindo.
Em roda o silencio:
No céu noite escura:
E o peito do triste
Confrange a amargura.



Do veterano as faces
O salso pranto réga:
Nos africanos montes
Saudoso os olhos préga.
Sente no seio as ancias
D'incomportavel dor,
E ás vezes range os dentes
Em trances de furor.
Um cantico á su' alma
A indignação inspira:
Vai sussurra-lo ao longe
Aura que branda espira.

O CANTO DO ADAÍL.


Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,
Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;
Quando o esculca, saído da villa
Da manhã ao primeiro fulgor,
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;
Quando em Tanger, a forte, se ouvia
De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;
Quando em Ceuta vencida se erguia
Sobre o alcacer pendão português,
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:
Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,
Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;
Porque, rico de presa formosa,
Já voltou nobre alcaide christão,
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:
Nossa estrella era então esplendente;
Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
Portugal, oh leão do occidente,
Tu rugias á beira do mar,
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:
Era o tempo dos crentes e ousados:
Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!
E esses muros d'Arzilla, regados
Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!
Oh valentes da India, do oceano,
Roncadores de féros no mar,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,
Mostrar vinde o valor sobre-humano
Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.
As galés do arrais mouro são fortes;
Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.
Uma festa de sangue e de mortes
Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d'inerme sultão!
Mercadores!—deixae vosso cravo,
A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.
Vella e remo soltae no mar bravo;
Vinde juncto de nós combater;
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.
Para nós os castellos d'avante;
Para nós a arrombada e bailéu;
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:
Para nós o machado e montante;
Para vós a bombarda e arcabuz;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;
Para nós o tombar derradeiro
Sobre o ferreo esporão das galés;
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!
O sudario do morto fronteiro
Alva escuma da proa será;
E em seus labios—Arzilla!—ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.



E elles, os fortes d'Asia, não vieram
Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
E a náu d'elrei ao infamado Tejo
Veio aportar:
E o adaíl depôs as armas rotas,
Não no espaldar;
Que nunca o bom fronteiro viram mouros
Costas voltar.



E tomando o bordão de peregrino,
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
De dominicos,
Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,
Porque eram ricos.
No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,
Féretro antigo
O adaí­l procurou. De um rei soldado
Era o jazigo.
Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,
Lhe dirigiu:
Maldicção para alguem pedia ao morto;
Mas nada ouviu!
Então, livido o rosto, os labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
Do rei extinto.
Expirára ao dizer—perdeu-se Arzilla!
A Affonso Quinto.




A ROSA.


Pura em sua innocencia.
Entre a sarça espinhosa,
Purpurea esplende, inda botão intacto,
Na madrugada a rosa.

É da campina a virgem
A pudibunda flor;
Em seus efluvios matutina brisa
Bebe o primeiro amor.

O sol inunda as veigas:
Calou-se o rouxinol;
E a flor, ebria de gloria, á luz fervente,
Desabrochou-a o sol.

O sôpro matutino
No seio seu pousára:
Prostituida á luz, fugiu-lhe a brisa,
Que a linda rosa amára.

Bella se ostenta um dia;
Saúdam-na as pastoras;
Dão-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;
Voam do goso as horas.

Lá vem chegando a noite,
E ella empallideceu:
Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;
A rosa emmurcheceu.

Desce o tufão dos montes,
Os matos sacudindo;
Desfallecida a flor desprende as folhas,
Que o vento vai sumindo.

Onde estará a rosa,
Do prado a bella filha?
O tufão, que espalhou seus frageis restos,
Passou: não deixou trilha.

Da sarça a flor virente
Nasceu, gosou, e é morta:
E a qual desses amantes de um momento
Seu fado escuro importa?

Nenhum, nenhum por ella
Gemeu saudoso á tarde;
Não ha quem juncte as derramadas folhas,
Quem amoroso as guarde.

Só da manhan o sôpro,
Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a innocencia
Em seu botão sorria,

Juncto do tronco humilde
O curso demorando,
Veio depositar perdão, saudade,
Queixoso sussurrando.

De quantas és a imagem,
Oh desgraçada flor!
Quantos perdões sobre um sepulchro abjecto
Tem murmurado o amor!





O MENDIGO.

I.

O sol passa nos céus:—sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,
Cego ancião,
Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora
Do opprobrio o pão.

Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
Involve a luz no manto impenetravel:
E elle chorou:
E em seus andrajos para choça alpestre,
Sem se queixar de Deus, tardios passos
Encaminhou:

Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,
Do presbyterio o sino harmonioso
Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons pausados,
Convidava os fiéis a erguer as preces
Da Ave-Maria.

Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas
O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
E uma oração,
A oração do infeliz, que Deus só ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria
Sua afflicção.

Para o velho a existencia é solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.
Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres
Dos seus amores.

A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu clarão, pendendo
Ante o altar-mór:
Como o templo, o porvir era do velho
Cheio de sustos; muda como o templo
Era a sua dor.

Resou, resou, e os olhos se enxugaram:
O orar fervente as lagrymas enxuga,
Qual prado o léste.
Deus o inspirou; sperança é filha sua,
Doce esperança, que os mortaes só deixa
Sob o cypreste.

Voltou á choça, e a macilenta fome,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
Que é quasi a terra;
E, confiado em Deus, entre as angustias
Do mal, menos crueis que as do remorso,
Os olhos cerra.

II.

Restruge o mar cavado; o vento zune
Pelos mastros da náu; colhido o panno
Das vergas pende;
Brinco das vagas, o baixel arfando
Fluctua incerto, e dos bulcões guiado
Os mares fende.

Correndo árvore secca avulta ao longe,
Como alma em pena vagueiando á noite
Em seu fadario;
E pelas trévas branquejando a escuma,
Que da prôa espadana, imita as prégas
D'alvo sudario.

Envolto no gibão amplo e felpudo,
Rude piloto ao leme trabalhoso
Véla encostado;
Que, se não mentem calculos, o porto
Proximo está, dos lassos navegantes
Tão suspirado.

III.

O vento vai quebrando, e já rareiam
Grossos montões de acastelladas nuvens:
Diurno alvor
Traça no céu d'oriente um risco immenso,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
Cerulea côr.

Surge o sol radioso e inunda as vagas,
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
Mais amplo é já:
Cava aragem ligeira a larga vela,
E do cesto o gageiro clama:—terra!
Ei-la acolá!»

Como deslisa o goso nos semblantes
Por entre as rugas do terror passado!
Como é formosa
Essa pallida praia, e esses rochedos,
E lá no extremo os pincaros da serra
Erma e saudosa!

De indicas mérces, de ouro carregada
Aproa á terra, com celeuma alegre,
A náu pujante;
E pelo verde mar do porto amigo
Abrindo a esteira, restitue á patria
O navegante.

IV.

É meia noite:—os gallos pela aldeia
Dizem que um dia mais desceu ao nada
E que outro vem,
Para dar luz a dores e alegrias
E depois nos abysmos do passado
Cahir tambem.

E o mendigo da aldeia, o velho cego,
Sobre o duro grabato, em choça humilde,
Achou a paz.
Em sonhos via um filho: a longes terras
A miseria o levou: mudada sorte
Feliz o traz.

Quantas vezes presága a mente do homem
Véla como um propheta, em quanto o somno
Seus membros prende;
E como, em trevas de amargosos dias,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,
Grata se accende!

V.