Montanha do oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
E que, lá
no occidente,
Ultima vês seu radioso
lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Rochedo, que
descanças
No promontorio nú e
solitario,
Como atalaia que o oceano explora,
Como atalaia que o oceano explora,
Alheio ás
mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e
vario,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Sobros, robles
frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao sol a prumo que o devora,
Fugindo ao sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos
céus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas tenues flores se evapora
De cujas tenues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem
sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh mar, que vais
quebrando
Rolo após rolo pela praia
fria,
E fremes som de paz consoladora,
E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna maritima sombria,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Oh lua silenciosa,
Que em perpetuo volver, seguindo a
terra,
Esparzes tua luz ameigadora
Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio
encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
Debalde o servo
ingrato
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Oh veneranda cruz:
Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És sancta, és immortal;
Tu és a minha luz!
Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, á noite, fez nos céus.
Teu vulto scintillar.
Os raios das estrellas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.
Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til,
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.
Ferido, abre o guerreiro
Os braços, sólta um ai,
Pára, vacilla, e cáe
Para não mais se erguer.
Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.
Surges, symbolo eterno
No céu, na terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Oh veneranda cruz:
Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És sancta, és immortal;
Tu és a minha luz!
Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, á noite, fez nos céus.
Teu vulto scintillar.
Os raios das estrellas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.
Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til,
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.
Ferido, abre o guerreiro
Os braços, sólta um ai,
Pára, vacilla, e cáe
Para não mais se erguer.
Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.
Surges, symbolo eterno
No céu, na terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!
LIVRO SEGUNDO
POESIAS VARIAS.
A PERDA D'ARZILLA.
(1549).
Era noite: do céu limpo e sereno
Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.
Como tocheiros com brandões accesos,
Milhões d'estrellas trémulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa galé o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E lá nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaços o albornoz do alarve.
Como tocheiros com brandões accesos,
De um
féretro ao redor,
Cuja vermelha luz o horror da morte
Só faz
sentir melhor,
Taes as nocturnas
almenáras fulgem
Nas torres
d'atalaia,
Pelos outeiros, que circumdam muros
De
povoação na praia.
Arzilla, a guerreira.
Lá jaz na
afflicção,
Que a rendeu aos mouros
Elrei dom João.
Que a rendeu aos mouros
Elrei dom João.
Tomar-te-ha Deus contas,
Rei fraco e prasmado,
De tão grande vilta,
De teu grão peccado.
De tão grande vilta,
De teu grão peccado.
Maldiz-te nos mares
Valente fronteiro,
Que na sé de Ceuta
Se armou cavalleiro;
Que na sé de Ceuta
Se armou cavalleiro;
Que dez aduares
Em Tanger queimou,
E em muros d'Alcacer
Dez elches matou:
E em muros d'Alcacer
Dez elches matou:
Que era hoje d'Arzilla
Temido adaíl,
E a quem tu mandaste
Fugir como vil.
E a quem tu mandaste
Fugir como vil.
Vêde-o lá na
gavia
Da negra galé,
De braços cruzados,
Immovel, em pé;
De braços cruzados,
Immovel, em pé;
E a náu que arfa e voa
Na fremente via,
Ferindo na esteira
Fugaz ardentia;
Ferindo na esteira
Fugaz ardentia;
E d'Africa as praias,
Que a ré vão
fugindo,
E as vagas, que rolam,
Distantes mugindo.
E as vagas, que rolam,
Distantes mugindo.
Em roda o silencio:
No céu noite escura:
E o peito do triste
Confrange a amargura.
E o peito do triste
Confrange a amargura.
Do veterano as faces
O salso pranto réga:
Nos africanos montes
Saudoso os olhos préga.
Nos africanos montes
Saudoso os olhos préga.
Sente no seio as ancias
D'incomportavel dor,
E ás vezes range os dentes
Em trances de furor.
E ás vezes range os dentes
Em trances de furor.
Um cantico á su' alma
A indignação
inspira:
Vai sussurra-lo ao longe
Aura que branda espira.
Vai sussurra-lo ao longe
Aura que branda espira.
O CANTO DO ADAÍL.
Quando, ao longe, nos campos
d'Arzilla,
Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;
Quando o esculca, saído da villa
Da manhã ao primeiro
fulgor,
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;
Quando em Tanger, a forte, se ouvia
De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;
Quando em Ceuta vencida se erguia
Sobre o alcacer pendão
português,
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:
Quando Alcacer-Ceguer, a
viçosa,
Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;
Porque, rico de presa formosa,
Já voltou nobre alcaide
christão,
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:
Nossa estrella era então
esplendente;
Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
Portugal, oh leão do
occidente,
Tu rugias á beira do mar,
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:
Era o tempo dos crentes e ousados:
Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!
Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!
E esses muros d'Arzilla, regados
Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!
Oh valentes da India, do oceano,
Roncadores de féros no
mar,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,
Mostrar vinde o valor sobre-humano
Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.
As galés do arrais mouro
são fortes;
Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.
Uma festa de sangue e de mortes
Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d'inerme sultão!
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d'inerme sultão!
Mercadores!—deixae vosso cravo,
A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.
Vella e remo soltae no mar bravo;
Vinde juncto de nós
combater;
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.
Para nós os castellos
d'avante;
Para nós a arrombada e
bailéu;
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:
Para nós o machado e
montante;
Para vós a bombarda e
arcabuz;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;
Para nós o tombar
derradeiro
Sobre o ferreo esporão das
galés;
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!
O sudario do morto fronteiro
Alva escuma da proa será;
E em seus labios—Arzilla!—ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.
E elles, os fortes d'Asia, não vieram
Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
E a náu d'elrei ao infamado Tejo
E em seus labios—Arzilla!—ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.
E elles, os fortes d'Asia, não vieram
Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
E a náu d'elrei ao infamado Tejo
Veio aportar:
E o adaíl depôs
as armas rotas,
Não no espaldar;
Que nunca o bom fronteiro viram
mouros
Costas voltar.
E tomando o bordão de
peregrino,
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
De dominicos,
Frades mui sanctos, que os judeus
queimavam,
Porque eram ricos.
No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,
Os despojos mortaes dos reis que foram,
Féretro
antigo
O adaíl procurou.
De um rei soldado
Era o jazigo.
Quando o viu, ajoelhou nos degraus
delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,
E palavras, que as lagrymas cortavam,
Lhe dirigiu:
Maldicção para
alguem pedia ao morto;
Mas nada ouviu!
Então, livido o rosto, os
labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
Do rei extinto.
Expirára ao dizer—perdeu-se
Arzilla!—
A Affonso Quinto.
A ROSA.
Pura em sua
innocencia.
Entre a sarça espinhosa,
Entre a sarça espinhosa,
Purpurea esplende, inda
botão intacto,
Na madrugada a rosa.
É da campina a virgem
A pudibunda flor;
É da campina a virgem
A pudibunda flor;
Em seus efluvios matutina brisa
Bebe o primeiro
amor.
O sol inunda as veigas:
Calou-se o rouxinol;
O sol inunda as veigas:
Calou-se o rouxinol;
E a flor, ebria de gloria,
á luz fervente,
Desabrochou-a o sol.
O sôpro
matutino
No seio seu pousára:
No seio seu pousára:
Prostituida á luz,
fugiu-lhe a brisa,
Que a linda rosa
amára.
Bella se ostenta um dia;
Saúdam-na as pastoras;
Bella se ostenta um dia;
Saúdam-na as pastoras;
Dão-lhe mil beijos,
gorgeando, as aves;
Voam do goso as
horas.
Lá vem chegando a noite,
E ella empallideceu:
Lá vem chegando a noite,
E ella empallideceu:
Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;
A rosa emmurcheceu.
Desce o tufão dos montes,
Os matos sacudindo;
Desce o tufão dos montes,
Os matos sacudindo;
Desfallecida a flor desprende as
folhas,
Que o vento vai
sumindo.
Onde estará a rosa,
Do prado a bella filha?
Onde estará a rosa,
Do prado a bella filha?
O tufão, que espalhou seus
frageis restos,
Passou:
não deixou trilha.
Da sarça
a flor virente
Nasceu, gosou, e é morta:
Nasceu, gosou, e é morta:
E a qual desses amantes de um momento
Seu fado escuro
importa?
Nenhum, nenhum por ella
Gemeu saudoso á tarde;
Nenhum, nenhum por ella
Gemeu saudoso á tarde;
Não ha quem juncte as
derramadas folhas,
Quem amoroso as
guarde.
Só da manhan o sôpro,
Passando no outro dia,
Só da manhan o sôpro,
Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a
innocencia
Em seu
botão sorria,
Juncto do tronco humilde
O curso demorando,
Juncto do tronco humilde
O curso demorando,
Veio depositar perdão,
saudade,
Queixoso
sussurrando.
De quantas és a imagem,
Oh desgraçada flor!
De quantas és a imagem,
Oh desgraçada flor!
Quantos perdões sobre um
sepulchro abjecto
Tem murmurado o
amor!
O MENDIGO.
I.
O sol passa nos céus:—sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,
Por cujos troncos se pendura a vide,
Cego ancião,
Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora
Ao passageiro, que o despreza, implora
Do opprobrio o pão.
Ninguem o escuta, o dia foge, e a
noite
Involve a luz no manto impenetravel:
Involve a luz no manto impenetravel:
E elle chorou:
E em seus andrajos para
choça alpestre,
Sem se queixar de Deus, tardios passos
Sem se queixar de Deus, tardios passos
Encaminhou:
Mas antes que chegasse ao pobre
alvergue,
Do presbyterio o sino harmonioso
Do presbyterio o sino harmonioso
Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons
pausados,
Convidava os fiéis a erguer as preces
Convidava os fiéis a erguer as preces
Da Ave-Maria.
Á cruz do adro relvoso as
mãos mirradas
O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
E uma oração,
A oração do
infeliz, que Deus só ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria
Quando o desdenha o mundo e ludibria
Sua afflicção.
Para o velho a existencia
é solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.
Bem como a fonte que esgotou o estio.
Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres
Onde contavam penas e prazeres
Dos seus amores.
A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu clarão, pendendo
Bruxuleava seu clarão, pendendo
Ante o altar-mór:
Como o templo, o porvir era do velho
Cheio de sustos; muda como o templo
Cheio de sustos; muda como o templo
Era a sua dor.
Resou, resou, e os olhos se
enxugaram:
O orar fervente as lagrymas enxuga,
O orar fervente as lagrymas enxuga,
Qual prado o
léste.
Deus o inspirou; sperança
é filha sua,
Doce esperança, que os mortaes só deixa
Doce esperança, que os mortaes só deixa
Sob o cypreste.
Voltou á choça,
e a macilenta fome,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
Que é
quasi a terra;
E, confiado em Deus, entre as
angustias
Do mal, menos crueis que as do remorso,
Do mal, menos crueis que as do remorso,
Os olhos cerra.
II.
Restruge o mar cavado; o vento zune
Pelos mastros da náu; colhido o panno
Pelos mastros da náu; colhido o panno
Das vergas pende;
Brinco das vagas, o baixel arfando
Fluctua incerto, e dos bulcões guiado
Fluctua incerto, e dos bulcões guiado
Os mares fende.
Correndo árvore secca
avulta ao longe,
Como alma em pena vagueiando á noite
Como alma em pena vagueiando á noite
Em seu fadario;
E pelas trévas
branquejando a escuma,
Que da prôa espadana, imita as prégas
Que da prôa espadana, imita as prégas
D'alvo sudario.
Envolto no gibão amplo e
felpudo,
Rude piloto ao leme trabalhoso
Rude piloto ao leme trabalhoso
Véla
encostado;
Que, se não mentem
calculos, o porto
Proximo está, dos lassos navegantes
Proximo está, dos lassos navegantes
Tão
suspirado.
III.
O vento vai quebrando, e
já rareiam
Grossos montões de acastelladas nuvens:
Grossos montões de acastelladas nuvens:
Diurno alvor
Traça no céu
d'oriente um risco immenso,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
Cerulea
côr.
Surge o sol radioso e inunda as
vagas,
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
Mais amplo
é já:
Cava aragem ligeira a larga vela,
E do cesto o gageiro clama:—terra!
E do cesto o gageiro clama:—terra!
Ei-la
acolá!»
Como deslisa o goso nos semblantes
Por entre as rugas do terror passado!
Por entre as rugas do terror passado!
Como é
formosa
Essa pallida praia, e esses rochedos,
E lá no extremo os pincaros da serra
E lá no extremo os pincaros da serra
Erma e saudosa!
De indicas mérces, de ouro
carregada
Aproa á terra, com celeuma alegre,
Aproa á terra, com celeuma alegre,
A náu
pujante;
E pelo verde mar do porto amigo
Abrindo a esteira, restitue á patria
Abrindo a esteira, restitue á patria
O navegante.
IV.
É meia noite:—os gallos pela aldeia
Dizem que um dia mais desceu ao nada
Dizem que um dia mais desceu ao nada
E que outro vem,
Para dar luz a dores e alegrias
E depois nos abysmos do passado
E depois nos abysmos do passado
Cahir tambem.
E o mendigo da aldeia, o velho cego,
Sobre o duro grabato, em choça humilde,
Sobre o duro grabato, em choça humilde,
Achou a paz.
Em sonhos via um filho: a longes
terras
A miseria o levou: mudada sorte
A miseria o levou: mudada sorte
Feliz o traz.
Quantas vezes presága a
mente do homem
Véla como um propheta, em quanto o somno
Véla como um propheta, em quanto o somno
Seus membros prende;
E como, em trevas de amargosos dias,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,
Grata se accende!