WeRead Powered by ReaderPub
Poesias cover

Poesias

Chapter 98: SCENA I.
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A coletânea reúne poemas de tom religioso e contemplativo que evocam ritos da Semana Santa, o interior de igrejas, o canto dos coros e a presença das velas e crucifixos. Intercaladas com imagens líricas de noite, vento e memória, surgem meditações sobre a morte, o juízo e a esperança na vida espiritual, acompanhadas de críticas ao falso devotismo, à hipocrisia e aos despotismos que corrompem a liberdade. A linguagem aposta em cadência solene e imagens visuais para unir fervor religioso e reflexão moral.

«Vive, oh triste,
Esquecido do mundo, e esquece o mundo!
Nas solidões profundas da tua alma,
Vazia das paixões que a assassinaram,
Some os cantos que della transudavam
Para correr n'um seculo sem vida,
Sem virtude e sem fé, e em que desabam
As crenças todas do passado, e é sonho
A constancia e o amor.»
Palavras estas
Extremas foram do proscripto. Longe,
Em praia estranha abandonando a barca,
Qual o seu fado foi ninguem mais soube.




N'UM ALBUM.


Quando o Senhor envia
O trovador ao mundo,
Faz devorar a essa alma
Fel amargoso e immundo;

Porque lhe diz:—Poeta,
Vai conhecer a terra;
Prova dos seus deleites;
Prova do mal que encerra.

Desses e deste esgota
As taças muitas vezes,
Embora de uma e d'outra
Aches no fundo fézes:

E quando bem souberes
Que tudo é sonho vão;
Que é nada a dor e o goso,
Sólta o teu hymno então.»

E o pobre desterrado
Vem seu mister cumprir.
Nasce: homens e universo,
Tudo lhe vê sorrir;

E o seu balbuciar
Um canto é d'innocencia:
Mas outro foi seu fado;
Guia-o a providencia.

É cherubim precíto
Qu' inda entrevê o céu,
Mas através da vida,
Mas através de um véu.

Em turbilhão d'affectos,
Seu íntimo viver
Rapido lhe devora
Sperança, amor e crer.

Do goso nos deli­rios
Debalde busca o amor;
Saudade melancholica
Pede debalde á dor.

Depois, desanimado,
Pára a pensar em si,
Acha no seio um ermo,
E tristemente ri.

É desde aquelle instante
De um acordar atroz,
Que ao condemnado lembra
Do que o mandou a voz.

Então entende e cumpre
Seu barbaro destino;
Então é que elle aprende
A modular um hymno.

Virgem, ao que assim passa
Por meio do existir,
Calcando os frios restos
Do crer e do sentir,

Não peças te revele
Sua alma na poesia,
E dê aos pensamentos
O encanto da harmonia;

Porque lá, nesse abysmo,
Não resta uma illusão:
Só ha perpetua noite,
E injuria e maldicção.

Não entenderas, virgem
Ainda innocente e pura,
O canto que surgira
Dessa alma gasta e escura.

Deixa-o seguir seu norte,
Cumprir missão cruel;
Deixa-o verter o escarneo;
Deixa-o verter o fel;

Deixa-o cuspir em faces
Onde não ha pudor,
E ao mundo, ebrio de si,
Rindo ensinar a dor.

As sanctas harmonias
De cantico innocente
Sabe-as o alvor do dia
Quando rompe do oriente;

Murmura-as o regato;
Vibra-as o rouxinol;
Vem no zumbir do insecto,
No prado, ao pôr do sol;

Vivem no puro affecto
Da filial piedade,
Nos sonhos e esperanças
Da juvenil idade.

Esta poesia é tua:
Eu já a ouvi e amei;
Mas hoje nem a entendo,
Nem repeti-la sei.

Assim, meu nome só
Escreverei aqui;
Som vão, intelligivel
Apenas para ti;

Extincto candelabro
Do templo do Senhor,
Que por algumas horas
Deu luz, teve calor;

Lenda de sepultura,
Que fala em gloria e vida,
E esconde ossada infecta
Dos vermes corroída;

Pinheiro solitario,
Que o raio fulminou,
E que gemeu tombando,
E não mais murmurou.



A FELICIDADE.


Era bello esse tempo da vida,
Em que esta harpa falava de amores:
Era bello quando o estro accendiam
Em minha alma da guerra os terrores.

Nesse tempo o balouço das vagas
Me era grato, qual berço da infancia;
E o sibillo da bala harmonia
Semelhante á de flauta em distancia.

Eu corri pelos campos da gloria,
D'entre o sangue colhendo uma palma,
Para um dia a depor aos pés dessa
Que reinou largo tempo nesta alma.

Mas qual ha coração de donzella,
Que responda a um suspiro de amor,
Quando vibra nas cordas sonoras
Do alaúde de pobre cantor?

Triste o dom do poeta!—No seio
Tem volcão que as entranhas lhe accende;
E a mulher que vestiu de seus sonhos
Nem sequer um olhar lhe compr'hende!

E trahido, e passado de angustias,
Ao amor este peito cerrara,
E, quebrada, no tronco do cedro
A minha harpa infeliz pendurara.

Um véu negro cubriu-me a existencia,
Que gelada, que inutil corria;
Meu engenho tornou-se um mysterio
Que ninguem neste mundo entendia.

E embrenhei-me por entre os deleites;
Mas tocando-o, fugia-me o goso;
Se o colhia, durava um momento;
Após vinha o remorso amargoso.

Esqueci-me do Deus que adorara;
O prestigio da gloria passou;
E a minha alma, vazia de affectos,
No limiar do porvir se assentou:

Meus pulmões arquejaram com ancia,
Buscando ar na amplidão do futuro,
E sómente encontraram, por trévas,
De sepulchros um halito impuro.

Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;
Eu te achei, oh milagre de amor!
Outra vez vibrará um suspiro
No alaúde do pobre cantor.

Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu já adorei,
Quando aos pés de mulher enganosa
Meu alento em canções derramei.

Se na terra este amor de poeta
Coração ha que o possa pagar,
Serás tu, virgem pura dos campos,
Quem virá a minha harpa acordar

Como a luz duvidosa da tarde,
Quando o sol leva ao mar mais um dia,
Reverbera poesia e saudade
Na alma immensa de um rei da harmonia;

Tal poesia e saudade em torrentes
No teu meigo sorrir eu aspiro,
E no olhar que me lanças a furto,
E no encanto de um mudo suspiro,

Para mim és tu hoje o universo:
Soa em vão o bulicio do mundo;
Que este existe sómente onde existes:
Tudo o mais é um ermo profundo.

No silencio do amor, da ventura,
Adorando-te, oh filha dos céus,
Eu direi ao Senhor:—tu m'a déste:
Em ti creio por ella, oh meu Deus!»




OS INFANTES EM CEUTA.

DRAMA LYRICO EM UM ACTO.

(1415)


O infante D. Duarte.
O Infante D. Pedro.
O Infante D. Henrique.
Gulnar, filha do wali de Ceuta.
Lobna, escrava.
Haleva, escrava.
Um pagem.
Um sobrerolda.
Côro de cavalleiros portugueses.
Côro de cavalleiros mouros.
Côro de escravas, e de eunuchos negros.





SCENA I.


Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Córos de cavalleiros portugueses. D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D. Duarte pára, cruza os braços e contempla por um instante os cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado falando a sós, e volvendo de quando em quando os olhos para o principe.

D. DUARTE.

Eia pois, cavalleiros! Breve os mares
Cruzaremos de novo além do Estreito!
Os inimigos timidos refogem
Da conquistada Ceuta.
Pelas campinas pallidas, ao longe,
Das altas torres espraiando os olhos,
Não se vê alvejar lá no horisonte
Um albornoz mourisco.
Folgue o que volta á patria enriquecido
Pela ganhada gloria: folgue aquelle
A quem coube o desterro entre estes muros,
Por conservar erguida
Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias
O estandarte real: morrendo, é martyr:
Seu nome eterno viverá na historia.
Folgae, meus cavalleiros!

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,
Para o velho homem d'armas d'elrei,
Que ha trinta annos nos diz:—combatei!»
Sem jámais a armadura largar!

Sob o forro do elmo pulido
Nossa fronte, senhor, se enrugou,
E estes peitos robustos quebrou
Dos arnezes conti­nuo pesar!

Bem vinda a hora
Em que voltemos,
E emfim saudemos
O nosso lar;
Em que possamos
No patrio rio
O sol do estio
Ver scintillar;
E, dos sinceiros
Entre a espessura,
Da guerra dura
Ir repousar!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Parti vós, cavalleiros:
A Portugal tornae;
E o nosso nome ás bellas
Donzellas
Lembrae!
Dizei-lhes que, se ás lides
Votámos peito e braços,
Por ellas suspiramos,
E amamos
Seus laços;
E que destes labios
Palavra amorosa
Por moura formosa
Jámais sairá.
Opprobrio e vergonha
Ao que as esquecer!
Infamia ao que arder
Por filha d'Allah!


D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio dos cavalleiros.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Infamia, dizeis vós?

D. DUARTE.

Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mão para a frente da scena.

Por Deus, calae-vos!
Ignoram vosso amor esses guerreiros.
Da patria elles falavam:
Não a trahir juravam.
E vós? Vós que sois filhos
D'elrei de Portugal; vós, cavalleiros,
Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,
Vosso nome manchastes
Com um affecto ignobil...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que ousaes dizer, senhor!

D. DUARTE.

Sim, ignobil affecto! Amor gerado
Entre rios de sangue, ao lampejarem
Cruzados ferros, no aduar mourisco
Á viva força entrado.
Conduziu-vos, dissestes-me, o combate
A suberbo palacio. Alto repouso
Era de morte ahi: seus defensores
Tinha-os o ferro português ceifado,
Duas mouras formosas,
Vencidas do terror, na fuga anciosas,
Cahindo a vossos pés pediram vida,
Liberdade, honra, e vós...

D. PEDRO.

Assegurámos-lhes
Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos
D'elrei de Portugal, e cavalleiros!
Era o nosso dever.

D. DUARTE.

E era-o cederdes
A um amor insensato; o prometterdes
Pelas nocturnas trévas conduzi-las
Ás naus que vão partir?

D. HENRIQUE.

Será rouba-las
Á falsa crença do koran...

D. DUARTE.
Com vehemencia.

E a infamia
Lhes gravareis depois nas frontes puras?
Isso é torpe! Isso é vil!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor infante!

D. DUARTE.

Com ardor.

Oh, que não ha-de ser! No quarto d'alva
A armada partirá.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Com inquietação.

Zombaes?

D. DUARTE.

Ouvi-me!
É o mandado d'elrei...

Dirigindo-se aos cavalleiros.

Meus velhos guerreiros,
As armas tomae,
E á praia fremente
Os passos guiae;
Que as náus já fluctuam:
Não tarda o partir.
Nos mares a aurora
Veremos surgir.

CÔRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Ajoelhando e estendendo os braços para o céu.

Virgem! Esperança!
Estrella do mar,
Ouvi nosso orar;
Mandae-nos bonança!
Salvae-nos, salvae-nos!
E á patria levae-nos!


Erguem-se e vão saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.

Á patria levae-nos!...

D. DUARTE.

Guerreiros novéis
As armas vestí,
E os muros de Ceuta
De lanças cubrí­.
Bandeira da serpe,
Bandeira d'elrei,
No alcacer, nas torres
Guardae, ou morrei!

CÔRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.

Contentes saudamos
Os dias de guerra:
Ser dignos da terra
Da infancia juramos.
O braço não treme!...
O peito não teme!...


Vão saindo, e ouve-se-lhes ainda fóra:

O peito não teme!...

D. DUARTE.

Restam bem poucas horas:
Salvos estaes infantes!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Sabe um amor immenso
Horas fazer de instantes.

D. DUARTE.

Que!? Ousarieis 'inda?...

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Nós ousaremos tudo!

D. DUARTE.

Não! Filial piedade
Vos servirá d'escudo!


Com gesto supplicante.

Pela memoria sancta
De nossa mãe querida,
Que na feral jazida
Tal crime assombrará,
Afugentae qual sonho
Esse insensato amor,
Que o odio, que o furor
Do céu accenderá!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Mas deste amor profundo
Quem nos libertará?

D. DUARTE.

Vêde quem sois, e o mundo
Como vos julgará!

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Duas formosas almas
Por nós a fé ganhou.

D. DUARTE.

Antes por vós o sangue
De Aviz se deshonrou.

UM PAGEM.

Entrando apressado.

Pri­ncipe, elrei vos chama.

D. DUARTE.

Ide; eu vos sigo.


Lançando os braços ao pescoço dos dous infantes apenas o pagem sáe, D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.

Oh meu Pedro, oh meu Henrique,
Louco intento abandonaes?!
Não passar de Ceuta as portas
Hoje, aqui, vós me juraes?!


Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro

D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor, do sceptro herdeiro,
Vossos irmãos mandaes...
De Ceuta as ferreas portas
Não cruzaremos mais!

D. DUARTE.

Basta-me tal promessa!
Só mentem desleaes.



SCENA II.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

D. HENRIQUE.

Olhando para o pri­ncipe que sáe, e sorrindo.

A promessa ha-de cumprir-se!
Nobre infante, vae seguro!

D. PEDRO.

Com hesitação.

Mas de Ceuta o erguido muro
Como além, hoje, transpôr?...

D. HENRIQUE.

Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fóra.

Vedes vós, lá em baixo, esse vulto
Amplo e negro da torre de Fez,
Que inda ha pouco o mais forte pavez
Do vencido muslim se ostentou?

D. PEDRO.

Vejo; e lembram-me as portas robustas
Que a acha d'armas a custo desfez;
E que nesse momento se fez
Um silencio que instantes durou...

D. HENRIQUE.

E parámos; e ouvimos ao longe
Tinir d'armas, correr de corceis,
E o confuso bradar d'infiéis,
Restrugindo os seus gritos de dor...

D. PEDRO.

Subterraneo caminho os salvava
Das espadas dos nossos fiéis,
Quando inuteis alfanges, broqueis
Lhes tornára profundo terror...

D. HENRIQUE.

O que ao mouro no trance tremendo
De destino cruento remiu,
Esta noite, a quem nunca mentiu
De mentir uma vez salvará.

D. PEDRO.

Com grande jubilo.

Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!
Outras portas o amor nos abriu;
Nossa estrella dos céus nos sorriu;
O caminho, o caminho é por lá!

D. HENRIQUE E D. PEDRO.

Noite placida e formosa,
Noite grata a um vivo affecto,
Para nós no torvo aspecto
Te deslisa almo prazer!

Bella noite silenciosa,
Sê propicia ao nosso intento;
Com teu véu cobre o momento
Do partir e do volver!



SCENA III.


Sala nos paços do wali Bensalá n'uma aldeia das vizinhanças de Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto. No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Côro de donzellas arabes cantando ao som de harpas.

CÔRO.

Dorme, dorme desgraçada!
Dorme, filha do wali!
Possa o somno sobre ti
O consolo derramar.

Quando dormes é teu gesto
Brando e meigo qual de huri;
Mas vingança nelle ri
Ferozmente ao despertar.

GULNAR.

Erguendo-se lentamente.

Oh, como é doce o som de vossas harpas,
Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes
Um pouco minha dor. Senti correrem
Destes olhos as lagrymas... Ai! breve,
Repentino terror veio enxuga-las.
Meu pae... Que diz Levi?

CÔRO.

Oh Deus!

GULNAR.

Entendo:
Não tenho que esperar?..

CÔRO.

Delira. Golfa o sangue
Da profunda ferida,
Por onde foge a vida
Do inerte corpo exangue.


GULNAR.

Com gesto ameaçador, e erguendo-se.

Oh, basta! Inulto,
Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho
Não dormirás! Meu pae, Gulnar t'o jura!
Lobna e Haleva onde estão?


SCENA IV.

LOBNA E HALEVA.

Entrando apressadamente assustadas.

LOBNA.

Eis-nos, princesa!
Os espias voltaram: tumultuando
Na marinha de Ceuta homens, ginetes,
Ao pôr do sol: as naus soltando as vélas,
Proas á terra: o esquife após o esquife
Entre a praia e as galés cruzando as ondas;
Tudo do amir christão mostra a partida.

GULNAR.

O tigre português volta ao seu antro!
Mas Ceuta...

Com amargura.

Profanada e serva és Ceuta!
O que te amou qual pae jaz moribundo
No seu leito de dor. Foi por salvar-te
Pérola rica do Moghreb. Inutil
O sangue se verteu! Oh, sem vingança
Não ficaremos nós: nós ambas orphans,
Eu desterrada e tu escrava. O nobre
Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora
Não veja mais a luz. Mas trema o fero
Amir de Portugal! Gulnar, a filha
Do vencido wali, ha-de vinga-lo.
Lobna e Haleva esta noite...

HALEVA.

Hesitando.

E quem vos disse
Que elles hão-de voltar?..

GULNAR.

O juramento:
O juramento seu!.. Já não sois servas,
Bellas filhas do Caucaso; sois socias
Da implacavel Gulnar. A vós a gloria
De tornar mais cruel su' hora extrema.
Quanto ardente paixão tem de ternura
Quantas fascinações ha no amor virgem:
Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,
O pranto, o resistir tem de deli­rio;
Tudo, tudo empregae! Raio de morte,
Juncto ás portas do céu, lance-os no inferno.


Erguendo as mãos.

Escuta, emfim, meu pranto,
Dos impios vencedor:
Manda, propheta sancto,
O anjo exterminador.

Chore a roubada prole
O português amir:
Que o sangue me console
Antes de o sol surgir.

Cercae-os vós de goso:
Sintam que é bom viver:
Será mais horroroso
Meu brado:—Ide morrer!»

Vem, oh terrivel hora,
Hora do meu folgar,
Hora em que vingadora
Triumphará Gulnar.

Dirigindo-se ao côro.

Ide; patente
Do alcacer seja o ádito: silencio
Profundo reine em toda a parte: os gritos
Dos moribundos só... hão-de quebra-lo!
Vingança a Bensalá.

CÔRO.

Vingança á patria!

GULNAR.

A Haleva e Lobna com gesto terrivel.

Em breve me vereis!...



SCENA V.

LOBNA E HALEVA.

Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do côro, e depois correm a lançar-se nos braços uma da outra.
HALEVA.

Ai, como foi mesquinha
A nossa escura sorte!
Porque a terrivel morte
Os tristes conduzir?

LOBNA.

Oh, se Gulnar os víra,
De sangue inda banhados,
Vencidos, humilhados,
A nossos pés cahir!

HALEVA.

Que lhes valêra? Sangue,
Sangue só quer a hyena:
A cólera a aliena:
Não póde perdoar!

LOBNA.

Haleva, minha Haleva,
De susto eu titubeio:
Tu imagina o meio
De as victimas salvar.

HALEVA.

Miseras! Só nos resta,
Em festa sanguinosa,
Sob a traidora rosa
O aspide esconder.

LOBNA.

Que importa a pobre escrava
De susto e de amor trema?
Embora chore e gema,
Cumpre-lhe obedecer.

HALEVA E LOBNA.

Sólta o suave canto
Captivo rouxinol,
Quando o nascente sol
Derrama seu fulgor;

E as aves vem, correndo,
Pousar no umbroso til,
Onde com arte vil
As prende o caçador.

O canto da avesinha
Foi nosso amor fatal!
E elles... destino igual
Lhes reservou o amor!



SCENA VI.


Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena, onde se vêem tres ou quatro vigias encostados ás ameias do plano inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre lê-se a seguinte inscripção:==Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy eyscelente e esforçado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415 annos.==É noite.

D. DUARTE.

Saíndo seguido de um sobrerolda, ambos apressados.

Viste-los vós?...

SOBREROLDA.

Jura-lo
Posso. Dous cavalleiros:
Negras armas: cavallo
Negro ambos. Ligeiros
Voam... Ouví!...


D. Duarte chega ás ameias escutando.

Ao largo
Ainda soa o tropel.

D. DUARTE.

Áparte com afflição e despeito.

Oh pensamento amargo!
Oh receiar cruel!


Ao sobrerolda.

E os homens d'armas?

SOBREROLDA.

Velam:
Não falta um só.


Escutando para a campanha.

Ao seu correr, que anhelam
Voltar antes do dia.

D. DUARTE.

Não mais...


Chegando-se ás ameias, e apontando para baixo.

Para a barreira
Cem lanças o adail
Conduza: da dianteira
Todos; que valem mil!
E eu lá serei em breve:
E elles hão-de seguir-me.
Sabe-lo elrei não deve.
Ai do que ousar trahir-me!


O sobrerolda sai.

Sob o seu gesto candido
O engano se escondia!
Era uma idéa perfida
Que na alma lhes surgia,
Quando de Ceuta as portas
Juravam não transpôr!
Creram que a noite lobrega
Seu crime esconderia!
Perante o céu, oh miseros,
Que importa a noite, o dia,
Se de ira se ha turbado
A face do Senhor?


Pausa: com terror.

Mas se a suprema cólera
Terrivel já descesse!...
Se, em vez do goso vívido,
A morte os acolhesse!...


Erguendo as mãos.

Meu Deus perdoa aos tristes;
Cede á fraterna dor!

Oh minha mãe, da placida
Morada da ventura,
Guia-me os passos tremulos
Por esta noite escura,
Para salvar teus filhos,
Filhos de tanto amor!


SCENA VII.


A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas arda um ou dous lumes: a gelosia está aberta: é noite escura. Lobna e Haleva saíndo pela direita, e parando de quando em quando, lançam os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da esquerda.

LOBNA.

No seu rapido gyro foge a noite
Ligeira e socegada:
Fulgor da madrugada
Em poucas horas subirá d'oriente.
Não poderam voltar!... Respiro...

HALEVA.

Aproximando-se da gelosia.

Escuta!
Ouviste um silvo agudo?
É o signal!...

LOBNA.

Eu tremo...
Porém não... Quedo é tudo;
Salvo um ruído sussurrando ao perto,
De almogavar talvez...

HALEVA.

De dous ginetes
O tropeiar parece... Elles!... São elles!
Sobre trajos de ferro espadas tinem!
Não ha que duvidar...

LOBNA.

Oh! desfalleço!

Ouve-se um sibillo já perto.

HALEVA.