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Quatro Novelas

Chapter 15: VII
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About This Book

As quatro novelas reúnem retratos íntimos de afetos e tensões familiares, desde o regresso de um jovem à terra natal e a mistura de vergonha e saudade, até episódios de renúncia e sacrifício que marcam mulheres e crianças. Predomina a observação psicológica e o detalhe cotidiano: cartas, recordações, pequenos gestos e decisões impõem obrigações sociais e emocionais. Ao alternar tons realistas e contemplativos, a narrativa examina a delicadeza dos laços fraternos, o peso das expectativas e as formas discretas de resistência e entrega no âmbito doméstico.

Mas, a pouco e pouco apossando-se de si mesma, resolveu fazer prontamente o que havia tanto desejava com ânsia: mandar buscar a filha, reconhecê-la como tal, e conservá-la junto do seu coração e até á morte, triplicando em carinhos os anos de amargurada saüdade em que a tinham conservado.

Foi têr com Madre Angelica, que era ainda a Superiora venerada e querida, que anos antes a acolhera no seu coração maternal.

Parecia outra, galgando lestamente as escadarias e correndo pelos corredores que levavam até á céla da Superiora, que já quasi nunca sahia do seu cantinho cheio de sol. Com os seus trinta e quatro anos vividos numa vida quasi vegetativa, os traços finos do seu rosto, que fôra duma formosura discreta de morena, conservavam, apesar de tudo, a delicadeza e a graça ingenua que fôram o grande encanto da sua mocidade, quando a tinham trazido para ali.

Nos momentos—raros momentos que elles fôram!—de perfeita felicidade para o seu{239} coração, toda a sua pessôa irradiava uma alegria confiante, que a tornavam singularmente encantadora.

Quando Madre Angelica levantou os olhos do livro de orações para dar a licença que ella lhe pedia á porta, foi já com o assombro que causa uma grande mudança numa pessôa querida, porque a propria voz da recolhida era outra—um novo timbre de alegria a fazia desconhecivel.

—«O que é, Soror Manoela?!... Alguma novidade lá por baixo?

—«Não, Madre Angelica, a novidade é só minha... é uma coisa que eu pensei e que lhe venho participar...

E Manoela explanou, diante da pobre freira sobresaltada, o projéto, que tão simples se lhe afigurara.

—«A sua filha para aqui, Soror Manoela, pensou isso?!...—perguntou apavorada.

—« Sim, para aqui, então não hade sêr para aqui?!

—«Oh, meu Deus, meu Deus! Para que estou eu guardada, santo Deus?!—lamentava a Superiora.

—«Mas eu não compreendo o seu espanto, Madre Angelica! Então não sabia o motivo porque estou aqui ha dezoito anos? Não foi a Madre Angelica que me levou á obediencia{240} a minha mãe adiando até agora a realisação do meu desejo?!...

—«Sempre imaginei morrer antes de vêr esse escandalo!... Meu Deus, meu Deus! Então a minha filha quer dar a essas meninas o público espétáculo da sua antiga culpa?!... Quer sêr o riso e a fabula de toda a cidade?! O que dirão de nós?! Com tanta má vontade contra as casas religiosas, com tanta calúnia que se tem levantado, se Soror Manoela vai agora apresentar publicamente a sua filha, o que não dirão?!...

—«E que me importa tudo isso?!—não sou eu livre porventura?!

—«Oh, livre, livre!... Ninguem é livre de alardear os seus pecados—respondeu a freira, impacientada.

—«Não é isso o que nos diz a nossa religião, Madre Superiora. Esconder um pecado ou culpa é uma prova de orgulho que Deus condena.

—«Mas não neste caso, em que a sua publicação trará descrédito e vergonha para a nossa santa casa. O que dirão, sabe, Soror Angelica?... Dirão que nesta casa a imoralidade chegou ao ponto de se apresentarem publicamente as filhas das freiras!...

—«Dirão uma mentira, que eu propria desfarei contando a verdade. Bem sabe, Madre{241} Angelica, que se não fiz isto ha muitos anos foi por seguir os seus conselhos, nos quais me mostrou que devia obediencia a minha mãe. Por ella, por esse respeito de que me falou para com uma pessôa que me afastou da casa de meu pai, que me expulsou como a uma criminosa, sofri dezoito anos dum silencio que considero uma covardia hôje... Ah, dezoito anos de saüdades por uma filha que se não conhece e pela qual se morre de amôr!... Ah, Madre Angelica, como fôram crueis comigo! A culpa, se a houve, se uma criança, como eu era, a pode têr por se deixar iludir por um homem da sua casta, um amigo de seu irmão... essa culpa bem a tenho lavado com lagrimas de um coração ansioso por conhecer a sua propria filha. Ah, a Madre Superiora é cruel: foi-o comigo, quando me fez recuar ante a minha justa vontade; é-o agora ainda, porque não compreende este meu sentir!... Mas agora sou livre; quero a minha filha—e heide tê-la!...

Manoela, sempre tão delicada no dizer e tão submissa, chegava nesse momento á voluptuosidade das almas sacrificadas quando uma vez chegam á consolação de poderem articular a verdade, que lhe sahia em palavras que pareciam golfadas, num atropêlo de quem{242} esteve encarcerado largos anos e vê por acaso uma porta escancarada.

—«E seus irmãos, o que dirão elles desse áto?—arriscou a Superiora tentando dissuadi-la.

—«Meus irmãos!?... Que lhes devo eu, Madre Superiora? Ha dezoito anos que me viram partir de casa, um amaldiçoando-me, os outros nem perguntando a causa dessa sahida, e só agora me escrevem porque apesar de tudo a lei me confere o direito de partilhar com elles a herança de nossos pais. Meus irmãos!? Quasi os não conheço... Nem lhes devo amizade, nem respeito. Á minha filha, sim, a essa devo todo o meu amôr, todos os momentos do resto da minha existencia.

—«Soror Manoela, pense bem. Será um escandalo! O que dirão essas meninas do côro, as criadas, as senhoras que nos protegem e nos dão a sua amizade?!... Para que estava eu guardada, Senhor!?—E a freira levantava as mãos e os olhos ao céo, num gesto implorativo, murmurando:—Ah, se Madre Gertrudes fôsse viva!...

—«Sim,—volveu a outra com vivacidade, tão pouco do seu costume—tem razão! Se minha tia fôsse viva, ella seria a primeira a chamar a si essa pobre criança que tem sido escorraçada de todos como um cão tinhoso.{243} E já que a não posso trazer para esta casa que me foi abrigo nas horas tristes da vida, sahirei daqui. Irei viver com minha filha livremente...

—«O que diz, Soror Manoela, deixar-nos!? Quer deixar-nos agora que estamos com os pés para a cova, e é a unica pessôa que aqui temos para nos ajudar a bem morrer, acabando em paz na nossa santa casa?!...

Os soluços sufocaram-na. Tambem ella sofria com a dôr da sua pupila; tambem dos seus olhos, que já deveriam estar esgotados, por tanto terem chorado, cahiram lagrimas que Manoela recolheu no coração angustiado.

Soror Angelica abriu-lhe os braços, e por largo tempo ficaram chorando juntas o desespero dessa primeira desinteligencia em tantos anos de confiada e dôce amizade. Foi a freira que quebrou o silencio:

—«Soror Manoela, mande vir a menina; mas, se lhe merecem alguma consideração as suas velhas companheiras, não a reconheça desde já publicamente. Deixe que a morte feche as portas do nosso convento, e então será completamente livre para fazer a sua vontade.

—«Mas que nome dará á amizade por uma criança que tão empenhadamente mando vir para junto de mim?{244}

—«Não poderá sêr uma afilhada?...

—«Afilhada?!....—Manoela hesitava, pesando-lhe muito aquella fraqueza como uma verdadeira covardia. Mas as velhas companheiras de toda a sua existencia de expulsa mereciam alguma consideração... Cederia.

Tinha de sêr—mais uma vez sacrificando ao descanso dos outros os seus sonhos, as suas revoltas, as suas alegrias, a sua vontade.{245}

 

VI

Alguns dias depois chegava Christina, acompanhada pela Ama-Rita, que chorava de comoção só com o pensamento de revêr a sua querida menina.

Manoela foi esperá-las á portaria, escondendo a custo a ansiedade da sua alma que tumultuava em desejos loucos de tomar a filha nos braços e gritar bem alto a sua paixão.

Toda ella tremia, sorrindo contrafeita ás conversas e perguntas das outras senhoras, amparada pela Madre Superiora, que extraordinariamente sahira do cantinho da sua céla para a fortalecer naquella suprema prova.

Veiu por fim a hora da chegada; abriu-se a portaria, e Manoela poude vêr pela grade entreaberta a Ama-Rita, muito vélhita e trôpega, acompanhada por uma mulher, uma verdadeira mulher forte e desempenada, que olhava com visivel curiosidade essas paredes enegrecidas que iam sêr o seu novo abrigo—sahida dum convento, onde a mãe pagara para a educarem, para entrar naquelle como recolhida.

Manoela, á medida que a filha se ia aproximando, subindo a escada para entrar no{246} palratorio, ia recuando espavorida, sentindo um frio de morte no coração, que a asfixiava. É que diante dos seus olhos estava, não a filha que amava e chamara febrilmente durante anos de paixão esteril em que se consumira, mas a imagem viva do homem que, na rétidão do seu caráter, apenas podera desprezar como um sêr ignobil e ascoroso.

Christina não era nada, nada do que ella tinha idealisado. Não era a sua filha, era a filha delle, que a natureza, inconsciente na fatalidade da sua força, lhe punha nos braços.

Vencendo a repugnancia instintiva que essa semelhança lhe inspirava, foi sorrisonha e meiga que recebeu a afilhada, mas Christina não correspondeu tambem a esse apêlo. Os seus olhos garços ficaram frios e dominadores, como eram habitualmente; a sua bôca não se desdobrou álêm do sorriso escarninho que lhe errava habitualmente nos labios.

Foi tristemente resignada que Manoela a acompanhou ao dormitorio cheio de luz onde ella dormia, e onde, com amoroso cuidado, lhe arranjara a cama velada com cortinados de inexcedivel brancura, fresca como um berço de criança.

Ama-Rita seguiu-as falando muito, abraçando de quando em quando a sua querida menina, que ainda era capaz de reconhecer{247} entre muitas apesar de tão mudada e tão triste.

Christina não despertou a simpatia viva que a mãe inspirara a toda a comunidade logo ao entrar no convento.

Pagava com sorrisos contrafeitos os carinhos que lhe faziam, e mal atentava nos mimos com que a mãe a rodeava. Aborrecia-se e impacientava-se com as pobres vélhinhas, que procuravam nessa mocidade a alegria que as aquecesse e lhes reflorisse as existencias a extinguirem-se. Como á mãe, outrora, todas abriram o coração a esse coração, mas este permaneceu fechado e frio, afastando-as descaroavelmente.

Tinha revoltas bruscas, respondia sêcamente, e queixava-se á Ama-Rita de que a queriam sepultar entre quatro paredes e que a tinham tirado duma prisão para a fecharem noutra peor. Manoela sofria com todas essas pequenas coisas, que se iam avolumando, tornando-a odiada por todas as outras companheiras; mas temia fazer-lhe qualquer observação receando o seu genio, que presentia violento e áspero...

Até que um dia Christina, de combinação com uma menina do côro que levou á rebelião, pôs uma verdadeira nota de escandalo no meio conventual, subindo com ella ao{248} telhado para vêr o que se passava no largo apinhado de gente para a feira.

Manoela foi obrigada a proceder, advertida pela Madre Superiora, que a acusava, com a sua voz dôce, de falta de energia para com a filha.

—«Christina—dizia-lhe meigamente—para que me obriga a admoestá-la? Para que faz coisas... que não ficam bem a uma menina?...

—«Mas o que fiz eu, minha senhora? Foi algum crime subir ao telhado para tomar um pouco de ar, para fugir um instante desta sensaboria?!

—«Mas a Christina não está bem, não gosta de estar no convento?

—«Não, minha senhora, não gosto de estar nesta prisão.

—«Mas oiça: hade sahir, tenha paciencia um pouco. Isto não pode durar muito; são apenas duas as freiras que ainda existem, e quando ellas morrerem sahiremos ambas. Continuará aqui a sua educação; a Christina sabe tão pouco que mal se poderá apresentar no mundo, onde ha muita exigencia para as senhoras da nossa classe.

—«Ah, sim!? Conselhos, conselhos tenho ouvido muitos. Eu já tenho educação bastante, não preciso mais...{249}

—«Christina!?

—«Minha senhora!?

—«Então não está bem ao pé de mim?...—E querendo-a convencer, com a sua voz dum carinho maternal:—Não diga que não, que é sêr ingrata. Se soubesse como sou sua amiga!...

—«Minha amiga?! Se o fôsse, não me prendia aqui como uma criminosa. Se o fôsse, não me chamava afilhada—quando eu sei muito bem que tenho outro nome...

Manoela interrompeu-a com um grito desvairado:

—«Christina, Christina, cala-te! Tu não sabes, tu não podes compreender nada do tormento da minha vida!...

—«Ah, sim, um bom meio de me obrigar a calar, quando eu posso falar porque sou sua filha—respondeu brutalmente.

Manoela empalideceu; aos seus ouvidos soou uma zoeira congestiva e o seu coração quasi a sufocou na onda de sangue que lhe atirou á cara.

—«Sua mãe!? Está enganada, menina! Nem sequer é minha afilhada. Mandei-a criar e educar por dó, e é por dó que a tenho comigo.

Conhecendo o orgulho da filha, pagava essa afronta com afronta maior. Tambem ella se{250} sentia ferida; tambem ella tinha necessidade de revoltar-se contra a crueldade alheia. Tambem ella tinha um temperamento violento, que a extrema sensibilidade e o prematuro infortunio tinham enfraquecido mas não aniquilado.

—«Quer sahir?!—e o seu peito era sacudido por uma gargalhada nervosa, que tornava ásperas as palavras—quer sahir?! Pois sáia! Que me importa!? Recolhi-a por dó... não a obrigo a receber um beneficio que não merece.

Mas Christina, como todos os egoistas, tinha a covardia das resoluções rapidas. Diante da indignação da mãe, queria recuar, submetia-se, desejava tudo conciliar...

—«Sahir, minha senhora?! Mas para onde?

—«Para onde estiver melhor, para onde quizer. Que me importa a sua vida?! E é melhor fazê-lo já, já.

Manoela, com todos os nervos retesados numa crise dolorosa, tinha-se tornado duma palidez esverdeada, os beiços trémulos e descoloridos, o coração a afogá-la numa galopada infernal após uma como rapida suspensão de movimento.

Ante aquella ordem e o gesto de repulsa que a acompanhava, Christina não resistiu, dirigindo-se para a porta, de cabeça baixa,{251} contrafeita, unicamente arrependida de têr provocado uma cólera que a privava, dum instante para outro, de todo o bem-estar material a que se afizera.

A mãe olhava-a tristemente:—era afinal aquella a filha que tanto amara e tanto desejara!... Um resto de piedade venceu ainda a indignação e o desgosto.

—«Oiça—disse-lhe quando estava quasi ao fundo do dormitorio, fazendo-a voltar rapidamente a cabeça numa ânsia de esperançada.

—«Minha senhora, chamou?

—«Sim, venha cá.—E, sem a fitar, num repelão de magua que lhe causava a atitude tão diferente da filha, agora de cabeça baixa e ar hipocrita.—Custa-me abandoná-la para ahi, sem familia nem protéção... Vou pedir a meu irmão para a receber em sua casa, como afilhada... Se elle consentir, ficará contente?

—«Sim, minha senhora; seria uma felicidade para mim. Quanto lhe devo, madrinha!

—«Não, não me deve nada. Vá á sua vida, e tenha paciencia alguns dias mais.

—«Mas... eu queria pedir desculpa...

—«Não; não me ofendeu. Pode ir.

Tinha pressa de se encontrar só. Dizia bem: o seu coração não estava ofendido; estava despedaçado, calcado aos pés, por{252} aquella que tinha sido o encanto da sua existencia antes de a conhecer e depois não fôra senão motivo para desilusões e evocações pungentes.

O desespero da sua alma contrastava com a serenidade da lua, em crescente, que se erguia manso e manso num céo translucido, ainda tingido de oirenta púrpura no poente, e era como um alfange de oiro pronto a vibrar-lhe o último golpe.

Soluçava; já não podia mais.

Pela janela gradeada, os olhos nublados de lagrimas mal distinguiam as linhas dessa paisagem, revista em cada dia durante anos, e que umas vezes lhe parecia grandiosa no seu aspéto cenografico, outras banal e triste, conforme as impressões do seu espirito, tranquilo ou perturbado.

Sentia um agro prazer em chorar, e em soluçar como uma criança, numa desconsolação de abandôno e de desespero. O que fôra o seu passado? Apenas uma existencia sacrificada ao convencionalismo ou ao egoismo alheio. O presente era essa amargura de se sentir desamparada das suas proprias ilusões—as últimas companheiras dos que mais sofrem.

O futuro... Santo Deus! o que lhe traria o futuro se não lhe trouxesse o hábito de viver para si mesma?!...{253}

Madre Angelica, prevenida pela Ama-Rita que vigiava sempre a sua menina, veiu têr com ella, arrastando-se vagarosamente ao longo do dormitorio, como uma sombra que o luar fazia destacar.

—«Soror Manoela, o que tem, o que lhe fizeram para estar assim agoniada?!...

—«Ai, Madre Angelica!... Estava ahi? Ainda bem, ainda bem que a tenho junto de mim neste momento. Julguei-me olvidada de todos—até de Deus!...

—«Soror Manoela....—tornou a velha freira com severidade, adoçada pela sua muita estima á reclusa—veja o que diz, minha filha. Deus é pai e um pai não esquece nem aflige propositadamente os seus filhos. Elle ama os mais amargurados—e serão esses os que mais perto estarão da sua eterna gloria.

—«Ah, mas custa muito chegar até lá, pelo caminho da vida...

—«Tenha resignação, Soror Manoela; aprenda no exemplo dado pelo nosso Salvador: olhe para a sua santa imagem, coberta de chagas e coroada de espinhos! E tudo quanto sofreu, inocente e bom, foi para remir o mundo, para salvar aquelles que o flagelavam.

—«Tem razão... terá razão—soluçou Manoela, humilhada. Mas logo, numa revolta subitânea que toda a sua devoção não poude{254} evitar—mas elle era Deus, sofreu por sua vontade, e morreu logo!! O seu martirio não foi uma longa vida arrastada na dôr e no suplício! Mas eu que vivo, eu que tenho vivido anos e anos para sofrer em cada hora mais do que a morte...

—«Soror Manoela!...—reprimendou a freira.

—«Perdão, perdão! Meu Deus, se o sofrimento enlouquece!...

E de joelhos, aflita, soluçante, apavorada com a sua propria heresia, foi-se arrastando até ao crucifixo que se destacava no fundo, tremulamente alumiado por uma lampada de cobre, e ali ficou agarrada aos pés chagados da grande imagem, num choro convulsivamente desfeito e tragico.

Madre Angelica apiedou-se, ella que era o unico coração capaz de compreender e estimar a misera criatura, e tentou levantá-la com as suas poucas forças, e disse-lhe baixinho, numa voz que era uma consolação para essa alma torturada e desgraçada:

—«Vamos, Soror Manoela, diga-me o que assim a faz sofrer. Conte-me a sua magua—que verá como ella diminue...

—«Ai, Madre Angelica, morro de saüdades pela minha filha. Trocaram-ma. Não é esta! Como fui castigada, Santo Deus!{255}

E a freira, sinceramente surpreendida na sua credulidade ingenua:

—«O que me diz?! Então a Christina não é a sua filha?... Será possivel?!...

—«Não é!—volveu Manoela, sobreexcitada, não reparando sequer na dúvida da velha Madre.—Não é, não é a minha filha, que alimentei do meu proprio sangue, que sahiu do meu corpo como a flôr sai da planta. É uma estranha, é uma alma gelada, que não compreendo nem estimo. Veja-a, veja-a bem, Madre Angelica; veja-lhe bem os olhos frios e crueis, os seus olhos metalicos como os do outro! Veja-lhe o riso escarninho, que é delle... Consulte-lhe a alma soberba e impiedosa, como a da avó... Avalie a minha desgraça, Madre Angelica! Tenho uma filha que não tem nada, que não é nada de mim!... E despreza-me, a criaturinha!...—terminou num riso cascalhado, que era uma derivação do choro histérico que a tomara.

—«Socegue, minha irmã. Então!?... Isso não é proprio de si...

—«Sim, tem razão! Eu não devo sofrer assim, mas que fazer?! Não posso, não posso habituar-me a esta desolação; querer amar a minha filha tal como é e não como a sonhei, e não poder, não poder!...{256}

Falou longo tempo, num soluçar entrecortado que a esfrangalhava e halucinava, e só muito tarde, conseguindo levá-la para a sua céla, onde estavam mais á vontade, Madre Angelica lhe poude insuflar um pouco de coragem e resignação para vencer aquella crise dolorosissima.{257}

 

VII

O irmão de Manoela respondeu afirmativamente á carta muito digna que ella lhe escrevera, consentindo em receber Christina como se fôsse uma filha.

A morte da mãe deixara-lhe um vacuo imenso no grande casarão, onde só de quando em quando os irmãos, já casados e cada um em sua terra, o visitavam por ceremonia.

«Christina pode vir—dizia na sua carta á irmã—quando quizer, e na certeza de que já a estimo como filha.

Sentia-se só, e estava na idade em que uma nova amizade é um pouco de vida nova que se insufla na alma amortecida.

«Manoela, que fôsse tambem; dezenove anos de penitencia teriam por certo depurado toda a mácula...»

Esquecia o passado; talvez um pouco de inconfessado remorso o estivesse a maguar, agora que se sentia tão só e inclinado á vida serena duma familia a refazer.

Mas a irmã não ia; agradecia-lhe muito, tanto a prontidão da resposta como a aquiescencia ao seu pedido e o desejo de a revêr...{258} Mas não iria. Tinha ali uma triste missão a cumprir; não abandonaria, no fim da vida, as companheiras de tantos anos de angustia.

Christina partiu alegre, numa ansiedade de prisioneira que reentra no mundo por que tem suspirado durante longos dias inresignados.

Manoela ficava sem saüdades dessa filha que fôra durante anos a sua razão de viver; antes sentia, ao despedir-se, uma vaga sensação de alívio, não isenta de cavada amargura.

—«Adeus, Christina,—disse-lhe na hora da despedida—diga a meu irmão que resolvi fazer o meu testamento deixando-a herdeira do que me pertence. Elle que administre a casa nesse sentido, pois só quero dispôr do usofruto por causa destas pobres criaturas que me rodeiam.

—«Deixe-me agradecer-lhe, madrinha...—e tentava beijar-lhe a mão.

—«Para quê?...—respondeu sorrindo com ironia e encolhendo os hombros á sincera alegria de Christina.

Era com um profundo desdem que atirava essa fortuna, que lhe era indiferente, para o poder da filha que não a soubera amar nem reconhecera o presente inestimavel que lhe dera antes, tendo-lhe dado o seu amôr.

Partiu, acompanhada de Ama-Rita, que apenas levava o encargo de a entregar ao tio{259} e voltar logo, pois essa é que, decididamente, não abandonaria mais a sua menina.

Para ella a menina era Manoela, que nunca deixava de revêr como fôra: a filha adótiva do seu coração, a estranha que tomara na sua alma o verdadeiro logar da filha morta á nascença.

Mas bastante mudara nos últimos tempos, apesar della se não querer convencer do que via: a mulher que pouco tempo antes ella encontrara, senão a linda rapariga que vira partir, lavada em lagrimas, crucificada de dôres, pelo menos uma mocidade ainda florescente, estendendo-se por um outôno que se anunciava formosissimo.

Em poucos mêses Manoela fez uma diferença que saltava aos olhos e afligia toda a comunidade, que só nella fundava as suas esperanças e as suas alegrias. O cabelo embranquecia-lhe nas fontes; a péle amarelecida, enrugava-se impercétivelmente a princípio, mas visivelmente nos últimos dias em que umas olheiras inchadas lhe davam no rosto o aspéto desolador da doença que lhe fizera do coração uma pobre maquina sem regulamento.

Podia dizer-se que ia morrendo aos poucos, das feridas incuraveis que nelle sentira, durante toda essa existencia de eterna sacrificada, em{260} que a alma se lhe esfacelara pelos agudos e impiedosos espinhos do egoismo alheio.

Com a doença de Manoela, entrou o desânimo em todas as almas e a morte encontrou facil caminho entre aquelles organismos depauperados e sem resistencia moral.

Todos os mêses havia mortes no convento: ora as freiras, ora as velhas criadas e recolhidas, lá se iam, umas atraz das outras, em debandada desoladora. E para ella, a morte que rodeava agora como companheira inseparavel a velha casa conventual, tão suavemente serena e risonha, era um aflar de azas sinistro que lhe deixava na alma o luto de toda essa querida familia espiritual, a unica que verdadeiramente estimava agora.

O convento acabava dia a dia, hora a hora,—sentia-se, numa halucinação de presentimentos e presagios tetricos, avisos sobrenaturais e factos estranhos que causavam a perturbação e o pânico de todas aquellas criaturas enfraquecidas e mais ou menos doentes, senão do corpo pelo menos da alma.

Assim, a sineta que no claustro de cima apenas era tocada quando alguem na casa entrava na agonia, para que as almas se recolhessem com Deus e na sua ânsia de bem merecer auxiliassem a que estava para partir, a desligar-se, sem pena nem pecado, desta{261} vida defeituosa e amarga, começara uma tarde, á hora calma do Angelus, a tocar freneticamente conclamando toda a comunidade, que se olhava espavorida e convicta do tragico aviso.—Era certo: aquella sineta, que uma só vez tocara assim, segundo constava, anunciando a morte de duas freiras em cheiro de santidade, anunciava agora a morte, o fim da santa casa que fôra abrigo de tanta pobre alma de mulher revoltada ou submissa, mas todas crentes numa eternidade de venturas de que não tinham tido na terra a compensação.

E todas ellas, velhas e novas, míseras sombras duma outra idade ou raparigas que a educação conservara afastadas do tempo em que vieram ao mundo, todas curvaram a cabeça á convicção de que a campa as chamava, de que era a morte que as libertaria em breve. Sim, ellas estavam prontas, mas quanta tristeza nesse fim de existencias que já mal se arrastavam, numa vida que não compreendiam já!...

Outro dia era um reboliço enorme nas casas deshabitadas, que as fazia tremer de apavorante susto, pensando nas irmãs mortas ultimamente e em tantas que descansavam sob as lages frias do claustro.

E eram vozes misteriosas vindas da terra, perfumes deliciosos e estranhos que se espalhavam{262} pelos casarões vasios, fantasmas silenciosos de freiras mortas havia seculos e que deslisavam sorridentes como que a animarem as pobres irmãs que assistiam ao fim da sua casa tão amada!...

Manoela, apesar de todo o seu bom-senso, não resistia ao contágio e, como as outras, vivia numa atmosfera de prodigios e de mêdos que mais activava o progresso do mal que a consumia.

Mas não abandonava por esse motivo as velhas companheiras, que só nella achavam conforto para bem morrerem.

Foi Soror Claudea a última a deixar a vida, que tão dolorida lhe fôra; foi ella, a pobre louca, quem fechou, como um ponto final simbolico, mais um periodo de historia feminina, tecida de sacrificios e servidões e ilusões profundas, e sem um fecundo e nobre e belo ideal de vida!

Ali ou na familia, no claustro ou no mundo, a existencia feminina pouco diferia; pouco mais era que esse decorrer estirado de anos partilhados entre pequenos deveres, insignificantes trabalhos, apagadas alegrias e supliciantes sacrificios a que ninguem prestava atenção, tão naturais são aos servos e aos inferiores...

Morta Madre Claudea, e participado o caso ás autoridades, teve Manoela que aceitar{263} o depósito da casa para fazer a entrega legal.

Acabada a clausura e o convento, por assim dizer franqueado ao público, começou um novo martirio para Manoela, que se não podia furtar á indelicada e faminta curiosidade de toda a gente da cidade, que já depois fazia da visita ao convento uma distráção a quebrar a monotonia da vida provinciana.

A querida casa tão recatada e fechada a todos os olhares indiscretos, foi uma coisa pública escancarada e esquadrinhada por todos os indiferentes, uns sob a capa amavel da simpatia e da piedade, outros rancorosos ou hostis, desrespeitando as suas crenças ingenuas ou troçando com as suas alardeadas superioridades as infantis preocupações daquelles sêres inuteis...

Manoela afétava uma serenidade que lhe custava anos de vida, não querendo dar aos indiferentes o espétáculo duma dôr que era apenas sua e das suas pobres companheiras, as recolhidas, as meninas do côro e as criadas, que em breve seriam arremessadas para o mundo como folhas inertes e sem vida, e dispersadas ao sabôr do acaso, que as levaria sabe Deus a que dôres e a que miserias!—tão mal preparadas como estavam para a luta de cá fóra, quasi todas pobres e{264} sem amigos ou familia que as tivesse como suas...

Já que não podia furtar a casa e as coisas á profanação dos olhos estranhos, fechava a sua alma num silencio orgulhoso que a tornava respeitada, e conservava uma certa distinção naquelle acabar de comunidade que sem ella seria um levantar de feira sem grandeza nem simpatia.

O inventario feito, a pilhagem executada por ordem superior, viu com profunda amargura os preciosos Grão-Vascos desprendidos das paredes seguirem, com os azulejos hispano-arabes que foi possivel arrancar, a pouca mobilia rica que havia, os livros e as tapeçarias de valôr, encaixotados, segundo diziam, para os museus de Lisbôa... Eram livros velhos aos cantos, pelos corredores, bahus e caixões devassados e esvasiados...

E ainda lhe foi preciso assistir, sem que a desligassem do triste encargo de testamenteira, á invasão dos operarios que vinham transformar a casa, para novo destino mais em harmonia com a época.

Portas escancaradas, divisões deitadas abaixo, montes de caliça pelos pateos e claustros, deslocadas as fontes murmurosas, mortas as plantas que eram o seu encanto—aquilo afigurava-se-lhe uma ruina completa, um desabar{265} de todo um passado que morria sem têr criado raizes, como morre sem seiva, inutilisada, a planta nascida em terreno pobre e rochoso.

Libertada, porfim, foi acabar de viver para uma pequena casa de campo que a Ama-Rita descobriu escondida entre tufos de verdura tenra e uma dôce paz idilica a rodeá-la.

Sentia-se de mal a peor, e sem esforço deixava-se morrer, desligada da vida, sem afeições ou deveres que a prendessem.

Álêm do amôr humilde da simples camponeza que a criara e a cumulava de carinhos e ternuras na morte, como a rodeara na infancia, nada lhe restava.

Christina, muito prática, muito á sua vontade, talhara para si um logar amplo na vida. A última carta do irmão de Manoela pedia-lha em casamento, e a della, que vinha junta, pedia, pró-forma, o consentimento da madrinha.

Manoela sorriu: era a sua vingança, uma como rehabilitação do seu sangue, da sua propria carne expulsa outróra como coisa imunda da casa e da familia.

Era a vida omnipotente readquirindo os seus direitos, a natureza triunfando dos preconceitos, que desprezava as convenções e entrava como senhora donde fôra expulsa como réproba.{266}

Christina, na sua cega e egoista caminhada para a vida, fôra a força invencivel da razão e da justiça, fôra a suprema e triunfante palavra do futuro.

A mãe, amoravel, generosa e submetida, dera a existencia aos pedaços para satisfazer as outras.

A filha, egoista e revoltada, e sem exageros de sentimentalidade que só provocam a dôr, recebia uma por uma transformadas em alegrias as lagrimas da mãe.

Manoela sorria: era a sua rehabilitação, era, saboreada com infinito gôsto—tão certo é que nenhum sacrificio se perde, aproveitando quasi sempre a quem menos o merece.{267}

 

VIII

Em toda a noite Manoela não pudera dormir, angustiada, sentindo sobre o peito um pêso esmagador, sufocada e aflita.

Com a manhã, que rompera radiosa empoeirando de oiro todo o campo e doirando as montanhas que se destacavam no fundo roseo do céo, serenava um pouco.

Sentia-se mais aliviada e quiz arrastar-se até á janela aonde se sentou na cadeira de braços, que era o seu poiso habitual. Olhava atenta a bandada de pombas brancas que sahia do pombal em vôos estonteados e incertos, embaraçando-se nos ramos das laranjeiras que floriam de branco e perfumavam delicadamente a atmosfera.

—«Ah, como era linda a natureza, sempre renovada e sempre a mesma,—e como era bom viver!...

E a pobre doente ouvia, num encanto de esperança, nunca extincta no coração humano, as palavras de consolação que a bôa Ama-Rita lhe ia dizendo.

—«Porque não iam passar uns tempos a casa do sr. Morgado?... Havia de fazer bem á senhora...{268}

—«Sim, iriam—concordava Manoela—mas não já, a primavera começara apenas, e a Ama-Rita bem sabia como eram ainda invernosos e frios esses mêses de primavera lá na terra.

Oh, se sabia! Quantas noites enregeladas passara acalentando nos braços a sua menina; quantos dias fechada em casa porque a neve e o frio não dava licença, até maio, de se sahir da lareira...

Manoela, sorrisonha ás recordações da bôa vélhota, prometia fazer essa viagem—em vindo o bom tempo.

—«E o menino, quando nascerá?—perguntava a Ama.

—«Já tens pressa de o chamar teu, não é assim?...

E comparava, com um certo sorriso ironico a aflorar-lhe aos labios descórados, a ansiosa espera em que se andava pela vinda do primeiro filho de Christina e os transes porque ella passara para que a mãe chegasse a este mundo, onde era agora uma triunfadora. Recordava... e recordar era tornar a sofrer as horas de desânimo e desespero que por milagre a não tinham atirado para um hospital de doidos ou para o cemiterio.

Tornava a vêr a casa em ruinas, onde a criança nascera como um animal bravio, que{269} anda a monte, para não ofender com os seus gritos de filho ilegal as consciencias socegadas...

Como isso já ia longe e como tudo tinha mudado! Quem lhe diria então que Christina, a sua filha, essa vergonha viva, essa nodoa na familia fidalga de que descendia, anos volvidos seria a senhora morgada a quem todos adivinhavam os desejos e amaciavam o caminho para que désse sem precalço o novo herdeiro da casa?!...

E tão desemelhante destino só porque uma tinha um pai que legalmente reivindicava os seus direitos, emquanto a outra era filha dum homem, que na sua inconsciencia de bruto apenas cuidara do prazer material e passageiro, com tanta mais perfidia quanto era maior o seu conhecimento da indulgencia da sociedade para com as leviandades do homem transformadas em crimes para as mulheres.

E Manoela, meditando e revendo toda a sua existencia naquella hora de passageiro repouso, que a doença lhe dera, pensava com amargurado remorso no que chamava agora a sua covardia:

—«Sim, Christina, no impulso do seu egoismo e da sua ânsia de viver, é quem estava na verdade!{270}

«A transigencia, a covardia, a fraqueza, mesmo quando são filhas do sentimento, acarretam consigo o triste premio da sua inferioridade. E assim, pela covardia a que tinham dado o bonito nome de bondade, ella ali estava sem familia, sem amigos, sem uma alegria que a prendesse á vida que a ia abandonando como fardo inutil, que já não presta para nada.

«Não, não se deve transigir, não se deve esconder uma áção que em nossa consciencia não é um crime, embora a sociedade na sua hipocrisia a mostre, ferozmente, como tal!

«A sociedade acostuma-se a respeitar os fortes e só pede contas severas aos fracos, aos que transigem, aos que a ella se não adaptam ou a não dominam, as duas unicas fórmas de a vencer.

«Christina tivera razão: ella não fôra uma bôa mãe, não soubera desempenhar o seu nobre papel, ferindo implacavel porque fôra ferida, cobrindo com a sua revolta o destino da criança que chamara a uma vida que lhe não pedira. Não tinha desculpa. Fôra necessario que a filha, no seu bom-senso de bastarda, soubesse encontrar a desforra no sacrificio do proprio corpo procurando nesse casamento sem amôr o nome que ella lhe negara.{271}

«E valia muito o amôr?... Ah, ella sorria, com dó de si mesma, recordando como se entregara toda inteira a esse sentimento, o corpo palpitante, a alma fremente, sem uma reserva, sem um pensamento mesquinho de dúvida, com a pureza duma criança, cuja alma não fôra maculada pela desconfiança—e o que lhe deram em troca?!...

«Pois bem, ia reparar a sua falta.

E, chamando a Ama, que dava uma certa ordem ao quarto, respeitando a sua meditação, Manoela pediu a escrevaninha portatil que estava sobre a mêsa de cabeceira, pegou num papel e ia a escrever...

Depois suspendeu-se, sorriu com amargura, e pôs a penna de parte. O que ia fazer com essa declaração a juntar ao testamento?!

Christina já não precisava do seu nome, mais amplamente coberta com o do marido que a tomara como filha de pais incognitos, e a sua declaração extemporanea apenas lhe traria vergonha inutil e dissabores...

Não a fazia—era já tarde para isso.

Recostando-se ás almofadas que a Ama-Rita lhe ageitava na cadeira, sentiu-se agoniada, pediu agua, depois fechou os olhos, franziu frouxamente os labios descórados, e a cabeça tombou-lhe para o lado sem vida.{272}

—«Deixou de sofrer!—dizia a velha, soluçando alto, para a criada e para a mulher do quinteiro que chamara aflita na primeira impressão de inevitavel surpresa. E alisava-lhe os cabelos sobre a fronte, juntava-lhe as mãos numa atitude de prece. Deixou de sofrer, coitadinha! Toda, toda a vida—uma sacrificada!...{273}