Ninguem podia compreender tal horror á rapariga, nem ella, que se consumia e chorava{68} sem consolação por vêr a mudança brusca do seu Manoel.
Quando se levantou estava pálido, cambaleava, e uma tristeza profundissima lhe encovava os olhos.
No primeiro dia em que sahiu, o seu cuidado foi logo ir procurar a Gertrudes Zarôlha, que encontrou sentada á porta da casa, fiando e conversando com o gato preto gordo e pesado, seu unico companheiro e amigo.
O Manoel não esteve com ceremonias, foi direito ao fim. Contou á velha tudo quanto tinha visto na Fonte do Inferno quando viera tarde da feira, e exigiu explicações completas sob a ameaça duma sóva se ella não quizesse dizer a verdade.
Ao principio a Gertrudes indignou-se, pôs as mãos no peito, jurou a sua inocencia e negou que fosse feiticeira.
—Na Fonte do inferno?!
—O Manoel que não sonhasse em tal—crédo! cruzes, canhoto! Fôra aquelle patife do Próspero que levantara aquella calúnia e dizia a quem o queria ouvir—que fôra ella quem chupara o filho da fidalga...
Mas o Manoel atalhou:—não negassse a Senhora Gertrudes; tinha-a elle visto, ora essa! Querer dizer-lhe que não era verdade uma coisa que elle mesmo vira, com aquelles{69} mesmos olhos que a terra havia de comer?!... Demais, não tinha nada com a sua vida nem o contaria a ninguem, pois até lhe estava muito agradecido por o têr ensinado a livrar-se de tamanho perigo. Agora o que queria saber era a verdade—sobre a Maria do Próspero. Seria ou não certo tê-la visto abraçar o Senhor?... Seria ou não certo o sêr ella feiticeira a valer?! Podia têr-se enganado... podia-a têr confundido com outra... Ás vezes, e como foi ao longe...
Era a última esperança, e a ella se agarrava com todo o afinco de quem não quer perder uma dôce ilusão.
E pensava, horrorisado, que aquilo poderia sêr verdade e teria que deixar de pensar na Maria, agora que a paixão por ella chegara ao halucinamento, hesitante entre o amôr e o odio.
Quanto daria para que a Gertrudes lhe désse a certeza de que os seus olhos o tinham iludido, quanto daria!... Tornar a têr na Maria a confiança que tinha dantes; podê-la levar para a sua casa, como ainda na vespera lhe dissera a mãe, que morria pela rapariga—tão trabalhadeira, tão desembaraçada e bôa... Não tinha nada, mas isso o que importava? Ella, a Clara do Rezadeira, não se importava nada com isso e aconselhava-lhe a que escolhesse{70} antes uma rapariga de trabalho do que uma com dinheiro, que nada vale quando dá em mãos que o não sabem guardar nem aumentar.
Como elle esquecia, evocando a formosa rapariga, a pálida Terezinha, que lentamente se ia definhando e morrendo aos poucos, ao compasso surdo e monotono do seu tear!...
Mas a Gertrudes foi impiedosa. A pouco e pouco começou a dizer tudo; primeiro timidamente, tenteando o assunto, depois entusiasmando-se, contando detalhes, dizendo coisas que arrepiavam e indignavam o Manoel.
Era certo e mais que certo sêr a Maria feiticeira! Havia pouco tempo que aprendera, mas já a consideravam das mais finas e das mais queridas do Senhor.
—O lobis-homem que tinha visto—mas isso em grande segredo, porque tinha medo de levar alguma sóva—era o Próspero velho. Andava com o fado ha tantos anos! Não tinha sorte nenhuma, coitado!
Que de historias lhe contou, e elle ouviu pasmado, vencido por aquella verdade irrefutavel:—a Maria era feiticeira!
A Gertrudes comentava com gestos curtos e vozes de confidencia:—Ora essa! De que se admirava? Sempre lhe dissera que não era mulher capaz para um homem de brio e de honra.{71}
Tinha-lhe odio, o odio implacavel das velhas criaturas despresiveis aos que têm a insolencia da alegria, da juventude e da beleza. E então, depois que a rapariga dissera numa sacha, entre as gargalhadas do rancho, que não queria estar ao pé della porque lhe podia dar quebranto ou chupá-la como fizera ao filho da fidalga, a Gertrudes não a podia tragar.
—Se fosse com a Terezinha,—continuava convencedora—com essa era de sua aprovação. Uma rapariguinha tão recolhida, sem uma nota, sem más palavras para ninguem, e sempre tão bôa, tão condoïda! Mesmo um anjo do céo!
O Manoel calava-se, abismado no seu desgosto, não podendo seguir-lhe a tagarelice nem dizer uma palavra que lha fizesse estancar. De quando em quando, uma palavra ou outra feria-lhe o ouvido, chamando-o á realidade, aos repelões, sobresaltando-lhe ainda mais a alma amarfanhada.
Por vezes já a imagem da Terezinha, com a sua esbelteza delicada, o seu vestido escuro de luto aliviado, o sorriso maguado da sua bôca virgem de beijos, se começava a esboçar na sua memoria. Via-a córada como a romã quando acertava de lhe dirigir a palavra, sofredora e resignada quando o sabia mais prêso pelos encantos de Maria; lembrava-a{72} fugindo arisca da porta para o espreitar da janela, mal assomava ao cimo da rua com os seus ares triunfantes, bamboleando-se com a importancia de janota de aldeia.—«Coitadinha! Gostava tanto delle! Emquanto esteve doente, nunca ella deixou apagar a lampada á Senhora do Castelo...
O Manoel afastou-se por fim—a velha já o enjoava com as suas historias. E, ao sahir dali, pensava com funda melancolia em todo o passado extinto, nessa alegria radiosa que não voltaria mais. Da sua vida, tão profundamente abalada, nem a si mesmo sabia dar conta.
Quando subia vagaroso e preocupado a rua estreita e ingreme, os seus olhos poseram-se com sobresalto na Maria do Próspero, que caminhava em sentido contrario, cabisbaixa, os braços cahidos ao longo do corpo, os olhos pisados postos no chão, o fato em desalinho de quem perdeu o gosto e a garridice.
Que mudada estava! Nem parecia a mesma,—não a reconheceria por certo fóra dali.
O rapaz, olhando-a, sentiu subir-lhe do largo peito um soluço doloroso.
Meteu-se na sombra duma porta e deixou-a passar, avergada ao pêso da tristeza e do remorso do seu pecado sinistro.{73}
Estremecia de horror como se a visse ainda na noite demoníaca, cuja lembrança o perseguia como uma ideia fixa de monomaníaco.
Como podia ser feiticeira uma rapariga tão linda, tão alegre, tão sincera?!...
Mas era-o, tinha a certeza, porque a vira abraçando o homem vermelho de negros pés de forquilha, e porque a Gertrudes lho afiançara havia instantes.
Todo o pavôr daquella noite tragica o tomou de novo, e involuntariamente evocou o sabbat infernal:—as luzinhas bailando, entrechocando-se, e afastando-se num compasso rítmico; as gargalhadas que soavam como crucitar de corvos; os olharapos correndo, com o seu unico olho a furar-lhes a testa; os lobis-homens galopando, no seu fadario triste; avejões, diabitos galhofeiros, lémures, trasgos, duendes, feiticeiras, e, sobre tudo, como ferro em braza a causticar uma chaga, a recordação da cêna em que a Maria abraçava o homem vermelho e lhe servia de estrado.
Era de endoidecer!
Quando despertou desse pesadelo de acordado, já a Maria ia longe, andando lentamente, acurvada pelo imenso desgosto de vêr o Manoel tão diferente do que fôra, e sem razão nenhuma que ella lhe désse!{74}
Se ao menos soubesse explicar o motivo porque tão cruamente a repelira durante toda a doença, quando ella passava as noites sem se deitar, sempre pronta á primeira voz,—uma verdadeira filha para a Clara do Rezadeira, que já lhe queria como tal!...
Alguns mêses depois, os sinos da antiga igreja matriz repicavam freneticamente mostrando o entusiasmo do sacristão pelo casamento do Manoel com a Terezinha da Zéfa do Padre.
A noiva ia radiante, mais linda do que nunca. Os olhos brilhantes, os labios ardentes, as faces ligeiramente córadas pela felicidade inesperada que a chamava á vida, quando ia já caminhando para a morte, ao compasso monotono do tear subindo e descendo no contínuo trabalho.
Satisfeito e feliz, tambem o Manoel ia, triunfante, com o seu fato preto de pano fino, o seu chapéo lustroso, a sua fina camisa engomada a primôr, ao lado da noiva—uma santinha do altar!, dizia a Gertrudes benzendo-se.
Tambem elle se sentia alegre e despreocupado, sem pensar na pobre Maria do Próspero, que curtia sósinha, num desespero tôrvo e sem remedio, a sua derrota miseravel.{75}
Quando a Gertrudes Zarôlha começou a espalhar o que se passara, o que vira o Manoel na noite em que viera mais tarde da feira, por se têr demorado a conversar com uns amigos na taberna do Geitoso, a Maria teve um violento acesso de cólera, uma rubra indignação, que estava na logica da sua forte e sadia natureza. Quiz bater na velha, que fugiu espavorida, gritando-lhe que fosse perguntar ao Manoel—e elle lhe diria tudo quanto vira...
E ella fôra logo, forte da tranquilidade da sua consciencia, certa de que elle estaria ao seu lado para a defender de tão absurda acusação...
Mas quando ouviu da bôca delle a confirmação dos ditos da velha, quando elle lhe atirou com despreso o epíteto de feiticeira, sucumbiu. Ficou quieta, a olhá-lo pasmada, sem encontrar uma palavra para se defender, cheia de dúvidas e de desânimo... Sem a confiança do Manoel, o que podia fazer?!
E desandou dali, com grossas lagrimas a rolarem-lhe pelas faces, e um aperto na garganta que a estrangulava.
Fechou-se em casa; e, sem ninguem que a consolasse, nenhuma alma compassiva que a ajudasse a levantar daquelle abismo em que a propria consciencia desaparecia sob a{76} sugestão alheia, rebolou-se pelo chão, rasgou o fato, atirou contra as paredes a cabeça que sentia perdida e desvairada, soltou gritos que lhe despedaçavam o peito, até que, exausta, ficou como morta no meio da casa. Ao voltar do trabalho é que o pai a levou para a cama, limpando, num repelão, á camisa suja de suor e poeira, uma lagrima que teimava em rebolar-lhe pela face encarquilhada e dura.
—A sua pobre filha, a alegria da sua vida—em que estado a encontrava! Maleitas ou mau olhado, espirito ruim que lhe entrara no corpo e já a não largaria...
Quando voltou a si, pesou bem a desolação da sua vida, e chorou toda a sua esperança, a sua alegria como a sua mocidade exuberante que tinham fugido espantadas diante daquella noite negra e sem fim.
Emquanto os sinos cantavam na manhã clara, de sol radioso e céo azul em festa, as alegrias do casamento da Terezinha com o Manoel da Clara, a caldeirinha magica tilintava o seu risito escarninho e macabro e todos a consideravam com admiração e respeito pelo sobre-natural.
A Maria, agora feiticeira conhecida e apontada por todos, já não canta nem vai ás romarias.{77}
Nos trabalhos do campo, as mulheres e as crianças afastam-se della apavoradas, e os homens, lamentando-a, não têm coragem de vencer esse pavôr.
Um brilho ardente de febre queima sempre os seus lindos olhos negros, que vagueiam inquietos, num mêdo doentio e tragico.
Atormentada de visões, mordida de maus olhados, mêses inteiros prêsa de
delirios histericos, sente-se, na verdade, transportada nas azas do vento para
sitios ermos em que luzinhas saltitam em rondas buliçosas, lobis-homens passam
em cavalgadas doidas para se irem espójar nas encruzilhadas sinistras, moiras
encantadas tecem em teares de oiro contando as saudades antigas da sua vida
humana, e olharapos, duendes, lémures e trasgos povôam as noites horrificas de
sabbat.{78}
{79}
III
Diario duma criança
{80}
{81}
DIARIO DUMA CRIANÇA
Creio que não é bem exáto o titulo que escrevi no alto da página. Isto não é verdadeiramente o Diario duma criança, não é, mas sim a minha vida toda recordada dia por dia, hora por hora, com uma precisão de factos e sensações de que o Chico muito se admira.
Decerto não sou muito velha—fiz em março vinte e dois anos—mas, assim mesmo, elle acha extraordinario como os episodios da minha infancia se me fixaram na memoria tão vivamente, e os posso recordar com tanta nitidez, como se a minha alma tivesse a receptibilidade mecânica de um fonógrafo.
Não pensei nunca em escrever; sei, tão pouco, que nenhuma novidade pode trazer ao mundo a minha prosa descuidada e frouxa.{82}
Fui sempre pouco estudiosa e nenhuma honra dei aos meus professores. O Chico, que é um sábio, é que me disse, uma tarde, resumindo toda uma longa palestra em que eu lhe contei os mil incidentes de vida estranha em que o meu pobre espirito se debateu até chegar á dôce paz da nossa felicidade de hôje:
—«Se tu escrevesses isso tal qual o contas, fariamos um belo estudo de psicologia infantil!...
Eu, que adoro o meu Chico, não o queria desgostar, mas escrever tudo quanto sentia, tudo quanto me lembrava têr sofrido, parecia-me tão dificil!... Vida toda feita de sensações e estranhêzas de caráter, quem poderá têr interesse em conhecê-la?!
Oh que coisa tão custosa de realisar, este desejo, quasi imposição, do Chico!...
As minhas memorias são leves fios de aranha que não servem para urdir e tecer utilmente uma sólida obra caseira.
Escrever o Diario da minha infancia, eu que nunca tive paciencia de rabiscar cartas muito grandes—a não sêr para o Chico!...
Depois, sei unicamente escrever o que sinto, e os escritôres—dizem—não fazem assim. O Chico sente os versos que faz tão lindamente, mas esse... oh esse é outra coisa!{83}
Por muito tempo discutimos, mas, como o senhor meu marido é adoravelmente teimoso e eu não sei ainda contrariá-lo, deixei-o ir uma noite destas ao teatro, recusando-me a acompanhá-lo a pretexto de ter sôno, e quando voltou, eram duas horas da manhã, entreguei-lhe o manuscrito, que leu sem descansar, tal qual o mandou imprimir logo no dia seguinte.
Isso é que me custou!... Porque, depois de o escrever duma só vez, e sem hesitar diante duma unica palavra que não correspondesse ao meu pensamento, deixando correr a penna nervosamente, em galopada doida, quando as recordações vinham em montão, chamadas umas pelas outras, numa lufada de quasi vertigem, sempre imaginei que elle emendaria aquilo e lhe daria uma fórma mais corréta.
Mas—qual historia!—o querido infame teve o descaramento de se rir na minha cara e de me responder:
—Que se o emendasse estragaria tudo!
Foi assim que sahiu, tal qual o escrevi, numa hora de febre.
Chamo-me Raquel. Creio que este nome é hereditario na minha familia, porque a minha{84} avó e a mãe da minha avó eram tambem Raquel. Não sei. De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.
O mais longe que posso recordar na minha existencia humana, vejo-me feliz.
Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode desejar uma criança acostumada á simplicidade da vida campestre.
Os pateos eram habitados por uma multidão de animais domesticos, que nos conheciam bem, de tanto milho que ás escondidas lhes deitavamos.
Eu era a mais velha, e os meus quatro irmãositos seguiam-me alegremente pelos campos fóra, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defêso, nem parede que não tivessemos escalado, nem arvore que não conhecessemos como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as arvores se cobriam de prometedoras flôres, e antes, muito antes da familia os vêr em casa, já nós tinhamos feito a nossa primeira escôlha. Quando a nossa pobre burrica descansava do fatigante trabalho da nóra, iamos desamarrá-la da manjedoura, saltavamos-lhe para cima, e fazíamo-la trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um pur-sang trotaria nas avenidas areadas dum luxuoso parque.{85}
Felizes tempos!... Mas, no fim de contas, eu era uma rapariga; ás vezes lembrava-me disso, e nem sempre estava disposta a fazer de general no exercito fraternal.
Muitas vezes mesmo, o instinto do meu sexo pedia-me brincadeiras mais socegadas: queria governar casa, sêr a mãe, exercer a minha atividade de mulher trabalhadeira e que conhece o seu logar. Chamava então as pequenas da minha idade e brincavamos ás dônas de casa: improvisando os nossos lares em qualquer recanto do jardim, servindo de baixela fragmentos de loiça, cosinhando pétalas de flôres e hervas que tinhamos mais á mão; indo ao tanque lavar a roupa das bonecas, as nossas filhas; carregando a agua com a cantarinha em equilibrio sobre a rodilha, no alto da cabeça; tendo as nossas disputas e conversas como viamos ás senhoras visinhas, lá no povo. Ralhavamos com os homens, os meus irmãositos—porque entravam tarde, andavam por lá com os amigos...
Na aldeia não havia meninas finas, e então arranjara as minhas amigas e companheiras nas humildes filhas dos nossos caseiros e serviçais.
Tinha os seus modos desempenados, os seus gostos simples, e, apesar disso, não me parecia com ellas!{86}
Sempre me hade lembrar o que escandalisava meus pais quando afirmava perentoriamente: que de todas as casas da vila proxima, onde as havia muito bôas, era a mais humilde de todas a que mais me agradava.
Cuidaram que era uma perversão do meu senso estético, mas vendo-a ha pouco, já depois de mulher, confesso que não mudei de opinião. É que sentia intuitivamente o pitoresco que os nossos artistas andam hôje procurando com tanto afan...
Na verdade a casinha térrea, construida sobre a rocha onde tinham cavado os degraus, com seu alpendre e o seu pé de videira a ensombrá-lo, era duma originalidade, na sua singeleza primitiva, que me encantava.
Nunca, como tantas crianças na minha idade, me lembrei de imitar a mamã, as tias, ou as senhoras das nossas relações. Nada! Só procurava sêr aquilo que nunca conseguiria, por mais esforços que empregasse.
Melhor fôra que tivesse conseguido o meu desejo e ficasse como as outras raparigas da minha aldeia: uma perfeita camponeza, cheia de saude e de alegria, sem mais cultura do que a dellas!...
—Meu Deus! A delicada ternura do Chico compensa-me de muitos desgostos passados,{87} abre-me um caminho largo a uma existencia toda inundada de sol; mas, quando penso em quatro anos da minha existencia, sinto em mim uma tão grande repercussão de dôres passadas, que não sei quanta bondade lhe será precisa para mas fazer esquecer!...
Emquanto eu suportei todos os tormentos que uma pobre criança pode sofrer, sequestrada de tudo quanto lhe rodeou e acariciou os primeiros anos; emquanto o meu espirito, sacudido pelas lutas mais violentas, angustiado pelas mais sombrias dúvidas, se abria á compreensão duma vida que dizem superior; emquanto o meu coração aprendia na dôr os infinitos cambiantes dos sentimentos complicados; a Rosita, a Maricas, e a Anninhas da méstra—as queridas companheiras da minha infancia—cresciam e faziam-se bôas e laboriosas mulheres, cheias de vida e saude, sem incompreensões mortificantes do seu proprio coração.
Quando ellas me viram voltar á aldeia, tristemente grave, empalidecida pela dôr, adelgaçada pelos anos, o trajar cuidado de quem não desconhece os preceitos da elegancia, não compreenderam as lagrimas que bruscamente me vieram aos olhos e correram impetuosas pelas faces, como vaga interior vencendo todos os diques.{88}
Imaginaram—as pobres!—que eu tinha saudades das amigas de Lisbôa e as desprezava a ellas. Oh não, mil vezes não! Tinha uma pungente saudade do tempo em que o meu espirito, não fatigado, se comprazia nas suas conversas simples, e em que os seus gostos naturais eram tambem o meu gosto.
Chorava desesperadamente a minha alegria, para sempre tocada de mal incuravel; tinha desprezo—e muito—por essa educação que me roubara quatro anos de vida feliz e proveitosa, dando-me em troca uma ignorancia mais completa do que a sua! Porque as minhas amigas e companheiras de infancia sabiam muita coisa util, e eu apenas me podéra convencer de que não sabia nada—o que é altamente desconsolador.
Como já disse, durante a infancia considerei-me feliz. A minha mãe era bondosa, como muita gente o é, porque assim tinha nascido, pela mesma fatalidade psicologica que a podia têr feito nascer uma criminosa. Mas juntava a essa inconsciente bondade muita justiça e bom-senso.
Cuidava escrupulosamente do amânho interior da nossa casa, não deixando as criadas levantar mão dos serviços, com uma disciplina que invejariam muitos instrutores de recrutas. Rezava as orações obrigatorias de cada dia;{89} cabeceava á bôca da noite, antes de se acender o candieiro para o serão; e depois de espertar era a última a deitar-se em casa, depois de vêr todas as portas e apagar todas as luzes—não, fôsse o inimigo sonso que se lhe metesse algum ladrão em casa, ou as raparigas se descuidassem com o lume! De manhã era a primeira a madrugar, para a mesma labuta de todo o ano,—que era afinal a de toda a sua vida.
De sabedorias para si, importavam-lhe pouco, mas queria-as para mim, que no seu entender devia tornar-me uma verdadeira menina educada: tocando piano, ataviando-me com geito de quem sabe, que não privasse com as raparigas da rua, que lêsse romances para têr umas luzes de historia, que bordasse a matiz e a escama de peixe ou a casca de castanha, cantasse ao piano em francês ou italiano, soubesse, emfim, estar numa sala...
Duma tão grande infelicidade que a unica filha tinha modos de rapaz, detestava o piano, adormecia a lêr os mais pateticos romances, e fazia a cabeça doida ao padre José, que nos dizia a missa na capela da casa e toda a semana carregava com a pesada cruz de nos iniciar nos misterios da lingua portuguêsa.
Ralhavam comigo, mas, por mais que ralhassem, não conseguiam fazer-me compreender a{90} possibilidade de estar perfilada numa cadeira a receber as visitas na sala, como via as filhas do recebedor e as do medico da vila quando vinham á nossa casa. Francamente, abominava as adoraveis meninas, que ficavam com sorrisos murchos ao cimo da escada, recusando-se a seguir-nos á quinta com mêdo de estragar os lindos vestidos á moda, esses vestidos aparatosos, cheios de fitas e rendas, que usam na provincia as meninas ricas.
Eu, que era uma selvagem incapaz de tolerar um colête justo ou umas botas apertadas, que pedia para que me cortassem o cabelo para não sofrer os penteados, que só gostava dos vestidos depois de afeitos ao corpo pelo uso, olhava com verdadeiro assombro aquellas meninas modelos.
Ás vezes, a minha bôa Maria Augusta tentava apertar um pouco os cordões do colête,—«para me tornar elegante»—mas eu protestava tão energicamente que tinha de desistir logo, dizendo-me arreliada:
—«Ó menina, é preciso sofrer para sêr formosa!
—«Pois sim, espera por essa... Eu nem quero sofrer nem quero sêr formosa!
Uma vez levantei-me cedo, estava uma manhã gloriosa de inverno, deste inverno tão nosso, em que o azul do céo é limpo, puro e{91} transparente como se fabricado fôsse pelo mais escrupuloso dos artistas e da mais preciosa das porcelanas.
Em casa apenas as criadas traquinavam na cosinha, encetando a labuta do dia, e a Maria Augusta abria janelas e portas para a limpeza do rez-do-chão.
Acordara cedo; a chilreada dos pardais madrugadores era o meu despertador.
O sol começava a aureolar o cume dos montes, e, como a nossa casa ficava ao cimo dum vale, depressa me inundou o quarto duma luz rosea que enchia de alegria os meus olhos e me fazia cantarolar e rir sósinha, como se estivesse no maior divertimento.
E vesti-me á pressa, com grande abundancia de gestos, batendo na agua fria, que atirava para a cara com as mãos em concha, satisfeita e feliz como se uma alma nova despontasse em mim.
Em baixo, a Maria Augusta e as outras criadas festejaram o meu sorriso jubiloso, a minha madrugada feliz.
Correndo para o pateo, comecei por dar liberdade a toda a capoeira que ainda permanecia fechada, por soltar o Tigre que os criados já tinham acorrentado á sua grilheta diurna, e fui á estrebaria vêr a nossa bôa Cacilda, a burra, que me cumprimentou com um zurrar festivo.{92}
Iniciando assim o que a Maria Augusta chamava irreverentemente a série dos meus disparates, não parei no principio, o que seria prova de pouca independencia de caráter... Desprender a Cacilda e trazê-la para a horta, para que ella podesse saborear á vontade as couves que o velho hortelão guardava avaramente dos seus dentes de apreciadora, pareceu-me a coisa mais natural do mundo.
Depois, ella bem almoçada, e naturalmente tão alegre como eu e como o Tigre, que a seguiamos satisfeitos de a vêr escolher uma a uma as mais tenras folhas da horta, achei tambem natural, como um simples remate de tal festa, que fôssemos dar um passeio até á mata.
Chamando a Cacilda, acariciei-lhe o pescoço, dei uma volta á corda na mão, e dum pulo fiquei-lhe montada sobre o dorso como um rapaz.
Um pequeno assobio ao Tigre preveniu-o da minha resolução, e ahi vamos nós todos três, alegres e felizes, porque o céo estava limpido e o sol brilhava, porque o ar era puro e os campos reverdeciam numa jovialidade de primavera proxima.
A meio da carreira sobreveiu-nos um obstaculo inesperado, na vera pessôa do bom padre Zé, que já voltava das suas arvores em{93} cata do almoço, e fez estacar a Cacilda com os seus gestos e gritos indignados.
—«Para onde vai a menina assim montada?!
—«Dar um passeio á mata. É para abrir a memoria e o apetite—respondi-lhe a rir.
—«Mas isso não são modos de menina bem educada!—apostrofou-me aflito.
—«Eu não sou menina, nem bem educada!—retorqui-lhe numa gargalhada.
—«Se a mamã sabe!....
—«Não lhe diga nada, que eu já volto.
E, dando um sinal á Cacilda, partimos a galope, deixando o bom do padre no mais profundo pasmo.
Agora são os medicos os primeiros a preconisar ás senhoras essa maneira de cavalgar, e não tardará que a moda a impônha como a última palavra do chic. Como a razão é intuitiva e se faz sentir na inteligencia liberta da criança!
Mas á volta é que fôram ellas! Tinha levantado um verdadeiro temporal de protestos e queixas com os meus átos, tão espontaneos e naturais quanto me pareciam humanos e justos...
Pois não seriam elles meritorios: abrir as prisões, soltar os presos, dar de comer aos{94} que tinham fome, e em seguida premiar-me a mim mesma indo passear?!
Não o entenderam assim em casa, lá porque as galinhas tendo encontrado aberto o portão do quintal tinham acabado a destruição da horta, que a Cacilda encetara com tanto brio! O hortelão parecia doido e a minha pobre mamã benzia-se assustada, temendo que eu tivesse o diabo no corpo.
Fui chamada ao escritorio, áquelle escritorio de paredes revestidas de velhos livros onde o meu pai recebia os caseiros, fazia a sua escrituração, e lia, a maior parte das vezes, os seus in-fólios mofentos.
O caso era realmente grave, mais do que poderia presumir, para que assim se tivesse apelado para a autoridade paterna...
Assentado na larga cadeira antiga, de coiro lavrado e braços abertos num carinhoso aféto, onde elle descansava as suas finas mãos de intelectual, diante do pesado bufete de pau santo torneado em três cordas, como um juiz austero, o meu pai admoestou-me severamente por tanto disparate e terminou por dizer:—que me tornava o escandalo da familia e assim não podia continuar...
E como esta outras muitas fiz, que não acabaria se as fôsse a contar todas.{95}
A mamã queixava-se da minha extrema ignorancia e incapacidade de sêr apresentada diante de gente, o que o meu pai corroborava dizendo por seu turno:—sêr absolutamente preciso, e muito urgente, mandar vir uma professora que tomasse conta de mim e me sujeitasse a uma «disciplina de ferro».
—Que não, isso que não!—acudia a minha mãe—não queria estranhas metidas em casa a vêrem e a ouvirem tudo quanto se faz e em pouco tempo a saberem mais da nossa vida do que nós proprios. Nem a gente pode falar á sua vontade, nem têr as suas coisas, porque emfim não ha casa que as não tenha, sem que tudo se saiba e se comente... Depois, ceremonias, niquices, exigencias... nada, isso não!
—«Pois é o unico meio:—opinava o papá triunfante—uma senhora que lhe fale uma lingua estrangeira e que a sugeite a um regimen invariavel.
—«Nada, um colegio é ainda o melhor; mete-se lá a pequena e fica-se livre de cuidados.
Meu pai hesitava,—tinha lá as suas ideias contra os internatos—e estou em crêr que me preferia ignorante, como a Zéfinha da horta ou a Teresita do barbeiro, a têr que me mandar para um colegio.{96}
Os meus irmãositos todos se afligiam quando se ventilava a magna questão, que os ameaçava da minha ausencia, e eu, sem bem saber o que preferia, ia gosando alegremente os dias na bela paz da minha aldeia florída e ensoalhada.
Mal suspeitava que a desgraça estava a bater-me á porta—e mais terrivel do que podia imaginar! Parece-me estar a vêr entrar na cosinha de grande chaminé, onde se enxugava o enchido e as castanhas secavam no caniço, a mulher dos recados que fôra á vila buscar o correio, e me dizia, alviçareira:
—«Olhe, menina, aqui vem uma carta para a mamã. É do seu tio Manoel; já lhe conheço a letra.
Muito alegre, arrebatei-lha das mãos e fui-me pela casa fóra a gritar pela mamã até dar com ella no celeiro a receber uma pensão. Lembro-me bem—cincoenta e sete!—gritava o caseiro, e a mamã, muito serena, ia apanhando um grão de milho por cada alqueire que o homem despejava na tulha. Quando entramos—eu e os meus quatro irmãositos—como se fôssemos uma revoada de pardais bulhentos, ella toda se agastou...—Como isto me ficou nitido na memoria!—Quando viu de quem era e o que dizia a carta, correu toda satisfeita em busca do marido, emquanto{97} nós aproveitavamos a falta de vigilancia para saltarmos todos para dentro do milho. Eu, que era a maior, enterrava-me até á cinta nos grãos amornados e enchia os bolsos do meu bibe branco, para levar uma lembrança ao pombal. Um dos pequenos gritava que as suas botas, de canos muito largos por têrem pertencido ao mais velho, levariam mais dum saco de milho, para a ração suplementar da Cacilda.
Riamos perdidamente, atirando uns aos outros aquella chuva de grãos muito sêcos, ainda cheirando a campo e ao sol das eiras onde se aloirara e brunira!
O caseiro achava muita graça aos meninos—podéra não!—e na sua cabeça lanzuda esboçava-se, talvez, o pensamento finório de se enganar na conta com alguns alqueires a menos. É provavel que assim sucedesse, porque a carta do tio Manoel tinha transtornado por tal fórma a mamã, que até se riu quando nos veiu encontrar a todos aninhados dentro do milho, e não passou revista ás nossas algibeiras quando saltamos para fóra e nos safamos com presteza—não fôsse ainda cerceada a merenda que levavamos aos nossos protegidos da capoeira, do pombal e da estrebaria!
Já fóra e ainda ouviamos a contagem dos alqueires que entravam para a tulha, arrastada{98} e monotona. Os bois, jungidos ao pesado e primitivo carro de duas rodas, estacionavam no quintal, ainda carregados com os sacos cheios com o resto da pensão, guardados por uma criancita vestida de jaqueta, calças compridas e grande chapéo, como um pequeno homem de caricatura. O que nós rimos! Era o filho do caseiro, o Tonito, mais novo do que o mais novinho dos meus irmãos, mas já util como uma pessôa crescida.
São assim os filhos do nosso povo, duma sujeição ao trabalho que os predispõe para uma longa existencia paciente, sofredora e productiva.
Como esse foi o último dia feliz da minha infancia, não me esqueceram nenhuns destes detalhes, nem o cheiro á poeira do milho e aos queijos da Serra da Estrella, que secavam em tábuas prêsas ao této do celeiro por cordas isoladas com têstos de barro, por causa dos ratos, providencias caseiras da minha mãe.
Desde essa luminosa tarde de outôno, ainda quente como se o sol cahisse a prumo, num estiramento inesperado de estio, e já perfumada pelos frutos maduros, que se recolhiam á pressa, e pelo môsto de cheiro forte que ferve nas dornas ainda antes de recolher ao lagar, a nossa casa transformou-se completamente. Eram só conferencias sobre o{99} que se daria aos manos, e mais os lençois bordados, a coberta de damasco para a cama, as toalhas de linho com ricas franjas de renda de Peniche... Tudo quanto havia de melhor se levava para o quarto da laranjeira, o mais vasto e cómodo da casa, o proprio quarto de meus pais, que tudo achavam pouco para receber condignamente o mano Manoel, que voltara havia pouco tempo do ultramar, casado com uma estrangeira. E assim passaram oito dias em que se não pensou nem falou noutra coisa.
A minha mãe fazia esforços de memoria por se recordar bem nitidamente dos traços fisionomicos do irmão, como se volvidos tantos anos gastos em trabalhos e fadigas, elle podesse têr ainda o rosto levemente rosado, o buço mal lhe sombreando o labio superior, a cabeleira negra ondeada que lhe davam um tão gentil aspéto no retrato em daguerreotipo, tirado quando assentara praça em cadete, e que nós não nos cansavamos de ir vêr á sala de visitas, no seu estojo forrado de veludo granada.
Até o Padre José afroixava a sua vigilancia pelo nosso estudo e punha-se ao dispôr da mamã—para o que fôsse necessario. A minha mãe sorria benevola e agradecia, mas não o ocupava em coisa alguma, porque elle, muito forte no português e no latim e mesmo um{100} tanto no francês, tirado disso só á mêsa, diante duma travessa cheia de açorda, ou no pomar podando e cuidando das suas queridas arvores, era homem de alguma utilidade.
Um santo, o nosso bom professor! Que saudades delle eu tive depois, quando comparava a sua maneira tão lhana de ensinar, a sua ingenuidade de bom, respondendo meio comprometido ás nossas curiosidades extemporaneas, e quando se atrapalhava á nossa pergunta atrevida:
—«Ó padre Zé, para que está sempre a falar no diabo?
Era o costume delle, o seu bordão.
—«É verdade—respondia-nos muito ingenuo—é um diabo duma mania que eu tenho de estar sempre a falar no diabo!...
Um bom homem, afinal de contas; um santo velho, nada fanatico, de bolsa franca para todas as miserias, palavras de consolação para todas as lagrimas, espirito bem equilibrado e muito logico, um filósofo sob a aparencia dum sólido camponez. Conseguira que eu aprendesse da minha lingua aquilo que ainda hôje sei; conseguiria—era capaz!—ensinar-me talvez o latim e até a ajudar-lhe á missa. O que não faria desta sua rebelde discipula a paciencia beneditina do bom Padre José!{101}
O tio Manoel era irmão mais velho da minha mãe. Sahira de casa muito novo; a última vez que empreendera a incómoda viagem á aldeia, era apenas cadete, como tirara o retrato. Depois fôra para a Africa, na ânsia de ganhar honras e postos. De lá percorrera quasi todas as possessões ultramarinas, sem mais se lembrar de escrever á familia. Só havia pouco tempo mandara noticias participando têr casado, e dizendo a sua resolução de voltar em breve ao reino.
Alguns mêses mais tarde, nova carta dava conta da sua chegada a Lisbôa, onde estava tratando de se instalar, e convidava a irmã e cunhado para irem fazer-lhes uma visita. Na última carta, aquella que tanta impressão causara em todos nós, dizia:—que, em vista da dificuldade que os meus pais opunham em deixar a casa, viria elle visitá-los e apresentar a sua senhora.
No dia em que deviam chegar, logo de manhã nos envergaram os fatos domingueiros, recomendando-nos muita cautela—não fôssem os tios julgar-nos uns besuntões!
Nesse dia era escusado o lembrete, pois nenhum de nós pensava em diabruras, ansiosos como estavamos por vêr chegar os hospedes.
O Papá partira cedo para a vila, para esperar a diligencia que traria os viajantes, e nós{102} subimos ás janelas mais altas a vêr se descobriamos o carro por entre as faias da estrada real.
Lá para o meio dia descobriu um de nós uma nuvem de poeira ao longe—tal qual como no Barba Azul—e, logo depois, ouvimos o guizalhar da diligencia que já se avistava numa volta da estrada. Corremos alvoroçados a prevenir a mamã, que na cosinha dava as últimas instruções á criada sobre a cosedura do perú e o assado de leitão.
Um quarto de hora depois apeava-se á nossa porta, entre o povo curioso, a mais extraordinaria pessôa que até esse tempo eu tinha conhecido.
Depois disso, no caminho da vida, que já não é curto pelo muito que tenho sentido e sofrido, tenho visto bastas figuras caricaturais: gente de todos os modos e feitios, tipos de comedia e tipos dolorosos de tragedia, riscados em dois traços por Gavarny, risos disformes em pálidos abortos, exageros de vestuario igualmente ridiculos, ou pela extrema elegancia ou pelo extremo desleixo... Tenho visto de tudo, e jámais senti o pasmo que essa primeira pessôa estranha causou no meu espirito desprevenido.
Os meus irmãos, em frouxos de riso, fugiram para dentro de casa, e o Miguelsinho, que{103} era o mais velho, abaixo de mim, puxava-me pela manga sublinhando risos muito ironicos.
Eu, não sei porquê, não tive vontade de rir; qualquer coisa me dizia cá dentro de mim que era para pranto, e não para riso, a entrada daquella gente na minha vida.
Primeiro apeou-se o meu tio, um vélhote bastante alquebrado, mas alegre por se vêr na terra natal. Abraçava toda a gente, e tratava por tu velhas que eu me acostumara a considerar avós, e que limpavam os olhos lagrimejando por o vêrem tão acabadinho... E elle ria—raparigada do seu tempo, todas essas vélhinhas, e queriam que elle estivesse um rapaz, e mais que não tinham andado por trabalhos e canseiras de climas inhospitos!...
E achava extraordinario que a irmã, uma garotinha de saias curtas quando elle partira, estivesse já mãe de filhos...
—«E já de cabelos brancos—visse bem o mano!...
Atraz delle, sahiu do carro uma pequena de cinco anos, parecendo têr o dobro, nem bonita nem feia, extravagantemente vestida á inglesa de torna-viagem, e toda doutoral nas suas frases. Fôra a última a nascer, depois de bastantes anos de casamento, em que todos os filhos lhes tinham morrido; por isso era respeitada como milagre vivo.{104}
Por fim, quando os criados tinham carregado uma aluvião de malas, necessarios, sacas de linho bordadas, e tanta coisa que nos fazia arregalar os olhos de espanto, a nós pobres pequenos selvagens, que, a respeito de viajar, iamos ás quintas proximas pelo tempo da vindima e até ao rio em folgada pescaria uma vez por festa. Depois começou a sahir um prodigioso chapéo de palha envolto em gaze côr de castanha, e, a seguir, um corpo enorme vestido com um guarda-pó de xadrez em largas mangas perdidas.
Era monstruosa a minha tia! Nunca lhe poude dar este nome porque o meu espirito se recusou sempre ao convencimento desse parentesco, que repugnava á minha afétividade.
Alta como um carvalho e gorda em proporção, o que a tornava ainda mais exotica entre gente miuda como é a nossa. Talvez não tivesse sido feia, mas as feições estavam enterradas em tecido adiposo, e só naquelle deserto de cara branca brilhavam uns olhos metalicos e frios que nenhum sentimento conseguia adoçar. Quando os poisava na miudinha figura de morenita que eu era então, toda a minha carne se arrepiava numa tremura e os meus nervos vibravam desagradavelmente.{105}
Trazia o cabelo, já a embranquecer, cortado pelo pescoço,—á estudanta, diziam por lá as pequenas da aldeia—modos autoritarios, voz de comando, andar de granadeiro, e uma lingua de trapos que ninguem entendia.
Mãos e pés não tinham fim, e o seu desembaraço irritava-me pela mania que tinha de fazer tudo e melhor do que ninguem, de falar alto e atirar os braços para a frente num gesto resoluto de jogador de box.
Meu pobre tio admirava-a e escutava-a, submisso, como a um oraculo, nada fazendo sem a consultar.
Sobretudo nenhuma delicadeza feminil, muito orgulhosa da sua superioridade e senhora da sua pessôa, dizendo mal—de pórtuguês, e tudo quanto é pórtuguês, muito estupidos!...
Dizia-se filha dum banqueiro da Havana prodigiosamente rico, mas tais riquezas—como as de Pedro Cem—perdiam-se na sombra da lenda.
Contava coisas estupendas de seu papá, descendente em linha réta de grandes de Espanha, pelos vistos, dos soberbos companheiros de Colombo... A sua mamã, essa era uma aristocratica lady, viuva dum membro da aristocracia britanica, que não se dedignara de aliar o seu puro sangue azul{106} ao de descendente dos audazes conquistadores...
A fortuna de seu papá pesara por muito tempo nos destinos do visinho reino, como o luxo da mamã déra brado na côrte de Madrid e na vilegiatura de San Sebastian, uma vez que os dois tinham visitado a metropole.
Coisas que ella dizia, que, ao certo, quem pode dizer donde vem essa gente, retalhos desencontrados e disparatados das raças do mundo inteiro?!
Apreendi depois, no decorrer da nossa convivencia, por meias palavras escapadas a uns e a outros e por inconfidencias de pessôas das relações e que os tinham conhecido lá fóra, que o banqueiro cahira vergonhosamente numa falencia que fizera estrondo e a lady não passava duma aventureira, dessas que a Inglaterra exporta, sob a capa angelical de sérias institutrices, e que por todos os meios querem arranjar uma existencia mais cómoda.
Orgulhava-se extremamente dessa sua origem britanica, como de têr nascido na America, como se fôsse uma legitima filha dos Estados-Unidos...
Oh, a livre America, sonho de todos nós os que nos sufocâmos sob a pressão do convencionalismo europeu, como essa mulher nô-la{107} mostrava odiosa, opressiva, duma rigidez de puritanismo fanatico!
—«Oh! Amérricana, grande coisa!... Eurrópa, muito desmoralisada!... Pórtuguês, muito estupida!...
Igual ao seu orgulho de têr nascido numa ilha da America e de pais tão ilustres, só o desprezo, e a ignorancia propositada, por nós, pelos nossos gostos e aspirações, pelo nosso povo tão laborioso e inteligente, embora inculto, pelo nosso país tão belo, o nosso clima tão dôce no sul e tão soberbo junto ás montanhas que a neve cobre nas invernias grandes...
Desconhecia a nossa historia, não sabia lêr os nossos poetas, não se entusiasmava com os nossos prosadores. Os nossos costumes, tão pitorescos, eram, aos seus olhos, de selvagens; as canções do nosso povo achava-as sem brilho nem graça, melopeias só proprias para adormentar crianças.
Oh, o horror que nos causava essa criatura, que assim abocanhava tudo quanto nos era querido, achando sempre que dizer das superioridades dos outros países! Nós, os pequenos, que não tinhamos adquirido com o decorrer da vida a fleugma risonha com que meu pai a escutava, a indiferença com que a minha mãe ia tratando da sua vida sem lhe{108} prestar atenção, nem a paciencia do Padre Zé, que abanava a cabeça embranquecida como unica resposta; nós desesperavamo-nos por não nos permitirem contrariar a hóspeda. E o Miguel, que já pensava muito bem e tinha observações muito a proposito, dizia-me baixinho, de cada vez que a ouvia denegrir as nossas coisas:—Não sei como, sendo tão mau o nosso país e a gente tão estupida, ella casou com um português e veiu para cá maçar-nos!...
Mas o que eu não compreendo é como essa criatura, que para nós era tão desagradavel, conseguiu convencer meus pais da sua inteligencia, chegando a dar-lhe razão nos seus grossos dislates.
Principalmente na minha pobre mãe, que se julgava uma ignorante,—ella que dirigia a sua casa com tanto criterio e olhava providencialmente por nós todos—fizera profundo sulco a torrente de sabedoria enciclopedica que jorrava enfaticamente da sua bôca.
Logo que chegou, desembaraçada dos apetrechos da viagem, olhou-nos com altivez. Depois tomou-me á sua conta, por sêr eu a mais velha e por ser rapariga. Um dia sujeitou-me a um interrogatorio em fórma:
—«Menina sabe francês?
—«Não, menina não sabia francês.{109}
—«Oh!... vergonha!
Estive para lhe responder:—E a senhora sabe português?!
Chamaram-me sempre atrevida nas respostas, mas o que é certo é que me arrependo sempre das poucas que tenho deixado de dar tal qual as penso.
—«Menina sabe inglês?
—«Não.
—«Oh! sabe desenha?
—«Não.
—«Oh! muito linda! Aquellas sombras!... Na Amérrica toda a gente sabe desenha!...
—«Sabe piana?
—«Não.
—«Oh! vergonha, vergonha, uma menina não tocar nem cantar!...
E seguiu-se uma preléção sobre tudo quanto enumerava e que eu, pertinazmente, ignorava. Na verdade eu sabia pouquissimo, mas estou certa que ella não conhecia senão de nome a maior parte do que dizia. Aquilo tudo era papagueado, elementos de coisas que aprendera no decorrer movimentado da sua vida.
O meu querido Padre José pasmava:—«Como podia uma senhora saber tanto?!...
E a minha mãe desculpava:—«Oh, a mana não imagina a falta de professores que ha por estes sitios! Temos pensado em mandar a{110} pequena para um colegio, mas o pai prefere uma professora... Eu, professoras em casa—tenho-lhes um mêdo!
Demoraram-se, apesar de todos os incómodos a que se sujeitavam naquele selvatico país, um longo mês em nossa casa. Depois...
Quando penso, ainda estremeço de raiva! Depois de longas conferencias e segredos com os meus pais, combinaram que eu iria com elles para Lisbôa e ficaria em sua casa para me educar.
Quando nós, os pequenos, soubemos o que significavam tais misterios, já tudo estava resolvido. Eu desanimei; os meus irmãositos choravam pelos cantos, e chegavam-se a mim para os animar. O Miguelsinho, que era o preferido da mãe, tentou discutir tal resolução e pedir para que me não entregassem á estrangeira, mas ficou desiludido da sua influencia porque o chamaram pateta e prohibiram-lhe terminantemente de se meter onde não era chamado.
Cá por mim, nada pedi nem objétei; fechei-me num mutismo que exprimia já, mais do que as palavras, a onda de revolta que se me ia formando no coração.{111}
Sucumbi. Já não tinha gosto para nada: não voltei á quinta nem procurei mais a Cacilda, para a cavalgar como os rapazes e percorrer os caminhos tão conhecidos e amados. Os meus amigos do pombal sentiram por certo a minha falta, como os da capoeira a tinham já sofrido...
Nunca mais procurei as pequenas minhas companheiras, mas via-as por detraz dos vidros da janela dansarem em rodas, ouvia-lhes as cantigas joviaes, percebia que jogavam a laranjinha ou faziam de senhoras visinhas... E ficava-me indiferente, já alheada da sua alegria, afastada para sempre do seu convivio, desprezando inconscientemente a sua humildade. Era como aquellas pessôas, quasi na agonia, que já não são deste mundo nem o que nelle passa lhes interessa—e ainda não entraram no supremo descanso da morte.
Decerto que muitas vezes pensara em sahir da aldeia, percorrer novos caminhos, vêr paisagens inéditas, terras lindas de encantar como as sonhava por esse mundo fóra!... Invejara, não poucas tambem, os vagabundos que passavam pela aldeia e nos contavam coisas estranhas para os nossos espiritos, e de que elles traziam nos olhos um vago assombro... Devaneando, o Miguelsinho e eu, quantas vezes não conversamos sobre a divertida{112} existencia dos ciganos, que andam de terra em terra com os ursos e os macacos e sob a sua esfarrapada tenda têm todo o seu aféto e interesse no mundo?!
Sahir dalí... ir viajar... vêr paisagens novas em folha para a minha retina, terras desconhecidas, gentes exoticas, seria uma libertação, mas ir na companhia duma pessôa que nos era tão particularmente antipatica, confiada á sua guarda, colocada sob a sua autoridade, isso nunca o podia têr sonhado, nem como pesadelo me assaltara jámais o espirito.
Não chorava, porque a profundeza do golpe me revoltou até quasi á loucura. Desde o dia em que me deram a noticia do meu destino, deixei de sêr a criança que fôra até ahi para me tornar numa sombria criatura, raro abrindo em risos a sua alma ingenua.
Tinha doze anos, cheios de saude e alegria; era uma perfeita criança, sem sombra de malicia a macular-me o espirito—uma pequena criatura muito humana e muito bondosa. Fui depois uma pobre alma torturada, contorcida em odios, desprezando e desconfiando de tudo e de todos.
O mundo deixou de sêr para mim uma festa cheia de sol para se tornar num algido subterraneo.{113}
Hãode dizer que exagero, que o caso não era para tanto, nem a mulher de meu tio merecia o repulsivo odio que lhe votei... Mas que querem?! Não ha animais que odeiam uma determinada criatura, numa repugnancia instintiva, sem aparente razão?
Tal o meu sentimento por ella: instintivo, invencivel, fatal.
Meus irmãos choraram muito quando eu parti; a minha mãe abraçava-me soluçando convulsivamente, apesar de toda a sua serenidade de mulher que nunca sentira rebate de nervos em vibrações assustadoras, mas eu desprendi-me dos seus braços, de olhos enxutos, pálida e sombria, concentrada na convicção íntima de que não me estimava verdadeiramente quem assim me expulsava do seu lar, para me colocar sob a autoridade despotica duma quasi desconhecida e já detestada criatura.
Antes o colegio!—pensava com amargura. Ao menos teria amigas que sofreriam comigo o cativeiro, teria talvez professoras que estimasse...
Toda a gente da aldeia acorrêra para me dizer adeus; assim eu andava de braços para braços, levando beijos que me repugnavam mas aos quais não tinha coragem de me negar. As criadas, uma por uma, vieram{114} ainda á porta do carro dizer-me os últimos adeuses, e quando a Maria Augusta me abraçou apertou-me com tal ânsia que um nó se me deu na garganta, e teria fraquejado ali, diante da estrangeira, se a não visse no fundo do carro sorrir com ironia da cêna, que aos meus olhos nada tinha de ridicula.
Quando na vila, ao partir da diligencia, meu pai se voltou para limpar as lagrimas furtivamente, toda a minha alma explodiu num adeus—que mais era um grito de protesto... Até elle! Todos, todos, me abandonavam. Era demais!
Aninhei-me a um canto da carroagem, estupidificada pelo assombroso do caso, e deixei-me transportar como um fardo, sem vontade nem iniciativa; era mais um volume a acrescentar aos inúmeros sacos, malas e maletas que abarrotavam a diligencia alugada por conta da minha enorme tia.
De pouco me recordo dessa jornada triste que me levou a Lisbôa. Dias chuvosos de princípio de outôno, estradas desertas, campos desnudando-se numa paisagem uniforme, tristezas da alma e tristezas da bôa natureza, que se despedia dos meus olhos num compungimento de simpatia.
Ainda bem que chovia! Se fizesse sol, se as raparigas cantassem pelos campos, e os{115} carros de bois arrastassem pelos caminhos a fartura da colheita, quanto isso seria infinitamente mais desolador para a minha pobre alma confrangida!
Assim cheguei a Lisbôa por uma madrugada nevoenta, sem sequer me têr admirado do caminho de ferro que pela primeira vez vira no Entroncamento, onde o fômos tomar. O que podia interessar e comover o meu espirito atordoado por esse repelão da vida, que tão cedo começava a maguar-me?!
Ah, como se sofre quando se é criança, quando ninguem respeita a nossa dôr e a nossa vontade, quando decidem do nosso querer como se fôssemos títeres animados por maquinismo industrial!
Lisbôa não me deslumbrou, porque mais, muito mais, fantasiara dos seus encantos e fausto no meu sonhar de criança. As ruas da Baixa, com as suas altas casarias alinhadas e uniformes, que a rigidez pombalina decretou, faziam-me uma terrivel saudade dos campos largos por onde a vista passeia e cabriola como cabritinho montez. Apertava-se-me o coração recordando os horizontes que se esbatem ao longe, nas serranias violetas; e o marulhar da multidão irritava-me os nervos, mal me podendo recordar o rumorejar embalante dos pinheirais atravessados{116} pelos ventos em livres carreiras de tardes outonais...
O meu pobre tio mostrava-me coisas, queria que me extasiasse com a capital, eu pobre serrana que nunca vira nada, mas a faculdade admirativa tinha-se embotado em mim. Era um corpo sem alma—que essa por lá me ficara, errando pelos campos da minha risonha terreola.
Só quando o mar se descobriu diante dos meus olhos, elles se abriram numa atenção de velha simpatia. Não, nunca tinha visto o mar, mas sonhava-o e amava-o desde muito, com o aféto entranhado e atavico que todos nós lhe temos. O mar, a nossa estrada movediça e terrivel!... O mar, essa nossa segunda patria, foi a unica coisa onde descansei a vista com enlevo e que durante os quatro anos de cativeiro me deu algum prazer á vista. Quando, entre duas ruas, o descobria lá ao fundo, numa nesga rutilante de sol, toda a minha alma se refrescava e florejava de sorrisos.
Felizmente que a casa do tio era num bairro afastado e novo, onde raro chegavam os pregões berrados das ruas e só de longe em longe o rodar duma carroagem fazia estremecer os vidros das janelas. E, por fortuna, tinha atraz um jardinsito, entalado entre casas é{117} verdade, mas emfim mimoseando-nos com um pouco de ar mais puro para os robustos pulmões desenvolvidos pelo ar forte da montanha.
A cubana tinha fórmas dogmaticas sobre a educação, que serviam para os cinco anos da filha e para os meus doze de rapariga nubil.
Era preciso que me levantasse cedo—vá! Isso não me custava, acostumada desde criança ás madrugadas na aldeia. Mas, depois de me levantar, não podia correr pela quinta, abrindo o apetite ao almoço suculento que me esperava na mêsa; tinha que fazer a cama, arrumar o quarto, e estudar.
Em casa, para ajudar a Maria Augusta, muitas vezes lhe tirava a vassoira das suas pobres mãos encarquilhadas, e varria, cantando festiva, auxiliando-a no fazer das camas e mais arranjos domesticos; ali, obrigada, mandada por aquella monstruosa criatura, sentia um tal desespero, um tal rancôr a referver-me na alma, que todas as minhas ideias eram negras como fuligem, todos os meus sentimentos eram maus a roçarem pela perversidade.
Encostada aos vidros da janela do meu quarto, olhava a gente que seguia o seu{118} caminho, apressada ou vagarosa, alegre ou triste, pobre ou rica,—e a todos eu invejava com verdes invejas de reptil!...
Era preciso que estudasse três horas antes do almoço, e o meu espirito vagabundeava pelos caminhos pedregosos da minha terra, debruçava-se na ribeira onde os salgueiros reflétiam a folhagem leve e as margaridas rosadas, as pervincas azuis e os miosotis da côr do céo espreitam entre a verdura da herva tenra.... Era preciso que inclinasse sobre os livros a minha pobre cabeça pesada de sôno, e os meus olhos fechados reviam os milharais regados de fresco, as cerejas vermelhas suspensas como pingos de lacre das arvores amigas, as amendoeiras em flôr, as encostas cobertas de olivedos pálidos, os pinheiros esguios, os castanheiros arreganhando a bôca dos seus ouriços para nos darem o fruto saboroso. O meu espirito não acompanhava o pobre corpo oprimido, que se estiolava num quarto fechado, diante de estereis livros que não compreendia; não! Elle assistia, lá ao longe, á ininterrupta festa da natureza; alegrava-se com os divertimentos do campo; procurava os magustos, onde se comem as castanhas assadas na fogueira; ia aos serões, onde as velhas avós contam lindas historias ás raparigas, fiando á mortiça luz da candeia{119} suspensa do velador de pau enegrecido pelos anos; evocava as ranchadas que vão ás romarias, cantando e tocando a viola e os ferrinhos, e os que vão para as feiras álacres, entre festivos e afadigados, na policromia do trajar das mulheres e na gravidade interesseira do comerciante que oferece ou compra a mercadoria e discute largamente o seu negocio...
A fuga era o unico deleitoso pensamento que se esboçava no meu cerebro. Fugir! Sêr livre! Não têr mais diante dos meus olhos a figura estupenda da mulher de meu tio, nem a face simiesca da petiza!... Era o ideal supremo que acariciava, um sonho redentor que se me fixava na cabeça por mil pontos delicados e impercétiveis. Formava com esta unica e obsessiva ideia projétos sem conto, e se não fôsse a covardia ante o escandalo, que é ainda uma servidão do nosso espirito, se não fôsse o receio atroz de sêr apanhada pela policia, vir o meu caso por miudos nos jornais, e sêr finalmente trazida de novo alí, certamente teria feito alguma!... Faltava-me a energia determinante dos fortes caratéres. A revolta traduzia-se pelo embrutecimento, pela apatia, pela oposição passiva dos fracos e dos ignorantes.{120}
Fechada no quarto todas as manhãs, em vez de estudar deitava-me sobre a cama, e afiguravam-se-me as tábuas alinhadas e estreitas do této como se fôssem as tábuas do meu caixão.
Lá fóra era a vida: os pregões que atravessavam a rua solitaria numa festa ruidosa de côres, revoadas de andorinhas riscando o azul em zig-zagues caprichosos, a chilreada estúrdia dos pardais pelos telhados...
Morria de aborrecimento, e morrer, creio, foi o pensamento mais consolador que nesse tempo se alojou no meu cerebro.
Não estudava, o que era em mim um velho habito, mas com as lições do Padre Zé tinha chegado a compreender alguma coisa, e agora sentia-me sem nenhuma inteligencia, sonolenta, parada, sem sombra de vivacidade intelectual.
Tinha uns poucos de professores, pagos pelos meus pais é claro. E por sinal que eram bem generosos com o dinheiro dos outros...
O inglês ensinava-mo ella, mas eu odiava-a tanto e o meu espirito começava a achar um tal prazer em contrariar os outros, que me sublevava contra mim mesma quando começava a compreender essa lingua que ella tinha como sua.{121}
Farta já de a saber, obrigava-a a algaraviar o português para me rir intimamente dos seus comicos disparates.
Estava assim.
Pouco sahi durante os quatro anos que durou o meu cativeiro—porque a sua companhia me desagradava cordialmente, porque os passeios por ella escolhidos eram odiosamente disparatados, e porque a sua imposição de me ensacar em verdadeiros horrores, que ella alcunhava de vestidos á inglêsa, me causava um asco invencivel.
Sem têr nunca apreciado os laçarotes e as rendas esbanjadas nos vestidos provincianos das minhas antigas conhecidas, sem ambicionar a elegancia casquilha das meninas lisboêtas, o meu espirito era demasiadamente meridional, demasiado artista, para se não prender com a fórma e não se encantar pela côr e pela beleza do trajo, como de tudo quanto me pertencia e rodeava.
Assim, achava meio de me esquivar sempre que sahiam, o que era raro, pretextando estudos que nunca fazia.
De mêses a mêses, a visita ao consul inglês era o unico parentesis de luz na tristeza da minha vida. Tinha umas filhas encantadoras,{122} algumas já senhoras, e, entre ellas, a Maud era muito gentil para mim, consolando-me e alegrando-me, nas poucas vezes em que nos avistavamos, das muitas horas de incomportavel tedio que passava naquella casa.
Maud era muito inglêsa na sua educação para censurar uma pessôa das relações da casa, mas o simples sorriso dos seus labios finos, a ligeira caricia dos seus olhos puros, era quanto bastava para me encher o coração de reconhecimento e têr na sua amizade toda a confiança.
Pobre Maud! Levada pelo destino para longe, obrigada a ganhar a sua vida pela morte dum pai afétuoso e inteligente, em que país, em que terra, em que familia, o seu sorriso honesto, a sua graça séria, serão consolo e júbilo para alguma criança infeliz, como eu era?!
Outra qualquer pessôa, por menos melindrosa e suscétivel que fôsse, não se sentiria feliz num meio em que tudo era violento e desagradavel.
A cubana ralhava por tudo, nada estava feito a seu gosto, de manhã á noite lamentava têr vindo para um país de que dizia indelicadamente, grosseirônamente, os ultimos horrores:—a vida era carissima, os criados eram mandriões e inhabeis, era preciso olhar por{123} tudo, vêr tudo, desde a roupa da lavadeira até á limpeza da casa...
Tornava desgraçada toda a gente, e não consentia que ninguem se considerasse infeliz—possuindo a rara fortuna de a têr ao lado!
Ao meu pobre tio impunha uma felicidade que elle estava longe, bem longe, de sentir. Não podia formular uma opinião sua; era obrigado a confirmar tudo quanto ella dizia, e ainda dizer-se o mais ditoso dos maridos e fazer elogios á sua alta inteligencia, bom-senso e sábia economia.
Meu pobre tio! Verdadeiramente, aquella pressão moral em que conservava o bom do velho, revoltava-me. Nunca pensei em impôr a minha vontade a ninguem, e tudo quanto seja coagir a dos outros, tirar ao sêr humano a liberdade de sentir e pensar por si mesmo, exaspera-me como violencia contra mim propria exercida.
Depois, a pequena tinha a bela qualidade de espiar e ir contar-lhe tudo quanto se dizia e fazia em casa, e por muitas vezes o que nem sequer se sonhava dizer ou fazer. Um amôr de criança!
As criadas entravam e sahiam com uma velocidade de comboio expresso.
Quando mal humorada, dava-lhes bofetada e descompostura que as fazia fugir espavoridas;{124} mas, se por outro lado lhe désse na cabeça, enchia-as de presentes e favôres. Era conforme ellas sabiam ou não lisongear-lhe a vaidade.
A última que lá conheci, talvez a mais velhaca de todas, essa soube cativá-la, e fazia quanto queria sem que ouvisse uma simples reprimenda. Adiante falarei na menina Eulalia, que entrou para muito na minha vida.
Meu tio é que escrevia para casa e lá dizia dos meus adiantamentos, que, francamente, não eram nenhuns. Ás noticias dos meus pais, tão carinhosas e prolixas, eu respondia com aquellas cartas incolôres que todas as crianças prisioneiras nos internatos, ou onde quer que lhes pônham sentinela ao pensamento, têm escrito. Cartas em que nem um vislumbre da alma infantil entreluz; cartas feitas só de palavras ouvidas, e que são o primeiro passo para a mentira social a que nos querem sujeitar, como a cães sábios sob o chicote domesticador e o mêdo... A criança, que sabe que as suas cartas serão maculadas pelos olhares indiferentes, e os seus verdadeiros sentimentos procurados nas linhas em branco da sua pobre correspondencia, perde a sinceridade, não se expande com lisura, não diz o que sente...{125}
Os bilhetes que metia no mesmo sobrescrito de meu tio eram frios, pouco mais ou menos o que me diziam que era dever escrever:—que estava bem, que era bem tratada, que me sentia feliz... Nada do que, em verdade, eu teria desejo de dizer!
É certo que a minha alma irritada julgava-se ofendida pelo desamôr com que me tinham expulso de casa para me atirar para o poder daquella mulher, que para mim resumia tudo quanto eu podia odiar mais.
Nesse tempo não gostava de ninguem—nem de mim mesma. Era injusta, mas era humana. O animal criado em toda a expansão da sua vida material e forte, não se subjuga sem rebelião, não se obriga sem muito custo a entrar no regimen de servidões a que se convencionou chamar deveres sociais.
Assim, quando meu pai empreendia a longa viagem da aldeia á capital para me vêr, eu não correspondia de modo algum ao seu aféto e interesse.
Sem compreender o enorme sacrificio que faziam para me dotarem com uma educação que supunham sêr um precioso instrumento de felicidade para toda a minha vida, achava que era desamôr o que me consagravam e tão sómente desejo de me vêrem longe da sua casa, porque o meu feitio moral os desconcertara{126} e lhes era talvez odienta a minha presença...
Ás perguntas insistentes que me fazia, vendo-me tão delgadinha e triste, o meu orgulho fazia-me responder com sistematica negativa.
Se elle se demorasse, se insistisse, a minha energia não seria mais forte do que a revolta contra o sofrimento, tão natural ao sêr humano quando novo e saudavel.
Mas o meu pai não supunha encontrar tais meandros e subtilezas no sentir duma criança que conhecera defeituosamente franca e impulsiva. Por outro lado, os negocios da casa não o deixavam demorar mais do que um dia ou dois, o que não era muito para fundir o gêlo que se formara no meu coração contrariado e amarfanhado.
Ora de estudos ia eu muito mal. Os meus professores classificavam de estupidez a minha incapacidade de satisfazer as lições, e creio bem que o era.
Não estudava, e mesmo que estudasse não compreendia.
A cabeça parecia-me de chumbo, pesava-me como o capacete dum guerreiro antigo. Não faziam nada de mim, pela certa!{127}
A professora de desenho era a unica que tinha dó dos meus traços indecisos e me dirigia com bôas palavras, por isso fiquei sabendo um pouco mais dessa arte, que das outras, e com imensa pena de não poder fazer tudo quanto ella me dizia que seria capaz de realisar, com a minha paixão pela corréção das linhas classicas, a minha expansiva busca das côres, que ousava procurar inéditas e brilhantes na paleta de principiante...
Sentia-me infeliz, e, se verdadeiramente me quizesse queixar, não saberia bem precisar o que me maguava naquella casa. Talvez porque era tudo, desde a gente até á comida. Chegava a sêr um suplício; acostumada em casa a encher abundantemente o meu pequeno estomago voraz, ali tinha até mêdo de meter na bôca um pedaço a mais, porque via todos os olhos a pesarem e a medirem tudo o que a minha garganta oprimida conseguia deixar passar.
Por economia e por habito, eram todos frugais, e eu, por ceremonia, quando os via recusar o roast-beef, que se comeria frio no almoço do dia seguinte, recusava-o tambem, embora ás vezes sentisse um bom apetite de animalsinho carnivoro, que não se sente satisfeito.
O meu unico desafogo era o jardinsito, que tratava com todo o cuidado. As sementeiras{128} iam a horas para a terra, e não lhes faltavam as regas, com a agua que eu mesmo tirava da bomba, nem a cobertura de palha, mais tarde, por causa das geadas.
Andava sempre a espreitar o crescimento das plantas tenrinhas, que mal despontavam na terra pobre de adubos vitalisadores; e quando, na primavera, as arvores que mal se desenvolviam na sombra daquelle jardinsito entalado entre predios altos, se enfloravam, toda a minha alma florescia com ellas, recordando as que lá ao longe perfumavam os campos onde a minha saudade me levava errante...
Ora o jardim era dividido do que pertencia ao rez-do-chão da esquerda por uma sebe de madeira, que eu pensara em disfarçar sob a verdura abundante duma trepadeira de folha permanente. Passava horas desembaraçando as finas hastes para as ir guiando e atando. Quantas vezes, de tanto as querer estender e espaldar, não parti grandes pedaços, que depois lamentava muito contristada! O mal de quem tem muita pressa... em contrafazer a natureza.
Ao fundo, era limitado pela parede dum outro jardim, que nunca tivera a curiosidade de procurar vêr, embora por lá sentisse as risadas de crianças mais felizes do que eu...{129}
A tristeza até embota a curiosidade, essa fórma, embora inferior, da vivacidade intelectual. Concentrava-me no meu proprio sentir, e todo o mundo me era estranho.
Ora isto foi assim até que num dia veiu para o rez-do-chão visinho uma nova familia: pai, mãe, e filha, uma pequena encantadora, que começou a sorrir-me e a cumprimentar-me quando me via na minha faina de jardineira.