El-rei D. Manuel recommenda no seu testamento a Excellente Senhora, como já o fizera o seu antecessor: «Item, pelo conjuncto devido que tenho com a mui Excellente Senhora minha prima, e por suas muitas virtudes, e pela obrigação em que por estes respeitos lhe são, e pelo carrego que d’ella e de todas suas coisas com razão o rei de Portugal deve em todo tempo ter, encommendo muito ao principe meu filho, que sempre d’ella e de sua consolação tenha mui grande e especial carrego, visitando-a e honrando, e tratando como ella o merece, por todas as razões sobredictas, e em todas suas coisas seja alli tratada como eu sempre folguei de o fazer, e é razão que assim se lhe faça, e aos deputados ao governo encommendo e mando que emquanto no governo estiverem lhe façam mui inteiramente pagar os dinheiros que tem de seu assentamento, e n’aquella propria fórma e maneira que agora se lhe faz, e se melhor lhe puder fazer, assim será mui bem que lhe seja feito, e muito lhe encommendo que de isso, e de todo o que lhe cumprir tenham grande e especial cuidado, e entre os mais principaes, isto lhe encommendo muito em especial.»
Um anno depois da morte de D. Manuel, isto é, em 1522, a Excellente Senhora, intitulando-se rainha de Castella, fez doação solenne de todos os seus direitos a el-rei D. João III, considerando-o como seu filho legitimo, e universal herdeiro, visto ser «já em tanta edade constituida que não era tempo para haver de casar, nem poder haver filho natural legitimo descendente, que os dictos seus reinos e senhorios por seu fallecimento haja de herdar».
D. João III, que presente estava, acceitou, e recebeu, e prometteu ter e manter os dictos reinos e senhorios de que a Excellente Senhora lhe fazia doação.
Foram testemunhas d’este acto o barão de Alvito, veador da fazenda real, Luiz da Silveira, do conselho de el-rei e seu guarda-mór, e Ruy Figueira, veador da fazenda da mesma senhora.
Subscreveu o auto o secretario Antonio Carneiro.
D. João III approvou-o e confirmou-o.[73]
A infeliz princeza ainda viveu oito annos. Falleceu em Lisboa, no paço da Alcaçova ou do Castello, no anno de 1530, com sessenta e oito de edade.
Do seu testamento, que existe na Torre do Tombo, gaveta 16, maço I, n.º 2, dá copia Antonio de Sousa nas Provas da historia genealogica.[74]
D. Joanna ordena que o seu corpo seja amortalhado no habito de S. Francisco e enterrado no mosteiro do Varatojo; deixa cem mil réis para missas, outros cem para resgate de vinte e dois escravos moiros e, finalmente, outros cem para os pobres e orfans envergonhados. Á capella de Santa Clara, de Evora, deixa oito mil réis para uma missa diaria.
A isto se limitam as suas disposições espirituaes.
O resto são declarações de divida a differentes damas de sua casa, de quantias que lhes promettera quando casaram; declarações de divida por emprestimos contrahidos ou por serviços recebidos, e recommendações ao rei de legados a varias pessoas suas protegidas, entre as quaes as freiras que tivera por criadas.
D. Joanna assigna: Yo la reyna.[75]
A desventurosa princeza morrera, pois, abraçada ao seu titulo de rainha, que, a bem dizer, nunca passara de uma ficção, titulo sem realidade duradoira que lhe correspondesse e o justificasse.
N’uma mensagem ao rei, appensa ao testamento, D. Joanna recorda que fôra requerida para casar, e parece enviar-lhe documentos relativos a essas negociações nupciaes. Dizem talvez respeito ao casamento que lhe propuzera o viuvo de Isabel a Catholica. Mas, se nos não enganamos, ainda mais uma vez se revela a fidalga altivez de D. Joanna, occultando o nome de Fernando.
Por essa mesma mensagem se vê que o rei lhe havia promettido mandar construir casa propria, que lhe era muito necessaria, e logo, expressão sua.
D. Joanna fez, porem, um segundo testamento, do qual encontramos noticia, em termos que não admittem duvida, na Historia seraphica. É para extranhar que nenhum dos seus biographos mencionasse a noticia a que nos referimos, e pela qual se vê que a mallograda noiva de Affonso V mudara de tenção quanto ao logar que escolheu para sepultura.
«Diziam uns, escreve frei Manuel da Esperança, que estava no sobredicto mosteiro de Santarem (Santa Clara); outros, no de Varatojo, como havia disposto no primeiro testamento, que depois revogou. Porem a todos desenganamos com a luz de uma carta de el-rei D. Sebastião, a qual passou em seu nome a rainha D. Catharina, que governava por elle na sua menor edade, em 18 de fevereiro de 1558. Diz n’ella, que sua tia a Excellente Senhora ordenou por seu testamento, que se dissessem para sempre no mosteiro de Santa Clara, de Lisboa, onde se mandou lançar, e tem sua sepultura, seis missas cantadas em cada anno. E ordena, que a esmola das missas e azeite para as duas alampadas, se pague sempre pela fazenda real. Foi escondido seu corpo dentro do seio da terra em a casa do capitulo, e ainda que depois o trasladaram para sepultura alta, nem porisso (tão esquecida a querem) lhe puzeram ou brazão ou epitaphio, que a dê a conhecer. Só na pedra apparece este numero: 1545; mas não declara se é o tempo da morte, se o da trasladação. Defronte lhe fica uma vidraça, na qual se vêem de pintura as nossas quinas reaes, feita no anno 1541, como ella mesma diz.»[76]
Tão esquecida a querem! pondera frei Manuel da Esperança.
Na sepultura d’essa mulher, que esteve para cingir duas coroas, podendo dizer-se que por alguns dias as cingiu, nem um brazão, nem um epitaphio; apenas uma data, que suppomos ser a da trasladação!..
Ao menos que, depois de tantos baldões, lhe não podiam tolher a paz do tumulo, porto seguro onde os naufragos do mundo logram emfim descançar, por mais que os vivos os esqueçam.
Defronte do sepulcro, uma janella por onde o sol entrava... Bem precisado estava da amoravel visita da luz do céo o cadaver d’essa princeza, que só conheceu na terra a luz sinistra das procellas guerreiras e das tempestades diplomaticas!
Mas o seu destino obedecia a um mysterioso e sinistro mobil, que nem na morte lhe permittia gosar absoluto descanço.
Vê-se pela carta regia de D. Catharina—que todavia não pudemos encontrar na Torre do Tombo, nem nas gavetas, nem na collecção especial, nem no corpo chronologico—que a Excellente Senhora se mandara sepultar na egreja de Santa Clara, de Lisboa.
Ora esta egreja foi derrubada pelo grande terremoto de 1755. Luiz Cardoso, no Diccionario geographico de Portugal, manuscripto existente na Torre do Tombo, diz, no tomo XX, livro 2.º, que o convento de Santa Clara ficou excessivamente damnificado com o terremoto, e que a egreja padeceu total ruina, ficando só em pé a parede da parte do norte.
Assim se perderam e confundiram nas ruinas de Lisboa os restos mortaes da malfadada princeza.
Depois do terremoto, as freiras, sobreviventes, de Santa Clara, passaram para o convento da Esperança, levando comsigo o que do seu cartorio poude ser salvo. Esses papeis acham-se hoje na Torre do Tombo, mas nada dizem com relação á Excellente Senhora, que nem depois de morta tivera o repoiso eterno concedido aos cadaveres!
Ahi fica condensada, segundo os materiaes fornecidos pelos escriptores castelhanos e portuguezes, a biographia de uma princeza notavel do seculo XV, princeza que foi causa e pretexto de muitos acontecimentos politicos d’essa epocha, e que, rainha sem reino, atravessou uma longa existencia profundamente accidentada de desgostos e contrariedades.
Se as lagrimas, especialmente aquellas que se reprimem com nobre heroicidade pódem ser uma santificação, D. Joanna merece uma pagina no martyrologio das grandes dôres, no Flos sanctorum dos martyres, nobres ou plebeus, de que a historia conserva o nome.
Cremos ser a primeira vez que se coordena uma monographia, de maiores dimensões, tanto quanto possivel completa, ácerca da Excellente Senhora e do seu tempo. Lopes de Mendonça ao fechar, nos Annaes das sciencias e lettras[77], um interessante estudo sobre a batalha de Touro, promettia publicar, brevemente, outro estudo sobre a vida da princeza D. Joanna. A promessa não poude ser cumprida. Procurámos prehencher a lacuna, não certamente como o teria feito Lopes de Mendonça, mas como pudemos fazel-o. E se o publico receber benevolamente este trabalho, novos estudos historicos se lhe seguirão.
Resta-nos apenas dizer que se conhece um retrato, qualquer que possa ser a sua authenticidade, da Excellente Senhora, copia do que se acha na arvore genealogica de D. João I, manuscripto n.º 12:531 do British Museum, de Londres. É o que vem nas Rainhas de Portugal, de Benevides, tomo I, pag. 286.
FIM
ERRATA IMPORTANTE
A pag. 124, linha 15, sahiu por lapso, Tejo em vez de rio, e este rio, como é facil de ver pelo texto, não podia ser o Tejo, mas sim o Douro, em cuja margem direita assenta a cidade de Miranda (de que alli se fala), fronteira a Hespanha.
NOTAS
[1] D. Affonso V ordenou em 1456 que os restos mortaes de sua mãe viessem para a egreja do mosteiro da Batalha. Trouxeram-n’os Henrique IV e D. Joanna, quando vieram a Portugal para se avistarem com Affonso V, em Elvas.
[2] Provas da Historia genealogica, tomo II, pag. 18.
[3] Damião de Goes, Chronica do principe D. João, cap. XXXV.
[4] A mão de D. Isabel, de Castella, era tambem solicitada pelo principe D. Carlos, de Vianna.
[5] O reino de Navarra passou da casa de Foix á casa de Albret, pelo casamento de Catharina de Foix, herdeira de Navarra, com João d’Albret (1484). Fernando, o Catholico, rei de Castella e Aragão, arrebatou a João d’Albret toda a Alta Navarra (1512), deixando-lhe apenas a parte da Navarra situada ao norte dos Pyrenéos, isto é, a Baixa Navarra.
[6] Pina, Chronica, cap. CLIV. Visconde de Santarem, Quadro elementar, tom. I, pag. 363.
[7] Pina, Chronica, cap. CLVII.
[8] Dava-se o nome de hermandades a uma especie de associações populares, que formavam entre si estas ou aquellas povoações de uma provincia ou reino, para se policiarem a si proprias, e defender-se das extorsões dos reis e dos nobres. No reinado de Fernando e Isabel, as hermandades foram organizadas e regulamentadas officialmente, em beneficio commum do throno e dos povos.
[9] «Suponen algunos que la reina en este tiempo habia tenido con un sobrino del arzebispo, llamado don Pedro, flaquezas de la misma especie que las que antes le habiam atribuido con don Beltran de la Cueva.» Lafuente.
[10] Visconde de Santarem, Quadro elementar, tomo I, pag. 366.
[11] Chronica do principe D. João, cap. XXXVIII.
[12] Veja-se o Quadro elementar, tomo I, pag. 366.
[13] Diogo Clemencin publica-a na integra. Memorias de la real académia de la historia, tomo VI, pag. 583.
[14] Por este motivo ficaram os ss no escudo das suas armas.
[15] O padre Flores antecipa o casamento um dia: 18 de outubro, diz elle.
[16] O visconde de Santarem diz: 1471 a 1473. (Tom. I do Quadro elementar, pag. 367).
[17] Chronica do senhor rey D. Affonso V, capitulo CLXXI.
[18] Quadro elementar, tomo I, pag. 368.
[19] A Beltraneja, no Manifesto dos seus direitos, a que mais de espaço nos referiremos, diz que ao rei Henrique foram ministradas ervas e peçonhas por trama dos isabelistas, como era notorio, havendo até quem prophetizasse qual o prazo em que o rei havia de morrer.
[20] Lafuente, Historia de España, tom. 8.º, pag. 494.
[21] Padre Flores, Memorias de las reynas catolicas, tom. II, pag. 772.
[22] Cap. CLXXIII.
[23] Elógio de la reina catolica Dona Isabel, no tomo VI das Memorias de la Real Académia de la Historia. Pag. 501.
[24] Quadro elementar, tomo I, pag. 369.
[25] Benevides, Rainhas de Portugal, tomo I.
[26] Provas da hist. genealog., tom, II, pag. 93.
[27] Visconde de Santarem, Quadro elementar, tomo III, pag. 107.
[28] Anales de la corona de Aragon, livro XIX, cap. XXVI.
[29] Historia de España, tomo IX, parte II, livr. IV, pag. 127.
[30] Lafuente diz que os esponsaes se celebraram a 12 de maio, mas o visconde de Santarem colloca-os entre os dias 25 e 30.
[31] Provas da historia genealogica, tomo II, pag. 60.
[32] Quadro elementar, tomo I, pag. 373.
[33] Em recompensa d’este serviço, D. Isabel presenteou Cabrera com uma taça de oiro para a sua mesa, promettendo-lhe que no anniversario d’aquelle feliz acontecimento, elle e os seus successores teriam egual presente. (Annaes das sciencias e lettras, tom. I, pag. 705).
[34] Lafuente.
[35] Pina.
[36] Pina, cap. CLXXXII da Chronica.
[37] Damião de Goes, Chronica do principe D. João, cap. LXXIV.
[38] Rebello da Silva, Annaes das sciencias e lettras, vol. I, pag. 683; Provas da historia genealogica, tomo II, pag. 18 a 19.
[39] Chronica do principe D. João, cap. LVIII.
[40] Quadro elementar, tomo III, pag. 125.
[41] Quadro elementar, tom. III, pag. 127.
[42] «... de noite lhes veio recado de dentro da cidade em como o dicto Rey Dom Fernando partira aquella noite com sua gente, e hia a hum trato que tinha em a cidade de Touro; a qual coisa como fosse dicta por pessoa digna de ser crida, os dictos senhores Rey e Principe acordaram de atalhar, e levantarem do arrayal, e hirem á dicta cidade de Touro por entenderem que assim cumpria, e o puzeram logo em obra.»
Relação que El-Rey D. João segundo mandou ao Conselho de Evora da batalha de Toro, etc. Annaes das sciencias e lettras, tom. I, pag. 724.
[43] A invocação de S. Christovão fôra devida á devoção especial de Jorge Correia, commendador de Pinheiro, que assim o lembrara ao principe D. João.
[44] Annaes das sciencias e lettras, tomo I, paginas 714-723.
[45] Historia de España, tom. IX, pag. 138.
[46] Diccionario popular, artigo Duarte d’Almeida, escripto pelo auctor d’esta Memoria.
[47] Republicas, n.º 8.
[48] Annaes das sciencias e lettras, tomo I, pag. 728, onde tambem se póde ver o Regimento que a procissão devia observar.
[49] Damião de Goes, Chronica do principe D. João, cap. LXXX.
[50] Recueil des monuments inédits de l’histoire du thiers état.—Avant-propos, pag. LXXIV.
[51] Historia de Portugal, vol. III.
[52] Zurita, Anales, tom. IV, pag. 298.
[53] Ruy de Pina, Chronica, cap. CCVII; visconde de Santarem, Quadro elementar, tom. I, pag. 379.
[54] Ruy de Pina, Chronica, cap. CCVII; visconde de Santarem, Quadro elementar, tomo I, pag. 379.
[55] Historia serafica, tomo I, pag. 526.
Perguntei para Santarem por esta tradição. Um amigo meu, já hoje fallecido, respondia-me em 24 de abril de 1885: «Esta manhã fui pessoalmente ao convento das Claras em companhia do facultativo da casa, que entrou a fazer as necessarias indagações, e só obteve em resposta que effectivamente existe no edificio uma casa ou capella com um côro pequeno a que ainda hoje chamam o corinho, mas as freiras ignoram qualquer tradição a respeito d’essa casa.» O signatario da informação chamava-se José Candido Duarte da Silva.
[56] Chronica d’el-rei D. Affonso V, pag. 245.
[57] Pina, diz que o principe assistira sem o rei; Sousa, na Hist. geneag., escreve que nem o rei nem o principe quizeram assistir. Duarte Nunes de Leão dá o principe como presente. Seguimos a opinião de Pina e Duarte Nunes, mesmo por ser a que melhor se coaduna com o caracter do principe D. João.
[58] Amaral, Memoria V para a historia da legislação e costumes de Portugal; Rebello da Silva, Annaes das sciencias e lettras.
[59] Sobre o estado das classes servas na peninsula, leiam-se os importantissimos estudos de Herculano, no tomo I dos Annaes das sciencias e lettras, e no terceiro volume da sua Historia de Portugal.
[60] Rebello da Silva, Annaes das sciencias e lettras.
[61] Michelet, Précis de l’histoire moderne, pag. 23.
[62] Vida e feitos de D. João II.
[63] Vejam-se os documentos publicados no tomo II das Provas da historia genealogica, pag. 8 e 51.
[64] Innocencio diz que este opusculo é raro. Pudemos vel-o na bibliotheca nacional de Lisboa, onde existe. Na da academia real das sciencias não ha, porque fôra arrancado da miscellanea onde estava.
[65] Clemencin.
[66] Provas da historia genealogica, tom. III, pag. 636.
[67] Annaes das sciencias e lettras, tom. I, pag. 412 e 551.
[68] Dava-se o nome de personatus nos mosteiros ás dignidades, como por exemplo as de deão, thesoireiro, chantre, etc., ás quaes n’outras partes chamam officia claustralia. Ducange: Glossarium, vol. V, pag. 214.
[69] Baronius, Annales ecclesiastici, tomo XIX.
[70] Tom. II, pag. 79.
[71] Provas da historia genealogica, tom, II, pag. 94.
[72] Camillo Castello Branco, Narcoticos, vol. I.
[73] Provas da historia genealogica, tomo II, pag. 71.
[74] Tomo II, pag. 76.
[75] Benevides, nas Rainhas de Portugal, tomo I, pag. 290, publíca o fac-simile da assignatura de D. Joanna.
[76] Historia seraphica, tomo II, pag. 133.
[77] Vol. I, pag. 701-737.
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