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Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV) cover

Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV)

Chapter 5: IV MÃE E FILHA
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About This Book

The study traces the life and milieu of a princess born after her father's death and raised in a grieving court under regency tensions. It reconstructs her childhood and marriage negotiations amid rival kingdoms, detailing courtly culture, ceremonies of chivalry, and the influence of powerful nobles. The account examines political maneuvering, suspected poisonings, and competing claims that shaped alliances and conflicts, and uses episodes of personal tragedy and public spectacle to illuminate the complexities of succession politics and the constrained roles available to royal women.

IV
MÃE E FILHA

A anarchia continuava desenfreada.

Se as coisas iam mal quando um só rei, o fraco D. Henrique, dominava em Castella, muito peor corriam agora que dois reis adversarios, posto que irmãos, dividiam o paiz em continuas luctas civis, duplamente fratricidas.

Uma d’essas luctas travou-se a 20 de agosto de 1467, nas planicies de Olmedo, entre os partidarios de Affonso e Henrique.

No numero dos cavalleiros promptos a combater pelo rei Henrique estava Beltrão de Lacueva. Sobre elle recahiam principalmente os odios dos adversarios, e tanto que o arcebispo de Sevilha lhe enviou um mensageiro com recado de que quarenta cavalleiros de D. Affonso e do arcebispo de Toledo haviam feito voto solenne de matal-o no combate que ia empenhar-se. Beltrão respondeu com altivez castelhana que reparasse bem o mensageiro nas armas e insignias, que trazia vestidas, para que os que alli o mandaram pudessem, por sua informação, reconhecer facilmente o duque de Albuquerque.

O combate travou-se com impeto, e o duque de Albuquerque defendeu-se valorosamente dos golpes que lhe vibravam os que haviam jurado matal-o. Valeu-lhe n’um aperto perigoso o marquez de Santilhana, seu sogro. O duque portou-se bravamente; de um lado e do outro combateu-se com ardor; porêm, no fim da peleja, a victoria não fôra decisiva nem para uns, nem para outros.

D. Affonso esteve no campo, combatendo entre os seus, mas D. Henrique julgou mais prudente retirar-se, com trinta ou quarenta cavallos, para uma povoação immediata.

Um acontecimento politico veio, porêm, aggravar a situação do rei Henrique: a infanta D. Isabel juntara-se com seu irmão D. Affonso.

Vejamos qual era, pouco antes, a situação da familia real.

A rainha com a infanta D. Isabel estavam em Segovia, e ahi tinham n’esse momento todo o seu thesoiro e joias. A Beltraneja havia sido entregue ao conde de Tendilha, para que a guardasse em Buitrago. Os rebeldes lograram tomar Segovia, e a rainha refugiara-se no castello, mas a infanta D. Isabel teimou em ficar no palacio, a fim de poder juntar-se com seu irmão. Foi o que succedeu. Tambem os rebeldes se apoderaram do alcacer, sendo a rainha conduzida em refens, sob a vigilancia do arcebispo de Sevilha, ao castello de Alaejos, onde iremos encontral-a.

O acto praticado pela infanta D. Isabel parecia dever reforçar a attitude dos affonsinos, mas não aconteceu assim, porque elles tinham no seu proprio seio grandes elementos de discordia. Um d’esses elementos era o marquez de Vilhena, cuja ambição abhorrecia aos seus mesmos amigos. Porisso os condes de Placencia e Miranda e o arcebispo de Toledo passaram-se para o partido do rei, e Vilhena correu risco de ser assassinado pelo genro, o conde de Benavente.

Um outro acontecimento, verdadeiramente inesperado, veio pôr em confusão os affonsinos. A 5 de julho de 1468, estando D. Affonso na villa de Cardenosa, a duas leguas de Avila, foi atacado de um somno profundissimo logo depois de haver comido. Pela manhã, como não sahisse da camara, foram chamal-o: estava morto. O veneno havia produzido o seu effeito. D. Affonso morrera uma creança, quinze annos apenas.

Os affonsinos, aturdidos com este golpe, recolheram-se a Avila. Ahi pensaram no que deviam fazer. Resolveram offerecer o throno a D. Isabel, mas a infanta respondeu com hombridade: que em quanto seu irmão D. Henrique fosse vivo, o rei legitimo era elle.

Desde esse momento a posição de Henrique iv seria facil, se elle tivera mais energia. Podia impor-se, mas não fez assim. O marquez de Vilhena propoz em nome dos conjurados prestar-lhe obediencia se o rei consentisse em reconhecer D. Isabel como herdeira do throno. Henrique iv annuiu logo.

O marquez de Santilhana e todos os Mendonças, a cuja guarda estava confiada a Beltraneja, indignaram-se com este procedimento do rei. Sahiram immediatamente da côrte. A rainha D. Joanna estava, como dissemos, em poder do arcebispo de Sevilha no castello de Alaejos, e parece que um sobrinho do arcebispo, de nome D. Pedro, entretivera por algum tempo os ocios da rainha captiva.[9]

Mas os Mendonças encarregaram D. Luiz Furtado de arrancar a rainha ao seu captiveiro. Uma noite, D. Joanna desceu por uma janella do castello, ferindo-se na descida. Luiz Furtado pol-a sobre as ancas da mula, e a largo trote a levou para Buitrago, onde sua filha estava.

Entretanto concertava o rei com os confederados as bases do accordo: D. Isabel seria jurada herdeira do throno, e ser-lhe-iam dadas para seu corregimento varias cidades e villas; reunir-se-iam côrtes para sanccionar estes actos; D. Isabel não seria constrangida a casar, nem casaria sem consentimento do rei; a rainha considerar-se-ia como divorciada, seria enviada para fóra do reino, e não poderia levar comsigo a filha.

Henrique IV acceitou de boamente todas estas condições humilhantes. Ouviu ler o documento comprovativo da sua propria deshonra. «Item, porquanto ao dicto senhor rei, e commumente em todos estes reinos e senhorios é publico e manifesto, que a rainha D. Joanna, de um anno a esta parte, não tem usado limpamente de sua pessoa como cumpre á honra do dicto senhor rei, nem sua; e outrosim o dicto senhor rei é informado que não foi nem está legitimamente casado com ella... etc.» Henrique IV assignou, e dirigiu-se com sua irmã para o campo de Toros de Guisando, onde D. Isabel foi solennemente jurada herdeira do throno, com assistencia de nobres e prelados, e do legado pontificio que, em nome do papa, desligou todos os presentes de quaesquer outros juramentos, que houvessem feito.

O marquez de Vilhena aproveitou a occasião para ser confirmado na posse do mestrado de S. Tiago, e o rei Henrique julgou-se por certo o mais ditoso dos homens coroados.

A rainha, tendo conhecimento da intervenção do legado pontificio no reconhecimento dos direitos da infanta D. Isabel, enviou Luiz Furtado, o seu salvador do castello de Alaejos, a protestar junto do representante do papa, ameaçando-o de fazer subir o seu recurso a Roma, se elle a não attendesse. A familia dos Mendonças, fiel ao partido da rainha, vira com indignação tudo quanto se passava. O marquez de Vilhena soube-o, e tratou logo de explorar a indignação dos Mendonças, a fim de obstar a que a infanta D. Isabel viesse a casar com o infante D. Fernando de Aragão, casamento a que a infanta se inclinava, e que o arcebispo de Toledo promovia. Era uma razão de interesse pessoal, como sempre, a que demovia n’este lance o marquez de Vilhena. Tinham sido encorporadas no seu marquezado muitas das propriedades sequestradas aos infantes de Aragão, e temia perdel-as pelo casamento da infanta com um principe d’aquella casa real. Então o marquez de Vilhena não duvidou fortalecer com o seu apoio o partido da rainha e, para obstar ao casamento que o contrariava, renovou o antigo alvitre de que a infanta D. Isabel desposasse D. Affonso V, de Portugal, e a princeza D. Joanna o principe herdeiro portuguez: no caso da infanta não ter filhos de Affonso, o Africano, succederiam no throno de Castella os que a Beltraneja houvesse dado ao principe D. João.

Houve idéa de que a rainha D. Joanna viesse pessoalmente a Portugal tratar d’estas allianças. Mas a pobre rainha, que continuava a ser perseguida pelo arcebispo de Sevilha, a cujo poder lograra subtrahir-se, receou que fosse esse um pretexto para não a deixarem voltar a Castella. Venceu a rainha; não veio a Portugal. De mais a mais a infanta D. Isabel tomara uma attitude energica, recusava tenazmente casar com Affonso V.

Henrique IV, incoherente, como sempre, escreveu de seu proprio punho ao papa para que não confirmasse a successão de D. Isabel; ao mesmo passo sollicitava a confirmação pontificia aos direitos da Beltraneja. Escrevia tambem ao rei de Portugal para que insistisse em desposar a infanta.[10] «Estas cartas, diz o padre Flores, foram entregues ao chronista D. Diogo Henriques de Castilho (a quem seguimos) para que secreta e promptamente as levasse a Buitrago, onde estava a rainha com sua filha, e fossem dirigidas com presteza a Lisboa e a Roma, como aconteceu, com grande sentimento do arcebispo de Sevilha (quando o soube), mas sem alvoroto, por mediar o mestre de S. Tiago.»

Affonso V estava lançado no plano inclinado do desastre. Obedeceu ao pedido. A historia do segundo casamento do rei portuguez, nunca realizado, é uma serie de fiascos, como hoje dizemos; o egregio vencedor de Africa collocara-se n’um terreno escorregadio, e fora resvalando até abysmar-se no ridiculo.

Segundo o testemunho de Lafuente, que se póde contraprovar em Damião de Goes,[11] Affonso V enviara a Ocanha, onde estava Henrique IV, uma solenne embaixada a pedir a mão da infanta D. Isabel.[12] De Roma chegara a vir uma bulla de Paulo II, dispensando para o matrimonio da infanta D. Isabel com seu tio D. Affonso V.[13] Assim respondia o rei portuguez á carta de seu cunhado. Mas essa embaixada solenne chegava tarde a Castella. O arcebispo de Toledo apressara-se a tratar o casamento da infanta com D. Fernando de Aragão, que já a esse tempo se intitulava rei da Sicilia.

O prelado não perdera tempo, nem podia perder, porque o marquez de Vilhena e o rei estavam dispostos a vencer pela força a tenacidade da infanta. Pensaram em mandal-a presa para o alcacer de Madrid, mas recearam-se dos habitantes de Ocanha que ridicularizavam em chistes e satiras as pretensões de um viuvo de trinta e sete annos, como era então Affonso V, á mão de uma donzellinha de dezoito, que naturalmente lhe preferia um rapaz da sua idade, a mais florente de vida.

Era certo que, pelo tratado de Toros de Guisando, a infanta D. Isabel não podia casar sem consentimento do rei, seu irmão. Mas o que valiam tratados em Castella, sobretudo no tempo de Henrique IV, que tão depressa os fazia como desfazia?!

O arcebispo de Toledo não perdera tempo, dissemos nós. E não podia perder, porque, alem de Affonso V, pretendiam a mão da infanta o duque de Guyena, irmão de Luiz XI, e um irmão do rei Eduardo IV, de Inglaterra.

O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia, para socegar aquella provincia. Antes de partir pediu á irmã que não abusasse da sua ausencia. A infanta prometteu, mas por conselho do arcebispo, e a pretexto de fazer trasladar para Avila o cadaver de seu irmão Affonso, sahiu de Ocanha para o Madrigal, onde estava sua mãe, a rainha viuva. Estava, porêm, em Madrigal o bispo de Burgos, sobrinho do marquez de Vilhena, que andava com o rei pela Andaluzia. O bispo informava o tio do que se passava. A espionagem era infatigavel; choviam as ameaças contra as damas da infanta, e contra ella propria, que ia ser presa por ordem do rei, quando o arcebispo de Toledo e o almirante D. Fradique conseguiram arrancal-a á vigilancia dos espiões açulados pelo marquez de Vilhena, e leval-a em triumpho para Valhadolid.

O arcebispo fez partir emissarios de sua inteira confiança para Aragão a chamar o infante D. Fernando. A viagem dos emissarios, que temiam ser descobertos, foi accidentada de peripecias arriscadas. Chegaram a Saragoça, e conferenciaram com o infante. Foi combinado, que este partisse apenas acompanhado por seis cavalleiros, disfarçados de mercadores, e que por outro caminho sahisse uma partida figurando uma embaixada do rei de Aragão a Henrique IV. Sobre a falsa embaixada deviam incidir as attenções do publico, e as vistas dos espiões de Henrique IV.

Os seis cavalleiros jornadeavam de noite. O infante disfarçara-se em criado; nas poisadas tratava dos cavallos, e servia á mesa. Foi assim que os conspiradores conseguiram atravessar por entre os soldados do rei, que cruzavam vigilantes as estradas, e passar incolumes sob a linha de fortificações dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara. Uma noite, porêm, o infante esteve em risco de ser victima. Chegaram ao burgo de Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram á porta do castello do conde de Trevinho, que era partidario de D. Isabel. A sentinella, julgando serem inimigos, arrojou do alto do adarve uma pedra enorme, que passou junto á cabeça do infante. O chronista Palencia, que era da partida, deu então um grito; a sua voz foi reconhecida, e a porta do castello aberta. Restaurada de forças, a cavalgada seguiu viagem, e dois dos cavalleiros anteciparam-se para dar a boa nova á infanta.

Chegaram aos ouvidos do rei os rumores da conspiração. Henrique IV deu-se pressa em regressar da Andaluzia, e em Trujilho recebeu uma carta de D. Isabel participando-lhe a sua resolução de casar com o infante D. Fernando, e fazendo em nome de ambos muitos protestos de obediencia ao rei se elle não contrariasse este casamento, cujas vantagens para a monarchia a infanta ponderava.

Fernando de Aragão completou a viagem com os quatro cavalleiros que lhe restavam. Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde a infanta poisava. O arcebispo de Toledo levou-o á presença de Isabel, e Gutierres de Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo de dezoito annos, elegante e robusto, exclamou: Ese es, ese es.[14]

O casamento effectuou-se d’ahi a poucos dias, a 19 de outubro de 1469.[15] Estava, pois, dado o primeiro passo para a unidade hespanhola; esse casamento unia duas monarchias.

Celebradas as nupcias, os noivos enviaram uma embaixada a Henrique IV, participando-lhe que o casamento se havia realizado, remettendo-lhe copia das capitulações matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia, no caso do rei approvar o que estava feito.

A colera de Henrique IV foi enorme. Não lhe ficou inferior a do marquez de Vilhena, que havia perdido a partida. Toda a côrte era um vulcão de odios, que explodiam. Esperava-se apenas a hora da vingança, e essa hora pareceu haver soado quando uma embaixada de Luiz XI chegou, a pedir a mão da Beltraneja para o duque de Guyena, seu irmão e porventura herdeiro, que a infanta D. Isabel havia rejeitado.

Esta embaixada fortaleceu momentaneamente a causa da Beltraneja.

Foi recebida com grandes festas e pompa. O cardeal de Albi, um dos emissarios de Luiz XI, perguntou solennemente á rainha se a princeza D. Joanna era effectivamente filha do rei Henrique IV. A que baixezas tinham nascido predestinadas a irmã e a sobrinha de Affonso V! A rainha respondeu affirmativamente. Depois repetiu a pergunta o rei, e D. Joanna repetiu a affirmativa. Então todos os prelados e cavalleiros presentes beijaram a mão da Beltraneja, outra vez reconhecida herdeira do throno. A infanta D. Isabel, não obstante haver escripto uma nova carta de conciliação ao rei, e appellado para a arbitragem do bom conde de Haro, Fernandes de Velasco, que era tido em Castella como o mais serio caracter d’aquelle tempo, foi desherdada.

Henrique IV publicou contra sua irmã Isabel, já então mãe, um manifesto injurioso; a infanta respondeu com outro, incriminando o procedimento do rei. Entretanto nascera um filho de Luiz XI, o que afastava o conde de Guyena da successão do throno de França. Chegaram, não obstante, a fazer-se as capitulações matrimoniaes, mas o enthusiasmo de Henrique IV, por esse casamento, esfriara desde que a Luiz XI nascera um filho.

Diz o padre Flores que todas as diligencias se mallograram por ter morrido o noivo da Beltraneja. Esta asserção carece de reparo. O duque de Guyena só morreu, em Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia manifestado tambem pouca vontade de realizar o casamento contractado, chegando a solicitar a mão da herdeira do ducado de Borgonha. De parte a parte havia frieza. Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos, noticiando varias embaixadas entre as côrtes de Portugal e Castella, em 1470 e 1471,[16] para tratar de casamentos. Mas como D. Isabel houvesse casado com o infante de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D. João, de Portugal, houvesse casado em Setubal, a 22 de Janeiro de 1471, com sua prima D. Leonor, Henrique IV e Affonso V avistaram-se entre Elvas e Badajoz para combinar o casamento da Beltraneja com o rei de Portugal.[17]

D. Joanna e sua filha não assistiram a esta entrevista. Ficaram em Escalona, acompanhadas pelo bispo de Burgos.

Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando enviaram embaixadores á entrevista, a fim de obstarem ao casamento de Affonso V com sua sobrinha. O rei de Portugal reuniu muitas vezes conselho para tratar d’este assumpto, mas sempre, em quanto Henrique IV viveu, sobrevieram duvidas e receios de graves complicações entre os dois paizes.

O padre Flores escreve que, em todas estas negociações, o rei de Portugal tinha grande desconfiança do mestre de S. Tiago. É natural que assim fosse, mas tambem é natural que influisse no animo de Affonso V a importancia que tinha realmente o partido de D. Isabel.

Como quer que seja, a causa da Beltraneja perdia terreno. Quatro novos projectos de casamento se haviam frustrado: com o duque de Guyena, com D. Fradique, filho do rei de Napoles, com D. Henrique Fortuna, primo coirmão do marido de D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal. Mas, alem d’estes, ainda houve um outro projecto mais antigo, como sabemos, relativo ao infante D. Affonso, que morrera. Andava a mão da pobre infanta em almoeda, e ninguem a queria! A familia dos Mendonças afrouxara tambem no seu enthusiasmo pela causa da Beltraneja, logo que o rei lhe arrancara a infanta para a confiar á guarda do mestre de S. Tiago.

Ao passo que a má estrella da Beltraneja parecia brilhar cada vez mais sinistra no horizonte do seu triste destino, os partidarios de D. Isabel logravam vantagens. Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór do rei e marido de D. Beatriz de Bobadilha, amiga dedicada de D. Isabel, pensou em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o fazer com fina diplomacia. D. Beatriz foi a Aranda, disfarçada em camponeza, perguntar á infanta se não teria duvida em avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel annuiu. Cabrera venceu, por certo, sem grande difficuldade, as hesitações do fraco rei Henrique.

Os dois irmãos avistaram-se em Segovia. Era isto em dezembro de 1473. O rei não só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a publicamente, levando de redea a mula, em que a infanta montava, atravez das ruas, ao som de musicas festivas. O mestre de S. Tiago, desairado por estas secretas negociações, retirou-se da côrte.

Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual viera juntar-se o infante de Aragão, continuava a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se juntos, e foi n’um d’esses banquetes, dado por André de Cabrera que, no domingo de Reis de 1474, o rei se sentiu indisposto depois de ceia. Fernando e Isabel visitavam na sua doença Henrique IV, mas não conseguiam arrancar-lhe a confirmação dos seus direitos ao throno. Por sua parte, o mestre de S. Tiago procurava desforrar-se do desaire recebido, procurando infundir suspeitas de que os infantes houvessem envenenado o rei.

Voltando á côrte, o grão-mestre induzia o rei a apoderar-se dos infantes, e assim teria acontecido se o plano não fosse denunciado a Fernando e Isabel.

O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se melindrosa. Não obstante, João Pacheco, senhoreando outra vez o espirito de Henrique IV, fez com que o rei o acompanhasse a Trujilho, para que o investisse na posse d’aquella cidade, diz Lafuente; para concertarem d’alli secretamente o casamento de D. Joanna com Affonso V, diz Zurita.

É certo que João Fernandes da Silveira, depois barão de Alvito, chegou a ir a Castella encarregado d’este negocio.[18] Mas a viagem aggravara os padecimentos do rei. Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas leguas da cidade, João Pacheco, acommettido de uma inflammação de garganta, morreu deitando muito sangue pela bocca.

A morte de João Pacheco, marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, impressionou o rei. Aquelle homem fôra o companheiro dos seus deboches quando principe, e o instigador de grande parte dos seus actos como rei; habituara-se a elle. Sentia-lhe agora a falta. Preso a esse cadaver por laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria, fazendo o filho de João Pacheco marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, sem sequer consultar os cavalleiros da ordem.

Levantaram-se reclamações e protestos, que o rei teve de reprimir com varias expedições. Este esforço quebrantou-lhe as ultimas forças. Abandonou a lucta, para voltar a Madrid, cada vez mais doente. Morreu a 11 de dezembro d’esse mesmo anno de 1474.

Assim acabou, n’este rei fraco e nefando, a linha varonil da dynastia Trastamara.