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Raios de extincta luz / poesias ineditas (1859-1863) cover

Raios de extincta luz / poesias ineditas (1859-1863)

Chapter 35: ADEUS
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About This Book

A volume gathers early, previously unpublished lyric poems revealing a contemplative, religiously inflected romantic sensibility, marked by introspective melancholy, devotional imagery and attention to forms such as sonnets and odes. Editorial material supplies a biographical excursus, notes and recovered fragments and translations that situate these pieces as a formative phase, highlighting tensions between faith, doubt and youthful idealism. Together the poems and commentary allow readers to follow stylistic experiments and emotional development that both anticipate and contrast with the author’s later, more polemical writings.

VIII

ASPIRAÇÃO

ASPIRAÇÃO

Porque é que minha alma anceia
De visões e magoas cheia,
Porque ao longe devaneia
Minha mente sem cessar?
Porque á tarde, em fins do dia,
Ao cahir da maresia,
Vou sobre a costa bravia
Magoas carpir sobre o mar?

Porque se me opprime o peito
—Já de ha muito á magoa affeito—
N'esse momento imperfeito,
Mixto de trevas e luz,
Quando tudo, ao longe e ao perto,
Se veste de um brilho incerto
E eu, d'esta alma no deserto,
Só diviso a paz na Cruz?

Porque ao murmurio das fontes,
Quando a sombra desce os montes,
Fito o olhar nos horizontes
E fico mudo a scismar!
Porque á noite, á lua cheia,
«Por noites da minha aldeia»,
Chóro e riu e devaneia
Meu agitado pensar?

Oh! quem é que assim me inspira
Á mente que me delira,
Ao coração que suspira
Allivios, consôlo e paz?
Quem faz que além d'esta vida
Veja uma outra promettida
E anceie essa patria querida,
Não esta patria fallaz?

Não vem de mim nem da terra
—Que tal ouvir não encerra—
O que este peito descerra
N'um hymno de tanta fé:
Eu scismo ás vezes de amores,
Porém são outros ardores,
Outros são os seus fervores,
Outro amor que este não é…

Eu tenho sonhos de gloria,
Que me acodem á memoria
Como a visão illusoria,
Que brilha e que se desfaz:
De ouro e nome tenho sêde;—
Do poder aspiro á séde…
Mas toda esta gloria cede
Á gloria de luz e paz!

Oh! trasborda-me este affecto,
Que aqui dentro anda secreto,
Como de vaso repleto
Trasborda puro o licor!
Oh! inunda-me este oceano
De um amor tão sobre-humano,
Tam puro de todo o engano…
Que nem sei se é isto amor!

Oh! embala-me esta esp'rança,
Aonde a alma me descança
Em pura e santa bonança,
Tão bafejada de Deus,
Que não pode—eu bem o vejo—
Descender-me este desejo
Senão da patria que invejo…
Oh! esta esp'rança é dos céos!

És tu oh Deus que me chamas!
És tu Senhor que me inflammas
N'aquellas ardentes chammas,
Que me dão tão pura luz!
És tu, oh Pae! que da altura,
Olhando a minha amargura,
Me estendes a mão segura,
A mão que a ti nos conduz!

Sim! minha alma te pressente!
Guiada por luz ingente
D'esse fanal que não mente,
Já p'ra ti desprende o vôo…
Oh! quem tem essa luz querida,
Não tem outra promettida,
Não pode amar outra vida…
Senhor! eu busco-te… eu vou!

Coimbra, 1861

IX

A PYRAMIDE NO DESERTO

A PYRAMIDE NO DESERTO

Além na solidão, sobre os desertos,
Tu só te ergues altiva e apontas céos;
E deixas, sobranceira ás tempestades,
Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Tu só! Quem te creou? Mysterio immenso
Ao nascer te encobriu, te envolve o sêr…
E agora eis-te, rival das serranias,
Como ellas condemnada a não morrer.

Tu só! Além, na extrema do horizonte,
Passa o Arabe no auge do furor,
Luz-lhe na mão o alfange, o olhar fuzila,
Vão com elle em tropel morte e terror!

Mas lá surge do accaso arroxeado,
Ao mando de medonho furacão,
Nuvem de ardente pó que rue sobre elle,
Que o sepulta em deserto, árido chão.

Mas tu sorris ás furias da tormenta,
Não temendo arrostal-a inda uma vez,
E ella, a que troou pelos espaços,
Vem tremendo morrer-te ahi aos pés.

Do cimo sublimado, erguido ás nuvens,
Vês os sec'los nascer, ruir no pó;
E em meio da ruina dos imperios
Ficas tu, ó gigante, eterno e só!

Além, n'esse deserto a quem assombras,
Que vidas, que paixões se hão revolvido!
E a todas o deserto, qual sudario,
Nas dobras da mortalha ha envolvido.

Tu podes apontar ao viajante
Um nome ou um logar na solidão:
Dizer—Alli, Palmira foi cidade—
—Aqui, foi um heroe Napoleão.—

Tu só podes dizel-o. Quem mais sabe,
Que pó envolve agora o que morreu?
Quem pode differençar, n'um mar infindo,
Um pó de um outro pó que o envolveu?

Só tu! Na solidão, sobre os desertos,
Tu só te ergues altiva, e apontas céos;
E deixas, sobranceira ás tempestades,
Rugir de um mar de areia os escarcéos!

Coimbra, Dezembro, 1859.

X

DESALENTO-CONFORTO

DESALENTO

_A Sorte, amigo, a sorte é dura ás vezes! Agora nos affaga e nos alenta; E logo nos opprimem seus revezes…

Após leda bonança vem tormenta;
Succede a noite escura ao claro dia,
E ao rapido prazer a magoa lenta!

Assim de minha ardente phantasia
Aos sonhos perfumados de venturas
Que a beijar-me a fronte eu já sentia,

Ai! seguiram-se tristes amarguras
Que a vida a pouco e pouco vão comendo;
Deixando espinhos só onde as verduras
Eram brandos aromas rescendendo_!

Alberto Telles

CONFORTO

(*PARAPHRASE DO SONETO ANTECEDENTE*)

A Sorte só p'ra o fraco é dura ás vezes!
P'ra o forte, que a virtude e crença alenta,
P'ra esse não ha sortes nem revezes…

Porque após da bonança vem tormenta,
Porque a noite succede ao claro dia,
É força definhar em magoa lenta?

Não! que aos males, que gera a phantasia,
O sabio oppõe as intimas venturas
Da virtude e da fé que em si sentia.

Não chores mais, poeta, as amarguras
Que só os bens da terra vão comendo:
A consciencia é jardim onde as verduras
Mil perfumes p'ra o céo vão rescendendo.

XI

A SENDA DO CALVARIO

A SENDA DO CALVARIO

Ave, Christus!

Deixae, deixae passar o homem forte,
      O ungido do Senhor;
Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte
      Tambem é cruz de amor!

Deixae! na praça o povo agglomerado
      Vomita a injuria alli;
E elle, sereno o rosto e resignado,
      Olha o céo, e sorri.

Sorri… não fero riso de despreso
Que ao passar pelo labio perde o encanto,
Mas riso que transluz por entre o pranto
Ao que da cruz de amor arrasta o peso.

Sorri… Que mais importa ao homem forte
      Ou despreso ou louvor,
Se da estrella seguiu, que foi seu norte,
      O magico pallor?
Tem dentro, como em erguida fortaleza,
A fé, voz que lhe vae bradando—«Avante!
É teu premio o opprobrio do ignorante,
De tal morte morrer, tua grandeza!—»

E diz, vendo a consciencia onde serena
      Lê a imagem de Deus,
E do futuro vendo a praia amena:
      —«Posso subir aos céos!
Posso agora, depondo em terra o peso
Da missão dolorosa d'esta vida,
Buscar a patria minha promettida,
D'onde o divino amor transluz acceso.—»

Ai pode! Heroe, e martyr, deixa a terra,
      Que é cumprida a missão:
O Mundo o teu preceito guarda e encerra
      Na mente e coração…
Morres tu; mas a idéa que deixaste
Não morre, como a luz em fim do dia,
Nem o fogo do céo que em ti ardia,
Nem o exemplo sublime, que legaste!

Oh, martyr! cada lagrima chovida
      N'essa senda de dôr,
Conquista mais um espirito p'ra vida,
      Para a luz do Senhor;
E um dia (e talvez cedo venha o dia)
De cada dôr que ahi te curva agora,
Nascerá qual da noite nasce a aurora
Um mundo de verdade e de harmonia!
………………………………….
Deixae, deixae passar o homem forte,
      O ungido do Senhor;
Se a cruz que arrasta agora é cruz de morte,
      Tambem é cruz de amor!

S. Miguel, Julho de 1859.

XII

A JOÃO DE DEUS

A JOÃO DE DEUS

DEPOIS DE LER A SUA POESIA

    Fique em silencio eterno a minha lyra;
    Pomba do céo tu vae; Deus te bem fade,
    N'esta alma em teu logar guardo a saudade,
    Se a essencia sobrevive á flor que expira.
    ………………………………….

Foi o canto do cysne, o canto derradeiro
D'aquella augusta voz que se esvaiu no ar;
Adeus da terna amante ao seu amor primeiro
Que eterno ella julgou, mas cedo viu findar;
Ultimo adeus de quem, ha pouco ainda crente
—N'uma hora apenas—vê, qual sombra na corrente,
Morrer-lhe as illusões co'a morte d'esse amor
E triste se envolveu no vêo de uma erma dôr.
Soffreu da soledade… E onde ha hi um peito
Que não soffra tambem, ainda ao mal affeito?

Soffreu da soledade em que a alma lhe ficou,
Depois que ao longe e triste o ecco se finou
D'aquella unica voz, que ainda repetia
A sua voz, bem como, á tarde em fins do dia,
A nuvem que passou reflecte um raio ao sol,
Que mesmo occulto a tinge aos fogos do arrebol.
Soffreu quando da sorte a mão pesada veiu
Poisar-lhe sobre o peito e comprimiu alli
A ancia que animára o arfar d'aquelle seio,
Seio que só bateu—poesia!—amor!—por ti!

E elle então disse: «Aqui deponho a minha lyra:
Se esta alma a outros céos, a outra patria aspira,
Se esta ancia infinita não posso aqui fartar,
Que val'—ecco sem voz—que val' o meu cantar?
Val' mais que eu, em silencio, espere o grande dia,
Cuja aurora immortal, em luz, em poesia,
Me hade envolver, e assim levar-me áquelle céo.
Céo do que amou, creu, esperou e soffreu.
Emtanto—esp'rando—viva em silencio profundo,
Deixando em vão rugir,—qual voz do mar—o mundo;
Aqui guardo a saudade, esse talisman só,
Como da flor já secca inda se guarda o pó.—»

Cobriu o rosto após co' manto da tristeza;
O sol d'aquelle céo fugiu ao longe… além…
E a noite sem luar, sem brilho, sem belleza
Ao negro que hia lá veiu ajuntar tambem.
………………………………….
………………………………….
Poeta, essa não é tua missão. Curvar-se
Um momento é do homem; porém não prostrar-se
Gemendo em desalento, e face contra o chão,
Como quem acceitou da dôr a escravidão.
Poeta é quem tem fé, quem busca no futuro
A crença que lhe nega este presente impuro:
Não quem deixa cahir a lyra, não quem vae
Pedir ao desalento abrigo e amor de pae.
É virtude soffrer, nunca perder a crença;
É ter esp'rança tal que a dôr mais crua vença;
É não pedir seu premio aos homens, mas a Deus,
E passar n'este valle, o olhar fito nos céos.

Tal é tua missão:—Luctar! O soffrimento,
Ao pé do eterno bem, o que é mais que um momento?

Coimbra, Março, 1861

Como a poesia de João de Deus citada na epigraphe da p. 73, não foi incorporada nas collecções das Flores do Campo e Folhas Soltas, transcrevemol-a aqui para intelligencia do texto dos nossos cadernos manuscriptos de Coimbra, notando as variantes da primeira estrophe.

ADEUS

Fique em silencio eterno a minha lyra;
Vae, effluvio de Deus! Deus te bem fade:
N'esta alma, em teu logar
fica _a saudade,
Se a essencia sobrevive á flôr que expira.

Dizer-te adeus! não pude; quando occorre
Tal voz ao labio, o labio empallidece,
Como a nota da lyra nos fallece
Ante a lua que cae, e o sol que morre:

Ante o sôpro que varre o cedro e o vime,
Ante o sublime aspecto do oceano,
Ante a esposa do martyr sobrehumano,
Ante tudo o que é grande e que é sublime.

Embora!… quando a lampada crepita
Já falta d'oleo, languida esvoaça;
A nuvem estala; ruge a onda e passa,
Guarda silencio a abobada infinita_.

João de Deus

XIII

PER AMICA SILENTIA LUNAE

PER AMICA SILENTIA LUNAE

Guardai in alto……………………. ………………………………….

Dante, Inf. C. 1.^o

I

Eu amo a noite ás horas socegadas
Que o Senhor manda á terra, como balsamo
A tanta dôr que a punge, e o sol do dia
Parece escarnecer com tanto brilho,
Nem sabe respeitar; quando o silencio
Com manto protector envolve os tristes,
Os que choram saudades; quando o orvalho
Refresca o seio á flôr, e em cada balsa
A viração prepassa suspirando;
Quando é mais puro o ár, mais doce a brisa,
Mais sumidos, mais vagos os rumores,
E detraz da montanha, saudosa
Como a virgem dos sonhos, surge a lua.

II

Eu amo então a noite.—Paz e esperança
A quem soffre, buscando algum allivio;
Ao feliz exultando de alegrias
A lembrança de Deus a quem as deve;
A quem descreu de achar inda na terra
Ventura que lhe foge… o olvido ao menos;
A toda a crença um exultar de affectos;
A todo o desconforto, uma esperança;
A toda a natureza, amor e vida;
Eis o thesouro santo que nos abre
—A nós e ao mundo—a noite, eis seu tributo.

É doce então abrir os seios d'alma
Aos effluvios do céo: flor que hão crestado
Ardentias do sol, e ainda timida
Palpitando entre o susto e a esperança,
Retoma agora aos poucos novo alento
Ao sentir-se segura, e abrindo o calix
Estremece de amor a cada gôtta
Dos orvalhos do céo: como que a vida
Solta de tanto laço que a comprime,
Como gaz que ao calor se ha dilatado,
Se expande livre agora e cresce e absorve
Em si mil harmonias, mil poderes
Que esse universo tem: como as correntes
Occultas, que os oceanos communicam,
A natureza e o espirito permutam
Sympathias e forças, em que a alma
Mais cresce e mais comprehende, e mais abrange,
E n'este permutar de força e força
Quasi na vida universal se funda.

III

Passa a lua; do alto olhando a terra
Procura o triste por lhe dar allivio;
Prepassa a viração e busca do ermo
A florinha minada que refresque;
Corre manso o regato, e banha a erva
Que um pé calcou, e o sol deixou crestada;
Tremúla a estrella, symbolo de esperanças,
Enviam-se harmonias as espheras;
Tudo amor, tudo affectos communica;
E o espirito do homem busca livre
Da sob'rana harmonia a eterna fórmula,
Do eterno amor o fóco, a patria sua.

Lembranças de um viver já pressentido,
Ou memorias—talvez—de uma outra vida,
Que nos relembra vaga, e como em sonhos,
E sobre o fundo d'esta se destacam
Como pela penumbra um vulto incerto…
Aspirações, memorias, ou saudades,
O que nos enche o peito e nos enleva
Como um sonho de amor—e mais ainda—
Senão este mysterio do futuro,
Esta attracção do sêr a vida nova,
Que se foge e se busca e nos revela
A vida universal, então sentida
Mais forte na harmonia do Universo?

IV

Busca-se, anceia-se, e o alvejar da campa
Mais que o sorriso de uma amante é doce;
A lembrança da morte mais que a esp'rança
Do poder ou da gloria nos enleva;
Terrores, incertezas se dissipam,
E sem saudade, sem temor se anhela
Mais mundo, mais espaço, e viver novo!

V

E quem pode temer? Teme o que um dia
Sonhou na mente uma ambição terrena
E mais não vê por todo esse universo,
E além d'elle não vê sublime e grande:
O, que engolfado nos prazeres do mundo,
Esqueceu o seu Deus e seus destinos
Nem sonha mais ventura além da campa:
O que pungido por cruel espinho
De uma duvida atroz, sente a cada hora
Cahir-lhe a uma e uma cada crença
De sobre alma, deixando-a erma e nua,
Como as humidas prégas de um sudario,
Aos poucos desdobrado, deixam vêr-se
Os descarnados membros do cadaver.

VI

Mas quem se assenta ás horas do mysterio,
Entre as flôres do prado, ou sobre a encosta
Da collina virente e olhando a lua
Que banha em luz a esphera crystallina,
Inveja quem habita n'esses mundos…
E fita o olhar por esse espaço, e cuida
Sondar-lhe o infinito; quem anhela
Desvendar-lhe os mysterios e buscando
A região que se sonha e não se avista
Dal-a por patria á sua alma… oh! esse
A viagem não teme, antes anceia,
Quebrada a fórma d'este sêr, alar-se
Em busca de outra mais perfeita, e sempre
De degráo em degráo, de esphera em esphera,
—Metempsycose eterna!—sublimar-se
Na progressão d'este ascender constante
Da parte ao todo, do mortal principio
Em busca de um futuro inattingivel,
Porém melhor cada hora, e a cada passo.

E quem pode temel-a, essa viagem,
Quando fitando o olhar no alto, avista
Banhado em luz o espaço immenso e puro,
Patente e franca a estrada do Universo,
E como que visivel o infinito?
Quando tudo no céo e pela terra
Parece, como irmão, dar-nos confiança
Em nós e em si para seguir avante?
Quando se sente palpitar no seio
Não só já a mesquinha vida propria
Mas todo o grande sêr do que é creado?
Quando nas aras do Universo, o espirito
Communga, como irmão, na mesma crença,
Com tudo quanto vive, e a mais aspira,
Ah! quem pode temer, noite de encanto,
Noite pura e sagrada ao Deus de affecto,
Protegido por tua luz amiga,
A aspiração dos immortaes destinos.
Um pouco mais ao peregrinar constante,
A entrevista do infinito e do homem?

VII

Por ti, noite de amor, por ti nos desce
Tanta ventura ao seio; e como o orvalho
Que o pó da terra ressequido e árido,
Que o vento impelle, fixa sobre o sólo
E como que consola e allivia,
Assim como teu effluvio o triste espirito
Que incerto das paixões refoge á duvida,
N'uma crença fixaste—a crença eterna
Do amor universal, todo harmonias,
Porque és affectos toda! Em cada balsa
Descanta um rouxinol; a cada rosa
Uma brisa osculou; em cada fonte
Brilha um raio da lua; em cada peito
Murmura um ecco que de amor só falla!

Mosteiro da Batalha, 1861.

XIV

NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE

NA PRIMEIRA PAGINA DO INFERNO DO DANTE

(C. C. P. P.)

Este é o livro das vinganças nobres,
O inferno dos que têm o céo na terra:
Nem vingança; justiça.
            —Oh vós que as lagrimas
Trazeis sempre nos olhos, sem que sequem,
Lazaros no banquete da existencia,
Oh filhos do dever! lêde este livro,
Porque atravez de um mundo de miserias,
Do largo perigrinar chegando ao termo,
Heisde ouvir, lá das bandas do futuro,
A grande voz do Christo, a voz eterna,
Erguer-se sobre os filhos da verdade:

«—Felizes dos que soffrem—terão premio:
Feliz do pobre e triste, orphão de affectos,
Será rico: no céo seu pae o espera!»

Coimbra, Dezembro, 1861.

XV

DANTE—DIVINA COMEDIA

DANTE—DIVINA COMEDIA

(PURGATORIO, CANTO VI)

Oh Italia aviltada! Oh não sem rumo
      No meio da tormenta!
E era esta a rainha das provincias?
      Hoje… cloaca informe!
Outr'ora mal bradasse:—«Patria, Patria!»
      Um cidadão, um filho,
Alma nobre—acolhias-l'o no seio
      No seio que lhe abrias!
Agora espreita cada um o peito
      Do visinho e olha o gladio:
E os que estreita no cinto o mesmo muro
      E o mesmo fôsso… comem-se!
Alonga, alonga, oh triste, pelas praias
      Teus olhos macerados;
Desce-os, desce, infeliz, ao proprio seio…
      A paz! onde a encontraste?

Julho, 1862.

XVI

MOMENTOS DE TEDIO
SONETOS

MOMENTOS DE TEDIO

I

Sinite parvulos ad me venire

Ventura! aurora d'outro eterno dia—
Amor—Verdade—Bem—Quanto desprende
Seu vôo cá da terra e quanto estende
Azas no céo, só busca esta harmonia,

E as alturas fechadas! tudo esfria
E morre, lá por cima, e não se entende…
Certo é que o fructo só p'ra terra pende,
Parece que p'ra terra a luz se cria!

Ha tanto quem sem lucta espere havel-a!
Sem se erguer, quêdo o mundo, cuide vêl-a…
Talvez, se assim quedasse, a possuisse!

Chama-se isto voar! Toda essa altura
Dava-a bem por uma hora de ventura…
Antes minha alma não voasse… e visse!

Coimbra, Novembro, 1862.

II

A UM CRUCIFIXO

(Primeira elaboração do Soneto de p. 20 dos Sonetos Completos)

Dieu n'est pas! Dieu n'est plus

Ha mil annos, oh Christo, ergueste os magros braços,
E clamaste da cruz: «Ha Deus!» e olhaste, oh crente,
O horizonte futuro, e viste em tua mente
O alvor do céo banhar de luz esses espaços!

Porque morreu sem ecco o ecco de teus passos?
E de tua palavra (oh Verbo!) o som fremente?
Morreste! ó dorme em paz: não volvas, que descrente
Arrojáras de novo á campa os membros lassos!…

Ha mil annos! ha mil! Que é d'ella a tua esp'rança? Ainda, como então, Amor—traduz—Vingança, E é o int'resse glacial das almas o sudario!

Ainda, como então, víras o mundo exangue? E ouvíras perguntar: «De que serviu o sangue Com que regaste, oh Christo, as urzes do Calvario?!»

Coimbra, Novembro, 1862.

* * * * *

VARIANTE DO 2.^o TERCETO

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario.

III

DECOMPOSIÇÃO

«Eu não sou dos que a patria só adoram»
Como adora o regato a propria serra:
Deus n'uma gleba apenas não se encerra;
Se visita esses mundos, que demoram

De céo a céo, tambem cafres o imploram.
Mas deixae que uma lagrima sincera
Possam os olhos dar, olhando-a, á terra
De onde a primeira vez aos céos se foram.

Sim, vêr-te, Portugal! eu chóro ao ver-te!…
Como ao Leão gigante do Occidente
Lhe cáe a garra, e em nada se converte!…

Não é isto o que eu chóro: o que me dóe,
É como aquella juba omnipotente,
Em pennas de pavão se decompõe!…

Coimbra, Janeiro, 1863.

IV

NIHIL

Homem! Homem! mendigo do Infinito!
Abres a bocca e estendes os teus braços
A vêr se os astros cáem dos espaços
A encher o vacuo immenso do finito!

Porque sóbes á rocha de granito?
Porque é que dás no ár tantos abraços?
E cuidas amarrar com ferreos laços
Um reflexo da sombra de um esp'rito?

Vê que o céo, por escarneo, a luz nos lança!
Que, á tua voz, a voz da immensidão
Responde com immensa gargalhada!

A idéa fechou a porta á esp'rança,
Quando lhe foi pedir gazalho e pão…
Deixou-a cara a cara com o Nada!!…

Maio, 1863.

V

QUINZE ANNOS

(Primeira elaboração do Soneto de p. 30 dos Sonetos Completos)

Eu amo a vasta sombra das montanhas
Que estendem sobre os largos continentes
Os seus braços de rocha negra, ingentes,
Bem como braços colossaes de aranhas.

D'ali o nosso olhar vê tão extranhas
Coisas, por esse céo! e tão ardentes
Visões amostra o mar de ondas trementes
E as estrellas, d'ali, vê-as tamanhas.

Amo a grandeza tenebrosa e vasta:
A grande idéa como um grande fruito
De um'arvore colossal que isto domina;

Mas tu, criança, sê tu boa… e basta,
Sabe amar e sorrir… mulher, é muito
Mas a ti só te quero pequenina…

Coimbra, 18 de abril de 1863.

VI

SARCASMOS

Está deserta a estrada do Infinito,
É apenas o cêo do nada espelho,
A eternidade é fossil: Deus é velho,
E o homem olha o céo de fito em fito!

A cruz de Christo está feita um palito,
Embrulham-se caminhos no Evangelho;
Cada qual dá a Deus o seu conselho:
Nem já é Verbo o verbo… é só um Dito!

Nada d'isto me dá a mim cansado;
Mas morrer Satanaz tambem de frio…
Mas não haver já mal que se combata…

Não poder já ao demo um condemnado
Render a alma immortal… por desfastio…
É isto o que me dóe, o que me mata!…

Maio, 1863.

XVII

AMOR DE FILHA

AMOR DE FILHA

(NO ALBUM DE UMA SENHORA)

………..o sangue é vida, e as Mães a fonte d'ella…

João de Deus

Ainda a trabalhar, dedos formosos!
Nem tanto affinco: Deus tambem não quer
Que se cumpra o preceito tanto á letra;
Preceito é trabalhar, não que se estraguem
Esses formosos dedos de mulher.

Já o sol se escondeu atraz da serra,
E o bordado não céssas de bordar;
Quando abri de manhã esta janella,
Já lá estavas no posto, de olhos roxos,
Como se foram roxos de chorar!

Forte trabalho! não me enganas, bella!
Bem sei eu quem te dá tamanho ardor…
Pois nem um olhar a quem passou na rua,
Dizendo:—É bella! e olhando-te? nem isso?…
Ai tanto trabalhar! só por amor…

Que importa o que passou? no peito um nome
Te domina, e na mente uma imagem só…
Feliz cabeça, que hade ornar em breve
O bordado gentil em que trabalhas
Com esse affinco, que causou meu dó.

Feliz! sim; que lhe guarda aquelle peito
Largo e rico thesouro de affeição;
Pois magoar estes olhos, e estes dedos
Formosos estragar—homem ditoso—
Só faz o amor que vem do coração!…

Tu, que talvez repouzes no ocio brando,
(Se não corres talvez de flôr em flôr)
Vê tu que sacrificios immerecidos!…
Mas um menino cego é quem nos vence,
Que a isto e a mais obriga o louco amor!
………………………………….

Mas, não! Quem lá no fundo, meio occulto
Entrevejo na sombra, como quem
Teme do dia a luz—luz orgulhosa,
Luz que ao feliz afaga, ao triste afflige—
Quem triste e só, se occulta mais além?

Quem, se o dia findou, recebe o beijo
E outro recebe logo que é manhã?
Quem—emquanto a alampada nocturna
Alumia a vigilia—sente em sonhos
Uma lagrima de amor molhar-lhe as cans?

Perdão, mulher! e mais que mulher, filha,
Perdão! louco julguei e impio tambem,
Que tinhas outro amor: como se possa
Ter uma filha amor ou pensamento
Que todo não pertença a sua mãe!

Feliz, quem—pobre—tem um tal arrimo;
Quem—cega—pode vêr uma tal luz:
Quem—cega e pobre e triste e desprezada—
Tem uma mão de filha que piedosa
Té aos degráos do tumulo a conduz!…
………………………………….

É nobre o teu trabalho, mulher bella—
Bella d'aquella luz que vem dos céos,
A quem nas áras da fiel piedade
Sacrifica illusões da mocidade
E segue o seu caminho crente em Deus!

Nem mais um riso, amigos! Respeitemos
O que ella faz ali com tanto ardor;
Não são enfeites vãos, do prazer socios,
É o pão de uma mãe que ali grangêa,
Trabalha por amor… mas outro amor.

Trabalha e enchuga o pranto á velha enferma:
Trabalha noite e dia; é Deus que o quer:
Que importa á filha, quando a mãe lhe soffre,
Que o sol nasça ou decline, ou que se estraguem
Os seus formosos dedos de mulher?

Coimbra, 1862.

XVIII

GARGALHADAS

GARGALHADAS

(NO ALBUM DO SEU CONDISCIPULO DR. JOSÉ BERNARDINO)

Risum teneatis!

Bem é fallar de tristezas
Por estes tempos de risos,
Em que passa a Gargalhada
Na face dos paraisos,

E, como o vento do pólo
Forte—mas triste, mas frio—
Que leva as folhas co'as flores,
Como as enchentes do rio.

É o nivel da egualdade
Desde a rocha até á flor,
Desde o amor da virtude
'Té á virtude do amor.

Como os remoinhos de pó
Que a gente vê, a tremer,
Sob-la tarde, nas estradas,
Como demonios correr;

Como a espuma batida
Que a rocha escarra no mar
E a onda depois atira,
Com escarneo, por esse ár;

Como os grôus em debandada
Ao partir-se-lhe a cadeia:
E o torvelinho que atira
No deserto os grãos de areia;

Como tudo, emfim, que geme
No abraço dos turbilhões
E, de olhos postos no inferno,
Lança ao céo as maldições:

Folhas mortas e flores vivas,
Pó da terra e diamantes,
Aguas correntes e charcos,
Os de perto e os mais distantes;

Vozes profundas da terra,
Vozes do peito gementes,
De envolto as feras bravias
Com as aves innocentes;

Como as palhas assopradas
Depois das malhas, na eira,
Ou gottas de agua rolando
De alta náo na larga esteira—

Tudo partido, enlaçado,
Em desesp'rados abraços,
Ruindo pelas quebradas,
Rolando pelos espaços,

Nos paraisos perdidos
E—agora—feitos desertos,
Como legião de demonios
Rugindo infernaes concertos;

Tudo vae, se rasga e parte,
Como em cidade assaltada,
Sob esses tufões gelados
Da tormenta—Gargalhada!

Das tormentas! Que sem conto
São esses ventos de morte;
E d'um ao outro horizonte;
E d'um modo e d'outra sorte.

Os suões do céo humano
E os simúns do seu deserto;
O que a gente vê ao longe,
O que a gente sente ao perto;

A gargalhada do sabio,
Que se chama… indagação;
A gargalhada do sceptico,
Que tem nome… negação:

A gargalhada do santo,
Que tem nome—fé e crença;
A gargalhada do impio,
Que se chama… indifferença:

A gargalhada da historia
Que se chama… Revolução:
E a gargalhada de Deus,
Que tem nome… Escuridão;

Eil-as 'hi vêm, as tormentas,
De todos os horizontes,
Subindo de todos vales,
Descendo de todos montes.

Eil-as 'hi vêm: já espectros,
Já como lavas ruindo:
Já nuvem, já mar, já fogo,
Mas sempre, sempre cahindo,

Desde a França… e são revoltas;
Da Allemanha… e são idéas;
Desde a America… e são fardos;
E da Russia… e são cadeias;

De Inglaterra… e são carvões
De fumo enchendo os pórtos;
Do Oriente… e são os sonhos;
E da Italia… Christos mortos;

Da Hespanha… e são traições,
Á noite, por traz dos brejos,
—Mão na faca e mão nas costas—
E dê cá… e são bocejos.

É d'estes lados que sopram…
E são os ventos assim…
Levando os cedros do monte
Como os lyrios do jardim…

* * * * *

E, comtudo, no meio da alegria
Terrivel, que enche o espaço como o ecco
Das grandes trovoadas—e debaixo
De tantos ventos e de tantos climas,
A Alma—a flor do Paraiso antigo—
Lyrio bello do valle—peito humano,
A Sulamite da Sião celeste—
A Psyche triste e palida, que vaga
Nas praias do infinito—a Alma, oh homens,
Em meio do folgar que vae no mundo,
Cada vez chora mais e mais soluça,
E mais saudosa—a eterna expatriada!—
………………………………….
………………………………….

É que o rir do leão sempre é rugido—
E isto, que sae da bocca tenebrosa
Do mundo—e o mundo escuro diz Progresso,
E Força, e Vida, e Lei—isto é soluço
Que sae do peito condemnado,—e quando
Vae a sahir, para illudir o misero,
Diz á bocca: «Olha tu como nós rimos»…
Mas não é mais que o arranco da agonia!
Nem pode ser.—Aquelle riso enorme
Quando sae é co'o ruido das tormentas
E, como as grandes aguas, vae rolando,
E esmaga… e não consola!
            É como a orgia
Que cuidando folgar… se está matando!
E como esses que dizem dos rochedos
Que brincam com as ondas… quando as partem!

Não é o riso bello da Harmonia,
É apenas gargalhada de Possessos!
Ha dentro d'este mundo algum demonio,
Que o obriga a torcer assim a bocca
Lá quando mais se agita e mais lhe dóe!
Senão, olhae e vêde essa alegria
—Quer seja Idéa ou Força ou Arte, ou seja
A Industria ou o Prazer—de qualquer lado
Que rebente dos labios—vêde como
Faz frio a quem a vê! como entristece
Vêr o gigante louco dar-se beijos
Como em mulher formosa… e ao longe, ao longe
Todo o campo alastrado de flôr's mortas!
………………………………….
………………………………….

      Mas basta! A luz doirada
      Um dia hade surgir!
      E a venda, d'esses olhos,
      Por fim tambem cahir!

      E a Gargalhada immensa
      Fechar a horrivel bocca!
      E ser canto suave
      Essa atroada rouca!
      Então!………………
      ……………………
      ……………………
      ……………………

            Alma, que sonhas?
      Que louco desvairar!…
      Então!!… Mas—Hoje—esta hora…
      É toda p'ra chorar!

Coimbra, Novembro, 1863.

XIX

Á ITALIA

Á ITALIA

POESIA RECITADA NO THEATRO ACADEMICO POR A. FIALHO DE MACHADO

na noite de 22 de outubro de 1862

Italia e Portugal! que duas patrias!
Ambas tam bellas, tam amadas ambas!
Uma, a patria do berço; outra a das almas:
Uma, a das artes; outra a dos combates!

Oh! deixae que hoje, aqui, sobre o meu peito,
As estreite, a final.—Ha quanto tempo
Eu quizera juntar-vos, pelas frontes,
Beijar-vos, bem unidas, soluçando,
Como quem, tendo pae, mãe encontrasse.

Portugal! nobre filho de guerreiros!
Viste, primeiro, o sol da liberdade,
Mais feliz, não maior e nem mais digno
Que tua irmã, a Italia.—Ella, entretanto,
Chorava, olhando o céo, negro de nuvens!

Cobriram-n'a de affrontas! sobre os hombros
A toga negra, já como sudario:
O seu corpo partido em dez retalhos:
O extrangeiro assentado nos seus lares…
E não se via sol no céo da Italia!

Dizei-me vós, se pode o grande rio
Existir, sem que as fontes o basteçam?
Se pode quem nasceu fadado ás glorias,
Esquecido morrer? Se os fortes netos
De Mario e de Catão, ir assentar-se
Sosinhos sobre o tumulo dos fortes
—Olhos no chão e pulsos algemados?
Se é possivel que exista um povo—um povo!—
Sem ser livre, e sem sol o céo da Italia?!

      O céo da Italia!… esse céo
      Tem, por sol, a liberdade!
      Riqueza… de claridade…
      Mas se foi Deus quem lh'a deu?!

      O que Deus dá é sagrado!…
      'Stava o povo escravisado
      E par'cia, de esquecido,
      Prostrar-se tam compungido
      Ante os pés de seu Senhor?!

      Pois bem! a esse povo escravo
      Bastou-lhe o brado d'um bravo
      Para se erguer,—eil-o em pé!
      E aos tyrannos, aos senhores,
      Aos fortes, cheios de fé,
      Bastou-lhes ouvir os clamores
      D'essa turba esfomeada

      Para deixarem a espada…
      Raia a nova claridade,
      A aurora da liberdade,
      D'um proscripto no palor!

      O povo toma as espadas,
      Meias gastas e olvidadas,

      Sobre as campas dos avós:
      E, ainda vestido de dó,
      Com esforço sobrehumano,
      Ergue os hombros… e o tyranno
      Treme… nuta… eil-o no pó!…

      Quem derruba, sobranceiro,
      Altos colossos por terra?
      Quem é que faz d'uma guerra
      A festa do mundo inteiro?

      Um homem?
            Não!
                  A Justiça!…
      Deus!—o unico juiz
      Dos povos na grande liça!

      Só Deus!—
            Elle dá ao triste
      Allivios… não odios vís!
      A essa Italia que hoje existe
      Segredou-lhe, em quanto oppressa,
      Como sagrada promessa,
      Em vez de iras da vingança,
      Estas palavras d'esperança:

      «Tudo tem allivio á magoa:
      A flôr murcha, a gotta d'agua;
      Cruz, o moribundo exangue;
      Um filho, a fera mais seva;
      Amor, o martyr; a treva,
      Um raio de claridade…
      E o povo, que é vida e sangue,
      Não hade ter liberdade?!»

XX

A GENNARO PERRELLI

A GENNARO PERRELLI

AO ARTISTA E AO PATRIOTA ITALIANO

A arte é como a luz: brilha do alto,
Mas quer livre brilhar: do Deus do bello
Ella é religião: seu templo immenso
Quer sacerdotes mas rejeita o bonzo.
E o artista é como astro gravitando
Em céo e espaço livre: acaso o servo
Pode entoar um canto de ventura?

      Só a mão, que não aperta
      Grilhão de escravo, disperta
      Na arte tal magestade,
      Tal sentir e tal verdade—
      Vêde essa fronte inspirada
      Do artista, allumiada
      Ao clarão da liberdade!

XXI

GUITARRILHA DE SATAN

Estes versos appareceram pela primeira vez publicados com o pseudonymo de Carlos Fradique Mendes.

GUITARRILHA DE SATAN

Estranha apparição
Que em minhas noites vejo,
Ó filha do desejo!
Ó filha da soidão!

Não sei qual é o teu nome,
E d'onde vens ignoro:
Sei só que tremo e choro
Como de frio e fome!

Que por fundir comtigo
Suspiros, ais, rugidos,
Déra ideaes queridos,
Deuses e fé que sigo.

Sim! dera as prophecias
E os cultos salvadores,
E os Golgothas e as dôres
E as Biblias dos Messias!

Por ti minh'alma clama,
Corre a meus braços breve,
Sejas de fogo ou neve,
Sejas cristal ou lama!

Se és Beatriz, sou Dante;
Sou santo, se és divina;
Se és Laïs ou Messalina,
Sou Nero, ó minha amante!

1869.

XXII

SERENATA

D'esta poesia escreveu o auctor ao sr. dr. Wilhelm Storck, em carta por este communicada a J. de Araujo: «A… Serenata nunca foi impressa que eu saiba, embora não seja de modo algum inédita, pois tendo sido composta ha 4 annos, na Ilha de S. Miguel, a pedido de um grupo de rapazes, que ali formaram uma sociedade cantante, é lá muito conhecida e cantada por esses e outros nos seus passeios musicaes em bellas noites de verão.»

Storck traduziu esta poesia. Ácerca da traducção escrevia-lhe D. Carolina Michaëlis, em maio de 1891: «A. de Q. recebeu a sua traducção da Serenata, a qual lhe agrada extraordinariamente. Antepõe-na ao original d'elle, e diz que lhe sôa como uma canção allemã.»

SERENATA

Cahiu do céo uma estrella,
Ai, que eu bem a vi tombar!
Era a noite pura e bella,
Murmurava ao longe o mar…

Era tudo extase e calma,
Perfume, encanto, fulgor…
Só no fundo da minha alma
Que desconforto e que dôr!

Dorme e sonha, minha bella,
Emballada ao som do mar…
Cahiu do céo uma estrella,
Triste do que a viu tombar!

Era uma estrella cahida,
Uma entre tantas, não mais!
Era uma illusão perdida,
Era um ai entre mil ais!

E has de viver torturado,
Louco, incerto coração,
Só por um astro apagado,
Por uma morta illusão?

Dorme e sonha, minha bella…
Como chora ao longe o mar!
Cahiu do céo uma estrella,
Ai de mim que a vi tombar!

1873.

XXIII

O POSSESSO

O POSSESSO

(Commentario ás Litanies de Satan)

I

Não creio em ti, Deus-Padre omnipotente,
Creador d'esse espaço constellado,
Que do Cahos e o Nada conglobado
Arrancaste o Universo refervente;

Não creio em ti, Deus-Filho, em cuja mente
Foi o Bem inefavel feito e nado;
E não creio no Espirito gerado
Do eterno Amor, como uma chamma ardente;

Saibam-n'o a terra e os céos: do Crédo antigo,
Cheio de Graça e Fé, refugio e abrigo,
Benção da noite e prece da manhã,

Só creio no Peccado ineluctavel,
Na Maldição primeira inexpiavel,
E no eterno reinado de Satan!

II

Quando o Tedio, com plumbeo capacete,
Esmaga a fronte ao homem desolado,
E o Fausto pensador vê a seu lado
A Negação sentada ao seu bufete,

Seu labio é vil tres vezes, se repete
Preces vãs e esconjuros, humilhado:
O nome de Homem, tragico e sagrado,
Só a quem desafia a Deus compete!

É grata a maldição á alma robusta
Do que nenhum pavor divino assusta,
E no Vasio ergueu seu templo e altar…

Mais fecundo que o Céo, creou o Inferno
A blasfemia.—Honra, pois, e preito eterno
A Satan, que nos deu o blasfemar!

1873.

XXIV

EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL

EPIGRAMMA TRANSCENDENTAL

Quem vos fez, céo profundo e luminoso,
Terra fecunda, poderoso oceano,
E a ti deu vida, coração humano,
Que és todo um céo e um mar mysterioso,

Bem sabia que o céo, o mar, a terra,
Tinham de ser só carcere e gehena;
Que havia a vida ser só lucto e pena,
E campo, o coração, de eterna guerra.

Por isso o estranho artifice sombrio,
Que, concebendo o plano da obra ingente,
Ironico talvez, talvez demente,
Logo se arrependeu e o confundiu;

Não deu seu nome, como o archonte epónymo,
Á obra de sua mente e sua mão:
O Creador furtou-se á Creação…
E sendo um máo auctor ficou—anonymo.

1879.

XXV

NA SEPULTURA DE ZARA

Estes bellos versos não eram destinados á imprensa, e appareceram publicados em uma revista de Lisboa, sem consentimento do auctor ou da familia da menina cuja morte pranteiam. Anthero recusara-se a imprimil-os, como se vê da seguinte carta que appareceu entre os papeis de Eduardo Coimbra e que a mãe do mallogrado moço, a sr.^a D. Anna Coimbra offereceu com varios outros documentos ao mais querido amigo de seu filho:

«_Villa do Conde, sabbado.

Meu joven poeta

São reservados, e pertencem ao nosso Joaquim os versos a que allude. É claro que sem licença d'elle não devem imprimir-se. Deixe-os no tumulo da desditosa criança, que lá fallam melhor aos que a estremeceram. Se porém combinarem trasladal-os para qualquer publicação, addiccione o meu amigo ao nome da pobre Zara o do desolado irmão. Para elle foram feitos, a elle serão dedicados.

E nada mais por hoje, meu amado poeta

Seu do C._

Anthero de Q.»

ZARA

A JOAQUIM DE ARAUJO

Feliz de quem passou por entre a magoa
E as paixões da existencia tumultuosa,
Inconsciente, como passa a rosa,
E leve, como a sombra sobre a agua.

Era-te a vida um sonho. Indefinido
E tenue, mas suave e transparente…
Acordaste, sorriste… e vagamente
Continuates o sonho interrompido.

1881.

TRADUCÇÃO ALLEMÃ

DE WILHELM STORCK

Glückselig wer vorüberging am Weh
Des Lebens und der Leidenschaft Getose
Unwissend, wie vorübergeht die Rose,
Und flüchtig, wie der Schatten ob der See.

Dein Leben war ein Traum, begriffen kaum
Und leicht und Lieblichkeit D'u trankest;
Du wachtest auf und lacheltest und sankest
Züruck in Deinen unterbroch'nen Traum.

Münster, abril, 91.

XXVI

GLOSA CAMONIANA

Dous ou tres dias antes da morte de Eduardo Coimbra (8, outubro, 84) escreveu Anthero esta bella quadra junto do leito, em que o moço poeta, quasi agonisante, lhe pedia «um improviso» para a carteira-album que pouco antes mandara comprar. Essa carteira offereceu-a a mãe do poeta em recordação dolorosa, ao fiel amigo, que rubricára n'ella o seu nome, junto do de Anthero, e que dias depois lhe entregava a chave do caixão do pobre Eduardo.

GLOSA CAMONIANA

(NA CARTEIRA DE EDUARDO COIMBRA)

Pés em chagas, seguimos pela via
Dolorosa, em demanda da Verdade;
Mas achal-a entre os homens ninguem hade…
Triste o que espera! triste o que confia!

1884.

XXVII

AS FADAS

Estes versos foram escriptos em Lisboa, para a collecção—Thesouro poetico da infancia, que o proprio auctor coordenou. Foram lidos no dia immediato a João de Deus, «que delles se mostrou satisfeito», como Anthero escrevia a um amigo. «Para mim, poeta de genero apocalyptico, foi um verdadeiro tour de force

AS FADAS

As fadas… eu creio n'ellas!
Umas são moças e bellas,
Outras, velhas de pasmar…
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, á beira do mar…

Algumas em fonte fria
Escondem-se, emquanto é dia,
Sáem só ao escurecer…
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder…

O vestir… são taes riquezas,
Que rainhas, nem princezas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu…

Quando a noite é clara e amena
E a lua vae mais serena,
Qualquer as póde espreitar,
Fazendo roda, occupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flóres
Horas se ficam sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes d'algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areaes,
Vive junto ao mar, sósinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos baptisados reaes.

Morgana é muito enganosa;
Ás vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir…
Ora festiva, ora grave,
E vôa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titania, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja gloria
Enche as paginas da historia
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas tem mando nos áres;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquella vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha do condão.

O que ellas querem, n'um pronto,
Fez-se alli! parece um conto…
Mesmo de fadas… eu sei!
São condões que dão á gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre creancinha
Se quiz ser sua madrinha,
Uma fada… ai, que feliz!
São palacios, n'um momento…
Belleza, que é um portento…
Riqueza, que nem se diz…

Ou então, prendas, talento,
Sciencia, discernimento,
Graças, chiste, discrição…
Vê-se o pobre innocentinho
Feito um sabio, um adivinho,
Que aos mais sabios vae á mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não hade rir.
Querem ellas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes hade mentir.

Quem as offende… Cautela!
A mais risonha, a mais bella,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga aggressiva,
É serpente que alli está!

E têm vinganças terriveis!
Semeiam cousas horriveis,
Que nascem logo no chão…
Linguas de fogo que estalam!
Sapos com azas, que falam!
Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente…
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer…
É-se morcego ou veado…
E anda-se assim encantado,
Emquanto a fada quizer!

Por isso quem por estradas
Fôr, de noite, e vir as fadas
Nos altos mirando o céo,
Deve com geito falar-lhes
Muito cortez e tirar-lhes
Até ao chão o chapéo.

Porque a fortuna da gente
Está ás vezes sómente
N'uma palavra que diz;
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa,
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, já deitado,
Mas sem somno, inda acordado,
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um bello dia,
Me quizesse a mim fadar…

O que seria? um thesouro?
Um reino? um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palacio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quizesse,
Pedir tambem que me désse
Um condão, para falar
A lingua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos…
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Commigo (podia ser!)
Me tocasse da varinha,
E fosse minha madrinha
Mesmo a dormir, sem a vêr…

E que ámanhã acordasse
E me achasse… eu sei? me achasse
Feito um principe, um emir!…
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando…
Deixa-me já, já dormir!