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Reliquias de Casa Velha

Chapter 57: SCENA XIV
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About This Book

Uma coletânea de textos curtos que reúne contos, crônicas, ensaios, diálogos e fragmentos líricos organizados como recordações e objetos de memória doméstica. O autor alterna narração e reflexão para examinar pequenas paisagens da vida cotidiana, relações familiares, costumes sociais e dilemas morais, com finos traços de ironia e humor contido. Há peças de caráter crítico e memorialístico que ponderam sobre velhas práticas e hábitos, assim como ficções breves que exploram caracteres humanos e situações comuns. O tom varia entre a melancolia discreta e a sátira perspicaz, privilegiando a concisão e a observação aguda.

BARÃO comprimentando

Minha senhora! (Caminha até á porta e pára.) Não transporei mais esta porta?

D. HELENA

Já a fechou por suas proprias mãos.

BARÃO

A chave está nas suas.

D. HELENA, olhando para as mãos

Nas minhas?

BARÃO approximando-se

De certo.

D. HELENA

Não a vejo.

BARÃO

É a esperança. Dê-me a esperança de que...

D. HELENA depois de uma pausa

A esperança de que...

BARÃO

A esperança de que... a esperança de...

D. HELENA, que tem tirado uma flor de um vaso

Creio que lhe será mais facil definir esta flor.

BARÃO

Talvez.

D. HELENA

Mas não é preciso dizer mais: adivinhei-o.

BARÃO, alvoraçado

Adivinhou?

D. HELENA

Adivinhei que quer a todo o trance ser meu mestre.

BARÃO, friamente

É isso.

D. HELENA

Acceito.

BARÃO

Obrigado.

D. HELENA

Parece-me que ficou triste?...

BARÃO

Fiquei, pois que só adivinhou metade do meu pensamento. Não adivinhou que eu... porque o não direi? dil-o-hei francamente... Não adivinhou que...

D. HELENA

Que...

BARÃO, depois de alguns esforços para falar.

Nada... nada...

D. LEONOR, dentro

Não admitto!

SCENA XIV

D. HELENA, BARÃO, D. LEONOR, D. CECILIA

D. CECILIA, entrando pelo fundo com D. Leonor

Mas, titia...

D. LEONOR

Não admitto, já disse! Não te faltam casamentos. (Vendo o Barão.) Ainda aqui!

BARÃO

Ainda e sempre, minha senhora.

D. LEONOR

Nova originalidade.

BARÃO

Oh! não! A cousa mais vulgar do mundo. Reflecti, minha senhora, e venho pedir para meu sobrinho a mão de sua encantadora sobrinha. (Gesto de Cecilia)

D. LEONOR

A mão de Cecilia!

D. CECILIA

Que ouço!

BARÃO

O que eu lhe pedia ha pouco era uma extravagancia, um acto de egoismo e violencia, além de descortezia que era, e que V. Ex. me perdôou, attendendo á singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora...

D. LEONOR

Não me opponho ao casamento, se fôr do agrado de Cecilia.

D. CECILIA, baixo a D. Helena.

Obrigada! Foste tu...

D. LEONOR

Vejo que o Sr. Barão reflectiu.

BARÃO

Não foi só reflexão, foi tambem resolução.

D. LEONOR

Resolução?

BARÃO, gravemente

Minha senhora, atrevo-me a fazer outro pedido.

D. LEONOR

Ensinar botanica a Helena? Já me deu vinte e quatro horas para responder.

BARÃO

Peço-lhe mais do que isso; V. Ex. que é, por assim dizer, irmã mais velha de sua sobrinha, póde intervir junto della para... (Pausa)

D. LEONOR

Para...

D. HELENA

Acabo eu. O que o Sr. Barão deseja é a minha mão.

BARÃO

Justamente!

D. LEONOR, espantada

Mas... Não comprehendo nada.

BARÃO

Não é preciso comprehender; basta pedir.

D. HELENA

Não basta pedir; é preciso alcançar.

BARÃO

Não alcançarei?

D. HELENA

Dê-me tres mezes de reflexão.

BARÃO

Tres mezes é a eternidade.

D. HELENA

Uma eternidade de noventa dias.

BARÃO

Depois della, a felicidade ou o desespero?

D. HELENA, estendendo-lhe a mão

Está nas suas mãos a escolha. (A D. Leonor) Não se admire tanto, titia; tudo isto é botanica applicada.