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Rogações de Eremita

Chapter 2: I
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About This Book

The collection of lyrical meditations follows a solitary, devotional voice that alternates between intimate nature scenes and moral reflection, weaving images of roses, banquets, and winter to examine suffering, poverty, humility, and spiritual longing. Poems contrast earthly pleasures and ambitions with grief and renunciation, portraying pain as both companion and teacher that refines compassion and devotion. Religious yearning and quiet contemplation recur alongside social sensitivity to misery and injustice, while visual metaphors—birds, roses, cups—frame the poet's search for consolation, humility, and a transcendent light that redeems human frailty.

{5}

 

 

 

 

No ermo que eu percorro neste mundo,—ermo de corações cativos dos meus sonhos—ao suplicar dos céus a claridade na qual a alma habite e se engrandeça, deixei na terra gotas do meu sangue, onde a dor o soltou do peito ansiado por abundância de erros e de culpas e por amargura de infinitas mágoas, e onde jorrou seus cantos de alegria em louvor e contemplação da beleza eterna.

E, como assim vulnerável tenha sido, misteriosa comunhão uniu-me àqueles, solitários e crentes, que na cruz da aspiração também sofreram. Muitas vezes me guiou o rasto estranho, se porventura o vi ensanguentado de sangue igual ao meu pela paixão que o derramou em oferenda a altares de amor. São rogações de todos esses passos as que neste livro traduzi e confesso para quem no mesmo error se houver perdido ou se tiver remido em iguais enlevos.{6}{7}

ROSAS DO MEU CAMINHO

I

Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria, brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol brando que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu fulgor candente do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio do campo onde desponta o prado que no inverno o cobre e é a sua túnica,—cantavam com as rosas a doçura e em minha alma infundiam subtilmente os salutares enlêvos dos seus sonhos.

Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão, mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e o coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite. Um resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor.

Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo meu peito ferido na{8} jornada agreste em que dolorosamente se consome sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas sempre que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes mendigas. Por singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor as rosas e a pobreza.

II

Senhor! No meu caminho entretecei as rosas na pobreza, para que, adorando em extasi vosso encanto, eu adore também as vossas dores e o meu peito comungue da miséria! Que todo o meu coração se enleie e prenda nas grinaldas, Senhor, com que coroais de espinhos e de rosas vossos servos; e que, enquanto sentir deleite infindo na doçura que sobre a terra semeastes, eu vos seja fiel inteiramente sentindo ao mesmo tempo e em igual fervor toda a infinita agrura da desgraça.{9}

AS TAÇAS DO BANQUETE

I

No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres abundam e os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais queridas e vi meus companheiros de igual sorte ora erguidos na sua embriaguez ora prostrados pelos seus travores.

Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e todas continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo mudadas em desengano e dor.

Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável. Vi ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda, insaciáveis, de contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as elevando até que do mais alto as precipitam no torvo abismo das{10} desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso e inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se em fumo e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e em seus altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira, a sua fé perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a própria humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das taças que anjos bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra penam suas penas, até a própria humildade eu vi chorar porque, salvando os bem-aventurados em cujo coração habita e resplandece, não lhes pôde poupar a compaixão de quantos desfalecem no martírio, pois, desventurados, não partilham das bênçãos da alegria no Senhor, naquela conformidade austera e santa que é a nossa redenção suprema e única.

II

Senhor! Sê piedoso! Socorram-me os teus anjos. Reanimem-me em cálices de vida; humedeçam-me os lábios na tua paz; iluminem-me o mundo na tua luz.

Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as noites, essa sombra de gélidas{11} vigílias que me murmura o desespero e a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo cruelmente:

Doçura! louco, só na morte a encontras!{12}{13}

A DOR E A VIDA

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descançou afinal meu coração.
          ANTERO DE QUENTAL.

I

Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas, abandonarem campos e florestas e partirem velozes à procura de terras sorridentes, animadas pelos carinhos tépidos do sol.

Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas que ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e perfume, pela graça, pela força e pela opulência, pelo florir de impulsos da sua seiva.

Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino desfalece à mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor do Estio, incensado de aromas e reflectindo os delírios da cor pulverizada. Onde irá saciar a sede ardente de intenso resplendor que lhe alimente as cobiças{14} profundas do seu ser? Porque foi acorrentado à imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o ameaça? Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços infinitos, de céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo azul? Que culpa lhe forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado a rastejar exposto à contingência das estações altivas, sem piedade, queimando sob o sol canicular, sufocando nos gelos a expansão, inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos homens e as suas mágoas, para prosseguirem no combate austero da suprema beleza que sonharam? Porque, liberta, a ave se eximiu a padecer igual escravidão?!...

Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da tormenta, vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas que aos seus amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem pátria aos ninhos embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o poeta chorou a sorte negra que o entregava às penas do inverno.

II

E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio beija-lo cândida{15} e singela, na palidez etérea que é o seu manto, a Dor, a companheira do poeta.

E disse:

—«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim alcançaste renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se isenta de veneno e se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste no caminho, quanto perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso, toda a atracção, toda a harmonia, todo o laço, felicidade, risos e ternuras, tudo para ti foi breve e se afogou nos abismos mortais donde surgira, abandonando-te errante, ao desamparo, no louco vaguear do coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, numa aurora perene, sem poente, esse facho de ardor que te consome e é a suprema gloria, a eternidade.

«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito cuja bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são sombrios, duma sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa outra sombra que por erro temeste e será sempre confessionário e templo da minha alma.

«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu rumo, em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido então de quanto foge e passa na incerteza,{16} redimido em meu peito hás-de subir à divina presença do Senhor!»

Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.

Por sua vez beijou a mensageira.

—«Bendita sejas!» disse.

E nesse instante passou na treva estranho clarão.

III

Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A macerada face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos, humildemente isentos de desanimo, suavemente escravos dum poder que sem cessar o fortalece e ampara nas provações mais ásperas do mundo.

Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a atormenta e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria, surda ao seu anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e profanado.

Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre iras das rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis rasgados pelas neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito ferido por paixões humanas, onde quer que o destino{17} cegamente castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um arrojo, um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos seus combates loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero, redobrando de ardor em atormentá-lo—a Dor foi companheira do poeta, no seu seio chorou divinas lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.

Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem caído em desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério! Fielmente a serviu nos seus mandados!

IV

Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes o encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o prado que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou cerrar seus olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado dos vencidos.

Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação resgatada para a terra e para os{18} céus em um só Deus. Cantava os seus louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra e bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria luz que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e bela» se formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o tempo» no qual as criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é «humilde e casta», e também pelo «irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a terra e por seus frutos, e pela «irmã morte» que à sua paz nos arrebata.

Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em torno ela espargia.

E disse-lhe a visão:

«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o perfume das rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, exultaram renovos na verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te entenebrecem de terror e dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua luz bendita. Onde cai uma lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus olhos! Beija a minha fronte! Aviventa teu ser mortificado na salutar candura que me alenta!

E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria{19} e a vida e a exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito em caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta restituiu à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, aquele que à Dor votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse supremo amor que na bondade se libertou de toda a contingência.

V

Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam, Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos, visitem-me as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me conduzam, para na Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as vossas penas, «na mão de Deus, na sua mão direita, descansando afinal meu coração!»{20}{21}

MAIS FORTE QUE O MAR

I

Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora amado no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso de carinho, afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e ao passá-las deixou nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, coruscante entre o negrume da cerração ambiente.

Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou suas iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e iluminaram-nas pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e pairaram sobre elas sorridentes as primaveras brandas incitando toda a terra a renascer em alegria.

Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a exaltação da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais pôde apagar esse sulco vermelho sobre o mar que ali deixara{22} o peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas lúgubre derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes a fúria temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! Em vão ali passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão tentaram afundar na voragem aquele sangue que do coração brotara por saudade!

Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.

II

Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a salvação e lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a remir na consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa etérea bondade omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde, concedei-me, Senhor, aquela bênção que ao peregrino ferido concedeste, permitindo-lhe a graça de traçar nas ondas com o seu sangue a dor pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde quer que o destino o dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente, que o meu coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que em saudade amortalhe os seus anseios!...

Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente!{23}

HUMILHAÇÃO

I

Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde deixara a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos. Macilento, esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma sepultura, atravessa a cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o desamparo são o seu cortejo e com horror o escoltam; tomando por pureza a inanidade, arrogantes se afastam a tremer de macular o orgulho na miséria dum corpo pestilento de seus erros.

Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para beijar o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na treva da embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus crimes.

De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma ferina{24} ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros homens maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a todos gera e por igual corrompe.

Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em que Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos a ternura generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a piedade ao criminoso, não sabendo sorrir à sua face e tendo por dignidade a cobardia que os privou de ver irmãos, os seus iguais, em quantos seres a criação produz, para que o nosso coração todos confunda numa só luz de amor e de bondade.

II

Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,—porque me roubas aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com que dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!... Porque, Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o mal, e de cobrir de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua lembrança?!...{25}

Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu peito, salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos homens bem e mal em vez de os confundir no teu sagrado amor omnisciente.{26}{27}

BÊNÇÃO DO POENTE

I

Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa lhe ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido por estranha letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras contra o ardor do sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento no crescer como moroso no arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram seus frutos generosos na paz dessa propícia quietação. Ao redor do casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é largo e os céus são amplos, esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol perdido ao poente se escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram as urzes roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva, já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em sombras.{28}

Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas quebradas e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os vinhedos e as aldeias e a inquietação da água nas jornadas, eterna aventureira,—todos vão a dissolver-se nessa neblina, duma inundante alvura caprichosa, caótica, erradia, absorvente e mansa na avidez, como afagando o mundo e resumindo-o em um só sonho incerto, indefinível.

Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a vida em serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a movem em seu anseio, desde a arrogância da montanha austera até à pequenez da célula mais ínfima, consagraram juntas numa paz divina a trégua religiosa de seus feitos, talvez a consciência da inanidade final de todo o esforço, porventura uma dúvida, uma céptica interrogação dos seus destinos, senão o antegozo da morte experimentada em passageiro cessar das energias.

Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de lágrimas, o poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é irrevogável maldição do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse crepúsculo em que a vastidão da terra adormeceu sorridente e benigna, alguém, ser de bondade, um alado eco fugitivo, um murmúrio{29} de esperança, me segreda a confiança e a fé, robusta crença na libertação final de toda a angústia, na fatal paralisia dos tumultos da nossa alma e do mundo, tarde ou cedo remidos, confundidos em amorosa quietação de penas, amortalhados em mortalha branca como esta que eu vi crepuscular, vestindo em alva neblina a terra e os astros.

II

Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o coração, quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a exaltação da minha alma pela serena luz que ele acendia no meu peito turvado de combates. Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se perdiam apagadas! Tão alto e tão profundo o meu sentir, não souberam dizê-lo esses murmúrios frouxos e mortais de lábios débeis que mortais nasceram.

Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho, desvairado, na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e ordem que é a razão de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti:

—Senhor! Senhor! Senhor!...{30}{31}

O SONO DO TRIGAL

I

Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas, violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas quais a verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.

As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a cantar o voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde melancolia da campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma faustosa dos carvalhos, o arrelvado extenso em desafogo, livre de manchas das plantas altas, e o que se alarga na espessura umbrosa, todos repousam quietos e calados, pressentindo a visita salutar que dos céus lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de humidade, alimento e riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e das vergônteas{32} frágeis, ainda tenras, em cuidados de robustecer-se, para suportarem calmas estivais.

E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o seu segredo!

Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;—aquele que ao mais leve passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas repetidas sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio incessante rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e fortuna que concede aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo trigal se sujeitou à extática mudez de todo o ambiente.

Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.

II

Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência de impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos à lei suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se abandonou à{33} paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim submisso que deixou de elaborar fartas sementes.

De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os sucos, que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira e semeia, constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das doçuras com que suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de alegria, flores sanguíneas! os lábios das crianças.

Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao seio. Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se derrama, transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E entretanto, fervorosa e muda, uma vida se consumia ali em outra vida.

Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e força.{34}{35}

TERRA LACRIMOSA

I

Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes cegas no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em luz de eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando erguer-se por entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os aviltados míseros do mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e porque, desvanecidos, contemplando-se, só da própria grandeza iam sonhando, sem baixarem seus olhos aos humildes, desconheceram a alegria, beleza e formosura que os pequeninos têm por seu quinhão.

Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a opressão, a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força subjugasse. As riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que, confiado e firme, seria poderoso{36} e invencível; e entretanto o seu corpo definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica dos astros castigasse, escarnecendo, as ambições.

Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas, envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam, quando ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes, ocultando em bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no decair fatal do seu destino. E a terra de infinita misericórdia deixou cerrar na campa esse cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem que uma folha desmaiasse murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a alentava e, estremecido, dela recebia recompensa de fadigas carinhosas.

Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas, entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo ali desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra. Indiferente ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar. Nem um só veio de água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma só flor do prado se estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um só átomo de fecundidade{37} se atrofiou em toda a criação! Aos cativos da vaidade e da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube chorar quem, transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o leite gerador.

II

E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera cabana, de colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e virgem, despido, tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados que a gente pobre ali ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.

Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das prisões em que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a semear, banhando sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a férvida energia com os arrancos heróicos do seu braço e o pulsar gigantesco do seu peito, o cavador criou verde abundância onde fora a infecunda e negra gândara, e tirou o pão e os frutos do chão áspero onde nem os silvados já medravam.{38}

Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada, anunciou nos fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto dum benigno casal, servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o embalar do berço acompanhou com o rumor alado duma esperança essa vitoria que em torno se espraiava, dilatando-se na infatigável ânsia de remir pela seara farta e latejante os longuíssimos tempos de indigência, a que a ingratidão humana, criminosa, abandonara aquelas pequenas geiras devastadas. Mais tarde, em horas negras, tenebrosas, as ambições e a guerra assoladoras vieram separar o cavador dos filhos que criou para companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, labutando dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam sem pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a morte sobre os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a prostrar atrozmente o nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos afecto, protecção e piedade, o auxílio compassivo na desgraça e o sorrir de simpatia, quando a ventura ao passar o bafeja generosa. Outros, não mais felizes, seduzidos pela visão da cidade e seu engano, enfermos{39} das demências do tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela própria vontade escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e de contínuo o movem e entesouram, fundindo num só cadinho incandescente a fome e o ferro, minério bruto e corações humanos, lubrificando maquinas com lágrimas e fundando o palácio em sepulturas, pondo a brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua crueldade, as ossadas dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, sem algum dia terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.

Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas da agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se esvai na tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da gândara, amando todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé que à terra o consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e renovou no repetir das estações a verdura e o pão e a sombra e o refrigério, sem lamento ou desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper da aurora ao cair da noite.

III

A terra que ele amou, amou-o também!...

Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando alegremente pela enxada;{40} murchou endurecido o prado à míngua do sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva verdejante, quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua culpa não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os demais mas eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao despontar da aurora respondeu o jorro da água límpida tirada entre o mover estrídulo das rodas pelo jugo robusto que a elevava da frescura dos poços obscuros à claridade rútila dos céus.

Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo criador humilde do seu viço,—aquela mesma terra desdenhosa que, indiferente, sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença.{41}

CULTO DE QUIMERAS

I

Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm devastado,—quase ao cimo da encosta—, voltei-me a olhar o vale e os montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os campanários que as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por necessidade instante de repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e ao prazer de esforçado caminhar preferi essa delícia calma de contemplar.

E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me enleado e preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos céus de claríssima gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do frescor das sombras da floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que cada qual se agita e é seu delírio.

Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me{42} a caverna em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio ou sobre a pedra que caiu dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um deus protegia os lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os campos entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma vida só, vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se ocultava uma vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno, Hércules e Ceres, Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as Amadriades que viviam nos rios e nas árvores, todos tinham na terra seu quinhão, onde reinavam livres; e todos, nessa hora de visões, por mim passaram, severos ou folgando, rindo ou chorando, tristes e majestosos uns, outros alados, dizendo seus mistérios e incitando-me a que, adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu poder.

Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo, confiado ao império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na poeira, no vento, na folha e na neblina, em rochedos e águas e no murmúrio da asa mais leve do menor insecto, sorrindo, consolando e castigando, soltando com igual prodigalidade afagos e ameaças, esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a abundância e a{43} fome, o mal e o bem, toda a infinda vibração das nossas almas.

Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou derruir, aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e inquirindo friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes celestes, benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no sangue fraco e impuro a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares alegrias e a serenidade, a exaltação suprema, a mais sublime, a consagração plena dos mortais em altares de religiosa poesia e de um dever mais forte do que a mísera carne transitória!

Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!...

Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e nos seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos traçaram.

II

No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a sua voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério, sacudindo a letífera inércia e o torpor em que{44} a venenosa sede de saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho—senão, pior ainda!, por cobiça—, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e das ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.

Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar que a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então que ampares os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã afugentou.

Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das florestas, e os tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida me tiras as quimeras, irisada espuma capitosa da taça que gota a gota vou bebendo,—que lhe encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e mortífera amargura?!{45}

ANSEIO DA MANHÃ

I

Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas, domados uns em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre essa multidão tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o dormir a custo afugentado;—crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem que no céu, pouco a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um véu, embargando o pregão da claridade.

Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas, vagueavam em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que é seu destino e glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes, deixavam conquistar-se pelos fachos da luz que além rompia.

Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no trabalho, reconhecendo{46} toda a sua fraqueza e sujeição. No bronze solene que difunde os mandados austeros da oração, segredando-a, igual e única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e enfermos, à fera e à borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao mais timorato musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à firmeza invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses servos que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa mãe, banhando-a com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua bênção nos proteja e ampare; no palpitar do jugo aureolado pela própria exalação do espesso hálito condensando-se em frescores de Novembro, que a leiva bebe enquanto o ferro a rasga para os trigais:—em todo o ambiente cantava uma só voz religiosa, como nenhuma outra tão pura e casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá ouvir-se nos apertados templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho foram grandes perante o louco imaginar dos seus obreiros.

E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua força e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante de brilhos sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo filtro que repassa o coração e o inunda de amor quando o anima.{47}

Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe ao encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e, mal a têm vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos vestidas de ouropéis que imediatamente deixam, por preferirem a doçura do manto lutuoso que em sorte coube à sua condição. Sem tardar, ei-las que voltam, prosseguindo na indecisa jornada flutuante; e—suave castigo dum orgulho ingénuo, bem de perto seguido de indulgência ou talvez de remorso ou contrição! as névoas renovavam seus combates, turvando a cada instante a opalina transparência da manhã.

Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro, isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre, até que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas, depois de haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.

II

Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã, tal qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas que me escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa, resgatada, a eternos{48} reinos de bem-aventurança! Que a ténue irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes abrandasse as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa! E que ao fim em mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de luz perdida em águas cristalinas!{49}

A ASA DO REMORSO

I

Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada despertam o povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre o rio erguem-se mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a pureza. Os píncaros severos da montanha desprendem da escuridão da noite a fortaleza. E na oficina e nos lares acordam fumos de carinhos e penas e trabalho.

E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência exausta de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a que a luz da manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma senti-me o escravo do ardor mundano, das cobiças, dos ódios, das vaidades, da cegueira que me oculta um irmão em cada homem e que me arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a exprobrar-lhe os erros, a mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade e de perdão{50} e que ouvindo-a a deixei esmorecer, de culpa em culpa, traindo-lhe os mandados.

Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, cantou a toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. Comungava na taça da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta das cobiças e dos ódios, sem conhecer espinhos da ambição, confiando na suprema misericórdia que lhe alimente o sangue e o ninho e lhe module o inspirado enlevo dos seus hinos e a cada mágoa traga seu consolo, imaculada voz dum peito inocente, turíbulo sagrado, a toutinegra depunha no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir em busca de sustento.

Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da própria impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e tão cruel me induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, cerrados para o louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave cantava e eram uma oração, que eu esquecera e eram redenção.

II

Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor por ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta{51} ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável predestinada à consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, ensinou-me a invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, para a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em ti buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é também minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas horas de repouso e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus lábios; que para me sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo e o seu tumulto e assim purificado, assim armado desse escudo inviolável, fortalecido contra todas as tentações de desvario, atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me isentasse.

Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido o meu espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o pensamento e outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me lembrasse a culpa cantando os teus louvores e a tua grandeza.

Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus tesoiros e me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas aves,{52} teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada aurora que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de infância que à minha mãe ouvi no seu regaço!{53}

SERVAS DA LUZ

I

Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores, servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição estranha o segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a escuridão é densa e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o poente se toldou de sombras, começam essas flores a volver sua face para os lugares onde o sol há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba, subtil inspiração as ensinou a serem fieis à luz tão firmemente que nem a treva nem a tempestade nem a alvura do luar e a imensidade de astros brilhantes povoando o espaço puderam transviá-las e perdê-las naquela adoração do sol que é sua crença. Enquanto o sol se afasta divagando por ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu primeiro alento, o raiar da aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber seus fogos.{54}

II

Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e deixas que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à morte, ignorando donde a luz se ergue—aqueles mesmos homens aos quais deste a consciência do amor da luz?!...

Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade, divina aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em tua graça, pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz voltar a minha face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos fatais da escuridão!{55}