A TERRA ESCRAVA
I
Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e humilde, serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio.
Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos; e há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o seu sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda, endurecida e nua, como triste proscrita da alegria, desamparada à beira do caminho, em vão sonhando caridade e gloria.
II
A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o mantimento e guia{108} da jornada que à tua fé nos leva. Nem a estrela mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra estrela. Sintam os meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu querer de fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim a vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o calor!... Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das tristezas e das dores em que o solitário orgulho pena a culpa!{109}
MISTÉRIOS DE CERES
I
O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros clamorosos. Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que os aquece, os tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam criancinhas.
E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas campinas os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas, bailando o seu delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E, ardentemente, o brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce pão que, quando alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa jornada da via dolorosa, via ingrata.
São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.
A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto{110} a criação sonhou de grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta duma leiva até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever cumprido,—todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus escravos, obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua esmola, o pão, que por igual aviventa nos berços a inocência, renova a energia ao cavador, e piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros proscritos que em desgraça e no crime resvalaram—o pão gerado para criar o sangue é também sacramento que une a alma a todas as divinas forças que o geraram, partícula de insondáveis mundos e infinitos de poder e de amor.
O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija, consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à terra e aos céus e só a religião suspeita e adora.
II
Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o move e o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para sentir, prostrado em{111} gratidão, tua eterna bondade generosa! Que por meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute o suor do rosto!...
É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda vida.{112}{113}
HORAS DO MEU PEITO
I
Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as horas da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos remansosos e os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas caem do bronze, lento e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas sejam ou benignas, leva-as o rio para o mar profundo, na sua imensidade vão perder-se.
II
Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu peito, quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na alegria, e todas elas as levassem celeres, na candidez das águas baptizando-as, a perder-se, Senhor, na imensidade da bondade infinita do teu seio!{114}{115}
ÁGUAS VIÚVAS
I
Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal adusto e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem e queimam.
Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia, encontraram a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes. Depois, como cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho apertado no sombrio vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos sentiram a liberdade das campinas que amorosas quisessem e se exaltassem em seu fecundante afago. Por fim, engolfando-se em mares insaciáveis, estéril se dissipa para sempre esse anseio de amor que prometia a rosa e o trigal e a sombra viridente e que, infeliz, nasceu só para sofrer, por negra sorte cedo condenado a jamais se expandir{116} em formosura e nunca amassar o pão que mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes junto ao mar beijaram o pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e soberbas, e eis que o mar as vem beber e logo as lança nas suas profundezas insondáveis.
Foi seu destino serem infecundas!
II
«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra, para salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos açudes e para cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu folgar».
E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos, tanto ou mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a água a viuvez dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o campo pobre desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse{117} os germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...
E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo, nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade agreste dos egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que lhes recebam seus anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre desenganos, e do mundo se apartam dissolvido o seu desditoso anseio benfazejo nas profundezas da desilusão.
Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos pulsando a par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:
«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem a viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus, os corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente para o florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses bens?!...»
III
Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade padece nesta vida{118} quando à sua voz só responde a dureza das paixões e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda de espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras! Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir, saiba ao menos amar a desventura!{119}
PUREZA AMARGA
I
A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras do monte e do rebanho.
E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.
E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.
Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de ondas salgadas{120} quanta doçura tinha no seu cálice—como se por vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê sua amargura.
II
Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se por ela pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia pureza que se gera da neve cristalina da montanha.{121}
TIRANIA DO FOGO
I
Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do incêndio que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em toda a vastidão onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos das suas chamas. É cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais ingrata dos fraguedos. É cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, de oiro precioso, o chão ainda gelado de Dezembro. E os renovos do sobro e o pinheiral, que entre os seixos avaros despontavam, em cinzas converteram a curta e tenra vida das suas hastes.
A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em sua austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, ou nos avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, tem por escrava{122} toda a formosura, dissipa-a sem piedade em seus altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida mortal dos nossos olhos—são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo as inflamou.
II
Ser escravo, Senhor, é o meu anseio! Libertai-me o meu peito da miséria dos mundos vãos de vãs aspirações da vaidosa existência corruptível, e convertei-me em cinza o coração, na tirania de um amor ardente, por ele purificado e consumido—assim como o fogo abrasa o cedro e o roble, em chamas gloriosas redimindo na luz, que é vida eterna, do transitório orgulho da opulência que se nutriu das seivas da floresta!
FIM