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Scenas Contemporaneas

Chapter 24: III.
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About This Book

This work presents a series of contemporary scenes that explore the lives and interactions of various characters in a social setting. Through dialogues and observations, it delves into themes of societal norms, personal aspirations, and the complexities of human relationships. The narrative captures the essence of everyday life, highlighting the contrasts between rural and urban experiences, as well as the struggles of individuals seeking recognition and fulfillment. The vivid descriptions and character interactions provide insight into the cultural context of the time, reflecting on the nature of ambition and the pursuit of identity.



—Que bonita rapariga é aquella que está em casa da A * * * na calçada do Duque?

—É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se Rosa, mas não diz d'onde é, nem quem a trouxe alli.

—Parece bem educada!

—Parece... e não é desbocada... Não tem ainda a consciencia do seu officio... É necessario que perverta a linguagem, se quizer celebrisar-se...

—De quem fallam vossês?—disse um terceiro, que, na Praça do Rocio, veio associar-se ao grupo.

—D'aquella Rosa, que tu denominaste um cherubim precipitado na tua poesia.

—E é...

—É!... pois tu sabes a vida d'ella?

—Sei...

—Contas?

—Não...

Este terceiro era Valladares.

Teve elle coragem de vêl-a face a face?

Não teve: entrou alli com uma mascara na terça feira de Entrudo.

Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de Lisboa.

É por isso que eu a vi no Porto em 1848...

O general é hoje conde. O menos torpe dos florões da sua corôa é este... Foi honrado e hospitaleiro!...

Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde assim viver muitos mais, porque já não sente no paladar o acido do cognac.

E Miquelina?

Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla medico-cirurgica do Porto a retalharam fibra a fibra com os seus escalpellos observadores.

Já vêdes que morreu no hospital, e foi em pedaços atirada ao monturo da santa casa, depois de se prestar, como cadaver, ás lucubrações da anatomia.

Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, porém, que vos não dei aqui a verdade descarnada como ella é no conto melindroso, que vos contei. Escondi-vos metade.



AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.




AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.



O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico que não foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica n'uma aldêa do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratorio chimico era um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no collo por um cylindro de lata. A sua livraria era o Medico lusitano, in folio; uma Pharmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado—Segredos da natureza. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro vidrado, atapulhados de hervas, que tinham o merecimento chronologico de serem contemporaneas dos garrafões. Afóra isto, não sei que liquidos verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos modos, continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas dôces, extracto d'amoras, solimão, e oleo de mamona.

Com tantos elementos não admirava nada que o snr. Manoel Pires fosse um sabio, não digo consumado, intelligencia d'alguns cirurgiões d'aquella redondeza.

Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da snr.a Therezinha da Fonte. Este triumpho da pharmacia sobre a espinhela elevou o snr. Pires, não direi até ás columnas do Zacuto, mas até onde podiam leval-o as suas aspirações de mestre Manoel Pires, como respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.

Um segundo triumpho veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A cura d'uma ostrução, que eu não sei o que é, e outra d'umas almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aquelles arredores.

O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe cedêra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o juiz de paz, e associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos destinos da freguezia. E o que elles não fizessem dez leguas em redor ninguem o faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da Pôça que o sobredito juiz de paz se correspondia com os governos de Lisboa. Não posso abonar na sua integra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a cousa, attendendo á importancia d'um juiz de paz, quando se tracta de fazer um deputado.

O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance. Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das bochechas cahiam-lhe em fórma de sanefas sobre os collarinhos engommados com pós de batata.

As ventas eram dous vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não sei porque analogia estupenda, os dentes acavallados simulavam uma Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capiteis.

Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava quarenta conquistas das melhores raparigas da freguezia. E, honra lhe seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que désse o menor escandalo. Lá como elle fazia as cousas, e a felicidade dos seus triumphos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus peccados, quizer lêr uma pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.

Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dôr de reins na pessoa da tia Maria do Eiró. Não é necessario dizer que a molestia obedeceu. Na mesma casa curou da triz o tio João, e por fim talhou o bicho com perfeição e felicidade á Mariquinhas, rapariga d'uma vez, e cousa de pôr a cara a um lado a mais de quatro Antonys de sócos que lhe andavam por lá a regougar palavras de ternura.

O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo, que não consultei o diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a nossa ignorancia; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso nunca talhar o bicho.

O caso é que o mestre Manoel Pires fallou ao coração da rapariga, e fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila viu archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos d'anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os olhos da cara para vêr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a verdade, não era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras ao som do murmurar saudoso do sujo regato que lhe passava á porta.

Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um estalecidio que lhe cahiu nos bofes, segundo a opinião do boticario, e a cura demorada d'esta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes occasiões ditosas de se trocarem palavrinhas de pôrem o coração em maré-cheia de poesia chula.

O dialogo, que mais concorreu para a solução final, foi incontestavelmente o seguinte:

Elle.—O deus Cupido fez dos olhos de vm.ce duas settas, que trespassaram o meu coração.

Ella.—E as palavras de vm.ce, como o outro que diz, são palavrinhas de mel a que não regeste meu sensivel peito.

Elle.—Eu bem queria dizer a vm.ce as ternuras do meu coração, e as congeminencias do meu pensamento. vm.ce é mais bonita que Venus, e Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vm.ce

Ella.—Pois se vm.ce me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem mal anda mal acaba, como o outro que diz.

Elle.—O fim para que eu fallei a vm.ce só eu o sei; e a troco d'esse negocio faz mingoa fallarmos outra vez.

Ella.—Quando vm.ce quizer, e Deus o faça para bem, que lá eu querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se assim não é. Uma rapariga que tem seus cretos não deve de perdel-os, e vm.ce bem entende as cousas que é sabio e homem de cabeça, por muitos annos e bês.

Elle.—E vm.ce que os conte. Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde faça-se ao cedo. Se vm.ce me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá da minha bocca as affectiveis ternuras do meu amante coração, onde o deus Cupido cravou as mais duras settas.

Ella.—Pois se vm.ce promette de ter toda áquella de... sim, dizia eu, se vm.ce promette de ter toda áquella... sim... como diz lá o ditado...

Elle.—Pelo deus Cupido lhe prometto a vm.ce de lhe não pôr a minha mão, nem palavra lhe direi que seja escontra a honra de vm.ce.

A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um amante, é certo o triumpho. O amor é realmente o galvanismo dos estupidos,d'esses cadaveres moraes, que se levantam do tumulo da intelligencia, e cantam lerias n'um alamiré celeste! Não nos recordamos de ter lido em romances francezes um dialogo tão fertil d'imagens, tão vibrante de affectos, tão digno, em fim, de ser copiado na carteira d'estes obtusos amadores das salas, para os quaes não ha assumpto, se lhes falharem as reminiscencias do borda d'agua.

Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos para a numerosa clinica que o esperava. Sem exageração, este pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,
[1] não podesse salvar o enfermo das aggressões mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade, quer na bocca do estamago, quer nos bofes quer nos miolos! Este homem despresava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos outros creadores de nomes barbaros que não fazem nada á saude do cidadão. Honra lhe seja feita!

O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que pythonissa magica, e, por fim de contas, era um relogio, cujo involucro suppria á farta uma bacia de semicupios.

Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes. Manoel Pires enfiou as suas meias de lã até á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado de amarello, e partiu.

Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da Mariquinhas, esperando-a, com a anciedade propria da sua organisação nervosa. Maus fados quizeram que n'aquella noite, e a taes horas, andasse fóra de casa o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu boticario, em quanto o pai não recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na córte das vaccas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se, costumava hir afagar a sua vacca castanha, pela qual na feira dos 8 rejeitára sete moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua, mas a bestinha, egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o snr. Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces, que por um tris o não remetteu á galeria posthuma dos pharmaceuticos illustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um lobo cerval os surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada, levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fêl-o descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava o pai.

—Que fazes tu ahi, rapariga?—bradou elle.

Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos.

Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para comprar, á surrelfa, o seu cordãosinho de ouro.

Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e não ha nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em flagrante delicto.

—Onde está a chave d'este alçapão, rapariga? interpellou o tio João no mesmo diapasão.

—A chave tem-na vm.ce

O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave, resmungando:

—Ora deixa-te estar, que não has-de cá tornar po'lo vêso, minha cabra de não sei que diga!

Fechou o alçapão, e foi-se deitar.

A loja não tinha outra sahida. O boticario, por tanto, achava-se n'uma posição falsa, diz o leitor. Elle sabia lá o que eram posições falsas! O que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá comsigo: «no chão não me deito eu.» Continuou fleugmaticamente a fazer o seu juizo critico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz n'um presunto. Não obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclusão: «de fome não morro eu.» Mais adiante esbarrou n'uma pipa, e teve a pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para vêr se estava cheia. E o caso é que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade! «Deixa correr o mundo!...» disse elle, e estirou-se francamente sobre a caixa á espera d'um somno regalado.

Passára-se uma hora, e o boticario, começando a pensar seriamente na sua situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Applicou o ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em Dezembro não é facil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos maquinaes, buscando uma sahida qualquer, e encontrou um albardão. «Valha-nos ao menos isto,» disse elle, e pegou do albardão, collocou-o convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.

Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.

Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua o seu querido pharmaceutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua dôr sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor sorte.

O pai resonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e sahiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judith não sahiu mais contente da tenda de Holofernes!

Abriu o alçapão com subtileza, mas, no momento em que o levantava, os gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um sacco de milho que lhe emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: «ó rapariga!»

Não se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento profundo dos classicos, a atrapalhação da cachôpa! O tio João procurou as calças, e não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (proh pudor!) saltou do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada abaixo, para o quinteiro.

O tio João, contra todas as leis da decencia, foi atraz de sua filha, e filou-a pelo gasnete:

—O que hias tu fazer á loja, Maria?

—Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia á caixa do pão ou dos feijões!

—Então a que hias tu lá, diabo?

—Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa...

O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão; mas... ai d'elle!... o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade até á loja.

Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que já não foi ouvido pelo João do Eiró, que desmaiára.

Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido, mas suppoz que era o cahir do alçapão. Atravessou a cozinha, amaldiçoando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar no desenlace d'aquella tragedia.

A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do intimo, tres vezes, o seu João, e como ninguem lhe respondesse, a mulher começou a vestir-se, enfiando responsos a Santo Antonio, de mistura com não sei quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das suas sócas.

E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!

A tia Maria accendeu a candêa, e foi direita á cozinha, que era o ponto convergente de todas as operações d'aquelle drama. Viu o alçapão aberto, e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e grita desentoadamente «aqui d'el-rei ladrões!» A visinhança alarmou-se, e pouco depois os 60 fogos d'aquella aldêa agglomeravam-se no quinteiro do tio João do Eiró.

Os mais destemidos rapazes da aldêa desceram á loja, e encontraram o pobre velho com a cabeça aberta por dous lados, e não sei quantas costellas desmanchadas. Reinou o silencio do mysterio! Ninguem conjecturava a causa d'aquelle estranho successo, quando um dos que farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo d'um albardão! Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o albardão, soltou um brado terrivel d'espanto:

—O senhor mestre Manoel Pires!

Hão-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que é necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma sucia de perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o boticario produziu na chusma de valentões de fouce roçadoura, que o cercavam.

O tio João, tornando a si, foi direito ao boticario para agradecer-lhe a promptidão com que viera cural-o. Mas a tia Maria poz tudo em pratos límpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo, segundo convinha em semelhante conflicto.

Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladrão, por que a sua importancia, passado o momento da surpreza, começava a soffrer uma grande baixa na opinião dos lavradores.

Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma honrosa satisfação estava chegada. O pharmaceutico, superando com a sua voz o ruido da turba conspirada, disse:

—Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negocio como elle é.

O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante, o segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabeça do seu rival.

—Oh su alma do diabo!... exclamou elle.

Contiveram-no. O snr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era uma cascata de lagrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a sua fim, como ella depois disse.

A sua apparição impoz ás multidões um respeitavel silencio.

Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o braço direito em attitude prophetica:

—Esta rapariga é minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a troco d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado é mal acabado. Ámanhã se Deus quizer lêem-se os banhos, e não ha nada mais a fazer aqui!

A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. Os paes, d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu á saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forn A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. Os paes, d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento mais vantajoso da freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu á saude da boa companhia, e casou com grande prestito, onde não faltou o juiz de paz, que teve de mais a mais o prazer de pendurar n'esse fausto dia o habito de Christo na casaca. Nas bodas celebres para sempre, nos annaes de Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o competente arroz de forno.

Já lá vão cinco annos.

Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este anno veio a banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram o louvavel desejo de o ser.




COUSAS QUE SÓ EU SEI.




COUSAS QUE SÓ EU SEI.


I.


Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de Fevereiro, do corrente anno
[2] pelas 9 horas e meia da noite entrava no theatro de S. João, d'esta heroica, e muito nobre e sempre leal cidade, um dominó de setim.

Déra elle os dous primeiros passos no pavimento da platêa, quando um outro dominó de velludo preto veio collocar-se-lhe frente a frente, n'uma contemplação immovel.

O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e virou-lhe as costas com indifferença natural.

O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma attenção, com a mesma penetração de vista.

D'esta vez o dominó-setim aventurou uma pergunta n'aquelle desgracioso falsete, que todos nós conhecemos:

—Não quer mais do que isso?

—Do qu'isso!...—respondeu um mascara que passava por casualidade, esganiçando-se n'uma risada que raspava o tympano.—Olha do qu'isso!... Já vejo que és pulha!...

E retirou-se repetindo—do qu'isso... do qu'isso...

Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a menor contrariedade com este charivari. E o dominó-velludo nem se quer acompanhou com os olhos o imprudente que viera embaraçar-lhe uma resposta digna da pergunta, fosse ella qual fosse.

O setim (fique assim conhecido para evitarmos palavras, e tempo que é um preciosissimo cabedal) o setim, d'esta vez, encarou com mais alguma reflexão o velludo. Conjecturou supposições fugitivas, que se destruiam mutuamente. O velludo era forçosamente uma mulher. A pequenez do corpo, cuja flexibilidade o dominó não encobria; a delicadeza da mão, que protestava contra o ardil mentiroso d'uma luva larga; a ponta de verniz, que um descuido, no lançar do pé, denunciára debaixo da fimbria do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca reunidos em um homem, captaram as serias attenções do outro, que, incontestavelmente, era um homem.

—Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto! Tomára eu saber o que vês em mim, que tanta impressão te faz!

—Nada—respondeu o velludo.

—Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma semsaboria, mais eloquente que o teu silencio.

—Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e seria um crime de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas graças salobras, capazes de fazer calar para todo o sempre um Demosthenes de dominó.

O setim mudou de opinião a respeito do seu perseguidor. E não admira que o recebesse com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó em corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um theatro, permitte umas suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisongeam a vaidade de quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recahe semelhante hypothese não conhece Demosthenes, nem diz leso-carnaval, nem aguça a phrase com o adjectivo salobras.

O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O setim juraria, pelo menos, que aquella mulher não era estupida. E, seja dito sem tenção offensiva, já não era insignificante a descoberta, porque é mais facil descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais facil ser Christovão Colombo que Emilio Girardin.

O setim, ouvida a resposta do velludo, offereceu-lhe o braço, e gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.

—Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, bello dominó...

Bello, me chamas tu!... É realmente uma leviandade que te não faz honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz bonita, ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma exclamação de terror na presença d'um nariz... que nariz não seria, santo Deus!... Não sabes essa historia?

—Não, meu anjo!

Meu anjo!... que graça! Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não sei, nem me importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e voluptuoso como Voltaire aos 60 annos. Imagina que o tedio d'esta vida chilra que se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pythonissa descabellada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de espirito, um anjo de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma d'estas creações miraculosas que fazem rebentar uma chamma improvisa no coração mais de gêlo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão, não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma offensa ao bom senso anatomico, não é verdade? Pois, meu caro dominó; ha corações de toucinho estreme. São os corações, que reçumam oleo em certas caras estupidas... por exemplo... olha este homem redondo, que aqui está, com as palpebras em quatro refêgos, com os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com o queixo inferior pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo d'uma pingadeira, orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece um grande rijão? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho?

—Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado está a gemer debaixo do teu escalpello...

—És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!... É verdade, ahi vai a historia do hespanhol, que tenho que fazer...

—Então queres deixar-me?

—E tu?... queres que eu te deixe?

—Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me...

—És muito amavel, meu querido Carlos...

—Conheces-me?!

—Essa pergunta é ociosa. Não és tu Carlos!

—Já fallaste comigo na tua voz natural?

—Não; mas começo a fallar agora.

E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que, que só se escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam a gente a prestar fé aos privilegios, ás prerogativas, aos dons muito peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos não se recordava de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.

«Uma aventura de romance!» dizia elle lá comsigo, em quanto o dominó-velludo, conjecturando o enleio em que pozera o seu enthusiasta companheiro, continuava a fazer gala do mysterio, que é de todas as alfaias aquella que mais alinda a mulher! Se ellas podessem andar sempre de dominó! Quantas mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge Sand! Quantas physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de Abdel-Kader!

—Então quem sou eu?—proseguiu ella—não me dirás?... Não dizes... pois então, tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?

—Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te «anjo.»

—Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és nada original! Anjo!... é um appellido tão safado como Ferreira, Silva, Sousa, Costa... et cetera. Não vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade. Ficarei sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?... Imagina que te possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que phantasiaste linda, e insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperança, um sorriso affectuoso através da mascara, um aperto convulsivo de mão, uma promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E essa mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez mais radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias, declarando-se muita feia, indecentissima de nariz, horrivel até, e, como tal, pesa-lhe na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando a mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas, abrasas-te n'um ideal, que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de lhe dizer que te abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella não levanta a cortina d'aquelle mysterio que te dilacera uma por uma as fibras do coração. Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se chama Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que, na minha humilde opinião, são completamente fabulosos. O dominó quer fugir-te ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um dito espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os mascaras, que a fixam como quem sabe que está alli uma rainha, envolta n'aquelle manto negro. Por fim, a tua perseguição é tal, que a desconhecida Desdemona finge assustar-se, e sahe comtigo ao salão do theatro para levantar a mascara. Arfa-te o coração na anciedade d'uma esperança: sentes o jubilo do cego de nascimento, que vai vêr o sol; estremeces como a creança a quem vão dar um bonito, que ella não viu ainda, mas imagina ser quanto o seu coração infantil ambiciona n'este mundo... Ergue-se a mascara!... Horror!... vês um nariz... um nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um nariz maior que o do duque de Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a cavallo!... Recúas!... sentes despregar-se-te o coração das entranhas, córas de vergonha, e foges desabridamente...

—Tudo isso é muito natural.

—Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o resto, que é o mais interessante para um mancebo que faz do nariz d'uma mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do coração. Imagina, meu joven Carlos, que sahiste do theatro depois, e entraste na Aguia d'Ouro a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te apparecia fatidico dominó, e se assentava ao teu lado, silencioso e immovel, como a larva das tuas asneiras, cuja memoria procuravas delir na imaginação com os vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes contracções no estomago, que te ameaçam com o vomito. A massa enorme d'aquelle nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já não pódes levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um fragmento d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir com o silencio do dominó; mas não pódes. A inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com um sorriso cruelmente sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos?

—Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a desgraça, porque a missão do poeta é a indulgencia não só para as grandes affrontas, mas até para os grandes narizes.

—Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão da generosidade para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher, pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingança do céo!... aquella mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha seis mil annos! O hespanhol quer ajoelhar áquella dulcissima visão de um sonho, mas a nobre andaluza repelle-o com um gesto, onde o despreso está associado á dignidade mais senhoril.

II.


Carlos scismava na applicação da anedocta, quando o dominó lhe disse, adivinhando-lhe o pensamento:

—Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia não vai tão longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um nariz enorme: não é physico nem moral; é um defeito repulsivo e repellente: é uma cousa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do inferno, que é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me lembro que sou assim defeituosa!

—És um enigma!...—atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que encontrára um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em Portugal.

—Sou, sou!...—acudiu ella com rapidez—sou aos meus proprios olhos um dominó, um continuado carnaval de lagrimas... Está bom! não quero tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui, procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que és espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar algumas horas de illusão. Fóra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me: vamos ao camarote 10 da 2.ª ordem. Conheces aquella familia?

—Não.

—É uma gente da provincia. Não digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e verás que não passas mal... É muito orgulho, não achas?

—Não acho, não, minha querida; mas eu antes queria não desperdiçar estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que tenho ciumes de ti?

—Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas fazer feliz, em quanto a enganas...

—Julgas, por tanto, que te minto!...

—Não julgo, não. Se mentes a alguem é a ti proprio: bem vês que não te creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se não...

—Senão... o que?

—Senão... olha...

E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e retirara-se, apertando-lhe a mão.

Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o frenesi apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se mataria.

—Não—exclamou elle com enthusiasmo—não me fujas, porque me levas a esperança mais bella que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem te conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas deixa-me vêr a face da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete annos...

—Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve cançar-te, e a tragedia desde Sophocles até nós não póde dispensar uma segunda pessoa...

—És um prodigio...

—De litteratura grega, não é verdade? Inda sei muitas outras cousas da Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E serei eu o mesmo? Já vês que a litteratura não é symptoma de virtudes dignas da tua affeição...

Tinham chegado ao camarote na 2.ª ordem. O dominó-velludo bateu, e a porta foi, como devia ser aberta.

A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a attenção d'um leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia um mundo, ou cousa maior que o mundo—o coração d'um poeta.

As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma vida agitada, via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a debilidade d'um sexo, que não póde acompanhar com a materia as evoluções desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi d'aquellas feições! que projecção de uma sombra azulada lhe descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.

O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura.

Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a mão repentinamente como se uma vibora lh'a tivesse mordido.

Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.

—Laura—repetiu o dominó—não me apertas a mão? Deixa-me ao menos sentar-me perto... muito perto de ti... sim?

O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a distincção pela mão.

E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria disfarçar a sua angustia intima.

A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos, enleado nos embaraços naturaes d'aquella situação toda para elle enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinações d'uma mulher que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia aos dominós. Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo, e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia.

Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita, profundamente conhecedora da situação da sua victima, fallou ao ouvido de Carlos:

—Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em circumstancias de ser Max... Soffro demasiado para contar as pulsações d'este coração. Se te sentires condoido d'esta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais desgraçada que ella.

E voltando-se para Laura:

—Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar homenagem á tua conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra, nem esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo, não despresarás vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depôr a teus pés o obulo sincero da sua adoração.

Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, que o sustinha, tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro afflictivo.

E o dominó continuou:

—Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o fructo abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graças á Providencia, que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abysmo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao throno das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma excepção a milhares de desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os olhos da razão a desgraça sentada á cabeceira do teu leito... e, com tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que pódes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?...

Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava, não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder affirmativamente com um gesto.

—Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.

Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar Laura, perguntou á mulher que assim era chamada:

—Elisa, ella chama-te Laura?

—Não, meu pai...—respondeu Elisa, titubeando.

—Chamo Laura, chamo... e que tem lá isso, snr. visconde?—Atalhou a incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.—É um nome de carnaval, que passa com os dominós. Quarta feira de cinza torna a filha de v. exc.a a chamar-se Elisa.

O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e fallando naturalmente:

III.


—Henriqueta...

Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia estranho á conversação intima d'aquellas suppostas amigas, não o pôde ser á agitação febril de sua filha.

—Que tens, Elisa?!—perguntou elle sobresaltado.

—Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...

—Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa...

—Antes para casa—respondeu Elisa.

—Eu vou mandar buscar a sege—disse o visconde; e retirou-se.

—Não vás, Elisa...—disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça inexoravel.—Não vás... porque, se vaes, contarei a todo o mundo uma historia que só tu has-de saber. Este outro dominó, que tu não conheces, é um cavalheiro: não temas a menor imprudencia.

—Não me martyrises!—disse Elisa.—Eu sou infeliz de mais, para ser flagellada com a tua vingança... Tu és Henriqueta, não és?

—Que te importa a ti saber quem eu sou?!...

—Importa muito... Sei que és desgraçada!... Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.

O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no salão do theatro. Elisa satisfez a carinhosa anciedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.

—Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não é assim?—perguntou Henriqueta.

—Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia encontrar-te... Que historia me queres tu contar?... a tua? Essa já eu sei... imagino-a... tens sido muito infeliz... Olha, Henriqueta... deixa-me dar-te esse tratamento affectuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo stygma de infortunio...

—O mesmo... não!...—atalhou Henriqueta.

—O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te, direi que invejo a tua sorte, seja ella qual fôr...

Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque eram inimigas. A belleza impõe-se á compaixão. Elisa era bella, e Carlos era d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle já sabia decidir-se entre aquellas duas mulheres. A mascarada poderia ser, mas a outra era um anjo de sympathia e formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde o bello; mas decide-se pela belleza real, sem mysterio.

Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes não era possivel avaliar-lhe o coração pela exterioridade da physionomia, exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra:

—Teu marido?

—Está em Londres.

—Ha quanto tempo o não viste?

—Ha dous annos.

—Abandonou-te?

—Abandonou-me.

—E tu?... abandonaste-o?

—Não concebo a pergunta...

—Ainda o amas?

—Ainda...

—Com paixão?

—Com delirio...

—Escreves-lhe?

—Não me responde... Despresa-me, e chama-me Laura.

—Elisa!—disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com enthusiasmo nervoso—Elisa! perdôo-te... És bem mais desgraçada que eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um nome... sou Henriqueta! Adeus.

Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com precipitação, e sahiu do camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.

—Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas não me atraiçoes, se queres a minha amisade.

—Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és? Pódes chamar-te Julia em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo mysterios! Tens-me, ha mais d'uma hora, n'um estado de tortura! Eu não sirvo para estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher...

—Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado?

—Não a conhecia...

—Então que mais queres que eu te diga?

—Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella mulher...

—Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra... Estás satisfeito?

—Não... Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquella Laura?

—Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um profundo silencio a respeito do que ouviste. Á menor pergunta que me faças, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a obrigação de te contar a minha vida?

—Não; mas contrahiste com a minha alma a obrigação de eu me interessar na tua vida e nos teus infortunios desde este momento.

—Obrigado, cavalheiro!—Juro-te uma sincera amisade.—Has-de ser o meu confidente.

Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou conversação com a familia que o occupava. Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se para um novo enygma.

Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma analyse rigorosa. Não era possivel, porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda.

—Dominó, porque não deixas vêr este annel?—Perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro, como uma viuva rigorosamente enluctada.

—Que te importa o annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, aqui em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? Fica-te bem essa côr de esquifes, mas não sustentas o caracter artistico com perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade?

—Não me offendas, dominó, que eu não te mereço essa injuria... A desgraça nunca se finge...

—Disseste uma verdade, que é a tua condemnação. Eu, se tivesse sido abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um baile de mascaras. A desgraça não se finge, é verdade; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa d'esse sorriso que te brinca nos labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres que nasceram para esta época, e para estes homens. Ha outras que a Providencia caprichosa atirou a esta geração corrompida como os imperadores romanos atiravam os christãos ao amphitheatro dos leões. Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonisar com o teu genio folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um sophá de pennas, onde te recostas com um perfeito conhecimento das attitudes languidas das mulheres cançadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio!... És a unica mulher para quem este paiz é pequeno. Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e as filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e as aias da duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá é pequenissimo para as Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente pesado em que o coração, nas suas expansões romanticas, encontra, quasi sempre, a mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os respiradouros... Parece que te enfadas de mim?...

—Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me não deres o incommodo de te mandar retirar.

—És muito delicada, minha nobre Sophia!... Já agora, porém, deixa-me dar-te uma idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá... Tens uma sincera paixão, uma saudade pungente por aquelle bello capitão de cavallaria, que te deixou, tão sosinha, com as tuas agonias de amante?

—Que te importa?...

—És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta pergunta?... Quantos annos tens?...

—Metade e outros tantos...

—A resposta não me parece tua... Aprendeste essa vulgaridade com a filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 annos, a não ser mentiroso o assento de baptismo, que se lê no cartorio da freguezia dos Martyres em Lisboa.

Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal... como se chamava... não me recordo... diz-me, por piedade o nome d'esse homem, que, se não, fica o meu discurso sem o effeito do drama... Não dizes, má?... Ai!... eu tenho aqui a mnemonica...

Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou vêr um annel... Sophia estremeceu, e córou até ás orelhas.

—Já te recordas?... Não córes, minha querida amiga... que não fica bem ao teu caracter de mulher que conhece o mundo pela face positiva... Deixa-me agora arredondar o periodo, como dizem os litteratos... Ora tu que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres fingir debaixo d'esse vestido negro, um coração varado de saudades e orphão de consolações?... Adeus, minha bella hypocrita...

Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.