O HOMEM DAS FONTES
A JUSTINO DE MONTALVÃO
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O Homem das Fontes
Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada no Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz alto, de um loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos de névoa calmos e abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra dizer melhor, uma voz de água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e sem lar, vive em perpétua viagem. Encontrei-o em Roma, em Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me feriu intensamente, desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma fonte, concentrado,{80} como se fôsse a caricatura fabulosa que o encantamento de uma ninfa ali prendesse.
Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe, recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.
Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria encher-me de sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de Benevenuto. Tem, como sabem por centenas de gravuras, uma fonte desenhada por Vasári à sombra ameada do Palazzo Vecchio. Caía uma luz melodiosa. Harry desenhava, um caderno de apontamentos na mão fina. Um esbôço da fonte, era evidente.
Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente, pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal; há uma ronda de ninfas alongadas num bronze de patine quási azul; os cavalos marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça{81} tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica e animal, espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, em verve muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda aquele adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos curvos das gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único a morder-me: ver o que Harry Young desenhava.
Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que colhera, quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do que estética, que me parecia absurda, incompatível com um esbôço num álbum de viagem. Ao lado, em frente à estátua de Cosme de Médicis, criados sonolentos iam dispondo as mesas nas terrasses. Já havia dois cafés abertos onde gente apressada ia beber. Harry, que continuou alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a uma terrasse, e bebendo um copo de leite{82.} lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a mesa dando os últimos retoques ao desenho.
Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa igreja, como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os seus olhos estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò convívio enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que não tinha ainda trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via mulheres nem paisagens, absorto neste claro misticismo?
Sentei-me numa mesa perto dêle e pude ver à vontade o seu desenho. Nem um traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras, sob um desenho singular de mulher nua, eu li: Fonte Adamanti, em Florença. O quê?! A fonte concebida por Vasári era p'ra Harry Young aquele corpo?... E buscando a relação possível com essa fonte mítica e ingénua,{83} onde em torno a um Neptuno gigantesco farandolam ninfas e tritões, ou fôsse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu senti, ou porque de facto ela fôsse um claro simbolo, pareceu-me que essa forma musical, êsse corpo de oceanide surprêsa esperando o tritão que a possuiria, era a síntese poética flagrante da fonte que Vasári imaginou. Corria o risco de me tornar suspeito na ânsia de ver melhor, de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o seguir pela galeria degli Uffizii e desaparecer ao fundo, lentamente, p'ra êsse scenario onde se evoca Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura nobre das colinas e das águas do Arno romanescas.
Depois voltei p'ra Roma, onde encontrara Harry meses antes.
Muitas vezes me lembrava dêle, eu que tambêm adoro as fontes, com uma simpatia persistente, cúmplice. Por êsse tempo ia eu às noites degustar o rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo rebordo de alabastro da fonte, fronteira{84} ao Pincio, impregnando-me dessa alma sem memória, dessa crónica augusta de silêncio, que é em Roma a atmosfera de magia das praças sem ninguêm, com vozes de água. Ficava assim horas numa tristeza quási sensual, com uma espécie de delírio de grandezas que me permitia dialogar com Roma, calmar a minha incerteza de falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o meu destino como o de um herói num poema antigo.
P'ra sentir esta luxúria psiquica é preciso ter vivido muito ou ter a velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade, agarrando pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos. Era aquela em Roma a minha hora mais silenciosa.
Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se horas de convento. É a cidade suprema p'ra viver com um sonho ou com uma idea, velada por formas{85} milenárias que recebem exames de consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado aos pés do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê, pensei em Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa auto-sugestão, nem já admitia dúvidas: era Harry, era o homem das fontes que ali estava. E como uma raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro meses, viajando sem sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.
O lirismo imemorial dêsse silêncio levava-me p'ra aquela criatura, que uma espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como p'ra um ser afim, um quási irmão.
Pareceu-me que êle mesmo se movera, olhara na minha direcção, como esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o silêncio, o convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos museus, o meu desejo de falar com Harry atingiu a plenitude, exasperou-se. Levantei-me.{86} Sem me atrever a caminhar p'ra êle, fui-me timidamente aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei com ar distraído junto de Harry, como se olhasse um dos leões golfando água. Fiquei assim nervosamente alguns segundos.
Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de me falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras palavras que trocámos. Aludimos aos nossos múltiplos encontros, em Espanha, na Itália, na Turquia, por uma coincidência bem estranha, sempre junto de fontes...
Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio fôlhas sêcas. Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza dela Signoria, o desenho da fonte de Vasári que eu vira na terrasse por trás dêle. Harry calava-se surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, p'ra pintar.
—Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande interesse da minha vida...{87}
Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em segrêdo.
Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões que depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um estranho, sem ternura.
Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à promiscuidade forçada e torturante p'ra uma sensibilidade como a sua. Logo que chegou à maioridade, rico e só, foi visitar nos arredores de Londres o castelo em que seus pais viveram. Correu o parque, as salas, as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus brinquedos, onde um pó sem saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num museu.
Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa em que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até os olhos fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra essa visita com que tanta{88} vez sonhara, e saía de lá desamparado, com uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a velhice das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e que perdem com a côr tôda a memória. Esses muros sem alma angustiavam-no. Já atravessava o parque p'ra sair quando ouviu a chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e pareceu-lhe bem distante, vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm amigo, acolhedor! Foi p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a ouvi-la até à noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas. Harry contou-me:
—Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem beleza consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.
Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não terei...
A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara, tudo me comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam... os tapetes, os móveis, as paredes, tinham linguagem agora: compreendiam-me.{89} As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os meus. E como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra lhes dar, espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no meu peito. Vem dessa hora o meu amor às fontes.
Harry erguera-se. Seguíamos pelo Corso lentamente. Pedi-lhe então que me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.
—Só se quiser vir comigo ao meu hotel.
Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um hospital de águas... Faz-me triste.
O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre duas janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais arqueada, como p'ra receber melhor as confidências. A torre della Trinitá del Monte deu onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque subia da praça, propiciando, a voz da fonte{90} de Bernini, la Borcáccia, a escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as serpentinas sôbre a mesa. Vi então dois álbuns grandes de viagem, e alguns pequenos mais esguios.
Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes árabes: de Córdova, de Granada la vieja, a terra andaluza de mors-amor. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de Granada, que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena vive ainda com uma côrte calada de ciprestes...
O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova, musical, nesse jardim interior da Alhambra—jaula feérica da luxúria árabe, onde os corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos pátios, e nas salas de jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos jardins as grandes séstas tórridas, de cópula...
Desenhára o mirador de Lindaraja, com{91} as suas gelosias marchetadas que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra ouvir melhor a voz da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos olhos, nos cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de uma corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um entre todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da praça do Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de oiro e lápis-lazuli, de que a água é sultana única.
Harry representara Schehèrezade, a noveleira das Mil noites e uma noite. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante mil noites e uma noite, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a matava se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte Schehèrezade.
Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma Belle au bois dormant que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas que vi, apenas lembro uma{92} carmelitana, lendo sob uma ogiva, côr de cera, decerto Santa Theresa, Las moradas... A última, porém, a mais estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a fonte dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas alagadas, uma cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero viviam irmãmente com os heróis. E não sei que fonte mitológica—uma estátua de Juno, sereníssima, a cabeça nimbada de andorinhas.
O outro álbum era de esboços—desenhos e maquettes,—tôda uma arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético parque, inverosímil como o de Poë no Domínio de Arnheim.
A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse templo que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto místico, em linhas-versículos de sonho.{93}
Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.
—Construi-lo e habitá-lo... Com Miss Fountain... se a encontrar um dia.
O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música, espumante, de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em motivos decorais no sonoro frontão religioso que viveria um dia tão beijado como as asas do mar no temporal.
É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a litúrgica, a aquática; era o seu esqueleto quási oculto, e por milhares de ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados, por bôcas inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares donde cairiam chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa segunda, arquitectura sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia criar.{94}
O mármore apparecia, sob a trama arquitectural da água golfante, como através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia às vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura de uma planta de água.
Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura, cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria solar de uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam molemente, em lágrimas, p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde espirravam como flores se esfolham, em graças platerescas, em sorrisos.
Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de água, tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave. Mas, como Harry me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente realizável, era um ensaio de arquitetura musical. A euritmia dessas linhas de água, tantas volutas líquidas que eu via no amoroso desenho daquele álbum, não tinham só{95} um fim arquitetónico, antes eram a consequência imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da Água revelada por um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a partitura do palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.
Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado. Primeiro o leit-motiv da entrada, cantado no peristilo por três fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da entrada (duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro quási ocultas) que acompanhava as três vozes argentinas. Harry chamava-lhe: o motivo de saudação.
Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando as mãos numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um piano a fluidez dionisíaca das frases. Os graves e os agudos conseguiam-se por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade{96} capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos, ampolas, com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito ornamental e acústico.
A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas foscas, claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos mármores da fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons sobrenaturais de um órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu Deus! prazer supremo, ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse vida!
Três melodias fugadas corriam a fachada sem cessar. A que vibrava ao centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais, implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de resonância decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma aspiração de agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem as mãos erguidas das{97} Ogivas. Harry chamava-lhe: a ânsia de ser nuvem.
Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram, musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: a alegria de morrer sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes. E os três deliam-se numa polifonia liquescente em que a ânsia de ser nuvem tinha o patético de umas mãos erguidas; a alegria de morrer sorrindo lembrava a vida e morte das espumas; e a saudade dos rios, das nascentes, nas conchas e recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em acordes quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e orquestrada sabiamente: a nostalgia do coração das rochas vivas, dos açudes, dos campos cultivados que ela regava a chalrar nos sulcos largos.
Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas de ecos sem memória instilando um esquecimento{98} de magia. Inútil descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitectura, Harry compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a notação musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham sido por êle copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder compor a partitura dêsse palácio feérico da Água.
O seu esfôrço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe parecia pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da arquitetura líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.
Mostrou-me ainda detalhes interiores. A Galeria da Meditação tinha vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o casamento do Doge com o Adriático na galera de sonho o Bucentauro; Ophélia louca, o cabelo como um chorão de fios de oiro, apartando com mãos de prata fosca os canaviais orando à{99} beira-rio: sereias penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...
No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas, como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do tempo... Ali iria meditar e ler.
Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.
Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento, concentrando-o. Alêm das grades balizando o parque, cinco muros de árvores concêntricas, por ordem de alturas decrescente: a grisalha colossal dos eucaliptos, o veludo dos cedros, choupos góticos, ciprestes tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras sôltas dos chorões... E seria num vale agasalhado.
Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as fontes se fizera vagabundo, para as ver, pr'às ouvir assimilando-as, e poder{100} executar um dia o seu palácio—síntese de todas.
O entusiasmo de Harry contagiou-me. É possível que amanhã não seja assim, que dêste plano de arquitectura musical que antevejo e anteoiço emocionado, no contágio febril que me vem de Harry, me fique a idea de um projecto fruste, de uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de loucura poética só como documento, interessante.
O templo da Água é para a vida dêste sensitivo, sob uma forma íntima e discreta, a minúscula visão quási infantil, a creancice lírica encantada em que êste poeta semi-louco e ingénuo tenta exprimir em linguagem de arte, com a arquitectura e a música por meios, tudo quanto na terra deslumbrou a sua alma de tritão éxul.
Se amanhã analisar êste projecto longe do seu contacto perturbante, talvez eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas sempre com emoção hei-de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe entrega, sem nenhuma restricção,{101} de todo o corpo, e arde nessa febre dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nómade, de acaso, que o fará morrer ao desamparo no hotel dálguma terra onde haja fontes, ainda fiel a essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em cristais múrmuros...
O palácio da Água!... «Construi-lo e habitá-lo com miss Fountain se a encontrar um dia...» Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de água, clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água, envolvente, fluido, esquecedor, como um nirvana de água inexgotável.
Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um mystico dos sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas composições que agora ouvi. Ou, quem sabe! um arquitecto novo, musical pela assunção das linhas, sem recorrer, vesánico, quimérico,{102} às impossíveis sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa, cuidaram descobrir todo o destino.
Ao ouvir-lhe a voz meíga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe dêste homem, sem família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento por uma sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que era uma loucura essa chimera onde fechou o futuro a sete chaves.
É certo, é natural que isso suceda. Que sabe êle de hidráulica, de acústica? Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, p'ra admitir como exequível êsse plano, que êle fôsse um arquitecto extraordinário, um músico revelador de novos meios e um engenheiro único, de génio.
E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de vertigem, a mais victoriosa das derrotas, condenando pela voz dêsse homem-deus tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que{103} certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry?
Êsse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um prodígio interior, não se exterioriza, e só com uma genialidade adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura) a obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes, domínios que pareciam de outras artes.
Se ao menos pudesse conviver com êle e canalizar tão bellas qualidades p'ra qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida se partisse como uma lufada de vento quebraria aquela arquitectura em pratas de água, como um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira noite que falamos e é decerto a última tambêm.
E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão, êste culto das fontes religioso?...
Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da fachada, comecei a dizer que um dos motivos—a alegria de morrer sorrindo—me{104} fizera, ali na paz de Roma, uma saudade imensa do meu mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.
—Gosta muito do mar, não é verdade?
Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma onda de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A fonte de Bernini ouviu-se mais: dir-se-hia uma voz de ama milenária a acalentar fantasmas com terror...
Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz, mas elle viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha ância. A sôbre-excitação daquele instante, até o facto de eu ser quási um estranho, a quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a um amigo ou a um conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.
Respondeu-me com agitação de um modo brusco:
—O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi êle que perdeu os meus...{105} Compreendo-lhe a beleza, que é divina, mas não o posso ver, atterra-me, detesto-o...
Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, vivendo as frases:
—Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com êle e adorava-o. Era piloto. Viajava p'rò Norte quási sempre. Filho de marinheiros, tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a bordo do Baltic, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então dezassete anos.
Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens por mar interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira) imensamente bela, não é verdade?
Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de histeria, e ao menor obstaculo, com acessos de chôro e grandes febres. Meu tio era o tutor, e longe de a reprimir, estimulava-a mais, lisonjeando-a, com{106} uma adoração de spleenético alcoólico por aquela andorinha semi-louca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela ia fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobresaltos dos seus nervos, e êle ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta de sadismo. Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.
Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma côrte romanesca que alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas que era para êle a mais cruel: abandonar a vida de bordo para sempre. Estava tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe arrancassem tôda a alma...
Na véspera do casamento, foi a bordo do Baltic despedir-se. Abraçou os companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um cão sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa noite passou-a a errar no pôrto.{107} Ninguém diria que aquele vagabundo tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã seguinte.
A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade exasperada, como um travo de remorso do mar longe...
Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo nos olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem convívio, num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em vida, lhes doou. Havia no amor dêle a minha mãe devoções de plebeu por um ser de raça, e o sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com longos períodos de abstinência no mar largo, por um corpo de pétala, serpentino, enlaçando com braços e perfumes...
No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como êle evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia mesmo êle pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que fizera, que não falasse do mar{108} diante dêle. E a cada instante, em horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes noites de invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava o espectro do mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via bem amarfanhado, caído como uma coisa ao desamparo, p'ra cima de um estofo, a mascar raivas, erguia-se mais linda que um tanagra e ia beijar-lhe os olhos, dar-lhe a bôca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.
E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguêm. Raro saíam. A vida mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e esgotou-a com uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece em pouco tempo. Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento desigual, não queria humilhar meu pai nem humilhar-se.
Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados qualquer coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor, na mesma jaula de oiro, dia e noite...{109} Enervavam-se um ao outro. Enlouqueciam-se.
Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por êsse tempo. Emagrecera. Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica requintava, em perversões subtis, quási em loucuras. Torturava meu pai continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões que iam atormentá-lo, evitando contudo falar dêle, com uma hipocrisia que era mais cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia paisagens de mar por tôda a parte... E por cima das mesas, dos sofás, como uma obsessão de crime, sempre e sempre, livros, romances e gravuras, com narrações de mar, sempre com o mar...
Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda «ouvir como isto é lindo!» E êle encostado ao piano, junto dela, via os Lieder de Schubert já abertos numa página marcada. E lia: O mar!...
Depois que eu nasci, a nevrose de minha{110} mãe, longe de se calmar na maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram enormes. Passavam horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a adorar-me. E como me dizia a velha Jenny, por quem eu soube tudo o que lhe conto, dir-se-ia, naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais, se bebiam com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.
Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.
A virilidade impulsiva de meu pae caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se aos pés dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...
Os criados achavam-nos estranhos, cada vez mais pálidos, mais magros. Eles mesmos pressentiam—no silêncio augural daquela casa onde os viam enlaçados, de olhos loucos—qualquer coisa de trágico, de mau...{111}
Meu pai, que a bordo fôra sempre sóbrio, bebia agora imenso, embebedava-se. Depois, com a idea do mar cravada nele, ia esmoer essa obsessão, calado. Viam-no às vezes falar só, baixinho, escondido nas salas afastadas, dizendo por entre dentes, sufocado, coisas de bordo, vozes de comando, com as mãos em porta-voz, olhando o tecto, como se fitasse os mastros, o velame...
Se alguêm o via, disfarçava, com uma expressão de terror quási idiota. Ia endoidecendo pouco a pouco.
Minha mãe sabia tudo, tudo. A pobre Jenny, sobressaltada, ia contar-lhe; pedia-lhes que se distraíssem, viajassem, que fizesse um esfôrço p'rò salvar. Ela, porêm, só tinha curiosidade p'ra saber se meu pai bebia muito, se falava só, o que dizia...
Ás vezes vinham cartas dos camaradas, dos portos em que o Baltic tocava, falando-lhe de bordo com saudades. Êle lia-as e relia-as muitas vezes. Trazia-as sempre consigo, decorava-as. Mas logo que minha mãe aparecia, mudava de figura, era já outro. O{112} olhar babava adoração. E se um instante se abandonava nos seus braços, pegava nela ao colo como um doido, levava-a p'rà alcova aos tropeções, sem se importar com os criados, com ninguêm.
Afinal minha mãe gostava disto. Era ela que o enlouquecia pouco a pouco. Cada vez mais, sem falar dêle, a propósito das coisas mais triviais, aludia ao mar, com pausas bruscas, em que os ouvidos dêle, alucinados, ouviam o rumor, a voz do largo...
Evocado a todos os pretextos, por essa linda torcionária histérica, êle acabou por ser uma presença: o Espírito do Mar viveu com êles!... Eram três agora no castelo. Passava o inverno com êles, a seu lado. Vivia nas marinhas das paredes, nos livros e no vento, nos ruídos... E mais e melhor: na alma dêles...
Sós, à noite, a ouvir o vento, olhavam-se... E em ambas as bôcas, bem cerradas, cada um lia: «Ouves o mar? É êle...» E depois de suspensos um instante p'rò sentirem correr-lhes a medula, afogavam-se nos{113} braços um do outro, com uma fúria sensual desesperada. Foi minha mãe que provocou tudo isto, e acabou por se enredar tambêm, por acreditar como êle, contagiada. Numa cama de amor, dois amorosos, partilham as loucuras como os corpos...
O Espirito do Mar estava com êles. Ainda lhe não tinham pronunciado o nome, mas calavam-se muitas vezes para ouvi-lo, conversavam sôbre êle por olhares...
Uma noite de inverno—ia a fazer três anos que casaram—recebeu do Norte um telegrama.
Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava; mandavam-lhe do Baltic saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio, o seu pano que tanta vez ferrára, vinha naquela noite de Janeiro, dizer-lhe o ultimo adeus da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares de névoa, das veladas na ponte a todo o tempo, dos sonos bons depois no seu beliche, pequenino e estreito como um berço... Rolavam-lhe as lagrimas dos olhos.{114}
A Jenny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa noite ultima.
Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume, bebeu gin. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns olhos de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...
Já tarde, ergueram-se. Jenny foi ajudar a despir-se minha mãe. Êle seguiu devagar pelo corredor e abriu a janela tôda à noite negra... Ficou assim algum tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao vento...
Depois, bruscamente, foi pr'ò quarto. Com um tremor de alcoólico nas mãos, foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas de bordo, atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para sempre. Pôs-se então a vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas altas, na cabeça o sueste... Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a sair, quando voltou p'ra trás.{115} Qualquer coisa lhe faltava. Procurou no armário, procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de coiro já puído. Pô-la â cinta e partiu com um andar mais firme, resoluto, como se a bordo, fôsse fazer um quarto em noite má.
Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o esperava. Sem bater, entrou: parou a olha-la. Tinha os cabelos desfeitos, muito branca, num robe-de-chambre que abriu ao vê-lo entrar. E com o colo nu perdeu-se a rir...
«Vaes p'r'ò mar, meu amor? Deixas-me só?...»
P'rò mar! P'rò mar!... Pela primeira vez há já três annos, espantado de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortílego, supremo: «P'rò mar!» com uma inflexão pueril, quasi idiota.
A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.
—«Estás vestido p'ra bordo... Estás já pronto...»
De súbito, ela viu-o demudar-se. Com{116} uma inflexão rouca, de bêbedo, tornou; «Está mau... está mau... Está um temporal desfeito. Como querias tu que eu me vestisse?» Ela sentiu terror e aproximou-se. «Ouves a chuva?» dizia êle. «Ouves a noite?... Ouves?... Ih! Ih! Que vento! Que maldito!...» Num lindo gesto meteu-se-lhe nos braços, colando-se contra ele, abandonando-se. O robe-de-chambre descaía-lhe nos ombros. «O pano incha, o pano incha... Ferrar pano! gritou com voz de comando: Ferrar pano!»—Tomou-lhe o corpo nos braços ennovelado. E Jenny, que ao ouvir-lhe a voz correra, ouviu ainda aterrada; «Não aguenta o pano! Cortar cabos!...» Tirou a faca de bordo da cintura, prendeu a bainha nos dentes p'rà arrancar, e cravou-lha no colo até à raiz. Era curva. Dir-se-ia que tinha a inflexão dos seios dela.
Harry contou-me ainda o processo, o julgamento, e como êle no tribunal acusou o Mar... A opinião dos médicos legistas, foi{117} que êle estava doido irresponsável. Apesar disso, porêm, foi enforcado. A opinião pública, os jornais, eram contra êle.
Harry estava lívido.
—Compreende agora porque odeio o mar.{118}
{119}
SUZE
A PAULO OSÓRIO
{120}
{121}
Suze
Oh! dolce,
della soglia del lupanare
mirar le vergini stelle!—La meretrice di Pirgo—GABRIELE D'ANNUNZIO.
Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta da Suze, e a minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a pensar, com uma perversidade triste, que tenho escrito loucuras a um cadáver.
Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil incidente, que ia entrar p'rò hospital p'ra ser operada. Anunciava-me isto, entre um projecto de vestido gris-taupe, que iria bem à sua tinta de viciosa pálida, e uma chuva de detalhes sôbre{122} a gata, a amar com romance e com luxúria um gato magro do terceiro andar.
Se tivesse sido operada e convalescesse, já decerto me teria mandado um telegrama.
É pois forçoso convencer-me que a minha pobre Suze—«era uma vez»...
Repito alto p'ra mim mesmo: está morta, está morta a Suze! Logo que o disse alto, todo o meu temperamento de actor o acreditou, e em todo o meu ser, essa auto-sugestão ressoou em dobres, agudamente, por essa rapariga de vinte e três anos com quem vivi dois meses.
A morta (é certo, é positivo que morreu) era alta e magra.
Aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus livros, a vejo atirar o chapeu de rendas caras, em que havia heráldicas tulipas, acender com um gesto fino um dos Laferme, correr a mão na testa com o gesto da Duse nas catastrofes supremas, e dar-me fumo e destino e sonho. Aqui mesmo.
Naquele espelho prolongou com um traço{123} de crayon os olhos vagos, ali palpou as molas do divan, e no toilette atou horas depois, im memoriam, as fitas de sêda azul que lhe prendiam a camisa nas espaduas...
(Mas assim, não consigo dizer o que ela foi. Preciso calmar a minha febre e começar pelo comêço).
Vi-a a primeira vez êste verão, no teatro, e logo a destaquei.
Os seus cabelos de criança escandinava, loiro cendrado e sêda palha em que havia reflexos quási brancos, tufavam na testa sob o chapéu preto, descaíam à esquerda, subiam à direita recortando a têmpora em ogiva; inverosímeis como raios de um sol de vício, quimicos, absurdos... Só depois me convenci que eram autênticos.
Os olhos eram claros, cinzento de agua em névoa; a máscara alongava-se num focinhito sonâmbulo; nariz incorrecto, quási grosseiro; bôca grande, acolhedora, de comissuras em pontos de interrogação; e o mento perdia-se na nuvem de tule de um{124} laço, esparso na gola impecavel de um costume tailleur azul.
Tinha muito da Sarah em nova: a cabeça de uma madona quatrocento em que vivesse a alma de Montmartre.
Acompanhava-a outra que mal vi, fisgado pelo estranho do seu tipo. Toda a noite, ferozmente, a encarcerei no meu binoculo e ela, exibindo atitudes de indiferença numa galeria intérmina, nem sequer teve o ar de ver-me.
Aborrecia-se com complacência, olhando sem fitar, cumprindo com resignação êsse destino de, sôbre uma platea do Pôrto, num barracão de Folies-Brégeiras, esfolhar a carícia exangue e lambedora das suas mãos de raça.
No meu grupo faziam-se hipóteses. Cocotte? Cançonetista? Talvez seja essa que se estreia amanhã.
Todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia.
Quando à saída ela passou, compondo um ar abstracto e um passo ondeante de serpente-fantasma,{125} excitado e burro, disse não sei que frase escória e ouvi numa voz de sêda que range, esta coisa justa: imbécile!
Deixei de ir ao teatro. Achei a vida tôda tão imbecil como eu.
Até que uma manhã Just irrompe no meu quarto e preludia felicíssimo: «Foste um doido em não aparecer». Contou então: o empresário F. apresentára-o, e como eram duas e eu continuava incógnito, apresentou por sua vez o conde C., que ao menos não se arranjava mal.—«A tua, a do conde, chama-se Suzanne. A outra, a minha, é Gaby d'Anjou, é perfeita. Não sei se reparaste: um corpo grego. Ha uns poucos de dias que isto nem parece o Pôrto—».
E partiu num turbilhão de chance, dizendo apenas quási à porta, que a Suzanne era finíssima, e se tolerava o conde é porque não via melhor, e porque emfim, o Amieiro o não vestia mal.
Como mesmo escrevendo, estou morto por chegar ao quarto dela, direi já que almoçamos a sós dias depois, e nem sei mesmo{126} se comi, porque estendia as mãos em concha aos seus pés magros, p'ròs sentir crispar-se com luxúria ao ranger da sêda em fôlha sêca...
Foi rapido e simples. O meu amigo apresentou-me: o conde é lorpa, eu sou fino, ela é fina e... voilà!
Aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me colheu, polarizando o meu desejo p'rò seu corpo elástico e felino, como se as suas mãos de pianista me corressem na medula, e os seus olhos de névoa me perdessem em hipnose.
De corpo e espírito era flexivel como uma chama ao vento.
Horas e horas, com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória, recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cór tôda a Comédia Humana; tinha um vício pessoal, erudito, arqui-subtil; cinicamente ingénua, ingenuamente cínica; amoral e heróica, e que caminhava p'rò seu leito de cocotte com o ar redolente de Desdemona na canção do salgueiro...{127}
Oh! A sua canção do salgueiro, musica e versos de Bruant, como eu a trauteio ainda exasperado:
Les ch' veux frisés,
Les seins blasés,
Les reins brisés,
Les pieds usés.
Pierreuses,
Trotteuses,
Ás marchent l'soir
Quand il fait noir
Sur le trottoir.
Os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caíam-lhe nos ombros; a robe empire era ampla e branca, as mangas vibravam em asas de serafim profissional... Era uma aparição de lenda rociada de agua Lubin—orvalho caro...
Quando depois mais de perto a detalhei, achei-lhe um não sei quê de transido, de parado, espécie de kakemono, espécie de bébé enorme, enigmatico, aflictivo, como só um{128} caricaturista-poeta criaria, num instante de emoção e febre, de quimera e riso. Pobre Suze!
Era pálida, pálida, no seu roupão de noite, sem as rosas do maquillage que ela tão subtilmente esmaecia. Pobre Suze!
Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como tu viste, nem como tu transfigurou uma mascara de gêsso, patinada a lua, numa obra-prima irradiante.
Tu que eu agora vejo como um mármore de desgraça, arripiado, vestido à toa, sem maillot de sêda, sôbre uma mesa misérrima de morgue; tu que tens já talvez no ventre aberto o esverdear levíssimo com que a Morte agora te maquilha; tu que depois de tanto te venderes, cada vez eras mais tu e mais perfeita,—ninguêm irá junto do teu cadáver pôr-te o colar da Ordem do Desprêzo que na vida te deu beleza e estilo.
Foste um génio incompreendido, Suze. É o único ponto de contacto que tiveste com dezenas de idiotas que eu admiro.{129}
Mas não é isto o que me aflige, pois sei bem que se da Morte me ouvisses e se da Morte me falasses, mais uma vez me dirias a tua grande frase, a frase-medalhão, a frase-refrem, que tão sinteticamente define a tua graça, o teu génio, o teu vicio, o teu desdem:
—Tu sais, ça, c'est un détail.
P'rà Suze, tudo na vida era um detalhe.
Ela que se deu a saborear a tantos homens, duvido bem que conhecesse um ensaiista, espírito de síntese, à Carlyle, que emquanto eu nesta noite de insomnia a recomponho, com uma saudade sem esperança, friamente medite um grosso tomo, que deveria assim chamar-se:—A Filosofia de Suze (livro postumo).
E em sub-título, dum chic transcendente:—ensaio sôbre a supra-mulher. Dir-se-ia no futuro:—isso é um detalhe, como outrora se disse:—penso, logo existo, como hoje se diz:—o homem é uma ponte p'ró Sôbrehumano.{130}
Se Eça de Queiroz fôsse ainda vivo, eu que nunca o conheci, havia de apresentar-lhe a Suze, e juro, juro, que a acharia bem mais subtil, bem mais complexa e humanamente fascinante, que o seu extraordinário figurino—Carlos Fradique, dandy e epistológrafo.
Fialho, mais feliz, pôde falar-lhe; viu-lhe gestos que valiam maximas, e ouviu-lhe memórias e anedotas bem mais significativas que parábolas. Mas por mais que insistentemente lho pedisse, nunca escreveu sôbre ela: recusou-se.
Não posso eu, como quem empalha uma asa, amortalhar o génio da Suze em frases sabias, articular-lhe em sistema as formas tipicas, erguer emfim essa arquitectura metafísica, que ficaria na névoa das idades, como um farol p'ra sempre...
Não, não posso. Sinto ainda correr-me o corpo todo, em ondas lentas, o afago dos seus cabelos, dos seus dedos, que eram vivos, enervantes como línguas...
E não é assim, a arder em desejo postumo, que eu posso lançá-la à posteridade...{131} De resto, Suze, que era p'ra ti a posteridade? Um detalhe, um detalhe apenas...
Mas quero afirmar que nessa frase—que nem sequer p'ra muitos que a beijaram, foi mais que uma ironia sem estílo—se condensa o estoicismo, o galbo heroico, que fez desta parisiense tão estranha na sua vida de cocotte nobilíssima, uma neta espiritual de Marco Aurelio.
Foi nobre e foi cocotte. Não estranhem.
Viver, p'ra uma mulher, na sociedade de hoje, é qúasi sempre prostituir-se. Mesmo as que casam, e que casando amavam os maridos, quantas vezes não sofrem sem desejo, um cio incontinente, numa humilhação de prostitutas, até que tôda a emoção se lhes estanque e o hábito lhes embote o corpo e o espírito?...
Depois da primeira frase, em que a sêde de amor lhes doira a vida, quantas não reconhecem no convívio que o seu ídolo moral é um canalha, e que o amoroso é só o macho sordido, sem delicadeza, sem ternura—contundente, ferocíssimo, legal...{132}
As outras, são apenas fêmeas broncas presas à canga do lar animalmente, ou semi-loucas resignadas que um catolicismo castrador perdeu, ou índoles lunares de amorosas esperecendo de martírio e tédio. E consciente ou inconscientemente, todas vão afinal prostituir-se. Só a moeda diferere: nada mais.
Mas se viver, p'ra uma mulher, é quási sempre prostituir-se, não o é menos afinal p'ra um homem.
Prostituir-se é deformar, ou anular mesmo, o que em nós há de individual e caracterisante, pela necessidade de captar alguêm, patrão ou mestre, rico ou superior hierarquico, e até mesmo o pobre, que nos dá a ilusão de sermos bons e a consideração hipocrita dos outros.
Cada um de nós, ao entrar na aula ou na oficina, no escriptorio ou na repartição, no salão ou na taberna, é postiço, é convencional, é um outro; ao princípio confrangídamente, através de mil torturas; depois inconscientemente: mecanizado, deformado,{133} quinquilharia andante e cérebro de lixos, contribuindo assim para êsse ideal que nos empala, e os moralistas chamam—solidariedade humana.
Era fácil mostrar como, violentando o temperamento, esta prostituição se repercute até nos gestos, na nossa maneira de andar e de vestir. E isto em todas as classes, porque ninguêm é suficientemente forte p'ra se bastar a si mesmo; todos precisam da consideração dos outros, da opinião pública, e vão vivendo sob a garra do preconceito, que os desengonça e deforma, que os raquitiza e anula, como os saltinbancos às crianças.
Quantos resistem íntegros ao regímen penitenciário que é a vida de hoje em sociedade? Alguns pelo isolamento;—bem poucos dos que ficam.
Não riam portanto ao ouvir que a Suze, a minha pobre Suze, foi nobre e foi cocotte. Cocotte, sim. Como nós todos. Porque, em summa, eu sou cocotte, tu és cocotte, êle é cocotte...{134}
Que horas serão? Deve ser quási madrugada.
Eu bem queria nestas palavras de febre, silhuetar a Suze, ter um pouco de método, monografá-la. Mas não posso, não posso.
Tenho aqui na minha mesa de trabalho o seu retrato, e nem sei como tenho coragem p'ra escrever, como posso desviar os olhos da névoa abysmal dos seus, que me transem de irremediável e me enlouquecem de desejo. Desejo absurdo, que o impossível hiperestesia, e me impregnou celula a celula.
Sinto no corpo todo a carícia opiada dos seus dedos, a sua carne sortílega, embruxada; a sua pele afim da minha, e que com ela dialogava em silêncio, nas horas de esgotamento, rememorando sensações agudas, fulgurantes...
Vejo-a, vejo-a!
Passa a teoria das nossas noites (em que os seus tics profissionais me confrangiam) e ela era sempre duma envolvência fluida, de uma estesia de actriz inconsciente, uma{135} viciosa triste, insaciada, e uma boa e uma pobre rapariga.
De comêço podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça, tanto o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo: no andar elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de alcova e confidência. Mas não: viam-na mal. Ela era assim sem esfôrço, naturalmente: ela nascera uma obra de arte. E todo o meu trabalho de esta noite me parece o de um doido que quisesse com poeira reconstruir uma obra prima...
Muitas vezes já, aludi ao seu cinismo. Mas entendam-me: cinismo, disse-o o forçado genial de Reading—é a coragem de dizer as coisas como são e não como deviam ser. E a Suze era assim, quando falava a alguêm que a compreendia.
Êsses porém, eram raros, muito raros. Com uma intuição divinatória, balzaquiana, a Suze adivinhava às primeiras palavras o seu caso, lisonjeava-lhe os instintos, e assim durante o dia era, conforme o macho em{136} catequese, canalha ou ducal, obscena ou protocolar.
Um dêles, com quem viveu muito tempo, não via na Suze um animal de vício em quintessência, e, estúpido, não lhe sentia a graça esparrinhando génio: era apenas sentimental e jogador.
Outra qualquer, para o prender, faria comédias românticas, e decerto orientaria o seu comércio por êsse fundo fadista e namorisquento. A Suze não. Parecia-lhe demasiado reles, insuportávelmente folhetim. E foi por o jôgo que o laçou.
Pouco a pouco, por sugestões dominadoras, foi-o convencendo de que ganhava sempre quando cedia passivamente aos seus caprichos, quando lhe dava mais vestidos, mais dinheiro: e em pouco tempo, ela era p'ra êsse jogador supersticioso, um ícone sagrado, tutelar,—Nossa Senhora da Sorte ao seu alcance...
Dominava-o por completo. Se o traía, explicava-lhe com um ar vago e superior... que era para lhe dar chance; e todas as{137} noites o desgraçado vinha implorar da Suze, aninhada num divan, com um pequenino ar de sibila delfica, um pouco de sorte por amor de Deus!...
Teve êste espectáculo hiper-dantesco: os Poderes Constituidos—em cuecas!... Ella os viu, aos redentores da patria: viu como era piloso o sacro onde teem o fogo os oradores: foi caloteada por economistas: sofreu contra a pele fina a camisola de flanela dos guerreiros. Mas o que mais magoou o seu desprezo, foi a secura e a egolatria dos artistas.
P'ra todos a sua arte era perfeita, radiando ilusão, hipnotisando.
Mais flexível que as nuvens são p'ró vento, o seu proteísmo teatral de prostituta mimava a cada um o seu ideal...
Ah! Mas como ela ficava, a minha Suze, a sua fadiga nervosa aniquilante, o seu imenso tédio neurasténico, querendo desertar de si, da sua alma e da sua pele enojada, para sempre!...
E caída num estôfo, amarfanhada, era às{138} vezes triste como uma coisa morta, como uma asa ferida nalgum charco... Curtia assim consigo mesma horas de miseria moral e de exaspêro, sem uma queixa, sem uma lágrima, num orgulho de sózinha, donde só resumava o sofrimento, num gesto, num olhar, numa ironia.
Uma manhã em Lisboa, acabavamos de almoçar no nosso quarto, com a janella aberta p'rà Avenida.
Ela fumava um Laferme, devagar, no prazer subtil de soprar nuvens. E de repente, como a uma lembrança súbita, disse-me isto baixinho, num tom que nunca esquecerei:
—Tu sabes: não gosto de falar da minha vida. Nunca me queixei. Se agora te falo, é porque é p'ra dizer bem... Neste horror, tenho tido dias de uma volupia imensa. Nem sei como te diga. Começo por me sentir doente, exasperada, sem poder mais... Eles vêem e eu penso que vou morrer de nojo. Vem um, vêem muitos... vêem todos... Então, não sei porquê, sinto{139} um bem-estar, um gôso doido; acho prazer a que me humilhem; parece-me que nasci p'ra isto, que não há destino melhor... e gozo... gozo.
Depois, num riso sêco:
—Sinto a volúpia de um cristão ás feras...
Parou. Eu recebi num beijo o fumo do Laferme, e a Suze concluiu:
—Que importa isto! É um detalhe...
As outras, as vulgares, bestializavam-se; passada a crise horrível de adaptação, vendiam beijos, como um mercieiro vende arroz, um advogado eloquência, ou um diplomata uma colonia. A Suze não; era esculptada em lava: era alguêm. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria sempre ela, seria sempre só. Pobre Suze!
Alma apolínea, foi esboteada por fadistas que teem o nome em crónicas heróicas; sofreu-lhes, em noites de orgia besta, o suor e o vomito; e com uma clarividência trágica, presentiu muita vez os haustos da manhã subindo, a olhar com a pele arrepiada a máscara boçal de algum cliente.{140}
Teve amantes ricos, equipagens, e as suas melhores horas eram quando sozinha, abandonada a si mesma, ouvia numa noite de inverno, como uma confidência, o crepitar da lenha num fogão...
Teve paixões sensuais que a torturaram, foi roubada impunemente muitas vezes, e uma noite em Moscou—cahia neve—velando uma companheira moribunda, sem nada p'ra empenhar e sem recursos, foi pôr no prego, jóia grotesquíssima!—a propria dentadura da doente que. Deus louvado, era montada em oiro... Assim puderam comer aquela noite.
É de estoirar a rir—não lhes parece?...
Sabia de cor tôda a Comédia humana: viveu tôda a comédia humana. Pobre Suze!
Tu ao menos, não precisaste de ser louca p'ra sêres santa: ergueste-te sempre corajosa e simples, sem um abatimento ou uma queixa; e através de insultos e torpezas,{141} conservaste puríssima, apolínea, uma alma aberta ao sol como uma rosa!
Quantas vezes, calçada de verniz, tiveste fome, e com teu passo elástico de espectro, nem um só Cireneu topaste que ao estender-te a mão, te não pedisse gôzo...
Tu, Suze, sabias bem tôda a piedade humana e como ela é antes... e depois. Se algum principe Nekhuladoff tentasse redimir-te, como a tua palidez riria de alto ao pobre místico, a êle que te falava de perdão e arrependimento, quando os teus olhos de névoa viam claro, com um determinismo lúcido, fatal, que a tua vida era assim, irremediável, e nem tinhas ódios nem sêde de justiça, pois bem sabias que é inútil tê-la p'ra morrer à sêde...
Conheceste príncipes, é certo, mas nem um místico: só mais ou menos imbecis... Não te fossem falar do ceu,—a ti que tantos viras de platina na bôca de gozadores com avarias.
Por isso não tiveste gritos, não te estorceste: nem sei mesmo se choraste.{142}
Posta em teatro, não farias uivar as galerias nessa paródia de circo tão grotesca que é um quinto acto p'ra burgueses e povinho; eras p'ròs raros apenas como o matoidismo poético da minha terra. Na tua voz de fôlha seca, dizias de todo o teu calvário apenas isto: é um detalhe.
Mas para mim, Suze, o teu corpo serpertino, que ora começa a decompor-se, o teu génio a fagulhar num incêndio murmuro de elitros e, sobretudo, o supremo encanto da tua dor heróica, sem desfalências e sem queixas, para sempre ficarão no meu espírito, como qualquer coisa de belo, de perfeito, pois que correste os bastidores da vida, todo o egoísmo, tôda a lama, tôda a infâmia, em vítima serena—tão serena como essas que na Grécia iam hirtas de dor entre colunas...
E amaste sempre o sol! E amaste sempre o sol!
Deixa-me lembrar-te: é a última carta que te escrevo. Desta vez serei sincero,{143} porque estás morta, porque a não lerás...
Espera!... As nossas tardes no Rio Doce, em Leça... Os olhos dos mortos ainda reflectem, ainda vêem... Pudesse eu ir arrancar-tos, trazê-los nas mãos com cautela, como dois pássaros mortos, e dar-lhes ainda a beber, pobrezinhos!—sol, mar, areias ruivas, aguas correntes...
Pudesse eu beijar-te os olhos mortos!
Chamava-se Sol o nosso barco. Eu levava-o à vara, lentamente. Tiravas o chapéu, estendias-te à pôpa e nem falavas. De quando em quando, ia colar à tua a minha bôca: beijava-te as pálpebras de manso.
Parava sob um chorão, à sombra dos seus cabelos verdes. Cingia-te. Poisava a cabeça nos teus seios, que eram lindos, tersos como de virgem. Todo o teu corpo desfalecia, se humilhava no teu vestido de sêda crua como o duma criança adormecida... E era então que eu sentia, que eu palpava, que eu vivia a vida divina do silêncio.{144}
Era mais vago o marulhar da ramaria e fazia mais silêncio, como faz mais silêncio, à noite, o acorde das ondas numa praia...
Sentia-se cair silêncio como se sente cair névoa.
As nossas bôcas colavam-se num beijo húmido, calado, duma volúpia tristíssima, confrangida. Era como uma despedida sem palavras, muito lenta, de dois suicidas...
Eu não te via os olhos, mas adivinhava-os: estavam maiores, mais nevoentos, como janelas deitando p'rò silencio que se cavava em torno, fazendo leito ao nosso pensamento pelo espaço...
E confusamente sentíamos que o tempo passava, passava sempre entre os nossos corpos enlaçados....
Por fim—era à bôca da noite—voltávamos.
Devagarinho, dizias tu, devagarinho...
Eu ia levando o Sol na agua mortuária, e à nossa passagem, partiam sempre, iam partindo, pássaros mal adormecidos nos salgueirais das margens, reflectiam-se no rio{145} em fugas de asas, e era tudo mais triste como se êsse vôo fôsse o adeus de tudo...
Quantas vezes te olhei com os olhos rasos! Disfarçava, não queria nunca que mos visses. E de repente, apertava-te os braços, sacudia-te p'ra me aturdir, p'ra espancar a emoção que me afogava numa maré de lágrimas reprêsas.
Queria gritar, queria chamar-te meu amor e... odiava-te. Queria beijar-te as mãos, vestir-te de meiguice, e dizer-te a ância, o sonho doido de viver contigo sem palavras—como as estátuas dos túmulos nas criptas...
Queria bater-te, cuspir-te, demolir-te, como faz um tufão a uma árvore sozinha, e a puxar-te os cabelos de creança, ir gritando, gritando sempre: prostituta... prostituta...
Hoje tenho remorsos. Mas tu compreendes, tu bem sabes: era quási loucura.
Não podia perdoar à tua graça ter-se deixado poluir, não podia perdoar ao teu génio a tua derrota, não podia perdoar-te, Suze, que fosses vítima.{146}
Ah! ter piedade, ter piedade... Mas isso é pouco, muito pouco: é um sentimento consolador só para eunucos. E eu queria amar-te ao sol, Suze, olhando as árvores irmãmente, todo o nosso desejo a escorrer luz...
A noite vinha. Seguíamos enlaçados, e eu cansava-me no esfôrço imenso de te não magoar... Tu bem sabias, tu bem sabias... Segundo a segundo, o meu martírio pesava o tempo como se uns ponteiros de relógio me ferissem os nervos... Tu bem sabias. Tanto sabias, que por fim me beijavas na testa, quási maternal, e a tua voz de fôlha seca rangia êste refrem de outono: «Isso passa. E um instante, é um detalhe.
Minha pobre Suze, como tu eras justa, como tu adivinhavas, bruxa de vinte ânos, p'ralêm da hora que passa, o nada que virá.
A tua desgraça era suprema, porque tu eras aquela que não se ilude nunca.
Ainda assim, penso comigo: quem sabe! quem sabe! Se ela me visse como eu sou,{147} se eu não fôsse com ela sempre actor, se eu não fôsse o ser falso, o clown scéptico mascarrando com riso o sentimento; se eu não me amordaçasse a cada instante, e tivesse podido ser eu mesmo... Se visses, Suze, a creatura que eu escondo; se soubesses que afinal eu sou bem simples e como eu amo a vida tôda de mãos postas...
Se em vez de analisar, eu me entregasse; se eu esquecesse os livros e os outros e te falasse tão naturalmente como o meu sangue fala nas artérias... Quem sabe!... Talvez, Suze, se eu fôsse o que não viste, o que te fala agora... Porque eu lembro-me, eu lembro-me. Duas horas houve que nós vivemos um no outro, fora do espaço, fora do tempo... Tu bem sabes, tu lembras-te.
Era madrugada. Estávamos deitados.
Todo o meu ser vivia de ti, morria em ti. O nosso desejo ardera, estava morto. Que fadiga a nossa, que fadiga!...
A rua despertava, ouviam-se pregões, o sol luzia nas frinchas: eu tinha a cabeça{148} contra o teu peito, perdidamente, como contra a esperança, como contra o futuro...
Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza imensa, a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e juro—que em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flôr com orvalho me ungiu assim de sonho, me fêz assim vibrar no impossível dum amor perfeito.
Levantámo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu ri, eu ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que auscultei contra o teu peito—o impossível de um sonho sempre erguido!...
Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti—na tua morte, Suze!—eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei um ar gelado, irónico, impossível, quando queria chorar perdidamente, quando queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um medo{149} horrivel de que os outros me vissem, porque p'ra êles é uma torpeza amar-te assim...
Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. P'ra todos os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos p'ra um crime assim: não tem remissão: é imoral e é grotesco.
É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize o seu olhar de chama, p'ra eu poder dizer como te amava, como te amo.
Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.
Tôda a vida morreu p'ra mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar que eu amei tanto, não me importa.
A vida agora é êste horror: uma sala de morgue, mesas ovais de mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre êles, Suze, o teu cadáver.
Como irás tu p'rà cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho, mercenárias.
Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver{150} transe, empedra de martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam pentear; deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro, de uma sêda mais pura, mais de infância...
Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...) sapatos de verniz, ponteagudos... fivelas de oiro... meias de sêda nos teus artelhos finos de cegonha.
Cruzaram-te de certo as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e amarelas, outonais, dizem ainda: «é um detalhe apenas, um detalhe...»
E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...
Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to àpressa, sem cuidado. Se te tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava assim mais socegado.
É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quási dia, minha Suze.{151}
Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A minha febre aquece-tas: verás...
Não te descerro as pálpebras. P'ra quê? Está ainda escuro.
Tens saudades do sol, minha pobrinha?... A última vez, quando almoçámos na praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias morrer... Todo o teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguêm.
Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa, simplesmente. Disseste como sempre: é um detalhe...
Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto que a tua graça vá dourar uma saudade.
Ninguêm irá ao teu enterro, e ainda bem!
Por tua causa, ninguêm se irritará jantando à pressa; ninguêm irá, de sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.
Não terás latim grunhido por um clérigo,{152} nem essa coisa triste e tão grotesca—um círio laico em ar solemne, com fungagá e arenga humanitária.
Vais p'rà cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos homens, vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és discreta, minha Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.
Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas nuvens, nos maquereaux, nas pupilas das jóias, nos crepúsculos...
Ensinaste-me o desprêso sem palavras, a dor sem confidência, feita orgulho. Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.
Quem mas dera guardar p'ra sempre, em mármore; suspendê-las como um ex-voto à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando eternamente sôbre a vida, o perdão dos que a entendem:—o desprêzo.
... Oiço horas. Uma, duas... oito. Oito horas! Se eu pudesse dormir!
E agora mesmo, ao enfiar-me na cama{153} extenuado, eu oiço a voz da Suze, voz de sêda que range, a segredar-me:
—Mon pauvre ami! Quoi?! Qu'est-ce qui t'attriste? Ma mort?... Mais, tu sais, ça c'est un detail.
Sim, um detalhe... como tudo, terminando no mármore frio de uma morgue, ou a uma esquina de rua banalmente. Como tudo.{154}
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