«... As prestimosas agremiações, como esta, com que as Sociedades modernas procuram deleitar e amenizar os espiritos, após as laboriosissimas horas da lucta e contrariedades da vida, nascem, crescem e desenvolvem-se, como essas enormes, vas- (o sr. capitão Marques da Costa:—Vaz? É o amigo Lopo? Então appoiado!) tas e florescentes ilhas do Atlantico e Pacifico, formadas pela organisação rudimentar das algas marinhas e de myriadas de seres microscopicos, da familia dos polypos, classe dos coelenterados, grande grupo dos radiados, ou zoophitos. (Os srs. Roldão, Polycarpo Monteiro, Zagallo e outros cavalheiros versados em sciencias naturaes:—muito bem!)
«Da Natureza, meus senhores, deliciam-nos as suaves fragancias das flores: a modestia da violeta; a pureza immaculada do lirio; o murmurar dos bosques, os seios tumidos (o sr. José Lopes, da Principal:—appoiado!) da donzella, os alvores da madrugada e o canto das avesinhas. (Os srs. Alberto Marques, Gaspar Durães, Justino Guerra e outros poetas e prosadores da estafada eschola romantica:—muito bem!)
«Pois na vida social, as horas fugitivas, que aqui deslizam em encantador e aprazivel convivio, com os Cavalheiros de fino trato (o sr. Verissimo de Morães:—appoiado!) e com as amaveis, airosas e donairosas e gentilissimas damas d’esta formidolosa Praça (os srs. Justino Guerra, Eugenio Martins e Soares Romeu, interessantes collaboradores do interessantissimo «Mensageiro das salas»:—appoiado!) ou com as encantadoras hijas da hidalga y noble Espãna (o sr. D. Ramon:—Ká! Muy bien! Maunifico! Precioso. Ká! Seño Gobernador: Viva la gracia! Ká!) bellas, como uma virgem de Murillo e castas, como a esposa de Jacob, de que me não recorda agora o nome (diversas pessoas serias:—appoiado!) quando as cingimos em suave enleio, no vertiginoso redemoinhar da valsa (o sr. Salazar Muscoso: muitobemmuitobemmuitobem!)[13] ou quando as brindamos com preciosas iguarias e delicados vinhos (os srs. C. Oliveira, Verissimo de Morães, um Cavalheiro de Tuy e outro de Monsão, que não tive a honra de conhecer:—appoiado!) essas horas, repito, representam em a nossa vida social aquellas alegrias da Natureza!
«Não ter alma para sentir isto, meus senhores, como muito bem disse o nosso grande ex-historiador[14] Alexandre Herculano, é proprio d’um ser doentio; é, como vulgarmente se diz, proprio de gente pequena. (Protestos ruidosos dos srs. dr. Ladislau, Alvaro Garção e P. Magalhães.—O sr. dr. Pestana:—peço a palavra para explicações.)
Trabalhar, pois, para esta Sociedade é uma acção de elevado patriotismo; (o sr. José Lopes, da Principal:—muito bem!) é uma acção de larga influencia regeneradora (protestos dos srs. Alvares d’Oliveira, P. Cunha e Agostinho) para os nossos costumes; é um symptoma da benefica evolução progressista; (protestos dos srs. Appollinario, Camisão e do dito sr. Agostinho) é, emfim, como ainda ha pouco me disse, e disse muito bem, o sr. Capellão (o sr. Leopoldo Gomes:—qual d’elles? Então Vossa Excellencia também gasta? Por isso eu estive á espera!...) que aqui me ouve, uma missão altamente honrosa e humanitaria!
«Por isso, meus senhores, unamos os nossos esforços e como os polypos e as algas.................... as algas.....................»
Que Vossa Excellencia me perdõe o que vou dizer, mas... perdi o fio ao discurso e o melhor é ficar por aqui, porque, n’estas questões de Historia, não quero metter de minha casa.
Verba volant, scripta manent...[15]
Eu atrapalho-me sempre, quando falo de Vossa Excellencia, que representa para mim o que ha de mais alto, mais nobre e augusto, nas elevadas jerarchias e coisas serias da minha terra.
Quando encontro Sua Excellencia nas ruas da vizinha cidade de Tuy, pisando com arrogancia e altivez, genuinamente portuguezas, o solo d’aquelles odiosos Filippes, seguido automaticamente, á distancia regulamentar, por alentado e escolhido artilheiro, como estabelece o regulamento de Sua Excellencia, o Senhor Conde de Lippe, eu tremo de respeito e envergonho-me de mim mesmo—pobre e mesquinho verme da terra.
Quando assisto á entrada de Sua Excellencia, solemne, magestoso, omnipotente, rutilante de oiro e pedrarias, constellado de crachás, faiscante de venéras,—no templo de Santa Maria, em festividade da Semana Santa, para mandar prevenir as auctoridades civis e ecclesiasticas, que superintendem no cerimonial, que está alli, para, como unico e fiel representante de Sua Magestade El-rei, n’estes burgos,[16] depôr o osculo de respeito nos chagados pés do Senhor dos Passos, exactamente como, á mesma hora, faz o mesmo Augusto Senhor Rei, no templo da Graça—quando o vejo aproximar vagarosamente da veneranda imagem, n’aquelle passo grave, solemne e arrastado de solas, com que os prophetas de barba de guita e cara borrada com pós de sapato, acompanham em Tuy o sagrado esquife, e o ouço depôr o respeitoso osculo, confundindo assim, em edificante e enternecedora homenagem, a magestade dos céos com a magestade da terra—quando sigo, depois, Sua Excellencia na retirada do templo, rodeado do seu luzido e brilhante Estado-Maior, essa pleiade de homens illustres, que representam o que ha de mais intelligente, nobre e indispensavel nas instituições militares do meu paiz, homens encanecidos em mil batalhas contra columnas cerradas de algarismos, cifras e cifrões de indomitas contas de feijão e batata, do rancho geral, ou dos cadernos da arrecadação dos puxa-frictores, morteiros, colubrinas, missagras, lanternetas, chapuzes, cepos, boldriés, sacres, caçoletas, falconetes, lanadas, cucharras, soquetes, munhões, sotroços, trinque-bales, tira e mette-buchas e outros tarecos velhos, que nas dependencias da Praça são do exclusivo dominio e usofructo dos ratos e aranhões, formando, no seu conjuncto, collecção superior, em inutilidade, á feira da Ladra—quando eu vejo tudo isso, meu Senhor, sinto-me mais pequeno do que um feijão fradinho; mais sumido, do que um certo parasita que Vossa Excellencia, d’essas alturas em que vive, não enxerga, mas com o qual, eu, infelizmente, estou relacionado, desde que commetti a imprudencia de (com licença de Vossa Excellencia) verter aguas, detraz das portas do Meio, onde tambem o faz a soldadesca!
Vossa Excellencia deslumbra-me; offusca-me; tem para mim as proporções d’um semi-Deus; mas quer Vossa Excellencia saber, respeitabilissimo Senhor?
Ha, por ahi, gente tão nescia, tão ignorante, tão alheia ao mechanismo d’esta complicada engrenagem das instituições sociaes, que chega a perguntar (perdõe-lhe Vossa Excellencia) para que serve o Governo da Praça, alliando, ainda, á ignorancia, a grosseria de lastimar que, do que a gente paga nas decimas, do que se rouba ao trabalho honrado e aspero do lavrador e do padeiro, se desviem 500 e tantos mil reis mensaes, obra de sete contos por anno, para ter ahi (que malcreados!) n’um rasoavel sybaritismo, cinco ou seis servidores da patria, equiparados escandalosamente (dizem elles) em honras e proventos, ao official, que nos corpos atura, diariamente, o brutal trabalho do quartel, com enorme responsabilidade, com necessidade de instrucção e arriscado a, d’um momento para outro, receber ordem para expôr a caixa craneana á bala do trabuco assassino, que anda a monte, ou ao zagalote do bacamarte desordeiro e avinhado, nas grandes borgas eleitoraes.
Eu, até, já ouvi dizer, Excellentissimo Senhor, que se isso era por causa das procissões, das missas pela alma do Senhor D. Pedro IV, ou da recepção das musicas gallegas, o Governo podia muito bem contractar, para tal effeito, os gigantones de Tuy, ou os barbacenas da Guarda romana, porque eram de mais apparato, era outra limpeza e ficava muito mais barato.
Mas quer Vossa Excellencia saber ainda mais? Ha, até, n’esta terra de cafres, quem reponte com a posição original que Vossa Excellencia dá á sua boquilha, quando, nas ruas, se delicia com os aromas d’um bom charuto! Como se Vossa Excellencia, pelo simples facto de não ter Tosão, d’Oiro, que dá honras de principe e direitos a poder fazer a gente o que quizer, não tenha a plenissima faculdade de trazer uma coisa (a boquilha), como muito bem lhe appetecer, horisontal, ou ao dependuro, e como se esta ultima posição não fosse, realmente, a mais decente e apropriada á edade de Vossa Excellencia!
Ora diga-me Vossa Excellencia, agora que desceu commigo a estes profundos abysmos da ignorancia popular, se é, ou não, necessario applicar, de vez em quando, a estes barbaros, umas espadeiradas á Macedo, ou quatro mimos com o historico chicote do Bruto, digo, do Barão do Rio Zezere...
Excellentissimo Senhor!
Eu folgo de ter encontrado pretexto, para manifestar o meu respeito e veneração a Vossa Excellencia, mas, como esta já vae longa, abrevio o muito que lhe tinha a dizer e contar.
Não se incommode Vossa Excellencia com as más linguas. Nosso Senhor Jesus Christo perdoou aos que não sabiam o que faziam. As realezas da terra, meu Senhor, são representantes legitimos da realeza dos céos. Affonso Henriques, quando em Ourique dava tapona na moirama, a folhas tantas, olhou para o céo e de lá fizeram-lhe um signal com a cruz, que queria dizer: vences. Constantino, quando se viu atrapalhado com os barbaros, olhou tambem para lá e o Padre Eterno fez-lhe o que a gente faz, quando está sentado na praia com o namoro, deante do futuro sogro e da rabujenta futura sogra e, não podendo dizer á rapariga: amo-te, oh filha! escreve sorrateiramente essas palavras na areia, com a ponta da bengala. Pois o Padre Eterno foi-se ás areias do céo e, com a vergastinha com que tosa a canalhada miuda dos anjos e seraphins, escreveu tambem disfarçadamente:
In hoc signo vincis.
Ainda ha mais exemplos, mas eu sou muito fraco em mnemonica.
Ora, sendo as realezas da terra representantes da realeza dos céos, e sendo Vossa Excellencia representante da nossa realeza, como muito e muito bem disse e declarou, ao annunciar o seu osculo nos chagados pés do Senhor dos Passos, ergo, por irrefutavel syllogismo, Vossa Excellencia é tambem representante n’esta terra, de Nosso Senhor Jesus Christo! Isto não falha.
Por conseguinte, Vossa Excellencia póde e deve perdoar, aos que não sabem o que dizem.
Eu não lhe aconselho isto com interesse directo, meu Senhor. Vossa Excellencia nada tem que me perdoar.
Eu adoro tanto as instituições da minha Patria, reputo tão necessarias e consentaneas, com as aspirações da epocha hodierna, as disposições dos regulamentos do sr. Conde de Lippe (que o diabo levou ha perto de 200 annos e podia, mesmo, ter levado logo ao nascer) das quaes, a mais branda e attenciosa é mandar varar por uma bala[17] o desgraçado, que tenha o atrevimento de—utilizando-se da unica applicação d’essas muralhas e torturado com as ancias e arrancos de urgentissima necessidade corporea, sem poder esperar um unico segundo,—baixar as calças, (permitta-me Vossa Excellencia a liberdade que vae expressa, ainda assim, em portuguez de lei, do que usava o Padre Antonio Vieira) que, se tivesse alguma importancia politica, se fosse homem de prestigio e d’estes que valem uma eleição, como os srs. Joaquim, Cardoso e seu amigo P. Cunha, Alvares d’Oliveira, Santa Clara e Agostinho que, unidos todos no mesmo partido, belliscados para a victoria do mesmo candidato, são capazes de levar á urna, não digo 6, mas, talvez, para cima de 3 votos, se fosse homem d’essas craveiras, repito, era capaz de ir a Lisboa, apresentar-me ao sr. Zé Luciano, ao Senhor Rei, se tanto fosse necessario, e reclamar energicamente, como indispensavel ao brilho das nossas instituições, ao prestigio do nosso exercito, á manutenção da nossa dignidade nacional, mais um segundo Governador, com um segundo... (não me lembro do nome... ah!) Estado Maior.
Sómente estabeleceria uma condição:—baseada no muito apreço, em que tenho os grandes homens da minha Patria; convencido da necessidade de haver aqui, na fronteira, nas barbas do hespanhol, quem dignamente possa representar o paiz—e seria: que, para fazer pár com Vossa Excellencia, não me dariam outro bis-Governador, que não fosse o grande, o saudoso, o inimitavel
Zé da Rosa!!
E se tal conseguisse, ai que alegria a minha, quando encontrasse Vossa Excellencia na rua de S. João, com a gravidade propria a um representante de Sua Magestade El-Rei, de braço dado ao sr. Zé da Rosa, outro representante de Sua Magestade (a Rainha, não meu Senhor?), seguidos por Sua Excellencia o Senhor Vice, com o seu chapéo de pennas de capão, e com a espada politica de Brenno, ao lado do outro Senhor Vice (quem devia ser? O sr. Roldão, por exemplo. É da arma de cavallaria...) e depois, atraz, o Senhor Baptista da Senhora do Faro com os outros Estados-Maiores; e depois ainda, atraz, muita gente, a sociedade do Provarei, o Fileiras, o João de Ganfey, o Senhor Martinho, que deitava la coca, o Capellão (o n.º 2), todos os paradas-velhas, etc., etc.
Com que arrebatamento então, meu Senhor, eu perderia as estribeiras e, mandando para o diabo a minha seriedade de Juiz de Paz, de irmão da Misericordia, de pae de filhos, como eu saltaria para a frente de Vocellencias e perdido, enthusiasmado, louco, distribuindo pançadinhas e piparotes e atando nas Excellentissimas trazeiras este raboleva de ridiculo,—que é a suprema essencia de toda essa grotesca mascarada, com que gargalhada homerica, ensurdecedora, colossal, lhes não bradaria:
—Oh que rica tropa fandanga!
—Quebra esquina, minhá gente!
Com o respeito devido a um Representante de Sua Magestade El-Rei, sauda Vocellencia o
Zinão.
IV
Uma descoberta do Dr. Charcot
Accedendo a frequentes reclamações diplomaticas do governo de Sua Magestade, o Imperador do Brazil, resolvera o Governo de Sua Magestade El-Rei de Portugal, que o primeiro fôsse auctorizado a expulsar dois cidadãos portuguezes que, segundo officialmente se asseverava, incalculavel prejuizo estavam causando ao regular movimento dos negocios commerciaes e, portanto, ao desenvolvimento material d’aquelle florescente imperio.
Não se fundamentava a necessidade da expulsão na cumplicidade em crimes politicos; attentados contra o Imperador, ou imperial familia; propaganda de ideas reaccionarias; troça ás preciosas producções poeticas de Sua Magestade; capoeirada nos chimpanzés da policia urbana, ou assuada ao Senhor Conde d’Eu.
Allegava-se, unicamente, que esses individuos, penetrando nas repartições do Estado, nos estabelecimentos commerciaes, nos grandes edificios de industria, nas escholas, nas egrejas, nos clubs, nos passeios publicos, nas chacaras e nos xadrezes, em qualquer parte—emfim—interrompiam as manifestações da actividade d’aquelle labôrioso povo e creanças, mulheres e homens abandonavam, immediatamente, o exercicio de qualquer mestér, fugindo espavoridos e como fustigados, por mal extranho e desconhecido.
A origem d’aquella nociva influencia, a natureza dos phenomenos que ella produzia, a complexidade dos seus effeitos, escaparam, sempre, á perspicacia dos doutos Galenos das terras do sabiá, porque as mesmas propriedades repulsivas obstavam ao demorado exame, que o caso requeria.
Annunciava, n’essa epocha, o eminente Pasteur os seus primeiros trabalhos sobre Microbiologia, que tão poderosa influencia vieram exercer na orientação das sciencias medicas; e não faltou, no estudo investigador dos clinicos d’alem-mar, a applicação das novissimas theorias, com pacientes trabalhos de microscopio, observações por analyse e por synthese e outros processos que a Chimica medica aconselha e, até, com demoradas experiencias nas fezes em acção sobre os orgãos das cinco funcções especiaes da sensibilidade, incluindo a pituitaria e a membrana, onde se ramifica o nervo de Wrisberg.
Lembrou-se alguem de classificar aquelles phenomenos, como suggestões motrizes do moderno Hypnotismo; mas Charcot, Richer e Bernheim, consultados sobre o caso, oppozeram-se á diagnose, visto que elles se manifestavam sempre com a mesma intensidade, isto é, que todos os individuos soffriam egual influencia repulsiva e não se evidenciavam as differenças na sensibilidade á hypnose, que nos sujets estabelece, como caracteristico, a diversidade de circumstancias physiologicas e pathologicas.
Nada se podia descobrir.
Havia no organismo dos dois individuos uma propriedade repulsiva, identica á das tremelgas, ordem dos selacios, grupo dos peixes cartilaginosos; mas desconheciam-se os elementos constitutivos d’essas propriedades e elles continuavam a exercer, em toda a parte, e a toda a hora, a sua funestissima influencia.
Uma unica circumstancia se pôde descobrir, graças á perspicacia do mais reputado Esculapio da Tijuca, a quem se deve a preciosa descoberta da cataplasma de linhaça e foi: que diminuia, consideravelmente, a intensidade d’aquelles phenomenos, quando se isolavam os dois individuos, ou quando permaneciam incommunicaveis.
Utilizando-se d’esta descoberta, o Governo do Imperador, attendendo aos laços de sangue e affecto, que unem os dois paizes, resolveu exportar a praga em epocha e vapor differentes. Assim se fez, com effeito.
O governo portuguez, assustado com o flagello, que subitamente cahia no solo da Patria, reuniu immediatamente a Junta de Saude e, por indicação d’esta, foram os dois compatriotas enviados a Pariz—onde, n’outras espheras e com outros horisontes se dilata a intelligencia humana—para lá serem submettidos á analyse dos grandes Mestres da Sciencia.
Após demorada observação e attento exame, o eminente Charcot, encontrou, emfim, a resolução do problema, que largamente foi demonstrada no Boletim da Academia de Medicina de Pariz, (mez de novembro de 1876) e, com prodigioso interesse, escutada por selecto auditorio, na mesma Academia, em sessão extraordinaria de 27 de dezembro, do mesmo anno.
Não tendo aqui, presente, a lucida exposição do eminente sabio, limito-me a reproduzir, e certamente d’uma maneira deficiente e incompleta—attendendo á escassez dos meus conhecimentos scientificos—a theoria, em que Charcot baseou a explicação do estranho phenomeno.
V. Ex.ª sabe, como a moderna Sciencia explica, na Acustica, a producção e a propagação do som.
«O som é o resultado d’um movimento vibratorio, communicado á materia ponderavel»—eis a base da theoria, hoje adoptada e conhecida por «theoria das ondulações».
Conhece, tambem, o mechanismo da voz humana. A voz provem da acção do ar nas cordas vocaes. O ar, que sahe dos pulmões, produz, n’essas cordas, vibrações, mais ou menos rapidas, que transmittindo-se ás paredes da larynge se tornam sonoras, e que, depois, a acção combinada da lingua, das maxillas e dos labios, altera modifica e articula.
Conhecido é, tambem, o mechanismo da audição. As vibrações executadas pelas cordas e transmittidas, em ondas, ao ar exterior, chegam-nos ao pavilhão do ouvido e vêm, pelo tubo auditivo, actuar na membrana do tympano. Seguem, depois, até ao ouvido medio, no ar n’elle contido, e, pela cadeia do estribo, do martello, da bigorna e do osso lenticular, reproduzem-se, ainda, nas membranas das janellas redonda e oval, communicam-se ao liquido, que existe no ouvido interno e d’alli, pelos filetes do nervo acustico, ao cerebro.[18]
A potencia das vibrações, o deslocamento, mais ou menos violento, das ondas sonoras depende, portanto, alem d’outras circumstancias, da força com que os pulmões fornecem o ar, e da maior ou menor vibratilidade das cordas vocaes. Por isso, vêmos individuos com voz forte e penetrante, como o sr. Barros, e outros, com voz debil e sumida, como o sr. Nunes de Azevedo, que difficilmente se percebe.
Ora succedia que, por uma disposição especial dos pulmões, da larynge e das cordas vocaes, aquella força expulsiva do ar e a vibratilidade das cordas, existiam nos dois individuos em grau extraordinario e ainda desconhecido para os mais eminentes physiologistas. D’essa disposição especial resultava, tambem, que a voz, já potente e forte, obtinha, ainda, consideravel augmento de intensidade com a reflexão nas paredes da larynge, attingindo o que em Acustica se denomina resonancia.
Quando as vozes não encontravam obstaculo, pouco se conhecia esse augmento de intensidade, porque, então, se perdiam na atmosphera; mas, se as ondas deslocadas por cada uma se encontravam, era tal a violencia do choque e das vibrações, d’elle provenientes, que só a poderemos comparar, nos grandes phenomenos da Natureza, á rapidez e violencia das ondas do Oceano quando, açoitadas por furioso vendaval, avançam, chocam-se, equilibram-se com medonha expansão de força, recuam para formar novo salto, até que uma perde a força resistente, e a outra vence, esmigalhando, com espantoso ruido, tudo o que se oppõe á sua passagem.
Este effeito destruidor soffriam todas as peças dos apparelhos auditivos, que o circulo da primeira projecção podia abranger.
As membranas do tympano dilatavam-se n’uma dolorosa expansibilidade; o martello batia desesperadamente na bigorna com o mesmo furor, com que Mestre Borralho batia a sola, quando não era director dos Presidios civis; o estribo andava aos saltos, como anda em corcel fogoso, quando, no meio da batalha, entre o rugir da artilheria e o sibilar das balas, perde o cavalleiro e parte, desvairado e furioso.
Na trompa de Eustachio desencadeava-se um verdadeiro cyclone.
Nem as trombetas de Josaphat, n’esse terrivel dia do Juizo final, poderão egualar o infernal ruido, que supportavam os apparelhos auditivos.
Depois, para aggravar o flagello, dotára Deus os dois individos com uma extraordinaria loquacidade, e constante verborrhea que, de dia e de noite, lhes agitavam nervosamente os labios para questionarem, discutirem, argumentarem sobre tudo e sobre todos, em portuguez, em francez, em latim, em allemão, em quantas linguas vieram de Babel.
Era sempre de funestos resultados, de dolorosas consequencias a sua presença, e por isso, homens, mulheres e creanças fugiam, prestes, ao sentil-os, interrompendo todas as manifestações da sua actividade e todo o exercicio dos seus mestéres.
Desculpavel fôra, pois, o proceder do Governo brazileiro, expulsando os nossos compatriotas.
Ora aqui tem V. Ex.ª, sem exaggero, sem alterações da verdade (que, por ahi, n’este assumpto, tanto tem sido alterada) subordinada a rigorosa demonstração scientifica—a razão, porque regressaram a esta terra, e se respeitam, e se evitam, a ponto de viverem separados pelas grossas muralhas da Praça, os nossos amigos:
Leopoldo Gomes
e
Abilio Lucas.
Evitam-se e respeitam-se—disse eu, e demonstro.
Um vive dentro, outro fóra. Um foi a Paris em 75; outro em 79. Quando um é da Camara, o outro é da Commissão do Recenseamento. Abilio é socio da Assemblea e frequenta-a; Leopoldo despede-se. Entra novamente Leopoldo; Abilio deixa de frequentar aquella casa. Leopoldo conta a historia dos relogios; Abilio sorri maliciosamente e insinua a duvida; explica Abilio o remedio, que descobrira o ilheu, para salvar a senhora mãe; Leopoldo mastiga em secco e pisca o ôlho para os circumstantes. Um faz-se agricultor e trata de terras no Arraial, em Picões, na Esplanada; o outro faz-se politico e «provarei». Entra o segundo na Politica activa; desvia-se o primeiro, e trata de terras em Gondomil—polo opposto. Um, gosta do Capellão e fala-lhe a miudo, como homem temente a Deus; outro, não se dá com esse ministro do Senhor e rosna-se, até, que tem as suas questões com elle. Um, move-se, agita-se, apparece de manhã na villa, ao meio dia em Monsão, á tarde em Gandra e sempre a pé; outro, limita o exercicio dos seus membros locomotores á loja do sr. José Lopes, ou do sr. José Seixas.
É evidente, palpavel, esta incompatibilidade, esta heterogeneidade de individualidades, que se origina na intima convicção, que elles teem da sua influencia destruidora e no accordo, ou modus-vivendi, que, para mutua conveniencia, secretamente estipularam, ao fixarem a residencia na terra, em que nasceram.
Quando, ha annos, estive em Paris, no regresso da minha viagem de estudo pelo Oriente—á Mongolia, ao Turkestan, a Niphon, a King-Ki-Tao e outros centros da Asia—onde fui recolher materiaes e elementos comparativos de civilização, com os da minha terra, para a composição d’este livro, encontrei-me, na Academia de Medicina de Paris, com o sr. Zagallo, que alli estudava, commissionado pela Excellentissima Camara d’esta villa, a organisação do serviço de Hygiene publica, indicado, por aquella faculdade, á municipalidade parisiense;—missão, essa, que Sua Excellencia, tão brilhantemente desempenhou, e que tão beneficos resultados produziu para esta povoação, como se prova com esse elegante, commodo e original water-closet do jardim publico.
Tive, n’essa occasião, a honra de ser recebido pelo eminente dr. Charcot.
Falando no meu paiz, alludiu o illustre clinico aos dois portuguezes, que em 74 examinára, por recommendação do Governo; e foi grande a sua admiração, quando lhe affirmei, que com elles vivia em Valença, e que, ha dez annos, permaneciam na mesma localidade, se bem que, nas condições especiaes de isolamento, que já referi.
Mas, a minha asserção tocou para Charcot as raias do inverosimil, quando, á supposição, que me apresentou, da existencia inevitavel de graves doenças e perturbações no apparelho auditivo dos meus conterraneos, sujeitos á convivencia e aos perigosos effeitos da presença e communicabilidade d’aquelles amigos, eu lhe affiancei que não eram essas enfermidades, as que mais avultavam nas estatisticas da secção de Hygiene municipal.
Charcot fazia bem em duvidar. Eu faltei á verdade, e a isso me levou a amizade, que a esses Cavalheiros me liga, e a repugnancia, que tive, em tornar odiosa, para o eminente sabio, a existencia de dois patricios, que tanto prezo, acato e... respeito.
Mas V. Ex.ª sabe o que por cá vae...
V
Perfis
Abilio
Examinando-os, apreciando-os isoladamente, reconheço os valiosos serviços que os meus amigos—Abilio e Leopoldo—teem prestado ao desenvolvimento material e intellectual da nossa terra; e não se esquiva a minha consciencia a declarar, que são uteis e, mesmo, indispensaveis, entre nós, as suas individualidades.
Abilio entrou, por um generosissimo impulso de gratidão, na Politica activa de Valença.
Accusam-n’o de violento, de precipitado, de faccioso, ou, como diz o povo, de... petroleiro. Eu classifico todo o seu proceder politico, como o de um innocente noviço, ou ingenuo collegial.
É um homem, meus senhores, que trabalhando ha seis annos em eleições, n’esta terra, independente em Politica, como se sabe, tem sustentado a creancice de seguir um só partido e respeitar uma só opinião—a dos regeneradores!!!
Ora isto, em Valença, se não indica falta de senso, revela excesso de ingenuidade e para esta ultima hypothese me inclino, porque não admitto que, para umas manifestações da mentalidade humana, haja falta de senso e isso se não dê com as outras.
Abilio é, pois, um ingenuo politico e—o que mais é—um ingenuo faccioso. Referindo-se á administração progressista, tem a eloquencia de Danton, a arrebatadora oratoria de Robespierre, a impetuosa dialectica de Cassagnac.
É violento, incisivo, caustico.
N’aquellas medonhas explosões de colera, fere, trucida, chacina, esposteja nas hordas contrarias, como S. Thiago na moirama.
Chega a rubro a temperatura da sua palavra.
«É preciso, meus senhores, mostrar ao povo os seus direitos, para que elle saiba expulsar, a chicote, das cadeiras do poder e de tudo aquillo, esses bandidos, sem eira nem beira, que estão delapidando os dinheiros publicos e tudo aquillo, que representa o trabalho honrado do povo, o suor do seu rosto, tudo aquillo, que ganha para o sustento dos seus e de tudo aquillo, que lhe pertence.
As nossas finanças vão, de cada vez, a peor, tudo aquillo, que representa a riqueza da nação vae parar, vae sumir-se n’esse insondavel abysmo de ladroeiras, de arranjos, de afilhados, de metades, de tudo aquillo.»
..............................
N’este periodo de excitação, Abilio deixa-se apoderar, tanto, da sua convicção partidaria, perde, de tal fórma, a cabeça, que se esquece de tudo e de todos, concentrando todo o seu ser, toda a sua vitalidade na idea e na palavra, com que, mais rapidamente, possa inutilizar o adversario.
É assim que, ás vezes, o vemos sahir de casa, arrebatado, irado contra algum arranjo, que lhe foram annunciar, e entrar, precipitadamente, na sala das sessões da nossa Excellentissima Camara, com uma bota branca, outra preta; assoar-se a uma luva, suppondo-a um lenço; metter o cigarro na bocca pelo lado acceso; tirar rapé d’uma caixa de phosphoros—perfeitamente allucinado, colerico, perdido!
Originam-lhe inimigos estes arrebatamentos; mas se o Papa, como unico correspondente, cá na terra, do Padre Eterno, me enviasse o livro das informações particulares, que hão-de influir no tremendo dia de Juizo e d’onde dependerá, ou a nossa absolvição, ou a condemnação ás caldeiras de Pero Botelho, em que fazem caras tão feias aquelles bispos mitrados, que por ahi vemos nas alminhas dos caminhos ruraes, na folha corrida do Abilio, eu não hesitaria—desassombradamente o declaro, sem pretenções a adulador, sem interesse occulto presente ou futuro, sem desejar provar a Paraty, ou tencionar pedir dinheiro emprestado—em exprimir o conceito e a consideração, que este homem me merece, sobretudo quando a lente da minha observação se desvia um pouco do campo, que lhe tracei para a critica e m’o apresenta no outro, que respeito em todos: a familia,—n’estas cinco palavras:
É um homem de bem.
E ao escrever isto, com plena consciencia e convicção, vem-me á lembrança, não sei como, nem porque, a constante recommendação, que o meu tutor me fazia, quando, ao partir para os estudos, me introduzia na mão, com uma generosidade vanderbiltica, coisa de dois patacos em cobre, com estas reflexões de moral preventiva:
—Ahi tens dinheiro... Tem juizo; foge dos cafés, das ruas de movimento e... das más companhias.
... das más companhias...
Para fugir d’ellas, e dos seus perigos, é que se fundou a sociedade dos Provareis...
Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!
Que tentações...
Leopoldo
Leopoldo é um homem de costumes austeros. Podia muito bem morar na rua de S. João, ao lado do sr. Joaquim.
Tem predilecção pelos estudos archeologicos e o seu nome é citado, com respeito, na Sociedade Martins Sarmento.
É homem versado em anthropologia. Possue as obras de Cuvier e de Quatrefages.
Conhece diversas linguas, mortas e vivas, e enthusiasma-se, quando as vê manejar com pericia, como lhe succedeu em Paris, com aquelles sêres pertencentes á classe dos mammiferos, ordem dos carnivoros, familia dos canis familiaris.[19]
Tem ideas avançadas em materia religiosa. Sustentou, ha tempos, uma questão de philosophia racional, relativa a crenças, tendo por oppositor o sr. Tenente Silva e com tal arte se houve, que fez calar este cavalheiro!!!
É copiosamente lido em sciencias naturaes e, concedendo-se-lhe vinte e quatro horas de praso, apparece armado de ponto em branco, com quantas theorias antigas e modernas se debatem entre sabios.
Como polemista, tem um grande merecimento: não deixa falar o adversario, o que é de incontestavel vantagem para quem... padece do peito.
Acceita as theorias de Lamarck e de Darwin; crê na existencia do homem terciario e, se Carlos Ribeiro o não classifica, talvez ainda viessemos a ter o Anthropopithecus Leopoldi.
É homem illustrado. Foi á China, ao Japão, ao Perú, a toda a parte. Fez encavacar Pio IX, deu uma pitada a Grevy, um piparote a Crispi, bateu na pança de Gladstone, offereceu rebuçados a Bismarck.
Não vae feito com as realezas. O verdadeiro fóco, para que elle faz convergir a sua actividade intellectual, é a Sociologia, na parte repressiva da immoralidade e na que estuda a protecção aos menores.
S. Vicente de Paulo merece-lhe entranhado culto.
Tem sido, por vezes, camarista e no desempenho das importantissimas funcções d’esse elevado cargo, evidenciou, sempre, a mais extraordinaria actividade.
Todos se recordam, ainda, d’essa memoravel sessão, em que elle apresentou, defendeu e discutiu dezenove propostas! O caso foi falado nas gazetas, mas, como as edições, na nossa terra, se exgottam rapidamente, eu vou reproduzir essas propostas e repetir as considerações, com que foram acompanhadas:
Plena sessão camararia. Galerias concorridas. Tachygraphos a postos.
Leopoldo, de casaca e gravata branca, sobe, solemne e grave, ao estrado; faz uma delicada venia ao sr. Zagallo; deixa passar um minuto de longo silencio e severa concentração dos espiritos; ergue a fronte, agita os labios e exclama:
Senhor Presidente!
Respeitaveis collegas e senhores.
Illustrado auditorio!
Eminentes publicistas e philosophos, consultando os trabalhos recentemente publicados nas nações mais civilizadas, teem evidentemente demonstrado a enorme differença e aterradora diminuição que, de anno para anno, se nota nas estatisticas da reproducção humana.
Os excessos perniciosos da Civilização, com o cortejo de gosos corporeos e sensuaes de toda a especie, enfraquecem a raça, definham o individuo, tornando-o inapto para aquella funcção, aliás importantissima para a estabilidade das nações e para o desenvolvimento da riqueza publica.
Com effeito, senhores; que seriam os preciosos filões d’oiro da California, os jazigos, não menos preciosos, da hulha; que seriam esses uberrimos territorios da America, se não fosse o homem, para com o seu braço e a sua intelligencia arrancar da Terra tanta riqueza e tanta maravilha?
O que seria da Agricultura? O que seria do Commercio e da Industria?
Senhores!—Abrem-se, presentemente, á actividade do homem, novos campos, novos e dilatados horisontes n’essas, até hoje, mysteriosas e legendarias regiões africanas. O Brazil, a Europa do futuro, extende a sua acção civilizadora por essas enormes provincias, até hoje, despovoadas e desertas.
Braços, muitos braços: homens, muitos homens—eis o desideratum para este importantissimo problema do futuro.
Verdadeiramente benemerito, pois, se torna da Patria, da Civilização e da Humanidade todo aquelle que, directa ou indirectamente, contribuir para valer áquella necessidade, aggravada, ainda, com o enorme desfalque, que as estatisticas accusam.
Como homens do seculo XIX, que possuem a completa intuição dos seus deveres sociaes, temos, até hoje, prestado bom serviço a tão sagrada causa[20] e aos vossos sentimentos humanitarios e illustração recorro agora, pedindo attenção para as propostas que, sobre tão momentoso assumpto, vou ter a honra de apresentar[21].
1.ª
Proponho a fundação d’um hospicio para expostos, que ponha côbro aos frequentes actos de barbaridade, que por ahi diariamente se commettem, com a exposição de creanças nos portaes e nas muralhas.
2.ª
Fica a Camara auctorisada a contractar provisoriamente, na vizinha villa de Coura, seis robustas camponezas, para exercerem as funcções de amas.
3.ª
Como actual fiscal do pelouro dos expostos, sou auctorisado a fiscalizar, os trabalhos das ditas amas e a verificar se, fiel e rigorosamente, são aptas, para todo o serviço.
4.ª
É expressamente prohibida, para manutenção da Moral no interior do mesmo Hospicio, a entrada a qualquer pessoa do sexo masculino, com excepção do vereador do pelouro—que sou eu—e isso, para o exercicio das funcções mencionadas no precedente artigo.
5.ª
Fica expressamente determinado, na acta d’esta sessão, que nunca poderão exercer as attribuições de fiscal do Hospicio, os ex.ᵐᵒˢ srs. Abilio, Vieira e José Seixas, attendendo, simplesmente, a que para tal cargo se exige uma actividade inconcussa, zelo inexcedivel, o que esses Cavalheiros não poderão offerecer, porque não são livres, como eu, que estou solteiro.
6.ª
Como consequencia do artigo 4.º, não pode haver Capellão no Hospicio, que pode ser substituido por irmãs de Caridade, para os exercicios da religião. Para a sua competencia n’esse mestér, consultará a Camara o muito digno Capellão do Hospital, o sr. Padre Melim, varão de excelsas virtudes e preclaro entendimento.
7.ª
Será limitado o numero de expostos, que o Hospicio possa recolher; mas ao Vereador do pelouro—que sou eu—é concedida a faculdade de admittir as que faça, encontrar pelos guardas nocturnos, em perigoso estado de saude.
8.ª
Como consequencia ainda do artigo 4.º, não poderá haver medico no Hospicio e, para tratamento das creanças e das doenças, ou quaesquer, accidentes, a que podem estar sujeitas as amas, no exercicio, das suas funcções activas, será contractada a Senhora Dona Maria do Hospital.
9.ª
É auctorisado o Fiscal do Hospicio—que sou eu—a, para rigorosa e permanente fiscalisação, poder passar as noites, quando o entender necessario, com as creanças e, com as amas.
10.ª
Se no fim de seis, oito ou, nove mezes, qualquer das amas apresentar symptomas de doença grave, dilatações, de tecidos, etc., cessará o contracto provisorio e o Fiscal—que sou eu—arranjará, logo, outra que a substitua.
11.ª
Em urgente caso de perigo, só o Sr. Dr. Pacheco pode ter entrada no Hospicio, attendendo a que é impotente, a maledicencia, quando d’elle se refere; e a que bem publica e notoria é a sua honestidade, como por ahi firmemente o attestam os seus dois creados, e todas as pessoas com quem intimamente vive, que são unanimes em apontar S. Ex.ª, como um real modelo de virtude.
12.ª
É auctorisado o Fiscal—que sou eu—a contractar, para o serviço interno, tres raparigas das suas relações e de que já conheça, praticamente, as aptidões e trabalhos.
13.ª
Fica revogada toda a legislação em contrario.
14.ª
PELOURO DE HYGIENE PUBLICA—SECÇÃO DO COMMERCIO E INDUSTRIA
É permittida a matricula a diversas pessoas de determinado sexo, para a industria do methodico uso e regular acção de determinadas funcções da vida vegetativa.
15.ª
É expressamente prohibida a entrada na villa, a individuos extranhos e de sexo differente, que venham prejudicar, com illegal concorrencia e depreciação de valores, a industria da terra. Esta prohibição será extensiva até, ao proprio Julio Cesar, (apesar da protecção da gente graduada.) se elle resuscitar.
16.ª
É nomeada uma commissão, composta do fiscal do Hospicio—que sou eu—do sr. J. Narciso e do sr. Joaquim, para organisar uma tabella de preços d’aquelles trabalhos, nas diversas variedades, que tal Industria hoje possue.
17.ª
Fica expressamente determinado, que não poderão fazer parte d’esta Commissão os ex.ᵐᵒˢ srs. dr. João Moraes, Alpoim, J. Soares e Albino, porque por vezes, publicamente, teem manifestado uma tendencia para elevar, demasiadamente, os valores dos productos de tal Industria, o que é nocivo para a povoação.
18.ª
É nomeado, para Inspector sanitario d’esta secção, o sr. Augusto Sampaio.
19.ª e ultima
A presidencia d’esta nova instituição municipal será offerecida, como manifestação de consideração e respeito, ao Senhor Marquez de Vallada.[22]
Escusado será dizer que todas as propostas foram approvadas e por unanimidade.
Albininho...
Pertencia-te agora a vez... Davas para vinte folhas; mas salvas-te d’esta.
Ha poucos mezes, ainda, corriam as lagrimas n’essas barbas brancas...
Cahiu-me uma nas costas da mão e, em casa, fiz-lhe a analyse chimica.
Deu-me: agua, albumina, chloreto de sodio; encontrei moleculas d’um outro elemento, que é a base da affinidade social:—o affecto da familia. Percebi, tambem, vestigios d’uma grande dôr.
Respeito-a...
Mas, quando os atomos d’essa lagrima se desaggregarem, por evaporação, e continuarem na Natureza o giro constante e permanente da Materia, então, se me appareces... entras na berlinda.
Não te entristeças, que este livro é para rir e, quem o escreve, é um dos teus amigos.
Vira a folha e...
vamos a outros.
VI
Coisas de Egreja
Beatas—Procissões e Romarias
Terminára a faina do dia.
O fogo que elevára a temperatura nos grandes caldeirões do Olympo, onde se manipulava a Humanidade, consumia, apenas, carvões isolados que, pouco a pouco, se transformavam em cinzas.
Os cyclopes, destacados por Vulcano para essa secção da grandiosa fabrica da Natureza, que o proprio Jupiter dirigia, raspavam, apressadamente, nos grandes extendedores, a massa, que ficara collada, e deitavam-n’a, como inutil, nos baldes do lixo e da immundicie.
Jupiter encastellava o dinheiro das ferias; fechava a escrevaninha; trocava a japona da fabrica pelo manto de arminho, e dispunha-se a sahir, tocando de passagem a sineta, para se fechar o estabelecimento.
Mas n’isto, principiou a elevar-se do caldeirão que estava proximo, cheiro activo e nauseabundo, (como o do esturro em guisado francez) que, espalhando-se na atmosphera, seriamente incommodou a regia pituitaria.
Aproximou-se Jupiter e olhou.
No fundo do pote, já com a côr do carbonisado, estrugia o resto da massa que ficára, da que n’esse dia se tinha dosado para a preparação dos hypocritas. Pouco valor aquillo tinha, porque era da mistella mais vulgar e mais facil de preparar; mas Jupiter não perdia ensejo de incutir nos seus operarios os deveres d’uma administração rigorosa e economica.
Ordenou, pois, a dois cyclopes que trouxessem do barril do lixo algumas aparas, recommendando que preferissem as mal-cheirosas e de côr escura, que pertenciam á massa dos invejosos e dos usurarios.
Avivaram o fogo; deitaram os novos elementos no caldeirão; remexeram com o cabo d’uma vassoira, porque a ferramenta já estava guardada e limpa; e, depois de cinco minutos de ebullição, Jupiter provou a mixordia. Estava sobre o insipido.
Deitou-lhe umas pitaditas de sal e de pimenta, com que preparava os maldizentes.
Provou de novo. Estava picante de mais.
Temperou, então, com o betume dos ociosos; e deixou ferver tudo, durante outros cinco minutos.
Os cyclopes retiraram o caldeirão. Trouxeram os moldes; vazaram n’elles a massa, que se conservava no estado pastoso e esperaram.
Pouco tempo depois, Jupiter aproximou-se; arrotou, e dos moldes sahiram duas coisas, duas formas humanas, com movimento, côr e vida.
Eram duas mulheres.
Ora Jupiter não se podia demorar, porque combinára, para aquella hora, uma entrevista com Europa, e os cyclopes principiavam a murmurar, porque dera a hora e tinham as familias á espera.
Assim, mandou Jupiter abrir o postigo do Olympo, empurrou até lá as mulheres e atirou com ellas, cá para baixo, com um valente pontapé.
Por esse ether fóra, assustaram-se as creaturas; agarraram-se uma á outra afflictivamente; principiaram a rezar a Magnificat, a Ladainha, e assim foram cahir sobre o telhado d’uma egreja, aterrando o escorropicha-galhetas, que se deliciava, occultamente, com os restos do precioso sangue de Christo.
Aqui tem V. Ex.ª como chegaram as beatas ao globo terraqueo, e ahi fica a formula da sua composição molecular: aparas de hypocritas, de usurarios, de invejosos, de maldizentes e de ociosos.
Representando esses elementos pelos respectivos symbolos, poderemos estabelecer:
H⁵ + M⁴ + I³ + O² + U = Beatas