Aquellas moleculas da Hypocrisia e da Ociosidade deram-lhes facil e rapida admissão na sociedade.
Casaram; reproduziram-se; e, em pouco tempo, estava a raça extraordinariamente desenvolvida e disseminada por toda a parte, desde a cidade populosa e civilizada, até á aldeia humilde e rude.
Cá as temos e cá as aturamos... Submettendo-as agora, para as descrever, a rigorosa analyse, encontrei-lhes todas as propriedades dos primitivos elementos.
Vão á missa das sete—uma missinha que faz muito arranjo, porque dá tempo de arranjar a casa e de se mandar, á praça, cedo.
Rezam; inspeccionam tudo o que se faz e tudo o que entra na egreja; communicam e transmittem as novidades do soalheiro; e, entre o cochichar do Padre Nosso, segue uma enfiada de casos novos e de commentarios:
Padre Nosso, que estaes no céo (e o vestido novo que hontem levou a X ao jardim! É da Torrona. Ficou a dever. O Blanco é que as canta...) santificado seja o Vosso Nome (acabou o namoro da filha do Y, porque a Mãe bateu-lhe. Diz que o rapaz gosta muito de mulherinhas) venha a nós o vosso reino e seja feita (sahiu a creada da casa do W. Oh menina! Sempre ella conta coisas... Diz que tem a casa como um ôvo! Comem todos os dias prato de meio!) a vossa vontade, assim na terra, como no ceu (Lá entrou o Velloso... que raio de homem! Tem mais de vinte namoros. É como o Prado! Elle é elegante, isso é! Já lhe reparaste nas pernas?) o Pão nosso de cada dia nos dae, Senhor, perdoae-nos (oh... Faltava aquelle... o Leopoldo. Tambem já podia casar... Para o que anda por ahi a fazer...) as nossas dividas, assim na terra, como (agora é o dos pombos correios... Tambem é fresco, com aquella cara de santo...)
Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus...
Como V. Ex.ª póde suppôr, a fervorosa oração foi cortada pelo badalo do sachrista, que tocou a Santos. Se elle não interrompe, o que teriamos nós de ouvir...
Este beaterio é muito casto e excessivamente pudibundo.
Na egreja de S. Estevão ha uma Virgem do Leite, que, se não é, realmente, uma preciosidade artistica, é, com certeza, a melhor tela que existe em Valença, não falando—já se vê—n’aquellas caras de malagueta e colorau, todas com a mesma fórma e feitio, que o sr. Julião exporta, mensalmente, para as salas nobres dos hospitaes minhotos, a soberano por caveira, com dez por cento de abatimento, por duzia.
Pois o beaterio escandalizou-se com a nudez dos peitos da imagem, isto é, repugnou-lhe que se visse o que na mulher representa a sua missão mais nobre, mais elevada e mais santa—a maternidade. E a instancias d’esses respeitaveis camafeus, muito castos e muito pudibundos, mas que nunca faltam á Rosinha Ferreira, quando ella representa; e mandam logo de manhã comprar bilhete, e dão pançadinhas com riso, e coram (não de pudôr) e se apimentam, e se agitam, nervosas, na cadeira, quando Lili conta as suas coisas—a instancias e reclamações d’essa gente, repito, uma auctoridade ecclesiastica, que eu agora respeito, porque já não está entre vivos, mandou, por um caiador de Arão, borrar os peitos da imagem!!!
Isto, minhas senhoras e senhores, em pleno seculo XIX, n’uma terra que tem dois jornaes, correspondentes varios de ditos, representantes de Sua Magestade El-Rei, Vigarios geraes e não geraes, Conegos Presidentes, e não Presidentes, Capellães, etc., etc.! E entre toda essa gente, que sabe ler e escrever, segundo se diz, não houve um unico homem que corresse a pontapés o cafre de Arão, reproduzindo-lhe com a biqueira da bota, ahi pelas alturas do coccyx, os borrões com que profanou a imagem!
O beaterio communga quinzenalmente e confessa-se duas vezes por semana, a padres velhos, surdos e rançosos.
Padres novos são o diabo!
Até os Patriarchas fazem das suas... Ainda não ha muito tempo, que os apparelhos de Morse, de Bandot, de Hugues e os telephones da Hespanha e França, não designavam outras palavras, alem de: as botas?
José Luciano perguntava a Vega d’Armijo: as botas? Vega d’Armijo perguntava a Carnot: as botas? Carnot reperguntava ao Luciano: as botas?
Em Pariz, Madrid e Lisboa não se falava n’outra coisa.
Averiguado o caso, fôra o Patriarcha das Gandricas que, em Salamanca, se enamorára perdidamente dos ojos negros d’uma andaluza. Gargalinho, seu companheiro, arrastava a aza á sopeira.
A andaluza dava, com certo recato, nocturnas entrevistas. Uma vez, quando o Patriarcha se inebriava com os effluvios do amor... platonico, surgiu o protector da niña, de cuchilla toledana em punho.
O Patriarcha saltou, em meias, pela janella. Gargalinho sumiu-se debaixo da cama; quando de lá o tiraram, tanto puxaram pelo pescoço, que ficou como o do P. Alexandre.
Do Alcalde reclamou o Patriarcha as botas; o Alcalde officiou ao Consul; o Consul officiou ao Ministro. Não appareceram as botas e o Patriarcha andou na Exposição, subiu á Eiffel, visitou o Carnot, com o seu inseparavel capote de forro vermelho e golla de pelle, chapéo braguez, chinelo de liga, calça dobrada em baixo, deixando ver os atilhos das ceroilas, symetricamente apartados e dispostos em cuidadosa laçada. Nos boulevards, quando elles passavam, diziam as mundanas:
C’est um Hottentot et son petit:... mais quel cou, mon Dieu![23]
O Soares, no principio ainda agradou, porque dizia a sua missinha de Santo Antonio a muito boa hora e era pontual; mas, depois, principiou a desleixar-se e a vir para a egreja, tarde e a más horas.
Foi o Albino, que andava sempre com elle, quem o fez peco. Principiou a dizer-lhe que estava n’uma boa posição official, que se devia apresentar sempre muito limpo e lavado, porque o conego velho nem ceroilas usava, apresentando-se n’um desarranjo completo, com a barba por fazer, amarello, completamente deitado abaixo, a ponto de a gente recear, ás vezes, que fosse de bruços; e que era bom, aos sabbados, preparar-se e lavar-se de vespera; levantar-se depois cedo, lavar-se novamente muito lavado, tomar a sua chavenasinha de café com a sua colhér de prata; e nunca chamar a attenção das más linguas, que estão sempre a postos, porque a missa sempre dava os seus sete e vinte, que já chegavam para uma posição graduada; mais isto, mais aquillo, com outros periúdos,—de fórma que o rapaz gastava duas horas a lavar-se, a vestir-se, e a gente que esperasse, só com um café bebido!
O resultado foi perder a missa de S. Antonio, porque já não tinha freguezia.
O Magalhães será muito boa pessoa, mas... não se dá com o sr. Joaquim.
Ora o sr. Joaquim é um homem muito temente a Deus. No inverno, quando ha mais frio e fome, anda por ahi, de porta em porta, com a subscripção... da Semana Santa, para que a pobreza possa curtir... na egreja, as suas maguas e dôres.
Alem d’isso, não se poupa a despezas, quando é Juiz da Senhora da Saude, da Urgeira, e vê probabilidades de (tudo pela santa religião) fazer uma pirraça ao diabo... do João Cabral!
Um homem assim, é um philanthropo e deve andar de bem com Deus. Quem com elle não se dá, não se dá com Deus; ergo: Padre Magalhães não serve.
Depois, prega uns sermões que ninguem entende. Parece que não fala portuguez!
Nem, sequer, faz chorar a gente na Semana Santa!
Resumindo: não serve.
Eu falei na Semana Santa...
É o carnaval do beaterio. N’aquelles ultimos sete dias as beatas dão ar ás mantilhas, e largas á bisbilhotice, á curiosidade e... ao flato.
Quinta e sexta feira santas são em Valença, para a egreja de S. Estevão, o mesmo que domingo gordo e terça feira de entrudo são para a Assemblea.
Ha musica, serviço variado de pastilhas de chocolate, rebuçados e amendoas; confidencias, intrigas, sorrisos, trocas de cartas perfumadas, ciumes, arrufos, apertos de mão e—sobretudo—esta cavaqueira intima, expansiva, franca e alegre d’uma verdadeira reunião de familias.
A gente está alli, perfeitamente bem, e á sua vontade.
Com as temperaturas da egreja e das salas da Assemblea eleva-se, consideravelmente, o mercurio no thermometro dos affectos, em que o zero é—o arrufo, e os 100°—o casamento.
O Christo, já se vê, como dono da casa, lá está no alto da Cruz, recebendo sempre, com reconhecimento cordial, tão fervorosas e animadas manifestações de amor e respeito...
As beatas arranjam, com a Semana Santa, que contar para um mez.
Quando os escorropicha-galhetas abrem, de manhã, as portas do templo, já ellas entram apressadas e remelosas, escolhendo o melhor logar «onde o bruto do povo e os pobres não incommodem, onde se esteja á vontade e se veja tudo». Levam as suas pastilhas de chocolate para a debilidade, a caixa do rapé, o banquinho de tapete, agasalho para os pés e lenço para as lagrimas, que são da praxe, quando o Padre mostra o Santo Sudario.
Installadas assim, com todas as commodidades (tudo pelo amor de Christo, que tanto soffreu na Cruz) no seu ponto de devoção e de observação, gozam á tripa-forra não perdendo um olhar, um sorriso, um vestido novo, uma tournure mais arrebitada...
Á noite vão para casa, consideravelmente alliviadas da consciencia, mas pouco satisfeitas com o Magalhães, que falou em problemas sociaes, em pauperismo, em Philosophia da Historia, em altruismo, em protoplasma e outras coisas, que nem o sr. Joaquim entendeu, apesar de, por vezes, (certamente por delícadeza) abaixar a cabeça, como quem diz: comprehendo, approvo e... estou satisfeito.
O Palmeirão, quando conta imbecilmente pela decima vigesima vez, a tragedia do Calvario—tragedia sublime e benefica para as agruras da nossa existencia, se todos a soubessemos comprehender, mas que por ahi anda como o libretto estafado, nas epochas lyricas da egreja, para especulação, para immoralidades e para descrenças—esse percebe-se e agrada muito mais!
O beaterio tem uns Santos da sua particular estima.
Os Santos, a final, são como a gente, com quem se lida. Ha physionomias que logo inspiram sympathia e ha outras que, sem a gente saber como, nem porque, provocam embirração.
Isto é razoavel e intuitivo. Diga-me, por exemplo, V. Ex.ª quem ha-de gostar do S. Christovão, com aquella grande cara arrenegada, parecendo dizer ás gentes que, se lhe chegam a mostarda ao nariz, corre tudo com a vara, pela egreja fóra, como o Pau-real na feira de S. Bento da Porta-aberta!
Assim, quando rareiam as festas e as bolsas andam exhaustas, com as frequentes subscripções da Assemblea, não havendo possibilidade de se organizar a Semana Santa, então, promove o beaterio umas novenas á Senhora de tal.
«São umas festasinhas muito razoaveis, porque a musica é mais alegre, são de dia e sempre ha probabilidades de, terminadas as ladainhas e as encommendações, se dar, ainda, um passeio até ao Jardim. Emfim, n’uma terra, que tem poucas distracções e onde a Rosinha se não póde sustentar, tudo se aproveita.»
O caso da Santa alarmou vivamente os animos d’estas esgrouviadas bisbilhoteiras.
«Parece impossivel que se não abrisse a Terra, que não viesse um raio, um diabo, que castigasse aquelle pedreiro-livre, aquelle atheu do administrador!»
O malandro que trazia a imagem e a metteu na taberna da Esplanada, expondo-a ás chufas e obscenidades avinhadas dos comparsas, esperando que o contra-regra desse o signal de subir o panno, para essa asquerosa comedia, da nossa asquerosissima Politica,—o malandro que, com um sebento balandrau, de imagem e prato na mão, por ahi chatina semanalmente, a meias, com as crenças do povo, e não hesita em transpôr os humbraes do bordel, pedindo para a bemdita e milagrosa Senhora de tal, interessando assim, a religião de Christo no producto que a barregan obtem da venda, em publico, do corpo e da honra—esse icha-corvos torpe e vil, d’uma ganancia mais vil e mais torpe, do que os trinta dinheiros de Judas, que por ahi esfarrapa as poucas crenças, que ainda existem no povo—esse:
«coitadinho! Mettia dó vêl-o. Estava amarello, aterrado. Foi preciso leval-o, quasi em braços, e dar-lhe café quente, porque lhe podia dar alguma coisa»!
Ah, baratas de sacristia! Como eu desejava possuir o açoite, com que Christo expulsou os phariseus e de que côr eu vos poria as nadegas...
As procissões...
Eu não conheço coisa mais estupida, barbara e deshumana.
Felizmente, sou, n’esta opinião, apoiado pelo espirito do seculo que, pouco a pouco, vae terminando com ellas.
Qual é o fim das procissões?
Qual a sua necessidade?
São para avivar as crenças?
Que ha, por esse mundo de Christo, mais ridiculo e caricato do que Santas Cocas, bois bentos, S. Jorges de carne ou de madeira, isto é, com tarracha, ou sem ella, prophetas com barbas de crina, pendões em varas de pinheiro por descascar, gaiteiros aos pinotes, matulões de cara aparvalhada e cabello empastado com gomma de pevides de marmelo?
Que ha, por ahi, de mais barbaro e deshumano, senhoras de Valença, do que essa perigosissima exposição a que, por vaidade, condemnaes os membros ainda tenros das creanças, carregadas com adereços de pechisbeque e diamantes de vintem, peito e braços nus, tiritando e caminhando custosamente, com os pesitos entalados nos escarpes do uniforme, e atiradas, por essas ruas, á voracidade das bronchites e pneumonias que o frio origina, ou das febres e meningites que o calor provoca?
Dizei-me: a Christo, se é a Christo que desejaes honrar, não seria mais agradavel que essas duas libras, com que entraes em ajuste d’uma pneumonia para vossos filhos, lhes fossem entregues para, com ellas, na bemdita missão da Caridade, penetrarem n’uma d’essas barracas da Parada-velha e as deporem nas mãos tremulas e descarnadas do pobre velho que tem fome e frio aos 80 annos, illuminando-lhe assim com a luz do céo, com a luz de Deus, aquelle tenebroso occaso de soffrimento e dôr?
E quando a creança voltasse a casa, risonha e feliz, como Deus a sabe dispôr, ao fazer d’ella a mensageira do Bem, não seriam para vós mais agradaveis as lagrimas da gratidão do pobre entrevado que, como perolas, deslizassem ainda nas mãos pequeninas, do que esse immundo cartucho de papel mata-morrão com doces de farinha de milho e assucar mascavado—suprema delicia dos matulões da Urgeira—com que o boçal e estupido Juiz da festa lhe paga o papel de comparsa?
Senhoras de Valença, que tendes filhos! Pensae n’isto...
A procissão, que os Paes de familia mais respeitam, é a de Corpus-Christi.
Quando se approxima, é inevitavel a contribuição de chapéos novos para as senhoras. É uma coisa feia, na verdade, o apparecer-se n’esse dia, consagrado a Deus, com chapéos de inverno...
Pois se o Blanco os tem tanto em conta... Já se não fala em vestidos, porque emfim, dá-se uma volta ao do anno passado e ainda póde escapar; mas o chapéo é da praxe.
As janellas guarnecem-se, n’esse dia, de caras bonitas. Nas ruas, vae e vem, chibante e taful, a juventude da terra; os aspirantes aduaneiros, com Velloso á frente, pimpam o oiro dos seus uniformes; barrigudos camaristas passam, atados á banda bicolor; ha muita gente do povo; colchas espaventosas, flammulas, etc., etc., e, no fim de tudo, a tropa e as descargas.
N’este anno, então, essa ultima parte esteve magestosa. Digo a verdade: manobras assim, tão complicadas e com tanta tactica, só as tenho visto em França, no campo de Chalons, e em Portugal... no largo de S. João. Consta-me, até, que para o anno cá temos officiaes dos exercitos europeus, em commissão de estudo.
Pelo menos, assim m’o asseveram Moltke, Carnot, o Czar de todas as Russias, o Schah da Persia e o Bey de Tunis. Se o affirmam por lisonja, sabendo que sou de Valença, isso é com elles.
Vae pelo preço...
Agora as romarias.
Diversos pensadores e philosophos consideram as romarias, como indispensaveis e necessarias, attendendo a que o povo que, durante seis dias, labuta e trabalha, necessita de descanço e distracção ao setimo, para que possa retemperar as forças.
Concordo com isso, mas não colhe o argumento na defeza d’ellas, como elemento vivificador de crenças.
Quem é que vae á Urgeira, a Ganfey, ao Faro, a Segadães, que não seja por mero divertimento, por distracção, pela novidade de um caso ruidoso e differente na pacata vida da provincia?
Quem annuncia em casa á familia a visita á Senhora da Cabeça, ou a S. Campio, que isso não signifique um dia de borga e de folgança?
Vejamos as coisas como são, limpando o prisma da observação e da critica, das teias de aranha, com que a rotina, o uso e a tradição lhe mancham a transparencia.
O que é a «Senhora da Cabeça»?
Um concurso legal de caceteiros.
Perguntem ao meu amigo Joaquim Queiroz, se elle de lá veiu com mais crenças, apesar dos esforços que os salta-pocinhas de Lara e de Lapella fizeram, para lh’as introduzir na massa cerebral.
Perguntem a esse amigo, imprudentemente envolvido por generosa dedicação e por nobre arrebatamento, na batalha de Montes Claros, se essas mulheres, que uivavam como hyenas e clamavam em furia horrenda, contra tres homens, não eram as mesmas que se espojavam pelo adro da capella, e se arrastavam de joelhos nas cinco voltas da promessa, com que, sentindo estoirar o bandulho nos arrancos de brutal indigestão, recorreram á fama milagreira da Santa...
Perguntem-lhe se esses matulões, que á porta do Chico Mello o cercavam, embrutecidos pelo vinho, apertando o circulo dos varapaus ferrados, com gritos de chacal e esgares sensuaes de anthropophagos, não eram os mesmos que, horas antes, carregavam, como bestas, com o andor da Santa e abalavam o solo com o poisar da pata na marcha truanesca, pelos atalhos do logarejo.
O que é S. Campio?
A prostituição ao ar livre, sob o manto estrellado da noite, como diria qualquer poeta; e a charlatanice, fazendo suar o Santo e... os milheiraes.
A pequena distancia d’esta villa ha um burgo chamado—Urgeira. É feudo do sr. Joaquim. Descendem em linha recta, os seus habitantes, d’aquelles antigos cultivadores de cebolas do Egypto.
Formam um elemento importante na Politica do nosso Hospital e prestam assaz reconhecido serviço, nas procissões da Semana Santa. Chegam em mesnadas, marcham bem, formam, com os seus balandraus, duas alas, já muito razoaveis e, além d’isso, são faceis de contentar: quaesquer tres patacos de borôa e zurrapa lhes enchem as panças, depois da procissão, na sacristia da Misericordia, provocando-lhes sonoro arrôto.
No verão, rara é a noite de sabbado, em que estes pacovios não queimam algumas duzias de libras, com foguetes de lagrimas e bombas de dynamite.
Ora, no burgo ha pobreza e ha miseria; ha velhos, que gemem na cama com o frio do inverno e ha creanças esfarrapadas, que chafurdam no lamaçal dos becos; ha aleijados, que se arrastam até á villa mendigando o chabo.
Com esses 500, ou 600 mil réis, que annualmente se gastam em festas, podia a Junta de Parochia fundar um Hospicio para os velhos, e estabelecer uma sopa economica para os famintos.
Mas a pandega? O grande brodio da vespera da festa? A figura que se faz na procissão com a vara de Juiz?
Necessita o povo de distracções.
Verdade é, mas dêem-lh’as que o civilizem e não que o embruteçam. Festas, Romarias e Procissões são ainda vestigios d’aquelles primitivos tempos, em que era necessario inveterar pelo mysticismo, pelo apparato e sumptuosidade das manifestações, o espirito da crença.
Mas hoje, em que para o plebeu entrar no templo até á grade, onde a aristocracia aninha, se lhe exige roupa lavada e calçado decente; hoje, em que elle vae á romaria para jogar o pau, beber vinho e entregar fielmente á Batota a féria da semana—acabem com tudo isso e deixem ficar a Religião nos templos, e só nos templos, d’onde nunca devera ter sahido.
E, para divertir o povo, substituam, então, esses grotescos cortejos de Santos, entre espelhos de pataco e plumas de gallo, por verdadeiras procissões civicas, onde figurem os heroes da nossa Patria, que os temos tantos e tão dignos d’essa apotheose.
Em vez de pulpitos ao ar livre, levantem-se tablados, onde se reproduzam os factos mais gloriosos das gloriosissimas epopéas que, a um paiz de tão acanhadas dimensões, deram a celebridade das grandes nacionalidades.
Organizem-se-lhe jogos, luctas, em que se adestre no exercicio das armas e possa desenvolver os musculos e a energia, de que tanto necessita para a constante lucta da existencia.
Conte-se e mostre-se ao povo o que fomos, e assim, distrahindo-o, lhe incutiremos os germens d’esse sentimento, que é o principal impulsor dos grandes feitos e das grandes civilizações—o amor da patria.[24]
Basta de coisas de egreja. E agora,—beaterio da minha terra!—um Padre Nosso e uma Ave-Maria por este Zinão, que já está ás portas do inferno... mas esperando que entreis, para atrancar solidamente a porta e assim vos acabar com a raça!
Pater Noster...
VII
Litteraturas
(DUAS PALAVRAS)
Claro é que, tendo subordinado o programma d’este livro ao titulo de Estudos sobre a actual sociedade valenciana, me não posso esquivar a fazer incidir, por momentos, na minha lente de observação, os raios luminosos que os nossos homens de lettras, semanalmente, fazem convergir no fóco das lamparinas cá da terra.
N’esta epocha, em que legalmente está em uso, reconhecida e sanccionada, essa nojenta e nociva convenção litteraria do elogio-mutuo, que tanto talento atrophia, que tanta intelligencia embriaga com os aromas d’um incenso macanjo, parvoiçada é—reconheço—o meu proposito, que significa perigo eminente nas cannelas, irremediavelmente condemnadas á dentuça dos critiqueiros.
Limito a area da observação com as muralhas da Praça e d’ella exceptuo, ainda, algumas individualidades que, demasiado, me ferem a retina com o seu talento, e que a insignificante distancia focal da lente me não permitte abranger.
N’esta nossa terra, a penna serve, unicamente, para estadulho de deslombar politicos, ou nas protervias e diatribes, originadas em questiunculas ridiculas e comicas, como as da Prisão da Santa, ou nas pacholices rimadas, com que se visa á critica galhofeira.
A penna photographa a Idéa. A Idéa póde evolar-se, librar-se sobre todas as manifestações da actividade humana, consoante as aspirações que a orientam e as intelligencias que a esclarecem. Póde fixar-se na Arte, na Sociedade, no Homem, etc. Entre nós, embirrou com a Politica e não a larga.
Por isso, chafurda na insulsez parrana, na graçola afadistada, na metaphora besuntona.
Ao brazileiro barato, ao fidalgo sem pergaminhos e a outros escarros-piadas, que por ahi fluctuam á tona da enxurrada, corresponde esse constante martellar de bordões estafados, do gaiteiro, do João Bernardo, com que ainda hoje a fedelhada sahe á estacada, empunhando a babuzeira e acenando a quem passa com outro Ideal e com outras armas: não o insulto soez á familia, mas o sorriso caustico do epigramma á individualidade social.
A Imaginação e a Phantasia vasam-se, por ahi, nos moldes d’uma linguagem mascavada, em que pullula o neologismo pretencioso, d’onde resalta a phrase de sensação dos ultimos figurinos, que o francez atira, por cima dos Pyreneus, como uma bota cambada e velha, e que o rabiscador, prestes, enfia nos pesunhos para, coxeante e rufião, seguir em truanesca marcha, campos fóra da critica e da... tolice.
Esfuzia, frequentemente, o gallicismo inutil nas espalmadas linhas; é constante a referencia ôca á lombada das recentes publicações francezas; e, n’uma epocha em que o mercieiro fala na Sapho, de Daudet, ri com as frescuras de Catulle, estremece com as Blasphemias de Richepin, salta com as pinturas realistas de Zola, entretem a familia com os Goncourt e auxilia a chylificação com Maupassant ou Coppee, a arlequinada do rabisca, não só denuncia ignorancia completa da nossa litteratura e dos recursos da nossa lingua, mas, ainda,—com a impropriedade dos termos, apanhados a dente e atacados a soquete sublinhado nos periodos—uma deploravel vaidade e tristissima inconsciencia.
Não ha orientação litteraria, nem eschola definida, nem percepção nitida da idea, nem consciencia na phrase, nem centelha de imaginação que desperte a vibratilidade da nossa alma. Ha, d’um lado, a atrophia voluntaria e criminosa, a que se condemnam faculdades intellectuaes de superior quilate, e d’outro, a ambição ridicula e chatissima de se mostrar á familia—ao papá e á mana, ao titi e á prima, ao namoro e á sopeira—o nome em lettra redonda, claro, ou nas malhas transparentes d’um pseudonymo, que o sorrisinho immodesto descobre ao primeiro e desejado ensejo.
Poderá alguem suppôr com estas minhas reflexões, tão discordantes na fórma, das hosannas, que por ahi se entoam, impostas pela nojenta convenção do elogio mutuo, que nego merecimentos, ou repudio aptidões intellectuaes?
Tal não succede.
De quando em quando, aqui e acolá, mesmo n’esses a quem a vaidade e o pedantismo desnorteiam, descubro e reconheço os vestigios d’uma expontaneidade de phrase, evidente; d’um colorido de expressão, notavel; d’uma receptividade emocional, definida; d’uma accommodação visual para a analyse, apreciavel;—propriedades que, vigorizadas pelo trabalho, orientadas pelo estudo persistente nos bons modelos e impulsionadas para um Ideal, podiam educar-lhes o espirito e eleval-os, porventura, á consideração que ambicionam e que criminosamente lhes attribuem.
O que eu desconheço é:—o trabalho; o que eu censuro é:—a inercia; o que eu repudio e calco aos pés, é essa perfida e nojentissima convenção, que faz do cinco reis de gente um Adamastor, do balbuciante bebé um polemista, do Rosalino Candido, um Ramalho Ortigão, ou, como elles diriam, de Prudhomme, um Pierre Veron, ou Albert Wolff.
A penna exprime a Idea. A Idea parte do cerebro. O cerebro significa a Intelligencia, a Alma, isto é, o conjuncto da sensações e sentimentos, que na sua phenomenalidade, separam o Homem do bruto.
A faculdade de sentir e a expressão nitida e clara, pela penna e pela palavra, de todos os phenomenos da natureza psychica, são o que o homem tem de mais nobre.
Triste é, portanto que, na critica d’um facto, na discussão d’uma idea, no desforço d’uma aggressão, eu vá encontrar aptidões intellectuaes com elementos tão apreciaveis, na choldra da Politica, ou descendo, ainda, tanto e tanto, que se não pejam com a pasquinada a carvão nos logares, onde o carrejão usualmente se encosta, para... ensalitrar as paredes.
E no grupo dos que a inercia atrophia, dos que deviam libertar-se para outras espheras mais luminosas e mais puras, porque já possuem na Imaginação e na Phantasia a vigorosa organização do condor, vejo eu um homem—que sabe burilar preciosamente a idea, que filigrana artisticamente a palavra—debater-se, na triste condição de bonifrate, movimentado pelas guitas dos especuladores, transformando o cerebro, d’onde arranca chispas d’um verdadeiro talento, na bola ensebada e porca dos jogos malabares que os politiqueiros por ahi exhibem, visando á esportula dos magnates.
E como se não fosse profanação bastante, o manchar a penna nos bispotes, em que essa megéra—a Politica—diariamente evacua, ainda ha pouco manchou tambem os labios d’onde, palpitante, quente, phantasiosa e bella, lhe resalta a palavra, na dentuça cariada e porca d’um salta-pocinhas eleitoral agargalado!
Suprema humilhação do talento!
Pudesse eu agarrar-te pela golla do casaco e, applicando-te em certa parte do corpo duas palmadas, fazer actuar no teu espirito, incisiva e caustica, a affectuosa indignação, com que d’aqui te brado:
Livra-te d’esse chiqueiro, homem de Deus![25]
VIII
Quimtilinarias[26]
Diz algures Macaulay:
«É nas grandes crises politicas, nas grandes agitações populares, que se denunciam os grandes homens e se manifestam os grandes genios.»
Cá temos a confirmação d’esse periodo do eminente historiador inglez.
Ruge, infrene, a colera do povo por causa do mandado: e no meio d’essa espantosa effervescencia da nossa politica, ergue-se aos céos da posteridade, dardejando raios mortiferos de oratoria epistolar, um homem, até hoje ignorado na republica das lettras: Quim Fonseca!
Tenho lido muita epistola e muita carta; li as epistolas de S. Paulo aos corinthios; as de Horacio e Cicero; as de Racine e Pascal; as de M.ᵐᵉ de Sevigné e de Girardin; as do Rosalino e Jayme José; mas, coisa tão puxada de rhetorica, tão desembolada de logica, tão frecheira, de estylo—é que ainda não pude encontrar nas litteraturas passadas e presentes, desde a sanskrita, até á dos papuas, ou á das gentes do Molembo-Kuango!
Sempre desconfiei que, no cerebro d’este Fonseca, vascolejava algo de extraordinario e de superior. Quando, por ahi, aventavam deformidades psychicas, amesquinhantes do intellecto, affirmava eu sempre:
Fonseca tem lume no olho! O futuro o dirá.
Ahi estão as suas sessenta epistolas engranzadas nas gazetas da terra, confirmando, plenamente, os meus presentimentos.
Estudei durante muito tempo o Quim Fonseca, auscultando as minucias da sua existencia social e as subtis ramificações da sua politica.
Considero-o como um dos vultos mais importantes da minha terra, porque é o fulcro diamantino, onde se apoia a alavanca civilizadora (?) do Progresso. Impõe-se, portanto, á minha observação e ao meu respeito.
Consumi annos n’esse estudo, sem poder formular uma classificação exacta e rigorosa.
Mas, um dia, descobri que Fonseca usava... suspensorios!
Ora, os suspensorios teem para mim uma grande significação; considero-os como elemento precioso e infallivel na investigação do caracter individual—elemento mais precioso e mais infallivel, do que as protuberancias do craneo, na theoria de Gall; os traços physionomicos na de Lavater, ou o volume do cerebro na de Broca. Após minuciosas analyses e confrontações, cheguei á conclusão, de que os suspensorios pódem significar: reflexão, sobriedade, economia, previdencia, sensatez, paz do espirito, pureza de costumes, existencia de virtudes civicas.
Homem que usa suspensorios, sabe de cór quanto produz, livre do imposto de rendimento, o capital de doze moedas d’oiro a tres e meio por cento; sabe em que lua se cortam as madeiras; sabe em que epocha convém semear a couve penca, o rábano, a nabiça e as pevides de marmelo; sabe em que mez se capam os gatos; sabe salgar um porco, dispôr os presuntos no fumeiro, encher um chouriço; sabe coisas de emphyteuta, de fóros, de aguas de rega, de bacellos, de alpórcas e de bens de mão-morta; sabe aparar um callo e applicar um crystel; conhece remedios para o gôgo e para as bichas; conhece as propriedades do sebo de Hollanda; sabe—emfim—de tudo um boccadinho, porque é encyclopedico em Sciencias caseiras e perito em questões de vida pratica.
E V. Ex.ª, que conhece o Fonseca, diga-me, agora, se as aptidões do seu intellecto não estão ahi, nitidamente inventariadas.
Eu venero as commendas.
Quando, em Quinta-feira santa, na vizita ás casas do Senhor, encontro o sr. V. de Moraes, deslumbrando a gente com a sua casaca e com as scintillações da Gran-cruz gallega, onde o sol poente arranca chispas—tiro humildemente o meu chapéo e curvo-me submisso.
Venero a banda bicolor, diagonalando a obesa pança d’um senador; venero a vara d’um juiz de irmandade.
Reconheço tambem, a importancia social dos titulos honorificos.
Um Visconde foi, é, e será, sempre, um homem de massa mais afinada do que qualquer Zinão; um homem estremado entre a peonagem; um homem de sangue cruzadico, de alta sabença, de apurado senso. Ahi está o sr. V. da Torre, que, ainda de molleirinha e a fazer tem-tem, escrevia os Preconceitos, para... despreconceituar a heraldica dos viscondados.
Venero e respeito tudo isso, repito, porque, emfim, Deus que resolveu distinguir na sociedade umas certas pessoas, com titulos e com penduricalhos, lá se entende e lá tem as suas razões...
Mas cá no fôro intimo, nada provoca, mais fortemente, a minha consideração, como umas alças, uns suspensorios, d’aquelles de tres cores, como a bandeira franceza—com as suas fivelas doiradas, as suas prezilhas de coiro unidas, symetricamente, aos quatro botões alinhados pelo buraquinho do umbigo.
Este meu culto ás alças já me originou grave desgosto na familia.
Minha filha mais velha, D. Fagundes, namoriscava o filho do nosso procurador em Monsão. Ha cinco annos entra o mocinho na sala de visitas e, deante da rapariga, balbucia trémulo de commoção:
—Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!
O Senhor passou bem?
Eu vinha pedir a mão de sua filha D. Fagundes d’Atouguia. Tenho 25 annos; sou camarista na minha terra; as minhas propriedades rendem 40 carros e 60 pipas; tenho doze contos nominaes em inscripções; vinte obrigações das Aguas de Melgaço e de S. Pedro, cinco acções do piano da Assemblea e dez do Theatro Valenciano...
—Perdão, interrompi eu; e emquanto ás ultimas, pagou todas as prestações?
—Não, senhor; assignei, mas só paguei a primeira prestação de 10 p. c.
(O homem convem-me, disse com os meus botões, já vejo que é agostinhado.)
—Serve-me para genro; mas, um esclarecimento apenas, que é o mais importante: o meu amigo usa suspensorios?
—Ora essa! exclama o joven, acaso é isso importante no meu futuro marital? Pois a minha barriga é que tem de crescer...
—Basta, senhor! Visto que ridiculariza uma coisa tão seria,—nada feito! Queira bater a outra porta.
E Fagundes ficou solteira...
Ora ella está longe de ser uma belleza e, ás vezes, tem telha; mas para Monsão servia e, servia, até, muito bem.
Recebi hontem á noite um telegramma de Bismarck, pedindo informações urgentes ácerca das sessenta cartas. Como sou correspondente da Gazeta da Allemanha, tratei de averiguar o caso inspirador d’aquellas Catili—digo—Quimtilinarias.
Eis o que descobri:
Na ultima reunião dos quarenta-maiores, o Fonseca, subitamente atacado de violenta verborrhea, poz em pratos limpos a historia do mandado, segredada ao bichinho do ouvido por um amphibio.
Os senadores ficaram aterrados e os municipes bateram palmas, porque tinham farejado escandalo.
Fonseca exaltou-se, berrou, vociferou; e, por vezes, para o acalmar no furor do seu zelo pelos interesses do Municipio, teve um prestimoso amigo de lhe molhar a palavra, com agua da Fonte de S. Sebastião, que é a mais fresquinha[27].
A final serenou e retirou-se satisfeito.
Jantou e soube-lhe bem; mesmo muito bem. Com o enthusiasmo entrou de mais n’um arrozito de berberichos.
Retirou-se para o seu escriptorio.
Os berberichos principiaram, porém, a repontar com elle, provocando-lhe, em certo apparelho, uns beliscões diabolicos.
Lembrou-se de ir convidar o Leopoldo a dar um passeio nas muralhas; mas, por outro lado, a rigidez e a austeridade dos seus habitos aconselhavam-n’o a ir ter com o Capellão, certamente para se desobrigar dos peccados do dia.
Mas, n’isto, no lusco-fusco da sua somnolencia, viu apparecer e avançar o vertice d’um angulo de 25°, angulo que foi alargando, alargando, sustentando sempre, um dos seus lados, em parallelismo com os olhos do Fonseca.
Linhas irregulares, verticalmente dispostas, desenharam, depois, uma cabeça collada a esse grande appendice angular; novas linhas configuraram um corpo, como appendice d’aquelle primitivo appendice.
Appareceu um nariz com perninhas!
Em seguida, surgiu uma coisa redonda, muito arrebitada e rechonchuda, que foi, tambem, crescendo, crescendo...
Rebolava-se uma pança que, avançando, exclamou:—Oh Quim! Tu falaste bem; mas foi e Zé, quem te deu o papel!
Approxima-se o nariz, aos saltinhos, e diz tambem, roçando pelo respeitavel dito, do Fonseca:
—Sim! O Zé deu-te o papel! Foi o Zé! Foi o Zé! Foi o Zé!
—Ah, Morãeses do diabo! Bofé, que mentis! A mim, gentes de Verdoejo e de Taião!
E arremessando para longe as lubricas tentações, o chale-manta e o barretinho bordado com a sua borlinha toda repenicada, a dar-a-dar,—foi-se á escrevaninha e principiou a escrever uma carta; depois, outra; depois, outra;—total sessenta cartas!
No intellecto do Fonseca deu-se, então, aquelle phenomeno da scissiparidade por segmentação.
Cidadãos pacatos e sisudos, pouco versados na mechanica epistolar e affeitos á bolorenta erudição do:
«Muito estimarei que ao receber estas mal esboçadas regras, esteja gozando perfeita saude, em companhia de quem mais deseja, pois a minha, graças a Deus, ao fazer d’esta, é boa...»
sahiram-se com puxadas de estylo de rachar tudo, graças á communicabilidade galvanica do intellecto fonsecoide, saturado de rhetorica e prenhe de syllogismos irrefutaveis.