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Sinapismos

Chapter 16: IX Politiquices[29]
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About This Book

A collection of satirical sketches and humorous essays that lampoon local social life, exposing hypocrisy, vanity, religious cant, and inequality through ironic portraits, anecdote, and biting commentary. The author declares a program of social cure by ridicule, balancing respect for private family life with pointed attacks on public pretensions; pieces range from playful ridicule to harsher sarcasm motivated by attachment to the homeland. Interwoven are appeals to the poor and scenes of scandal, caricatures of officials, clergy, and bourgeois customs, all organized as short, conversational pieces intended to provoke laughter, reflection, and civic self-examination.

*

Mas vem cá—oh Fonseca—O que é, afinal, que pretendes dizer na tua, com essas sessenta epistolas?

Que diabo te disse o Noticioso, que tão violentamente arrepiou a tua espinha, como se te communicasse a irritabilidade nervosa do galvanismo?

Offendeste-te por elle affirmar, que na sessão dos quarenta-maiores, o teu esplendido discurso não foi improvisado e que houve, até, quem te desse o ponto?

Mas—oh filho—suppões, acaso, que no intimo da alma dos nossos conterraneos não existe, profundamente radicada, a absoluta confiança nos teus dotes oratorios, embora se reconheça, sem desdoiro, que não és, precisamente, o que se póde chamar um Pico de Mirandola?

Então não está ahi, bem pronunciado, no teu luzidio craneo, o extraordinario desenvolvimento da terceira circumvolução cerebral, em que Broca localizou a eloquencia e a arte oratoria?

Olha, Quim, um conselho de amigo:

As tuas sessenta epistolas,—embora, verdadeiramente, se não saiba, ainda, para que as escreveste e para que incommodaste tanto cidadão pacato, tanto cerebro, tanta caneta, tanto bico e tanto papel de chupeta—estão boas; isso estão. Mas ouve, filho, a respeito de litteratices, de cartas—isto é—de escripturas e de lettras, manda-n’os algumas, mas d’essas que tens com hypothecas e com fiadores.

As que para ahi estás a publicar, guarda-as, para quando não tiveres quem te chegue o papel...

Não maces mais a gente, que tem de aturar bissemanalmente o Noticioso, diariamente o Marilio[28] e—aos domingos,

o João de Ganfey.


IX
Politiquices[29]

Anda coisa no ar...

A horas mortas, nas sombras da noite, quando as venerandas paternidades desatam pachorrentamente os nastros das ceroilas e extendem as delgadas tibias entre a alvura dos lençoes, deliciando-se com a voluptuosa sensação do linho—quando os technicaphilas experimentam a potencia dynamica do coice e a rigidez do craneo contra os muros e bancos de praça, e as sopeiras, sedentas de luxuria e amor, abrem sorrateiramente a janella para sentimentaes gargarejos com almiscarados artilheiros—quando o beateiro resmunga entre bocejos, n’este meio cá—meio lá, da somnolencia, o ultimo Paternoster, e dois amigos meus, dos respeitaveis e probos, depois do nocturno repasto, se entregam, extramuros, a indigestos estudos de anatomia... patriotica—n’essas horas da noite, repito, nota-se nas ruas de Valença um movimento desusado, extraordinario e inquietador para quem de perto conhece, como nós, a indole pacifica e a habitual obediencia dos nossos conterraneos ao toque militar das oito e meia.

Cruzam-se vultos mysteriosos e sombrios, murmurando rapidamente palavras convencionaes; a frouxa luz dos candieiros projecta nas calçadas a sombra de longos capindós, de amplos libertés com que, indubitalmente, conspiradores sinistros, caras patibulares e alvellicas, se disfarçam e acobertam.

Denuncia-se, emfim, a effervescencia d’uma agitação occulta, surda, quiçá perigosa e violentissima, que prepara para breve, na historia d’este brioso povo, acontecimentos extraordinarios e imprevistos, que hão-de suscitar aos pósteros um ponto de exclamação tão elevado, tão grande e tão alto, como o sr. professor de Verdoejo, como o nariz do sr. dr. Ladislau, ou como um chapéo siamez que, ha um bom quarto de seculo, eu por ahi vejo, nos dias festivos do anno, luzidio e repontante, contra o ether dos céos.

Mercê da perspicacia e actividade do zeloso Commissario das Policias, o sr. Sampaio, está já conhecida a causa de tal agitação; e á amizade, com que esse cavalheiro me distingue, devo eu a possibilidade de aqui a communicar aos meus conterraneos, para tranquillidade das damas nervosas, das donzellas chloroticas e hystericas, que se tenham inquietado com o que acabo de denunciar.

Trata-se d’uma conspiração politica.

Preparam-se traças; urdem-se planos; consultam-se esphinges; interrogam-se oraculos; assediam-se as potestades eleitoraes; arietam-se as opiniões renitentes; hypnotisam-se os refractarios á conversão desejada, e tudo com a intenção sinistra e machiavelica de attentar, nas proximas eleições, contra a soberania e omnipotencia do senhor feudal d’este burgo, de quem tudo-lo-manda, o muito alto, poderoso, e excellentissimo Senhor Administrador do Concelho!!

Quem diria, senhores, o que no ultimo quartel do seculo teriamos de presenciar n’esta nossa terra tradicionalmente fiel ás instituições, cégamente obediente aos poderes constituidos, amante do seu Rei e de toda a sua Excellentissima familia (como se diz em Monsão)—n’esta terra onde, depois que os legendarios 7:500 bravos implantaram e regaram com o seu sangue o systema constitucional, inaugurando essas grotescas bambochatas, chamadas eleições, nunca os nossos antepassados tiveram a ousadia de contestar a opinião, as ideas do Senhor Administrador, embora ellas fossem tão extraordinarias e tão estramboticas como o dizer-se agora—por exemplo—que o sr. José Narciso não acceita a legitimidade dos direitos do Senhor D. Miguel de Bragança; que o Senhor Velloso, com o seu bigode negro e a alvura immaculada do seu collete branco, não é, para as damas, o mais esbelto e airoso joven, que terras de Portugal téem exportado para a nossa galeria aduaneira, ou ainda, que o Senhor Agostinho não significa na politica um caudilho poderoso, um sectario fiel, seguro e intransigente do partido progressista—regenerador—constituinte—reformista esquerdista—republicano—socialista.

Mas, perguntarão Vossas Excellencias, não faz Valença parte d’um circulo? Não téem os seus habitantes, como os d’outras terras, semelhantemente illustres—Fornos de Algodres, Terras de Bouro, Cannas de Senhorim—direitos e regalias que a Carta Constitucional da Monarchia concede para a amplissima e plenissima liberdade da opinião, em materia de eleições?

Verdade é.

Temos os mesmos direitos e á custa do mesmo preço...

Pagamos religiosamente as nossas decimas, as nossas congruas, sem contestações, nem aggravos, desprezando, até, com generosa e espartana altivez os quebrados, os dois, tres e quatro reis—uma ninharia—que o Senhor Recebedor, escravo dos dictames da sua consciencia, á força nos quer devolver.

Mas, eu recorro á Historia, a que Thierry chama «espelho da verdade» e Michelet «guia do futuro» para affirmar e provar, urbi et orbi, a inflexivel immutabilidade das opiniões politicas da nossa terra, recordando factos que, fiel e genuinamente, exprimem e caracterisam a superior orientação, que aqui existe sobre os direitos do cidadão—factos que não architecto com materiaes da Phanthasia, nem illumino nas penumbras dos tempos remotos, porque são rigorosamente exactos e coevos da geração que passa.

Approximava-se, ha annos, o dia em que o povo soberano, forte nos seus direitos, em troca do liberrimo voto a uma tarraçada de vinho, ou a indigestão de calhos na cantina eleitoral de Mestre Pedro era chamado a influir nos destinos da Patria e a metter a sua colherada n’essa sordida e nojenta palangãna, chamada urna, onde com putridas exhalações, referve e azeda a mixordia das ambições estultas, das vaidades irritantes, das pressões odiosas, das promessas fementidas, e em que os ambiciosos e especuladores—os Pausanias e Wilsons de todos os tempos—se refocillam e afocinham, disputando, á dentada, o appetecido osso do arranjo...

Nos campanarios sertanejos agitava-se o badalo chamando o servo da gleba que, de roupa domingueira e quinzena nova, se dispunha a, mais uma vez, com boçal inconsciencia, conspurcar o direito do voto—uma das mais bellas conquistas da liberdade na sua sangrenta evolução atravez de seculos de lucta, producto abençoado da laboriosissima reacção que n’essa enorme retorta, a França, na inferioridade do sudra, na degradação de ilota, nas algemas do escravo, na dependencia humilhante do servo—como elementos componentes—provocaram os raios chimicos da formosissima luz d’essa bemdita, mil vezes bemdita, alvorada de noventa e...

Mas, perdão.

Que diabo estou eu a escrever? Ridendo... Eis o meu programma.

Ao largo, pois, logares communs de estafada Historia!

Pensamentos tristes, arredae! Acoitae-vos e multiplicae-vos no cerebro do Padre Capellão para, nos sermões de sexta-feira santa, com que, tão auspiciosamente, inaugurou a sua eloquencia n’esta terra, nos descrever mais uma vez, com a voz embargada pelo sentimento, o martyrio da MÃE, as afflicções da MÃE a dôr da dita MÃE.

Continuemos, pois, a rir, senhores, um riso bom, sonóro, vibrante e desafogado, que o riso é das poucas coisas que ainda escapam á rede tributaria, e representa, n’este arido deserto da vida, a frescura vivificante e consoladora do oasis.

Ha annos, ia eu dizendo, em vesperas de eleição, teve um vizionario estranho a ingenuidade de tentar combater o sr. Administrador do Concelho, arrepiando-lhe a submissão dos eleitores, em determinadas freguezias.

O caso engatinhou ás culminancias do desafôro; alcandorou-se nos topes do escandalo!

Apimentaram-se os animos; esturraram-se os genios; apopleticaram-se os mais sisudos e conspicuos habitantes da rua de S. João—esses santos varões, que são na nossa terra os genuinos representantes dos ricos-homens e infanções dos tempos medievaes, sobrios de costumes, austeros no porte, d’um puritanismo feroz; tementes a Deus, ao diabo, ao abbade e ao sr. Joaquim Apollinario.

Reuniram-se, em conclave mysterioso, os mais valentes e poderosos homens d’armas do partido governamental—o unico, n’estes reinos, legalmente constituido.

Mensageiros esbaforidos chegavam, tressuando, de toda a parte com informações sobre os manejos do inimigo e, praça aberta á discussão, depois de grave ponderação e demorada concentração dos espiritos, sahiu d’aquellas venerandas cabeças o plano de combate que, para efficaz execução, para infallivel resultado, urgia communicar immediatamente, sem demoras, nem hesitações, a um rico-homem de Coura.

—Ora, n’aquella epocha, se bem que já estivesse iniciado o caminho das grandes descobertas geographicas e scientificas, que constituem a epopeia gloriosa da humanidade, e se conhecessem já, a America, a Africa, o phonographo, os camarões, o xarope do dr. Gibert e o sabão do sr. Moutinho; existindo já Pasteur, Jenner, João da Gaiteira, Edison, os srs. Zé da Rosa e Roldão; se bem que a Sciencia, em todos os seus ramos, estivesse consideravelmente aperfeiçoada, como por exemplo, a Jurisprudencia em que, no Direito penal, Lombroso, Garofalo, Aubry, attenuavam a responsabilidade criminal, combatendo essas brutaes penas da forca, da guilhotina, do pôtro, e substituindo-as, quando o crime tinha as revoltantes particularidades de Pantin, de Fuencarral, ou de White-Chapel, por uma audição, mais ou menos demorada, do drama do sr. C. Barros, ou d’um discurso do sr. Presidente da Camara—n’essa epocha, repito, ainda o sr. Miguel Dantas não tinha inventado Coura, a preciosa povoação, que tanto deu que matutar aos srs. Fontes e Bismarck, nos procellosos dias da revolução de Bico.

A Mesologia estava, ainda, no estado rudimentar e não tinha definido e aproveitado a extraordinaria influencia procreadora do clima, que n’aquellas uberrimas paragens, melhor do que a Physiologia de Debay, do que qualquer intervenção abbacial, ou leopoldica, mantem nas robustas camponezas uma fecundidade tal que, annullando por completo as theorias de Fourier, na resolução do importante problema do pauperismo, estabelece para a pittoresca povoação a reputação invejavel e, sobremodo honrosa, de fabrica permanente de amas para bebés.

Coura, emfim, meus senhores, a indispensavel Coura, estava ainda no casulo das sociedades modernas, na pevide das povoações minhotas, no caroço dos baluartes eleitoraes e não podia, portanto, alli influir a civilização como agora, em que o luxo das edificações principia a abandonar o colmo na cobertura das casas, substituindo-o por umas coisas vermelhas e arqueadas chamadas telhas, e em que ha Correio e Telegrapho, com um movimento tão extraordinario e assombroso, que a gente guinda-se aos mastaréos da popularidade, trepa aos carrapitos de um semi-deus, escarrancha-se na celebridade do proprio Boulanger se, n’um só dia, recebe da familia duas cartas e um telegramma!!

Mas... era necessario lá mandar um proprio, unico recurso d’aquelles felizes tempos, em que estavamos livres da Companhia real, e podiamos, sem despeza de testamento, nem afflicções de quem está nas garras da Morte, tentar qualquer viagem.

E tal era a urgencia, a imprescindibilidade da communicação, que o portador devia ir a cavallo!

Ora, esta urgencia, formulada na intervenção do rocinante e lançada á discussão na maior effervescencia do furôr opposicionista, despertou no espirito dos mais sensatos e perspicazes ricos-homens e abbades um subito resfriamento de enthusiasmo.

Perceberam o quer que fosse de sombrio e tetrico, que baixou a zero a ebullição tumultuosa da sua dedicação partidaria.

Como o Mane, Thecel, Phares, que entupiu Balthazar, ou a sombra de Banco que engasgou Macbeth, ou a estatua do Commendador, que foi para o D. Juan, de Molière, o que o vulto do capitão Teixeira de Moraes foi em noite procellosa de inverno, nas cercanias do solar da Balagota, para o Sr. Sampaio[30] a lembrança do cavallo aterrou os mais ousados d’aquelles ricos-homens, que representavam, no seu conjuncto, feudos e rendas superiores a muitas centenas de mil cruzados.

Empallideceram, subitamente, as faces até alli purpurinas e rubras de excitação; baixaram-se, evitando-se, os olhos, até alli coruscantes de furôr; cerraram-se os labios, como se uma pressão de muitas atmospheras actuasse brutalmente sobre as maxillas. Os mais ousados coçavam nervosamente a região occipital...

É que ao longe, lá muito ao longe, na sombra do magro rocinante, percebiam elles, já, as formas indecisas e vagas do burriqueiro, reclamando, com humilde postura—vergado o corpo n’aquelle respeitoso angulo de 65° com que o nosso homem, o supracitado Sr. Sampaio fala, cheio de blandicias e ternuras, ao Sr. Dr. Brito—o meio pinto da tabella para uma viagem a Coura.

Meio pinto, senhores!

Menos do que o Sr. Seixas ganhava n’uma caixa de amendoas, quando mostrava a factura; coisa de dois conselhos do Dr. João Cabral; meia dose florindica, pagando á Rotschild; o lucro do sr. Fontoura n’uma tisana de treze vintens.

Meio pinto, senhores!

..............................

Rapida foi a dissolução do conclave. Pretextos futeis, encapotados com razões imprevistas, fizeram debandar, como corvos açoitados pelo furacão, os graves maioraes da politica concelhia.

Foi o mensageiro a Coura, e durante muito tempo, nas altas e transcendentes concepções philosophicas, em que o animalejo constantemente se absorvia—(indecifraveis para nós, os mortaes, como a opinião politica do Sr. Vigario Geral, ou como a origem do subito rejuvenescimento do nosso muito querido Sr. Sampaio ao ler nos jornaes a palavra Cordão)—entrou a influir grave ponderação sobre o alcance dos decretos da Providencia, que se apraz em confiar de um misero sendeiro a salvação d’um partido, como do nada, do pó, do humus empapado da chuva, que demorou Grouchy, forjou o camartello possante, que em Waterloo esmigalhou o pedestal d’esse feroz açoite da Humanidade, chamado Napoleão.

..............................

Creio inutil dizer que, depois da eleição, para a gamella do burriqueiro havia mais um commensal... um cão![31]

*

Prosigamos n’este escabroso trilho da Historia em que, para fiel e rigorosa exposição dos factos, temos de executar os milagres do equilibrio de Blondin, ou de Leonne Doré, entre os exaggeros dos informadores apaixonados e as erroneas reflexões de commentadores pouco escrupulosos.

Serve-nos de maromba a consciencia e oxalá ella nos guie até ao fim d’esta penosa caminhada, atravez da original e curiosissima politica da nossa terra[32].

*

Indubitavelmente, o dia 22 de Novembro de 1879 é um dos mais memoraveis para os habitantes d’esta antiga e mui nobre povoação.

Essa data deve estar indelevelmente gravada no livro d’oiro dos grandes acontecimentos historicos; insculpida, a traços diamantinos, na epopea das grandes solemnidades de Valença, ao lado das procissões de S. Sebastião e Corpus Christi, grotescas mascaradas, com que no Minho se avivam as descrenças, digo, as crenças, a ociosidade, a pasmaceira, o ar marcial e aguerrido das tropas, os namoros, as bambinelas dos armadores e as transacções do commercio, na sua importantissima secção de: birimbaus, peixe frito e... limonada de cavallinho.

Foi um dia festivo, solemne; d’aquelles em que o caiado das casas nos parece mais branco; a porcaria das ruas menos escandalosa; a atmosphera mais diaphana; o verde das campinas mais vivo; a abobada celeste mais limpida; o aroma das flôres mais penetrante; a cara dos amigos mais risonha—um d’estes dias, em que a gente se sente mais feliz, com menos dinheiro e mais tentações, e em que as fibras do coração que movem o badalo do enthusiasmo, bruscamente se agitam, como se ouvissemos o hymno da Carta, um discurso do sr. conselheiro Silvestre Ribeiro, ou como se os canhões da Coroada, os sinos de Santo Estevão, a bandeira real desfraldada aos quatro ventos, celebrassem festivamente o anniversario da Restauração!

Acotovelava-se nas ruas uma multidão expansiva, ruidosa, com a alegria a pinotear na mioleira; com todos os macaquinhos do sr. Palhares, em borga infernal no sotão; expondo por ahi, escandalosamente, a habitual gravidade, de saia arregaçada e peitos descobertos, em desenfreado e lascivo minuete com as posições officiaes.

Para exprimir tudo, emfim, havia no intimo de cada um, tanta satisfação e tanta alegria, como hoje sentiria o sr. Joaquim se recebesse auctorisação do Ministro do Reino para obsequiar o dr. Cabral com todas as trombetas de Josaphat, sopradas por innumeras legiões d’aquelles anjos e seraphins de bochechinha gorda e purpurina, que por ahi vemos em S. Estevão,—embora, para esse justissimo desforço de cidadão offendido nos seus direitos, de Juiz da Senhora da Saude, affectado nas suas crenças, tivesse de arredar, das suas arcas de nababo, com arrebatado impulso de perdulario enthusiasmo, coisa de doze vintens—captivos a troco!

N’esse dia, meus senhores, era restituido o batalhão de caçadores 7 a Valença, chyprado ao berço da monarchia, á terra dos condes, dos conegos, das cruzes e dos cutileiros, por Sua Excellencia, o sr. Ministro da Guerra.

Nada faltou no programma das recepções festivas: coroas de loiros; discursos do sr. Presidente da Camara; mensagens de congratulação; odes e alexandrinos do vate Aurelio Victor Hugo; bailes; regabofe nos presidios; bodo aos pobres; arcos de triumpho forrados a gazetas; musica, foguetes e luminarias.

O enthusiasmo estonteava os cerebros; alcoolizava os espiritos; absinthava os animos.

O sr. Francisco Durães, homem sério, pacato e já na escala para camarista, deitava foguetes na muralha, como qualquer careca sertanejo em arraial da festeira Urgeira.

Um camarista illustre luctava duas horas, para enfiar no par de luvas, que por engano lhe tinham vendido para a mesma mão—o dedo mata-parasitas na casa do mindinho.

O sr. Abilio, nos paroxysmos de um enorme enthusiasmo, apparecia de gravata branca, casaca, no pé direito uma bota de polimento, no esquerdo um chinelo de liga, representando a Associação Artistica!

E no meio de todo este contentamento, nas expansões de todo este delirio, um unico nome soava, tangido constantemente pelo enthusiasmo popular, nas praças, nas ruas, nas lojas, nos clubs,—nome que parecia ser o fóco convergente para todas aquellas ruidosas manifestações, nome que n’esse dia tinha mais prestigio que o da Senhora do Faro, nome aureolado, nome querido de—Elyseu de Serpa!

Victoriava-se Elyseu de Serpa
Discursava-se sobre Elyseu de Serpa
Telegraphava-se a Elyseu de Serpa
Rezava-se a Elyseu de Serpa

e Clero, Nobreza e Povo, fraternizando, hombreando, felicitando-se, davam largas á plenitude da sua gratidão a Elyseu de Serpa.

Jurava-se aos deuses, pela nossa consciencia, assim dardos de Jupiter nos partissem, se durante a nossa existencia, embora ella attingisse a longevidade de um Mathusalem, que viveu, segundo diz a Biblia, 900 annos (o que eu acredito) outro homem se sentasse nas cadeiras de S. Bento com o nosso mandato, porque Valença tinha contrahido com elle uma divida sagrada, immorredoira, imperecivel, immensa, de profunda, eterna e vivissima gratidão.

E se alguem, mais pratico em coisas do mundo se atrevesse a revelar pouca confiança na estabilidade d’aquelles fervorosos protestos, recordando que já lá vae o tempo dos Eros, dos Scevolas, dos Martins de Freitas, dos Egas, etc.,—oh Christos de Villar!—corria grave risco de ser lançado aos fossos, empalado no pau da bandeira, ou esquartejado pelo primeiro magarefe, que por ahi apparecesse, em ociosa disponibilidade.

Pois, meus senhores, ahi vae a Moral do conto mais um tento para a marca preta e um documento para a nossa historia politica. Poucos mezes depois, mettia o sr. dr. Lopes o seu nariz na Administração do Concelho e aquelle grande vulto (não o do nariz) absorvia, completamente, todos os enthusiasmos que descrevi!

A urna entrou mais uma vez no templo, para servir de leito nas sensuaes orgias do voto com a immoralidade e o sr. Elyseu de Serpa, o mesmo, em carne e osso, a que me referi—obtinha em todas as assembleas eleitoraes do nosso concelho:—cinco votos!

Ora, um povo que denuncia tão vehemente firmeza de convicções e de sentimentos, está—digam lá o que disserem—reservado para grandes destinos.

Abençoado torrão este, da Patria minha!

*

Com os argumentos irrefutaveis, que os factos nos fornecem, estudamos até aqui a politica de Valença nas suas espheras mais elevadas, isto é, na villa e entre as camadas illustradas; e, indubitavelmente, não existe no nosso espirito outro sentimento, que não seja o baseado em tristissimo desalento...

Vejamos agora, em breves palavras, antes das considerações geraes, o que o povo imagina e sabe de toda esta engrenagem que lhe rouba os filhos, dinheiro e... os votos.

Ha annos, Ramos Paz, que aqui dignamente exerceu as funcções de Sub-Inspector de Instrucção, presidia a uma conferencia pedagogica nos Paços do Concelho. Extranhando as theorias apresentadas por um professor, sob a intervenção da auctoridade administrativa na legislação municipal, relativa ao professorado, perguntou alizando aquellas grandes barbas á D. João de Castro:

—Então quem nomeia os professores?

—O Sr. Administrador—respondeu o homem.

—Ora essa! Então as Camaras?

—As Camaras são tambem nomeadas pelo sr. Administrador—confirmou ainda, com a má interpretação que dera á pergunta.

Meditemos, senhores.

De feito; na ignorancia d’aquelle pedagogo havia uma grande verdade, que nós, rigorosamente, não podemos refutar.

Luiz XI disse uma vez ao Parlamento, levantando o chicote:

L’etat c’est moi!

Rodrigues Sampaio, não ha ainda muito tempo, que bradava ao paiz:

«O unico poder que entre nós existe é o Rei!»

Nós poderemos plagiar Luiz XI, Rodrigues Sampaio e o pedagogo, asseverando:

N’este concelho de Valença ha só uma força, uma vontade, um poder:—o Senhor Administrador[33]—quer o represente a taciturnidade esphingica do sr. Dr. Lopes, ou a gulliverica estatura do sr. Dr. Ladislau, ou a inoffensiva bandido-mania do sr. Dr. Malheiro, ou a feroz iconoclastia do sr. Dr. Cabral, ou... a paz d’alma e de corpo do sr. Dr. Brandão-Malheiro-Lopes da Cunha-Cabral!

Abençoado torrão este, da Patria minha!

*

Historiamos até aqui. Philosophemos agora, porque a Historia sem a Philosophia pouco vale e não póde servir, como disse Michelet, para guia do futuro.

É evidente que não temos organização pulmonar, que desafogadamente possa funccionar na atmosphera das nossas liberdades civis.

É evidente que, seja qual fôr o proceder da auctoridade administrativa, só ella póde, quer e manda; e que, no campo a que hoje Vossas Excellencias são chamados—as eleições—, ella exerce para qualquer opposição o mesmo terrifico effeito que, em dilatado feijoal, produz para os pardaes e pardocas, o espantalho armado com dous rabos de vassoira em cruz, cartola velha no vertice e casacão enfiado nos braços, com as mangas pendentes e á mercê do vento.

E, evidenciado isto, para que precisamos nós de deputados, seja qual fôr a chancella que tragam? Que temos nós com o que vae por esse paiz, com o nariz do sr. Beirão, com a marreca do sr. Hintze, com a somnolencia do sr. Henrique de Macedo, ou com os chouriços do sr. José Luciano?

Que necessidade temos nós de fazer perder a gravidade aos Ministros, pondo-os aos saltinhos de contentes, quando o sr. Zagallo, com os seus Mentores e correligionarios lhes officiam, annunciando que... deliberaram apoiar a marcha do Governo—ou que diabo lucramos com a mudança de ceroilas, a que os obrigamos, enviando uma representação dos tres mil negociantes da terra[34] contra a Companhia vinicola, communicando, pelo telegrapho, que estão fechadas as quitandas de Valença e que vate Aurelio Victor Hugo fala ás massas, em imponente e assaz concorrida reunião politica?

Senhores! Por Deus, simplifiquemos tudo isto; todas estas inuteis formalidades, que são proprias para terras civilizadas. Fazem perder tempo, e tempo é dinheiro, como diz o bretão.

Qual é, em ultima analyse, o regimen em que vivemos? O feudal.

Adaptemo-nos, pois, ao que elle nos estabelece e concede. Ahi vae um alvitre:

Sabem Vossas Excellencias o que eram as antigas behetrias da epocha medieva: povoações que tinham o direito de escolher o senhor, que viviam independentes e de portas cerradas, até, aos senhores estranhos. Aqui estava um modelo, mas lá vae outro, talvez preferivel.

Na vertente meridional dos Pyrineus ha uma amostra de estados autonomos—a republica de Andorra.

Tem approximadamente, sem escandalosa differença, a população d’este Concelho. Tem legislação civil, militar e religiosa. Tem Governo civil e militar; Alfandega, Repartições de Fazenda; Camara; Junta de Parochia; o seu Cordão sanitario de quando em quando; lazareto com respectivas rações; reforma de matrizes; irmandades e confrarias; isto é, nicho para todos os pretendentes.

Ora aqui está o que nos serve. É uma organização baratinha e fica em casa.

Proclamemos hoje mesmo a nossa independencia! Behetriemo-nos! Andorriemo-nos! Entregue-se o poder a um só homem, que se denomine Rei, Imperador, Presidente, Syndico, Regulo, Papa, Bispo, Soba ou Cabinda!

Precisamos, verdade é, d’uma auctoridade, para regular as nossas questões e moderar as nossas exigencias.

É necessario que, quando alguem se lembrar de dizer, que as aguas da fonte de S. Sebastião pertencem á Camara, haja quem garanta as reclamações justissimas com que o sr. Joaquim prova á evidencia que são suas, muito suas, embora não se recorde da gaveta onde conserva as provas, o que póde succeder a toda a gente; quando a vizinhança do sr. C. Dias, incluindo a Excellentissima Camara, continue a esticar a guita dos limites das suas propriedades, avançando sobre a que aquelle bom e innocente amigo possue no Caes, haja quem faça respeitar os seus direitos e impedir, que nas terras da Saibreira se não possa continuar a observar o extraordinario effeito da dilatabilidade da Materia sob a acção dos raios solares, phenomeno alli tão evidente e precioso para o estudo das revoluções geologicas do globo; quando o sr. Agostinho se lembrar de mandar vir do extrangeiro casas feitas para os seus terrenos, haja quem lhe apresente esse doirado codigo, que é o palladio das nossas liberdades civis—o regulamento do Senhor Conde de Lippe dado ás gentes em 1700 e tantos.

É preciso, emfim, um braço e uma cabeça.

E quem devemos escolher?

Quando me lembro que estou n’uma terra que não quiz o legado do Conde de Ferreira; n’uma terra em que, se a gente tiver um nariz, como os dos srs. Cunha ou Ladislau, e se collocar em noite de eclypse, sobre o telhado da sua casa, para espreitar a lua, ou escutar a harmonia das espheras, vem logo o estalão do Conde de Lippe verificar, se dos cabellinhos da venta á soleira da porta existe, realmente, maior distancia de que 4 metros, 5 decimetros e 6 millimetros e meio do regulamento;—eu, meus senhores, para o poder supremo da nova organização politica que proponho, só me lembro de dois homens, que tenho a honra de apresentar á vossa apreciação e para os quaes, desde já, peço o vosso suffragio, porque estou plenamente convencido de que hão-de satisfazer ás exigencias e aos deveres da actividade, firmeza de convicções e orientação politica, que a vossa orientação politica, a vossa firmeza de convicções e a vossa actividade lhes impoem.

Eil-os:

O Fileiras,
ou o
Cachimbo dos melros.

Em 20 de outubro de 1889.
Dia da eleição de deputados.


X
Violetas

As imagens até aqui reflectidas no foco da minha lente ficam delevelmente estereotypadas n’essas paginas, porque é indeciso o traço, debil o colorido, irregular o contorno e imperfeitissimo o relevo.

Falta ahi a luz indispensavel á nitida percepção de todas as minucias das individualidades sociaes, que a minha critica envolve, porque não é dado a espiritos vulgares o emittil-a.

Encontro na expressão escripta as difficuldades caracteristicas d’essa lesão cerebral, que os physiologistas incluem na classe das aphasias motoras, sob o nome de agraphia; e, se até aqui deplorei as consequencias d’essa lesão, que se oppõe á reproducção fiel das minhas impressões sobre a sociedade em que vivo, sincero é o meu pesar, reconhecendo-me incapaz de avivar a imagem d’um vulto, que já desappareceu sob a loisa dos tumulos, mas que deixou luminoso rasto de bondade e de honradez nas sombrias atmospheras onde, implacavel e feroz, se trava a eterna lucta pela existencia.

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Schopenhauer filia-se n’essa eschola philosophica, que poderemos denominar pessimista, em que sarcasticamente se dissecam as fibras do coração humano, negando-se-lhe sentimentos affectivos e a possibilidade de alimentar aspirações puras e nobres.

Na fria analyse, que o philosopho allemão nos apresenta do homem na sociedade e na familia, resaltam os exaggeros d’um espirito sombrio, em que poderosamente influiram a acção morbida de temperamento e a acção do meio: mas ha tambem nas suas paginas grandes verdades que nós, dissipada a má impressão originada na rudeza da phrase, intimamente não podemos refutar.

«O nosso mundo civilizado não passa de uma grande mascarada. Encontram-se n’elle cavalleiros, frades, soldados, doutores, advogados, padres, philosophos, que mais sei eu? Mas não são o que representam ser; são simples mascaras, debaixo das quaes se occultam, a maior parte das vezes, especuladores de dinheiro.

Um toma, assim, a mascara da justiça para melhor ferir o seu semelhante; outro, com o mesmo fim, escolheu a mascara do bem publico e do patriotismo; um terceiro a da religião, da fé immaculada.

Para toda a especie de fins secretos, mais de um se occultou sob a mascara da philosophia, como tambem sob a da philanthropia. Ha tambem mascaras vulgares, sem caracter especial, como os dominós nos bailes, e que se encontram por toda a parte; estes representam a rigida honestidade; a polidez; a sympathia sincera e a amizade fingida.»

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Ora, observando a nossa actual sociedade, n’esta epocha de egoismo, de ambições, de illegalidades, com que por ahi se conspurcam e desprestigiam as mais nobres instituições,—n’esta epocha de Wilsons, de Hersents, de bonds e de processos da fava—poderemos, com intima convicção, acoimar de exaggeradas essas linhas do pensador allemão?

A consideração social chatina-se vilmente nas Bolsas, onde se expõe á venda com as inscripções de tres por cento. Os titulos do governo teem, como bonus, uma certa maquia de respeito publico; por consequencia, o valor d’este está na razão directa da quantidade total, que cada um possue dos outros.

Quem tiver duzentos contos, póde ser um larapio e um canalha; mas, com certeza, é um homem de consideração.

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Antonio da Silva, aquelle carpinteirito da Esplanada, ganhava dezoito vintens por dia; sustentava mulher e tres filhos.

Adoeceu: contrahiu dividas no mercieiro, na botica e na padaria; deixou de pagar ao senhorio; pôz no prego, a pataco por corôa ao mez, o relogio de prata, os brincos da mulher, os cobertores do inverno e a ferramenta.

Esteve dois mezes de cama.

Voltou fraco e abatido para o trabalho. Tentou desempenhar-se. Fazia serões. Não poude pagar uma divida.

Os credores perseguiam-no.

As mulheres e os filhos não tinham roupa; tiritavam e... choravam.

Um crédor requereu a penhora; levaram-lhe a cama.

Na alma d’aquelle homem havia um inferno porque era honrado—o pateta!—e era doido pela familia.

Um dia, collou a massa encephalica nas paredes da latrina com a balla do rewolver.

—Um criminoso—disse o abbade.

—Um caloteiro—disseram os do pataco por mez.

—Um pobre diabo—responsaram as almas piedosas.

—Um pateta de menos—resmungou a sociedade.

A Santa Madre Egreja, toda Caridade e Amôr, recusou-lhe o latim da padralhada—esse latim tão sonoro, tão vibrante, tão repenicado, quando responsa o negreiro e o ladrão de gravata, que deixaram quarenta moedas, para missas de pinto a duzia.

Foi enterrado no fosso, ao lado d’uma pileca do Guilherme; como responso, teve uma enfiada de pragas dos coveiros, porque estava realmente muito frio e ainda não tinham matado o bicho.

Oh estupor—disse o Coruja—podias arrebentar a pinha no verão. Não tinhas agora tanto frio!

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Á mesma hora, Henrique de tal, Conde de Burnay, mandava photographar os bonds do sr. Hersent e mais de trezentas carruagens com fidalgos, bispos, padres, conegos e escorropicha-galhetas varios, acompanharam até aos Prazeres o cadaver d’um beneficiado na falcatrua hersentica, portuguez abrazileirado, que mantinha relações illicitas com a irmã—o que era publico e notorio na freguezia, alli para os lados de Penafiel—e que, n’uma terrifica visualidade do inferno, apartára trezentos mil reis, adquiridos n’esse infamissimo trafico de carne humana, para missas cantadas e por cantar.

Viremos folha...

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—Mas, Senhor Zinão,—diz Vossa Excellencia—isso é velho, é sediço, é estafado e massador...

—Esta jeremiada veia a lume, meu Senhor, porque no meio da reles pataqueirice da nossa actual sociedade onde pullulam os Iagos, os Tartufos, os Pausanias, os Wilsons, os Tamandarés—toda essa corja de falsarios, de perjuros e de traidores, que Dante implacavelmente esfarrapa e esphacela com as torturas do nono circulo—a gente póde soltar uma exclamação de surpreza tão ruidosa e tão violenta, como aquella trombetada de Rolando na batalha de Roncesvalles, quando encontra um homem, caminhando sempre, sem tergiversar, no caminho da Honra e da Dignidade.

Consagro estas linhas á memoria d’um valenciano, que não deixou fortuna nem filhos governadores civis, ou deputados, que possam premiar esta homenagem com um naco do orçamento, como é da praxe pedir e conceder.

Não me conhece a familia que elle deixou; e não é, portanto, o vil interesse, ou a lisonja porca, ou a torpissima adulação, que actuam na minha penna, obrigando-a a vergar-se, a perder a inflexibilidade com que, até aqui, tem fustigado muita importancia ridicula e chata.

Ninguem, no concelho de Valença, até hoje adquiriu maior estima e maior consideração do que esse homem.

Ninguem, como elle, poderia, mais proveitosamente, especular com o affectuoso prestigio, que o seu nome alcançou por essas freguezias.

Era, porém, nobilissimo o seu caracter para que lhe permittisse manchar o nome n’esse bordel de pantomineiros e de histriões que por ahi especulam com a ignorancia do aldeão, fazendo do voto degrau para chegarem á mesa do orçamento e poderem roer as codeas babadas, que os Gargantuas politicos abandonam, ou lamber os productos do vomito, que a orgia e a indigestão provocam.

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Esse homem morreu pobre; não é vergonha dizel-o; mas levem o aldeão acolá, ao cemiterio, mostrem-lhe todos esses mausoleus de marmore e de granito, e perguntem-lhe qual é o nome que, ainda hoje, mais affectuosamente vibra na sua alma rude, mas sincera.

Dizem que as mulheres de Sparta, fazendo ajoelhar os filhos sobre o tumulo dos grandes heroes, alli lhes referiam os feitos gloriosos que insculpiram os seus nomes no livro d’oiro da Patria.

Era assim que ellas preparavam a vigorosa musculatura dos futuros cidadãos da grande republica.

Como ellas, valencianos dignos, quando a razão dos vossos filhos estiver preparada para receber os germens, que mais tarde devem fructificar na Honradez, apontae-lhes para essa pagina que, por escrupuloso respeito e por enthusiastica veneração, separo das outras, onde escouceiam ridiculos.

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Zinão descobre-se, perante o nome que alli vêdes.


XI
Os Quadros da Collegiada

A Arte nasceu d’esta nobilissima aspiração do espirito humano para, na investigação do Bello, dar á Materia a fórma das suas idêas e das suas crenças.

O desenvolvimento intellectual de um povo e a sua influencia na obra da Civilização, podem estudar-se nos diversos productos, em que se reproduziu o genio dos seus artistas.

Aos dolmens e menhires, aos toscos instrumentos das edades paleonlithica e neolithica succedem essas colossaes construcções das margens do Nilo, as pyramides, os templos, as esphinges; os bronzes, as loiças e esmaltes, já de notavel perfeição, dos antigos egypcios.

Surge, depois, o povo helleno com a sua admiravel architectura; com as formosissimas e inimitaveis estatuas de Phidias e de Lysippo; com a Venus de Milo e o Apollo de Belveder; com as formosas telas de Zeuxis e de Parrhasio; com todas as maravilhas, emfim, d’essa assombrosa civilização tão alta e tão brilhante, que ainda depois de passados vinte seculos, quando no horisonte despontavam os primeiros clarões da ridentissima alvorada—a Renascença—era ainda d’ella que, para geniaes concepções, recebiam inspiração e luz esses divinos artistas, que se chamaram Vinci, Raphael, Ticiano, Carrachio e Miguel Angelo.

Com a Renascença accelerou-se a marcha evolutiva da Civilização; e o espirito do homem, depois de enriquecer as sciencias com preciosas descobertas, de desenvolver as industrias com novas e utilissimas applicações, crystallisa-se em fulgidas creações onde, com toda a nitidez de contornos, com toda a opulência de colorido, com toda a fidelidade de cambiantes e com todos os esbatidos do iris se reproduzem as mais extraordinarias maravilhas da formosissima Mãe—a Natureza.

A Historia da Arte é a Historia da Civilização; é a Historia do Homem no seu meio, nas suas crenças, nas manifestações da sua intelligencia, nas aspirações da sua alma, na grandeza dos seus affectos.

Estudando o Homem, estuda-se a Nação e a influencia que ella exerceu nas outras sociedades constituidas.

São, pois, d’uma benemerencia incontestavel os esforços e os auxilios com que n’um paiz se tenta colleccionar, agrupar, reunir todos os elementos que possam reconstruir a sua historia artistica; e como essa empreza, de larga magnitude e importancia, só é cabalmente desempenhada pelo Estado, dever é do cidadão illustrado cooperar, quanto possivel, no desenvolvimento das instituições que possam mostrar aos extranhos o que o genio nacional produziu e creou.

Com uma vergonhosa teimosia e deploravel inconsciencia, a esse dever se nega a actual Junta de Parochia de Valença, recusando-se a entregar ao delegado do Governo os quadros e a cadeira, que pertenceram á extincta collegiada de S. Estevão.