WeRead Powered by ReaderPub
Sinapismos cover

Sinapismos

Chapter 19: XII O Senhor Deputado
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

A collection of satirical sketches and humorous essays that lampoon local social life, exposing hypocrisy, vanity, religious cant, and inequality through ironic portraits, anecdote, and biting commentary. The author declares a program of social cure by ridicule, balancing respect for private family life with pointed attacks on public pretensions; pieces range from playful ridicule to harsher sarcasm motivated by attachment to the homeland. Interwoven are appeals to the poor and scenes of scandal, caricatures of officials, clergy, and bourgeois customs, all organized as short, conversational pieces intended to provoke laughter, reflection, and civic self-examination.

*

Senhores da Junta,

ou antes

Senhores Agostinho e Sampaio:[35]

conversemos.

Vossas Senhorias, n’essa manifestação volitiva, (saberão Vossas Senhorias que volitiva significa: emanada da vontade) n’essa tenaz opposição as ordens do Governo, devem estribar-se n’uma razão, n’um argumento, n’uma conclusão qualquer. Mas eu—com franqueza—como conheço perfeitamente, por dentro e por fóra, (deixem-me assim dizer) o que Vossas Senhorias valem em materia de zelo pelas instituições, que estão dependentes das suas luminosas e peregrinas deliberações,—eu, que me recordo muito bem que Vossas Senhorias, que hoje energicamente bradam aos céos contra a reclamação do Governo, são exactissimamente os mesmos que, ha quatro ou cinco annos, deixavam estragar esses mesmos quadros e essa mesma cadeira, consentindo que um Terrinha as borrasse com verniz de portão, depois de borrar, tambem, os peitos da Virgem do leite,—eu que me recordo ainda, que foram tambem Vossas Senhorias os engenheiros n’aquella boçal mutilação da fachada de Santa Maria, parvoamente restaurada ha annos,—eu, emfim, que (sem offensa) avalio a capacidade intellectual dos seus, aliás preciosos cerebros, como insufficiente para conter umas tristes cellulasitas, onde se aniche um errante atomo de intuição artística; porque, afinal de contas, estas coisas de Arte não são precisamente o mesmo que coisas de bombas, ou de receitas eventuaes e decimas de juros,—eu, repito, não posso explicar satisfactoriamente ao meu espirito a causa do proceder de Vossas Senhorias.

Por zelo nos interesses da Junta não é—com toda a certeza—que Vossas Senhorias se revoltam contra o Governo. Isso é coisa averiguada, conhecida, evidente, que não admitte réplicas e a que não convém, mesmo, contestações.

Recearão Vossas Senhorias que esses objectos, passando para as mãos do Estado, se extraviem, ou percam?

Repillo, como absurda, a hypothese, porque só com tristissimo desalento veria dois funccionarios publicos suspeitarem de larapio o Governo que lhes paga.

O que é, pois, que actua nos seus cerebros?

Não o sabem, mas sei-o eu.

O que obriga Vossas Senhorias a esse tristissimo papel é isto:—o rheumatismo, o barretinho de seda preto, o cano das botas, os suspensorios, o alçapão das calças, a caixa do rapé, o pingo, a caspa; é essa maldicta enfermidade epidemica, peor do que a actual influenza, porque não ha profilaticos que a debellem, e que se origina nas exhalações mephiticas e deleterias dos fossos e das muralhas que teem musgo, ratos, corujas, toupeiras, morcegos e silvados coevos do mammuth; é essa coisa que sendo incorporea, invisivel, imponderavel, tem a rigidez bastante para encravar a roda do Progresso; que sendo inerte e fria, tem a temperatura sufficiente para caldear os embolos da Civilização; é—finalmente—a rotina!

Vossas Senhorias, com essa teimosia, recordam-me (salvo o devido respeito) aquella conhecida anedocta do gallego:

Alonso Perez y Perez ouvira dizer na sua terra que em Portugal se ganhava muito dinheiro, mas que era necessario pedir, exigir e reclamar sempre mais do que se recebesse por qualquer serviço.

Perez y Perez entregou a mulher ao diabo, digo, ao Abbade e atravessou a fronteira, dilatando os póros de todo o corpanzil para, como ventosas de tentaculos cephalopodes, absorverem quantas pesetas e perras chicas fosse possivel.

Caminhando por essas estradas fóra, ao terceiro dia, veiu o cansaço; vergava-se-lhe o corpo, dobravam-se-lhe os joelhos, incharam-lhe os pés, pesava-lhe a cabeça: prostrado e doente, abeirou-se da valeta e cahiu succumbido, recordando com saudade as veigas da sua terra, a familia, a vacca e os bezerros, a missa do domingo, o recorte das montanhas, as columnas de fumo que, ao toque das Trindades, se evolavam no esbatido azul dos céos, o balido das ovelhas, o piar das avesinhas, todas essas coisas—emfim—saturadas d’um sentimentalismo feroz e piegas, que tão violentamente agitavam a alma do Justininho, quando elle concebia aquelles preciosos folhetins do Noticioso.

N’isto, passa na estrada um almocreve com a sua enfiada de machos e, vendo o gallego n’aquelle misero estado, convida-o carinhosamente a escarranchar-se n’um dos animaes.

E quanto xe me dá?

—pergunta o bruto.

*

Vossas Senhorias, n’esta estrada do Progresso, são (salvo o devido respeito) uns verdadeiros Alonsos.

Como portuguezes, que põem luminarias á janella no 1.º de dezembro e no anniversario da Carta, devem amar a sua patria; como funccionarios publicos devem interessar-se no engrandecimento d’ella; como homens do seculo XIX, que usufruem todas as vantagens e liberdades que tanto sangue custaram, n’essa sangrenta lucta do despotismo e das trevas contra a luz, devem contribuir para que aos seus filhos seja entregue intacto, pelo menos, o inestimavel patrimonio da Civilização, que herdaram dos seus Papás.

Ora, uns homens que por esse mundo de Christo, consagram toda a sua existencia no estudo dos meios, que podem elevar e engrandecer os povos, reconheceram a enorme utilidade das collecções artisticas, das bibliothecas, dos museus, de todas as instituições, onde se enthesoiram os productos do espirito humano na sua marcha evolutiva atravez dos seculos.

Esses homens dizem a Vossas Senhorias:

Pretendemos reconstruir a historia da Arte portugueza, reunindo e dispondo convenientemente, chronologicamente e por distincção de escholas, n’uma boa sala com ar e com luz, essas telas, que Vossas Senhorias por ahi inconscientemente dependuram em paredes humidas, e imbecilmente inutilizam, mandando, de quando em quando, envernizar, a brocha, pelos Terrinhas.

O Estado toma conta d’isso que lhe pertence; e, quando Vossas Senhorias tiverem uns amigos hespanhoes, francezes, inglezes, turcos ou moiros, que lhes perguntem, fazendo obra pelos mais aperfeiçoados diccionarios geographicos extrangeiros, se Portugal é provincia hespanhola, ou ingleza—podem leval-os ao Museu nacional, onde lhes provarão que somos livres, que temos Historia mais brilhante que a d’elles, que temos Arte, que temos Civilização, que temos alma nacional que já se expandiu pelo mundo inteiro com o genio dos grandes heroes e dos grandes artistas.

Dirão mais a Vossas Senhorias:

Se tiverem filhos que necessitem de estudar a Pintura, ou as Artes decorativas, ahi ficam á disposição d’elles todos esses productos que permaneciam dispersos, ignorados e inuteis pelas egrejas sertanejas. Ahi encontrarão, tambem, para o estudo comparativo, exemplares da eschola hespanhola, com as telas de Velasquez, de Murillo e de Ribera; ahi está a eschola flamenga com Rubens; a hollandeza com Rembrandt; a italiana com Raphael, Ticiano, Tintoreto, Miguel Angelo; podem entrar, ver, estudar minuciosamente, copiar—nada pagam.

E, apesar de todas estas incalculaveis vantagens, exclamam Vossas Senhorias:

e quanto xe nos dão?

*

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, a Lisboa.

Lembro-me, até, que muito antes que Succi fosse conhecido com os seus jejuns, já a gente por cá admirava as especialissimas propriedades da membrana mucosa do estomago do sr. Sampaio, que não segrega sómente succo gastrico, mas, tambem, succos nutritivos, como se evidenciou n’aquella viagem, em que Sua Senhoria, tendo sahido da Balagota com o cabazinho repleto de pastelinhos de bacalhau e de girimu, pitos assados, rabanadas e cornuchos, com elle intacto, depois d’uma ausencia de oito dias, na Balagota entrou.

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, repito, a Lisboa. Conhecem tudo o que existe na capital.

Extasiaram-se perante a pujança granular do regio corcel no Terreiro do Paço; viram subir o balão que indica o meio-dia; ouviram o carrilhão de Mafra; estiveram no curro de S. Bento; admiraram o leão da Estrella e os macaquinhos do Jardim Zoologico; visitaram a esquadra ingleza no Tejo; sopesaram a Paulo Cordeiro; saudaram o Senhor Rei e a Senhora Rainha; viram as mulas do paço e o bicho municipal; conheceram o Rosa Araujo e o marquez de Vallada; foram a todos os theatros; mas o que—com certeza—não viram foi o Museu Nacional, e isso porque... não tiveram tempo.

Teem ido a Lisboa, por vezes; assistiram aos festejos das bodas e dos baptisados reaes, aos da chegada dos reis de tal e tal; foram, até, engrossar a pasmaceira indigena na recepção do Principe de Galles, d’esse exemplar com encadernação de luxo de John Bull—o eterno larapio das nossas colonias, o traiçoeiro Johnston dos makololos, o perfido Wellington de 1828, o astucioso Canning, o desleal alliado da nossa Politica, o insolente comedor dos nossos dinheiros, a quem todo o bom portuguez devia, respeitando as conveniencias da hospitalidade, voltar, com despreso, as costas; mas quando n’aquella capital se realisou a Exposição de Arte ornamental, que foi como o livro aberto onde se descreveu a riquissima epopea das nossas glorias artisticas, então... ficaram na Balagota e na rua Direita porque... não valia a pena!

..............................

*

Aqui tem Vossa Excellencia, sr. Macedo, os homens que se negam a entregar-lhe os quadros e a cadeira de S. Estevão.

Segreda-se por ahi que muita coisa, reclamada pelo Governo, desapparece antes de entrar no Museu Nacional. Pena é que o Governo não denuncie os roubos, que tem encontrado quando procede ao arrolamento dos bens pertencentes ás collegiadas e congregações religiosas extinctas.

A teimosia da Junta é mais um caso porco, para engranzar no rosario das vergonhas de Valença, onde já brilham a recusa da Eschola Conde Ferreira, a eleição do sr. Serpa... do Batalhão, a Prisão da Santa, a Questão da Musica e essas curiosissimas eleições...

Mas Vossa Excellencia, sr. Macedo, resolve facilmente todas as duvidas; como ellas, em ultima analyse querem dizer:

Quanto xe nos dão?

Digne-se Vossa Excellencia mandar ao sr. Agostinho meia duzia de trutas leopoldicas, de S. Mamede, e obtenha Vossa Excellencia do Governo de Sua Magestade, que ao sr. Sampaio seja concedido o diploma do unico cargo rendoso, que lhe falta: o de

sineiro de S. Estevão.


XII
O Senhor Deputado

Mais uma vez manifestou o Circulo eleitoral n.º 3 a sua opinião politica e, pela acção liberrima e independente do suffragio popular, tem hoje uma cadeira em S. Bento, o sr. dr. Queiroz Ribeiro.

Nos campos do partido opposicionista lavra o descontentamento com a decisão dos eleitores; nos arraiaes, em que tremula a bandeira progressista, erguem-se os clamores da victoria e entoam-se hosannas ao novo representante do povo.

Os regeneradores negam a competencia de Sua Excellencia para tão elevado cargo, fundamentando a insufficiencia na pouca edade e escassa madureza para os negocios publicos; alguns, até, os do respeitabilissimo grupo da rua de S. João, exprimem e synthetisam todo o valor e força dos seus argumentos em tres palavras:—até faz versos!

Os progressistas exaltam a aptidão intellectual do seu correligionario; affirmam que é um rapaz que deve dar alguma coisa; servem-se do proprio argumento dos adversarios—os versos—, impondo-o á consideração dos eleitores; citam os seus conhecimentos sobre Direito penal, o seu enthusiasmo pela nova eschola italiana, etc., etc., e rematam por asseverar que a escolha foi felicissima.

Ora eu, meus senhores, sou tambem eleitor e recenseado na freguezia de S. Maria dos Anjos; não estou filiado em partido militante da actual politica, porque sou, como os srs. José Narciso e Santa Clara: legitimista, genuinamente legitimista, por convicção e por tradição. Acceitar, n’estas condições, a faculdade do voto equivaleria a approvar e reconhecer, tacitamente, a legalidade dos poderes que nos regem e, procedendo assim, faltaria ás minhas convicções e ao respeito que tenho e devo ao meu Rei, a Sua Magestade Fidelissima o Senhor Dom Miguel de Bragança, que Deus guarde.

Estou, portanto, n’um campo perfeitamente neutral e insuspeito, ao abrigo do tumultuar das paixões partidarias, n’uma região serena de paz e livre reflexão e posso, n’estas circumstancias, dar a minha opinião sobre a escolha dos eleitores, depois da rigorosa apreciação que fiz dos argumentos apresentados pelos dois partidos.

Vou ter a honra de a apresentar a Vossas Excellencias.

Na futura Camara electiva devem reunir-se cento e tantos deputados. N’esse numero entram estrellas de primeira grandeza na constellação brilhantissima da nossa politica. Ha talentos de raça; espiritos previlegiados, que honram e ennobrecem o paiz; ha oradores fluentissimos como os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre; ha polemistas de irresistivel logica de argumentação, como os srs. Ferreira d’Almeida; ha celebridades em todos os ramos das sciencias e da publica administração.

Pois, meus senhores, com verdade lhes digo, que é a seguinte a minha convicção:—entre todos esses homens, entre todas as individualidades aptas no nosso paiz para as funcções da representação popular, ninguem—absolutamente ninguem—nos poderia satisfazer tanto, comprehender as nossas ideias, adaptar-se melhor á nossa politica, interpretando-a e assimilando-a nas suas aspirações—como Sua Excellencia o sr. Dr. Queiroz Ribeiro.

—Ora essa! (ouço eu bradar aos meus amigos, os srs. Joaquim e Abilio, os mais fogosos caudilhos da politica regeneradora), fará o favor de provar.

A isso vou, meus senhores, e com argumentos leaes, solidos, porque os sustento com a irrefutavel demonstração, que vou estabelecer dentro do campo positivo das sciencias abstractas: a logica e a mathematica.

Vejamos, meus senhores, o que é a Politica em Valença? O que foi, o que é, d’onde vem e para onde vae? Como se poderá e deverá classificar n’uma terra em que, se a gente vae á estação do caminho de ferro assistir á recepção do sr. Marianno de Carvalho, ou do sr. Barjona, ou do sr. Lopo Vaz, ou do sr. José Dias Ferreira, ou do sr. Rodrigues de Freitas, ou do sr. Consiglieri Pedroso, vê sempre na gare—além dos engajadores dos hoteis e do sr. Capellão[36]—as mesmas caras, as mesmas casacas e as mesmas cartolas, que, depois, vão acompanhar Suas Excellencias até Cerveira, com ruidosas e enthusiasticas demonstrações de adhesão e fidelidade partidarias?

O que poderemos julgar da Politica d’um concelho em que a padralhada, com o seu rebanho de carneiros votantes, vae, submissa, para onde a toca a aguilhada da Administração, sem consciencia, nem orientação, nem ideal politico?

N’uma terra, em que os mais importantes caudilhos teem, na opinião, a variabilidade constante do catavento de Santo Estevão e em que ha potestades eleitoraes que, vistas de Coura, são regeneradoras, vistas de Valença são progressistas e não são barjonaceas e republicanas, porque ninguem as examinou ainda de Gandra ou de S. Pedro da Torre?

Estudemos os chefes, senhores, que devem representar as tradições, a opinião, a respeitabilidade dos partidos. Temos d’um lado—o progressista—o Sr. Dr. Ladislau; temos do outro—o regenerador—o Sr. Dr. Pestana.[37]

O Sr. Dr. Ladislau sahiu, approximadamente ha seis annos, dos bancos da Universidade e filiou-se, franca e desassombradamente, no partido do sr. José Dias Ferreira; hoje obedece ao sr. José Luciano, isto é, duas opiniões diversas, oppostas, heterogeneas, como as que separaram e dividiram os guelfos dos gibelinos, os armagnacs dos borguinhões, os jacobinos dos girondinos, os da rosa branca dos da rosa vermelha, os malhados dos realistas.

Ora, consultando os trabalhos estatisticos dos mais eminentes socialistas, sobre a longevidade da vida humana, observamos que a media actual é de sessenta annos. (Deus n’este caso a prolongue e livre o Sr. Doutor de dyspepsias hermogenicas, que tão prejudiciaes são á juventude...)

Se quizermos, pois, avaliar rigorosamente a capacidade opinativa de Sua Excellencia, nada mais teremos do que estabelecer uma proporção, admittindo a hypothese mais favoravel—que em egual espaço de tempo não augmentará a volubilidade. Representando, pois, por a os seis annos decorridos e os trinta que a Sua Excellencia faltam, por op as opiniões conhecidas e por x as desconhecidas, teremos:

6 a : 2 op :: 30 a : x.

Operando, encontramos:

x = 10 op.

Reunindo as opiniões conhecidas, temos

x = 12

quer dizer: teremos de pedir, por emprestimo, alguns partidos á Hespanha, porque cá não os ha para tanta opinião; e, aos sessenta annos, o Sr. Dr. Ladislau attingirá um grau de saturação partidaria muito superior á que hoje possue o Sr. Agostinho, que é a coisa mais perfeita e acabada em Politica, que terras de Valença teem produzido.

Agora, o sr. dr. Pestana...

Eu desejava fazer identica demonstração com referencia a Sua Excellencia, e tenho, para isso, elementos e factores ordenados; mas são d’uma tal complexidade e obrigam a operações algebricas tão complicadas, que me abstenho de aqui as reproduzir, limitando-mo a dar conhecimento a Vossa Excellencia do resultado obtido.

Para o sr. dr. Ladislau tivemos: x = 10.

Com o Sr. Dr. Pestana chegamos a: x = ∞ isto é, x = infinito. E como o infinito existe muito para lá dos limites, a que a intelligencia humana póde levar a analyse, está prejudicado o raciocinio.

Temos, pois, n’estas condições, os dois chefes politicos da nossa terra e ha vinte e cinco annos, em que aqui resido, os sub-chefes, as potestades, os abbades e as patrulhas seguem exactamente o mesmo systema.

Os que hontem eram regeneradores, são hoje progressistas, serão ámanhã barjonaceos e no dia seguinte socialistas. No mundo politico somos cosmopolitas, e Valença é para o paiz, o que a casa do Sr. Agostinho é para Valença—um perfeito caravanserail!

Synthetisando, eu repito a pergunta, que deu logar a estas considerações, com que desejo fundamentar a minha demonstração:

Como se deve classificar a nossa Politica?

Politica voluvel, incolôr, de... contradança!

Repito:

de contradança.

Ora aqui está, justamente, o ponto de reunião entre ella e a individualidade do nosso deputado. Aqui está, onde uma e outra se coadunam, se consubstanciam, se identificam.

Em Politica somos dançarinos. Pois para representar dançarinos e para comprehender as suas aspirações, como o Justino Soares, ou os srs. Roldão e dr. João Cabral se não habilitam a um circulo, claro é que se devia escolher um estranho, versado e perito nos segredos da arte de Terpsichore. E, para satisfazer cabalmente a estas condições (creio que os srs. Joaquim e Abilio se não atreverão a refutar esta minha proposição) ninguem—absolutamente ninguem—se encontraria mais habilitado, do que o nosso actual representante.

Isto não é uma asserção gratuita. A vizinha villa de Cerveira a confirmará, quando se torne necessario.

Porque é que o sr. Visconde da Torre não provou bem, como deputado? Porque nunca poderia representar dignamente Valença, com o seu volumoso abdomen, com a abundancia do seu tecido adiposo, com o pouco desempeno dos seus movimentos, com a pouca elegancia (perdoe Sua Excellencia) da sua linha. Dançava pouco e mal. Era, mesmo, detestavel a sua posição quando, pela complicadissima tactica das danças, era obrigado a fazer um en avant. Não tinha ropia nem salero, nem entrain.

Mas o nosso actual representante...

Que saudosas recordações não originarão estes periodos ás tricanas e sopeiras de Villa Nova—a chiquita!

Que dulcissimas reminiscencias não entristecerão, por momentos, aquelles formosissimos rostos da terra das solhas!

Que pranto amargo e copioso não verterá a estas horas o bom e fiel Maldonado, socio commandita nos bailes do sopeirame!

A Meca, a terna e legendaria Meca, com que acerbo pungir, não enxugará das mimosas e assetinadas faces as perolas crystallinas, como as do rocio matutino, que a lembrança de Sua Excellencia, a cada momento lhe faz brotar das glandulas lacrimaes!

Redomoinhar vertiginoso das valsas; suave enleio de pequeninas cinturas; exhalações dulcissimas; doces fragrancias de solha e azeite, bacalhau e alho, das formosas tricanas; noites de amor e de phantasia em que vós, encantadoras filhas da—Chiquita—vos deliciaveis com os papos d’anjo de Caminha e as roscas da Galliza; noites inolvidaveis de luar, em que os vossos castos seios se alvoroçavam com desconhecidas sensações, quando Sua Excellencia, sob as janellas, acompanhado ao violão pelo fiel Maldonado e pela artistica cohorte dos Figaros, soltava ás brisas, com voz maguada e terna, as melancholicas trovas do:

Gondoleiro, a noite é bella!

Recordações saudosas, miragens gratas e fugitivas... adeus!

Tudo se sumiu na voragem da urna eleitoral!

*

Eleitores do concelho de Valença!

Nos annaes da benemerita Sociedade Artistica, Harmonia e Recreio Cerveirense, registra-se, como um periodo aureo de engrandecimento e prosperidade, a epocha em que o nosso Deputado honrou, frequentando, os salões da Associação.

A arte de Terpsichore obteve consideravel impulso e desenvolvimento. Á voz auctorizada de Sua Excellencia, transformaram-se os Lanceiros, floreou-se a Franceza e surgiu, vaporosa e louçã, a moderna valsa a dous tempos. Abandonaram-se marcas velhas e rançosas, substituiudo-se por elegantes couronnes de dames e graciosos moulinets de chevaliers.

Foi, pois, profundamente civilizadora a influencia que Sua Excellencia exerceu nas classes medianamente abastadas:—sopeiras e tricanas—, porque lhes incutiu os germens d’uma larga intuição artistica e senso esthetico, já com as brilhantes manifestações da arte de Terpsichore, já com mimosas producções musicaes, com que Sua Excellencia as deliciava, acompanhado pelo fiel Maldonado e—em occasiões solemnes—pela brilhantissima cohorte dos Figaros cerveirenses.

Quem, pois, se atreverá a dizer, quem ousará ahi, dos arraiaes da opposição, affirmar que não foi acertada e felicissima a escolha?

Concluo a demonstração, srs. Lucas e Abilio. Pódem Vossas Excellencias refutal-a?

Eleitores do concelho de Valença! Damas e cavalheiros do Club e da Assemblea! Ditas e ditos do Gremio artistico; tricanagem, technicaphilas e paradas-velhas dos bailes do Theatro, eu—Zinão—vos felicito!

E vós, vizionarios, descrentes, que por ahi apregoaes a incompetencia do sr. Deputado, em breve,—eu vol-o affirmo—se dissiparão as vossas duvidas e os vossos applausos hão-de juntar-se, fervorosos e delirantes ás acclamações enthusiasticas da grei progressista quando, no proximo carnaval, assistirdes, nos bailes do Theatro, á verdadeira consagração, á apotheose do nosso Deputado, vendo-o, como par marcante, offuscar a fama, até hoje immaculada, dos srs. Trincheiras e Zé do Caes, gritando ás multidões, radiante e enthusiasmado, em francez adoptado nos nossos tricanés:

An ivant! Chevaliers dão as mãos e les Dames ó miliú.

*

Ah Esteves! Ah Caetano!

Que futuro brilhante e glorioso não está reservado para os vossos violões!

Emquanto a nós:

vá de redrò, Senhor Doutor!


XIII
Carta ao Zé Senso

Terras da Parvalheira

Burgo de Paysandu. Terça-feira,
17 de Dezembro de 1887.

Meu Zé.

Recebeu-se, hontem á noite, o 2.º fasciculo dos Sinapismos.

Não sei ainda como te conte o que se passou. Ha onze horas que estou de cama, a caldos de gallinha e copinhos de geleia.

O Dr. Pacheco só me deixa chuchar uma azinha de pito, de seis em seis horas, tal é o estado de fraqueza e abatimento em que me deixaram as violentas commoções, que hontem agitaram este pobre corpo.

Vou coordenar as ideas para te descrever o caso mais extraordinario, que fastos de Valença podem mencionar ás gerações vindoiras.

Tu sabes o que é o indigena sem illustração: corpo amanhado com borras de nababo, betume de Prudhomme, com leucocytos de Tartufo e cellulas philosophicas de Sganarello; alma ingenua, pura, immaculada, feita de arminho, gesso cré, grude de sapateiro e saliva de Zé Povo; no todo, uma mescla de tanso, de rufião e de sacripanta.

Sabendo isto, certamente não te admirarás do que vaes lêr.

Quando hontem á noite, já em ceroilas, punha o barretinho de dormir, ouvi na rua um enorme barulho: tropel desusado, gritos, rodar de carretas, patadas de mula, tiros, etc.

Como estava em fralda, disse ao Zéca que fosse á janella vêr o que era, e na minha mente surgiu a idea de que teriamos uma invasão ingleza por causa dos makololos.

São os mokololos? perguntei ao menino.

Não sei, Papá. São muitos homens que passam correndo; uns com espadas, outros com chuços, outros com chicotes, rewolvers, punhaes, facalhões e espetos, gritando:

mata! mata!

Vão todos com o sim-senhor á mostra e levam nas nadegas duas manchas vermelhas, como ficam nas pernas, quando o Papá me deita sinapismos. Atraz d’elles vem um diabo vestido de amarello, que traz na mão esquerda umas disciplinas de coiro, com que os fustiga, e na direita um ferro em braza.

*

Calcei á pressa as piugas e approximei-me da janella para presenciar tão inesperado acontecimento. Com o ruido que fiz, abrindo-a, a multidão parou subitamente. Todas as cabeças se ergueram, todos os punhos se levantaram, fechados com crispações nervosas; abriram-se mil boccas, onde rangiam sinistramente os dentes; insultaram-me; chamaram-me porco e chulo; berravam que me haviam de matar, de escuchinar, de virar de dentro para fóra, de arrancar as barbas, as orelhas e mais isto e mais aquillo.

Reparei que aquella medonha e terrivel multidão se dividia em tres grupos distinctos.

O primeiro era composto de maltrapilhos com feitio afadistado, que uma collareja porca e abandalhada, a quem ouvi chamar D. Politica, segurava pelos cabrestos. Zurzia n’elles, com uma aguilhada de ponta d’oiro, El-Rei buffo, D. Milhão.

O segundo era formado por patetinhas, d’estes infelizes, que nos hospitaes de alienados são conhecidos por doidos mansos.

Guinchavam, mostravam papelinhos, davam saltinhos, faziam esgares burlescos, descobrindo os dentes sujos. Tinha conta n’elles, dando-lhes, de quando em quando, um pontapé, outra mulher em desalinho e que parecia soffrer de grande myopia. Conheci D. Idiotice.

No terceiro, então, misturaram-se fedelhos e cães; d’estes tótós pequeninos de pello branco e encaracolado, muito nojentos e muito libidinosos, que mostram sempre a linguinha quando veem as amas, que trazem os focinhos molhados com um liquido que lembra, pelo cheiro, a cal e o peixe da Noruega, e que por ahi chamam, fraldiqueiros. Ladravam, davam ao rabinho, levantavam-se sobre as patinhas de traz, agitando para cima e para baixo a linguinha, d’onde escorria um fio de baba mal cheirante.

Aquella multidão saturava a atmosphera de aromas insupportaveis; distinguiam-se os do bafio, do arroto dyspeptico; este cheiro particular do azebre, do mofo, da catinga, de pé gallego, de coisas lippicas e rançosas, que tresandam a raposinho e a chulé.

No ruido ensurdecedor de tanto grito e de tanta explosão de colera, apenas se percebiam estas palavras:

Mata! Mata o Zinão!

*

O meu cerebro illuminou-se, então, com aquelles vividos clarões das grandes angustias; pinoteavam-me na imaginação, em infernal dança macabra, todas as vibrações das grandes dôres; vergalhadas cyclopicas açoitavam-me as ideias; a alma rebentava-me com explosões terriveis, minada pela robulite do terror; o coração desfibrava-se esphacelado pelas garras do susto; as cellulas nervosas achatavam-se sob a prensa hydraulica do pavor; o cordão espinal estoirava, esticado pelas furias da raiva; as saliencias do corpo sumiam-se arietadas pela allucinação; na trompa de Eustachio trovejavam as maldições; na retina faiscavam punhaes de odio; na pituitaria abriam chagas os atomos do rancôr; as cordas vocaes rebentavam com a tensão da ira; as papillas da derme eram esmagadas pelos martellões da colera; diabos vestidos de vermelho arrancavam-me os cabellos; harpias esgrouviadas furavam-me a cornea; satanazes com rabo reviravam-me as unhas; demonios acephalos rasgavam-me a bocca; morcegos sinistros esfarrapavam-me as carnes; lebreus hydrophobos roiam-me as cannelas; corujas esfomeadas espicaçavam-me as orelhas; chacaes lazarentos mordiam-me as nadegas; corcodilos e jacarandés trituravam-me os ossos.

*

E no meio de toda essa coisa phantastica, apocalyptica, satanica, horripilante, onde havia carcavões, fragoas, tenazes, forcas, venenos de Borgias, estyletes ervados, lanças quichotescas, navalhas de ponta e mola, balas de papel, espadas de pau, caçoletas e obuzes, explosões sulfuradas, bofes de leão, tricornios de gazeta, furores de Ugolino, ciumes de Othello, terrores de Machbet, perfidias de Iago, risos de Voltaire, astucias de Loyola, sarcasmos de Erasmo, pançadas de capoeira, chulipas de fadista, rugidos de Adamastor, pedradas de garoto, cobras e lagartos, viscosidades de lesmas, virus de serpente, commissões de quinzes e de paysanducos, protestos, duellos, policias correccionaes, boquilhas, aguas sebastianicas, beliscões kilometricos, musas hystericas, zoilos epilepticos...

—quando contemplava aquelle horroroso quadro em que, as tintas de Miguel Angelo, o pincel de Rembrandt e a phantasia de Hans Mackart, pintavam a sede de Tantalo, a insaciabilidade de Gargantua, a podridão de Imperia, o odio de D. Bibas, o servilismo do eunucho e o calcanhar d’Achilles,

—entre aquelle côro infernal de uivar de feras, clamar de moiros, ulular de caraibas, guinchar de idiotas, urrar de quadrupedes, pinchar de macacos, zunir de vespas, silvar de cascaveis, ladrar de bulldogs, d’onde apenas se destacava:

Mata! Mata o Zinão!

—senti alguem ao meu lado.

O tal diabo vermelho pinchára da rua para a janella; extendia-me o braço e dizia:

Oh Coisa! dá cá um cigarro. Casca n’elles, que ainda bolem!

e desapertando a carcela das calças, voltou-se para a turba e...

esguichou-a.

Já sabes, Zé amigo, quem elle era:

O Ridiculo.


XIV
A Questão da Musica
(LEITURA PARA HOMENS)

Ha poucos annos, alli pelo Maio, quando a Primavera floresce os campos e a Natureza parece despertar, com novo vigor, da somnolencia invernal, Dona Politica sentiu pular o sangue nas veias, reclamando folia e brodio.

Teve uns arrebiques eroticos de matrona insensivel á influencia lunar e amancebou-se, clandestinamente, com o Conde de Lippe e com o Senhor Administrador.

Noitadas com um, barrigadas de camarões com outro, lá se arranjou de tal fórma que, d’essas relações, resultou um producto hybrido:—A Questão da Musica.

Parto acabado, os amantes disputaram a paternidade do aborto:

—É meu!

—É teu!

—Parece-se commigo!

—Não se parece comtigo!

Zangaram-se e ficaram de mal.

Nunca mais se puderam vêr.

A desavergonhada, ora sorri para um, ora para outro; acirrando, assim, pela sua inconstancia e bandalhice acadellada, o odio dos dois rivaes.

O mostrengo (sahiu femea) veiu ao mundo com todos os defeitos dos Papás e da Mamã: vaidosa, ridicula, traiçoeira, caprichosa e porca.

Ao nascer, embirrou que não queria Musica. Papás e Mamã teem-lhe feito a vontade. Qualquer dia, embirra que quer Musica; teremos, então, de soffrer e pagar as furias dos paus-tesos, até hoje refreadas.

O que por ahi não irá!

*

A Comedia da Santa, ou antes, a Comedia da Musica, absorveu e absorve toda a actividade dos nossos politicos—dos homens que se apresentam á consideração do povo, allegando serviços e pedindo votos.

E em que diabo hão de pensar esses santos varões, se o Concelho voga em mar de rosas, com vento fresco e bons timoneiros?

Examinemos, de relance, as instituições da nossa terra:

Camara Municipal

Praça de toiros com serviço permanente. Emprezario: o Senhor Administrador. Intelligentes: o Senhor Joaquim (por procuração), ou João Cabral.

N’este anno, as corridas promettem. O primeiro espada, Senhor Abilio, foi occultamente a Madrid adestrar-se com Lagartijo e com Frascuelo. O gado, do lavrador Ladislau, é manso. Tem fraca pinta e pouco . A casa está passada para as primeiras corridas semanaes. Ha toiros para curiosos.

*

Agora, duas tiradas a serio:

A administração do nosso Municipio anda como V. Ex.ª sabe, querido leitor, em bolandas e ao deus-dará. Muito lhe poderia dizer a tal respeito; mas esta gente séria da terra, tanto me tem soprado aos ouvidos com aquella preventiva phrase de:

Nem todas as verdades se dizem

que, por emquanto, ainda me resolvo a conservar na minha carteira os curiosos apontamentos que d’estas coisas de Valença, cuidadosamente tenho colligido. Prosigamos.

—Approvou-se ultimamente um novo traçado de estradas para o districto; todos os concelhos foram contemplados, menos o de Valença. Pelos modos, lá nas secretarias das Obras publicas ainda se não descobriu, ao certo, se isto pertence a Portugal, se á Galliza. A Camara podia elucidar este caso e requerer, ou instar por concessões a que tem direito. Os politicos, porém, teem mais em que pensar... Ainda se não decidiu a Questão da Musica.

—Alli, na Esplanada, amontoam-se, sem ordem nem regularidade, as novas construcções. Ora, apesar da opposição dos paysanducos, a futura povoação de Valença ha de extender-se por esses campos fóra, e esta latrina acastellada com muralhas, poternas e tenalhas, passará a ter o merecimento historico das ruinas de Lapella, hoje excellentes para ninhos de morcegos, luras de toupeira e tocas de grillos.

Portanto, a qualquer cerebro medianamente esclarecido parecerá urgente e indispensavel o levantamento d’uma planta, que desde já disponha, com regularidade, as arterias da futura povoação.

Não se pensa em tal, nem é preciso. Temos a lei das expropriações. A ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar. Temos a Questão da Musica.

—No centro da villa, ao lado da Ex.ᵐᵃ Camara, existe uma commua, que chamam: Eschola municipal.

Quando quizerdes avaliar a civilização d’este povo, que se ri de vós—oh gentes de Monsão e de Coura!—vinde cá, embebei o lenço em agua de Colonia e entrae alli, na Eschola, onde sem ar, sem luz, sem condições hygienicas de qualquer natureza, se atrophiam diariamente dezenas de creanças.

Os rapazes, cá na terra, sahem da barriga das mães, já com a caneta atraz da orelha para escreverem á familia; não precisamos, portanto, de subsidios do Conde de Ferreira, nem de utensilios escholares.

Corre tudo muito bem. Só falta uma coisa: um pelourinho, alli ao pé da Sexta, com os nomes dos philanthropos que responderam aos testamenteiros do Conde:

Dispensamos o subsidio; não temos terreno para a eschola; está tudo occupado com cacos de guerra e com o Assento dos militares!

—Diz-se que é util o saber lêr e, n’esta crença, auxilia-se em toda a parte a instrucção do povo, fiscalizando-se o serviço das escholas, animando-se as creanças e estimulando-se os professores.

O pelouro da instrucção (?) no concelho de Valença é um mytho, uma coisa nominal e hypothetica.

Regateiam, por ahi, miseravelmente, os dois patacos de expediente; e na Eschola, como verdadeira commua, não ha mobilia, não ha um mappa, não ha uma esphera, uma loisa, um diccionario. A Camara não gasta dinheiro n’essas ridicularias; gasta-o, mas com outras applicações, que fazem parte dos meus apontamentos particulares...

De quando em quando o bandalho da Politica entra tambem nas Escholas; e d’essa visita, nascem as perseguições torpissimas e ineptas contra homens que, politicamente podem ter todos os defeitos, mas que para o exercicio do cargo que exercem, possuem incontestavel aptidão.

—Construiram-se, no largo principal da terra, os Paços do Concelho. O edificio ficou uma gaiola de grillos, com uma unica porta, para elles não fugirem, quando lhes appetecer a serradela.

As divisões interiores são d’uma disposição perfeitamente apatetada. Com as dependencias do Tribunal, repetiu-se aquelle caso dos moinhos de Coura. Lá, só pensaram na agua, quando os moinhos estavam promptos; cá, só depois do Tribunal concluido, é que surgiu na mente dos illustres senadores a necessidade provavel d’uma sala para jurados.

Mas o defeito remediou-se e bem.

Fez-se uma especie de espigueiro, um sotão, como os que a gente tem para extender as batatas por causa do grelo e para lá se manda o Jury. Está alli muito bem, livre de correntes d’ar, e com grande vantagem para os curiosos da terra: muito antes que se pronuncie a sentença, já se póde saber, pela janella das escadas, se o réo vae para a rua, ou para o cavallinho de pau.

Não ha dinheiro que pague esta commodidade.

—Na Coroada, admiram os forasteiros a desconjunctada architectura d’uns cortelhos, onde, em nauseabunda promiscuidade, se aconchegam de noite: mulheres, porcos, creanças, bacorinhos, gatos com tinha e cadellas com sarna.

Em terra menos civilizada, já o senado teria estudado o meio de, por uma operação financeira possivel de realizar, sem graves encargos, transformar esses focos de immundicie em habitações economicas, mas hygienicas.

Mas, então, V. Ex.ª não viu na Exposição de Paris, entre tantas maravilhas da Arte, as primitivas construcções dos differentes povos? Pois cá, em Valença, não precisamos de arranjar artificialmente essa exposição. Alli estão os cortelhos da Parada velha, immundos, doentios, nojentos,—como nota caracteristica do nosso Progresso moral e material.

—A gente das cidades tem a mania da Civilização. Abre mercados, rasga ruas espaçosas, aformoseia praças, alinha os edificios e varre as ruas.

Com o pretexto da hygiene e da limpeza faz dinheiro até do esterco.

Miserias humanas!—dizem os nossos camaristas. Nas ruas de Valença, o que cai, deixa-se ficar. Podem-nos chamar immundos, mas ao menos, não somos dos futres que vendem carros de lixo.

Cá, a gente é assim...

—O concelho precisa de estradas que unam as freguezias e facilitem as communicações. A estrada de A para B foi considerada, como a mais urgente, pela importancia (politica, já se vê) de B.

Principiou-se a estrada: terraplenagens, aterros, desaterros, etc.

A folhas tantas, desabou a caranguejola ministerial e o que era politicamente positivo em B passou para negativo. Suspendeu-se a construcção da estrada.

Chegou o inverno: lamas, enxurradas, desmoronamentos. O que estava feito inutilizou-se, mas não importa: a ordem é rica, os frades são poucos e os imbecis são muitos. Ha mais em que pensar: a Questão da Musica.