Junta de Parochia
Instituição composta de differentes membros, sob a direcção do Senhor Sampaio e patrocinio do Senhor Agostinho. Nada mais, creio eu, é preciso dizer.
Essa instituição, que n’outras terras presta valiosos serviços á Beneficencia e á Instrucção, jaz ahi na mais abjecta inutilidade.
A manifestação mais evidente da sua actividade, deu-a na importantissima Questão da Porta, com o Senhor Baptista.
A Junta não tem meios; é pobre, vive da graça de Deus. Tem os telhados da Egreja desmantelados; não póde gastar um real em adornos, ou reparos, no interior do templo. Conserva, nos adros, as ossadas dos nossos antepassados—n’esses adros que a gente pisa, onde os cães levantam as pernas e dão muitas voltas, fingindo que se sentam; onde, á noite se baixam as calças e se praticam mil obscenidades. Alli, debaixo d’aquella terra e d’aquella pedra estão os craneos dos nossos parentes, craneos que já tiveram carne, olhos, bocca, labios que acarinharam os nossos paes; estão alli os restos dos braços que aconchegaram ao peito, em noites de amargura e de afflictiva ancia, a cabeça dos nossos avós, quando a febre lhes amortecia os olhos e escaldava as faces.
O respeito aos mortos e o espirito da Religião impõem a urgente exhumação d’essas ossadas e a sua mudança para o cemiterio.
Não póde ser. Não ha dinheiro; a Junta é pobrissima e tem despezas mais urgentes e indispensaveis, como as que se fizeram com a Questão da Porta. Pois não era um escandalo? Ainda que se empenhasse a Cruz de prata! Mas não foi preciso; para isso, para a Justiça, ainda a pobre Junta teve as trinta libras, que a questão levou...
Deus, Nosso Senhor, se lembre, para desconto dos meus peccados, da repugnancia com que nego licença á penna, para reproduzir as ideas que, n’este momento, tumultuam no meu cerebro...
—Ascencio José dos Santos deixou á Junta de Parochia de Valença estas e aquellas propriedades, com o encargo seguinte: instituição d’um lausperenne mensal com tantos padres e tantas luzes, etc.
Com o rendimento d’essas propriedades pagaria a Junta as despezas do lausperenne, applicando o restante ao desenvolvimento da Instrucção do Concelho.
A Junta acceitou o legado, vendeu as propriedades e converteu o producto em inscripções que rendem, annualmente, cento e dez mil reis.
A despeza total dos lausperennes, pagando-se generosamente, é de doze libras, ou cincoenta e quatro mil reis annuaes, restando, por consequencia, um saldo importante.
A Junta de Parochia acceitou, como disse, o legado; mas os mezes passam e ninguem ouve falar dos lausperennes, porque não se fazem. O Senhor Sampaio, apesar de ser um homem muito temente a Deus, não quer gastar dinheiro com padres.
Dispõe do que é seu e faz muito bem.
Estas coisas consideram-se, cá na terra, como admissiveis e legaes. Uns chamam-lhes descuidos, outros desleixos, etc. Eu pouco sei de sciencias juridicas; mas confrontando este facto com outros, que por ahi vejo punir na cadeia, não ha quem me tire da cabeça, que o descuido da Junta entra na classe d’aquelles descuidos, que a Lei chama: roubos.
Pura e simplesmente um roubo; ao culto, á Lei, ás crenças d’um morto, á Moralidade, á fé dos contractos, ás disposições d’um testamento, que em toda a parte se cumprem fiel e rigorosamente.
E já que o vendaval do Tempo levou os ultimos sons d’essas fervorosas manifestações de Sentimento, que á beira do tumulo d’um homem que caíu fulminado defendendo os interesses de Valença, inspirou tanto necrologio bombastico e tanto discurso farfalhudo—já que em homenagem á memoria do homem que amou, como ninguem, esta terra, porque tinha na alma a rigida austeridade d’um caracter impolluto e sacrificava os haveres, como sacrificou a vida, sem pedir á Politica o salario dos seus serviços—se não ergueu ainda, ahi, uma voz para reclamar da Justiça o cumprimento rigoroso das disposições a que se obrigou a Junta de Parochia, seja-me permittido alterar, por momentos, a feição humoristica d’estes artigos para, com verdadeira indignação, dizer ás auctoridades que, n’esta terra, vigiam pelo cumprimento da Lei:
A Junta de Parochia rouba, mensalmente, ao culto os lausperennes instituidos no legado de Ascencio José dos Santos.
Esses lausperennes representam cento e dez mil reis annuaes, que são desviados para applicação illegal e ignorada.
Ha, ou não ha obrigação de cumprir as disposições dos legados?
Ha, ou não ha Lei que peça responsabilidades aos auctores d’estes desvios?
..............................
—Prosigamos, porque a rabeca desafina.
Santa Casa da Misericordia
É uma Santa Casa de Politica.
As eleições disputam-se (tudo por philanthropia) como as da Camara, ou do deputado. Impera sempre n’ellas, para suprema humilhação dos valencianos, a massa bruta da Urgeira, porque ha o cuidado de conservar alli a maioria dos irmãos.
Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser convidado para irmão da Santa Casa. Por acaso, aconteceu sempre isso em vesperas de eleições. Mero acaso.
Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 irmãos. Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno carneiro com batatas ainda não estava inventado.
Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!
Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.
Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?
Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz fundou—o Asylo?
Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse edificio tão util para os infelizes?
—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um capital de cento e tantos contos, em inscripções, escripturas com hypothecas, e fiadores com paes, manos e cunhados, tivesse apenas algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.
Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?
Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?
Em coisas da Santa Casa, por emquanto, vem só isto á luz do dia.
Ora aqui tem V. Ex.ª um rapido e superficial exame sobre as principaes instituições da nossa terra.
A Politica, a Hypocrisia e a Rotina imperam soberanamente em tudo que póde ser util em Valença. Por isso, quando a gente bate á porta de muitos filhos d’esta terra, que lá fóra, pela sua posição e pela sua fortuna podiam auxiliar novas instituições, só ouve queixas, reclamações e justos resentimentos.
O grande homem da nossa terra seria um velhaco qualquer que em eleição renhida pudesse empalmar o João de Gaiteira, ou o Abbade de Cerdal.
Se alguem conseguisse isso, á noite, na taberna do Pedro, teria uma apotheose de calhos e de chouriço com ovos, de rachar tudo.
—Mas, oh sr. Zinão, dirá V. Ex.ª, então não ha por ahi homens que tenham interesses no Concelho e que lucrem com o seu desenvolvimento?
—Oh, meu senhor! V. Ex.ª sabe quem verdadeiramente mexe os pausinhos da nossa Politica? São os pyrotechnicos da Questão da Santa. São dois homens que teem tantos interesses no Concelho como eu, que por duas perras chicas offereço a V. Ex.ª as minhas propriedades. São os que armam as baralhas.
Não teem um palmo de terra que os interesse no desenvolvimento da Agricultura; não teem uma capoeira nas freguezias, que lhes faça sentir a necessidade de estradas; não teem relações directas ou indirectas com o Commercio, nem com a Industria. Entre elles e as instituições civis ha um abysmo. Nunca fizeram parte d’uma corporação que tratasse do desenvolvimento do Concelho. De administração municipal sabem tanto, como eu sei quem V. Ex.ª é. Influencia pessoal: como são dois, levam dois votos. Tem Politica de sapa. Ensaiam as comedias, põem os actores na rua, mas quando veem fogo nas barbas da vizinhança mettem-se em casa e fecham as portas.
Posso francamente asseverar a V. Ex.ª que esses homens inspiram na povoação mais antipathias do que affectos. Elles que digam a V. Ex.ª se não teem a consciencia d’isso... Aos que lhes fazem a côrte oiço ás vezes cada arcada, em surdina...
Um quer por força pôr o pé nas muralhas para trepar á tina, onde se tingem as meias. O outro surgiu ahi na tripode das sibyllas sem a gente saber como nem porque; dizem que vê as coisas muito ao longe. Ás vezes adivinha, mas se dá a palavra d’honra... é tolice certa.
Ora, como na terra dos cegos e dos dorminhocos quem tem um ôlho é rei, os homens por cá vão arranjando a sua vida muito honradamente e livres de vergonhas do mundo.
Esses dois maioraes representam os dois partidos; porque nós, meu senhor, nominalmente, tambem temos dois partidos, como as terras grandes. A gente é sempre a mesma.
V. Ex.ª recorda-se do que succedeu ha quinze dias, em S. Pedro, com os comparsas d’aquelle Auto dos Moiros e Christãos?
O Zé da Cancella, o Chico da Aguilhada e o Tóne do Pernicas, no primeiro domingo faziam de judeus. N’aquella scena em que, por ordem do Bento Cambádas, que era o Herodes, matam os innocentes, o publico e especialmente o mulherio, escamou-se com elles, mandou-os p’ro raio que os parta e correu-os a soque.
No outro domingo nenhum d’elles quiz fazer de judeu e para que a peça se representasse, metteu-se o Senhor Abbade no caso. Os que eram christãos passaram para judeus e vice-versa.
Cá, nas farças da nossa Politica, succede o mesmo. Quem faz de Abbade é o Senhor Administrador.
Ora aqui está, meu senhor, a razão porque o Concelho ganhou o titulo de burgo podre e a razão porque a gente, quando vae offerecer o circulo a pessoas serias, como succedeu ha mezes, é posta no ôlho da rua pelo creado da casa.
Voltemos á Questão da Musica e encaremol-a pelo seu verdadeiro aspecto—o comico.
Esta celeberrima questão, decomposta nos seus factores, baseia-se n’uma simples formalidade, n’uma pueril e ridicula ceremonia: a licença do Conde de Lippe, a licença do Administrador, ou uma e outra concedidas ao mesmo tempo.
É um caso comico, como o do Hyssope.
Examinemos:
A Musica é a applicação artistica do som; influe poderosamente em a nossa natureza psychica, quer a agite com as sonatas de Beethoven, em que o Sentimento nos apparece burilado e subtil, como uma cinzeladura de Cellini, quer tumultue nas estranhas innovações de Wagner, em que a Harmonia, á primeira audição, nos fére de imprevista e áspera.
Decomposta nos seus elementos, a Musica reduz-se a simples vibrações, transmittidas pelas ondas sonoras. No caso presente, visto que na Questão da Musica se trata d’um grupo de labregos, que selvaticamente mortificam os nossos apparelhos auditivos, essas vibrações que, pela instrumentação, se transformam na Harmonia, partem do organismo humano.
Examinando o organismo humano, verificamos que os elementos essenciaes á potenciação d’essas vibrações podem, egualmente, ser fornecidos pelas duas extremidades do canal digestivo e modulados, ou regulados, pela articulação da maxilla inferior, ou pela elasticidade muscular do esphincter.
A composição molecular d’esses elementos será pois: oxygenio, azote, acido carbonico e vapor de agua (caso a), ou: hydrogenios carbonado e sulfurado e acido carbonico (caso b).
A sua acção vibratil chama-se vulgarmente sôpro, ou bufo; e n’esta ultima designação, que é a mais geral, para distincção dos dois casos a e b relativos á composição molecular, costuma o povo usar do genero masculino no primeiro caso, e do feminino no segundo.
Assim, por uma rigorosa analyse, de deducção em deducção, chegamos ao seguinte resultado: que a essencia (caso b), o valor, a importancia d’essa celebre questão, que fez perigar a paz das nações e que, por ahi, inspirou tanta facecia e tanto remoque de fino espirito—é um simples caso de sôpro, é um reles caso de bufo (b).
E continuando a empregar o methodo deductivo, visto que esse caso foi o producto d’uma laboriosissima gestação politica, com muita vigilia, muita tactica e muito estudo, por isso que foi cuidadosamente preparada pelos dois partidos contendores—visto que elle symbolisa e exprime os valimentos intellectuaes e politicos dos chefes e maioraes—afoitamente podemos dizer, synthetizando: tudo isso e todos elles não valem um bufo! (b)
Politiquemos:
Os dois partidos prepararam com longa antecipação, no remanso dos gabinetes, esse estupendo acontecimento.
Mediram-se as forças, calcularam-se os accidentes, preveniram-se as hypotheses, estudou-se cuidadosamente o terreno, escolheu-se a hora e inventou-se o pretexto. A malandragem de Ganfey foi assoldadada para deitar fogo ao rastilho.
Na vespera de rebentar a bomba, descobriram-se os jogos e todos ficaram logrados. Um dos chefes recebia ordem para ficar ás ordens do outro; este, esbarrava a cabeça na estupidez do Zé Povo e nos barrancos que a sua inepcia cavára.
Cá a gente (já se vê) n’essas alturas, arrebitava a pança com o brodio, a vêr os toiros de palanque; e, como elles ainda escabeceiam no curro, vae-lhes mettendo a sua farpa muito honradamente.
Depois da explosão da coisa, principiou a desembestar-se por ahi a mais sordida mistela de pilherias apanascadas, que tiveram echo no districto, como se o ridiculo de tudo isso não fosse bastante para nos fustigar o rosto e alvoroçar o sangue.
A partida perdeu-se. Quem a pagou (e foi carita) chorou sete dias e sete noites. Os pyrotechnicos metteram-se em copas. É da praxe: nas barracas do Pim-pam-pum, quem ageita os bonecos não paga entrada. Entra pela prenda...
Farpeemos...
Depois d’essa dejecção politica, os campos conservam-se armados, medindo-se os adversarios com rancor. No meio d’elles, lá está o sôpro, o bufo (caso b)—eterno pômo de discordia.
Progressistas teimam em obstar que a gente em occasião de festa, possa, á noite, dar a sua gaitada por essas ruas e muralhas.
Regeneradores, pela penna auctorizada do Senhor Joaquim, como Juiz da Senhora da Saude, invectivam o Ministerio, reclamando a livre expansão do bufo (b).
E agora, que estamos em maré de syndicatos, n’esta carencia de bufo (b) muito dinheiro podiam ganhar alguns senhores cá da terra e aquelle barqueiro de Vigo...
Ha coisas que, guardadas, engarrafadas, servem para occasiões de falta e dão muito dinheiro...
O certo é que não se obtem licença para Musica dentro de Valença; ou porque seja negada por mero capricho do Senhor Administrador, ou porque a recuse o Lippes.
Porque nós—louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo—somos cidadãos tão portuguezes, como os de Coura; pagamos decima, como os de Coura; damos votos, como os de Coura; fazemos filhos para o exercito, como os de Coura, mas não temos as liberdades civis, que teem os de Coura.
Pelos modos, ainda nos corre nas veias algum resto d’aquelle bulhento sangue dos nossos antepassados, os soldados de Viriato, que, segundo diz o Senhor Joseph Avelino, tanto assarapantaram o mundo com os seus feitos; e o Governo, em vez de uma auctoridade administrativa, manda-nos duas!
—Quer V. Ex.ª dar a sua gaitada? Precisa de dar o seu bufo?
Tem de ir pedir ao Administrador e á Praça; e antes de transitar por essas ruas tem de bufar, voltado para a casa do Governo. Se offerece as primicias do bufo á Camara, ou á Administração, a Praça amua e ha baralha, como succedeu com a fanfurrilha gallega.
—Tem V. Ex.ª fogo em casa?
Acodem, logo, da Praça e da Administração:
—Mando eu.
—Não mandas tu.
—Apago eu.
—Apaga tu.
Levanta-se questão; tudo grita, tudo berra, e V. Ex.ª, para se livrar de prejuizos, o que tem a pedir ao seu Anjo da Guarda é que o deixem ficar sósinho com o fogo, que é mais socegadinho e pacato.
—Ha banzé no theatro, ou na rua? Lá os temos em disputa.
De fórma que, se um dia, V. Ex.ª por esquecimento, por descuido, larga o seu bufo (b) na cara d’uma das auctoridades, e sem a devida licença, leva pancada dos dois.
É preso. Chega um paysanduco e agarra V. Ex.ª pelo braço direito. Vem o Balagota e agarra-o pelo esquerdo.
—Venha para a Praça!
—Venha para a Administração!
Puxa um; estica o outro.
V. Ex.ª atrapalha-se, reclama, gesticula, bufa... (b)
Se o faz na cara do paysanduco, mais pancada leva. Se mimoseia o Balagota, este põe-se ainda mais amarello do que é, e apita.
Santo nome de Maria! O que ha-de a gente fazer?
Sem musica, sem bufo não se póde passar. Fossem-no lá prohibir ao Senhor A. Seixas! Estoirava... de raiva.
Dentro de casa, felizmente, ainda V. Ex.ª póde mandar tocar a Musica e dar o seu bufo; mas eu estou a vêr isto de tal fórma que, d’aqui a pouco, se V. Ex.ª, em qualquer sitio, na sala de visitas, na cama—por exemplo—lhe appetece bufar, tem logo, ao seu lado, um paysanduco e o Balagota, procurando, investigando, cheirando, esmiuçando, por cima e por baixo da cama, levantando, até, a roupa para metterem os narizes (imagine V. Ex.ª a sua desgraça se, para essa operação, lhe apparece o nariz do Dr. Ladislau...) e berrando depois, irados:
—Aqui deu-se um bufo!
E V. Ex.ª terá de pedir perdão, confessar o crime, ou desculpar-se humildemente, dizendo:
—Não dei, não, senhor! E se dei... não foi por querer...
Ora a nossa desgraça!
Oh gentes do Kalakana! que dizeis a isto?
Esta interrupção dos tubos... musicaes—claro é—vem a acabar; e com a mesma imbecilidade, com que actualmente os progressistas impedem a livre circulação do bufo, os regeneradores, subindo ao poder, hão-de metter cá dentro, quanto nedio folle por ahi haja, previamente reforçado com alimentos explosivos.
E n’esse dia anti-pituitario, em que tenho de encontrar: uns, de vexados, em casa ou fugindo de corrida ao apupo; outros, de pança tesa e cara alegre, abraçando-se por essas ruas—e todos, supinamente idiotas e essencialmente ridiculos—cá me tendes, oh bufos e anti-bufos!, para vos estralejar nas ventas a mais sonora gargalhada, que gentes de Valença teem ouvido!
E tenho tambem uma idea...
Emfim, vocês merecem recompensa, pelo enthusiasmo com que teem tratado d’essa questão, de grande valor e importancia para a terra. Mastigae já em secco e ouvi lá marotinhos: (mas caluda, por emquanto):
Nos cómes-e-bébes dos philarmonicos hei de misturar umas gottasinhas d’um certo elemento drastico
—Oleo de Croton Tiglium—por exemplo, para que elles, nas ruidosas e puxadas explosões dos seus bufos, vos possam dar tambem—oh progressistas e regeneradores do pataco!—algo mais de...
...solido!
Toca a aguçar a dentuça, Politiqueiros de meia-tigela!
XV
As Muralhas
Em que condições vivemos?
Com pejo hesito em denuncial-as.
Vivemos acorrentados ao estupido regulamento, dado ás gentes, ha perto de seculo e meio, pelo Conde de Lippe.
Vivemos como os forçados e os grilhetas—cercados de muralhas.
O que significam, hoje, as muralhas?
O retrocesso, o dominio brutal da pedra; isto é, Pasteur, Edison, Comte, Jenner, Spencer, Hugo, Castelar, Capello, Ivens, Herculano, Pestalozzi, Broca, Kossuth, Humboldt, Chevreul, Wurtz, Lesseps, Eiffel, arremessados para a barbarie dos tempos primitivos, para a idade paleolithica, em que o homem usava cuecas, cozinhava de cocoras, contava pelos dedos e pescava trutas á unha, porque desconhecia, ainda, a engenhosa disposição do anzol e a grande vantagem da minhoca.
Significam os combates dos barbaros; a bruteza dos despotas; as luctas fratricidas; o assassinato legal; a ambição copulada pela força; a lucta braço a braço, arca por arca, alma a alma; a feroz e brutal sensualidade do vencedor, que sorve dos labios do vencido o ultimo alento; o escabujar do moribundo nas vascas de cruissima agonia...
Significam as pontes levadiças, o embate de duas ondas humanas que se chocam, se enroscam, se atropelam, se mordem e se agitam por fim, convulsivamente, n’um montão disforme de farrapos, de carnes ensanguentadas, onde rouquejam as maldições, os estertores, até que as rodas da carreta, ou as patas ferradas d’uma mula acabem de esmagar, de confundir e triturar.
Significam o assedio, o bombardeamento, o incendio, a fome, as mil privações e sobresaltos; a viuvez, a orphandade, o lucto—a morte; isto é: quatro pás de terra sobre um corpo amado, que jaz hirto e nú, ahi para qualquer canto, sobre o monturo, proximo á Sexta; as canções roucas e truanescas dos coveiros do Hamlet; o uivar sinistro da canzoada lazarenta, que escancara as mandibulas, esgaravatando a terra para esfarrapar as carnes; o crocitar lugubre dos corvos, que revolteiam no azul dos céos, espreitando lauto e succulento festim no rebordo ensanguentado das feridas...
Significam a agonia lenta, afflictiva; o velar-se da vista nas sombras da Morte e, n’esse debil bruxolear do espirito, a visão meiga e então dolorosa da familia, da infancia, dos affectos que nos ligaram á vida sem que, collados os labios, confundidos os alentos, n’um derradeiro olhar e n’um derradeiro beijo, se possa desprender a alma entre almas que nos amaram.
Com que veneração e respeito eu conservaria uma das tuas cans, benemerito Pasteur, apostolo bemdito do Bem, e com que tremendo pontapé eu te esmigalharia o busto, se aqui o tivesse, feroz Napoleão, negro chacal da Morte, para quem são poucos todos os horrores e tormentos, que a genial e portentosa imaginação de Dante phantasiou nos seus nove circulos!
Felizmente, toda esta sentina de granito que os espiritos bellicos e phantasistas denominam formidolosa Praça, nunca teve um real de importancia, na historia militar do nosso paiz.
Isto foi sempre o que hoje é—uma feira da ladra de tarecos velhos e de cacada guerreira.
Quando em 1809, Soult atravessou a fronteira, o aspecto d’esta carcassa não o atrazou um minuto na marcha. Passou ao largo, sorriu, atirou cá dentro meia duzia de obuzes e continuou em paz o seu caminho. Palpitou-lhe que não valia a pena subir a Gaviarra, porque não tinhamos custodias d’oiro para roubar, nem preciosidades artisticas; n’essa epocha não existia o muzeu do sr. Sampaio, nem se falava na mystica collecção do Albininho.
Em 34, Napier, a cavallo n’um burro pôdre, veio de Caminha a Valença, seguido por um pelotão de marujos inglezes. Sem estribos, com a volta das meias cahidas sobre os sapatos, rindo com bom humor, berrou alli da Esplanada: «Ao governador de Valença! Senhor: tenho uma esquadra em Caminha e se vos não entregaes, mandarei buscar cem peças de artilheria, cercarei a praça e a vossa guarnição será passada á espada.»[38]
D’alli a um quarto de hora, Napier estava cá dentro.
Depois d’isso, os grandes successos militares da nossa terra limitam-se a breves assedios, nas luctas civis de 37 e 47. Houve muito susto, muito fanico nos dois sexos, alguma granada para espalhar tristezas, e assim se arranjou um simulacrosito pacato e economico d’um cerco em regra, como o que soffreu, ha 19 annos, Strasburgo—(senhoras e senhores, que ainda fallaes com pavor de 37 e 47)—em que aquella desgraçada cidade teve constantemente, vomitando a morte e a ruina para dentro dos seus muros, umas 170 boccas de fogo—ninharia que devia fazer um poucochito de barulho...
Mas apesar d’isso, de nada valeram os ultimos assedios; eu—com franqueza—sinto-me muito mais feliz do que os srs. Manoel Antonio de Barros, José e João Seixas, Santa Clara e outros que assistiram a essas tristes scenas das nossas dissenções politicas; e sinto-me mais feliz, porque, emfim, não me destinou Deus para emprezas guerreiras e contento-me em conhecer os effeitos e propriedades da polvora nas bichinhas de rabear do S. João, ou nos devaneios pyrotechnicos da palerma Urgeira, sem offensa para o sr. Chiquinho Veiga.
Mas vejamos qual é a necessidade de conservar essas odiosas reliquias dos tempos barbaros e qual a razão que se oppõe, a que nos seja permittido o que já conseguiram outras terras da fronteira, como Caminha, Cerveira, Monsão e Melgaço—o arrasamento de tão brutaes construcções.
Será a posição estrategica?
Condições excepcionalmente favoraveis na opposição a uma invasão extrangeira?
O inexpugnavel d’aquella posição?
Cartas na mesa, teias d’aranha limpas e jogo franco, senhores da alta militança, lá das Secretarias da Guerra.
Toda esta coisa, com as suas muralhas, baluartes, fortes, contra-fortes, revelins, fossos, falsas bragas, casamatas, cortinas, tenalhas, poternas, escarpas, contra-escarpas, banquetas, meias-luas, taludes, pontes levadiças, abobadas, etc., etc., que constituem na sua complicada relação a arte de Vauban, toda esta coisa, repito—não vale um pataco sebento do sebentissimo D. João VI!
E tanto não vale um pataco, que apesar do apregoado valor estrategico augmentar com a Ponte internacional e de os engenheiros militares terem lembrado, quando se construiu a linha ferrea, certas obras que garantissem as condições da defeza, prejudicada com os aterros e desaterros—até á data nada se fez, nem se fará, se Deus Nosso Senhor quizer.
E tanto não vale um pataco, que se eu tiver em Lisboa um bom trunfo politico para empenho: se eu fôr, por exemplo, um João da Gaiteira, elevado politicamente em potencia votante, ao quadrado ou ao cubo, obterei, não só licença para construir nos arrabaldes da Praça, como, tambem, limite de altura superior ao que eu desejar, embora a isso se opponham todos os paysanducos e todos os regulamentos do sabio conde de Lippes.
Ora, de duas, uma: é ou não é importante o valor estrategico da Praça?
Não é. Dil-o a sua historia; dil-o a historia das ultimas campanhas europeas e encarrega-se de nol-o dizer o Governo de S. Magestade, quando o apertam com a tarracha do voto.
Será parvoiçada suppor que, no caso d’uma invasão, o inimigo se deteria por um momento com as momices e os esgares d’esta desdentada carcassa.
Perguntem a Strasburgo, a Verdun, a Bitche, a Toul, a Soissons, a Metz, a Schelestadt, para que lhes serviram as vantagens do terreno e as prevenções de Vauban.
E sendo nullo o apregoado valor estrategico, que outra causa fundamenta a estupida prohibição que se oppõe á construcção de novos edificios, ao desenvolvimento de povoação, tornando odiosa a missão d’esse official que, com um curso de engenharia e com a elevada orientação scientifica, que hoje se obtem nas Escholas superiores, ahi está de sentinella ao regulamento senil que tresanda a raposinho, a catinga, e de que a rotina, o egoismo, e por vezes a velhacaria fazem instrumento de valimento e, até, de vinganças pessoaes?[39]
Attende-se á probabilidade d’um cerco, d’um acampamento, e á necessidade de inutilizar, rapidamente, ao inimigo quaesquer pontos de abrigo?
Mas, oh Molkes pataqueiros! Então prohibis que em minha casa possa elevar meio palmo ao cano da latrina, impedis que no meu quintal levante uma barraca para guardar as melancias e os nabos, e deixaes ahi cavar, a dezenas de metros da praça, esse desaterro, onde se abriga uma divisão com as respectivas familias, se tanto fôr necessario?
Impedis que lá fóra, na minha horta, levante um pau com o gallo, para catavento, ou equilibre quatro taboas, que um cão, alçando a perna no exercicio de certa funcção, faz cahir, e mandaes construir essa outra fortaleza de granito—a estação do caminho de ferro?
Admittindo, mesmo, que o inimigo se estabelecesse para cá da fronteira, que seria de Valença se no Faro, no Marco, ou em qualquer outra eminencia, elle assestasse quatro canhões Krupp, Bange, Amstrong ou Fraser, que arremessam projecteis com menos peso do que as vossas cabeças—verdade é, porque não teem tanto municio—a 12 e 16 kilometros de distancia?
Para que nos asphyxiaes, pois, com estas montanhas de pedra, militarões lá das altas repartições da Lysbia, estrategicos de meia tigela, que por ahi inficionaes de rheumatismo, de gotta, de rapozinho e de pingo simontado o que póde haver de proveitoso e util nas instituições militares da nossa Patria?
As muralhas para nada mais servem do que para attestar aos extranhos que—portas a dentro—o Progresso deixou de actuar.
Servem, como pittorescamente disseram, ha mezes, uns lisboetas que ousaram entrar cá dentro: para impedir que a porcaria e... manchem a belleza dos arrabaldes; servem para balde do lixo, das immundicies, e para os habitantes da villa satisfazerem, prompta e commodamente, um determinado numero de necessidades, tanto em funcções de reproducção, como em funcções de nutrição.
Servem para a gente se desfazer das ninhadas de gatos, que a Malteza arranja em janeiro com as suas serenatas ao luar; servem para uma entrevista baratinha e recatada com pudibunda sopeirinha; servem para manter certas artes e officios; servem para fornecer o Hospital militar de bronchites, tysicas, pneumonias e doenças assizicas, que essas desgraçadas sentinellas arranjam em larga copia nas frigidissimas noites de inverno, quando o nordeste, que corta e açoita, as apanha amarradas com a trela da disciplina á carreta d’uma peça rachada, vigiando que o gallego não escale as muralhas e a leve para berloque da cadeia.
E servem, mais, para sustentar essa coisa caduca, ridicula, inutil, offenbachicamente intitulada o
Governo da Praça!
—Governo da Praça!
Raciocinemos logicamente.
Qual é a idea implicita n’este titulo?
Commando, direcção na defeza da dita Praça.
O que exigem estas funcções?
Conhecimentos estrategicos e noções de todos os ramos da moderna Sciencia militar, alliados ao senso, ao valor, á prudencia, ao prestigio e á energia.
A quem tem sido confiado tão importante cargo?
Ao Zé da Rosa...
Ora, meus senhores, com franqueza; eu aposto aquillo de que se faziam as barretinas, quando não eram da pelle d’urso, se—declarada a Praça em estado de sitio e confiado o commando supremo com a direcção de tudo ao Senhor Zé da Rosa—a cavallo n’um cabo de vassoira, com um espeto de assar cabritos, com tres malzabetes, dois paus-reaes e um fileiras, não tomar Valença e não levar a toque de caixa na minha frente até ás Bornetas, o Senhor Governador e todo o seu Excellentissimo Estado-maior!
E para isto, para conservar a esta latrina uns apparatos bellicos de opereta, estou eu arriscado, por um descuido, por uma descarga electrica, a dar o meu passeio aereo até aos reinos da Lua, com a conservação estupida de milhares de kilos de polvora, que uma noite podem ter a phantasia de condemnar a minha humilde pessoa áquellas maravilhosas viagens de Julio Verne.
Ora, além do perigo, imagine V. Ex.ª a que enormes responsabilidades, a que enormes complicações diplomaticas, a que enormes indemnisações o nosso Governo se arrisca, conservando por cá essa materia explosiva, que dava para tanta bichinha de rabear e para tanto caganitão, se lhe quizesse dar applicação differente da que ella hoje felizmente tem: estoirar fragas e rasgar montanhas para facilitar o avanço da locomotiva.
Imagine V. Ex.ª que em noite estrellada de agosto, Don Benito Naveas e sua Ex.ᵐᵃ Familia tomam socegadamente o té, na sua habitacion de Tuy.
Don Benito, fiel ao partido legitimista encarece mais uma vez a bondade e os merecimentos de D. Carlos, commentando tranquillamente entre saboreadas fumaças d’um pitilho e goles de té, as noticias que, sobre o Pretendente, em o numero de miercoles, apresenta La Integridad, luminosa gazeta assotaina da inventora dos malzabetes.
«Con securidad, Don Carlos és muy bueno hombre; una gran cabeza; el unico rey que debia gobernar la Espana; es un hombre de religion, y que tal... y que sei yo...»
Subito, ouve-se um estampido medonho. A casa abala-se nos seus alicerces; as paredes oscillam; as traves gemem; as loiças tocam nos aparadores e saltam em furiosa dança macabra. Ouve-se um crac medonho, fende-se o tecto e apparece em cima da mesa del comedor... quem?—o Senhor Abel Seixas, em pello e em cabello, tal qual estava na cama, sem chinó, pança sumida e olhinhos espavoridos!
V. Ex.ª ri-se? Pois o caso não é para isso. Se chegam uma isca de fogo ao paiol, a qualquer de nós póde succeder o mesmo.
E diga-me V. Ex.ª quanto teria o nosso Governo de pagar a Don Benito pela perturbação do seu socego e—o que é muito peor—pela alimentação d’esse insondavel abysmo—a barriga do snr. Seixas—emquanto este cavalheiro, arrancado bruscamente do seu leito e atirado por esses ares em escandalosa nudez, se recusasse, pudicamente, a ostentar pelas calles de Tuy, no regresso á Patria, as linhas bambaleantes das suas formas esculpturaes.
Matutae sobre o caso, homens da Governança!
XVI
A Manifestação de 14 de Janeiro[40]
(PROTESTO)
Para cá dos limites que tracei á critica dos acontecimentos, por qualquer aspecto evidentes e impressionaveis na chronica politica d’esta terra, disponho hoje, serenamente, os apontamentos colligidos sobre a manifestação de 14 do corrente, para os sujeitar á analyse recta e imparcial, isenta de considerações pessoaes ou collectivas, sem tergiversações de ameaças ou de lisonjas, a que subordinei o programma dos Sinapismos.
Á frente d’essa manifestação eu vi homens a quem dedico verdadeira amizade; que respeito nos actos da sua vida particular; que me honram com as suas relações, porque se impõem á consideração de Valença pelo seu caracter digno e pela sua honradez inconcussa.
Esses homens organizaram uma manifestação popular, que annunciaram como patriotica e que outros classificaram como politica. Inspirada no amor da Patria, ou na paixão partidaria, essa manifestação, evidenciada nas ruas e nas praças, discutida na Imprensa como expressão dos sentimentos d’uma parte da população, perdeu o caracter, para mim respeitavel, d’um acto isolado da vida particular e adquiriu a importancia d’um facto social, publico e, portanto, sob o dominio da critica.
Abstraio, pois, do meu espirito as relações que me unem a essas individualidades, e nos periodos que vou ordenar para a composição d’este artigo, declaro, outra vez ainda, que aprecio a manifestação promovida por um grupo anonymo de cidadãos e não por um grupo de individuos, d’esta ou d’aquella classe, d’aquella ou d’esta côr politica.
A violencia da phrase com que tenha de censurar qualquer aspecto d’essa manifestação, que me pareça menos digno, não irá, pois, desvirtuar a sinceridade de relações, mais ou menos affectuosas; nem poderá, tambem, ser reputada como indicio de adhesão a opiniões já manifestadas por quem, em identicas apreciações, se deixa desorientar pelas paixões partidarias que levam a applaudir toda a inepcia d’um grupo em que se está filiado, e a estigmatizar qualquer idea, muitas vezes util e proveitosa, suggerida pelos contrarios.
Esta é a missão do critico e praza a Deus que a consciencia nunca me accuse de escrever o contrario do que ella, á luz da imparcialidade e d’um livre criterio, dieta á minha penna.
Nos periodos d’este artigo abandono a feição humoristica dos restantes. Tenho de me referir á crise dolorosa por que actualmente passa a alma da nacionalidade a que me orgulho de pertencer; e n’essa referencia, quando a humilhação nos ruboriza as faces e a recordação das passadas grandezas nos amargura e entristece, o sorriso seria uma villania e a gargalhada seria uma infamia.
A força inicial dos acontecimentos de 14 do corrente não se póde attribuir á expansão d’um sentimento patriotico, provocada pela recente affronta de Lord Salisbury; na agitação do grupo que promoveu a manifestação não vibrou a alma da Patria: tumultuou o espirito d’um partido.
Mas de qualquer caracter, patriotico ou politico, essa manifestação, nas condições em que se realizou, envolvendo a bandeira nacional e a responsabilidade d’uma povoação, não merece classificação diversa da que se póde exprimir com estas palavras:
foi aviltante para Valença.
Os homens que a promoveram não teem direito á consideração e, muito menos, ao applauso dos seus conterraneos, porque não são patriotas sinceros, nem politicos dignos. São escravos inconscientes da politica sertaneja, d’essa degradante aberração de principios sãos, de crenças firmes, de convicções honestas, que desorienta, humilha e arrasta pela lama da indignidade, caracteres respeitaveis e talentos privilegiados.
Envolveu-se n’essa manifestação a responsabilidade de Valença.
Pois, em nome dos brios d’um povo que é portuguez, em nome d’uma terra que amo, e que se faz respeitar no paiz pela auctoridade intellectual dos filhos que a representam nos mais elevados cargos sociaes—eu protesto contra o labeu infamante, com que o grupo organizador da manifestação de 14 do corrente aviltou a nobilissima attitude da Patria na desaffronta d’um insulto e na defeza de direitos conquistados pelo sangue d’esses heroicos luctadores que,—transpondo novos oceanos e descobrindo novas constellações, arrostando os ignotos perigos do Mar Tenebroso que a phantasia popular envolvera na nebulosa dos mythos, luctando contra a aspereza de inhospitos climas e contra as rudes vicissitudes da guerra,—ás mais remotas regiões, ás mais distantes e mysteriosas paragens, levaram o nome portuguez, desfraldando a bandeira, onde não se lia, como nas dos modernos exploradores inglezes: Infamia e Oppressão, mas:
Liberdade. Civilisação. Progresso.
—Impulsionou-nos, dizem, o amor da Patria.
Discutamos, então, a manifestação, sob esse aspecto.