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Sinapismos

Chapter 29: NOTA
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About This Book

A collection of satirical sketches and humorous essays that lampoon local social life, exposing hypocrisy, vanity, religious cant, and inequality through ironic portraits, anecdote, and biting commentary. The author declares a program of social cure by ridicule, balancing respect for private family life with pointed attacks on public pretensions; pieces range from playful ridicule to harsher sarcasm motivated by attachment to the homeland. Interwoven are appeals to the poor and scenes of scandal, caricatures of officials, clergy, and bourgeois customs, all organized as short, conversational pieces intended to provoke laughter, reflection, and civic self-examination.

XVIII
Uma recita de curiosos
(FRAGMENTO)

..............................

Passou-se ao segundo acto.

O panno subiu, e á luz da ribalta appareceu o Nascimento.

Nascimento—diga-se a verdade—não é precisamente um Brazão.

Tenho assistido, por vezes, aos trabalhos d’este actor. Brazão ri, chora, soluça, tem arrancos de colera, tem na voz a doçura d’uma supplica, a suavidade d’uma prece, a meiguice d’um carinho, o vigor d’uma maldicção, o rugido d’uma ameaça.

A melancholia da saudade, as expansões do amor, as torturas do remorso, as angustias do ciume resaltam nitidas, vibrantes, envolvendo-nos a alma—comprimindo-a, dilatando-a—com o fluido subtil de uma verdadeira interpretação artistica.

Por doze vintens, eu tenho visto o Nascimento fulgurando na gloriosa constellação—grande Ursa dos nossos céos artisticos—de que fazem parte: Sampaio, Guilherme, Aurelio, Romano, Machado, Ernesto.

Com franqueza:—sem querer irritar a indisposição que no espirito do Nascimento violentamente se denunciou contra o Zinão, sem querer amesquinhar o culto idolatrado que elle nutre pela Arte dramatica, ou apoucar as suas aptidões—direi em homenagem á Verdade: Nascimento é um barbaro!

É um barbaro quando pisa o palco, porque não tem naturalidade, nem expressão, nem relevo.

Apresenta-se em todas as scenas com o mesmo fato amarello, de tecido africano, que o Isidoro lhe empresta; tem para todas as surprezas o mesmo oh!; para todas as dores o mesmo: ai Jesus!; para todas as saudações o mesmo: ora viva!; para todos os cumprimentos o mesmo: Comoestá? Passoubem? Bemmuitoobrigado.

Os pés soldam-se-lhe ao pavimento: as peças das articulações unificam-se, como se as membranas synoviaes segregassem chumbo derretido; os musculos tomam a rigidez do aço, permanecendo hirtos, inteiriços, refractarios ao imperio da vontade e á malleabilidade dos sentimentos.

Não tem flexibilidade nos movimentos, nem elasticidade nas formas que as diversas situações exigem, porque uma barreira de frieza e de immobilidade—quiçá composto de espessas cellulas philosophicas (?)—se oppõe á intima e immediata transmissão dos phenomenos psychicos aos orgãos e ramificações do systema nervoso.

Predominam em todas as modulações da sua voz aquellas notas seccas, asperas, do: Carregar! Alto!

Denuncia-se em todas as posições a rigidez d’aquella linha d’uma convexidade opisthotonica, que a Ordenança militar traça para o Perfilar!

E assim, Nascimento, como Boticario da Morgadinha, como carcereiro de 1640, ou como Mano Gaspar do Mano Aniceto—é sempre o mesmo Nascimento: gordinho, obeso, rechonchudo, espartilhado, vestido de mabella africana.

Todavia, estudando as minuciosidades dos seus trabalhos dramaticos, analysando a mechanica dos seus movimentos, comparando a dynamica dos sentimentos que elle tenta exprimir com as manifestações da sua vitalidade no convivio diario e com os actos exteriores da sua existencia social, eu chego á seguinte conclusão que poderá ser considerada como paradoxal: Nascimento, no desempenho dos seus papeis, na interpretação d’um caracter, na reproducção d’um typo, consome mais Sentimento do que o Brazão. O seu trabalho psychico é superior ao d’aquelle artista; na sua alma as situações definem-se, as individualidades esclarecem-se, as faculdades actuam. Nascimento pensa, sente e quer, como Boticario de Val d’Amores; mas o que não possue é esse colorido, ou—por assim dizer—essa moldura artistica que dá relevo ás interpretações e vida aos personagens.

E como a sensibilidade affectiva é um requisito indispensavel ao actor, e talvez o mais essencial, porque é ella que o guia nos reconditos escaninhos da alma de Hamlet, Nascimento, que possue essa faculdade em superior grau, tem direito a ser considerado a par de Brazão, dos Rosas, e até, ao lado de Lekain, de Kean, de Rossi, de Irving, de Kronsweg.

Vou demonstrar a existencia d’essa sensibilidade apuradissima no Boticario da Morgadinha.


Nascimento tem um sanctuario:—a sua officina.

Alli passa as noites e os dias, com a blusa de operario,—aplainando madeiras, envernizando quadros, esquadrando molduras, curando a telha dos relogios, deitando gatos em terrinas quebradas, endireitando a espinhela a leques, brocando pulseiras, parafusando engrenagens, limando metaes, furando boquilhas, cinzelando coronhas, soldando rabos de colheres, aguçando pinos, collando cacos, cosendo botões, deitando pingos em panellas, enfiando agulhas, inventando flores exoticas de couvelórinton, preparando pilhas, misturando acidos, bases, metaes, metalloides, oxydos, protoxydos, bioxydos, azotatos, azotitos, chloratos, chloretos, chloritos, etc., etc.

Nas horas de descanço que as suas occupações lhe permittem, sente-se feliz com as multiplices e encyclopedicas applicações da sua actividade e do seu engenho; consome, pacientemente, sessenta e quatro horas com o encaixe d’uma insignificante peça de metal para a sua locomovel microscopica; aplaina e replaina o empeno d’uma taboa para a sua mobilia; gasta uma noite, duas noites, trez noites com o estudo analytico da reacção d’um acido sobre uma base.

Com a applicação d’uma lei chimica, no desenvolvimento d’uma formula mechanica, na adaptação d’uma propriedade physica, Nascimento concentra todo o seu ser, toda a sua actividade mental, abandonando as distracções, os prazeres, e esquecendo-se até, das horas das refeições.

No seu cerebro amontoam-se os projectos, chocam-se as theorias, amalgamam-se as applicações.

Tem o arrojo de Lesseps, a tenacidade de Edison, a phantasia de Eiffel.

A sua alma, o seu corpo, os seus orgãos, os seus musculos, estão alli:—no torno, na serra, no serrote, no brocador, no pichel da colla, no arame dos gatos.

O seu engenho tem o quer que seja de epileptico: ataca trinta emprezas ao mesmo tempo: mobilias, machinas photographicas, installações electricas, bobinas, telegraphos, telephones, phonographos, campainhas de alarme, etc., etc.

Vencidas as difficuldades, contornadas, cortadas e limadas as peças, nova explosão de inadiaveis projectos interrompe a conclusão dos antecedentes; e assim, Nascimento, fazendo tudo, nada faz, porque a epilepsia do engenho dá ás suas obras a incommensurabilidade do Infinito: todas tiveram principio e nenhuma tem fim.

Como se pode explicar, pois, que, annunciada uma recita de Santo Antonio, ou da Morgadinha, este homem abandone immediatamente o seu meio, o seu sanctuario e enthusiasticamente se venha offerecer para desempenhar o papel de Mano Gaspar, ou de Boticario?

Pela extrema sensibilidade das suas faculdades affectivas.

Nascimento lê o drama, a comedia, ou a scena comica; a sua alma vibrou, agitou-se com o caracter d’este ou d’aquelle personagem; identificou-se com os sentimentos do galan, ou do comico; e, possuido de irresistivel enthusiasmo, abandona a officina, troca o alicate ou o saca-trapos pelo caderno almaço e lá vae para as muralhas metter na cabeça, em giros constantes—para traz, para deante—os periodos do papel.

Este enthusiasmo, em qualquer de nós—no Albino, por exemplo, que já representou de mulher, nos paysanducos, eximios na Comedia—seria uma coisa vulgar, insignificante; mas no Nascimento que nós conhecemos e que eu examinei na officina, revela uma enorme tensão de faculdades affectivas.

Os trabalhos do Brazão são correctos e são artisticos; mas este actor adquiriu já a physiologia dos sentimentos; os seus musculos contraem-se, por assim dizer, inconscientemente, independentes do imperio da vontade, como nas acções reflexas. Mostra no rosto a agitação d’um mar de paixões, quando na alma tem a tranquillidade d’um lago.

Alem d’isso, Brazão tem o scenario de D. Maria; tem o Keil, a luva do Baron; o talhe elegante, o perfil distincto, a perna flexivel, o bigode loiro, o monoculo—todas essas pequenas coisas que emmolduram e aristocratizam o actor.

Nascimento tem o desbotado scenario do nosso theatro, ainda saturado de irritantes aromas dos meios com cebolada que, ha annos, o meu amigo S. Lima arremessava ás fauces de toda a tribu pica-calcantes; tem a roupa de mabella; a rigidez linear da Ordenança conturbando a flexibilidade dos movimentos; a reacção dos acidos paralysando a acção dos nervos centrifugos; o ordinario marche! pruindo compassadamente na sola dos pés e na barriga das pernas...

*

Examinado pelo prisma da Arte, Nascimento actor é—repito—um barbaro. Mas analysado pelo prisma do Sentimento revela-nos uma organisação especialissima, que seria a gloria de nossos palcos e da nossa terra, se um defeito organico a não prejudicasse.

Nascimento ouve uma valsa de Metra, uma symphonia de Berlioz; ouve Rubinstein e Sarasate, a Patti e a Nilsson. Permanece mudo, quedo, insensivel.

Tem nas mãos uma flôr mimosa: uma Captain Christi ou Bertha Mackart; uma Alba imbricata ou Countess of Derby; a violeta, o lirio, a sensitiva. Os dedos afastam-se e a bella flôr cae abandonada, cerrando as petalas...

Não gosto de muzica; não gosto de flores—diz o Nascimento.

Poderemos acreditar na sinceridade d’estas palavras pronunciadas pelo homem, em quem os insipidos gracejos do Mano Aniceto exercem tal influencia e inspiram tal enthusiasmo que, arrancando-o da sua Thebaida, da sua officina, o expõem, vestido de amarello, á extatica contemplação dos loiceiros?

Não! Nascimento é accessivel á vibratilidade das commoções; os seus nervos sensitivos communicam ás cellulas cerebraes toda a intensidade dos enthusiasmos, mas o tal defeito organico—um enfraquecimento dos nervos centrifugos—oppõe-se á transmissão da força necessaria para a mechanica muscular e para a movimentação das situações dramaticas.

*

Terminou o segundo acto. Tenho de estudar os outros curiosos da Companhia; mas ao despedir-me de ti, Nascimento, permitte um conselho: abandona o theatro. Trata d’esse enfraquecimento do tecido nervoso.

Com seis mezes de cuidadoso regimen, póde ser que um dia, na apotheose das nossas glorias theatraes, como já annuncio:

Sampaio—o Jeremias da Balagota...

possa tambem dizer:

Nascimento—o Irving valenciano.................................

NOTA

Nascimento amigo:

Este artigo já estava escripto, quando soube das tuas manifestações anti-zinoicas. Tem paciencia.

Quod scripsi, scripsi. Não vale zangar, porque o sinapismo que te offereço é proprio para senhoras; nem queima, nem faz bolha.

Teu constante admirador

Zinão.


XIX
Transferencias
(1886-1890)

CODIGO PENAL, artigo 432.º «Roubo:—subtracção de coisa alheia...»

CODIGO CIVIL, artigo 2167.º: «direito de propriedade:—faculdade que o homem tem de applicar á conservação da sua existencia e ao melhoramento da sua condição tudo quanto para esse fim legitimamente adquiriu e de que, portanto, póde dispor livremente.»

A lei garante-nos a propriedade dos bens que herdamos, dos bens que adquirimos, dos trabalhos litterarios que produzimos, dos inventos que lançamos aos mercados, das concessões que obtivemos.

O que é hoje um curso, uma formatura?

Uma propriedade que se adquiriu em troca de valioso capital; que se grangeia, que se cultiva, que se aperfeiçoa, para que ella nos forneça os recursos necessarios ás despezas da vida.

Quando a razão principia a funccionar, levam-nos ás regiões da Sciencia, e dizem-nos: ahi tendes esses hectares de terreno, estão asperos, incultos, bravios; ha por ahi cardos, abrolhos, silvados. Trabalhae, limpae, nivelae, lavrae, semeae e colhei. Ahi ficam dois contos para despezas de grangeio.

No fim de dez ou doze annos temos o terreno apto para a cultura. Exgottamos uma boa parte do vigor da mocidade. O cerebro-arado não abriu sulcos só na terra; abriu-os tambem na fronte do trabalhador.

Com os fructos da primeira colheita obtemos uma collocação em qualquer das instituições do Estado; chamam-nos: Delegado, Conservador, Official do Exercito, Medico municipal, Professor, etc., etc.

Se no meio da improba tarefa o desanimo nos assalta, se a força de contrariedades imprevistas inutiliza os nossos esforços, e não podemos cultivar até ao fim todo o terreno que nos limitaram, contentamo-nos com uma pequena leira, esperando que mais tarde, pela persistencia no trabalho, a poderemos augmentar e desenvolver. Ficamos, então, aspirantes da Alfandega, escripturarios da Fazenda, amanuenses das Camaras, etc.

O Estado dá-nos umas tantas libras por mez e exige-nos: honestidade, seis horas de trabalho diario, direitos de mercê, habilitações litterarias. É um simples contracto commutativo, com todas as garantias de segurança, porque uma das partes é o Governo, fiscal da Lei.

No decorrer da vida, circumstancias de natureza varia, sympathias pessoaes, assimilação de doutrinas, identidade de aspirações, enfeudam-nos a um Ideal, filiam-nos em um partido, aproximam-nos de um homem.

Temos a Carta constitucional, a epopéa dos sete mil e quinhentos, os Codigos eleitoraes,—respiramos n’uma atmosphera serena de tolerancia; é legal e correcto o nosso proceder na vida publica e nada temos, portanto, que recear com a manifestação liberrima das nossas opiniões politicas.

Succede, porém, que um marau qualquer, sufficientemente villão para rojar sem escrupulo, pela lama do servilismo, a sua dignidade de cidadão e para extender a consciencia, como um capacho de crina, nas soleiras das alfurjas onde pernoitam os politiqueiros,—por estes e por aquelles motivos embica com as nossas opiniões, incommoda-se com a nossa influencia e resolve em conciliabulo secreto da velhacaria com o rancor—promover a nossa transferencia para os Algarves, ou para as ilhas de Bijagóz.

Assobia á matilha dos rafeiros eleitoraes, promette um osso aos abbades, mostra uma codea aos fraldiqueiros e apresenta-se, com a cainçalha atrelada, ao deputado do circulo.

Ao espirito dos deputados—homens geralmente illustrados—repugna sempre a cumplicidade em taes infamias; mas perante a dentuça afilada dos rafeiros que ameaçam esfarrapar-lhe a candidatura nas proximas eleições, a dignidade hesita, vacilla e cede por fim.

D’alli a oito dias, o Diario do Governo annuncia a nossa transferencia para o regimento n.º tantos, para a Comarca tal dos Algarves, ou para a repartição de Fazenda X da Beira.

*

Sou casado, tenho tres filhos e sustento uma irman viuva. A transferencia obriga-me á venda da mobilia, das loiças, dos tarecos; e a urgencia d’essa venda deprecia consideravelmente o valor dos objectos.

Primeiro prejuizo.

As condições economicas de minha existencia são perturbadas pelos encargos d’um emprestimo de duzentos mil reis, que tenho de contrahir para as despezas da viagem, da nova installação, e que um nababo qualquer me empresta ao juro de seis por cento, depois de eu satisfazer umas pueris formalidades, umas cerimoniosas ninharias que a praxe recommenda—como são as assignaturas de dois bons fiadores e respectivas consortes, e a escriptura de hypotheca sobre boas propriedades, livres e allodiaes.

Cumprido isto, recebo o dinheiro, e com elle, um titulo de eterno feudo e dependencia moral, tanto para mim como para meu filhos, ainda que, decorridos seis mezes depois de registada a transacção, eu me desfaça do credor, devolvendo capital e juros com muitos apertos de mão e phrases de eterno reconhecimento[57].

Parto para a minha nova collocaçeo; despezas de caminho de ferro, transporte de bahus, carros, carroças, nova acquisição de moveis, de tarecos, etc., etc.; os duzentos mil reis desapparecem.

Voltemos á lei:

CODIGO PENAL, artigo 421.º: «Aquelle que commetter o crime de furto, subtrahindo fraudulentamente uma coisa que lhe não pertença, será condemnado:

1.º A prisão até seis mezes e multa até um mez, se o valor da coisa furtada não exceder a 10$000 reis.

2.º A prisão até um anno e multa até dois mezes, se exceder a esta quantia, e não fôr superior a 40$000 reis.

3.º A prisão correccional até dois annos e multa até seis mezes, se exceder a 40$000, e não fôr superior a 100$000 reis.

4.º A prisão maior cellular de dois a oito annos, ou, em alternativa, a degredo temporario com multa até um anno, em ambos os casos, se exceder a 100$000 reis.

Associemos as idéas.

V. Ex.ª tem aquella quinta em algures. Uma noite, penetram n’ella tres ratoneiros, arrombam o espigueiro e levam cinco alqueires de milho. Os cães ladram, um creado grita, o regedor acode, os ratoneiros fogem, os cabos encontram-nos e a Borralho abre e fecha a cadeia.

Como foi? como não foi?

Senhor! Tinhamos fome...

São uns desgraçados,—diz o advogado de defeza.

É preciso garantir o direito de propriedade,—exclama o sr. Dr. Delegado.

Trinta dias de cadeia—conclue o sr. Dr. Juiz.


D’essa mesma quinta, vendeu V. Ex.ª para Monsão vinte pipas de vinho a quatro moedas. Vae receber o seu dinheiro—oitenta moedas—e regressa a Valença, á noite.

Ao passar na Tomada de Barros, um homem com chapeo largo põe-se á frente dos cavallos e, de bacamarte em punho, diz ao cocheiro: Faça alto!

Outro barbaças enfia pelo buraco da portinhola o cano d’um revolver e diz: Venha p’ra cá o bago!

Apparecem mais tres vultos embuçados e V. Ex.ª ouve aquelle crac secco e sinistro de tres bacamartes que se armam.

V. Ex.ª puxa do Bull-dog, ou Abbadie; o cocheiro aponta um revolver enferrujado, ouve-se uma detonação, depois outra; um grito, um rugido, uma praga. V. Ex.ª salta do carro, desfecha outra vez, avança, recua, tropeça no corpo d’um barbaças que escabuja, perde o equilibrio e cae.

Quando tenta levantar-se, jogam-lhe uma paulada valente, que lhe fractura o craneo.

Não sabe do mais que se passou. D’alli a quinze dias principia V. Ex.ª a coordenar umas ideas vagas que em rapidos momentos lucidos surgem no seu cerebro. Sente-se excessivamente fraco; reconhece que está na cama; leva com difficuldade as mãos á cabeça, apalpa, e encontra um turbante de pannos humidos e ensanguentados.

Balbucia uma pergunta. Recommendam-lhe silencio, que não faça esforços de memoria.

Muito socego e muito juizo, diz o Esculapio.

Tres dias depois, o cerebro associa as idéas.

Como foi isto?—pergunta V. Ex.ª á esposa.

Foi d’esta e d’aquella forma.

E os homens?

Um morreu; tres estão presos.

E o dinheiro?

Roubaram-t’o com o relogio.

Epilogo

Está ou não provado? etc., etc.

dez annos de degredo.


Ao ratoneiro que, talvez para matar a fome, levou cinco alqueires de milho, deu a lei—trinta dias de cadeia. Ao barbaças que arriscando a vida, de peito descoberto, roubou o relogio e as oitenta moedas, disse o Codigo penal: dez annos de degredo.

Ora, o milho e o dinheiro pertenciam a V. Ex.ª por indiscutivel direito de propriedade. A falta do primeiro originou um desequilibrio insignificante nas suas finanças, que foram gravemente perturbadas pela subtracção do segundo. V. Ex.ª teve de limitar as suas despezas diarias e não poude, n’aquelle anno, mandar seu filho para Coimbra, ou para o Collegio militar, porque faltaram os meios e não quiz contrahir emprestimos.

A lei, garantindo a propriedade do cidadão puniu severamente os individuos que prejudicaram V. Ex.ª

Neminem laede—era a formula de Kant na sua theoria sobre a Philosophia do Direito.

Lesaram V. Ex.ª e a lei puniu.

*

Comparemos os factos:

As vinte moedas representam o rendimento da quinta tal, em algures, que a V. Ex.ª pertence por um titulo de acquisição ou posse, legalmente reconhecido.

Os duzentos mil reis que V. Ex.ª gasta com as despezas da sua transferencia e os juros ou encargos de doze mil reis annuaes, serão retirados do rendimento da propriedade que V. Ex.ª comprou ao Estado com os dois contos da formatura, ou com os direitos de mercê e com o seu trabalho diario—compra de que possue o devido titulo que é um diploma, a patente, etc.

Associadas as idéas, comparados os factos, consideremos agora o barbaças e o marau transferidor.

Que differença póde haver entre o primeiro, que na Tomada de Barros reclamou, de bacamarte em punho, as vinte moedas, e o segundo que, desfechando o bacamarte da transferencia, a V. Ex.ª origina um prejuizo de duzentos mil reis?

De qualquer d’esses factos não resultou o mesmo desequilibrio nos elementos economicos da sua existencia?

Não significam elles o mesmo attentado contra direitos legalmente reconhecidos?

Não houve n’elles a mesma responsabilidade, a mesma premeditação, a mesma consciencia da illegalidade?

Eu de mim annuncio que só reconheço uma differença entre o João Brandão, o Papa-Assucar ou Zé do Telhado e quem quer que fosse que promoveu a transferencia do sr. Camisão, e quem quer que seja que promove as transferencias que, á puridade, por ahi se annunciam.

Essa differença é a seguinte:

João Brandão, Zé do Telhado e Papa-Assucar, na classe dos ladrões são ladrões honrados e dignos. Apresentam-se na estrada, de peito descoberto, fronte erguida, expondo a vida e arriscando a liberdade.

Os transferidores de cá são ladrões acanalhados, ratoneiros de feira, fadistas de café de lépes, traiçoeiros, covardes que se disfarçam com grandes capotes e se cozem ás paredes nas sombras da noite para, em qualquer encruzilhada, combinarem os meios de, impunemente, anavalharem o funccionario publico.

Se eu souber que no pinhal de Ganfey se acoita uma malta de larapios, e se tiver necessidade de lá passar á noite, a prudencia aconselha-me a levar um bom cacete, para quebrar o braço a um e pôr em fuga os outros.

Ora, dos transferidores é que eu não me posso livrar tão facilmente. Só saem quando os lampeões se apagam; só transitam por viellas, mysteriosos, impalpaveis, sumidos. Se, por acaso, d’algum suspeito e lhe arranco o capote para conhecer as feições, encontro uma cara conhecida que ainda ha trez horas me saudava e me sorria.

D’aqui a tres dias, silva a navalha nos ares.

*

No periodo de 1886 a 1890 instituiu-se n’esta villa o regime das transferencias que legaliza essas infamias, estabelecendo nos differentes partidos politicos a necessidade das represalias summarias, como as disposições do codigo de Lynch.

É preciso fazer sangue, para que os campos se definam—disse-me, ha annos, um Machiavel indigena. Apertei o casaco e segurei o relogio. É que na estrada da Velhacaria, a Politica da minha terra avizinhava-se já do pinhal da Azambuja em que hoje vivemos.

Para esta classe de scelerados—os transferidores—o Direito romano, as Ordenações e os Codigos nada estabelecem. Mas o Direito positivo funda-se no Direito natural e este tira os seus principios da consciencia humana, em face das leis da Razão e da Moral.

O legislador dá sempre ao magistrado a faculdade de ampliar, segundo os dictames da consciencia, ou de alterar, segundo os usos da terra, as disposições que estabeleceu para a repressão do facto criminoso e para a defeza de direitos adquiridos.

Em nossa consciencia, pela illegalidade das causas e pela importancia dos effeitos, o caso das quarenta moedas e o dos duzentos mil reis teem a mesma classificação: um roubo.

Quem rouba é ladrão; e para nivelar a condição criminosa e as responsabilidades do barbaças e do marau transferidor, egualmente perigosos na sociedade em que vivemos, apresento o seguinte additamento ao Codigo penal:

Artigo tantos:

Todo o homem de bem tem a liberdade de correr a pontapé pelas ruas de Valença, o sevandija que, directa ou indirectamente, influa em qualquer transferencia.

§ unico:

Fica revogada toda a legislação em contrario.

10-2-90.

Zinão.


XX
A questão ingleza
(NOTAS SOLTAS)

Alem-mar scintilla na escuridão a iris do abutre.

O leopardo rugiu, saltou, e cravou as garras ensanguentadas no velho Portugal.

Este enorme gigante que teve no encephalo, como cellulas, os craneos de Camões, de Gama e de Cabral; que teve por apophyses as columnas de Hercules, os rochedos do Bojador, do Boa-Esperança, do Razalgate e do Comorim; por articulações Angola, Moçambique, Mascate, Ormuz, Diu, Calicut, Malacca; por veias os filões preciosos de Sofala, de Minas e Cyaté, do Pegu e de Narsinga; por arterias o Tejo e o Zaire, o Quanza e o Limpopo, o Zambeze e o Mandovi, o Ganges e o Amazonas; por cabellos os cedros seculares do Novo Mundo; por musculos os braços de mil heroes; por thorax a amplidão de todos os céos; por limite visual a linha de todos os horisontes; por fronteira o circulo de todos os quadrantes; por dominio a vastidão de todos os mares; por fanal a luz de todas as constellações—esse colosso que teve por servos o Çamorim e os rajahs da India, por thesoiro os abysmos aquaticos de Borneo e de Ceylão; por sonhos os mythos do Preste-Joham; por pesadelos as tragedias de Alcacer-Kibir e de Tanger; e que pela rigidez do seu braço, pela heroicidade do seu valor, conseguiu a crystallização de todas as chimeras e a realidade de todas as phantasias—eil-o ahi, prostrado, corroido pelo fanatismo religioso que ha quatro seculos lhe ulcerou os membros, enfraquecido pelos caprichos de monarchas perdularios, aviltado pela phthiriase de cortezãos servis, cancerado pela ambição insaciavel dos aulicos traiçoeiros, decrepito, pobre, agonisante... mas não morto!

Não! Não está morta a Patria! Ha n’ella quatro milhões de cellulas; e se muitas são inertes ou inuteis, covardes ou egoistas, existe nas restantes força viva sufficiente para transmittir á musculatura do heroe decrepito a energia das grandes crises e o arrojo dos antigos feitos.

*

N’essa cloaca—a côrte ingleza—escoante de todas as sargetas, deposito de todas as fezes, sumidoiro de todas as immundicies que podem existir na alma humana, as ambições e a perfidia actuaram como acidos d’uma pilha sobre o metal—oiro—dos nossos terrenos da Mashona.

Como reophoro transmissor d’essa electricidade cupida, partiu de Londres—polo negativo—o ultimatum de Salisbury e tocou no coração da Patria.

Immediatamente, outra electricidade se desenvolveu com os elementos positivos da Justiça e do Direito n’essa enorme pilha—a alma portugueza—que já actuou em todo o Universo com a intensidade das mais arrojadas emprezas e com a força dos mais generosos heroismos.

E então, ao contacto d’esse novo fluido, de que n’um bello impulso de ardente enthusiasmo a Academia foi conductor, todos os membros do decrepito colosso se agitaram convulsivamente. Ergueu-se o heroe, d’um arranco, e magestoso de altivez, fremente de indignação—d’ahi, do promontorio de Sagres, d’onde avassallára o Mundo, arremessou para lá da Mancha o escarro do desprezo, unico desforço que a dignidade permitte ás affrontas d’um villão.

Cartel de desafio não se manda a representantes de lords. Bright era quaker; Crawfurd, provavelmente, é castrado; condições diversas, mas eguaes na intenção—livrar decentemente as regiões trazeiras da bota d’um portuguez.

*

A excitação da colera e a allucinação do perigo teem por vezes prejudicado a imponencia da nossa attitude perante essa malta de esbodegados borrachões, paus-de-virar tripas encasacados, feitos de esperma de lupanar e de muco leucorrheico, que constituem na sua abjecta individualidade de lords a canalha servil da côrte ingleza.

Morra a Inglaterra! bradamos.

Não! Não se levantam gritos de exterminio contra uma nação inteira. Entre quarenta milhões de habitantes ha, tambem, opprimidos e oppressores.

A podridão e a villania condensam-se nas altas espheras do high-life, nos palacios da City, nos corredores de Windsor Castle, no royal box de Covent Garden, no Pelican Club, no Devonshire Club, no Turf-Club, onde impera, infrene, El-Rei Deboche.

Cá em baixo, labuta e moireja um povo trabalhador e geme um mundo de parias. Nos bairros immundos de Londres, no West-End, no White-Chapel, dormem ao ralento, esfarrapados e nús, centenares de velhos e de creanças.

Agonizando pelas esquinas e escabujando nos monturos, morrem annualmente, de fome, tres a quatro mil pessoas.

Das camadas que trabalham sahiram Shakspeare, Milton, Jenner, Newton, Davy, Graham, Bacon, Locke, Hume, Priestley, Adam Smith, Stephenson, Wollaston, Boyle, Shaftesbury, Harvey, Stuart Mill, Spencer.

Esses homens alguma coisa fizeram em prol da humanidade e da civilização, e não é justo, portanto, que á sua memoria e ao seu nome lancemos o escarro do insulto e o estigma da maldicção.

Odio aos lords! deve ser o nosso grito, porque são elles, e só elles, os nossos espoliadores.

Odio a essa aristocracia abandalhada que estrangula a Irlanda—mancha vergonhosa da civilização europea e que os magarefes da City por vezes transformam em sangrento açougue.

Odio a esses lacaios de libré que nas sessões da Lords’ House vemos erectos, empertigados, orgulhosos, e á noite se curvam sobre os tapetes do brothel—bestiaes, apopleticos, rubros, babados, falling on one’s jaws[58] entre saias almiscaradas e amarellas com o liquido da menorrhéa.

N’esse asqueroso quadro de infamias que em 85 a Pall Mall Gazette desvendou á imprensa europea ha, como actores, lords, só lords—os mesmos canalhas de Cleveland-Street que, ha mezes, uns áltos personagens da côrte protegiam, suffocando a peso de oiro a publicidade das suas novas torpezas. São elles e só elles que fixaram o preço de 15 a 20 libras para as fresh-girlsvirgo intacta—de 13 a 14 annos, que hoje são as 50:000 prostitutas—black army dos trottoirs londrinos.

São elles que para a lucta contra essas desgraçadas creanças, attrahidas infamemente aos subterraneos de West-End, inventaram a black-draught do narcotico.

São elles que para obterem o oiro necessario ás phantasias d’uma sensualidade bestial, constituiram a Slaughter-House contra os desgraçados filhos da Irlanda; que reunidos em Royal Companies ordenaram essas medonhas carnificinas de Pendjab e dos cipayos; e que agora, trocando em casa de Salisbury as fardas bordadas pela jaqueta de pick-pocket, chypram do mappa africano o oiro da Mashona.

Esses asquerosos Tartufos, occultando cynicamente nas casacas de congressistas philanthropicos e humanitarios a sua cupidez e insaciavel ambição, propozeram, ha tempos, a Portugal e ao sultão de Zanzibar um bloqueio na costa oriental, de Inhambane a Pembe, que impedisse—diziam—a importação de armas aos arabes do interior, eternos traficantes de carne humana.

O nosso governo accedeu; o bloqueio estabeleceu-se; e poucos dias depois, o governador do Cabo enviava occultamente a Lobengula, feroz chefe dos Matabelles, com quem os arabes se entendem, 1:000 espingardas Martini-Henry com 300:000 cartuchos!

Odio, pois, aos lords!

Organize-se contra elles uma nova cruzada de exterminio, e que todo o portuguez tenha o direito de os correr a tiro, como a animal feroz, quando no solo honrado da Patria poisarem as suas enormes patas de tres toesas.

São elles e só elles que nos roubam. Ahi vae a historia do caso Chire-Nyassa.

Lord Fife, duque do dito Fife, é genro de Sua Alteza Real o Principe de Walles; casou com a princeza Luiza, uma neta da graciosa rainha e imperatriz Victoria.

Lord Fife é um pobresinho de Christo; das suas propriedades de Scotland e de outros bens de fortuna tem um rendimento aproximado a dois contos por dia, e como a sua Ex.ᵐᵃ Consorte é de egual pobreza, com mais umas achegas, dotação, etc., nas telhas d’aquelle desgraçado casal caem umas quarenta libras por cada hora de cada dia.

Mas succede que lá, como cá, estas coisas de nobreza custam muito dinheiro, porque é preciso sustentar a respeitabilidade da posição official, como diz o Albino, quando entra nas idéas e no coração da gente para dispôr os petardos das suas transcendentes, nebulosas e philosophicas reflexões sociaes.

Como o povo inglez embicou, ha tempos, com o augmento da dotação da Royal Family, lord Fife, para ganhar o seu pataco, fez-se agiota, socio commandita da firma commercial Samuel Scott and C.º e director da British South Africa Company, a quem uma Royal Charter concedeu, ultimamente, 400:000 milhas de terreno africano com aquella liberalidade conhecida: do pão do nosso compadre grossa fatia ao afilhado.

Mas as libertinagens de West-End, do Cleveland-Street, os serviços dos rapazinhos do telegrapho, as orgias de champagne, os boat-matches do Naval Club, absorvem todos os rendimentos de lord Fife e segundo consta, ha poucos mezes, as finanças de His Lordship estavam por assim dizer: tem-te, não caias[59].

A concessão feita a Lord Fife, a Lord Abercorn, a Lord Gifford (cá estão os lords), organizadores da African Company, era tão importante que em Londres, o Times e o Standard, fazendo reclamo, annunciavam-na como: Empreza colossal. Todavia, as acções conservavam-se na baixa e Lord Fife, nominalmente um dos maiores accionistas, não arranjava com aquelle negocio para pagar um little boy.

Surgiu então uma idéa salvadora. Os nossos terrenos na Mashona eram, ha muito tempo, indicados como preciosos para explorações auriferas. Salisbury levou rasca na assadura; contractou-se o patife Johnston, compraram-se por baixo preço todas as acções da South Company e no dia seguinte rebentou o ultimatum. Em vinte e quatro horas, cada acção obteve um premio de setenta libras. Cinco mil acções—trezentas e cincoenta mil libras.

God save the Queen! e vamos ás fresh-girls!

Odio pois aos lords! E como em Valença as manifestações patrioticas ficaram no projecto d’um telegramma a Serpa Pinto, porque se repetiu, talvez, aquelle caso da subscripção para o bucephalo[60], eu proponho o seguinte:

Que se mande a Lisboa uma commissão para escolher e contractar nas viellas da Baixa duas duzias de ladies matrafonas, das mais abandalhadas e nojentas.

A mesma commissão contractará, tambem, dez ou doze grumetes da marinha real ingleza. Esses grumetes serão vestidos, da cinta para cima, com o uniforme dos boletineiros telegraphicos; da cinta para baixo, uma parra.

Matrafonas e grumetes, com seis barris de cachaça de 90°, serão envolvidos por uma forte rede de arame, á qual se atará um solido cabo de algumas milhas.

A gente vae depois alli, a Calais, põe um pé em Douvres e atira com a isca para o Tamisa.

Fica um de nós a ter conta no cabo. Póde ser—por exemplo—o Fernando que é o mais entendido em coisas de pesca, como o prova annualmente na Rapozeira com os seus botirões. O Braga tambem póde servir, porque tem habilidade para descobrir peixes.

O Fernando, pois, senta-se em qualquer rochedo, fuma o seu cigarro, espalha as tristezas com o Noticioso, ou com as latinhas do Cruz, e quando sentir que a corda estica, signal de que o peixe pica, puxa vagarosamente para terra.

A meio cabo, levanta-se e vem descendo pela costa da Mancha: Dieppe, Havre, Cherbourg; Brest, S. Nazaire, Bordeaux; contorna o Golpho, Bayonne, Santander; dobra o Ortegal, Corunha, Vigo, Guardia; entra no Minho e vem subindo pela margem direita até ao Pau-do-fio.

A gente põe-se cá de cima, das muralhas, e recebe o cabo. Chamam-se os paysanducos e toca a puxar.

Fóra da agua a isca, veremos logo, agarrados a ella, todos os lords da City: Lord Fife, Lord Foife, Lord Fufe, Lord Craft, Lord Creft, etc.

O lord é animal amphibio, organização de batrachio; resiste bem debaixo d’agua, como se sabe.

Paysanducos continuam a puxar e vae tudo para o largo de S. João.

Os lords devem apparecer esbodegados, cambaleantes, tropegos.

Vem o Parádas com o bolo municipal e divide-o pelos borrachões.

Duas horas depois, o Gamellas traz a carroça do lixo, carrega, e despeja na Sexta.

Extincta, assim, a raça vil, a City fica deserta; e como a Hygiene recommenda a collocação das fossas longe das habitações, faremos do fashionable bairro uma sentina para uso diario.

Ao norte: Para damas.

Ao sul: Para homens.

Para fazer a limpeza e fornecer papeis, ficarão:

Mr. Jacob Bright
e
Mr. Oswald Crawfurd.

2-3-90.


XXI
A manifestação dos artistas

Em 28 de janeiro, a Direcção da Assembléa Recreativa promoveu uma manifestação patriotica, préviamente annunciada nos jornaes da terra com a minuciosidade espaventosa d’um programma de S. Telmo ou da Agonia.

Não é meu intento censurar essa manifestação; mas, pelo simples facto de ella ter sido promovida por um grupo de artistas e de homens do trabalho não devo excluil-a do campo critico, onde com estes artigos analyso os factos mais importantes na chronica valenciana.

A meu vêr, essa manifestação teve uma origem que a absolve plenamente d’uns pequenos ridiculos que a amesquinharam. Originou-a um impulso de sincero patriotismo, e basta isso para escudar os promotores d’ella contra a rudeza da phrase com que verberei a fantochada de 14.

Se essa manifestação offerece alguns lados censuraveis, se teve peripecias irrisorias, se não me inspira hoje phrases de caloroso applauso e de sincera adhesão, os seus promotores devem-no, exclusivamente, ás impressões que nos seus espiritos deixou a grande rusga de 14. Aproveitaram parte do programma: musica, cortejo, vivas arruaceiros, procissões intra e extra-muros, etc., abandonando deploravelmente os meios que a Razão aconselha para, em occasiões identicas, se dar a qualquer manifestação um caracter significativo de energia, de sensatez e—sobretudo—de utilidade.

Não me rio perante as bandeiras que n’esse cortejo distinguiram a Arte, do Commercio, como estulta e imbecilmente o fizeram alguns dos illustres patriotas, comparsas na ignobil farça dos abbades. Essas bandeiras significam o trabalho honrado, o homem que labuta e moireja dia e noite no sustento da familia, e que nunca serviu de lacaio a qualquer magnate eleitoral para, á custa do Estado, coçar por ahi, nas esquinas, os seus setenta kilos de ociosidade; significam o artista que contribue efficazmente para a riqueza da nação; o commerciante que concorre com uma boa parte dos seus interesses para as despezas das nossas mais uteis instituições e não o eunucho indifferente a todos os impulsos da Civilização e que, arrastando uma existencia ignobil, como a da lapa eternamente presa ao rochedo, na valla commum dos inuteis desapparece, sem ter conhecido outra energia e outras sensações além das que obteve, comendo, bebendo e dormindo.

Passe, pois, o cortejo, porque perante elle, eu, descubrindo-me, exclamarei tambem:

Viva a patria!