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Sinapismos

Chapter 41: XXIII Compadres e Comadres
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About This Book

A collection of satirical sketches and humorous essays that lampoon local social life, exposing hypocrisy, vanity, religious cant, and inequality through ironic portraits, anecdote, and biting commentary. The author declares a program of social cure by ridicule, balancing respect for private family life with pointed attacks on public pretensions; pieces range from playful ridicule to harsher sarcasm motivated by attachment to the homeland. Interwoven are appeals to the poor and scenes of scandal, caricatures of officials, clergy, and bourgeois customs, all organized as short, conversational pieces intended to provoke laughter, reflection, and civic self-examination.

*

A Musica da Santa veiu outra vez espancar os ares com as notas festivas dos hymnos, bufadas para os céos da Patria com a furia d’uma orchestra de Cafres.

É crença arraigada no espirito do povo que não póde haver solemnidade sem gaiteiro.

Era preciso, disseram-me, estimular, avivar o espirito da nacionalidade.

Este argumento defensor dos paus-tesos recorda-me as funcções luctuosas das antigas carpideiras, nas casas minhotas.

Morria o fidalgo.

Expunha-se o cadaver na sala nobre.

As mulheres e as creanças acocoravam-se sobre os tapetes.

Em volta do caixão perfilavam-se, tristes, sombrias e sinistras, seis mulheres recrutadas no auditorio dos Missionarios, entre as mais hystericas e lacrimosas, quando algum dos energumenos descrevia os horrores do caldeirão de Pero Botelho, o rechinar das carnes e os forcados rubros de trezentos milheiros de diabos que pinchavam sobre as cabeças chamuscadas dos condemnados.

Vinham os amigos da familia apresentar as suas condolencias.

As carpideiras irrompiam n’um chorar convulso, com todos os sons da gamma afflictiva, com todas as notas ascendentes e descendentes d’uma suprema dôr: suspiros, gemidos, gritos, berros—berros, gritos, gemidos, suspiros.

Os sentimentos quando se manifestam com violencia exercem uma forte acção de communicabilidade a que nem todos são refractarios. Vêmos lagrimas nos olhos d’uma viuva, ouvimos o casquinar de sonoras gargalhadas e o cerebro, recebendo as impressões d’essas lagrimas e d’esses risos, reproduz em nossa face os sentimentos que os motivaram: rimos quando os outros riem e choramos quando os outros choram[61].

Assim, na scena das carpideiras, ellas, a familia, as visitas, os creados, disputavam primazia em intensidade de sentimentos.

Terminada a cerimonia, os amigos compunham no rosto os traços d’uma grande dôr; distribuiam pela familia arrochados abraços e violentos apertos de mão, exprimindo entre soluços os desejos de se tornarem uteis: se fôr preciso qualquer coisa—estamos ás ordens—mandar com franqueza—adeus—é ordem do mundo—resignação—adeus...

Fechada a porta, fechavam-se tambem, com ella, as valvulas das glandulas lacrimaes; e carpideiras e doridos corriam á vasta cozinha, onde pantagruelicamente atafulhavam o bandulho com grossas postas de bacalhau cozido, abundantemente regadas por successivos cangirões de bom e espumante verdasco.

Batiam, de novo, á porta; tudo voltava á sala.

O morto lá estava; amarello, hirto, de mãos ceraceas cruzadas sobre o peito, muito esticado dentro da sua roupa preta perolada de agua benta, exhalando fragrancias de vinagre aromatico, de nariz para o ar, onde as moscas esgaravatavam com as patitas, na doida e frenetica sensualidade das cocegas que ellas tanto appetecem, e que o finado, dias antes, tão pertinazmente lhes recusára.

Então, a sensibilidade das carpideiras explodia pelo canal digestivo em sonoros arrotos.

E n’essa sessão solemne que constituiu a segunda parte do programma—uma verdadeira visita de pezames pela frieza da sala, pelo tremulo discursar dos primeiros oradores, pela hesitação dos mestres de cerimonia e pela presença da bandeira nacional que significava os restos mortaes dos nossos brios e das nossas glorias, tambem se ouviu—permitti que o diga, honrados artistas—um rasoavel arroto:—aquella polka final.

*

Durante o trajecto do cortejo, a Musica tocou, por vezes, hymnos varios. Excluistes o da Restauração, que só os eunuchos da Rotina hoje podem admittir nas suas manifestações simontadas. Devieis dispensar tambem os outros: o da Carta e o do Rei.

O primeiro lembra a libertação da tyrannia, a emancipação dos direitos do cidadão, a queda do absolutismo, o inicio d’uma nova era de Progresso intellectual que devia esmigalhar as algemas de instituições odiosas e impulsionar-nos na bemdita estrada da Civilização, livres das trevas e dos espinhos que amarguraram os dias dos nossos antepassados.

Recorda, pois, um facto—a outorga da Carta—que trouxe jubilos, alegrias; e não é em horas de tristeza e de desalento que n’elle devemos procurar lenitivo.

O segundo solemnisou a coroação d’um monarcha—uma festa nacional em que houve bailes, recepções, salvas reaes, paradas, espectaculos de gala.

Pelo anterior argumento devia ser excluido.

O ultimatum inglez é, apenas, a primeira bala do assedio que essa côrte de debochados planeou contra o nosso dominio d’alem-mar.

A espoliação de Bolama que elles tentaram em 38; a de Goa, Damão e Diu em 39; a das ilhas de Lourenço Marques em 62; a redacção da Royal Charter que ultimamente concedeu a Lord Fife os terrenos a oeste de Moçambique; a necessidade que elles teem de possuir, na costa africana oriental, um bom porto que dê expansão ao desenvolvimento das colonias estabelecidas no interior á sombra de perfidos protectorados; as recentes ameaças sobre as ilhas da Madeira e sobre Lourenço Marques—revelam claramente o plano da usurpação violenta de que mais tarde ou mais cedo, com pretexto ou sem elle, Portugal será victima.

Os nossos terrenos africanos, se pouco teem produzido até hoje pelo abandono a que os condemnamos, podem ser no futuro elemento valiosissimo de riqueza e de prosperidade; e na tristissima situação em que as nossas finanças se encontram, com o enorme desequilibrio que annualmente se denuncia entre a receita e a despeza, quando os encargos da divida absorvem, já, metade dos rendimentos, importantissimo é o problema colonial, porque a solução d’elle póde evitar funestissimas perturbações, póde evitar a ruina da Nação, e mais do que isso—a perda da sua independencia!

E dizei-me agora, honrados artistas e commerciantes:

Se no dia trinta e um de dezembro, quando fechaes o vosso balanço annual, reconheceis que o passivo excede o activo—quando perante esse deficit encaraes, com olhar vacillante, o futuro, onde vêdes sombras e não auroras—se no anno seguinte uma nova especulação, uma nova industria vos proporcionar meios com que possaes capitalizar uns centos de mil reis collocados depois, á ordem, no Roriz,—se um dia o Primeiro de Janeiro vos annunciar a quebra d’aquelle banqueiro e, com ella, a perda do vosso capital, a destruição completa dos elementos com que esperaveis viver com abastança no futuro—acaso a vossa alma se póde regosijar com o Hymno do Rei ou com o da Carta?

Pois as situações são as mesmas.

Vós e a Patria tendes annualmente um enorme passivo.

O capital que estava no Roriz—o vosso futuro—é o dominio d’alem-mar—o futuro da Patria.

A noticia da fallencia é a noticia do ultimatum, com esta differença apenas: uma originou-se na adversidade dos negocios, outra na ambição d’um lord.

Vós sois a Patria; viveis n’ella; sois a alma e o braço d’ella.

A Patria é tudo isso que vos rodeia: familia e amigos, affectos e carinhos; é tudo o que ha de bom, de generoso, de nobre e feliz na vossa existencia; é a limpidez d’este formosissimo céo peninsular, a risonha paizagem do nosso Minho, a irradiação das nossas alvoradas, o oiro dos nossos crepusculos, o matizado dos nossos campos; é essa dulcissima melancholia que ao toque das trindades inunda a nossa alma com a toada longinqua das canções populares, é o nobre orgulho que em vossos olhos brilha quando escutaes a epopéa das nossas gloriosas façanhas; é essa formosa cabeça de velho que vos sorri, é a esposa carinhosa que vela a vossa doença, é a creança—esse pequenino sêr feito com raios de alvoradas e crystallizações de sorrisos—a quem chamaes filho[62].

Quem offender a Patria—offende-vos.

Quem a roubar—rouba-vos.

Quem toca o hymno da Carta quando ella soffre, toca-vos o hymno do rei quando, com a fallencia do Roriz, reconheceis perdidas e inutilizadas as esperanças do vosso futuro.

*

Despedi, pois, os gaiteiros, amigos.

Não lhes faltará que fazer.

Ahi estão os paysanducos esperando a borga das eleições. Lá estão os de Monsão que d’elles necessitam para as farças publicas do entrudo, em que figuram makololos e Serpa Pinto.

Uns e outros: paysanducos, makololos e santascocas provam á evidencia, pela sua immobilidade mental, que, realmente, não havia razão para os sabios repellirem com tanto ardor as theorias de Darwin.

Nos cerebros de todos elles, existem irrefutaveis vestigios de hereditariedade chimpanzéca.

Distingui-vos d’elles!

*

Á sympathia que me inspira a vossa Assembléa deveis estes periodos, onde podereis encontrar phrase aspera de sinceridade, mas não phrase humilhante de ironia.

Não vos offendaes, pois, por eu declarar que estou intimamente convencido de que nenhum de vós conhece exactamente o valor, a extensão, a situação geographica, os limites dos terrenos que a canalha dos lords nos pretende roubar; como sinceramente creio que a mesma ignorancia existe no espirito da maior parte dos patriotas que promoveram a grande rusga de 14 e que por ahi, ainda hoje, erguem as mãos ao céo, falando de roubos, de direitos indiscutiveis, etc., etc.

Tirae-me do grupo promotor da fantochada umas tres ou quatro cabeças, e demonios me levem se as restantes vos disserem para que lado fica a Africa, se fica perto ou longe de Taião e se lá vivem homens civilizados como nós, se paysanducos, se orangotangos.

Em vós, tudo desculpa essa ignorancia. Sois homens do trabalho. Quando o dia nasce, principiaes a lucta pela vida; quando o sol se esconde, procuraes no repoiso, vigor para a tarefa de ámanhã. Não podeis, portanto, dispensar o tempo necessario ao estudo d’estas questões que a Historia, a Geographia, o Direito internacional, etc., esclarecem.

Essa ignorancia existe, ainda mais profunda nas camadas populares inferiores á vossa.

Berraes, pois, que vos roubam sem conhecerdes, quanto, o que, e onde.

Consultae a consciencia e dizei-me se isto assim não succede, e se não consideraes censuravel que um homem nas ruas grite contra um ladrão, ignorando os direitos que tem de o fazer e só porque ouviu as exclamações dos outros.

*

Reconhecereis, portanto, que podia condemnar a vossa manifestação de 28, mas se acreditaes na sinceridade d’essa sympathia que eu vos affirmei nutrir pela Assembléa Recreativa, se a opinião d’um homem que se ri dos que, n’outras espheras mais illustradas, fazem das luvas—uma coisa que o meu cocheiro usa—distinctivo irrefutavel de sentimentos dignos e cavalheirescos (!) permitti que em poucas palavras vos indique a fórma como eu entendo que vós devieis ter organizado a manifestação.

Nada de musicas; nada de procissões pelas ruas!

Um de vós pediria o theatro. Tres ou quatro iriam em commissão convidar qualquer dos officiaes do Regimento—que os tendes ahi illustrados e competentissimos—para uma conferencia sobre a questão do Chire-Nyassa, em que vos expozesse claramente, perante um mappa, a situação dos nossos dominios e a legalidade dos nossos direitos.

Para essa conferencia abririeis as portas ao povo, a esse eterno ignorante sempre explorado, porque o não educam; e se os vossos recursos podessem contribuir para uma verdadeira e util obra de patriotismo, a esse mesmo official pedirieis que vos escrevesse um pequeno volume onde, em linguagem chan, clara, perfeitamente intuitiva e ao alcance de todas as intelligencias, se desenrolasse a historia do nosso Passado e a historia d’essa vergonhosa alliança com a corte dos lords.

Distribuirieis depois, oito centos ou mil exemplares d’essa publicação pelas freguezias do concelho, pelas escholas, pelas ruas.

E então, amigos, com os brados de cólera e com as exclamações de desalento que a miragem das nossas gloriosas conquistas provocaria, poderieis compôr um hymno—um verdadeiro hymno nacional, magestoso, triumphante, imponente de enthusiasmos, arrebatador de generosos sentimentos, palpitante de sincero, energico e irresistivel Patriotismo!

Poderieis então gritar:

Viva a Patria!

que eu, sobre a cabeça d’esses paysanducos que se riram de vós, responderia com toda a energia de minha alma:

Honra á Assembléa Recreativa!


XXII
Carta a S. Ex.ª, o Sr. Administrador

Ex.ᵐᵒ Sr.

De caso pensado reservei para esta data, em que concluo a publicação que tanto tem agitado o espirito dos seus excellentissimos administrados, a manifestação dos sentimentos que agitaram a minha alma n’essa hora solemne, em que V. Ex.ª foi chamado ás graves deliberações da Administração concelhia.

E de caso pensado o fiz, Ex.ᵐᵒ Sr., porque necessitava que o tempo, os factos, me fornecessem elementos com que, ao collocar a individualidade de V. Ex.ª n’esta curiosa galeria de celebridades valencianas, podesse fazer ao publico um pequeno discurso apologetico com phrases e linguagem differentes ás d’essas escalrichadas apotheoses das luminarias da terra, prenhes de estimados cavalheiros, de integerrimos magistrados, de robustos meninos e outras minhocas que o Noticioso inventa para enfeitar o anzol d’uma assignatura annual.

Hoje, porém, Ex.ᵐᵒ Sr., que tres mezes se sumiram nas voragens do Tempo depois d’essa augusta solemnidade da posse, d’esse acto d’uma respeitabilidade indiscutivel em que a imponencia das nossas instituições civis actua sobre o espirito com a pressão de cem atmospheras—hoje, em que a individualidade administrativa de V. Ex.ª, evidentemente se destaca entre as auctoridades da minha terra, marchando a passo d’anjo no coice das procissões, ao lado de Sua Excellencia o Senhor Governador Pericles I e um pouco á frente do seu subordinado o Snr. Joaquim, muito digno e conspicuo Substituto—digne-se V. Ex.ª permittir que eu lhe dedique estas linhas, onde vou synthetisar a opinião que no meu espirito existe ácerca do Senhor Administrador.

*

Percorrendo a historia dos gloriosos feitos dos antepassados de V. Ex.ª n’essa cadeira administrativa—meditando sobre as diversas aptidões e faculdades que nas sombras do Preterito, ainda hoje illuminam os vultos dos prestantes e muito dignos cidadãos que eu por ahi vi atados á banda bicolor,—comparando os feitos immorredoiros que enaltecem os annaes da Administração valenciana—desde a borralhada da Santa até ao exterminio da Rua Verde, desde a prisão d’aquelle feroz e sanguinario Troppman na tomada de Barros até ás fornadas eleitoraes da Misericordia,—com os actos de V. Ex.ª, eu, Ex.ᵐᵒ Sr.—com franqueza—não posso exprimir o conceito que de V. Ex.ª formo com palavras differentes d’estas:

V. Ex.ª é o refugo dos administradores!

*

E d’estas palavras escriptas com a rude sinceridade que até aqui arrepia a linguagem dos meus escriptos, acaso poderá V. Ex.ª deduzir intenção desdoirante das suas aptidões intellectuaes, dos seus conhecimentos juridicos, das suas faculdades administrativas?

Se tal succede, erra o seu excellentissimo criterio.

V. Ex.ª é o refugo dos administradores, porque tem uma carta de bacharel, porque sahiu ha poucos annos da Universidade com uma educação politico-scientifica imperfeita, rachitica, insufficiente para as funcções do elevadissimo cargo de que está investido.

V. Ex.ª está saturado de ordenações, de codigos, de paragraphos unicos, de disposições transitorias, de subsidios, de cartas de lei, de alvarás; conhece os trabalhos e as theorias de Bentham, de Krause, de Kant, de Grotius, de Blackstone, de Calvo, etc., etc., mas ignora absolutamente e precisamente o que é mais essencial a um Administrador, mercê da insufficiencia dos programmas officiaes e da falsa orientação que na Universidade preside á incubação d’um bacharel.

A educação social do individuo deve adaptar-se ás condições e exigencias do cargo a que se destina. Um medico aprende a curar feridas; um militar a fazel-as; um escrivão de fazenda a tirar camisas; um boticario a preparar tisanas; um paysanduco a contar cucharras; um espirito-santo a inspirar tolices; um Zinão a reforçar sinapismos.

Para lá da esphera profissional que a sua educação lhe circumscreve, o individuo torna-se um ser inutil, prejudicial, incommodo.

É o que succede com V. Ex.ª

V. Ex.ª cursou todas as cadeiras exigidas no programma official d’um bacharelado: direito romano, dito penal, dito commercial, dito civil, dito internacional. Sahiu habilitado para tudo: para defender, accusar, aconselhar, chicanar, fazer do direito torto e do que é torto direito, em questões de aguas de rega, de fóros, de fallencias, de peculatos.

Para o que não sahiu habilitado é para Administrador do concelho.

Tem V. Ex.ª culpa d’isso?

Não. Tem-na quem organizou os programmas para a faculdade de Direito.

*

Na minha humilde opinião, ao curso de Direito devia accrescentar-se mais um anno, para trabalhos praticos na cadeira de Politica legal.

N’esse anno, os futuros bachareis teriam de resolver, praticamente, entre outros, os seguintes problemas:

1.º
Empalmar uma eleição

No meio da sala seria collocada a urna. Alguns alumnos representariam a opposição. Com os restantes constituia-se a mesa: presidente, secretrios, escrutinadores, olheiros, capatazes, abbades e caceteiros.

O examinando teria de satisfazer ás seguintes provas, sem que a opposição percebesse a fraude.

a) Introduzir rapidamente na urna um maço de listas governamentaes.

b) Riscar os nomes dos eleitores reconhecidamente opposicionistas.

c) Incluir na chamada e fazer substituir por mirones todos os mortos da freguezia.

d) Inutilizar imperceptivelmente com borrões de tinta as listas dos contrarios.

e) Entornar um tinteiro na urna, quando a eleição se considerar perdida.

f) Armar uma baralha na egreja; derrubar mezas, cadeiras, quebrar cabeças aos eleitores; dar, até, pancada nos santos e fugir afinal com a urna.

g) Empalmar uma acta. (Para esta prova o examinando poderia consultar os tratados especiaes que, sobre tal assumpto, tem escripto o Ex.ᵐᵒ Sr. Dr. M. Thomaz.

2.º
Uma fala aos lavradores

Antes da eleição (modelo a):

Olé amigo! Toque. Dê cá um abraço.—Esta é a sua filha? Está uma fiôr; tem juizo, rapariga!—Sabe que arranjei um subsidio para as obras da torre? Custou, mas arranjou-se.—Você não tem um filho no recrutamento? Recebi hoje carta de Vianna em que me dizem que vae ser isento.—Aquella é a tal propriedade em que esses ladrões lhe lançaram quatro pintos? Eu amanhã arranjo isso na Fazenda; o mais que deve pagar é um pinto.—Pegue lá um cigarro. Com franqueza; fume á vontade, que é brandinho. Não tem lume? Metta á bocca... Prompto!—É verdade: já me esquecia. Você é dos nossos; amanhã é a eleição. Homens honrados são do nosso lado. Já cá o tenho na cabeceira do rol—Diabo! tenho o seu nome na ponta da lingua...—Zé da Portella, exactamente. Aqui tem uma lista. Mande para o diabo a outra canalha.—Adeus. Ás ordens sempre, sempre, para o que quizer.—Dé cá outro abraço que é de amigo. Adeus.

Depois da eleição (modelo b):

V. Ex.ª dá licença?

Entre!!

Louvado seja nosso...

Que quer!?!

Eu sou o Zé da Portella, aquelle...

Venha logo, venha logo; tenho mais que fazer.

3.º
Organizar rapidamente o orçamento d’uma «borga» eleitoral, dada a capacidade cubica das barrigas dos abbades e a permeabilidade alcoolica dos tecidos intestinaes.

A resolução d’este problema requer os seguintes conhecimentos:

a) Saber o preço dos carneiros, dos calhos, do vinho, das batatas, das resteas d’alhos, do pimentão, etc.

b) Saber applicar o ammoniaco no caso provavel d’uma borracheira.

c) Saber receitar um purgante e manejar uma seringa na delicada operação do crystel.

d) Saber ouvir de confissão qualquer bruto que estoire repentinamente com a indigestão.

4.º
Redigir uma informação favoravel á imposição de qualquer transferencia, embora ella vá lançar na miseria a familia d’um funccionario honesto.

Modelo:

Esta transferencia torna-se necessaria e até indispensavel á boa solução dos nossos negocios. O homem é regenerador. Diz por ahi o diabo do Marianno. Alem d’isso, embirra com o A. Ora este A. segura o O., que vale os seus cincoenta votos. Com o A. não podemos contar, porque é dos amphibios e vae para quem mais der. Por aqui já se rosna na transferencia e todos berram que é uma infamia. O homem tem oito filhos. Que isso não influa no animo de V. Ex.ª. Quanto mais distante fôr a sua collocação melhor, porque mais desafogados ficamos. Espero solução rapida. Resposta telegraphica. A victoria depende d’esta transferencia.

5.º
Conclusões varias sobre a elasticidade do Direito administrativo

a) F. (governamental) tem uma burra. Só paga decima quando fôr da opposição.

b) F. (gov.) tem um rendimento collectavel de reis 100$000. Reduz-se a 50$000.

c) F. (opposição) é professor e politico contrario. Retiradas as gratificações sob qualquer pretexto.

d) F. (gov.) requer uma policia correccional contra X. Pedra nos autos.

e) F. (op.) é filho unico e amparo da familia. Intimado para em tres horas se apresentar á inspecção.

f) F. (gov.) é forte como um toiro e robusto como um Hercules. Entra ámanhã na inspecção. Isento por tisico.

g) F. (gov.) é gallego e intrujão. Na gazeta do partido illustre correligionario e probo cidadão.

h) F. (op.) é homem de bem; eu tambem o creio... apesar de que dizem por ahi (eu não acredito) que é ladrão e salteador de estrada.

6.º
Dirigir nos campos da politiquice, com a aguilhada da administração, o rebanho dos camaristas.

Este problema exige dois mezes de tirocinio com os boieiros do Alemtejo, para se apprender a deitar o laço e a reunir á manada qualquer boi tresmalhado.


Ora diga-me V. Ex.ª: n’estes tres mezes em que tem empregado a sua actividade nas coisas da nossa administração não encontrou ainda em equação, sobre a sua mesa de trabalho, todos esses problemas?

E resolveu-os?

Não os resolveu, porque a sua consciencia e a sua dignidade esperam, ainda, as provas de elasticidade e de resistencia que necessitam para a tensão das patifarias politicas.

V. Ex.ª tem feito um pessimo logar.

Nem come os calhos dos abbades, nem é paysanduco, nem é provarei, nem deita foguetes.

Se não fosse a luminosa e providencial influencia do seu Ex.ᵐᵒ Substituto, homem de assaz provado engenho e competencia em assumptos de Direito administrativo e ilhas adjacentes, V. Ex.ª envergonhava a terra, o partido e os amigos, a cujo numero eu tenho a honra de pertencer.

V. Ex.ª não tem feitio para Administrador.

Em tantos de tal (ainda V. Ex.ª não tinha na gaveta, ao lado das piugas, a banda azul e branca) entraram no seu escriptorio os cidadãos Zé Pita, Tóne do Logar e Manel Cancella.

Este Manel trazia uma questão com o sogro por causa das aguas da rega.

Disse da sua justiça.

V. Ex.ª ouviu, pensou e aconselhou.

Zé Pita, cidadão que tem as suas fumaças de doutor lareiro, metteu a colherada no caso, muito lepido e escorreito com umas objecções ao douto conselho de V. Ex.ª

V. Ex.ª ouviu, pensou e refutou: artigo tantos, paragrapho tal, etc.

Vae n’isto—o Tóne do Logar, home de representação e de lettras gordas na freguezia, chegou-se tambem ao rego da discussão, e metteu o bedelho, descobrindo ainda outra hypothese.

V. Ex.ª ouviu, pensou e concluiu.

Ficára o caso liquidado entre os quatro doutores, digo, entre V. Ex.ª e os tres cidadãos.

Quanto é? perguntou Manel.

Dezoito vintens! respondeu V. Ex.ª

Ficou estarrecido o homem. Nunca imaginára pagar um conselho por mais de tres patacos, muito especialmente agora que o João Moraes os annunciava a quatro menos cinco, para quem se avençasse ao mez.

Sôr Doutor... talvez seja engano de Vóssoria, mas foi só um conselho...

Foram tres e não um! respondeu V. Ex.ª com aquella cara muito arrenegada que ás vezes tanto assusta a gente.

Tres, meu senhor?

Você não falou?

E depois não falou outro?

E não falou depois outro? Tres vezes seis, dezoito.


Justissima era a reclamação.

Nem os sete sabios da Grecia poderiam contestar a legalidade e a exactidão d’aquella operação arithmetica.

Este simples facto revela a rispida e austera execução que V. Ex.ª dá aos sacratissimos principios da Justiça e da Equidade e revela, tambem, a incompetencia de V. Ex.ª para um logar onde, tendo tres, oito, dez ou vinte consultas diarias, nada poderá reclamar, quando venham recommendadas por o sr. Joaquim, ou por outro qualquer confrade politico que se lembre de fazer favores e de adquirir popularidade, á custa dos dois contos que V. Ex.ª gastou na formatura.

Para estas coisas de Politica é preciso vêr muito ao longe, ter vista de caçador, e V. Ex.ª mesmo como caçador, é um desastrado.

Nunca me hei-de esquecer d’aquella surriada que lhe fizeram os rapazes de Arão, quando V. Ex.ª lá appareceu com todo o seu arsenal de guerra.

Um dia, o Rocha e o Leitão suggeriram no cerebro de V. Ex.ª as glorias de Nemrod.

Depois de jantar, sahia V. Ex.ª com todos os petrechos de caça, inoffensivamente mortiferos. Uma solida escopeta de carregar pela culatra; á cinta, um grandecissimo facalhão para escuchinar javalis; no bolso direito, uma enorme navalha de furar lobos; a tiracollo, d’um lado a cartucheira com trezentas cargas de polvora e bala; do outro lado, o canudo de cortiça com vinte e sete furões e furoas; no bolso direito do collete, um revolver de oito tiros; no esquerdo, um box de quebrar dentes a cães e vinte exemplares do Noticioso para necessidades urgentes; nos pés, aquellas grossas botas de sete solas impermeaveis, até, no Rio Minho; aos hombros, o capindó de borracha, gemeo do outro com que o Albino attrae a chuva por essas ruas, em dias claros e formosissimos de Primavera; atraz de V. Ex.ª, ladrando, farejando, saltando vallados e alçando as pernas, seguia a terrivel matilha, recrutada na Parada-velha: podengos de todas as raças e feitios, para coelho, para perdiz, para lobo: o Nilo, a Fuinha, o Gigante,—tó, Nero!—volta, Farrusca!

Assim disposto e precavido, seguia V. Ex.ª por essas aldéas fazendo tremer o solo, os ceos, a terra, os mares, com o aspecto apavorador da sua ferocidade venatoria.

N’isto,—alli ao pé de Arão, um triste pintasilgo risca no ar uma curva e vae poisar no arvoredo proximo.

A matilha amarrou.

V. Ex.ª toma ar, carrega a escopeta, aponta... toma outra vez ar... desfecha e olha.

O passarito soltára uma gargalhada de escarneo e batera as azas, voando...

Quando passou sobre a cabeça de V. Ex.ª, lá do azul dos ceos cahiu uma coisa sobre o seu excellentissimo nariz.

A qual coisa, molle, pastosa, de côr cinzenta e com o feitio retorcido d’um S fez exclamar a um rapazinho que, de carrapuço vermelho e mãos nos bolsos, a distancia presenciava o caso:

Oh que grande caçador de minhocas!

E campos fóra de Politica, Ex.ᵐᵒ Sr., quando encontro V. Ex.ª armado de ponto em branco com a escopeta da Administração, cartucheira presa á banda azul e branca, matilha de abbades e rafeiros,—quando verifico que V. Ex.ª nem tem animo para disparar o bacamarte d’uma transferencia, nem sabe empalmar uma urna, nem falsificar uma acta, nem dirigir uma borga de calhos, nem descascar uma batata, nem deitar um foguete com ropia, nem tocar n’um gaiteiro, nem mentir com cara seria, nem perseguir os professores, nem desgraçar uma familia, nem deshonrar um funccionario, nem amesquinhar um merito, eu, Ex.ᵐᵒ Sr., n’esta occasião em que V. Ex.ª por ahi anda atrapalhado com a escopeta de dois canos que nas mãos lhe metteram, para dar o primeiro tiro contra a opposição—não posso reprimir estas palavras com que, conceituando politicamente V. Ex.ª, parodio o rapazito d’Arão:

—Oh que grande Administrador das duzias!

Aos pés de V. Ex.ª, curva-se respeitosamente o

Zinão.


XXIII
Compadres e Comadres

Decididamente, não se póde ser rapaz solteiro em Valença.

Segundo reza a minha cartilha, os inimigos do homem são tres: mundo, diabo e carne.

Cá na terra, os inimigos dos rapazes são tambem de tres especies: aguas de Christello, bailes e comadres.

Todos estes inimigos teem procedencia diversa: um nasce na Assembléa, outro fóra de Portas, outro na Coroada.

Todos teem um caminho:—o namoro.

Todos teem um fim:—o casamento.

Epilogo egual para todos:—o conjugo vos do Magalhães e a Sr.ª Dona Maria do Hospital.


Berra-se por ahi contra os jesuitas, contra os abusos dos regeneradores, contra as tyrannias do João Cabral, contra tudo que póde affectar o livre exercicio dos nossos direitos e das nossas regalias.

Ninguem se lembra de requerer uma querela contra as comadres da Coroada, que ha dezenas de annos implacavelmente lançam ao pescoço dos nossos mais airosos jovens as gargalheiras do casamento e a colleira de paterfamilias.


Em bella manhã de Abril entra um raio de sol na alcova; acaricia-nos o rosto; faz-nos cocegas no bigode e diz-nos baixinho ao ouvido: São seis horas; levanta-te, calaceiro! Lá fóra cantam as aves, exhalam aromas as flores; está tão bonita a campina... tão risonhos estão os prados... tão diaphana a atmosphera e tão azul o azul dos ceos... Vem commigo. És livre; não precisas de ajudar a lavar os pequenos. Vamos,—veste-te, que eu espero cá fóra.

Vinte minutos depois, respiramos por esses campos o ether das madrugadas. A nossa alma inebria-se; sentimo-nos alegres, bons, fortes e felizes, porque somos livres. Desejavamos possuir umas botas de sete leguas, como as d’aquelles contos da infancia; trepar a todos os oiteiros, subir a todas as collinas, saltar por todas as planicies.

Phantasiamos azas como as da cotovia que se libra nos ares, cantando hymnos de jubilo, de liberdade, de amor.

Horas depois regressamos a casa. Á entrada, a sopeira entrega-nos mysteriosamente uma caixinha dos collarinhos, ou dos pós da gomma, cuidadosamente atada com fita de seda azul.

Abrimos:

Dentro, muito secio e garrido, um palmito; ao lado, teso e perfilado, um cartão de visita:

Fulana de tal.

Desde aquelle momento, o bacillo virgula do matrimonio inficiona o nosso organismo. Perdemos a vontade de comer, damos ais, suspiramos á lua, fazemos versos, cantamos o choradinho e principiamos a cuidar nas roupas brancas.

Se não mudamos immediatamente de terra, unico remedio efficaz, estamos perdidos.

Que me conste, até hoje, dos atacados pela fatal molestia só resiste um—o Velloso. Se escapa até aos quarenta, vae para o museu do Inglez.


Perde-se em a noite dos tempos a origem d’essa funesta cerimonia:—a eleição dos compadres.

Sei que dubia é, ainda, a tradição que a localiza na Coroada; porquanto, auctores varios e jurisconsultos sisudos estabelecem no centro da villa a instituição de tão perfidas solemnidades.

As pandectas da Assembléa, os folios da Collegiada, os annaes da Ex.ᵐᵃ Camara nada informam a tal respeito. Em vão os consulto em frequentes e longas vigilias.

Esta prioridade de direitos na organização do escrutinio annual tem por vezes suscitado controversias violentas e disputas acaloradas entre os pacificos habitantes da rua de S. João e os da Coroada; e se não fôra a sisudez, prudencia, diplomacia e tino politico dos conspicuos inquilinos do Santo Precursor, certamente já teriamos a lamentar successos graves e não pouco deploraveis acontecimentos.

No emtanto, a malquerença entre os dois povos existe e existe evidente.

Na rua de S. João, um habitante da Coroada nunca foi um cidadão da villa:—foi, e é um pelludo da aldéa; e a esta offensa responde a Coroada affirmando a superioridade dos seus costumes e dos seus habitos, allegando, com assaz persuasiva logica, que não tem lá, nem precisa, de Borralhos ou de Egyptos.

A origem de tão lastimaveis dissensões está na eleição das comadres.


A epocha d’esta cerimonia não foi, como alguem poderá imaginar, fixada ao acaso. Fixou-se traiçoeiramente para o domingo de Ramos.

Domingo de Ramos quer dizer: Semana santa e Paschoa—isto é—soirées na egreja e na Assembléa e—mais ainda—chavenas de chá sem assucar preparadas pelo Cruz com agua do Christello.

Aos olhos incautos isto nada significa, mas significa muito para o espirito do observador, porque lhe mostra em caminho perfeitamente livre e desembaraçado, juncado de rosas e saturado de aromas,—a comadre e o compadre amarrados um ao outro com as fitas de seda do palmito e da caixa das amendoas. Vão alegres, risonhos, chilreando, sorrindo, despenhar-se no abysmo sombrio do matrimonio, onde o Magalhães, com uma saia de mulher aos hombros, attencioso e mitrado, lhes desfecha quatro tretas de latim.

O palmito aproxima o compadre da comadre: agradeço a V. Ex.ª—dou-lhe os meus sentimentos, porque foi infeliz na sorte—merecia compadre melhor, e tal, etc.,—diz elle.

Oh sr. Fulano! Por quem é!... fui até a mais feliz.—Cá espero as amendoas.—Olhe que é uma vergonha se as não dá.—Quero vêr, eu quero vêr como se porta—diz ella.

Ao despedir, um cumprimento demorado, um sorriso, um olhar... e compadre e comadre trocam mentalmente, na visão doirada do futuro, o grau do parentesco.

Magalhães surge ao longe, entre nuvens côr de rosa.

A sr.ª Dona Maria do Hospital pisca graciosamente o magano olho esquerdo...


Na quarta-feira santa, entra um rapazito no portal; bate as palmas—sou eu!—faz favor?—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita, oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.

No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.

Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de seios, um suspiro, dois suspiros.

Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.

Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e—entra a comadre na egreja.

Quando abre o livro das orações, já não atina com o Padre-Nosso nem com a Ave-Maria. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres seguintes:

Minha senhora.

Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem, ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia

até á morte

V.


Durante as licções, n’aquelles intervallos em que o Albino canta o seu macarronico, o Padre Alexandre gargareja o melhor e o mais brunido do seu latim e os outros padrecas se revezam, previamente annunciados pelo rapaz sacrista que, de saiote vermelho, vae apagando, um a um, os treze tocos da girandola—compadre e comadre libram as suas almas pelas naves d’um mystico arroubo, ebrios de felicidade, de esperanças risonhas, e dulcificados fartamente com amendoas de Tuy e rebuçados de avenca.

Á noite, na visita ás casas do Senhor, o compadre acompanha a comadre. Atraz, cochicham o futuro sogro e a futura sogra. As beatas, ao longe, segredam mais um casamento... Compadre e comadre já se tratam por tu. Fica combinado o gargarejo.

Amo-teboas noitesaté amanhã.

Domingo de Paschoa.

Baile na Assembléa.

A comadre, quando alguem a pede para dançar de roda, está sempre compromettida. Só dança com o compadre.

Compadre escolhe os melhores doces para a comadre; rodeia de attenções a Mamã da dita comadre; entretem o cavaco com o Papá da dita comadre; é vis-à-vis do Mano da dita comadre.

As amigas da comadre, quando o compadre está em pé, arranjam-lhe logo um logar ao pé da comadre.

Comadrinha vae, compadrinho vem.

No fim da noite, entram já na conversa as roupas de linho, de panno cru, as caçarolas, as panellas.

Lá ao longe, muito ao longe, sempre em nuvens côr de rosa, a fugitiva miragem d’um cavalheiro, irreprehensivelmente encasacado, gravata e luvas brancas,—curvado em graciosa mesura perante o Papá e a Mamã.

Um pedido—um sim, Papá!—uma lagrima da Mamã—um ai! e um fanico.

Dois mezes depois, Padre Magalhães dá o nó; e o mesmo raio do sol, que em Abril nos despertava, penetra indiscretamente na alcova nupcial e segreda-nos ao ouvido:

forte lôrpa!

Annos passados, quando compadre e comadre teem quatro filhas casadoiras, são elles que reclamam a eleição.

Cada palmito que sai de casa é um anzol.

Para o Velloso—oh Paes de familia!—só a coca ou o botirão.


Gentis senhoras da Coroada!

Por piedade! Acabae com este tributo mais violento e mais horrivel do que o tributo de sete mancebos e sete donzellas que, outr’ora, Athenas pagava a Creta.

Por piedade, senhoras!

Arrebataes, annualmente, lá para cima, a melhoria dos mancebos, a nata da mocidade, a fina essencia da juventude, que depois abandonaes a essas ruas—obesos, gordurosos, crivados de callos, paterfamilias de cache-nez, lenço tabaqueiro e barretinho d’algodão.

D’aqui a pouco não ha um rapaz solteiro em Valença; e como as estatisticas demonstram que, para cada mancebo casadoiro ha, entre nós, vinte damas em disponibilidade, attentae que não é risonho o vosso futuro, porque está provado á evidencia, que os rapazes de fóra sabem escapar á magia dos vossos palmitos.

Vêde o Velloso, o Leopoldo, o Gomes da Artilheria, o Prado, o dr. Brandão.

Transijamos, pois, gentis damas:

Nós estamos promptos a enviar annualmente para a Coroada, quarenta arrobas de amendoas e quarenta dictas de rebuçados dos melhores e dos mais ricos que tenham o Có-Có, e o Telmo Parada.

Outrosim nos compromettemos ao pagamento d’um tributo annual de tres mancebos casadoiros, que vos serão entregues no domingo de Ramos, ao meio dia, em frente das Alminhas, com os respectivos bahus de roupa branca: camisas, ceroilas, piugas, barretinhos de dormir, pannos da barba.

Para o pagamento d’este tributo organizaremos um gremio, como o dos negociantes, na distribuição da decima.

Os tres desgraçados serão indicados pela sorte. Irão esses para as negras penas do matrimonio, mas, ao menos, os restantes poderão em todo o anno andar satisfeitos, alegres, livres de melancholias e de... palmitos.

Sou casado tres vezes, senhoras! O Magalhães que o diga...

E tanto ás defunctas consortes, como á companheira actual, quem me prendeu foi a vossa eleição.

Por isso, quando agora vejo um palmito é o mesmo que vêr o diabo.

Em nome da mocidade, protesto contra a

eleição das comadres!


XXIV
Ultimas palavras

Na vida social, uma povoação possue a complexidade do organismo d’um individuo. Pode estudar-se physiologicamente e psychologicamente.

Tem sentimentos, expansões, dôres, coleras, alegrias; tem orgãos, musculos, enfermidades e lesões; periodos de vigor, de engrandecimento e de decadencia.

Athenas foi a alma da civilização hellenica; Sparta teve a musculatura dos fortes na hegemonia das cidades gregas; Roma cingiu o mundo com os seus braços de ferro; na gloria dos seus triumphos e das suas conquistas teve a vertigem da sensualidade e do prazer; libertinou-se, effeminou-se e apodreceu na enxurrada das sargetas.

Paris ri; e Londres, embrutecida com o gin, com as fresh-girls e com os deboches de Cleveland-Street, offerece o nojento bandulho ao facalhão de Jack, ou escouceia no match-box do Pelican Club, em que dois homens se esborracham a sôco, com grande gaudio d’isso que é a quinta essencia da pelintrice, do egoismo, da ambição, do orgulho, da pataqueirice réles da viella e que nas altas espheras do High-life, em Leicester Square, no Regent’s Park ou no Covent Garden se intitula pomposamente—um lord!


Appliquemos aqui, aquella conhecida theoria de Broca sobre a relação entre o volume cerebral e a intelligencia.

O volume do cerebro pode, segundo o eminente sabio, indicar maior ou menor desenvolvimento intellectual.

Ora, o que é o cerebro?

É a parte pensante do organismo.

N’este individuo social—uma povoação—onde o devemos procurar?

Na sua parte illustrada; nos filhos que se distinguem pelas manifestações da sua actividade mental, e, assim, poderemos dizer que o numero d’elles está para a consideração e importancia intellectual do individuo—povoação—como o volume do cerebro está para o individuo—homem.—Tanto maior, quanto mais illustrada, tanto menor quanto menos culta.

E admittido isto, desassombradamente podemos affirmar que nenhuma outra povoação do paiz, com egual numero de habitantes—nas cathedras do Ensino superior, nas elevadas posições do Exercito, nos altos cargos da Magistratura, na Classe medica, na Advocacia, no Commercio e frequentando ainda os cursos superiores—tenha numero egual, que não superior, de filhos, e tão, que não mais, distinctos.

Mas, honrosa como é esta superioridade tambem ignobil e infamante é a indolencia a que nos entregamos, com que abandonamos os nossos direitos politicos, com que ficamos de bocca aberta e mãos nos bolsos, na triste impassibilidade do fackir, assistindo, impotentes como um eunucho, a essa activa evolução que impulsa as mais insignificantes povoações, transformando-as com os benesses das modernas instituições e levando-lhes as arterias á hematose dos grandes centros civilizados.

O titulo de burgo podre, com que realmente este concelho é mencionado em Lisboa, deve ser para nós mais degradante do que a marca a fogo do grilheta e do forçado.

Tempo é de nos libertarmos d’essa tristissima condição de barregan, em eterna dependencia de qualquer tia, velhaca e rufiona que á nossa custa encha a pança e o pé de meia.

Na choldra da prostituição politica do nosso paiz ha circulos que necessitam de caricias e de namoro; ha circulos fieis, ainda que rarissimos; ha-os de pernas abertas para quem mais der, e ha-os pataqueiros destinados a desvirgar os meninos lisboetas, ou a entregar o corpo ao primeiro pandego, que lá de Bijagóz ou de Paio Pires, se lembre de passar por elles, fazendo caminho para ir ajudar a embolar os toiros no curro de S. Bento.

Esta é a nossa triste condição.


Ha seis ou oito annos que n’este burgo podre se manifestaram uns debeis symptomas de vigorização politica. Regosijei.

Pareceu-me que ainda poderia ver Valença como as outras terras; á mesa do orçamento, com o seu logar marcado e o seu talher, e não como então estava: debaixo do banco, apanhando de quando em quando o osso esfolado e o pontapé do gajo que a levara pela trela do voto.

Vans esperanças! Antes o Passado. Appareceu effectivamente a Politica, mas esfomeada, esqueletica, larvada, com manhas de gato lambareiro e caricias de cadella aluada.

Anichou-se por ahi, comendo á tripa-forra e passando o tempo ao sol, de barriga para o ar e carcela desapertada.

Tem dichotes de histrião e insultos de fadista. É insupportavelmente porca: onde toca deixa baba; onde poisa deixa excremento. Quando fala não deita perdigotos, deita escarros; quando escreve não o faz com tinta, mas com pus.

Se graceja causa nauseas, se chora provoca o pontapé.

Examinada physiologicamente encontramos-lhe deficiencia de orgãos. É impotente e a impotencia organica reflecte-se na alma, porque não tem enthusiasmos, nem aspirações, nem... vergonha.

Conjuga só um verbo:—comer; só conhece um pronome:—nós.

Muda de patrão de tres em tres annos. Pouco se importa com isso. Se elle a trata mal, agacha-se, servil e humilde; se a trata bem, esfarrapa-lhe uma cannela ou levanta a perna e... molha-o.


Um ataque de epilepsia politica agita actualmente os magnates eleitoraes.

Está no chôco novo deputado...

Indigitam-se dois filhos da terra como candidatos.

A rua de S. João torce o nariz...

Esta rua de S. João representa os mesmos chimpanzés que, em tempos, rejeitaram o sr. dr. Illidio Ayres para facultativo do Hospital e o sr. dr. José Vieira para medico da Camara.

Para que V. Ex.ª conheça bem a gente que o rodeia, sr. dr. Pestana, aconselho-o a que peça pormenores ácerca das discussões que o seu nome provocou nos centros.

Arrufos, gréves, amuos, etc.

Diz V. Ex.ª que o Zinão é politico e má-lingua.

Contra a primeira accusação protesto respeitosamente, e rogo a V. Ex.ª que faça melhor conceito do meu caracter.

Emquanto á segunda, direi a V. Ex.ª que tem mais a recear da boa-lingua e da fidelidade dos seus pseudo-partidarios, do que da critica zinoica.

Eu defendi sempre a candidatura d’um filho da terra, emquanto que os seus amigos... Informe-se, informe-se V. Ex.ª, porque talvez isso lhe seja proveitoso.


Os trabalhos eleitoraes teem peripecias engraçadissimas que davam para novo volume de Sinapismos.

Abstenho-me, porém, de explorar esse inexgotavel filão de ridiculos, existente na massa cerebral—grude de sapateiro e pura secreção de rins—dos nossos politiqueiros.

Tenho na minha frente dois filhos de Valença. Não sei, nem quero saber qual d’elles tem mais probabilidades de vencer.

Oxalá que todas as difficuldades desappareçam; que todas as indisposições terminem, que todos os esforços se reunam e que esta terra possa, finalmente, ter em S. Bento um representante util e proveitoso, como deve ser qualquer dos seus filhos.

Seja qual fôr o vencedor e a opinião politica que perfilhe, eu saúdo n’elle o valenciano que recebe o mandato dos seus patricios, e oxalá que a eleição de 30 de março de 1890 seja o inicio d’uma politica digna, purificada de trampolinices, de arruaças, de borralhadas da Santa,—independente de histriões e de tartufos, que até á data teem manchado a consideração d’esta terra com o infamissimo labéo de

burgo podre!

Eis o que para Valença deseja o má-lingua do

Zinão.