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The Oxford book of Portuguese verse cover

The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 155: 112. O rio Leça
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

FRANCISCO DE SÁ DE MENESES

1515?-1584

112. O rio Leça

Ó rio Leça,
como corres manso!
Se eu tiver descanso
em ti se começa.
Sempre sossegados
vam teus movimentos:
nam te alteram ventos
nem tempos mudados.
Corres por areas
e bosques sombrios,
nam te turbam rios
nem fontes alheas.
Naces de um penedo
tosco e descomposto,
a ti mostra o rosto
a manhã mui ledo.
A aurora em nacendo,
quando estás mais liso,
com alegre riso
em ti se está vendo.
Quando o mar nam soa
e passam mil velas,
em ti faz capelas
com que se coroa.
Olmos abraçados
tenhas sempre de hera,
sempre a primavera
alegre teus prados!
Logrem teus salgueiros
mil tempos serenos,
nunca sejam menos
os teus amieiros!
Por ti cantam aves,
sem temerem quedas,
mil cantigas ledas
e versos suaves.
De laços e redes
criam sem receo,
seguras no seo
de teus bosques verdes.
Dem-te as noites sono,
e com larga mão
flores o verão,
frutos o outono!
Sombra no estio
sem nenhuns resguardos,
neves e dias pardos
o inverno frio!
Por ti canta Abril
quanto cuida e sonha,
ora com sanfonha,
ora com rabil.
Quando se levanta,
quando o sol mais arde,
assim canta á tarde,
á noite assim canta.
Para que são, Maio,
tantas alegrias,
pois teus longos dias
passam como raio?
Por muito que tardes
são tardanças vans:
foram-se as manhans,
ir-se-hão as tardes.
Para que te gabas
de teus vãos amores?
Para que são flores
pois tam cedo acabas?
Em espaço breve
chega ao mar o Douro:
os cabelos de ouro
se fazem de neve.
Ó rio Leça,
frutos em Janeiro
nacerão primeiro
que de ti me esqueça!
Primeiro em Agosto
nevará com calma
que o tempo desta alma
aparte teu rosto!
Algum tempo manso
Deus o ordene a mi
em que torne a ti
com algum descanso!