FRANCISCO DE SÁ DE MENESES
1515?-1584
112. O rio Leça
Ó rio Leça,
como corres manso!
Se eu tiver descanso
em ti se começa.
Sempre sossegados
vam teus movimentos:
nam te alteram ventos
nem tempos mudados.
Corres por areas
e bosques sombrios,
nam te turbam rios
nem fontes alheas.
Naces de um penedo
tosco e descomposto,
a ti mostra o rosto
a manhã mui ledo.
A aurora em nacendo,
quando estás mais liso,
com alegre riso
em ti se está vendo.
Quando o mar nam soa
e passam mil velas,
em ti faz capelas
com que se coroa.
Olmos abraçados
tenhas sempre de hera,
sempre a primavera
alegre teus prados!
Logrem teus salgueiros
mil tempos serenos,
nunca sejam menos
os teus amieiros!
Por ti cantam aves,
sem temerem quedas,
mil cantigas ledas
e versos suaves.
De laços e redes
criam sem receo,
seguras no seo
de teus bosques verdes.
Dem-te as noites sono,
e com larga mão
flores o verão,
frutos o outono!
Sombra no estio
sem nenhuns resguardos,
neves e dias pardos
o inverno frio!
Por ti canta Abril
quanto cuida e sonha,
ora com sanfonha,
ora com rabil.
Quando se levanta,
quando o sol mais arde,
assim canta á tarde,
á noite assim canta.
Para que são, Maio,
tantas alegrias,
pois teus longos dias
passam como raio?
Por muito que tardes
são tardanças vans:
foram-se as manhans,
ir-se-hão as tardes.
Para que te gabas
de teus vãos amores?
Para que são flores
pois tam cedo acabas?
Em espaço breve
chega ao mar o Douro:
os cabelos de ouro
se fazem de neve.
Ó rio Leça,
frutos em Janeiro
nacerão primeiro
que de ti me esqueça!
Primeiro em Agosto
nevará com calma
que o tempo desta alma
aparte teu rosto!
Algum tempo manso
Deus o ordene a mi
em que torne a ti
com algum descanso!