LUIS DE CAMÕES
1524?-1580
114. Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura,
vai formosa e não segura.
Voltas
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura,
vai formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro entrançado,
fita de cor de encarnado,
tam linda que o mundo espanta;
chove nela graça tanta
que dá graça á formosura,
vai formosa e não segura.
115. A uma senhora resando
Peço-vos que me digais
as orações que resastes,
se são polos que matastes,
se por vos que assi matais?
Se são por vos são perdidas,
que qual será a oração
que seja satisfação,
senhora, de tantas vidas?
Que se vedes quantos vem
a só vida vos pedir,
como vos ha Deus de ouvir
se vos não ouvis ninguem?
Não podeis ser perdoada
com mãos a matar tam prontas,
que se numa trazeis contas
na outra trazeis espada.
Se dizeis que encomendando
os que matastes andais,
se resais per quem matais
para que matais resando?
Que se na força do orar
levantais as mãos aos ceos
não as ergueis para Deus,
erguei-las para matar.
E quando os olhos cerrais,
toda enlevada na fe,
cerram-se os de quem vos ve
para nunca verem mais.
Pois se assi forem tratados
os que vos vem quando orais,
essas horas que resais
são as horas dos finados.
Pois logo, se sois servida
que tantos mortos não sejam,
nam reseis onde vos vejam
ou vede para dar vida:
ou se quereis escusar
estes males que causastes,
resucitai quem matastes,
não tereis por quem resar.
116. Vida da minha alma
Vida da minha alma,
não vos posso ver:
isto não é vida
para se sofrer.
Voltas
Quando vos eu via
esse bem lograva,
a vida estimava
pois entam vivia;
porque vos servia
só para vos ver.
Ja que vos não vejo
para que é viver?
Vivo sem razão,
porque em minha dor
não a pos amor,
que inimigos são.
Mui grande traição
me obriga a fazer
que viva, senhora,
sem vos poder ver.
Não me atrevo ja,
minha tam querida,
a chamar-vos vida,
porque a tenho má:
ninguem cuidará
que isto pode ser,
sendo-me vos vida,
não poder viver.
117. Endechas
Vai o bem fugindo,
crece o mal com os anos,
vão-se descobrindo
com o tempo os enganos.
Amor e alegria
menos tempo dura,
triste de quem fia
nos bens da ventura!
Bem sem fundamento
tem certa a mudança,
certo o sentimento
na dor da lembrança.
Quem vive contente
viva receoso,
mal que se não sente
é mais perigoso.
Quem males sentiu
saiba ja temer
e pelo que viu
julgue o que ha de ser.
Alegre vivia,
triste vivo agora:
chora a alma de dia,
e de noite chora.
Confesso os enganos
de meu pensamento:
bem de tantos anos
foi-se num momento.
Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
chorai, olhos tristes,
o bem que perdestes.
A luz do sol pura
só a vos se negue!
Seja noite escura,
nunca a manhã chegue!
O campo floreça,
murmurem as aguas,
tudo me entristeça,
creçam minhas maguas!
Quisera mostrar
o mal que padeço:
não lhe dá lugar
quem lhe deu começo.
Em tristes cuidados
passo a triste vida:
cuidados cansados,
vida aborrecida!
Nunca pude crer
o que agora creio:
chegou-me o prazer
do mal que me veio.
Ah ventura minha,
como me negaste!
um só bem que tinha
porque m’ o roubaste?
Triste fantasia,
quanta cousa guarda!
Quem ja visse o dia
que tanto lhe tarda!
Nesta vida cega
nada permanece,
o que inda não chega
ja desaparece.
Qualquer esperança
foge como o vento:
tudo faz mudança
salvo meu tormento.
Amor cego e triste,
quem o tem padece:
mal quem lhe resiste,
mal quem lhe obedece!
No meu mal esquivo
sei como amor trata,
e pois nele vivo
nenhum amor mata.
118. A uma cativa chamada Barbara
Aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
ja não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos
que para meus olhos
fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
nem no ceo estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular!
Olhos sossegados,
pretos e cansados
mas não de matar!
Uma graça viva
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos,
Pretidão de amor!
Tam doce a figura
que a neve lhe jura
que trocara a cor!
Leda mansidão
que o siso acompanha:
bem parece estranha,
mas barbara não.
Presença serena
que a tormenta amanha,
nela enfim descansa
toda minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo
e pois nela vivo
é força que viva!
119. Babel e Sião
Sobolos rios que vão
por Babilonia me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nele passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado:
Babilonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Ali lembranças contentes
na alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tam presentes
como se nunca passaram.
Ali depois de acordado,
com o rosto banhado em agua,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
nam é gosto mas é magua.
E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos,
onde vi quantos enganos
faz o tempo ás esperanças.
Ali vi o maior bem
quam pouco espaço que dura,
o mal quam depressa vem;
e quam triste estado tem
quem se fia da ventura.
Vi aquilo que mais val,
que entam se entende milhor
quando mais perdido for;
vi ao bem suceder o mal,
o ao mal muito pior.
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento,
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mi que espalho
tristes palavras ao vento.
Bem são rios estas aguas
com que banho este papel,
bem parece ser cruel
variedade de maguas
e confusão de Babel.
Como homem por exemplo
dos trances em que se achou,
depois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou;
assi, depois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei
nos salgueiros pendurei
os orgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: Musica amada,
deixo-vos neste arvoredo
á memoria consagrada.
Frauta minha que tangendo
os montes fazieis vir
para onde estaveis, correndo,
e as aguas que iam decendo
tornavam logo a subir.
Jamais vos nam ouvirão
os tigres que se amansavam,
e as ovelhas que pastavam
das ervas se fartarão,
que por vos ouvir deixavam.
Ja não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente,
nem poreis freo á corrente,
e mais se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura
nem podereis ja trazer
atras vos a fonte pura,
pois não podestes mover
desconcertos da ventura.
Ficareis oferecida
á fama que sempre vela,
frauta de mim tam querida:
porque mudando-se a vida
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados
e logo a maior idade
ja sente por pouquidade
aqueles gostos passados.
Um gosto que hoje se alcança
amanhã ja o não vejo:
assi nos traz a mudança
d’ esperança em esperança
e de desejo em desejo.
Mas em vida tam escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
que quanto da vida passa
está recitando a morte.
Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade:
nam cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.
Que idade, tempo e espanto
de ver quam ligeiro passe
nunca em mim poderam tanto
que, posto que deixo o canto,
a causa dele deixasse.
Mas em tristezas e nojos,
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
«tendré presente a los ojos
por quien muero tan contento.»
Orgãos e frauta deixava,
despojo meu tam querido,
no salgueiro que ali estava,
que para trofeo ficava
de quem me tinha vencido.
Mas lembranças de afeição
que ali cativo me tinha
me preguntaram entam
que era da musica minha
que eu cantava em Sião:
Que foi d’ aquele cantar
das gentes tam celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda a passar
qualquer trabalho passado?
Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso
por entre o espesso arvoredo,
e de noite o temeroso
cantando refrea o medo.
Canta o preso docemente,
os duros grilhões tocando,
canta o segador contente,
e o trabalhador cantando
o trabalho menos sente.
Eu que estas cousas senti
na alma de maguas tam chea.
Como dirá, respondi,
quem alheo está de si
doce canto em terra alhea?
Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos engeito.
Que não parece razão
nem seria cousa idonea
por abrandar a paixão
que cantasse em Babilonia
as cantigas de Sião.
Que quando a muita graveza
da saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes morra de tristeza
que por abrandâ-la cante.
Que se o fino pensamento
só na tristeza consiste
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste
que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
o que passo e passei ja
nem menos o escreverei:
porque a pena cansará
e eu não descansarei.
Que se vida tam pequena
se acrecenta em terra estranha
e se amor assi o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.
Porem se para assentar
o que sente o coração
a pena ja me cansar
não canse para voar
a memoria em Sião!
Terra bem-aventurada,
se por algum movimento
d’ alma me fores tirada,
minha pena seja dada
a perpetuo esquecimento!
A pena deste desterro
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida
em castigo de meu erro!
E se eu cantar quiser
em Babilonia sujeito,
Hierusalem, sem te ver,
a voz quando a mover
se me congele no peito!
A minha lingua se apegue
ás fauces, pois te perdi,
se, em quanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti!
Mas ó tu, terra de gloria,
se eu nunca vi tua essencia,
como me lembras na ausencia?
Não me lembras na memoria
senão na reminiscencia.
Que a alma é taboa rasa
que com a escrita doutrina
celeste tanto imagina
que voa da propria casa
e sobe á patria divina.
Não é logo a saudade
da terra onde naceu
a carne, mas é do ceo,
d’ aquela santa cidade
d’ onde est’ alma decendeu.
E aquela humana figura
que cá me pode alterar
não é quem se ha de buscar:
é raio de formosura
que só se deve de amar.
Que os olhos e a luz que atea
o fogo que cá sujeita,
não do sol nem da candea,
é sombra daquela idea
que em Deus está mais perfeita.
E os que cá me cativaram
são poderosos afeitos
que os corações tem sujeitos:
sofistas que me ensinaram
maos caminhos por direitos.
Destes o mando tirano
me obriga com desatino
a cantar ao som do dano
cantares de amor profano
por versos de amor divino.
Mas eu, lustrado com o santo
raio na terra de dor,
de confusões e de espanto,
como hei de cantar o canto
que só se deve ao Senhor?
Tanto pode o beneficio
da graça que dá saude
que ordena que a vida mude,
e o que eu tomei por vicio
me fez grao para a virtude;
e fez que este natural
amor que tanto se preza
suba da sombra ao real,
da particular beleza
para a beleza geral.
Fique logo pendurada,
ó frauta com que tangi,
a Hierusalem sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti.
Não cativo e ferrolhado
na Babilonia infernal,
mas dos vicios desatado
e cá desta a ti levado,
patria minha natural!
E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto ja fiz
do gram livro dos viventes!
E tomando ja na mão
a lira santa e capaz
de outra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão de paz!
Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento sagrado!
Mova-se no mundo espanto
que do que ja mal cantei
a palinodia canto.
A vos só me quero ir,
Senhor e gram Capitão
da alta torre de Sião,
á qual não posso subir
se me vos não dais a mão.
No gram dia singular
que na lira em douto som
Hierusalem celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos com o poder vão:
arrasa-los igualmente,
conheçam que humanos são!
E aquele poder tam duro
dos afectos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que ja me entraram o muro
do livre arvitrio que tenho;
estes que tam furiosos
gritando vem a escalar-me,
maos espiritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derribar-me;
derribai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nos
nem com eles ir a vos
nem sem vos tirar-nos deles.
Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se vos, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.
E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tam fea,
toda de miseria chea,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhorea,
beato só pode ser
quem com a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e lhe vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste.
Quem com diciplina crua
se fere mais que uma vez;
cuja alma, de vicios nua,
faz nodoas na carne sua
que ja a carne na alma fez.
E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e em nacendo os afogar
por não virem a parar
em vicios graves e urgentes;
quem com eles logo der
na pedra do furor santo
e batendo os desfizer
na pedra que veio a ser
enfim cabeça do canto;
Quem logo quando imagina
nos vicios da carne má
os pensamentos declina
áquela carne divina
que na cruz esteve ja;
quem do vil contentamento
cá deste mundo visibil
quanto ao homem for possibil
passar logo o entendimento
para o mundo inteligivil;
ali achará alegria
em tudo perfeita e chea
de tam suave harmonia
que nem por pouca recrea
nem por sobeja enfastia;
ali verá tam profundo
misterio na suma alteza
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu divino aposento,
minha patria singular,
se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?
Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tam justo e tam penitente
que depois de a ti subir
lá descanse eternamente!
120. Soneto
Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas aguas de cristal
que em vos os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;
silvestres montes, asperos penedos,
compostos de concerto desigual:
sabei que sem licença de meu mal
ja não podeis fazer meus olhos ledos.
E pois ja me não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas
nem aguas que correndo alegres vem:
semearei em vos lembranças tristes,
rogar-vos-hei com lagrimas saudosas
e nacerão saudades de meu bem.
121. Soneto
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança:
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades
diferentes em tudo da esperança:
do mal ficam as maguas na lembrança,
do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto
que ja coberta foi de neve fria,
e em mi converte em choro o doce canto;
e afora este mudar-se cada dia
outra mudança faz de mor mudança,
que nam se muda ja como soia.
122. Amor
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que doi e não se sente,
é um contentamento descontente,
é um dor que desatina sem doer;
é um não querer mais que bem querer,
é solitario andar entre a gente,
é um não contentar-se de contente,
é cuidar que se ganha em se perder;
é um estar-se preso por vontade,
é servir a quem vence o vencedor,
é um ter com quem nos mata lealdade:
mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade,
sendo a si tam contrario o mesmo amor?
123. O frecheiro cego
Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando,
o verso sem medida, alegre e brando,
despedindo no rustico raminho;
o cruel caçador, que de caminho
se vem calado e manso desviando,
com pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no estigio lago eterno ninho.
Desta arte o coração, que livre andava,
posto que ja de longe destinado,
onde menos temia foi ferido;
porque o frecheiro cego me esperava
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.
124. Jacob e Raquel
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela,
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por premio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la:
porem o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
assi lhe era negada a sua pastora
como se a não tivera merecida,
começou a servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira se não fora
para tam longo amor tam curta a vida!
125. Circe
Um mover de olhos brando e piedoso
sem ver de que; um riso brando e honesto
quasi forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravissimo e modesto;
uma pura bondade, manifesto
indicio da alma, limpo e gracioso;
um encolhido olhar; uma brandura;
um medo, sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:
esta ja foi a celeste formosura
da minha Circe e o magico veneno
que póde transformar meu pensamento.
126. Alma minha gentil
Alma minha gentil que te partiste
tam cedo desta vida descontente,
repousa tu no ceo eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste!
Se lá no assento etereo onde subiste
memoria desta vida se consente,
não te esqueças de aquele amor ardente
que ja nos olhos meus tam puro viste!
E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da magua, sem remedio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tam cedo de cá me leve a ver-te
quam cedo de meus olhos te levou.
127. Despedida
Aquela triste e leda madrugada,
chea toda de magua e de piedade,
em quanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando á terra claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade
que nunca poderá ver-se apartada;
ela só viu as lagrimas em fio
que, de uns olhos e de outros derivadas
juntando-se formaram largo rio;
ela ouviu as palavras maguadas
que poderão tornar o fogo frio
e dar descanso ás almas condenadas.
128. Canção
Junto de um seco, duro, esteril monte
inutil e despido, calvo e informe,
da natureza em tudo aborrecido,
onde nem ave voa nem fera dorme,
nem corre claro rio nem ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruido;
cujo nome, do vulgo introducido,
é Feliz, por antifrasi infelice;
o qual a natureza
situou junto á parte
aonde um braço de alto mar reparte
a Abassia da Arabica aspereza,
em que fundada ja foi Berenice,
ficando á parte donde
o sol que nela ferve se lhe esconde;
o cabo se descobre com que a costa
africana, que do Austro vem correndo,
limite faz, Aromata chamado:
Aromata outro tempo, que volvendo
a roda, a rude lingua mal composta
dos proprios outro nome lhe tem dado.
Aqui no mar, que quer apressurado
entrar por a garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura;
aqui nesta remota, aspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
tambem de si deixasse um breve espaço
porque ficasse a vida
por o mundo em pedaços repartida.
Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maos e solitários,
de trabalho, de dor e de ira cheos,
não tendo tam sómente por contrarios
a vida, o sol ardente, as aguas frias,
os ares grossos, fervidos e feos,
mas os meus pensamentos, que são meus
para enganar a propria natureza,
tambem vi contra mi,
trazendo-me á memoria
alguma ja passada e breve gloria,
que eu ja no mundo vi quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por mostrar-me que havia
no mundo muitas horas de alegria.
Aqui estive eu com estes pensamentos
gastando tempo e vida; os quais tam alto
me subiam nas asas que caía,
ó vede se sería leve o salto!
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
O imaginar aqui se convertia
em improvisos choros e em suspiros
que rompiam os ares;
aqui a alma cativa
chagada toda estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba fortuna,
soberba, inexoravel e importuna.
Não tinha parte donde se deitasse
nem esperança alguma onde a cabeça
um pouce reclinasse por descanso:
tudo dor lhe era e causa que padeça,
mas que pereça não; porque passasse
o que quis o destino nunca manso.
Ó que este irado mar gemendo amanso:
estes ventos da voz importunados
parece que se enfream!
Sómente o ceo severo,
as estrelas e o fado sempre fero
com meu perpetuo dano se recream,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tam pequeno!
Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algum’ hora
lembrava a uns claros olhos que ja vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angelicas tocasse
daquela em cuja vista ja vivi;
a qual tornando um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos ja passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores
por ela padecidos e buscados,
e, posto que ja tarde, piedosa
um pouco lhe pesasse
e lá entre si por dura se julgasse:
isto só que soubesse me seria
descanso para a vida que me fica;
com isto afagaria o sofrimento.
Ah senhora, ah senhora! E que tam rica
estais, que ca, tam longe de alegria,
me sustentais com doce fingimento!
Logo que vos figura o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena:
só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera morte,
e logo se me juntam esperanças
com que, a fronte tornada mais serena,
torno os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.
Aqui com elas fico preguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte onde estais, por vos, senhora;
ás aves que ali voam se vos viram,
que fazieis, que estaveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada se milhora,
toma espiritos novos com que vença
a fortuna e trabalho,
só por tornar a ver-vos,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o tempo que a tudo dará talho,
mas o desejo ardente que detença
nunca sofreo, sem tento
me abre as chagas de novo ao sofrimento.
Assi vivo; e se alguem te preguntasse,
canção, porque nam moiro,
podes-lhe responder que porque moiro.