WeRead Powered by ReaderPub
The Oxford book of Portuguese verse cover

The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 177: 132. Egloga
Open in WeRead

About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

O poeta Simonides, falando
com o capitão Themistocles um dia,
em cousas de ciencia praticando,
um arte singular lhe prometia
que entam compunha, com que lh’ ensinasse
a lembrar-se de tudo o que fazia;
onde tam sutis regras lhe mostrasse
que nunca lhe passassem da memoria
em nenhum tempo as cousas que passasse
Bem merecia, certo, fama e gloria
quem dava regra contra o esquecimento
que sepulta qualquer antiga historia.
Mas o capitão claro, cujo intento
bem diferente estava, porque havia
do passado as lembranças por tormento,
Ó ilustre Simonides, dizia,
pois tanto em teu engenho te confias
que mostras á memoria nova via,
se me desses uma arte que em meus dias
me não lembrasse nada do passado,
ó quanto milhor obra me fazias!
Se este excelente dito ponderado
fosse por quem se visse estar ausente,
em longas esperanças degradado,
ó como bradaria justamente:
Simonides, inventa novas artes,
não midas o passado com o presente!
Que se é forçado andar por varias partes,
buscando á vida algum descanso honesto,
que tu, fortuna injusta, mal repartes,
e se o duro trabalho é manifesto
que, por grave que seja, ha de passar-se
com-animoso esprito e ledo gesto,
de que sirve ás pessoas o lembrar-se
do que se passou ja, pois tudo passa,
senam d’ entristecer-se e maguar-se?
Se em outro corpo uma alma se traspassa,
não, como quis Pitagoras, na morte,
mas, como quer amor, na vida escassa;
e se este amor no mundo está de sorte
que na virtude só de um lindo objeito
tem um corpo sem alma vivo e forte,
onde este objeito falta, que é defeito
tamanho para a vida que ja nela
me está chamando á pena a dura Alecto;
porque me não criara a minha estrela
selvatico no mundo e habitante
na dura Scitia e no mais duro dela?
Ou no Caucaso horrendo fraco infante,
criado ao peito de uma tigre hircana,
homem fora formado de diamante?
Porque a cerviz ferina e inhumana
não submetera ao jugo e dura lei
d’ aquele que dá vida quando engana;
ou em pago das aguas que estilei
as que passei do mar foram do Lete,
para que m’ esquecera o que passei!
Porque o bem que a esperança vã promete
ou a morte a estorva ou a mudança,
que é mal que uma alma em lagrimas derrete.
Ja, senhor, cairá como a lembrança
no mal do bem passado é triste e dura,
pois nace aonde morre a esperança.
E se quiser saber como se apura
em almas saudosas, não se enfade
de ler tam longa e misera escritura.
Soltava Eolo a redea e liberdade
ao manso Favonio brandamente
e eu a tinha ja solta á saudade;
Neptuno tinha posto o seu tridente,
a proa a branca escuma dividia,
com a gente maritima contente.
O coro das Nereidas nos seguia,
os ventos namorada Galatea
consigo sossegados os movia;
das argenteas conchinhas Panopea
andava por o mar fazendo molhos,
Melanto, Dinamene, com Ligea.
Eu, trazendo lembranças por antolhos,
trazia os olhos na agua sossegada
e a agua sem sossego nos meus olhos;
a bem-aventurança ja passada
diante de mi tinha tam presente
como se não mudasse o tempo nada,
e com o gesto imoto e descontente
com um suspiro profundo e mal ouvido,
por não mostrar meu mal a toda a gente,
dizia: Ó claras ninfas, se o sentido
em puro amor tivestes, e inda agora
da memoria o não tendes esquecido,
se por ventura fordes algum’ hora
adonde entra o gram Tejo a dar tributo
a Tethis, que vos tendes por senhora,
ou ja por ver o verde prado enxuto
ou ja por colher ouro rutilante,
das tagicas areas rico fruto,
nelas em verso erotico e elegante
escrevei com uma concha o que em mi vistes;
pode ser que algum peito se quebrante,
e contando de mi memorias tristes
os pastores do Tejo, que me ouviam,
ouçam de vos as maguas que me ouvistes.
Elas, que ja no gesto me entendiam,
nos meneos das ondas me mostravam
que em quanto lhes pedia consentiam.
Estas lembranças que me acompanhavam
por a tranquilidade da bonança
nem na tormenta triste me deixavam.
Porque chegando ao Cabo da Esperança,
começo da saudade que renova,
lembrando a longa e aspera mudança,
debaixo estando ja da estrela nova
que no novo hemisferio resplandece,
dando do segundo axe certa prova,
eis a noite com nuvens se escurece,
do ar subitamente foge o dia,
e todo o largo Oceano se embravece.
A maquina do mundo parecia
que em tormentas se vinha desfazendo,
em serras todo o mar se convertia.
Lutando Boreas fero e Noto horrendo
sonoras tempestades levantavam,
das naos as velas concavas rompendo.
As cordas com o ruido assoviavam:
os marinheiros, ja desesperados,
com gritos para o ceo o ar coalhavam.
Os raios por Vulcano fabricados
vibrava o fero e aspero Tonante,
tremendo os polos ambos de assombrados.
Amor ali mostrando-se possante
e que por algum medo não fugia
mas quanto mais trabalho mais constante,
vendo a morte presente, em mi dizia:
Se algum’ hora, senhora, vos lembrasse,
nada do que passei me lembraria.
Enfim nunca houve cousa que mudasse
o firme amor intrinseco de aquele
em quem alguma vez de siso entrasse.
Uma cousa, senhor, por certa assele
que nunca amor se afina nem se apura
em quanto está presente a causa dele.
Desta arte me chegou minha ventura
a esta desejada e longa terra,
de todo pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaidade em nos se encerra,
e nos proprios quam pouca; contra quem
foi logo necessario termos guerra.
Uma ilha que o Rei de Porcá tem
e que o Rei da Pimenta lhe tomara,
fomos tomar-lh’ a, e sucedeu-nos bem.
Com uma grossa armada que juntara
o Viso-Rei, de Goa nos partimos
com toda a gente de armas que se achara;
e com pouco trabalho destruimos
a gente no curvo arco exercitada:
com morte, com incendios os punimos.
Era a ilha com aguas alagada
de modo que se andava em almadias,
enfim outra Veneza trasladada.
Nela nos detuvimos sós dous dias
que foram para alguns os derradeiros,
pois passaram da Estige as ondas frias;
que estes são os remedios verdadeiros
que para a vida estão aparelhados
aos que a querem ter por cavaleiros.
Ó lavradores bem-aventurados,
se conhecessem seu contentamento,
como vivem no campo sossegados!
Dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara de agua pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
Não vem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas arvores contente,
sem lhe quebrar o sono repousado
a gram cobiça de ouro reluzente.
Se lhe falta o vestido perfumado
e da formosa cor de Assiria tinto
e dos torçaes atalicos lavrado;
se não tem as delicias de Corinto
e se de Pario os marmores lhe faltam,
o piropo, a esmeralda, e o jacinto;
se as suas casas de ouro não se esmaltam,
esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
onde os cabritos seus comendo saltam.
Ali lhe mostra o campo varias cores,
vem-se os ramos pender com o fruto ameno,
ali se afina o canto dos pastores,
ali cantara Titiro e Sileno;
enfim por estas partes caminhou
a sã justiça para o ceo sereno.
Ditoso seja aquele que alcançou
poder viver na doce companhia
das mansas ovelhinhas que criou!
Este bem facilmente alcançaria
as causas naturais de toda cousa:
como se gera a chuva e neve fria,
os trabalhos do sol, que não repousa,
e porque nos dá a lua a luz alhea,
se tolher-nos de Phebo os raios ousa;
e como tam depressa o ceo rodea,
e como um só os outros traz consigo,
e se é benigna ou dura Citherea.
Bem mal pode entender isto que digo
quem ha de andar seguindo o fero Marte,
que sempre os olhos traz em seu perigo.
Porem seja, senhor, de qualquer arte,
pois posto que a fortuna possa tanto
que tam longe de todo o bem me aparte,
não poderá apartar meu duro canto
desta obrigação sua em quanto a morte
me não entrega ao duro Radamanto,
se para tristes ha tam leda sorte.

130. Canção

Ja a roxa manhã clara
as portas do Oriente vinha abrindo,
os montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O sol, que nunca para,
da sua alegre vista saudoso,
tras ela pressuroso
nos cavalos cansados do trabalho
que respiram nas hervas fresco orvalho
s’ estende claro, alegre e luminoso;
os passaros voando
de raminho em raminho vão saltando,
e com suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.
A manhã bela, amena
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
clara, suave, angelica, serena.
Ó deleitosa pena!
Ó efeito de amor alto e potente!
Pois permite e consente
que ou donde quer que eu ande ou donde esteja
o serafico gosto sempre veja
por quem de viver triste sou contente.
Mas tu, aurora pura,
de tanto bem dá graças á ventura,
pois as foi pôr em ti tam excelentes
que representes tanta formosura.
A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem moiro
com os cabelos de ouro
que nenhum ouro iguala se os remeda.
Esta a luz é que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
os orvalhos das flores delicadas
são nos meus olhos lagrimas cansadas
que eu choro com o prazer de meu tormento;
os passaros que cantam
meus espiritos são que a voz levantam
manifestando o gesto peregrino
com tam divino som que o mundo espantam.
Assi como acontece
a quem a cara vida está perdendo
que em quanto vai morrendo
alguma visão santa lhe aparece,
a mim, em quem falece
a vida que sois vos, minha senhora,
a esta alma que em vos mora,
em quanto da prisão se está apartando,
vos estais justamente apresentando
em forma de formosa e roxa aurora.
Ó ditosa partida!
Ó gloria soberana alta e subida!
Se me não impedir o meu desejo,
porque o que vejo, enfim, me torna á vida.
Porem a natureza
que nesta pura vista se mantinha
me falta tam asinha
como o sol faltar soi á redondeza;
se houverdes que é fraqueza
morrer em tam penoso e triste estado,
amor será culpado,
ou vos, onde ele vive tam isento
que causastes tam largo apartamento,
porque perdesse a vida com o cuidado.
Que se viver não posso,
homem formado só de carne e osso,
esta vida que perco amor m’ a deu,
que não sou meu: se moiro, o dano é vosso.
Canção de cisne, feito em hora extrema,
na dura pedra fria
da memoria te deixo em companhia
do letreiro da minha sepultura,
que a sombra escura ja m’ impede o dia.

131. Canção

Vão as serenas aguas
do Mondego decendo
e mansamente até o mar não param,
por onde as minhas maguas
pouco a pouco crecendo
para nunca acabar-se começaram.
Ali se me mostraram,
neste lugar ameno
em que inda agora moro,
testa de neve e de ouro,
riso brando e suave, olhar sereno,
um gesto delicado,
que sempre na alma me estará pintado.
Nesta florida terra,
leda, fresca e serena,
ledo e contente para mi vivia,
em paz com minha guerra,
glorioso com a pena
que de tam belos olhos procedia.
D’ um dia em outro dia
o esperar m’ enganava,
tempo longo passei,
com a vida folguei,
só porque em bem tamanho se empregava.
Mas que me presta ja,
que tam formosos olhos não os ha?
Ó quem me ali dissera
que de amor tam profundo
o fim pudesse ver em algum’ hora!
E quem cuidar podera
que houvesse aí no mundo
apartar-me eu de vos, minha senhora!
Para que desde agora,
ja perdida a esperança,
visse o vão pensamento
desfeito em um momento
sem me poder ficar mais que a lembrança,
que sempre estará firme
até no derradeiro despedir-me.
Mas a mor alegria
que d’ aqui levar posso
e com que defender-me triste espero
é que nunca sentia
no tempo que fui vosso
quererdes-me vos quanto vos eu quero.
Porque o tormento fero
do vosso apartamento
não vos dará tal pena
como a que me condena,
que mais sentirei vosso sentimento
que o que a minha alma sente:
morra eu, senhora, e vos ficai contente.
Tu, canção, estarás
agora acompanhando
por estes campos estas claras aguas;
e por mi ficarás
com choro suspirando,
porque, ao mundo dizendo tantas maguas,
como uma larga historia
minhas lagrimas fiquem na memoria.

132. Egloga

Umbrano
Que grande variedade vão fazendo,
Frondelio amigo, as horas apressadas
Como se vão as cousas convertendo
em outras cousas varias e inesperadas!
Um dia a outro dia vai trazendo
por suas mesmas horas ja ordenadas,
mas quam conformes são na quantidade
tam diferentes são na qualidade.
Eu vi ja deste campo as varias flores
ás estrelas do ceo fazendo inveja,
adornados andar vi os pastores
de quanto por o mundo se deseja,
e vi com o campo competir nas cores
os trajes de obra tanta e tam sobeja
que se a rica materia não faltava
a obra de mais rica sobejava.
E vi perder seu preço as brancas rosas
e quasi escurecer-se o claro dia
diante de umas mostras perigosas
que Venus mais que nunca engrandecia,
as pastoras enfim vi tam formosas
que o amor de si mesmo se temia:
mas mais temia o pensamento falto
de não ser para ter temor tam alto.
Agora tudo está tam diferente
que move os corações a grande espanto,
e parece que Jupiter potente
se enfada ja de o mundo durar tanto,
o Tejo corre turvo e descontente,
as aves deixam seu suave canto,
e o gado, inda que a erva lhe falece,
mais que da falta dela se emagrece.
Frondelio
Umbrano irmão, decreto é da natura
inviolavel, fixo e sempiterno
que a todo bem suceda desventura
e não haja prazer que seja eterno:
ao claro dia segue a noite escura,
ao suave verão o duro inverno,
e se ha cousa que saiba ter firmeza
é sómente esta lei da natureza.
Toda alegria grande e suntuosa
a porta abrindo vem ao triste estado:
se uma hora vejo alegre e deleitosa
temendo estou do mal aparelhado.
Não ves que mora a serpe venenosa
entre as flores do fresco e verde prado?
Ah, não te engane algum contentamento
que mais instavel é que o pensamento!
E praza a Deus que o triste e duro fado
de tamanhos desastres se contente;
que sempre um grande mal inopinado
é mais do que o espera a incauta gente;
que vejo este carvalho que queimado
tam gravemente foi do raio ardente:
não seja ora prodigio que declare
que o barbaro cultor meus campos are.
Umbrano
Em quanto de seguro azambujeiro
nos pastores de Luso houver cajados,
com o valor antigo que primeiro
os fez no mundo tam assinalados,
não temas tu, Frondelio companheiro,
que em algum tempo sejam sojugados
nem que a cerviz indomita obedeça
a outro jugo qualquer que se lhe ofreça.
E posto que a soberba se levante
de inimigos a torto e a direito,
não creas tu que a força repugnante
do fero e nunca ja vencido peito,
que desde quem possui o monte Atlante
adonde bebe o Hydaspe tem sujeito,
o possa nunca ser de força alhea,
em quanto o sol a terra e o ceo rodea.
Frondelio
Umbrano, a temeraria segurança
que em força ou em razão não se assegura
é falsa e van, que a grande confiança
não é sempre ajudada da ventura;
que lá junto das aras da esperança
Nemesis moderada, justa e dura
um freo lhe está pondo e lei terribil
que os limites não passe do possibil.
E se atentares bem os grandes danos
que se nos vão mostrando cada dia,
porás freo tambem a esses enganos
que te está figurando a ousadia:
tu não ves como os lobos tingitanos
apartados de toda cobardia
matam os cães do gado guardadores
e não sómente os cães mas os pastores?
Pois o grande curral, seguro e forte,
do alto monte Atlas não ouviste
que com sanguinolenta e fera morte
despovoado foi por caso triste?
Ó triste caso! Ó desastrosa sorte,
contra quem força humana não resiste!
Que ali tambem da vida foi privado
o meu Tionio, ainda em flor cortado.
Umbrano
Em lagrimas me banha rosto e peito
d’ esse caso terrivel a memoria,
quando vejo quam sabio e quam perfeito
e quam merecedor de longa historia
era esse teu pastor, que sem direito
deu ás Parcas a vida transitoria.
Mas não ha quem d ’erva o gado farte
nem de juvenil sangue o fero Marte.
Porem se te não for muito pesado,
ja que esta triste morte me lembraste,
canta-me d’ este caso desastrado
aqueles brandos versos que cantaste
quando hontem, recolhendo o manso gado,
de nos outros pastores te apartaste,
que eu tambem, que as ovelhas recolhia,
não te podia ouvir como queria.
Frondelio
Como queres renove ao pensamento
tamanho mal, tamanha desventura?
Porque espalhar suspiros vãos ao vento
para os que tristes são é falsa cura;
mas pois te move tanto o sentimento
da morte de Tionio triste e escura,
eu porei teu desejo em doce efeito,
se a dor me não congele a voz no peito.
Umbrano
Canta agora, pastor, que o gado pace
entre as humidas ervas sossegado,
e lá nas altas serras, onde nace,
o sacro Tejo, á sombra recostado,
com os seus olhos no chão, a mão na face,
está para te ouvir aparelhado,
e com silencio triste estam as ninfas
dos olhos destilando claras linfas.
O prado as flores brancas e vermelhas
está suavemente presentando,
as doces e solicitas abelhas
com susurro agradavel vão voando,
as candidas pacificas ovelhas
das ervas esquecidas, inclinando
as cabeças estam ao som divino
que faz passando o Tejo cristalino.
O vento d’ entre as arvores respira,
fazendo companhia ao claro rio,
nas sombras a ave garrula suspira,
sua magna espalhando ao vento frio:
toca, Frondelio, toca a doce lira,
que de aquele verde alamo sombrio
a branda Philomela entristecida
ao mais saudoso canto te convida.
Frondelio
Aquele dia as aguas não gostaram
as mimosas ovelhas, e os cordeiros
o campo encheram de amorosos gritos;
e não se penduraram dos salgueiros
as cabras, de tristeza, mas negaram
o pasto a si e o leite aos cabritos.
Prodigios infinitos
mostrava aquele dia
quando a Parca queria
principio dar ao fero caso triste.
E tu tambem, ó corvo, o descobriste
quando da mão direita em voz escura
voando repetiste
a tiranica lei da morte dura.
Tionio meu, o Tejo cristalino
e as arvores que ja desamparaste
choram o mal de tua ausencia eterna.
Não sei porque tam cedo nos deixaste
mas foi consentimento do destino,
por quem o mar e a terra se governa
A noite sempiterna
que tu tam cedo viste
cruel, acerba e triste,
sequer de tua idade não te dera
que lograras a fresca primavera?
Não usara comnosco tal crueza
que nem nos montes fera,
nem pastor ha no campo sem tristeza.
Os faunos, certa guarda dos pastores,
ja não seguem as ninfas na espessura,
nem as ninfas aos cervos dão trabalho;
tudo, qual ves, é cheo de tristura:
ás abelhas o campo nega as flores,
como ás flores a aurora nega o orvalho.
Eu, que cantando espalho
tristezas todo o dia,
a frauta que soia
mover as altas arvores tangendo
se me vai de tristeza enrouquecendo,
que tudo vejo triste neste monte;
e tu tambem correndo
manas envolta e triste, ó clara fonte.
As tagides no rio, e na aspereza
do monte as oreadas, conhecendo
quem te obrigou ao duro e fero Marte,
como em geral sentença vão dizendo
que não pode no mundo haver tristeza
em cuja causa amor não tenha parte.
Porque ele enfim desta arte
nos olhos saudosos,
nos passos vagarosos,
e no rosto que amor com fantasia
de palida viola lhe tingia,
a todos de si dava sinal certa
do fogo que trazia,
que nunca soube amor ser encoberto.
Ja diante dos olhos lhe voavam
imagens e fantasticas pinturas,
exercicios do falso pensamento;
ja por as solitarias espessuras
entre os penedos sós que não falavam
falava e descobria seu tormento.
Em longo esquecimento
de si, todo embebido,
andava tam perdido
que quando algum pastor lhe preguntava
a causa da tristeza que mostrava,
como quem para penas só vivia,
sorrindo lhe tornava:
Se não vivesse triste, morreria.
Mas como este tormento o sinalou
e tanto no seu rosto se mostrasse,
entendendo ja bem o pai sisudo,
porque do pensamento lh’ o tirasse
longe da causa dele o apartou;
porque enfim longa ausencia acaba tudo.
Ó falso Marte rudo,
das vidas cobiçoso!
Que donde o generoso
peito resucitava em tanta gloria
de seus antecessores a memoria,
ali fero e cruel lhe destruiste,
por injusta vitoria,
primeiro que o cuidado a vida triste.
Parece-me, Tionio, que te vejo,
por tingires a lança cobiçoso
naquele infido sangue mauritano,
no hispanico ginete belicoso,
que ardendo tambem vinha no desejo
de atropelar por terra ao tingitano.
Ó confiado engano!
Ó encurtada vida!
Que a virtude, oprimida
da multidão forçosa do inimigo,
não póde defender-se do perigo,
porque assi o destino o permitiu
e assi levou consigo
o mais gentil pastor que o Tejo viu.
Qual o mancebo Eurialo, enredado
entre o poder dos Rutulos fartando
as iras da soberba e dura guerra,
do cristalino rosto a cor mudando,
cujo purpureo sangue derramado
por as alvas espaldas tinge a serra;
que como flor que a terra
lhe nega o mantimento
porque o tempo avarento
tambem o largo humor lhe tem negado,
o colo inclina languido e cansado,
tal te pintou, ó Tionio, dando o esprito
a quem t’ o tinha dado;
qu’ este é sómente eterno e infinito.
Da congelada boca a alma pura
com o nome juntamente da inimiga
e excelente Marfida derramava.
E tu, gentil senhora, não te obriga
a pranto sempiterno a morte dura
de quem por ti sómente a vida amava?
Por ti aos ecos dava
acentos numerosos,
por ti aos belicosos
exercidos se deu do fero Marte.
E tu, ingrata, o amor; a noutra parte
porás, como acontece ao fraco intento;
que enfim, enfim, desta arte
se muda o feminino pensamento.
Pastores deste vale ameno e frio,
que de Tionio o caso desastrado
quereis nas altas serras que se cante,
um tumulo de flores adornado
lhe edificai ao longo deste rio
que a vela enfree ao duro navegante;
e o lasso caminhante,
vendo tamanha magua,
arrase os olhos de agua,
lendo na pedra dura o verso escrito,
que diga assi: Memoria sou, que grito
para dar testemunha em toda parte
do mais gentil esprito
que tiraram do mundo Amor e Marte.
Umbrano
Qual o quieto sono aos cansados
debaixo de alguma arvore sombria,
ou qual aos sequiosos encalmados
o vento respirante e a fonte fria,
tais me foram teus versos delicados,
teu numeroso canto e melodia;
e ainda agora o tom suave e brando
os ouvidos me fica adormentando.
Em quanto os peixes humidos tiverem
as areosas covas deste rio,
e correndo estas aguas conhecerem
do largo mar o antigo senhorio,
e em quanto estas ervinhas pasto derem
ás petulantes cabras, eu te fio
que em virtude dos versos que cantaste
sempre viva o pastor que tanto amaste.
Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta
e dos montes as sombras se acrecentam,
de flores mil o claro ceo se esmalta
que tam ledas aos olhos se presentam,
levemos por o pe desta serra alta
os gados, que ja agora se contentam
do que comido tem, Frondelio amigo,
anda, que até o outeiro irei contigo.
Frondelio
Antes por este vale, amigo Umbrano,
se te aprouver, levemos as ovelhas,
porque, se eu por acerto não me engano,
de lá me soa um eco nas orelhas:
o doce acento não parece humano;
e, se em contrario tu não me aconselhas,
eu quero descobrir que cousa seja,
que o tom m’ espanta e a voz me faz inveja.
Umbrano
Contigo vou, que quanto mais me chego
mais gentil me parece a voz que ouviste,
peregrina, excelente, e não te nego
que me faz cá no peito a alma triste.
Ves como tem os ventos em sossego?
Nenhum rumor da serra lhe resiste;
nenhum passaro voa, mas parece
que do canto vencido lhe obedece.
Porem, irmão, milhor me parecia
que não fossemos lá, que estorvaremos;
mas subidos nesta arvore sombria
todo o vale de aqui descobriremos.
Os çurrões e cajados todavia
neste comprido tronco penduremos:
para subir fica homem mais ligeiro.
Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro.
Frondelio
Espera, assi dar-te-hei pe se queres,
subirás sem trabalho e sem ruido,
e depois que subido lá estiveres
dar-me-has a mão de cima, que é partido.
Mas primeiro me dize, se o puderes
ver, donde nace o canto nunca ouvido:
quem lança o doce acento delicado?
Fala, que ja te vejo estar pasmado.
Umbrano
Cousas não costumadas na espessura
que nunca vi, Frondelio, vejo agora:
formosas ninfas vejo na verdura,
cujo divino gesto o ceo namora;
uma de desusada formosura,
que das outras parece ser senhora
sobre um triste sepulcro não cessando
está perlas dos olhos destilando.
De todas estas altas semideas
que em torno estam do corpo sepultado,
umas regando as humidas areas
de flores tem o tumulo adornado,
outras queimando lagrimas sabeas
enchem o ar de cheiro sublimado,
outras em ricos panos mais avante
envolvem brandamente um novo infante.
Uma que d’ entre as outras se apartou,
com gritos que a montanha entristeceram,
diz que, depois que a morte a flor cortou
que as estrelas sómente mereceram,
este penhor carissimo ficou
de aquelo a cujo imperio obedeceram
Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,
até o remoto mar da Taprobana.
Diz mais que se encontrar este menino
a noite intempestiva amanhecendo,
o Tejo, agora claro e cristalino,
tornará a fera Alecto em vulto horrendo;
mas que, a ser conservado do destino,
as benignas estrelas prometendo
lhe estam o largo pasto de Ampelusa,
com o monte que em mao ponto viu Medusa.
Este prodigio grande a ninfa bela
com abundantes lagrimas recita;
porem qual a eclipsada clara estrela
que entre as outras o ceo primeiro habita,
tal coberta de negro vejo aquela
a quem só na alma toca a gram desdita.
Dá cá, Frondelio, a mão e sobe a ver
tudo o mais que eu de dor não sei dizer.
Ó triste morte, esquiva e mal olhada,
que a tantas formosuras injurias!
Áquela deusa bela e delicada
sequer algum respeito ter devias:
esta é por certo Aonia, filha amada
d’ aquele gram pastor que em nossos dias
Danubio enfrea, manda o claro Ibero,
e espanta o morador do Euxino fero.
Morreu-nos o excelente e poderoso,
que a isto está sujeita a vida humana,
doce Aonio, de Aonia caro esposo.
Ah lei dos fados aspera e tirana!
Mas o som peregrino e piedoso
com que a formosa ninfa a dor engana
escuta um pouco: nota e ve, Umbrano,
quam bem que soa o verso castelhano!
Aonia
Alma y primero amor del alma mía,
espíritu dichoso en cuya vida
la mía estuvo en cuanto Dios quería!
Sombra gentil de su prisión salida,
que del mundo a la patria te volviste
donde fuiste engendrada y procedida!
Recibe allá este sacrificio triste
que te ofrecen los ojos que te vieron,
si la memoria de ellos no perdiste.
Que pues los altos cielos permitieron
que no te acompañase en tal jornada
y para ornarse solo a ti quisieron,
nunca permitirán que acompañada
de mi no sea esta memoria tuya
que está de tus despojos adornada.
Ni dejará, por más que el tiempo huya,
de estar en mí con sempiterno llanto
hasta que vida y alma se destruya.
Mas tú, gentil espíritu, entretanto
que otros campos y flores vas pisando
y otras zampoñas oyes y otro canto,
agora embebecido estés mirando
allá en el empireo aquella idea
que el mundo enfrena y rige con su mando;
agora te posea Citerea
en el tercero asiento, o porque amaste
o porque nueva amante allá te sea;
agora el sol te admire, si miraste
como va por los signos encendido,
las tierras alumbrando que dejaste:
si en ver estos milagros no has perdido
la memoria de mí o fué en tu mano
no pasar por las aguas del olvido,
vuelve un poco los ojos a este llano:
verás una que a ti en triste lloro
sobre este marmol sordo llama en vano.
Pero si entraren en los siglos de oro
lágrimas y gemidos amorosos
que muevan el supremo y santo coro,
la lumbre de tus ojos tan hermosos
yo la veré muy presto, y podré verte,
que a pesar de los hados enojosos
tambien para los tristes hubo muerte!

133. Oitavas sobre o desconcerto do mundo