ANTONIO FERREIRA
1528-1569
135. Á morte de sua mulher
Aquele claro sol que me mostrava
o caminho do ceo mais chão, mais certo,
e com seu novo raio ao longe e ao perto
toda a sombra mortal me afugentava,
deixou a prisão triste em que cá estava:
eu fiquei cego e só, com passo incerto,
perdido peregrino no deserto
a que faltou a guia que o levava.
Assi com o espirito triste, o juizo escuro,
suas santas pisadas vou buscando
por vales, por campos e por montes.
Em toda a parte a vejo e figuro:
ela me toma a mão e vai guiando,
e meus olhos a seguem, feitos fontes.
136. Coro
Quando amor naceu
naceu no mundo vida,
claros raios ao sol, luz ás estrelas;
o ceo resplandeceu,
e de sua luz vencida,
a escuridão mostrou as cousas belas.
Aquela que subida
está na terceira esfera,
do bravo mar nacida,
amor ao mundo dá, doce amor gera.
Por amor se orna a terra
de aguas e de verdura,
ás arvores dá folhas, cor ás flores,
em doce paz a guerra,
a dureza em brandura,
e mil odios converte em mil amores.
Quantas vidas a dura
morte desfaz renova,
a formosa pintura
do mundo amor a tem inteira e nova.
Ninguem tema seus fogos
e chamas furiosas:
amor é tudo, amor suave e brando,
sujeito a brandos rogos,
as aguas amorosas
dos olhos com brandura está alimpando.
Douradas e formosas
setas na aljaba soam,
á vista perigosas,
mas amor levam, dos amores voam.
Amor em doces cantos,
em doces liras soa,
torne seu brando nome este ar sereno:
fujam maguas e prantos,
o ledo prazer voe,
e claro o rio faça, o vale ameno;
no terceiro ceo toe
de amor a doce lira,
e de lá te coroe,
Castro, d’ ouro o gram Deus que amor inspira!
137. Ode a Antonio de Sá de Meneses
Eis nos torna a nacer o ano formoso,
zefiro brando e doce primavera,
eis o campo cheiroso,
eis cinge o verde louro ja a nova hera.
Ja do ar caido gera
o cristalino orvalho ervas e flores;
as Graças e os Amores,
coroados de alegria,
em doce companhia
de ninfas e pastores ao som brando
doces versos de amor vão revesando.
Apos a branda deusa do terceiro
ceo, que triunfando vai de Apolo e Marte,
e entre eles o frecheiro
o seu doce fogo onde quer reparte;
fogem de toda parte
nuvens, a neve ao sol té entam dura
se converte em brandura,
e da alta e fria serra
caindo rega a terra
agua ja clara, a cujo som adormece
toda fera serpente, e o mirto crece.
Renace o mundo e torna á forma nova
do seu dia primeiro, o sol mais puro
sua luz nos renova
e afugentando vai o inverno escuro.
O monte calvo e duro,
o vale d’ antes triste, o turvo rio,
ar tempestuoso e frio,
os tornam graciosos
aqueles amorosos
olhos de Venus, faces de Cupido,
criando em toda parte um Chipre, um Gnido.
Ja deixa o fogo o lavrador, ja o gado,
da longa prisão solto, corre e salta,
roendo o verde prado,
nem agua clara nem verdura falta.
Eis tira da arvore alta
ou Progne com seu ninho ou Philomena
Titiro, e inda sem pena
cria a tenra ave ledo,
por esperar que cedo
do seu formoso dom Cloris vencida
não sofrerá ser dele em vão seguida.
Agora nos tambem nos coroemos,
ó claro Antonio, de hera, mirto e louro,
e mil odes cantemos
a branda Venus, mil a Apoio louro,
que com seu raio de ouro
a escura nuvem do teu peito aclara.
Ah quanto suspirara!
Ah como desfazendo
em tenro pranto e erguendo
os olhos a ti, Phebo, Nise triste
chamar ó sol, ó sol com magua ouviste!
Olho claro do ceo, vida do mundo,
luz que a lua e estrelas alumias,
o movedor segundo
de quantas cousas cá na terra crias,
crespo Apolo que os dias
trazes formosos e as douradas horas,
lá desse alto onde moras
com tua luz clara e santa
que o mao Saturno espanta,
torna a Antonio e conserva a luz primeira,
do puro sangue a cor e a força inteira.
Os mais brandos licores, suaves çumos
das mais saudaveis plantas busca, e colhe
os mais cheirosos fumos
que Arabia em si, em si Saba recolhe,
faze que onde quer que olhe
o teu bom Sá, prazer e riso e canto
veja! Ah Phebo, a quem tanto
teu claro lume adora,
e ao Douro que inda chora
do seu passado medo a viva magua,
não negues a um sã vida, a outro clara agua!
A vida foge como ao sol a sombra,
quem poder viva em quanto uma hora tarda,
hora que espanta e assombra,
nem escusa recebe ou ponto aguarda.
Quem sua vida guarda
para outro dia? Quem no leve vento
faz firme fundamento?
Anda o ceo, volve o ano,
mostrando o desengano
desta vida inconstante e enfim mortal,
de bens escassa, prodiga em mal.
Ó meu bom Sá, em quanto nos defende
a vida breve largas esperanças,
tu ledo o spirito estende
por honestos prazeres, sans lembranças,
livre das vans mudanças
em que andam os mais em sorte ao vento postos
com os inconstantes rostos:
lá sempre um, sempre inteiro,
seguindo o verdadeiro
caminho, que o alto ceo te chama e guia,
contente vive o ano, o mes e o dia.