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The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 182: 136. Coro
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

ANTONIO FERREIRA

1528-1569

135. Á morte de sua mulher

Aquele claro sol que me mostrava
o caminho do ceo mais chão, mais certo,
e com seu novo raio ao longe e ao perto
toda a sombra mortal me afugentava,
deixou a prisão triste em que cá estava:
eu fiquei cego e só, com passo incerto,
perdido peregrino no deserto
a que faltou a guia que o levava.
Assi com o espirito triste, o juizo escuro,
suas santas pisadas vou buscando
por vales, por campos e por montes.
Em toda a parte a vejo e figuro:
ela me toma a mão e vai guiando,
e meus olhos a seguem, feitos fontes.

136. Coro

Quando amor naceu
naceu no mundo vida,
claros raios ao sol, luz ás estrelas;
o ceo resplandeceu,
e de sua luz vencida,
a escuridão mostrou as cousas belas.
Aquela que subida
está na terceira esfera,
do bravo mar nacida,
amor ao mundo dá, doce amor gera.
Por amor se orna a terra
de aguas e de verdura,
ás arvores dá folhas, cor ás flores,
em doce paz a guerra,
a dureza em brandura,
e mil odios converte em mil amores.
Quantas vidas a dura
morte desfaz renova,
a formosa pintura
do mundo amor a tem inteira e nova.
Ninguem tema seus fogos
e chamas furiosas:
amor é tudo, amor suave e brando,
sujeito a brandos rogos,
as aguas amorosas
dos olhos com brandura está alimpando.
Douradas e formosas
setas na aljaba soam,
á vista perigosas,
mas amor levam, dos amores voam.
Amor em doces cantos,
em doces liras soa,
torne seu brando nome este ar sereno:
fujam maguas e prantos,
o ledo prazer voe,
e claro o rio faça, o vale ameno;
no terceiro ceo toe
de amor a doce lira,
e de lá te coroe,
Castro, d’ ouro o gram Deus que amor inspira!

137. Ode a Antonio de Sá de Meneses

Eis nos torna a nacer o ano formoso,
zefiro brando e doce primavera,
eis o campo cheiroso,
eis cinge o verde louro ja a nova hera.
Ja do ar caido gera
o cristalino orvalho ervas e flores;
as Graças e os Amores,
coroados de alegria,
em doce companhia
de ninfas e pastores ao som brando
doces versos de amor vão revesando.
Apos a branda deusa do terceiro
ceo, que triunfando vai de Apolo e Marte,
e entre eles o frecheiro
o seu doce fogo onde quer reparte;
fogem de toda parte
nuvens, a neve ao sol té entam dura
se converte em brandura,
e da alta e fria serra
caindo rega a terra
agua ja clara, a cujo som adormece
toda fera serpente, e o mirto crece.
Renace o mundo e torna á forma nova
do seu dia primeiro, o sol mais puro
sua luz nos renova
e afugentando vai o inverno escuro.
O monte calvo e duro,
o vale d’ antes triste, o turvo rio,
ar tempestuoso e frio,
os tornam graciosos
aqueles amorosos
olhos de Venus, faces de Cupido,
criando em toda parte um Chipre, um Gnido.
Ja deixa o fogo o lavrador, ja o gado,
da longa prisão solto, corre e salta,
roendo o verde prado,
nem agua clara nem verdura falta.
Eis tira da arvore alta
ou Progne com seu ninho ou Philomena
Titiro, e inda sem pena
cria a tenra ave ledo,
por esperar que cedo
do seu formoso dom Cloris vencida
não sofrerá ser dele em vão seguida.
Agora nos tambem nos coroemos,
ó claro Antonio, de hera, mirto e louro,
e mil odes cantemos
a branda Venus, mil a Apoio louro,
que com seu raio de ouro
a escura nuvem do teu peito aclara.
Ah quanto suspirara!
Ah como desfazendo
em tenro pranto e erguendo
os olhos a ti, Phebo, Nise triste
chamar ó sol, ó sol com magua ouviste!
Olho claro do ceo, vida do mundo,
luz que a lua e estrelas alumias,
o movedor segundo
de quantas cousas cá na terra crias,
crespo Apolo que os dias
trazes formosos e as douradas horas,
lá desse alto onde moras
com tua luz clara e santa
que o mao Saturno espanta,
torna a Antonio e conserva a luz primeira,
do puro sangue a cor e a força inteira.
Os mais brandos licores, suaves çumos
das mais saudaveis plantas busca, e colhe
os mais cheirosos fumos
que Arabia em si, em si Saba recolhe,
faze que onde quer que olhe
o teu bom Sá, prazer e riso e canto
veja! Ah Phebo, a quem tanto
teu claro lume adora,
e ao Douro que inda chora
do seu passado medo a viva magua,
não negues a um sã vida, a outro clara agua!
A vida foge como ao sol a sombra,
quem poder viva em quanto uma hora tarda,
hora que espanta e assombra,
nem escusa recebe ou ponto aguarda.
Quem sua vida guarda
para outro dia? Quem no leve vento
faz firme fundamento?
Anda o ceo, volve o ano,
mostrando o desengano
desta vida inconstante e enfim mortal,
de bens escassa, prodiga em mal.
Ó meu bom Sá, em quanto nos defende
a vida breve largas esperanças,
tu ledo o spirito estende
por honestos prazeres, sans lembranças,
livre das vans mudanças
em que andam os mais em sorte ao vento postos
com os inconstantes rostos:
lá sempre um, sempre inteiro,
seguindo o verdadeiro
caminho, que o alto ceo te chama e guia,
contente vive o ano, o mes e o dia.