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The Oxford book of Portuguese verse cover

The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 197: ANONIMO
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

ANONIMO

16th c.

147. Soneto em que cotejando o estado livre e namorado julga o segundo por milhor.

Ponho-me a contemplar na fantasia
quando me vi em mais ditoso estado,
se agora que me vejo namorado,
se quando deste amor livre vivia:
entam destes cuidados só fugia,
tendo por riso a vida com cuidados,
agora pesaroso do passado
tenho por gloria aquilo que temia.
Bem vejo que era vida deleitosa
aquela que passava sem temores
quando os gostos de amor tinha por vento,
mas vendo agora Silvia tam formosa
julgo as cousas presentes por milhores
e as antigas por sombra de tormento.

148. Ao Rio Tejo

Formoso Tejo meu, quam diferente
te vejo e vi, me ves agora e viste:
turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu ja, tu a mim contente;
a ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste,
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu vivir contente ou descontente.
Ja que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Ó quem me dera
que fossemos em tudo semelhantes!
La virá entam a fresca primavera:
tu tornarás a ser quem eras d’ antes,
eu não sei se serei quem d’ antes era.