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The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 203: 151. Endechas
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

FRANCISCO RODRIGUEZ LOBO

c. 1580-1622

149. Vilancete

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura,
vai formosa e não segura.
A talha leva pedrada,
pucarinho de feição,
saia de cor de limão,
beatilha soqueixada.
Cantando de madrugada
pisa as flores na verdura,
vai formosa e não segura.
Leva na mão a rodilha
feita da sua toalha,
com uma sustenta a talha,
ergue com outra a fraldilha:
mostra os pes por maravilha
que a neve deixam escura,
vai formosa e não segura.
As flores por onde passa,
se o pe lhe acerta de pôr,
ficam de inveja sem cor
e de vergonha com graça:
qualquer pegada que faça
faz florecer a verdura,
vai formosa e não segura.
Não-na ver o sol lhe val
por não ter novo inimigo,
mas ela corre perigo
se na fonte se ve tal.
Descuidada deste mal
se vai ver na fonte pura,
vai formosa e não segura.

150. Ja nace o belo dia

Ja nace o belo dia,
principio do verão formoso e brando,
que com nova alegria
estam denunciando
as aves namoradas,
dos floridos raminhos penduradas,
Ja abre a bela Aurora
com nova luz as portas do Oriente
e mostra a linda Flora
o prado mais contente,
vestido de boninas
aljofradas de gotas cristalinas.
Ja o sol mais formoso
está ferindo as aguas prateadas,
e Zefiro queixoso
ora as mostra encrespadas
á vista dos penedos,
ora sobre elas move os arvoredos.
De reluzente area
se mostra mais formosa a rica praia,
cuja riba se arrea
do alamo e da faia,
do freixo e do salgueiro,
do ulmo, da aveleira e do loureiro.
Ja com rumor profundo
não soa o Lis nos montes seus vizinhos,
antes no claro fundo
mostra os alvos seixinhos
e os peixes que nas veas
deixam tremendo a sombra nas areas.
Ja sem nuvens medonhas
se mostra o ceo vestido de outras cores,
ja se ouvem as sanfonhas
e frautas dos pastores
que vão guiando o gado
pela fragosa serra e pelo prado.
Ja nas largas campinas
e nas verdes decidas dos outeiros
ao som das sanfoninas
cantam os ovelheiros,
em quanto os gados pacem
as mimosas ervinhas que renacem.
Sobre a tenra verdura
agora os cabritinhos vão saltando,
e sobre a fonte pura
passa a noite cantando
o rouxinol suave
com saudoso acento agudo e grave.
Diana mais formosa
sem ventos sobre as aguas aparece,
e faz que a noite airosa
tam clara resplandece
á vista das estrelas
que se envergonha o sol de inveja delas.
Tudo nesta mudança
tambem de novo cobra novo estado,
qual em sua esperança
e qual em seu cuidado
acha contentamento,
qual milhora na vida o pensamento.

151. Endechas

Sofrei, coração,
vosso sentimento,
vingai-vos dos olhos
que a culpa tiveram;
quanto milhor fora
enganar ao tempo
que buscar ventura
em gostos alheos!
Para que são bens
que acabam tam presto?
Para que é buscâ-los
quem sabe perdê-los?
Cuidados de longe
matam de mui perto,
que acorda a lembrança
contino o desejo;
amor tam constante
tam mal satisfeito,
fe tam mal pagada
ja agora quebremos:
seca a esperança
cansa o sofrimento,
fiz força atégora
mas ja não me atrevo.
Qualquer sombra van
engana o desejo,
e tudo são sombras,
porque amor é cego.
Ah quem nunca vira
por não ver tam cedo
quantos desenganos
vem sobre um receo.
Ai triste que canso
e não me arrependo
nem deixo meu mal
com quanto o pragueijo!
Gostos, alegrias,
glorias, passatempos,
se vos não possuo
tambem vos engeito:
mais quero meu mal
pelo bem que quero
que a vossos enganos
porque vos conheço;
quero de meus bens
o mal que me veio,
deixai-me sentî-lo
pois tambem vos deixo.