FRANCISCO RODRIGUEZ LOBO
c. 1580-1622
149. Vilancete
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura,
vai formosa e não segura.
A talha leva pedrada,
pucarinho de feição,
saia de cor de limão,
beatilha soqueixada.
Cantando de madrugada
pisa as flores na verdura,
vai formosa e não segura.
Leva na mão a rodilha
feita da sua toalha,
com uma sustenta a talha,
ergue com outra a fraldilha:
mostra os pes por maravilha
que a neve deixam escura,
vai formosa e não segura.
As flores por onde passa,
se o pe lhe acerta de pôr,
ficam de inveja sem cor
e de vergonha com graça:
qualquer pegada que faça
faz florecer a verdura,
vai formosa e não segura.
Não-na ver o sol lhe val
por não ter novo inimigo,
mas ela corre perigo
se na fonte se ve tal.
Descuidada deste mal
se vai ver na fonte pura,
vai formosa e não segura.
150. Ja nace o belo dia
Ja nace o belo dia,
principio do verão formoso e brando,
que com nova alegria
estam denunciando
as aves namoradas,
dos floridos raminhos penduradas,
Ja abre a bela Aurora
com nova luz as portas do Oriente
e mostra a linda Flora
o prado mais contente,
vestido de boninas
aljofradas de gotas cristalinas.
Ja o sol mais formoso
está ferindo as aguas prateadas,
e Zefiro queixoso
ora as mostra encrespadas
á vista dos penedos,
ora sobre elas move os arvoredos.
De reluzente area
se mostra mais formosa a rica praia,
cuja riba se arrea
do alamo e da faia,
do freixo e do salgueiro,
do ulmo, da aveleira e do loureiro.
Ja com rumor profundo
não soa o Lis nos montes seus vizinhos,
antes no claro fundo
mostra os alvos seixinhos
e os peixes que nas veas
deixam tremendo a sombra nas areas.
Ja sem nuvens medonhas
se mostra o ceo vestido de outras cores,
ja se ouvem as sanfonhas
e frautas dos pastores
que vão guiando o gado
pela fragosa serra e pelo prado.
Ja nas largas campinas
e nas verdes decidas dos outeiros
ao som das sanfoninas
cantam os ovelheiros,
em quanto os gados pacem
as mimosas ervinhas que renacem.
Sobre a tenra verdura
agora os cabritinhos vão saltando,
e sobre a fonte pura
passa a noite cantando
o rouxinol suave
com saudoso acento agudo e grave.
Diana mais formosa
sem ventos sobre as aguas aparece,
e faz que a noite airosa
tam clara resplandece
á vista das estrelas
que se envergonha o sol de inveja delas.
Tudo nesta mudança
tambem de novo cobra novo estado,
qual em sua esperança
e qual em seu cuidado
acha contentamento,
qual milhora na vida o pensamento.
151. Endechas
Sofrei, coração,
vosso sentimento,
vingai-vos dos olhos
que a culpa tiveram;
quanto milhor fora
enganar ao tempo
que buscar ventura
em gostos alheos!
Para que são bens
que acabam tam presto?
Para que é buscâ-los
quem sabe perdê-los?
Cuidados de longe
matam de mui perto,
que acorda a lembrança
contino o desejo;
amor tam constante
tam mal satisfeito,
fe tam mal pagada
ja agora quebremos:
seca a esperança
cansa o sofrimento,
fiz força atégora
mas ja não me atrevo.
Qualquer sombra van
engana o desejo,
e tudo são sombras,
porque amor é cego.
Ah quem nunca vira
por não ver tam cedo
quantos desenganos
vem sobre um receo.
Ai triste que canso
e não me arrependo
nem deixo meu mal
com quanto o pragueijo!
Gostos, alegrias,
glorias, passatempos,
se vos não possuo
tambem vos engeito:
mais quero meu mal
pelo bem que quero
que a vossos enganos
porque vos conheço;
quero de meus bens
o mal que me veio,
deixai-me sentî-lo
pois tambem vos deixo.