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The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 207: 153. Soneto
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

1608-1666

153. Soneto

Quantas vezes conheço o meu cuidado
e contemplo na duvida que o espera,
tantas e muitas mais dele quisera
antes ser despedido que enganado.
Torno a cuidar depois que inda apartado
quem me assegura a mi que o estivera,
se para sempre amar sempre é uma era,
para sempre temer sempre um estado?
Ja propos de passar o mundo a esmo
pois no tempo, lugar, fe, gosto e morte
a fraude é certa e nunca conhecida.
Vos que sabeis de mi mais do que eu mesmo
ensinai-me a viver com minha sorte,
fareis de todo vossas sorte e vida.

154. Responde a um amigo que mandava preguntar a vida que fazia na sua prisão.

Casinha despresivel, mal forrada,
treva lá dentro mais que inferno escura,
porta só para entrar, logo fechada,
cama que é potro, mesa destroncada,
pulga que por picar faz matadura,
cão só para agourar, rato que fura,
candea nem com os dedos atiçada;
grilhão que vos asusta eternamente,
negro boçal e mais boçal ratinho,
que mais vos leva que vos traz da praça;
sem amor, sem amigo, sem parente;
quem mais se doi de vos diz: Coitadinho!
Tal vida levo: santo prol me faça!