PEDRO ANTONIO CORRÊA GARÇÃO
1724-1772
159. Cantata
Ja no roxo Oriente branqueando
as prenhes velas da troiana frota
entre as vagas azues do mar dourado
sobre as azas dos ventos se escondiam.
A miserrima Dido
pelos paços reais vaga ululando:
com os turvos olhos inda em vão procura
o fugitivo Eneas,
só ermas ruas, só desertas praças
a recente Cartago lhe apresenta;
com medonho fragor na praia nua
fremem de noite as solitarias ondas,
e nas douradas grimpas
das cupolas soberbas
piam nocturnas agoureiras aves.
Do marmoreo sepulcro
atonita imagina
que mil vezes ouviu as frias cinzas
do defunto Sicheo com debeis vozes
suspirando chamar: Elisa! Elisa!
D’ Orco aos tremendos numens
sacrificios prepara,
mas viu esmorecida
em torno dos thuricremos altares
negra escuma ferver nas ricas taças,
e o derramado vinho
em pelagos de sangue converter-se.
Frenetica delira,
palido o rosto lindo,
a madeixa sutil desentrançada;
ja com tremulo pe entra sem tino
no ditoso aposento
onde do infido amante
ouviu enternecida
maguados suspiros, brandas queixas.
Ali as crueis Parcas lhe mostraram
as iliacas roupas que pendentes
do talamo dourado descobriam
o lustroso pavez, a teucra espada.
Com a convulsa mão subito arranca
a lamina fulgente da bainha
e sobre o duro ferro penetrante
arroja o tenro cristalino peito;
e em borbotões de espuma murmurando
o quente sangue da ferida salta,
de roxas espadanas rociadas
tremem da sala as doricas colunas.
Tres vezes tenta erguer-se,
tres vezes desmaiada sobre o leito
o corpo revolvendo, ao ceo levanta
os macerados olhos.
Depois, atenta na lustrosa malha
do profugo dardanio,
estas ultimas vozes repetia,
e os lastimosos lugubres acentos
pelas aureas abobadas voando
longo tempo depois gemer se ouviram:
Doces despojos
tam bem logrados
dos olhos meus,
em quanto os fados,
em quanto Deus
o consentiam:
da triste Dido
a alma aceitai,
destes cuidados
me libertai!
Dido infelice
assaz viveu:
de alta Cartago
o muro ergueu.
Agora nua
ja de Caronte
a sombra sua
na barca fea
de Flegetonte
a negra vea
surcando vai!