NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA
1741-1811
160. Os toucados altos
Chaves na mão, melena desgrenhada,
batendo o pe na casa, a mãi ordena
que o furtado colchão, fofo e de pana,
a filha o ponha ali ou a criada.
Á filha, moça esbelta e aperaltada,
lhe diz com a doce voz que o ar serena:
Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena!
Olhe não fique a casa arruinada!
Tu respondes-me assim? Tu zombas de isto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado
ja a mãi não tem mãos? E dizendo isto
arremete-lhe á cara e ao penteado;
eis senão quando, caso nunca visto,
sai-lhe o colchão de dentro do toucado!
161. Deitando um cavalo á margem
Vai, misero cavalo lazarento,
pastar longas campinas livremente!
Não percas tempo em quanto t’ o consente
de magros cães faminto ajuntamento.
Esta sela, teu unico ornamento,
para sinal de minha dor vehemente,
de torto prego ficará pendente,
despojo inutil do inconstante vento.
Morre em paz! Que em havendo algum dinheiro
hei de mandar em honra de teu nome
abrir em negra pedra este letreiro:
Aqui piedoso entulho os ossos come
do mais fiel, mais rapido sendeiro,
que fora eterno a não morrer de fome.