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The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 227: 166. Contrição
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

MANUEL MARIA DE BARBOSA DU BOCAGE

1765-1805

162. Á lamentavel catastrofe de D. Inés de Castro

Da triste, bela Inés inda os clamores
andas, echo chorosa, repetindo;
inda aos piedosos ceos andas pedindo
justiça contra os impios matadores;
ouvem-se ainda na Fonte dos Amores
de quando em quando as naiades carpindo;
e o Mondego, no caso reflectindo,
rompe irado as barreiras, alaga as flores;
inda altos hinos o universo entoa
a Pedro, que da morta formosura
convosco, amores, ao sepulcro voa.
Milagre de beleza e de ternura!
Abre, dece, olha, geme, abraça e coroa
a malfadada Inés na sepultura.

163. Despedidas ao Tejo

Não mais, Ó Tejo meu formoso e brando,
á margem fertil de gentis verdores,
terás d’ alta Ulissea um dos cantores
suspiros no aureo metro modulando:
rindo não mais verá, não mais brincando
por entre as ninfas e por entre as flores
o coro divinal de nus amores,
dos zefiros azuis o afavel bando.
Com a frente ja sem mirto e ja sem louro
o arrebata de rojo a mão da sorte
ao clima salutar e á margem de ouro:
ei-lo em fraguas de horror, sem luz, sem norte;
soa de aqui, de ali piado agouro:
sois vos, desterro eterno, ermos da morte!

164. Contraste entre a vida campestre e a das cidades

Nos campos o vilão sem sustos passa,
inquieto na corte o nobre mora:
o que é ser infeliz aquele ignora,
este encontra nas pompas a desgraça;
aquele canta e ri, não se embaraça
com essas cousas vans que o mundo adora,
este, ó cega ambição, mil vezes chora
porque não acha bem que o satisfaça;
aquele dorme em paz no chão deitado,
este no eburneo leito precioso
nutre, exaspera velador cuidado,
triste, sai do palacio majestuoso:
se has de ser cortesão e desgraçado
antes ser camponez e venturoso!

165. Á decadencia do imperio portugués na Asia

Por terra jaz o emporio do Oriente
que do rigido Afonso o ferro, o raio
ao gram filho ganhou do gram sabaio,
envergonhando o deus armipotente;
Caiu Goa, terror antigamente
do naire vão, do perfido malaio,
de barbaras nações! Ah que desmaio
apaga o marcio ardor da lusa gente?
Ó seculos de herois! Dias de gloria!
Varões excelsos que a pesar da morte
viveis na tradição, viveis na historia!
Albuquerque terrivel, Castro forte,
Meneses, e outros mil, vossa memoria
vinga as injurias que nos faz a sorte.

166. Contrição

Meu ser evaporei na lide insana
do tropel das paixões que me arrastava:
Ah cego, eu cria; ah misero, eu sonhava
em mim quasi imortal a essencia humana!
De que inumeros sois a mente ufana
existencia falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe natureza escrava
ao mal que a vida em sua orgia dana:
prazeres, socios meus e meus tiranos,
esta alma que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus! Ó Deus! Quando a morte á luz me roube,
ganhe um momento o que perderam anos:
saiba morrer o que viver não soube!