JOÃO BAPTISTA, VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT
1799-1854
167. Não es tu
Era assim: tinha esse olhar,
a mesma graça, o mesmo ar;
corava da mesma cor
aquela visão que eu vi
quando eu sonhava de amor,
quando em sonhos me perdi.
Toda assim: o porte altivo,
o semblante pensativo,
e uma suave tristeza
que por toda ela decia
como um veo que lhe envolvia,
que lhe adoçava a beleza.
Era assim: o seu falar,
ingenuo e quasi vulgar,
tinha o poder da razão
que penetra, não seduz;
não era fogo, era luz
que mandava ao coração.
Nos olhos tinha esse lume,
o seo o mesmo perfume,
um cheiro a rosas celestes,
rosas brancas, puras, finas,
viçosas como boninas,
singelas sem ser agrestes.
Mas não es tu, ai não es:
toda a ilusão se desfez.
Não es aquela visão que eu vi,
não es a mesma visão,
que essa tinha coração;
tinha, que eu bem lh’ o senti!
168. Os cinco sentidos
São belas, bem o sei, essas estrelas,
mil cores divinais tem essas flores:
mas eu não tenho, amor, olhos para elas;
em toda a natureza
não vejo outra beleza
senão a ti, a ti!
Divina, ai sim! será a voz que afina
saudosa na ramagem densa, umbrosa;
será: mas eu do rouxinol que trina
não ouço a melodia
nem sinto outra harmonia
senão a ti, a ti!
Respira na aura que entre as flores gira
celeste incenso de perfume agreste;
sei, não sinto: minha alma não aspira
não percebe, não toma
senão o doce aroma
que vem de ti, de ti!
Formosos são os pomos saborosos,
é um mimo de nectar o racimo;
c cu tenho fome e sede, sequiosos,
famintos meus desejos
estam, mas é de beijos
e só de ti, de ti!
Macia deve a relva luzidia
do leito ser por certo em que me deito:
mas quem ao pe de ti, quem poderia
sentir outras caricias,
tocar noutras delicias
senão em ti, em ti!
A ti, ai a ti só os meus sentidos,
todos num confundidos,
sentem, ouvem, respiram,
em ti, por ti deliram,
em ti a minha sorte,
a minha vida em ti,
e quando venha a morte
será morrer por ti!
169. O Destino
Quem disse á estrela o caminho
que ela ha de seguir no ceo?
A fabricar o seu ninho
como é que a ave aprendeu?
Quem diz á planta: Florece,
e ao mudo verme que tece
sua mortalha de seda
os fios quem lh’ os enreda?
Ensinou alguem á abelha
que no prado anda a zumbir
se á flor branca ou se á vermelha
o seu mel ha de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
teus olhos a minha vida,
teu amor todo o meu bem,
ai, não m’ o disse ninguem.
Como a abelha corre ao prado,
como no ceo gira a estrela,
como a todo o ente o seu fado
por instinto se revela,
eu no teu seo divino
vim cumprir meu destino;
vim, que em ti só sei viver,
só por ti posso morrer.
170. Ignoto Deo
Creio em ti, Deus, a fe viva
de minha alma a ti se eleva;
es—o que es não sei: deriva
meu ser do teu, luz e treva
em que indistintas se envolve
este espirito agitado,
de ti vem, a ti devolve.
O nada, a que foi roubado
pelo sopro criador,
tudo o mais o ha de tragar:
só vive de eterno ardor
o que está sempre a aspirar
ao infinito de onde veio.
Beleza es tu, luz es tu,
verdade es tu só. Não creio
senão em ti. O olho nu
do homem não ve na terra
mais que a duvida, a incerteza,
a forma que engana e erra:
essencia, a real beleza,
o puro amor, o prazer
que não fatiga e não gasta
só por ti os pode ver
o que inspirado se afasta,
ignoto Deus, das ronceiras
vulgares turbas, despidos
das cousas vans e grosseiras,
sua alma, razão, sentidos,
a ti se dão, em ti vida
e por ti vida tem. Eu consagrado
a teu altar me prostro e a combatida
existencia aqui ponho, aqui votado
fica este livro, confessão sincera
da alma que em ti voou e em ti só espera.
171. Cascaes
Acabava ali a terra
nos derradeiros rochedos,
a deserta, arida serra
por entre os negros penedos
só deixa viver mesquinha
triste pinheiro maninho.
E os ventos despregados
sopravam rijos na rama,
e os ceos turvios, anuviados,
o mar que incessante brama:
tudo ali era braveza
da selvagem natureza.
Aí na quebra do monte,
entre uns juncos mal medrados
seco o rio, seca a fonte,
ervas e matos queimados,
aí nessa bruta serra,
aí foi um ceo na terra.
Ali sós no mundo, sós,
santo Deus! como vivemos!
Como eramos tudo nos
e de nada mais soubemos!
Como nos folgava a vida,
de tudo o mais esquecida!
Que longos beijos sem fim!
Que falar dos olhos mudo!
Como ela vivia em mim!
Como eu tinha nela tudo,
minha alma em sua razão,
meu sangue em seu coração!
Os anjos aqueles dias
contaram na eternidade
que essas horas fugidias,
seculos na intensidade,
por milenios marca Deus
quando os dá aos que são seus.
Ai sim! foi a tragos largos,
longos, fundos que a bebi,
do prazer a taça: amargos,
depois, depois os senti,
os travos que ela deixou,
mas como eu ninguem gosou.
Ninguem, que é preciso amar
como eu amei, ser amado
como eu fui, dar e tomar
do outro ser a quem se ha dado
toda a razão, toda a vida
que em nos se anula perdida.
Ai, ai, que pesados anos
tardios depois vieram!
Ó que fatais desenganos
ramo a ramo a desfizeram,
a minha choça na serra,
lá onde se acaba a terra.
Se o visse—não quero vê-lo,
aquele sitio encantado:
certo estou não conhecê-lo,
tam outro estará mudado,
mudado como eu, como ela
que a vejo sem conhecê-la.
Inda ali acaba a terra,
mas ja o ceo não começa,
que aquela visão da serra
sumiu-se na treva espessa,
e deixou nua a tristeza
d’ essa agreste natureza.