WeRead Powered by ReaderPub
The Oxford book of Portuguese verse cover

The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 235: 172. A Fonte dos Amores
Open in WeRead

About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

1800-1875

172. A Fonte dos Amores

Fonte mais pura que o lustroso vidro,
mais que o vivo cristal que as rochas veste,
ó de inocentes miseros amores
outr’ ora testemunha,
Com que verso que iguale o que mereces
cantarei dignamente as aguas tuas
e a relva que te borda a fresca terra
e as flores que a matizam?
Em que verso milhor folgas que entoe
digno louvor ás arvores anosas
que te cercam beneficas, lançando
amiga sombra aos vates?
Se outras cordas minha lira ornasse
de Maia o filho, o aligero Mercurio,
se novos sons na minha voz creassem
as ondas de Aganippe,
entam celebraria os nobres seixos
onde o sangue de Inés o tempo adora,
onde o sangue de Inés inda hoje arranca
o pranto a amor e ás ninfas.
Os zefiros e as auras neste sitio,
sem que os ais da infeliz jamais esqueçam,
tristes movendo a tremula folhagem
saudade doce avivam.
As aguas tuas e as visinhas letras,
sobre as quais cada dia amor suspira,
o sangue inda recente, os velhos troncos,
tudo te faz formosa.
Corre, ó fonte das lagrimas, ah sempre
aos ternos corações de amantes tristes
corras grata e suave e tenhas d’ eles
os cultos que te sagro!