WeRead Powered by ReaderPub
The Oxford book of Portuguese verse cover

The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 252: 183. Acordando
Open in WeRead

About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

ANTHERO DE QUENTAL

1842-1891

180. Nocturno

Espirito que passas quando o vento
adormece no mar e surge a lua,
filho esquivo da noite que flutua,
tu só entendes bem o meu tormento.
Como um canto longinquo, triste e lento,
que voga e sutilmente se insinua,
sobre o meu coração que tumultua
tu vestes pouco a pouco o esquecimento.
A ti confio o sonho que me leva
um instinto de luz, rompendo a treva,
buscando entre visões o eterno bem.
E tu entendes o meu mal sem nome,
a febre de ideal que me consome,
tu só, genio da noite, e mais ninguem.

181. Sollemnia verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
caminhos vãos andamos! Considera
agora, de esta altura fria e austera,
os ermos que regaram nossos prantos:
pó e cinzas onde houve flor e encantos,
e noite onde foi luz de primavera!
Olha a teus pes o mundo e desespera,
semeador de sombras e quebrantos!
Porem o coração, feito valente
na escola da tortura repetida,
e no uso do penar tomado crente,
respondeu: Desta altura vejo o amor!
Viver não foi em vão se é isto a vida,
nem foi de mais o desengano e a dor.

182. O Palacio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante,
por desertos, por sois, por noite escura,
paladino do amor, busco anhelante
o palacio encantado da Ventura.
Mas ja desmaio, exhausto e vacilante,
quebrada a espada ja, rota a armadura;
e eis que subito o avisto, fulgurante
na sua pompa e aerea formosura!
Com grandes golpes bato á porta e brado:
Eu sou o vagamundo, o desherdado,
abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas de ouro com fragor,
mas dentro encontro só, cheo de dor,
silencio e escuridão, e nada mais!

183. Acordando

Em sonho ás vezes, se o sonho quebranta
este meu vão sofrer, esta agonia,
como sobe cantando a cotovia,
para o ceo a minha alma sobe e canta.
Canta a luz, a alvorada, a estrela santa
que ao mundo traz piedosa mais um dia;
canta o enlevo das cousas, a alegria
que as penetra de amor e as alevanta.
Mas de repente um vento humido e frio
sopra sobre o meu sonho: um calafrio
me acorda. A noite é negra e muda, a dor
lá vela como d’ antes ao meu lado:
os meus cantos de luz, anjo adorado,
são sonho só e sonho o meu amor!

184. Transcendentalismo

Ja sossega depois de tanta luta,
ja me descansa em paz o coração;
caí na conta enfim de quanto é vão
o bem que ao mundo e á sorte se disputa
Penetrando com fronte não enxuta
no sacrario do templo da ilusão,
só encontrei com dor e confusão
trevas e pó, uma materia bruta.
Não é no vasto mundo, por imenso
que ele pareça á nossa mocidade,
que a alma sacia o seu desejo intenso
na esfera do invisivel, do intangivel:
sobre desertos, vacuo, soledade,
voa a paira o espirito impassivel.

185. Na mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita
descansou afinal meu coração:
do palacio encantado da ilusão
deci passo a passo a escada estreita.
Como as flores mortais com que se enfeita
a ignorancia infantil, despojo vão,
depus do ideal e da paixão
a forma transitoria e imperfeita;
como criança em lobrega jornada
que a mãi leva ao colo agasalhada,
e atravessa, sorrindo vagamente,
selvas, mares, areas do deserto,
dorme o teu sono, coração liberto,
dorme na mão de Deus eternamente!

186. Redenção

Vozes do mar, das arvores, do vento,
quando ás vezes, num sonho doloroso
me embala o vosso canto poderoso,
eu julgo igual ao meu vosso tormento;
verbo crepuscular e intimo alento
das cousas mudas, psalmo misterioso,
não serás tu queixume vaporoso
o suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espirito habita a imensidade,
uma ancia cruel de liberdade
agita e abala as formas fugitivas;
e eu comprendo a vossa lingua estranha,
vozes do mar, da selva, da montanha,
almas irmans da minha, almas captivas.

187. Entre sombras

Vem ás vezes sentar-se ao pe de mim
(A noite dece, desfolhando as rosas)
vem ter comigo, ás horas duvidosas,
uma visão, com asas de setim.
Pousa de leve a delicada mão
(Recende aroma a noite sossegada)
pousa a mão compassiva e perfumada
sobre o meu dolorido coração.
E diz-me essa visão compadecida
(Ha suspiros no espaço vaporoso)
diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tam erma e triste a tua vida?
Vem comigo, embalado nos meus braços
(Na noite funda ha um silencio santo)
num sonho feito só de luz e encanto
transporás a dormir esses espaços.
Porque eu habito a região distante
(A noite exhala uma doçura infinda)
onde ainda se cre e se ama ainda,
onde uma aurora igual brilha constante.
Habito alí, e tu virás comigo
(Palpita a noite num clarão que ofusca)
porque eu venho de longe em tua busca,
trazer-te paz e alivio, pobre amigo.
Assim me fala essa visão nocturna
(No vago espaço ha vozes dolorosas)
São as suas palavras carinhosas
agua correndo em cristalina urna.
Mas eu escuto-a imovel, sonolento,
(A noite verte um desconsolo imenso)
sinto nos membros como um chumbo denso,
e mudo e tenebroso o pensamento.
Fito-a, num pasmo doloroso absorto,
(A noite é erma como campo enorme)
fito-a com olhos turvos de quem dorme
e respondo: Bem sabes que estou morto!