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The Oxford book of Portuguese verse cover

The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 259: 189. Na aldea
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

ANTONIO CANDIDO GONÇALVES CRESPO

1846-1883

188. Alguem

Para alguem sou o lirio entre os abrolhos
e tenho as formas ideais do Cristo,
para alguem sou a vida e a luz dos olhos,
e se na terra existe é porque existo.
Esse alguem que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz
não es tu, anjo meu idolatrado,
nem, meus amigos, é nenhum de vos.
Quando alta noite me reclino e deito
melancolico, triste e fatigado,
esse alguem abre as asas no meu leito
e o meu sono deslisa perfumado.
Chovam bençãos de Deus sobre a que chora
por mim alem dos mares! Esse alguem
é de meus dias a esplendente aurora,
es tu, doce velhinha, ó minha mãi!

189. Na aldea

Duas horas da tarde. Um sol ardente
nos colmos dardejante e nos eirados;
sobreleva aos gritos abafados
o grito das bigornas estridente.
A taberna é vacia: mansamente
treme o loureiro nos umbrais pintados,
zumbem á porta insectos variegados,
envolvidos do sol na luz tremente.
Fia á soleira uma velhinha: o filho,
no ceo mal acordou da aurora o brilho,
saiu para os cançaços da lavoura;
a nora lava na ribeira, os netos
ao longe correm semi-nus, inquietos,
no mar ondeante da seara loura.

190. Mater dolorosa

Quando se fez ao longe a nave escura,
na praia essa molher ficou chorando,
no doloroso aspecto figurando
a lacrimosa estatua da amargura.
Dos ceos a curva era tranquila e pura:
dos gementes alciones o bando
via-se ao longe em circulo voando
dos mares sobre a cerula planura.
Nas ondas se abafara o sol radioso
e a lua sucedera, astro mavioso,
de alvor banhando os alcantis das fragas.
E aquela pobre mãi, não dando conta
que o sol morrera e que o luar desponta,
a vista embebe na amplidão das vagas.