ANTONIO CANDIDO GONÇALVES CRESPO
1846-1883
188. Alguem
Para alguem sou o lirio entre os abrolhos
e tenho as formas ideais do Cristo,
para alguem sou a vida e a luz dos olhos,
e se na terra existe é porque existo.
Esse alguem que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz
não es tu, anjo meu idolatrado,
nem, meus amigos, é nenhum de vos.
Quando alta noite me reclino e deito
melancolico, triste e fatigado,
esse alguem abre as asas no meu leito
e o meu sono deslisa perfumado.
Chovam bençãos de Deus sobre a que chora
por mim alem dos mares! Esse alguem
é de meus dias a esplendente aurora,
es tu, doce velhinha, ó minha mãi!
189. Na aldea
Duas horas da tarde. Um sol ardente
nos colmos dardejante e nos eirados;
sobreleva aos gritos abafados
o grito das bigornas estridente.
A taberna é vacia: mansamente
treme o loureiro nos umbrais pintados,
zumbem á porta insectos variegados,
envolvidos do sol na luz tremente.
Fia á soleira uma velhinha: o filho,
no ceo mal acordou da aurora o brilho,
saiu para os cançaços da lavoura;
a nora lava na ribeira, os netos
ao longe correm semi-nus, inquietos,
no mar ondeante da seara loura.
190. Mater dolorosa
Quando se fez ao longe a nave escura,
na praia essa molher ficou chorando,
no doloroso aspecto figurando
a lacrimosa estatua da amargura.
Dos ceos a curva era tranquila e pura:
dos gementes alciones o bando
via-se ao longe em circulo voando
dos mares sobre a cerula planura.
Nas ondas se abafara o sol radioso
e a lua sucedera, astro mavioso,
de alvor banhando os alcantis das fragas.
E aquela pobre mãi, não dando conta
que o sol morrera e que o luar desponta,
a vista embebe na amplidão das vagas.