WeRead Powered by ReaderPub
The Oxford book of Portuguese verse cover

The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 262: 191. De noite
Open in WeRead

About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

ANTONIO DUARTE GOMES LEAL

1849-1921

191. De noite

Ele vinha da neve, dos trabalhos
violentos, custosos da enxada,
cantando a mea voz pelos atalhos.
A molher loura, infeliz, resignada,
cosia junto á luz. O rijo vento
batia contra a porta mal fechada.
Ao pe havia um Cristo, um ramo bento,
e uma estampa da Virgem, colorida,
chea de magua olhando o firmamento;
Uma banca de pinho, mal sustida,
vacilante nos pes, um candieiro,
companheiros de aquela negra vida.
O homem, alto, palido, trigueiro,
entrou; tinha as feições queimadas, duras,
dos que andam com a enxada o dia inteiro.
A molher abraçou-o. As linhas puras
do seu rosto contavam ja tristezas
de grandes e secretas amarguras.
Tinha chorado muito as estreitezas
de aquela vida assim, talvez sonhado
um dia com palacios e riquezas.
Ele deitou-se a um canto, fatigado
d’ erguer-se alta manhã, todos os dias,
mal voavam as pombas no telhado.
Lá fora nuvens grossas e sombrias
no pesado horisonte. Ele assim esteve.
As noites eram asperas e frias.
Ela cobriu-o de uma manta leve,
esburacada, velha. No telhado
ouvia-se cair sonora a neve.
E ela entam meditou no seu passado:
no seu primeiro beijo, nas lembranças,
talvez, do seu vestido de noivado;
e nas tardes das eiras e das danças
ás estrelas, e aquela vez primeira
que a rosa lhe furtou das longas tranças.
E aquela tarde junto da amoreira
que trocaram as mãos, e na janela
e quando olhavam juntos a ribeira.
E quando era timida e singela...
Lá fora dava o vento nos caixilhos,
não brilhava no ceo nem uma estrela.
E áquela hora da noite por que trilhos
andariam no mundo, ela scismava,
nas miserias, talvez sem rumo, os filhos.
Ele na manta velha resonava.