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The Oxford book of Portuguese verse

Chapter 266: 194. Canção perdida
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About This Book

This anthology gathers Portuguese verse from the twelfth through the twentieth century, presenting medieval Galician-Portuguese lyric—dance and pilgrimage songs—alongside troubadour-influenced courtly love poems, satirical pieces, and later lyric developments. An extended introduction situates the poems in early national formation, foreign contacts, and manuscript songbooks, and highlights forms such as cantigas de amigo, cantigas de amor, serranilhas, barcarolas, and other folk and court genres. Selections stress the music and dance origins of many texts and trace a continuity between popular village songs and cultivated court poetry, offering a historical and formal panorama of Portuguese poetic tradition.

ABILIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO

1850-1923

192. A caminho

Abril, ao raiar d’ alva, por uma encosta de sementeiras, pastos, olivedos e amendoais em flor, vai um louro peregrinante adolescente d’ olhos ingenuos e extasiados no alvor da estrela da manhã.

Um lavrador (de noventa anos, em mangas de camisa).

O senhor tam novo d’ olhos cor de esperança,
ides de caminho para algum lugar?
O peregrino
Vou dar volta ao mundo...
O lavrador
Sem arnez ou lança?
Ó senhor tam novo d’ olhos cor de esperança,
penas e miserias é o que ireis achar.
Uma velhinha (mais adiante)
Ó senhor tam novo d’ olhos inocentes,
Ides com cuidados para um tal andar?
O peregrino
Vou a prender monstros, combater serpentes...
A velhinha
Ó senhor tam novo d’ olhos inocentes,
Ós dragões ferozes vão-no espostejar!
Uma jovem camponesa
Ó senhor tam novo d’ olhos encantados,
ides pela fresca para algum pomar?
O peregrino
Vou-me a ler destinos, descobrir os fados.
A camponesa
Ó senhor tam novo d’ olhos encantados,
Feiticeiros negros vão-no enfeitiçar!
Uma pastorinha (mais adiante)
Ó senhor tam novo d’ olhos tam brilhantes,
vossos olhos dizem que ides para casar...
O peregrino
Vou fazer tesouros, fabricar diamantes...
A pastorinha
Ó senhor tam novo d’ olhos tam brilhantes,
ha ladrões nos bosques, vão-no assassinar!
Um mendigo
Ó senhor tam novo d’ olhos cor de chama,
vossos olhos ardem como a luz solar.
O peregrino
Vou descobrir mundos, quero gloria e fama.
O mendigo
Ó senhor tam novo d’ olhos cor de chama,
sobe o pó mais alto que os trovões do mar.
A estrela d’ alva
O criança d’ olhos cor de flor de linhos,
por infernos deixas teu paz, teu lar.
O peregrino (desaparecendo ao longe)
Florirei as pedras pelos maos caminhos!
Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
a sorrir nos beiços e a tremer no olhar!

193. O Cavador

Dezembro, noite: canta o galo,
rouco na treva canta o galo;
(Ó dor! Ó dor!)
Aldeão, não durmas, vai chamâ-lo;
miseria negra, vai chamâ-lo!
(Ó dor! Ó dor!)
Bate-lhe á porta, é teu vasalo,
que traga a enxada, é teu vasalo,
miseria negra, o cavador!
O vento ulula; tremem ninhos,
na noite aziaga tremem ninhos;
(Ó dor! Ó dor!)
A neve cai, fria de arminhos,
na escuridão fria de arminhos
(Ó dor! Ó dor!)
passa maldito nos caminhos,
d’ enxada ao hombro nos caminhos,
fantasma negro, o cavador.
Vem roxa a estrela de alvorada,
vem morta a estrela de alvorada;
(Ó dor! Ó dor!)
montanhas nuas sob a geada,
hirtas, de bronze sob a geada!
(Ó dor! Ó dor!)
Torvo, inclinado sobre a enxada,
rasga as montanhas com a enxada,
fantasma negro, o cavador.
Cavou, cavou desde que é dia,
cavou, cavou: bateu meo dia,
(Ó dor! Ó dor!)
de pe na encosta erma e bravia,
triste na encosta erma e bravia
(Ó dor! Ó dor!)
largando a enxada «Ave Maria»,
resa em silencio «Ave Maria»,
fantasma negro, o cavador.
Cavou, cavou na serra agreste,
de alva á noitinha, em serra agreste,
(Ó dor! Ó dor!)
e um caldo em premio tu lhe déste,
meu Deus, seis filhos tu lhe déste!
(Ó dor! Ó dor!)
Batem trindades: Pai celeste!
Bendito sejas, Pai celeste!
resa, fantasma, o cavador.
Cavou cem montes. Que é do trigo?
Gerou seis bocas. Que é do trigo?
(Ó dor! Ó dor!)
Bateu a fome ao seu postigo,
bateu a morte ao seu postigo:
(Ó dor! Ó dor!)
Que a paz de Deus seja comigo!
Que a paz de Deus seja comigo!
disse, expirando, o cavador.

194. Canção perdida

Halitos de lilaz, de violeta e de opala,
roxas macerações de dor e de agonia
o campo anoitecendo e adormecendo exhala.
Triste canta uma voz na sincope do dia:
Alguem de mim se não lembra
nas terras de alem mar;
ó morte, dava-te a vida
se tu lh’ a fosses levar!
ó morte, dava-te a vida
se tu lh’ a fosses levar!
Com o beijo do sol na face cadaverica,
beijo que a morte esvai em palidez algente,
eis a lua a boiar sonambula e chimerica.
Doce canta uma voz melancolicamente:
O meu amor escondi-o
numa cova ao pe do mar;
morre o amor, vive a saudade,
morre o sol, olha o luar!
Morre o amor, vive a saudade,
morre o sol, olha o luar!
Latecente a neblina opalica flutua
diluindo, evaporando os montes de granito
em colossos de sonho, extasiados de lua.
Flebil chora uma voz no letargo infinito:
Quem dá ais, ó rouxinol,
lá para as bandas do mar?
E o meu amor que na cova
leva as noites a chorar!
E o meu amor que na cova
leva as noites a chorar!
A lua enorme, a lua argentea, a lua calma
imponderalisou a natureza inteira,
descondensou-a em fluido e embebeu-a em alma.
Triste expira uma voz na canção derradeira:
Meu amor, dorme, dorme
na area fina do mar,
que eu antes da estrela de alva
contigo me irei deitar!
Que eu antes da estrela de alva
contigo me irei deitar!